Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Receita modernizadora: tradição como motivo turístico
Quem bebe a cachaça deste engenho certamente degusta uma bebida feita pelas mesmas etapas de produção que remontam o século XVIII. Com a rapadura, ocorre o mesmo. Tudo repetido, ou melhor, novamente criado por gerações sucessivas de proprietários e trabalhadores em torno do mesmo engenho.
Eu me identifico demais com o engenho. Tem muita gente
brincando de ser senhor de engenho. Mas ele não tem apego
com a história. Eu nasci e me criei nisso. Tenho saudade
daquele tempo. Da convivência com o morador. Hoje só tem
trabalhador. Quando terminava a última moagem davam um
apito sinalizando um novo ciclo, o do plantio. Parava-se de
moer porque a cana acabava. (Dona Eliane, Proprietária da
Fazenda Engenho Serra Preta [Informação oral]).
A moagem se inicia em setembro e vai até março com o fim do verão. No início das chuvas, os pés de cana bebem muita água e assim reduz a sacarose. Desse modo, com menos açúcar, há diminuição da produtividade de aguardente. Em linhas gerais, o ciclo se define com o plantio no inverno e no verão, corte e moagem. O manejo no plantio permite a sucessão de safras que favorece ao canavial rotatividade em escada, com partes cortadas e outras a amadurecer, de tal modo que todo ano sempre há um partido (parte) a ser colhido. “Meu único partido é o de cana” Ironiza dona Eliane.
Receita modernizadora: tradição como motivo
turístico
O Engenho Serra Preta foi solicitado pela Associação Balaio
Nordeste,43 através de uma recomendação do SEBRAE/PB, para ser usado como palco à gravação de documentário para homenagear o cantor e compositor Pinto do Acordeom.
Segundo a Presidente da Associação, Joana Alves, a filmagem deveria acontecer num ambiente apropriado à história do artista. E, neste caso, um engenho bem tradicional, nas suas palavras, seria o ideal para tanto. Segundo ela, o Serra Preta cumpriu os requisitos necessários ao cenário desejado e lá estava, assim, com outros artistas (Biliu de Campina, Edmar Miguel, Clã Brasil e os Três do Nordeste), além de familiares do homenageado à elaboração do filme a ser exposto em João Pessoa no I Encontro de foles e sanfonas da Paraíba, no final de novembro de 2009.
Dona Eliane agendou uma moagem para esse dia, no intuito de dinamizar as imagens e os olhares no ritmo das engrenagens do engenho que engoliam, mastigavam cana, ao mesmo tempo em que os artistas tocavam e cantavam forró.
Figura 40 Vista frontal da casa grande.
Tal dia foi o primeiro de trabalho de campo, o que deixou em alvoroço meus sentidos, tamanha diversidade de eventos ali adiante. Coisas a ver, cheirar, saborear e principalmente, ouvir. Caldo de cana, tachos de mel, fardos de rapadura, galinha, bode assado e guisado, buchada, cachaça havia em quantidade. Mas, como resolvi não beber cachaça, durante o trabalho de campo, adotei a abstinência ao álcool quando estive no Serra Preta. Em contrapartida, do restante, apreciei com gosto experiente.
Como a sedução sempre acompanha a primeira imagem, a reserva deve ser um cuidado permanente para quem pesquisa relações sociais. Assim, relaxar um pouco quanto ao papel de pesquisador e tentar aproveitar a situação como espectador e tantas predileções, com exceção da cachaça, foi o executado na ocasião. Fotografia, para consultas posteriores, articulações e conversas preliminares à identificação de informantes sucederam como estratégias de pesquisa.
Os dois primeiros dias, dos quinze de trabalho de campo no Serra Preta e na região, ficaram destinados a conversas, fotografia da paisagem e da estrutura física, além, é claro, do diário de campo.
Ainda sobre o primeiro contato que, do ponto de vista metodológico é fundamental, pois abre caminho ao devir, a sensação de estar sozinho, apenas apareceu quando a festa acabou e Dona Eliane com os visitantes foram embora. Na Casa-Grande, já de noite, deparei-me com o ofício de etnógrafo, de dúvida compenetrada e teoria companheira.
Na casa-grande, nem a proprietária costuma ficar por muito tempo. Parece casa de veraneio, com a diferença de estar sempre limpa. Talvez a comparação melhor fosse com um relicário de reordenamento esporádico. Sala ampla, móveis antigos, cristaleira cheia, mesa grande na sala, fotos antigas de avós e parentes distantes compõem a entrada da casa de dois quartos e uma suíte. Construção recente e funcional com ares coloniais.
Como o quarto da frente foi transformado em ambiente de trabalho, uma estrutura com escrivaninha, livros, máquina fotográfica e anotações ao lado da cama para trabalho definiram o local de estudo, pois convém a demarcação de espaços para que a condição de pesquisador esteja bem delimitada e, nele, o mesmo possa repousar sua reserva, assim o fiz. Além do banheiro e de parte da cozinha, nada foi tocado, senão ao olhar. Naquele espaço de trabalho, esteve organizado o material para pesquisa e pertences de uso cotidiano. Assim, todos podiam me localizar e, aos poucos, no convívio, familiarizar-se com minhas intenções estranhas de querer saber o que cada um fazia e para que cada coisa servia.
Aos poucos, memorizei os nomes das pessoas e depois de seus apelidos, como preferiam ser chamadas. Nesse caso, o traço de informalidade sinaliza a confiança recíproca. Tais pessoas garantem que o engenho seja gerido mesmo na ausência de Dona Eliane. O Serra Preta é administrado por gente de sua confiança, antigos moradores, atuais empregados do engenho. Sr. Rosinaldo e Dona Nazaré, sua esposa, têm um sítio próximo, mas residem no local de trabalho sem ônus, na antiga casa sede da propriedade. Nesta, Dona Eliane costuma dormir e passar o dia para não ficar sozinha na residência nova que construiu, onde alocado fiquei, num espaço que dista aproximadamente duzentos lentos passos.
No final da festa, mas ainda quando Dona Eliane estava presente, Dona Nazaré disse que queriam um particular comigo, “quando tudo aquilo acabasse”, na sua casa. Ao entardecer conversamos um pouco. Cordata às pretensões daquele que estava ali para trabalhar, expressou-se de fala mansa e pausada ao oferecimento de hospitalidade e apoio (refeições), ao mesmo tempo em que destacou, com clareza, embora de forma tácita, sua posição de poder naquele universo. O trabalho de campo depende diretamente da capacidade de criar articulações com os informantes mais preciosos, os quais, nem sempre estão em evidência. Em pouco tempo, Dona Nazaré e Sr. Rosinaldo passaram a se chamar de Lala e Homim, respectivamente. Com o contato, sem a formalidade da entrevista agendada, os dois e outros informantes, conscientes desta condição, esclareceram fragmentos de experiências e relações no Serra Preta.
Ir da casa-grande para a de Lala, à tardinha, pareceu perto e de fácil caminhada. Mas de noite, quando terminadas as conversas, por volta das vinte horas, o sono fazia seu tempo e resoluta a visita, momento para quem ali estava buscar seu canto. Casa com televisor ligado, criança brincando e gente na cozinha pareceu coisa normal. Mas, quando poucos passos dali caminhados, depois do poste e do latido dos cachorros, confuso o breu me deixou, perdido na ladeira, onde há pouco dissera, quando vinha no seu sentido oposto, ser de fácil trajeto.
Com o auxílio do celular clareei a estradinha. Dum lado canavial, doutro, bananeiras, à frente, tão perto, a casa grande. Os cachorros de lá receberam aos latidos o estranho que vinha em sua direção com a luz do celular e o gesto giratório do comercial do Banco Itaú ao clareio no escuro estranho. Enfim, no quarto pronto para dormir, senti sede. Na geladeira e no filtro, não havia água. Aliás, em toda a casa só encontrei garrafas de cachaça, maldita abstinência. Salvei-me com suco de caixinha que levei como mantimento.
Com exceção dessa sede irônica, a estada foi muito confortável no campo. Ainda durante a festa, disse a Dona Eliane que precisava de um guia. Ao ouvir a conversa, um homem, mais ou menos de minha idade (uns 35 anos), disponibilizou-se para tanto com sua moto. Confirmada autorização da Senhora de Engenho, marcou para o dia seguinte o reconhecimento da região na guia do homem conhecido por “Reboco”.
Reboco estava desempregado no momento, mas por suas habilidades reconhecidas como pedreiro, estofador de sofás, cadeiras, almofadas e carpintaria, sempre lhe deixavam ocupados, pois sábio divulgador das prendas, com dois números de celular num cartão, apresentava-se a todos, mesmo sem seu nome nele gravado. Estava no Serra Preta a convite de Dona Eliane, no dia da festa, para o preparo de coquetéis.