Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Embriaguez, internamento e exclusão
da valorização de comportamentos e normas de conduta
necessários à nova forma de produzir. (DINIZ, 2004, p.132).
Aliada ao controle dos saberes está a repressão dos vícios e da vadiagem. O trabalho, no imaginário das elites, teria o efeito pedagógico para o pobre. Os que não se adaptaram à reforma modernizadora ou à docilização do trabalho, mais ainda, aqueles que resistiram de algum modo a esse cenário industrial, ficaram à margem ou foram combatidos de várias formas, seja pela polícia (vadiagem), pelo internamento (loucos) ou pela incisiva discriminação (bêbados). No mundo do trabalho, o bêbado é um imprestável, uma ameaça.
Embriaguez, internamento e exclusão
O trabalho de Foucault (2008) sobre a loucura revela, dentre tantas coisas, o grau de controle sobre o corpo a partir da internação médica, especialmente sobre aqueles marginalizados pela insanidade.
É possível perceber, mediante sua leitura, como a loucura teve tratamento e percepção alterados, na Europa, a partir do século XVI. Mudança que paulatinamente se define em torno do discurso científico (médico/psiquiátrico) à busca da ordem racionalizada nos espaços de reclusão, como nos manicômios, no objetivo de adestrar corpos e mentes.
A reutilização dos leprosários ao internamento de loucos não ocorreu por mero acaso ou simples substituição de uns por outros com o fim da lepra na Europa. Embora a lepra tenha desaparecido e a imagem do leproso apagada da memória, ainda permanecerão, para Foucault, as estruturas de exclusão relativas agora às mentes alienadas (pobres, vagabundos, bêbados), Estes a assumirem o papel do lazarento na relação entre a exclusão social e reintegração espiritual na sociedade do trabalho.
Antes da internação que passou a vigorar num mundo correcional, a partir do século XVII, a visão sobre o louco era bem diversa daquela médica dos séculos posteriores. Havia, na Renascença, a Nau dos Loucos. Eram barcos que levavam os insanos de uma cidade para outra, numa prática de escorraçar ou torná-los errantes.
No contexto medieval, para Foucault, donativos e outras formas de caridade eram destinados aos loucos, e a vida errante, muitas vezes, encontra morada em certas cidades comerciais, nas feiras, em lugares de contra-peregrinação.
[...] É possível supor que em certas cidades importantes –
lugares de passagem e de feiras – os loucos eram levados
pelos mercadores e marinheiros em número bem considerável,
e que eles eram ali ‘perdidos’ , purificando-se assim de sua
presença a cidade de onde eram originários. (FOUCAULT,
2008, p.11).
Nesse caso, os loucos estavam condenados a uma prisão errante, à liberdade, ou lançados nesses lugares, nessas praças e feiras onde todos os conhecem. A imagem sobre a embriaguez é a mesma: a de um bêbado sem dono; um bêbado cego; bêbado doido; bêbado que não se controla e que vira neném. Quer dizer, que não é dono de si, mas que passa a ser conhecido por tal condição e estereótipo e do mesmo estigmatizado.
Para Foucault, a loucura passa a ocupar um lugar de destaque no cenário correcional, pois substitui o medo da morte. A loucura se dissemina em cada um, interioriza-se e faz-se existir no cotidiano de todos a partir dos vícios, defeitos e ridículos. Nesse sentido, a loucura é uma continuação da lepra, pois a exclusão do leproso, como a do louco e também do bêbado depravado, evidencia que ele, embora vivo, seja o já-está-da-morte. Portanto, a forma de excluir o leproso, depois o louco e também o bêbado combina elementos comuns que destacam o vazio da existência.
Prazer e loucura caminham juntos vez que, tomado pelo desejo, torna-se o homem prisioneiro dos sentidos, do animalesco. Assim, a loucura foi vista como o que atrai o homem porque governa o alegre, o fácil e o ligeiro que há no mundo. Nela, não há enigmas ocultos, tal na embriaguez, pois os loucos, como os bêbados, são sábios, porque para eles, não há segredos e o próprio conhecimento acumulado, científico, é insignificante. Todo bêbado é sabido.
A loucura, para Foucault, passou a ser um relacionamento do homem consigo mesmo, um apego que demonstra pelas ilusões que o alimenta. Os bêbados e os loucos estão inseridos num plano de irregularidades de conduta, pelo apego a si, que os levam a aceitar o erro como certo, o feio como belo, a mentira como realidade.
De todo modo, a partir de Foucault, torna-se possível entender que o universo humano é essencialmente fraco e louco, e a contradição que lhe é própria não se torna diminuta com a ascensão da consciência crítica. Quer dizer, a razão do homem não elimina sua relacional loucura. Pode, no máximo, camuflá-la, escondê-la, interná-la em refúgios e espaços de reclusão, seja atrás de muros, seja no íntimo de cada um ou ao se evitar o primeiro gole.
Faz-me lembrar Freud (1987) 32, quando cita Wilhelm Busch: “Aquele que tem preocupações, tem também aguardente.” A vida, para Freud, como a experimentamos, na sua forma real, é dura, árdua, difícil de ser suportada, pois nos faz sofrer pelas decepções e imposições impossíveis de serem realizadas. Assim, recorremos a medidas paliativas de suporte.
O projeto moderno, ainda segundo Freud, de racionalidade como elemento que difere o homem dos outros animais, não é suficiente para evitar os desejos. No máximo, reprime-os. Os avanços e promessas do mundo moderno são ao mesmo tempo a fonte de seu aprisionamento. “[...] O povo, eficientemente manipulado e organizado, é livre; a ignorância e a impotência, a heteronomia introjetada é o preço de sua liberdade.” (MARCUSE, 1999, p. 14). O projeto moderno de progresso, controle e eficiência criou pessoas inseguras, solitárias, depressivas e ansiosas, algo que Bauman (1999) chamou de ambivalência. Nesse contexto, o álcool assume, como droga lícita, um papel muito sintomático: o de terapia e escape para angústias e incertezas hodiernas.
Ingerir bebida alcoólica não se trata apenas de dedicar tempo para diversão ou relacionamento com amigos, mas uma companhia introjetada na vida de muitas pessoas. Assim, o consumo revela um caráter cultural contundente, haja vista que a própria sociedade demanda entorpecimento, como se o homem contemporâneo usasse a embriaguez para suportar a vida em uma terra em
transe33.
A tecnologia comportamental analisada por Diniz (2004) de controle do homem pobre implica também na perda de sua autodeterminação e de seus saberes pelos patrões, tornando-se mais eficiente que o suplício e castigos do período escravocrata.
Mais do que criar homens dóceis para o trabalho, a industrialização e a urbanização encamparam trincheiras para moralizar comportamentos e higienizar lugares. Assim, a um só golpe, bêbado é sinônimo de sujo, transgressor, louco e depravado. E a bebida que melhor representou a embriaguez foi a cachaça no imaginário popular.
Enquadrar-se como bêbado, bebedor de cachaça, significa o reconhecimento pelo rótulo do fracasso, do desregramento, da vadiagem, enfim. Na sociedade do progresso e da indústria, não há espaço para ele, a não ser que seja no sanatório, no hospital, no esquecimento ou no beba com moderação.
Nessa linha de raciocínio, é possível afirmar que o não enquadramento a esse processo de controle se definiu como uma forma de marginalização. Assim, quantos considerados doentes, alcoólatras e/ou vagabundos não foram resultado desse processo de exclusão e adestramento de corpos, saberes e hábitos?