Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

José Luciano Albino Barbosa · Capítulo 12 de 23

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Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

Franz Boas, Gilberto Freyre e José Lins do Rego: a busca de uma descendência antropológica

A partir do exposto, a cachaça da Paraíba se insere num contexto que pode ser chamado de tradicional, bem tipificado nas obras de José Lins do Rego e de Gilberto Freyre, mas também de moderno. Há nesses autores uma valorização do particular como forma de encontrar elementos esclarecedores de uma identidade. Assim, essa valorização denuncia uma descendência antropológica desses autores com Franz Boas, na sua preocupação de analisar a cultura a partir da reflexão histórica de casos específicos sem perder de vista a grandeza do todo, da diferença como plano geral e complexo.

 

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Divergente do pensamento antropológico de sua época, século XIX e início do XX, Boas constrói uma abordagem revolucionária que passa a ser ponto de partida para as pesquisas na área a partir de então. Ao contrário dos Evolucionistas, preocupados em elucidar cientificamente as etapas pelas quais a raça humana se aperfeiçoou, pretende focalizar seu olhar sobre a diversidade da cultura.

Com Boas a cultura assume um caráter plural fugidio à uniformidade teórica que a determina como desdobramento de imposições naturais. Sua observação focaliza o diverso de cada grupo, a complexidade e a dinâmica sociais peculiares, não reduzidas a determinismos geográficos, biológicos ou de qualquer ordem, porque é múltipla pela forma como se torna peculiar, especifica, portanto. A explicação da cultura passa a ser buscada no registro cuidadoso da história pontual do grupo estudado, sem a pretensão evolucionista de definir uma história geral da cultura humana.

O conhecimento das muitas possibilidades de como os grupos humanos se desenvolveram revela meios para o entendimento da própria sociedade do pesquisador. Em outras palavras, a diversidade cultural sinaliza a problematização da cultura Ocidental, vista não mais como padrão ou referência para as outras, mas sim localizada em um plano horizontal a partir do qual seus valores não podem assumir a posição qualitativa de melhor ou pior. Há, no pensamento de Boas, o vigor do relativismo cultural necessário para, a partir do “outro”, encontrar orientações à sua própria sociedade. A antropologia não é, portanto, o relato de comportamentos exóticos de grupos distintos, mas um mecanismo poderoso de alteridade.

A concepção boasiana de cultura tem como fundamento um

relativismo de fundo metodológico, baseado no reconhecimento

de que cada ser humano vê o mundo sob a perspectiva da

cultura que cresceu – em uma expressão que se tornou

famosa, ele disse que estamos acorrentados aos ‘grilhões da

tradição’. (CASTRO, 2004, p.18).

Embora o homem se organize socialmente a partir de universais como a política, a religião, a economia etc., o que de fato interessa para Boas é como individualmente cada grupo se construiu historicamente, tornando-se diverso em relação a outros. Nesta direção, sugere o método histórico ou de indução empírica que consiste no mapeamento das causas segundo as quais os fenômenos culturais se desenvolveram naquele espaço específico, para então, entender sua lógica interna, sem alocá-la num plano geral ou num sistema evolutivo.

A preocupação de investigar o processo histórico particular de cada grupo é cara para Boas, pois, segundo ele, todos trazem consigo uma tradição. Daí seu interesse de descobrir como os costumes existem e lhe fazem sentido pelo detalhamento de seu desenvolvimento no decorrer do tempo.

Recuperar a tradição historicamente significa viabilizar no presente, pela memória material e simbólica, o esclarecimento de um passado significativo que o distingue dos demais, que o peculiariza e oferece ao grupo referência para construção de identidade.

A grande e importante função do método histórico da

antropologia parece-nos residir, portanto, em sua habilidade

para descobrir os processos que, em casos definidos, levam ao

desenvolvimento de certos costumes. (BOAS, 2004, p.38).

A dedicação investigativa, ao detalhar a complexidade de relações próprias a cada cultura, sinaliza um novo fazer antropológico, especialmente em termos de método, que inspirou seus alunos, Ruth Benedict, Gilberto Freyre, e outros, a buscarem no seu gênio o impulso ao entendimento da diversidade cultural ou das múltiplas formas de organização social.

Sem dúvidas, este vigor intelectual de Boas, principalmente relativo ao método como os grupos humanos deveriam ser abordados no estudo de suas manifestações culturais, instigou aqueles que, posteriormente nas primeiras décadas do século XX, esforçaram-se ao esboço de um instrumental investigativo conhecido como culturalismo.

O olhar sobre o particular, à busca do pontual e de sua universalidade, na medida em que as partes combinadas e interdependentes demarcam unidade significativa, induziu o surgimento de uma nova antropologia, cultural propriamente dita, diversa daquela evolucionista e raciológica.

Apoiar-se em categorias naturais para compreender formações próprias da cultura é amplamente refutada por Boas na medida em que, falar em raça, só faz sentido quando é possível delimitar unidades corporais definidas e herdadas por descendentes de uma mesma ancestralidade, o que segundo ele, torna-se praticamente impossível em termos modernos, haja vista a multiplicidade de linhagens que formam os atuais grupos humanos. Em resumo, não há, racialmente falando, um grupo puro, genuíno em termos de descendência. Deste modo, as características culturais não podem ser classificadas como particulares a grupos genéticos específicos, exclusivo a certa descendência. Em uma perspectiva puramente biológica, os homens não se diferenciam tanto quanto a que se manifesta culturalmente, ainda mais quando o estranho é anunciado ao lado.

(...) Podemos dizer que cada grupo racial consiste de muitas

linhagens familiares que são distintas em formas corporais.

(BOAS, 2004, p.70).

(...) Acredito que o estado atual de nosso conhecimento nos

autoriza a dizer que, embora os indivíduos difiram, as

diferenças biológicas entre as raças são pequenas. Não há

razão para acreditar que uma raça seja naturalmente mais

inteligente, dotada de grande força de vontade, ou

emocionalmente mais estável do que outra, e que essa

diferença iria influenciar significativamente sua cultura. (BOAS,

2004, p.82).

Estas afirmações boasianas influenciaram demasiadamente Gilberto Freyre no tocante ao modo como este pensou o Brasil. Não à toa sua monumental obra Casa Grande & Senzala tem o subtítulo: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal, notadamente destacando a herança híbrida, escravocrata e agrária dos portugueses, e como estes a incrementaram com os nativos e com os africanos. Essa inquietude de Gilberto Freyre sobre a miscigenação brasileira encontra em Boas o suporte teórico para a devida problematização antropológica.

O Professor Franz Boas é a figura de mestre de que me ficou

até hoje maior impressão. Conheci-o nos meus primeiros dias

em Colúmbia. Creio que nenhum estudante russo, dos

românticos do século XIX, preocupou-se mais intensamente

pelos destinos da Rússia do que eu pelos do Brasil na face em

que conheci Boas. Era como se tudo dependesse de mim e dos

de minha geração; da nossa maneira de resolver questões

seculares. E dos problemas brasileiros, nenhum que me

inquietasse tanto como o da miscigenação. (FREYRE, 1984, p.

7, prefácio à primeira edição).

Gilberto Freyre volta ao Brasil depois de seus estudos nos Estados Unidos, carregado dos ensinamentos antropológicos de Boas, no propósito de problematizar a formação da sociedade brasileira segundo critérios teóricos e metodológicos centrados sobre a cultura, nas suas manifestações mais sutis: culinária, sexualidade, parentesco, economia, religiosidade etc.

Se Margareth Mead e Ruth Benedict representaram uma corrente antropológica conhecida como Culturalismo, no Brasil, o pensamento de Gilberto Freyre é destacado como Regionalista, devido sua preocupação com questões locais, com problemas específicos do Nordeste. Sua influência se faz presente em vários intelectuais da época, com destaque, em José Lins do Rego, cuja amizade se tornou intensa e duradoura, de acordo depoimento deste, em 1941, ao mestre e amigo pernambucano:

Conheci Gilberto Freyre em 1923. Foi numa tarde do Recife, do

nosso querido Recife, que nos encontramos, e de lá pra cá a

minha vida foi outra, foram outras as minhas preocupações,

outros os meus planos, as minhas leituras, os meus

entusiasmos; [...] para mim teve começo naquela tarde de

nosso encontro a minha existência literária. [...] Começou uma

vida a agir sobre outra com tamanha intensidade, com tal força

de compreensão, que eu me vi sem saber dissolvido, sem

personalidade, tudo pensado por ele, tudo resolvendo, tudo

construindo como ele fazia. Caí na imitação, no quase pastiche.

Isso não só no seu jeito de escrever como em tudo o mais: nos A construção literária de José Lins do Rego tem, no pensamento de Gilberto Freyre, uma fonte irrefutável, um suporte socioantropológico a partir do qual não apenas elabora romances sobre sua infância, graças à pungente memória, mas principalmente, por lhe permitir explorar valores, imagens, relações e símbolos pertinentes ao seu contexto paraibano, tal qual uma análise histórica e ao mesmo tempo sociológica de um mundo que vê ruir. No caso, a falência dos engenhos produtores de açúcar provocada pelas usinas.

seus gostos, nas suas relações, nos seus modos de vida.

(FONSECA, 2007, p.242).

O pensamento de Boas chega ao Brasil através de Gilberto Freyre, ou pelo menos, é através deste que se torna significativamente difundida sua herança intelectual, seu método de abordagem antropológica. Uma influência que não para no autor de Casa-Grande & Senzala, mas que se espraia, por este autor, para outros da mesma época, quando decidem contornar suas trajetórias literárias sob a versão boasiana do pernambucano de Apipucos.

Pelo menos sobre José Lins do Rego, essa influência é sintomática. A relação de amizade que se constrói entre os dois viabiliza também o empenho de ambos sobre temáticas afins, sobretudo a respeito da herança tradicional comum. É através de José Lins do Rego que Gilberto Freyre conhece os engenhos paraibanos, aqueles que se tornaram palco de suas obras por ele mesmo denominadas de ciclo da cana-de-açúcar, de Menino de Engenho a Usina. É Gilberto Freyre quem apresenta a José Lins do Rego autores europeus e norte-americanos desconhecidos no Brasil daquela época, década de 1920, e o estimula a deixar o jornalismo panfletário do qual fazia parte para se dedicar à literatura, especialmente uma que destacasse sua memória nos engenhos paraibanos (FONSECA, 2007, p.239).

Em 1932, publica-se no Rio de Janeiro o primeiro romance de

José Lins do Rego. Romance autobiográfico no qual é evidente

a influência de Gilberto Freyre: evidência somente negada por

anti-freyrianos renitentes. Como diz o velho ditado: o pior cego

é aquele que não quer ver. Pois foi o próprio José Lins do Rego

quem proclamou, alto e bom som, que tinha vergonha de sua

terra e de sua gente antes de conhecer Gilberto Freyre, com

quem aprendeu a importância da formação e dissolução da

família patriarcal, do esplendor e decadência da aristocracia

açucareira como matéria digna de ser aproveitada em obras

literárias. (FONSECA, 2007, p.241).

A leitura dos romances de José Lins do Rego permite a visualização dos engenhos, suas imagens, suas histórias, cheiros, sabores e fantasias, mas também, revela, por meio da literatura, uma análise social bem localizada, aguda da dinâmica histórica por que passava a região produtora de açúcar da Paraíba no início de século XX. Mostra, nas entrelinhas do seu texto, entre um partido de cana e outro, os detalhes de um contexto que para ele, declina, desmantelas-se. É possível, até certo ponto, ao ler suas obras, sentir o cheiro de caldo de cana cozendo em tachos grandes a indústria do açúcar, da rapadura e da cachaça, ao mesmo tempo em que é possível conhecer mais sobre o patriarcalismo, a economia canavieira, a política e as falas de pé-de-parede das Casas-Grandes, com suas sinhás submissas que vendiam, às escondidas, ovos de galinha no período de crise financeira do engenho.

Gilberto Freyre falou muito com José Lins do Rego sobre seu

projeto de escrever uma história do menino brasileiro. Essa

história pungente – a de meninos precocemente ‘de tudo da

própria meninice’está como que entranhada em Casas-Grande

& Senzala, obra muito mais abrangente do que a inicialmente

projetada pelo autor: Menino de Engenho é um romance

autobiográfico desentranhado por José Lins do Rego de Casas-

Grande & Senzala, obra que leu ainda em provas tipográficas,

tendo escrito sobre o ensaio seu amigo, antes mesmo dele

aparecer nas livrarias do Rio de Janeiro... (FONSECA, 2007,

p.241).