Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

José Luciano Albino Barbosa · Capítulo 15 de 23

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Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

Disciplina, trabalho e exclusão social: a imagem do bêbado na sociedade do trabalho

Na residência de João Pessoa, era conhecido por todos do bairro, principalmente pelas crianças, pois cortava rapadura em pedacinhos, com mãos calmas e leves de artesão que tinha, e os distribuía. A mesma rapadura era seu tira-gosto com cachaça gelada.

Faleceu aos 86 anos, bem magrinho e doente. Proibido de fumar, já sem memória, conservou o movimento de levar à boca os dedos, mas sem o cigarro. Lembrava de coisas antigas, das netas quando crianças, do seu time do coração, o Treze de Campina Grande, das caçadas com seus amigos como Rosil Cavalcante.

Esse veio carnavalesco influenciou os filhos. Um deles, Antônio Gualberto Filho, professor Gualberto, como é conhecido, passou a comemorar o aniversário de seu filho na quarta-feira de fogo e criou, com amigos, o bloco carnavalesco Muriçocas do Miramar que não precisa de apresentações.

A partir de Diniz (2004), é possível entender que esses homens, por não se enquadrarem num padrão disciplinar e de trabalho definido pela ideologia das elites, da sociedade do trabalho, sofreram um processo de exclusão social e a bebida, a cachaça, passou a ser para ambos, o refúgio, a âncora aos dissabores, melancolias e recolhimento, tanto quanto de alegria, proteção e divertimento, mas principalmente resistência e revolta a todo um contexto de enquadramento social de homem dócil e trabalhador.

 

Disciplina, trabalho e exclusão social: a imagem

do bêbado na sociedade do trabalho

No entendimento de Diniz (2004), a modernidade possui um projeto de inclusão social baseado em dispositivos disciplinares a submeter indivíduos à lógica de mercado. Seres úteis e dóceis adestrados pela escola do trabalho, especialmente a fábrica que, com sua jornada diária e tantas outras obrigações, afazeres e punições, vergaram braços e mentes ao mundo produtivo.

Nesse texto, o autor analisa o processo de industrialização na Paraíba, no período de 1850 a 1930, com a preocupação de não tecer uma leitura estritamente econômica das relações sociais próprias daquele processo, tão explorada por outros pensadores, mas sim procura demonstrar como, além das transformações desdobradas pelas inovações tecnológicas e produtivas que transfiguraram o Estado, especialmente sua capital no período abordado, os trabalhadores foram afetados no seu dia a dia por essa onda disciplinar modernizante.

A industrialização requer mão-de-obra para sua rotina, nada semelhante à tradição e aos costumes daqueles habituados à vida rural regrada por relações personalizadas. Assim, o modelo de fábrica manchesteriano predominou não somente como técnica mais sofisticada para a produção em massa, mas, sobretudo, como a forma eficiente de submissão das pessoas à sociedade de consumo que define o trabalho como ética por excelência. Quem não estivesse empregado, inserido nos limites da labuta fabril ou embebido dos valores burgueses, ou, mais ainda, pelos comportamentos eleitos pelas elites como os adequados – quer dizer, os de homens dóceis e produtivos – deveriam ser considerados danosos à ordem coletiva.

Qualquer ensaio de revolta à ordem burguesa seria tratado como caso de polícia. Não à toa, greves contrárias à exploração do trabalho nas fábricas eram severamente combatidas e seus líderes punidos por transgredirem o funcionamento social. Esses comportamentos desviantes, para as elites, eram o reflexo de uma sociedade imatura, para não dizer, menos evoluída, resistente ao progresso inconteste vindouro com a ordem capitalista fabril.

O texto de Diniz habilmente explora as táticas e tecnologias discursivas para o enquadramento do homem pobre e livre no mundo do trabalho. Assim como, por outro lado, registra que essa investida das elites não ocorreu de modo tranquilo e imediato, mas sempre tomado por resistências no interior das fábricas ou no dia a dia do trabalhador.

A disciplina imposta na fábrica se estende às relações sociais de modo a impor um modo de vida semelhante ao aparelho racionalizado e produtivo de seus ambientes e cronometragens. Mesmo as pessoas que não vivem nas fábricas, por tabela, sofrem suas influências, seja em função da mudança no consumo pelas mercadorias, seja pelo disciplinamento forjado nos novos hábitos de conduta que segregam, inclusive juridicamente, o trabalhador pai de família do outro, vagabundo e preguiçoso.

O triunfo desse sistema de fábrica, ao provocar a separação do produtor de seus meios de produção, define o mercado como o espaço social mais importante e assim obriga o trabalhador a alienar sua força de trabalho como outra mercadoria qualquer, para assim prover suas necessidades. Todo esse processo tão bem analisado por Marx (2001) define a sociedade burguesa nas suas atitudes e valores de consumo.

Para Diniz, passa a vigorar em cada trabalhador um relógio moral no corpo de cada homem (DINIZ, 2004, p. 24) ao controle e autodisciplina de si contra a ociosidade, como também uma ordem vigilante instaurada pelas autoridades à preservação da sociedade do trabalho. Este, o trabalho, seria a própria base da vida humana e o trabalhador, segundo os grupos dominantes, deveriam vendê-lo por prazer em nome do novo imaginário social.

O enquadramento disciplinar das pessoas nos espaços públicos e privados se dá por dispositivos de vigilância sobre mentes, corpos e desejos que monitoram a vida cotidiana numa microfísica do poder tecida nos lugares e episódios mais estreitos. Desse modo, a fábrica e as demais instituições como escola, hospitais, penitenciárias entre outras minam expressões de liberdade e submetem as pessoas às formas de controle.

Na visão burguesa, a fábrica era vista como espaço produtivo racional e despolitizado. De tal maneira que nele as pessoas trabalhariam a otimizar o tempo como uma máquina movida por engrenagens dinâmicas. A fábrica se mostrou bem mais eficiente, em termos disciplinares, do que os castigos atribuídos aos negros escravos quando não produziam a contento, uma vez que incutia em cada um, com sua ideologia, o constrangimento de não querer ser enquadrado como preguiçoso. Nesses termos, não pode ser reduzida à sua forma materializada (forças produtivas) de acumulação de capital, mas também para a docilização eficaz da classe trabalhadora.

O engenho de açúcar colonial se enquadra, para Diniz, nos parâmetros da fábrica, tanto como espaço produtivo de exploração do trabalho, quanto na forma disciplinar de conduzi-lo. Porém, a grande transformação entre o engenho e a moderna usina não se refere apenas à aparelhagem mecânica e às moendas e centrífugas do açúcar cristalino que em avalanche apaga o fogo das fornalhas banguês, mas sim, ao controle do processo produtivo e dos saberes que vão, com as máquinas, deixando de lado os mestres e o controle do trabalhador sobre seu trabalho. As usinas dispensam a cordialidade e cada um se resume a energia potencial.

O controle dos saberes, por parte dos trabalhadores, impunha outra relação de poder, assim, o investimento nos recursos técnicos teve como interesse o maior controle disciplinar pelo combate ao trabalho artesanal e sua substituição por processos cada vez mais autônomos e rápidos. Investir em forças produtivas significa, também, expropriação de conhecimento e sua conversão em instrumentos disciplinares no dia a dia.

Os novos padrões de disciplina e controle social que se

instauravam no processo de trabalho a partir da sua

reorganização, com o emprego de novas tecnologias,

ultrapassavam os limites dos muros das fábricas e se difundiam

por todo o conjunto do social através da ideologia do trabalho, Os leprosários, no século XV, são usados como refúgio e depois hospital para aqueles com doença venérea. Assim, lepra, doença venérea, embriaguez, loucura e vagabundagem integram-se num espaço moral de exclusão sobre o qual a medicina e o internamento se debruçarão.