Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

José Luciano Albino Barbosa · Capítulo 3 de 23

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Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

Capítulo 1 - Alimento, bebida e droga: uma abordagem histórica sobre a imagem e o uso da cachaça

Capítulo 1 – Alimento, bebida e droga:

uma abordagem histórica sobre a

imagem e o uso da cachaça

 

“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,

E ao beber nem recorda

Que já bebeu na vida,

Para quem tudo é novo

E imarcescível sempre.”

(PESSOA, 1985, p. 61)

A mais antiga menção à cachaça lida por Cascudo6 foi em Portugal na carta II de Sá de Miranda no período mercantil em que os tentáculos lusitanos se esticavam pelas índias orientais à busca de especiarias exóticas. De certo, é que se fabricava e bebia cachaça em Portugal já no reinado de D. João III.

O nome – cachaça -, muito provavelmente, segundo Cascudo (1986), pôde ter vindo da Espanha, que designava aguardente produzida a partir de borras e restos das pisas (ato de pisar) de uvas, com teor alcoólico superior a 18 graus, de sabor forte,

amarujado 7, um engasga gato, como se ouve dizer na fala de quem bebe. Porém, o termo certamente não se referia a destilados de cana-de-açúcar ou de melaço de cana, os quais, no Brasil, foram assim chamados - cachaça.

A bebida – cauim consumida pelos índios brasileiros era produzida da mandioca, um afermentado que embebedava, mesmo com baixo teor alcoólico. Os padres a batizaram de vinho, assim como os demais sumos extraídos de frutas. Desse modo, até meados do século XVIII, ainda segundo Cascudo, vinho e aguardente eram os termos usados para designar as bebidas aqui consumidas, jamais cachaça. Somente por volta do século XIX, identifica-se o registro da palavra cachaça em Tesouro da Língua Portuguesa como termo do Brasil, referindo-se à aguardente produzida do mel, das borras de cana.

Cauim, indígena, aguardente ou vinho, europeu, cachaça, brasileira. A bebida produzida da fermentação da cana-de-açúcar ou do melaço de cana só recebeu tal referência no Brasil. Entre os africanos, tal como ocorreu no caso indígena, não há menção à cachaça, sendo a mesma desconhecida por esses, que só consumiam garapas e cervejas à base de frutas. Só com o processo civilizatório incrementado pelos europeus na África, os destilados até então ignorados predominam no paladar nativo, especificamente nos séculos XIX e XX, quando o sumo de aroma, sabor e efeito inconfundíveis dos alambiques aporta às costas africanas.

O processo fabril é descrito por Cascudo (1986) a partir de registros que remontam o período da invasão holandesa no Brasil:

Marcgrave: ‘A primeira caldeira é chamada pelos portugueses

‘caldeira de mear descumos’, na qual o caldo é sujeito à ação

de um fogo lento, sempre movido e purgado por uma grande

colher de cobre chamada ‘escumadeira’, até que fique bem

escumado e purificado. A escuma é recebida numa canoa,

posta em baixo, chamada ‘tanque’, e assim também a cachaça,

a qual serve de bebida para os burros’: História Naturalis

Brasiliae, Amsteloami, 1640, ‘História Natural do Brasil’,

tradução de Mons. José Procópio de Magalhães, São Paulo,

1942. (CASCUDO, 1986, p.16).

Da fervura do caldo, produz-se uma espuma feculenta, chamada cagassa, que serve de comida para o gado. A cachaça era o resultado dessa espuma do caldo, produzida por banguês ou pequenos engenhos de rapadura e cachaça movidos a bois ou cavalos, também conhecidos como trapiche, cujo nome iria designar armazém ou depósito de estivas e demais produtos.

Não havia, no Brasil, nos séculos XVI e XVII, bebida alcoólica com o nome de cachaça, a não ser garapa, feita da espuma dos caldos de cana e consumida por escravos, como destaca Cascudo, registro de 1711 de Antonil sobre o Recôncavo Baiano:

... Fala na garapa, feita das espumas sobrantes da segunda

caldeira, ebulição no segundo tacho, garapa que é a bebida de

que mais gostão, os negros, com ela comprando farinhas,

bananas, aipins e feijões aos parceiros. Bebia-se a garapa

imediatamente, ainda doce, ou guardando-a em potes até

perder a doçura, e azedar-se, porque então dizem que está em

seu ponto de beber: Cultura e Opulência do Brasil por suas

Drogas e Minas, (2, X). (CASCUDO, 1986, p.17).

Do caldo de cana azedo, fermentado, extrai-se a cachaça para o consumo. Bebida alcoólica que assume, de acordo com a descrição, valor de moeda.

Pode-se afirmar que a partir de meados do século XVII, dá-se início à produção da cachaça no Brasil, resultado da fermentação da garapa azeda, conhecida como aguardente de cana ou caninha; em seguida, obtida também do melaço a cachaça, semelhante à Bagaceira portuguesa. Desse modo, aguardente, cana, garapa e cachaça se apresentam como sinônimos correspondentes do mesmo processo produtivo de extrair bebida alcoólica da cana-de-açúcar. Do caldo, cana, do melaço, cachaça, portanto.

Embora fosse produzido mel de cana-de-açúcar em Portugal, assim como seu xarope para medicamento, nenhuma bebida alcoólica fora fabricada dessa planta. Somente no Brasil, a cachaça teria sua origem atribuída a tal matéria-prima, concorrendo como vinho da

terra 8, aquele importado da Metrópole, vinho do Porto e à aguardente do Reino extraída de uvas.

Esse produto de feitio “caseiro”, de moendas das mais modestas e ordinárias, como tudo o mais que não carece de tanta sofisticação fabril, valoriza-se de forma crescente pelo paladar cada vez mais apreciado, tornando-se moeda de extensa circulação no tráfico negreiro, não somente por ser requisitada na Costa africana pelos negociantes de escravos, mas também por fazer parte da dieta diária dada aos negros para suportarem, quem sabe, a viagem sem fim de um cativeiro que ali começara, como se a embriaguez fosse o freio dos impulsos intempestivos àquela condição prisioneira.

... Além de ser jubilosamente recebida pelo vendedor na Costa

d’África, figurava necessariamente como alimento

complementar na trágica dieta das travessias do Atlântico. O

escravo devia, forçosamente, ingerir, todos os dias, doses de

aguardente, para esquecer, aturdir-se, resistir. Soldados e

marinheiros através dos oceanos sorviam álcool. Era um

preventivo. (CASCUDO, 1986, p. 24).

A bebida se torna vulgar, de predileção popularizada e consumida cada vez mais por escravos, fazendo com que os vinhos de Portugal sofressem um baque nas importações, então monopolizadas pela Companhia de Comércio.

A solução foi genial. A metrópole precisava de açúcar e

produzia aguardente. A Carta Real de 13 de setembro de 1649

proibiu a fabricação do vinho de mel, eufemismo da aguardente,

em todo o Estado do Brasil.” (CASCUDO, 1986, p. 24).

Mesmo com a proibição, a bebida estava disseminada por toda parte e quando o comércio de escravos se amplia no século XVII, constata-se, do mesmo modo, o aumento da fabricação da cachaça, assim como a execução de impostos e subsídios ao líquido-moeda. O açúcar decadente dá espaço para a bebida, fazendo com que cada engenho, em todo canto, passasse a fabricá-la, como é o caso da cidade de Parati/RJ que, na segunda metade desse século, é conhecida como sua capital nacional. A bebida possui vários sinônimos. Neste momento, mais um é apresentado, pois tal qual caninha, cana ou cachaça, parati também significa a mesma coisa, ou melhor, a mesma bebida, como Champagne e Porto que de nome de lugares passaram a também batizar bebidas. O açúcar dá espaço ao ouro que ganha o lugar de destaque como principal base de exploração da Coroa portuguesa no Brasil. Porém, para produzir açúcar e extrair ouro, precisa-se de escravos, que eram comprados com cachaça.