Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Cultura da cana-de-açúcar: exploração e fome
Cultura da cana-de-açúcar: exploração e fome17
A área do Nordeste açucareiro tem sua paisagem, em termos naturais, de floresta tropical, radicalmente alterada pela ação humana para a produção da cana-de-açúcar. Seu cultivo definiu a vida econômica da região, não somente pela cultura da planta, mas também pela indústria e comércio do açúcar sedimentados na área por séculos.
Consiste essa área numa faixa estreita, com largura média de 80 km, estendida do Ceará a Bahia. Zona de terras férteis e profundas, abundante em chuvas e de fácil penetração e conquista por parte do homem, diferentemente da densidade típica da floresta amazônica. Seu solo rico (massapé) em húmus e sais minerais favorece a infindas possibilidades de produção de alimentos, muito embora o que se caracteriza na região é a fertilidade da terra contrastando com a carência de alimentos, em consequência da monocultura da cana-de-açúcar “escolhida” pelo colonizador para sua empreitada de ocupação.
Na vegetação original de Mata Atlântica, existia a presente abundância de árvores frutíferas, além de outras trazidas e facilmente adaptadas, como a fruta-pão, o coco e a manga. O colonizador português não usou, não quis explorar as possibilidades naturais para produção de alimentos. Inversamente, instigado pelo imediatismo cego, resolve investir na cultura da cana-de-açúcar, descobrindo que a mesma se prestava bem para o plantio. O colonizador português orientou a conduta de ocupação do território litorâneo pelo desejo do açúcar; como formigas, submeteu a natureza à sua degustação.
A monocultura intempestiva alterou completamente a paisagem nativa, seus animais, suas plantas, sua cultura. Foi a cana, por outro lado, a fonte da estabilidade econômica e social nascente, forjada num projeto agrário de fixação do português na “nova terra”. Como esteio do colonizador, a cana é o ponto de partida para o desbravamento e ocupação do que se tornaria Brasil. Seja na caça ao índio ou na busca de novas terras para o gado, a sociedade colonial tem, nos latifúndios de cana, a âncora, a base motora para seu processo expansionista.
Deve-se, sem nenhuma dúvida, ao desenvolvimento da cana-
de-açúcar, com seus nocivos exageros de planta individualista,
com sua hostilidade quase mórbida por outras espécies
vegetais, grande parte do trabalho de enraizamento e
consolidação da colonização portuguesa nos trópicos, a qual já
há cerca de um século vinha ensaiando outros processos
menos frutíferos, sem conseguir, no entanto, estabelecer nada
de mais firme do que simples feitorias comerciais nas costas da
África, da América e do Oriente. (CASTRO, 2001, p.98).
A experiência portuguesa na ilha Madeira e em Cabo Verde, que funcionaram como estações experimentais, além dos conhecimentos relativos ao comércio açucareiro, impulsionaram o português ao investimento agrícola em larga escala, a partir do cultivo extensivo da cana baseado na mão-de-obra escrava.
A aventura açucareira nas terras de além mar requeria um dedicar-se de corpo e alma, pois para compensar a empresa, a produção deveria ser em grande quantidade para evitar o fracasso. A cana se mostrou capaz de dar muito lucro, embora exigindo muito em compensação (terras, braços, dedicação).
Derrubar a mata e plantar cana estabeleceu a relação de escravidão do homem e da terra. Define-se, desse modo, uma cultura devoradora de homens e do solo, como moinho que esbagaça tudo em torno de si, oscilante em fases de rápida ascensão econômica, esplendor transitório e irremediável decadência. O resultado do cultivo extensivo da cana-de-açúcar é a destruição da Mata Atlântica, o empobrecimento e esgotamento do solo, além da escassez de alimentos na região, devido só haver espaço para a monocultura.
Em função da influência árabe na Península Ibérica, Portugal possuía grande experiência no setor agrícola, especialmente na produção de alimentos. Não obstante, a monocultura da cana foi, no Brasil, a forma econômica rural escolhida para ocupação do território.
Infelizmente, este tipo ibérico de alimentação tão equilibrado e
principalmente tão bem adaptado às condições de vida tropical,
constituindo, até certo ponto, um verdadeiro fator técnico de
alimentação, não se conseguiu manter no Brasil. (CASTRO,
2001, p.110).
Com a cultura da cana, o português se fixa na terra logrando êxito em termos de habitação e vestuário, com exceção do quesito alimentação. A estrutura da Casa-Grande com largas janelas, varanda e pátios, o que torna viável a ventilação e o arejamento dos espaços, foi elemento facilitador em meio ao clima adverso ao português. No trabalho, seja nu de cintura para cima, seja usando camisetas de algodão, os colonizadores desenvolveram efetivos auxílios aclimatizantes aos trópicos. Na alimentação, no entanto, os excessos açucarados dos senhores contrastam com a realidade dos escravos que definhavam de fome, ou seja, uma dieta desequilibrada e escassa.
A monocultura da cana individualiza o cultivo de outras plantas, resultado: falta de alimentos. O índio, de outro modo, fez da floresta seu reduto ao contrastar sua dieta da colonizadora pela diversidade de frutos extraídos das árvores ali dispostas. Do mesmo modo, o negro, orientado pela policultura, desobedeceu à extensividade canavieira e plantou, às escondidas, roças de mandioca, milho, batata-doce e feijão. O latifúndio é o contrário da policultura e da variedade de alimentos. Representa o espírito ocidental na sua forma modernizadora que busca o controle pela universalização de processos com fins de mercado em detrimento à diversificação. Em miúdos, a monocultura destrói a diferença, especialmente a negra e a indígena.
No Brasil, o latifúndio venceu, de maneira opressora, as possibilidades e iniciativas agrícolas de produção de alimentos. Os senhores não admitiam a produção de outra coisa a não ser cana para açúcar, pois suas terras não poderiam se rebaixar à colheita de algo “menos nobre” (feijão, milho, mandioca, amendoim) como faziam os negros e os índios.
Em decorrência do latifúndio da cana, no Nordeste, intensificou-se o consumo de um complemento alimentar fraco, a farinha de mandioca, fixada pelo cultivo fácil, o que condicionou a região à zona de precariedade alimentar por conta da dieta rotineira de feijão com farinha. As consequências diretas da monocultura se revelam na dieta pobre, precária, dos que vivem no contexto da cana.
As terras dos senhores de engenho deveriam ser ocupadas apenas por cana e as outras culturas eram sinônimo de negro e de índio, produção menos nobre. Desse modo, o complexo alimentar do Nordeste ficou restrito à cultura da mandioca – pobre nutritivamente e caracterizado, portanto, como região de subalimentação e de fome devido à dieta rotineira de feijão com farinha.
A zona da mata, ou mais precisamente como afirma Castro, (2001) zona da cana, sedenta de braços para sua empresa, induziu alta concentração demográfica carente de alimentação saudável ou de vegetais, frutas, verduras, carne e leite. Alimentação escassa e pouco saudável define a dieta desta região, a qual tem a cidade do Recife como referência da densidade populacional. Gente empilhada, espremida como um partido de cana, um canavial de gente, oscilante em número pela migração de sertanejos fugidios da seca e dos trabalhadores das usinas desempregados nos períodos de entressafra. Em relação a estes, o processo migratório se intensifica pela periodicidade com que se trabalha na indústria do açúcar, definida pela relativa prosperidade na safra acompanhada imediatamente de desemprego e miséria.
Noutro trabalho 18, Castro (2001) demonstra a precariedade alimentar por que passavam as pessoas no Nordeste açucareiro. No período da pesquisa, pessoas morriam de fome crônica devido às condições por elas vividas há séculos, caracterizadas, portanto, pela monotonia, pela falta de variedade de alimentos além de feijão, farinha, charque, café e açúcar.
Nos tempos coloniais, quando cabia ao senhor alimentar os escravos, havia um processo sistemático de desnutrição, pois barriga cheia não é sinônimo de pessoas bem alimentadas.
Gilberto Freyre afirmou que os mais bem alimentados na região
sempre foram os representantes dos dois extremos
econômicos: o senhor de engenho e o escravo; o senhor
alimentando bem o escravo para que ele produzisse mais.
(CASTRO, 2001, p.127).
A crítica a Gilberto Freyre ocorre porque, segundo Josué de Castro, os escravos não eram os “mais bem alimentados”, mas os que comiam mais, gente de barriga cheia e desnutrida ao mesmo tempo. Crianças e adultos inchados, aparentemente saudáveis, mas carentes de proteínas. “(...) A verdade é que a moleza do cabra de engenho, a sua fatigada lentidão, não é um mal de raça, é um mal de fome.” (CASTRO, 2001, p.129).
Os homens do litoral, pastores de peixe, comedores de marisco e camarão, seres do mangue, da lama, não sofrem o mal da desnutrição, ou pelo menos se nutrem pela fauna típica desse solo alagado melhor que os outros do canavial. O homem caranguejo, um ser da água e da terra ao mesmo tempo, híbrido por excelência, cria uma segunda pele, feita da lama do mangue e busca, como os caranguejos, a sobrevivência. “(...) São verdadeiras populações anfíbias, nem da terra nem da água, mas de uma zona de solo instável, formado pela permanente mistura dos dois elementos.” (CASTRO, 2001, p.133).
A exclusividade da cana era tamanha que os senhores alimentavam superstições alimentares para inibir o consumo de frutas pelos negros e moradores, verdadeiros tabus sobre a comida, um policiamento moral aos bens que resultavam em barreiras psicológicas contra a prática de comer frutas. De tal maneira que o hábito alimentar do povo do Nordeste se dá em torno do feijão com farinha. O “resto” é capricho, gulodice, mistura. Açúcar de manhã dá lombriga; de noite, estraga os dentes; melancia comida no mato dá febre; manga com leite é veneno; cana verde dá corrimento. Estes e outros mitos foram explorados por Josué de Castro em Fisiologia dos Tabus, na qual se evidencia o poder de tais interdições na dieta da população, o que evidencia a ganância do senhor de engenho em produzir somente cana.
O excesso de açúcar presente na mesa do senhor, nos doces e guloseimas da culinária açucareira, em decorrência da cultura da cana, culmina na incidência do diabete nas famílias por gerações. Uma doença do metabolismo sobre os ricos açucarados, mais fracos que os pobres, desprovidos de tudo, expostos, mais do que estes, a tantas doenças provocadas pela grande quantidade de açúcar em seus corpos.
(...) O açúcar em excesso de sua dieta desequilibrando as
trocas metabólicas, como a cana desequilibrou de maneira tão
nociva o metabolismo econômico da região. É como se a terra
se vingasse do homem, fazendo-o sofrer de uma doença
semelhante à sua – organismo todo saturado de açúcar.
(CASTRO, 2001, p.138).
Tanto os pobres como os ricos senhores de engenho e seus familiares sofriam de uma alimentação escassa e desequilibrada na ótica do autor de Geografia da Fome. A carência de ferro, por exemplo, a anemia alimentar, causa a geofagia, hábito de comer terra. Meninos de engenho que comiam barro devido ao mau hábito aprendido nas senzalas, vício africano. Nada mais era que uma forma instintiva de repor minerais, principalmente o ferro, em falta no organismo. Máscara de flandre para tampar a boca e ficar pendurado, por dias seguidos, num balaio até o abandono do vício são exemplos da punição sofrida pelos meninos que comiam terra.
Quando os molequinhos do Nordeste e os anêmicos
senhorzinhos brancos comiam às escondidas seus bolõezinhos
de barro estavam corrigindo instintivamente as deficiências A busca de plantas exóticas, de drogas, estimulou o comércio em todas as partes da Terra, especialmente as quentes, (pimenta, canela, cravo, índigo, açúcar, algodão) oriundas dos trópicos, que aqueciam o frio do europeu sedento por novas sensações. O Brasil, em destaque, surge como o lugar das drogas ou simplesmente um lugar de drogas e, desse modo, coube ao português o abastecimento da Europa desses frutos tropicais.