Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

José Luciano Albino Barbosa · Capítulo 6 de 23

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Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

Cachaça, cotidiano e imaginário popular

Essa relação pendular, híbrida, caracteriza a cachaça pela indefinição, no sentido de não haver, no Brasil, delimitações eficazes à produção e ao consumo, como algo que de tão diluído nas entranhas do país não possui um canto determinante, incorporando, inversamente, variedades, misturas, possibilidades, formas mais diversas enfim de se manifestar no nome, na fórmula, na embalagem, na mistura, no jeito de beber em qualquer lugar e, mesmo assim, continuando a mesma coisa: cachaça.

Cachaça é bebida de cabra, assim como destaca Cascudo a partir da poesia popular:

“Jogo de branco é dinheiro,

De caboco é frecharia;

Vida de cabra é cachaça,

De negro é feitiçaria. (...)

Homem que bebe cachaça,

Mulher que erra uma vez,

Cachorro que pega bode,

Coitadinho deles três!” (Cascudo, 1986, 43,44).

De moeda para compra de negro, na África, à bebida mais popular no Brasil, assim a cachaça assume a tez, em contornos sutis, do brasileiro que se tipifica como mestiço, disforme de molduras geneticistas à pureza racial.

 

Cachaça, cotidiano e imaginário popular

Segundo certo conto popular,11 Jesus mata a sede com gomos de cana e a abençoa como doce e boa ao homem. No mesmo canavial, o diabo se deitou para descansar e os pelos das folhas lhe causaram coceira. Daí condenou a cana dizendo que dela o homem tiraria uma bebida tão ardente quanto às caldeiras do inferno. Desse modo, a cana-de-açúcar possui dois derivados: açúcar e cachaça, um fruto de Deus, outro, do diabo.

Noutro conto popular, a cana em tempos de seca foi aguada com sangue de macaco, depois de leão e por fim, de porco. Por isso, quando bebe, o homem faz macaquice, fica bravo e, ao cair, ronca como um porco.

As histórias sobre a cachaça são as mais diversas e não é difícil encontrar, num boteco ou em qualquer lugar, pessoas dispostas a contar todo tipo de acontecimentos envolvendo a bebida. Sem

dúvidas, a mesma está presente desde o 12 cachimbo para comemorar o nascimento do filho, na vida toda em garrafadas e

meizinhas 13 à cura de enfermidades, além de ser indispensável nas comemorações e festas diversas até, finalmente, no velório, para manter acordado os presentes e aplacar as dores, no tradicional hábito de beber o defunto.

Souto Maior (1970/71) destaca que, no contexto dos valores relativos à masculinidade, próprio do universo de sua investigação, só é homem quem já se meteu em briga, pegou doença venérea e bebe cachaça sem fazer careta, num hábito de reverência de deixar um pouco no copo para jogar por cima do ombro direito em saudação às almas dos bêbados.

A presença da cachaça no cotidiano e no imaginário do brasileiro é bastante antiga. Vem dos primeiros anos coloniais quando da implantação de engenhos produtores de açúcar. Souto Maior (1970/71, p.34) afirma que, em 1540, no Recôncavo Baiano, Mem de Sá produzia cachaça no engenho Ceregipe. Tal produção era destinada aos negros, como também servia de moeda na África à aquisição de escravos; os navios deixavam o Brasil cheio de aguardente e fumo e voltavam carregados de negros.

Resultado da empresa açucareira colonizadora, a cachaça se define mais que um produto genuíno do Brasil, ou melhor, este não é só o país da cachaça, porque aqui inventada foi, mas, principalmente, pela razão de que ambos nascem juntos, ou pelo menos, inseparável é sua relação. Não à toa serviu como símbolo de protesto em várias revoluções de cunho nacionalista como a pernambucana de 1817, motivada a boicotar os produtos de Portugal. Esteve presente, pela mesma inspiração, na revolução constitucionalista de São Paulo em 1932. A cachaça, assim, adquire um duplo aspecto: de ser ao mesmo tempo, como aguardente da terra, bebida de negro e fonte de identidade nacional.

Talvez a mais conhecida revolta relacionada ao seu respeito foi a que levou seu nome: Revolta da Cachaça, no Rio de Janeiro, em decorrência das cobranças fiscais em favor da manutenção do monopólio comercial português. Devido à concorrência do açúcar produzido nas Antilhas, a indústria açucareira do Brasil entra em decadência, o que estimula os donos de engenho a produzirem cachaça que dava bastante lucro, especialmente quando exportada para Angola. Sua produção ocorre na clandestinidade porque, desde o início do século XVII, Portugal havia proibido seu fabrico e consumo na colônia já que competia com o vinho do Porto; além da Metrópole não querer a instauração de uma base industrial no Brasil. Em 8 de novembro 1660, explode a revolta liderada por Jerônimo Barbalho, a pedir “Liberdade” e reformas antifiscais. Tal levante durou até abril do ano seguinte quando foi duramente reprimido pelo Governador Salvador Correia de Sá que condenou à morte o líder da revolta.

Com a entrada do governador e a retomada dos principais

fortes da cidade, na mesma noite foi enforcado o líder da

revolta, Jerônimo Barbalho, ficando sua cabeça exposta no

pelourinho da cidade. Quase uma dezena de presos foi enviada

para as masmorras.” (FIGUEIREDO, 2005, p.54).

A produção da cachaça só foi liberada na segunda metade do século XVII e desempenhou papel fundamental no tráfico com Angola e incremento da economia local.

No uso mais diário pelos escravos, servia como anestesia frente à condição de vida que estavam submetidos, muito embora o alcoolismo fosse estimulado como forma de controle social a eliminar levantes, conspirações. A cachaça “sabiamente” usada pelos senhores serviu de instrumento colonizador, de meio apaziguador de tensões sociais. Foi mecanismo entorpecente e desnorteador da sobriedade necessária para formas mais lúcidas de oposição, pois a sensação inebriante inicial se revela eficaz obstáculo à formação de lideranças, haja vista que ninguém dá valor a um bêbado.

Mas o que os escravos buscavam na cachaça era remédio para

os castigos recebidos e para as injustiças sofridas. Depois de

um longo dia de trabalho sob as ordens de um feitor às vezes

desumano, eles se viam com o direito de afogar suas mágoas

suas saudades africanas. (SOUTO MAIOR, 1970/71, p.37-8).

Beber depois de um sufocante dia de trabalho parece não ser uma exclusividade dos tempos coloniais, nem a presença de feitores. De todo modo, o que o autor ora interpretado tenta afirmar é que, de amplas maneiras e inserções, a cachaça paulatinamente se fixa como bebida nacional na predileção e na abrangência, pois é produzida também nos sertões mais distantes.

Uma coisa é certa. Pelos caminhos por onde o português colonizador trilhou, foram fixadas bases etílicas ao encorajamento do conhecido espírito desbravador português e no amansar de negros e índios.

Corre um dito pelo país todo, confirmando que só tem duas

‘nações’ que não bebem, sino e ovo. Sino, porque tem a boca

pra baixo e ovo porque já está cheio. (ANDRADE apud SOUTO

MAIOR, 1979/71, p.40).

Constata-se a presença da cachaça na religião dos escravos em rituais de homenagem a Exu, que é uma entidade intermediária entre homens e orixás, apreciador da bebida e de outras especiarias. O universo de consumo da bebida é bastante amplo, assim também os tipos que a apreciam em lugares do mesmo modo variados.

Em termos mais ordinários, a cachaça é consumida no bar, local semelhante ao terreiro, pois o dono do estabelecimento ao ser intermediário entre fabricante e consumidor, deve possuir habilidades complexas em se tratando do ofício exigir destrezas que vão além do enchimento do copo, da rapidez no cálculo da conta ou nos dotes culinários. Requer traquejo ao lidar com cada cliente.

Como o bar é um espaço de relacionamento regrado à cachaça, para não haver maiores perturbações, seu dono deve saber quanto cada um pode beber, além de conhecer bem seus frequentadores, tanto no estado de sobriedade quanto no de embriaguez. Tal qual um espaço de manifestações espirituais, quando o líder transita entre seres, almas e corpos, num curso permanente entre lúcidos e ébrios, entre sagrado e profano, entre euforia e quietude. No bar, metaforicamente, os frequentadores são fiéis, na estrita expressão do termo. O dono, sacerdote, conhecedor de saberes litúrgicos, e a bebida, enfim, o veículo de comunhão e transe.

Dos saberes que o dono do bar deve possuir, o primeiro é sobre o próprio consumo do álcool. Dono de bar que bebe desmedidamente vai à falência, não por outra razão, mas sim porque nenhuma instituição se estabelece sem liderança, sem algum tipo de hierarquia instituída e especializada.

“Tem que saber quanto cada um de seus fregueses é capaz de

beber sem se tornar inconveniente, medindo essa capacidade

em dinheiro.”

“O bodegueiro ainda tem que ser sabedor da vida de todo

mundo, quanto cada um ganha, quem está brigado com a

mulher, quem está desempregado e quanto cada um pode

gastar.” (SOUTO MAIOR, 1970/71, p.86).

O bodegueiro é um especialista na arte de embriagar. Seu êxito no negócio vem desta capacidade, associada à de não vender fiado. Um sóbrio entre bêbados, esta é a imagem do boteco. A de um homem que comanda de pé seu domínio. Raramente o bodegueiro está sentado. De pé, comanda o bar, orquestra os garçons, caso haja; supervisiona, de pé, o movimento. Pode-se dizer dele um vigilante das tramas.

A cachaça também é longamente usada como remédio, na medicina empírica, em garrafadas e meizinhas no combate de doenças quando não há medicamentos alopáticos. Souto Maior (1970/71) cita Chernoviz, médio polonês autor do Formulário e Guia Médico, considerada uma das principais obras médicas do século XIX, que indica o uso de aguardente ao tratamento de várias doenças como hemorragias uterinas, cólera e febres graves.

Em Alagoas, Souto Maior afirma que há o costume de pingar no olho doente uma gota de cachaça. Na cura de sarna e coceira de toda espécie, bebe-se cachaça misturada com caroço de algodão pisado, como também é indicado o banho de cachaça no tratamento de bexiga e catapora. Misturada com pau-brasil ajuda a chegar a menstruação; com limão, cura resfriado e com fel de boi, auxilia no tratamento do reumatismo.

Misturada com pólvora, é um santo remédio para dor de dente;

com sal, dá um excelente gargarejo para amigdalite; com

laranja, é diurético; com café, corta a gripe; com catuaba, faz

velho ficar moço a ponto de procura mulher. (SOUTO MAIOR,

1970/71, p.112).

É usada no combate de uma infinidade de doenças, inclusive no vício da embriaguez. Cachaça misturada à raspa de unha da mão esquerda, recomenda-se beber de manhã sem a pessoa saber do preparo; cachaça com merda de galinha, beber diariamente até o doente deixar de beber; misturada com baba de boi; cachaça com areia de cemitério, uma pena de urubu torrada e um pouco de merda de galinha, beber de uma vez e sem saber o que é; comer a moela de galinha preta, mas só cura se o viciado deixar de comer galinha. Além de remédio, a cachaça misturada com algumas comidas é veneno. Com banana anã, ovo, jaca, manga, melancia, leite é morte na certa; com farinha, empanzina a barriga.

A cachaça, para Souto Maior, é um remédio temporário aos problemas do coração apaixonado ou outros males e tormentos, o que permite suportar os problemas sem solução, como a morte e a traição. É, de fato, um refúgio.

... os negros escravos encontravam na cachaça a válvula de

escape de suas dores, mágoas e tristezas. Pegados como

animais e trancados nos porões dos navios negreiros,

separados da mulher, dos filhos, da noiva, da família e até

mesmo deslocados do seu habitat, encontravam na aguardente

um lenitivo para seus sofrimentos, um remédio para sua

saudade. (SOUTO MAIOR, 1970/71, p.166).

De larga inserção no país, desde o período colonial, a cachaça agiganta o seu número de consumidores e se posiciona como pivô de infindas relações sociais relativas à violência e à confraternização. Uma paixão, ao ponto de já no século XVII ser proibido seu uso no país com a provisão régia de 13 de setembro de 1649 por concorrer com o vinho do reino, como germe, talvez, de insurreição a Portugal.

Se praga do diabo, como esboça o conto popular, ou não, uma coisa é certa: a cachaça é um lubrificante social segundo Souto Maior, um ingrediente do universo social brasileiro, carregado de contradições e usos, responsável pelo agigantamento do alcoolismo.

Bebida de pobre e de rico, a cachaça desbravou o país e mesmo como praga do diabo, tal qual o conto popular, tornou-se, como

disse Drummond, “em utilidade pública”, ao prefaciar outra obra14 de Souto Maior:

(...) Queiram ou não queiram seus adversários, a cachaça é

uma utilidade pública brasileira, dado histórico nacional,

remédio que não se compra nas farmácias e costuma produzir

muito mais efeito que as drogas sofisticadas, com suas bulas

herméticas. (ANDRADE apud SOUTO MIAOR, 1970, p. 18).

Seja como purgante da alma ou fuga dos desprazeres e dominadora quando tornada vício, o ato de beber cachaça está presente no cotidiano do brasileiro desde épocas remotas em rituais e vocábulos diversos.

Então, o copista a copiar na ripada de uma contra reconhece no colarinho a qualidade da paraty. Dois dedos de montuava, sípia e tapiá inicia a teorga e o malafo, insquento ou lapadas consecutivas dão ema. Grogue, mamado, roído, tiorna, upa ou usga são efeitos do cobertor-de-pobre, do otim-fifum. Tradução:

Então, o beberrão, ao tomar um gole de cachaça, reconhece nas bolhas formadas na garrafa a qualidade da aguardente. A dose da altura de dois dedos no copo de cachaça inicia a bebedeira e várias doses dá embriaguez. Ficar muito bêbado é a consequência de quem ingere cachaça.

No folclore brasileiro, muito pode ser encontrado sobre a cachaça, desde composições até remédios. Aqui fiz uma coletânea dessas curiosidades, facilmente encontradas na internet.

Tabela 1 15 Uso da cachaça na medicina popular

1. Cachaça com Desmaios, dor de cabeça,

alcanfor fricções, picadas de

insetos, torções

2. Cachaça com alho e Mau-olhado guiné

3. Cachaça com arnica Cicatrização, fricções,

pancadas, torceduras

4. Cachaça com breu Gonorreia

5. Cachaça com cabo Estômago verde

6. Cachaça com café Resfriado quente

7. Cachaça com cainça Paralisia, reumatismo

8. Cachaça com casca Expectoração de angico

9. Cachaça com casca Febre palustre de caiçara

10. Cachaça com casca Febre, maleita de quina

11. Cachaça com casca Sífilis de tatu

12. Cachaça com Afina o sangue e cura catuaba impotência sexual

13. Cachaça com cipó Reumatismo imbé

14. Cachaça com Diurético congonha e bate-caixa

15. Cachaça com Picada de escorpião escorpião

16. Cachaça com Friagem e gripe gengibre

17. Cachaça com guiné Reumatismo

18. Cachaça com Fígado jurubeba

19. Cachaça com Gripe laranja-da-terra

20. Cachaça com leite Reumatismo de moreira

21. Cachaça com losna Estômago

22. Cachaça com Reumatismo manacá

23. Cachaça com Estômago, fígado milhomem

24. Cachaça com moela Estômago torrada de ema

25. Cachaça com osso Reumatismo de canela de capivara

26. Cachaça com raiz Depuração do sangue

de taiuiá

27. Cachaça com raiz- Reumatismo de-veado

28. Cachaça com resina Sedativo de almécega (fruto)

29. Cachaça com Depuração do sangue

sassafrás (árvore)

30. Cachaça com Verminoses sementes de mamão

31. Cachaça com Reumatismo e cólicas

sucupira uterinas