Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Cana-de-açúcar e a formação econômica do Brasil
32. Cachaça com sumo Pneumonia de assa-peixe (planta
urticácea)
33. Cachaça com Cólicas, palpitações umburana
Cana-de-açúcar e a formação econômica do
Brasil16
A ocupação da América representa o processo de expansão europeia, notadamente estimulada pela urgência de se definirem novas rotas comerciais ao Oriente além do Mediterrâneo, a fim de abastecer o comércio interno aquecido desde o século XI. O feito expansionista logrou aos portugueses, em especial, desenvolvimento econômico pelo comércio de especiarias da Índia chegadas à Europa pelas vias marítimas precisas na costa africana.
Destacadamente, Portugal e Espanha despontaram como as principais potências europeias no período das Grandes Descobertas iniciadas no século XV. Todavia, a pressão das outras nações do continente sobre as mesmas ocorre de maneira intensa, uma vez que só deveria haver direito de domínio sobre terras efetivamente ocupadas. Essa pressão induziu o processo colonialista nas Américas portuguesa e espanhola em um esforço para não ver “perdidos” para estrangeiros os domínios por eles “descobertos”.
No caso específico de Portugal, as terras não apresentavam nenhuma utilização econômica, tendo em vista a prioridade da época à busca de pedras preciosas.
A América se transforma em extensão econômica europeia pela utilização agrícola ao envio de produtos às Metrópoles e, de modo pioneiro, os portugueses criaram um empreendimento econômico viável mesmo sem a evidência de ouro.
Pela experiência adquirida nas ilhas do Atlântico na produção de açúcar, Portugal desenvolveu, não somente a técnica, mas também uma indústria de equipamentos aos engenhos de açúcar. O referencial tecnológico e os trâmites comerciais relativos ao açúcar já eram dominados pelos lusitanos antes de sua chegada ao Brasil.
O açúcar português foi direcionado inicialmente ao comércio das cidades italianas, já tradicionalmente controlado por Veneza. O que leva, pelo aumento da produção, à redução de preço, assim como a formação de novos espaços comerciais como o de Flandres. Os holandeses refinavam o açúcar que chegava a Lisboa e o distribuíam por toda a Europa.
Os flamengos eram especializados no comércio intraeuropeu. Foi essa empresa de fundamental importância para a implementação da experiência colonial portuguesa no Brasil, baseada no açúcar. Também oriundo dos Países Baixos, foram os capitais para o financiamento de engenhos e compra de escravos.
A capacidade técnica portuguesa aliada à experiência comercial e o poderoso financiamento holandês não tornariam a colônia agrícola viável economicamente sem mão-de-obra suficiente e barata para os canaviais. Tal pendência foi resolvida com o trabalho escravo que fechou o leque de condições favoráveis à ocupação e exploração do Brasil.
(...) Não há dúvida que por trás de tudo estavam o desejo e o
empenho do governo português de conservar a parte que lhe
cabia das terras da América, das quais sempre se esperava
que um dia sairia o outro em larga escala. Sem embargo, esse
desejo só poderia transformar-se em política atuante se
encontrasse algo concreto em que se apoiar. (FURTADO, 2005,
p.12).
O interesse da Coroa portuguesa era garantir seus domínios nas terras americanas e isso só ocorreu graças ao êxito da complexa empresa açucareira montada no século XVI. No século seguinte, países excluídos pelo Tratado de Tordesilhas avançam sobre a América. Neste momento, Portugal já havia se fixado exitosamente. Com o açúcar, as “novas” terras se tornam atraentes enquanto perspectiva econômica aos portugueses, enquanto os espanhóis concentravam esforços na exploração de metais preciosos.
Nesse caso, a grande quantidade de moeda na Espanha gerou inflação e déficit na balança comercial, pois a chegada crescente de ouro sem a correlação de produção de mercadorias induz crescimento de demanda. Para suprir a demanda, recorre-se à importação, a induzir transferência de moeda e desequilíbrio comercial e diminuição das atividades produtivas. A descoberta precoce de metais preciosos foi ao mesmo tempo a ruína do Império espanhol, como também favoreceu a Portugal condições para sedimentação da indústria e comércio açucareiro.
A Espanha teria mais condições de dominar o comércio do açúcar do que Portugal, já que dominava terras mais férteis, mão-de-obra mais barata, além de seus domínios, na América do Norte, estarem mais próximos da Europa. Portugal, inversamente, construiu vínculos econômicos mais complexos do que a simples remessa de outro à Metrópole.
Holandeses e portugueses estabeleceram forte relação comercial desde a época em que o primeiro era possessão espanhola. Porém, a independência flamenga, em 1579, e a contínua guerra contra a Espanha, até 1609, desmoronaram esse fértil relacionamento haja vista que, em 1580, Portugal é absorvido pela Espanha que passou também a ser território inimigo holandês.
Esse contexto bélico tinha como ingrediente o controle sobre o comércio do açúcar. Sem o seu principal fornecedor, agora sob domínio do principal inimigo, a Holanda invade o Brasil como forma de lhe garantir o principal espaço de fornecimento de açúcar. Quando do controle espanhol sobre Portugal, os holandeses eram vistos pelos lusitanos como inimigos daquele, logo, próximos seus.
O holandês não apenas ocupou de forma militar a região produtora de açúcar, mas também os elementos técnicos e organizacionais da indústria, o que lhes favoreceu a elaboração de uma produção mais eficiente e, portanto, mais competitiva posteriormente no Caribe. Ao conhecer a técnica não havia mais o porquê do monopólio apoiado em produtores portugueses, pois os batavos agora dominavam todo o processo, imprimindo aos donos de engenhos brasileiros forte concorrência com o açúcar das Antilhas.
A debilidade econômica espanhola está associada ao advento da ascensão de três potências, Inglaterra, França e Holanda, todas interessadas pelos lucrativos negócios gerados pelos produtos tropicais.
Nas Antilhas, houve concentração da população europeia com o interesse militar sobre os domínios espanhóis. Para tanto, constatou-se a formação de colônias baseadas na pequena propriedade onde seus residentes deveriam viver do próprio trabalho. Na ilha de Barbado, por exemplo, segundo Furtado (2005), havia, em 1634, 37.000 habitantes de origem europeia.
Diferentemente de Portugal e Espanha, a Inglaterra contava, no século XVII, com excedente populacional decorrente das transformações no campo das condições de trabalho.
(...) Essa população sobrante, que abandonava os campos na
medida em que o velho sistema de agricultura coletiva ia sendo
eliminado, e em que as terras agrícolas eram desviadas para a
criação de gado lanígero, vivia em condições suficientemente
precárias para submeter-se a um regime de servidão por tempo
limitado, com o fim de acumular um pequeno patrimônio.
(FURTADO, 2005, p.21).
De início, a empreitada colonial nos moldes de povoamento se mostrou fracassada nas colônias do Norte. Com a chegada dos holandeses nas Antilhas mediante sua expulsão do Brasil, houve um impulso na economia do Caribe, induzida pela alta produtividade da indústria açucareira conseguida pelos flamengos, graças ao suporte tecnológico aprendido nas terras tropicais tupiniquins e agora repassadas aos habitantes das ilhas. Em outros termos, os holandeses constroem uma nova base de produção de açúcar, mais competitiva, o que lhes permite fôlego competitivo, no mercado açucareiro, sem os portugueses.
(...) É tão favorável a situação que encontram nas Antilhas
francesas e inglesas que preferem colaborar com os colonos
dessas regiões a ocupar novas terras e instalar por conta
própria a indústria.” (FURTADO, 2005, p.25).
Em decorrência do isolamento entre as colônias inglesas nas Antilhas e a Metrópole, provocado pela guerra civil inglesa, dá-se início a um promissor negócio entre colonos e holandeses, uma vez que estes possuíam os domínios técnico e comercial, além de crédito fácil à empresa. Formam-se, assim, grandes engenhos produtores de açúcar e em menos de dez anos da expulsão do Brasil, os holandeses criaram poderoso esquema de produção açucareira com equipamentos novos e geograficamente mais próximos da Europa.
A cultura do açúcar valorizou as terras, aumentou o número de negros nas Antilhas e contribuiu sobremaneira à prosperidade econômica das colônias inglesas do norte com o comércio de madeira, animais, bebidas alcoólicas e a indústria naval.
(...) Por último cabe mencionar a instalação de uma importante
indústria derivada da cana: a destilação de bebidas alcoólicas.
Neste caso a integração se realizou com as Antilhas francesas.
Estas, estando interditas de usar a matéria-prima de que
dispunham – para evitar a concorrência às indústrias de
bebidas da Metrópole – vendiam a preços extremamente
baixos. (FURTADO, 2005, p.28).
A indústria de bebidas alcoólicas no Brasil, no caso específico a cachaça, despontou como alternativa econômica aos senhores de engenho com a crise do açúcar devido à concorrência do açúcar caribenho. Só que em terras brasileiras, mesmo com a tentativa de barrar a fabricação e o consumo, pois concorria com o vinho do Porto, a cachaça, como será oportunamente demonstrado, continua sendo produzida e consumida em larga escala.
Com a formação de uma economia semelhante à da Europa, produzindo primeiro ao mercado interno e depois à exportação – divergente, portanto, aos princípios coloniais da época – as colônias inglesas do norte se solidificam como ascendentes econômicos no novo mundo, cada vez mais independentes da Metrópole Europeia.
O contexto geopolítico ocidental, a partir da segunda metade do século XVII, define-se pela emergência de novas configurações econômicas nas colônias inglesas do norte e a decadência das antigas potências responsáveis pelas grandes descobertas. Portugal, para sobreviver como Metrópole, requeria a aproximação com a Inglaterra como forma de assegurar garantias políticas e proteção militar. O preço de tal relação custou caro para os lusitanos, pois significava concessões comerciais de toda ordem, perda de entrepostos orientais, liberdade de comércio com as colônias, enfim, alienação da soberania aos ingleses. A concretização da Inglaterra como principal centro econômico europeu ocorre no mesmo momento em que se inicia o ciclo do ouro no Brasil, alta capacidade de importação portuguesa e de concentração de reservas. Em miúdos, a Metrópole portuguesa baseada na exploração de sua principal colônia, o Brasil, tornou-se a alavanca de Arquimedes da economia inglesa.
O Brasil se mostrou bastante rentável mesmo com a crise do açúcar no século XVII. Uma economia escravista baseada na monocultura da cana-de-açúcar, cada vez mais carente de mão-de-obra escrava. Sobre este aspecto, os africanos só vieram a incrementar a produtividade dos engenhos como máquinas mais eficientes que os índios, substituindo assim outras, num negócio já em pleno funcionamento.
O aumento da capacidade produtiva ocorria pela ocupação de novas terras e incremento das importações, especialmente escravos e máquinas. Assim, os senhores de engenho do Nordeste brasileiro, como afirma Furtado, (2005), resistem há três séculos, mesmo com as crises do mercado externo, sem alterar em nada a estrutura da produção.
Mesmo com a concorrência das Antilhas, que reduziu o preço do açúcar à metade e abalados posteriormente com o ciclo do ouro que encareceu a mão-de-obra, os senhores souberam extrair dos escravos e das terras largas a sobrevivência de uma vida doce.
(...) A economia açucareira do Nordeste brasileiro, com efeito,
resistiu mais de três séculos às mais prolongadas depressões,
logrando recuperar-se sempre que o permitiam as condições do
mercado externo, sem sofrer nenhuma modificação estrutural
significativa. (FURTADO, 2005).
Com a empresa açucareira na sua alta rentabilidade, os portugueses garantiram ao mesmo tempo condições de expansão a novas terras e defesa da costa litorânea. Essa rentabilidade especializou a economia no sentido de não se produzir outra coisa a não ser cana, o que prejudicou a produção de alimentos.
A riqueza gerada pelo açúcar induziu o crescimento econômico de outras regiões, pois sua especialização promoveu o desenvolvimento de outros produtos como a carne. Foi a cultura da cana-de-açúcar o elemento definidor da pecuária no interior do Brasil e a base para a formação de uma economia interdependente na região, uma vez criado o comércio de carne no litoral e a exportação de couros.
Se no litoral a paisagem se caracterizava pelo verde dos canaviais, no Sertão surge uma sociedade do couro. Este passa a ser o elemento decisivo na cultura da região, usado para quase tudo.
A economia nordestina baseada no açúcar e no gado inicia a partir do século XVII, segundo Furtado (2005) um processo de decadência principalmente pela conservação de sua forma original de reprodução. De negócio mais rentável à decadência no litoral, somada à produção que garante só o necessário para subsistir, açúcar e gado, simultaneamente, definem o perfil da precária economia do Nordeste ao preservarem a forma tradicional de produção dos tempos coloniais. A terra fértil que deveria matar a fome de tantos não passa de mais espaço para a exploração.
O canavial, na sua exclusividade, unifica o espaço e atropela tudo. Não deixa existir outra planta além da cana que o compõe. Sua ocupação ao largo submete a paisagem a um só horizonte verde, fixado assim em predomínio que se lança. Parece coisa sem enigmas, clara, evidente na mesmice entediante para quem nele anda, embora traga, ao mesmo tempo, no imediatismo do olhar primeiro, outras dimensões, complexidades recônditas, variações em detalhes e nuances mais diversos nas folhas que não deixam de aparecer.
A força do canavial avança com desdém sobre o mais impiedoso e faminto nas terras a desmatar. Seus tentáculos invasores esticados têm forma e contornos sutis. Nele, lutas são travadas, ondas de conflito definem a orquestra. Nele, homem e terra se misturam, empilham-se, fazem-se touceiras; como cana são cortados, moídos, lançados à brasa. Nele, como cana, extrai-se o açúcar de cada um. Quem entra no canavial, cana se torna e como tal se faz e desfaz.
A Zona da Mata possui terras férteis, macias ao corte, próprias à lavoura quanto mais do litoral se aproxima, pois são frias, sem pedregulho como as sertanejas, com rios cheios, além das cacimbas que brotam como presentes de água com pouco cavar.
Para quem de costume trabalha no acre seco, na piçarra Caatinga, nesse lugar a lida parece mais fácil ao retirante. De longe, ele só avista cana. O verde de suas folhas tantas e infindas escurecem num variar negrejante.
A usina erguida e o engenho arruinado sinalizam tempos sobrepostos, coisas acontecidas no mesmo canavial, mas com vértices diferentes, como se agora a usina tivesse engolido o banguê. O deserto de cana esconde tanto quem nele trabalha, como de que modo essa lida é feita.
No enterro do trabalhador de eito, o poeta destila em palavras o real de uma vida no mundo da cana. Vida dura, cara, trabalhosa, sacrificada. A cova é que saiu mais em conta, pois é o lugar de cair morto numa terra de conflito onde morreu índio, negro escravo, morador e trabalhador de eito.
Com mais espaço para estadia tranquila, acomoda-se melhor em relação ao que tinha em vida, pois a nova morada o faz se sentir parco, acolhido, além de realizado o desejo da roça prometida, embora no ato da morte. Na cova terá, inclusive, as próprias saúvas.
Terra sua. Ao mesmo tempo dono, empregado e máquina. O trabalho é só seu, a terra e as ferramentas, também. Serás semente, adubo, colheita. Essa terra é a fonte da autoconstrução, da autorrealizarão, não havendo mais morte porque semente volta de novo a tornar-se depois do fruto apodrecido.
A terra é o melhor vestido, o melhor chapéu, a melhor e mais perfeita roupa, enfim, a fonte de sustento e de proteção. O chão que agora o acolhe lhe bebeu o suor, consumiu a juventude, a virilidade. Sobre ele, também, viveram parentes, amigos, mulher e filhos, assim como os pais, numa terra que já o esperava desde antes nascido.
Sua força foi embora, virou pedaço de pau lançado no chão a germinar depois, como rebolo de cana que tanta cultivou.
Na rede que serve de caixão parece milho. Ela palha, ele grãos e sabugo, mas este: inerme, seco, despido, vencido diante da morada definitiva: chão aberto como cama e coberta, mulher com que se dorme e descansa.
Os dois poemas de João Cabral de Melo Neto mostram, com genialidade, o contexto peculiar de relações sociais da Zona da Mata canavieira de Pernambuco, palco de tantos conflitos e germe de relações sociais construídas no âmbito canavieiro. A análise dos mesmos é o ponto de partida para a tentativa de compreensão da complexidade de tal universo peculiar.