Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 8 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 8

 

Querida Thea,

Fomos informados de que você está melhor. O ar das montanhas é melhor do que o daqui,

tenho certeza. E todas essas garotas com você, todos esses cavalos. Seus professores estão

ensinando bem?

Faz quase um mês que não recebemos nenhuma carta sua. Espero que seu silêncio seja um

sinal de que está muito ocupada no acampamento.

Nada parece ter mudado — Sam e eu continuamos com as lições, sua mãe fica no jardim o

dia todo, preparando sua preciosa flora para o inverno.

Tenha piedade de seus pais e nos mande uma carta. Seja misericordiosa, Thea; é uma

capacidade que Deus garantiu apenas para nós.

Falta menos de uma semana para seu aniversário. Feliz Dia da Thea! (Vou gritar a outra

metade para Sam!) Você achou que eu ia me esquecer? Aquele dia foi o mais feliz de

minha vida, de todas as nossas vidas.

Com amor,

Papai.

Era verdade, eu não escrevia um a carta desde que estivera na enferm aria, desde que descobrira que não voltaria para casa no final do verão. Eu estava zangada — eles souberam que eu estava doente, e não tinham vindo m e buscar — m as, enquanto m inha raiva se dissipava, eu percebia que precisava parar de pensar neles a fim de sobreviver. Eu m e treinaria para não querer m inha fam ília. Eu precisava viver m inha vida em Yonahlossee sem pensar em com o aj ustá-la em um a carta para m eus pais e m eu irm ão.

Guardei a carta na gaveta da penteadeira, j unto com o lenço de Sam , que eu não pudera levar com igo para a enferm aria. Havia sentido falta dele, a princípio, m as depois esse sentim ento havia desaparecido.

Se eu tivesse sido m ais forte, não teria aberto as cartas deles, que chegavam um a vez por sem ana. Mam ãe e papai alternavam a tarefa. Eles eram breves, m ais breves agora que eu não respondia. Eu ficava m al-hum orada depois de ler as cartas; Sissy percebeu. Mas eu não era forte o suficiente para não abri-las. Podia haver notícias de Sam nelas, ou m esm o de Georgie.

* * *

O Dia de Ação de Graças em Yonahlossee não era nada m uito especial, apenas um a versão m ais elaborada do j antar de dom ingo. Sissy havia viaj ado por um a sem ana, e se consum ia de desgosto em Monroeville; o fato de que ela perderia seu encontro secreto sem anal com Boone, que vinha toda quinta-feira, deixaria sua sem ana som bria. Mary Abbott era a única garota da Casa Augusta que não fora para casa, e a atm osfera no refeitório era quase solene.

— Thea! — cham ou Decca quando entrei no refeitório com Mary Abbot.

Esquadrinhei o côm odo e vi as garotas sentadas fora de seus lugares. Senti pena de Mary Abbott, que eu sabia que m orreria por um a chance de m e seguir, m as não era perm itido sentar-se à m esa principal sem um convite, e Decca enroscou a m ão na m inha, ignorando Mary Abbott com pletam ente, com o só um a criança podia fazer.

Decca m e guiou até a m esa principal, onde algum as professoras estavam sentadas com Alice Hunt, que tam bém devia ter sido convidada para estar ali. A Srta. Brooks sorriu para m im , e retribuí o sorriso. O Sr. e a Sra. Holm es estavam em cada cabeceira, com o se oferecessem o j antar. O que realm ente estavam , supus. O Sr. Albrecht se sentou próxim o à Sra. Holm es; ele sorriu quando m e viu. Sissy m e dissera que o Sr. Albrecht e a Sra. Holm es eram am igos. Ninguém se im portava, entretanto, porque o Sr. Albrecht não era atraente, e a Sra. Holm es não era bonita.

— Aqui — falou Decca —, e apontou para a cadeira ao lado da dela, sentando-se apenas depois de se certificar que eu estava acom odada, até m esm o levantando m eu guardanapo do prato e j ogando-o no m eu colo.

O Sr. Holm es a observava com um a expressão de quem estava se divertindo.

— Thea — disse ele —, fico feliz que você pôde se j untar a nós. Você é um tanto fam osa no lar dos Holm es. Decca, principalm ente, é sua m aior fã. — A m enina confirm ou com ar sério. Sarabeth sorriu para m im , m as Rachel parecia que tinha chorado, as bochechas rosadas e cheia de pintinhas.

— Fico lisonj eada — agradeci, e era verdade.

Com o esperado, Alice Hunt m al olhou para m im . Observei as garotas entrando em fila e vi Leona, o cabelo preso em um coque apertado. Ela olhou direto para m im , com o se tivesse m e apanhado pensando nela, m as sua expressão não revelou nada. Eu tinha ouvido rum ores de que a fam ília dela estava sofrendo financeiram ente. Era assim que Sissy havia colocado — sofrendo, com o se a falta de dinheiro fosse um a doença. O que era, do pior tipo. Mas Sissy não acreditara nos rum ores, e eu tam bém não — o porte de Leona, a m aneira com o ela se locom ovia pelo refeitório —, parecia rica, m as fiquei im aginando por que ela não tinha ido para casa para o Dia de Ação de Graças.

A Sra. Holm es usava um cam afeu de luto fora de m oda no pescoço, o cabelo da pessoa m orta em um a com plicada tram a preso dentro do vidro. Você precisava olhar bem de perto para perceber que era de fato cabelo; quase parecia um pedaço de tecido texturizado. Nas m inhas aulas, eu havia aprendido que os vitorianos eram loucos por j oias de luto, apenas outra m aneira, além das sessões espirituais conhecidas com o séances, de tentar — e falhar — alcançar os m ortos. Ou talvez eles não tivessem falhado — papai não acreditava em espíritos, m as com o ele podia ter certeza?

Mam ãe tinha um m edalhão de luto, que havia passado de geração em geração desde sua bisavó. Era de ouro puro, representando a perda de seu filho de cinco anos. Meus pais bem podiam estar m ortos: esse pensam ento surgiu de repente na m inha cabeça, sem convite, e fiquei envergonhada. Eu era um a garota m á, com pensam entos m aus.

A Sra. Holm es percebeu que eu estava olhando e levou a m ão até o pescoço. Era fácil ver com o a Sra. Holm es poderia ter sido bonita antes de perder a boa form a.

Fiquei im aginando quem ela teria perdido, ou se ela usava a peça apenas por questões de m oda. Fiquei im aginando com o ela e o Sr. Holm es haviam se conhecido. Dizia-se no acam pam ento que o Sr. Holm es havia desertado do Norte para o Sul, e em bora ninguém pudesse dizer com certeza por quê, as especulações m ais extravagantes incluíam dívidas de j ogo e um am or perdido (não a Sra. Holm es).

Eu havia pensado que poderíam os vestir nossas próprias roupas no Dia de Ação de Graças, m as até as garotas Holm es usavam cam isas brancas engom adas. Sarabeth em breve poderia fazer parte da turm a do prim eiro ano, m as eu duvidava de que algum dia ela fosse m orar em um aloj am ento.

Eu havia com eçado a am ar as garotas Holm es, principalm ente Decca, que retribuía m eu am or. Sarabeth, que lem brava m uito a m ãe, havia se tornado bonita para m im , sua corpulência hereditária transform ada em um a gordura encantadora. Eu esperava ensinar a Rachel, que era quieta e tinha m edo do m undo, a perder o m edo, pelo m enos no que dizia respeito a cavalos. E, finalm ente, Decca; seu cam inho j á parecia ilum inado por um a luz encantada. Das três, ela era a am azona natural, o que talvez fosse a razão por eu gostar m ais dela.

De repente, senti que precisavam de m im , e gostei dessa sensação, ser necessária em vez de necessitar. Decca estendeu o braço, e notei um a pulseira de brilhantes e esm eraldas em seu fino pulso.

— É linda — elogiei, e observei as esm eraldas retangulares que se alternavam com os brilhantes redondos e cintilantes.

Era um a j oia elegante dem ais para Decca usar; até m esm o Alice Hunt exam inou a pulseira com atenção.

— As garotas pegaram m inhas j oias essa m anhã — explicou a Sra. Holm es. — Decca escolheu se enfeitar da m aneira m ais prim orosa. — Ela suspirou, m as não de um a m aneira indelicada; o feriado devia tê-la deixado de bom hum or.

Ocorreu-m e que a Sra. Holm es estava em um a posição m elhor do que a de m inha m ãe, pelo m enos no que dizia respeito a j oias. Mam ãe deixava todas as m elhores j oias guardadas em um cofre.

Decca ficou radiante.

— Eu sou prim orosa! — gritou ela, e Sarabeth colocou o dedo nos lábios.

O refeitório caiu em silêncio, com o sem pre acontecia, m as eu nunca havia observado tão de perto com o funcionava. Antes de os j oelhos do Sr. Holm es se esticarem , j á estava silencioso.

— Sua m ão — sussurrou Decca, pois eu m antivera as m ãos entrelaçadas na saia, distraída.

Aparentem ente, os ocupantes da m esa principal se davam as m ãos.

O Sr. Holm es curvou a cabeça, m as ainda assim sua voz se proj etou, profunda e m elodiosa. Eu o observei o m áxim o que consegui com m eu pescoço dobrado. Ele agradeceu a Deus por todas as coisas norm ais: por nós, saúde, felicidade e, por causa da Ação de Graças, o espírito de generosidade.

— E por favor lem brem -se dos que não são afortunados com o nós, nesses tem pos de grande instabilidade. Que Deus tenha m isericórdia. — Ele parou, e pareceu querer dizer algo m ais; no entanto, nada saiu. Algum as garotas se rem exeram no lugar. Era difícil m anter nossa atenção por m uito tem po. — Não estam os insensíveis às últim as tragédias. As garotas que tiveram que voltar para casa... Orem por elas.

Agora, ele tinha captado nossa atenção. Nunca fora dito, nem por ele nem pela Sra. Holm es, que as garotas que precisaram ir em bora o fizeram porque seus pais não m ais podiam pagar as m ensalidades. Nós sabíam os, claro, m as não oficialm ente. A Sra. Holm es franziu o cenho, m as a fonte de seu desprazer — a revelação do m arido ou a tristeza pelas garotas perdidas — não estava clara, pelo m enos para m im .

— Am ém — falam os em coro.

Decca segurou m inha m ão e sorriu para m im . Havia um espaço entre seus dois dentes da frente, um espaço bem pequeno, e, em bora soubesse que provavelm ente sum iria quando ela perdesse os dentes de leite, eu m eio que esperava que não sum issem . Ela apertou m inha m ão e riu, inexplicavelm ente, antes de soltá-la. Estava sem pre envolvida em um j ogo, na m aior parte do tem po j ogado por ela m esm a. As crianças eram despreocupadas e im previsíveis, com o eu havia tem ido, m as era isso que era divertido nelas.

— Qual é o recheio que sua m ãe põe? — perguntou Sarabeth subitam ente, enquanto a com ida ainda estava sendo servida.

Suas intenções eram claras: por que você está aqui, e não lá? Sarabeth parecia ter herdado a astúcia da m ãe.

— Ela não recheia — respondi.

— Nossa m ãe faz recheio de pão de m ilho — disse Decca — para nosso próprio Dia de Ação de Graças.

— Tire o cotovelo da m esa, Decca — repreendeu a Sra. Holm es.

— Seu próprio Dia de Ação de Graças? — perguntei.

— Am anhã — respondeu a Sra. Holm es. — As garotas precisam aprender a cozinhar, a colocar um a m esa. Elas não serão servidas a vida inteira. Pode-se im aginar.

Ela estava servindo o m olho enquanto falava, os olhos indo do prato dela para os das filhas. Onde todas as outras garotas aprenderiam essas coisas?, fiquei pensando. Eu sabia com o enrolar um a m assa de torta razoável, com o lim par um a galinha; nesse ano, Idella teria m e ensinado a fazer conservas. Mas eu não m e interessava m uito por cozinhar, nem por qualquer arte dom éstica.

— Vocês com em cobras na Flórida? — perguntou Rachel. — Jacarés?

Ruborizei. Eva m e dissera que m eu rubor era a sina de um ruivo, em bora m eu cabelo não fosse verdadeiram ente ruivo. Quase, Eva com entara.

A Sra. Holm es encarou Rachel.

— Rachel — ela repreendeu a filha —, essa não é um a pergunta apropriada para se fazer à m esa.

Rachel concordou com um gesto a cabeça. Ela não quis ser indelicada; era tão difícil saber, às vezes, o que era e o que não era.

— Tudo bem — eu disse, e sorri. — Cobras não, m as j á com i m uitos caranguej os. E langostins.

— Lagostins — corrigiu o Sr. Holm es, e piscou para as garotas. — Tem os um a sulista entre nós.

Alice Hunt em pertigou-se com essa referência, ansiosa, presum i, para defender o Sul.

Eu ri.

— Só um pouco.

Mas as filhas dele eram garotinhas sulistas, com seus vestidos de casinha de abelha, sotaques do sul e grandes laços presos nos cabelos.

— Você é do estado m ais ao sul. O que m ais você seria senão um a sulista?

— Sou floridense. E som os um a raça diferente.

— Não afetada pelas regras da sociedade e da civilização, um a raça à parte?

Nós éram os as únicas pessoas falando à m esa, e m e senti, subitam ente, num palco. Eu estava cham ando m uita atenção para m im m esm a. Alice Hunt deu tapinhas nos cantos da boca com um pequeno guardanapo branco de linho, bem delicadam ente.

— Não posso falar por todos do estado — disse, de m odo inconsequente, m as, logo que falei, m inha voz pareceu fria, séria. — Mas a Flórida é um lugar diferente. E, além disso, não acho que som os sulistas o suficiente para o restante do Sul.

Alice Hunt anuiu, e eu tive a sensação de que seria a prim eira e a últim a vez que ela concordaria com igo. O Sr. Holm es olhou para m im por um longo segundo. Então Rachel, que não havia tocado na com ida, com eçou a chorar. Seus braços estavam cruzados, e ela olhava furiosam ente para o prato. Voltam os nossos olhares para ela, com um ar confuso, antes de o Sr. Holm es interrom per o silêncio.

— Ah, Rachel — m urm urou ele.

Então a Sra. Holm es se levantou.

— Venha com igo, querida.

Depois de elas terem saído, a m esa ficou em silêncio.

— A Rachel teve um a sem ana difícil — disse o Sr. Holm es para todos da m esa em geral, m as ninguém respondeu. Anuí, e ele pareceu agradecido. — Ela é bem sensível.

Leona foi ter com igo no final da refeição, enquanto eu saía devagar do refeitório.

— Thea — ela m e cham ou, e enlaçou o braço ao m eu. Encarei-a, surpresa. — Lua cheia hoj e.

Estávam os descendo as escadas, e eu olhei para cim a e vi que a lua estava, sem dúvida, cheia.

Eu queria que ela dissesse algum a outra coisa, um “Não a acha linda? Me faz sentir saudade de casa”, algum a coisa para j ustificar seu braço enlaçado ao m eu, pela ansiedade que fazia sua voz quase trem er, algo que nunca acontecia com a voz de Leona. Ela era firm e em seu estoicism o. Seu com portam ento era raro em Yonahlossee, onde sem pre havia um a garota chorando, um a garota rindo, um a garota balançando a cabeça de um lado para outro em deleite ou histeria ou algum a com binação das duas coisas.

— Um a noite perfeita para um a cavalgada noturna — ela propôs, e m e olhou; sua expressão revelava ansiedade, e percebi que esperava que eu fosse com ela.

As cocheiras estavam vazias, m as ficam os em silêncio assim m esm o. O Sr. Holm es ficaria desapontado com igo se soubesse que eu havia desobedecido às ordens m édicas, m as havia pouca chance de ele vir até aqui à noite. Além disso, era m ais em ocionante dessa m aneira, fingir que podíam os ser pegas, fingir que estávam os arriscando algum a coisa; havia tão poucas situações de risco em Yonahlossee. Podíam os faltar aulas, fum ar no bosque, ser insolentes com os professores, e só recebíam os um aviso. Em Yonahlossee, som ente os garotos constituíam um risco verdadeiro para a posição de alguém , a reputação de alguém . A j ulgar por toda a conversa da Sra. Holm es sobre educação, sobre cavar um lugar para as m ulheres neste m undo, a pior coisa que podíam os fazer era nos entregarm os m uito facilm ente.

Leona e eu andam os na ponta dos pés, não deixam os as solas duras de nossas botas tocarem no chão, em bora não houvesse ninguém para ouvir, exceto os cavalos — que nos olhavam curiosos, os olhos arregalados, orelhas voltadas para nós, os pescoços contra as portas das baias. Deslizei o freio de Naari para dentro de sua boca e a guiei para a frente da cocheira; ela bufou em m eu om bro, nervosa, e m urm urei algo para tranquilizá-la. Ela era um a bola de energia e, após eu m ontar nela, a égua dançou sob m im com o algum duende exageradam ente grande, de form a desaj eitada, os cascos batendo uns contra os outros. Ela tam bém estava fora de form a.

Leona foi por um cam inho que só passava um cavalo por vez. Em bora Naari não gostasse, ficasse tentando passar na frente de King, eu a segurei, deslizei o freio sobre a língua dela, troquei m eu peso de lugar para cham ar sua atenção.

Passam os rapidam ente por aquele cam inho até chegarm os a um a clareira extensa, onde, sem com binarm os nada, deixam os os cavalos se m ovim entarem , ficam os de pé nos nossos estribos e os deixam os voar em baixo de nós. Eu estava tão perto de Leona que nossas botas se esbarraram ; era assim que os cavalos disputavam um a corrida, pescoço a pescoço. A lua era um a esfera sobre nós, ilum inando nosso cam inho; por um tem po, não se podia distinguir seu fim , apenas o espaço vazio do cam po até onde a vista alcançava. Deixei Naari à vontade para ir aonde quisesse e senti o frio cortante em m inhas orelhas, e o calor nas m inhas panturrilhas onde elas tocavam o corpo de Naari. Meus cabelos, que eu não tivera a oportunidade de trançar, chicoteavam m eu rosto. Eu podia fazer isso para sem pre, era com o eu m e sentia; e o que m ais se há para dizer sobre galopar? Um a sensação tão perto do m edo. Um passo em falso e Naari poderia quebrar um a perna, e eu certam ente cairia, e m e chocaria contra o chão a um a velocidade im pressionante.

Você não quer que acabe nunca. Eu sabia que Leona se sentia da m esm a m aneira. Naari se m ovia tão rápido em baixo de m im que eu m al conseguia senti-la. Meu pai nos contara que a história era um a lição, um a m aneira de nunca esquecer o que acontecera antes de nós. E agora eu sabia, por experiência própria, que não era possível deixar o passado para trás. Porém , ao galopar naquela noite de Ação de Graças, o prim eiro feriado de Ação de Graças que eu passava longe da m inha fam ília, eu estava deixando o passado para trás. E, por m ais ilusória que fosse essa sensação, quanto m ais rápido íam os, m ais ela ficava para trás.

Naari e eu arrancam os na frente — ela era pequena e com pacta, feita para ser m ais rápida do que King —, m as então senti Leona de flanco, e m esm o sem olhar percebi que ela estava apostando corrida conosco. Antes, eu sim plesm ente deixara Naari correr, m as agora eu pressionava m inhas pernas no seu tronco palpitante e a tocava bem levem ente com m inhas esporas, que era só o que bastava. Ela disparou na frente de King, a quem eu podia ouvir respirando furiosam ente atrás de nós.

Mais tarde, Leona e eu andam os por toda a extensão do cam po, nossas m ontarias esgotadas. Eu nunca havia apostado corrida antes, apenas galopado sozinha com m eu pônei.

— Ela é rápida — disse Leona, o que eu sabia que era m etade um elogio, m etade um a insinuação de que eu não tinha nada a ver com a velocidade de Naari. Mas cavalos não corriam sem j óqueis.

Ela prosseguiu:

— Outras garotas não gostam de m im . — Ela fez um a pausa. — Elas acham que sou fria. —

E eu sabia agora que ela estava falando de Sissy, que usara exatam ente aquela palavra. — Eu não m e im porto com o que elas pensam . Só m e im porto com os cavalos.

Eu olhava seu perfil enquanto ela falava, sua m andíbula quadrada belam ente com pensada pelo nariz em pinado. Olhei para m inhas m ãos, verm elhas e enrugadas por segurar as rédeas tão apertadas no frio.

— Eu sei...

Eu pretendia continuar, m as não consegui encontrar as palavras, deixei m inha voz sum ir na noite. Eu sabia com o era, am ar os cavalos. Mas eu tam bém sabia com o era am ar os hum anos. Eu sabia com o era querer, desej ar tão intensam ente a ponto de ter vontade de j ogar tudo o m ais para o ar. Havia um a razão para eu não estar em casa para o Dia de Ação de Graças este ano. E Leona? Seriam verdadeiros os boatos? Não parecia — ela agia da m esm a m aneira de sem pre. Quieta, im penetrável, forte.

* * *

Eu m e deitei na cam a naquela noite e pensei em m am ãe. A prim eira vez em que m e sentei em cim a de um cavalo eu ainda era um bebê, am arrada na sela na frente de m inha m ãe, no velho cavalo dela, Chikee. Ele m orreu quando eu tinha sete anos, e foi então que m am ãe parou de m ontar de vez. Eu costum ava sentir pena dela, silenciosam ente, por não m ontar. Certam ente ela sentia falta, eu pensava. Certam ente era um a perda.

Eu não m e lem brava de m e contarem exatam ente o m otivo pelo qual m am ãe parou de m ontar, m as tinha um a vaga ideia de que estava relacionado à dor que às vezes a atorm entava, a dor que era resultado de nossos nascim entos. Mas m am ãe não reclam ava.

Mam ãe trouxe Chikee quando se casou. Ele tinha quase vinte e um anos quando m orreu, era idoso para um cavalo. Foi enterrado onde caiu, no pasto; papai teve que contratar vários hom ens para cavar um buraco grande o suficiente para acom odá-lo. Nas fotos, ele é bonito e escuro, com olhos gentis. Mam ãe o adorava. É algo sim ples, am ar um cavalo.

Mam ãe dizia que eu cavalgava com a cabeça, não com o coração. E que cavalgar com a cabeça m e serviria bem em várias situações, m as não ganharia a lealdade duradoura de Sasi. Sem pre considerei essa um a visão rom ântica.

Virei-m e e fitei a j anela. Era com o olhar para nada, a noite estava m uito escura. Eu havia desej ado que ela estivesse com igo. Eu havia desej ado que ela visse com o eu flutuava sobre a terra. Será que ela teria m e am ado, então? Poderia ter m e observado, reconhecendo em seu coração que eu era filha dela, a filha que podia cavalgar de m aneira tão bonita, que se sentava na sela e não interferia no galope de um cavalo, tão rápido quanto o tem po e o espaço perm itissem . Mãe, era com o se estivéssem os flutuando. Mãe, se você não puder m e am ar com o coração, então pelo m enos o faça com a cabeça.

E então um rosto apareceu, e a princípio pensei que havia invocado o espírito de m am ãe com m eus pensam entos. Mas não, era um rapaz. Sentei-m e, o coração disparado, em bora j á tivesse percebido que era Boone. Corri para fora, aliviada pelo ronco de Mary Abbott.

Boone olhou para m im com expectativa, e percebi que ele não devia ter recebido a carta da Sissy .

— Ela não está aqui — eu disse. — Está em Monroeville.

Eu nunca havia estado tão perto dele. Em geral eu o via rapidam ente, reconhecível apenas pelo cabelo verm elho, antes de eu acordar Sissy .

Mas agora eu estava tão perto que pude ver sua expressão m udar, devagar, enquanto eu dava a notícia. Eu sabia que ele tinha que pegar um carro em prestado e dirigir m ais de um a hora para chegar em Yonahlossee. Ficam os parados no lim ite do bosque. Ele pegou um estoj o fino e m e ofereceu um cigarro com a segurança de que eu pegaria um , o que m e levou a fazer exatam ente isso. Depois fechou as m ãos em volta da ponta enquanto o acendia, com um isqueiro prateado, e pude ver por que Sissy gostava dele. Ele era tranquilo e com pletam ente à vontade consigo m esm o.

Ele se apoiou na árvore e m e estudou com seu ar tranquilo. Enquanto isso, percebi que a ponta do cigarro estava recuando rapidam ente e tentei dar um a tragada com o as estrelas de cinem a faziam . Ninguém na m inha fam ília fum ava.

Boone sorriu.

— Você nunca fez isso antes? — perguntou delicadam ente.

Balancei a cabeça, envergonhada.

— Aj a com o se estivesse respirando — ele disse, e dem onstrou.

— Mas com um cigarro — respondi, e ele riu.

Suas roupas lhe caíam de um a form a descontraída: um a cam isa que estava passada, m as não dem ais; um cinto que estava afivelado em volta da cintura estreia, m as não apertado.

Senti de repente com o se estivéssem os fazendo algo pelas costas de Sissy. Ela não gostaria disso; eu com ele.

— Tenho que ir — falei e deixei m eu cigarro cair no chão.

Boone se m oveu para a frente e pensei por um segundo que ele ia m e beij ar; ele am assou o cigarro nas folhas com o sapato e depois recuou, e eu era um a garota tão boba, vendo coisas onde não existiam , acreditando, sem pre, que eu era um obj eto de desej o.

— Thea — falou Boone, e m e chocou um pouco que ele soubesse m eu nom e. — Sissy ...

Duas garotas passaram pela Casa Augusta. Reconheci um a das vozes com o sendo de Jettie.

Virei-m e novam ente para Boone.

— Sissy ...?

— Ela fala algum a coisa?

— Muitas coisas — respondi, e Boone sorriu.

Ele parecia sério.

— Ela gosta de você — continuei. — E você?

Ele confirm ou com um gesto de cabeça devagar.

— Quero ter certeza de que estou fazendo tudo certo.

Sorri. Isso era im possível.

— Eu não m e preocuparia... Mas você deve ir em bora agora. Alguém pode nos ver.

Dei m eia-volta, e ele m e cham ou pelo nom e novam ente. Olhei para trás.

— David? — perguntou ele. — É m eu am igo.

Eu não im aginei que eles conversassem sobre nós com o conversávam os sobre eles. Mas era claro que sim . Encolhi os om bros.

— Vam os ver.

Boone não era o tipo de garoto que pressionava. Ele parecia m uito gentil. Qualquer que fosse a situação em que Boone e Sissy tivessem se m etido — e quem iria saber, na verdade? — pelo m enos ele era gentil. Talvez ela não fosse se arrepender.

Querido Sam,

Estou escrevendo no escuro (exceto por uma lua que mais parece um sol, mais brilhante

que a da Flórida). Todas as outras garotas estão dormindo.

Você comeu bolo de laranja? Tinha velas?

Eu descreveria como é aqui, como é diferente de casa, mas nem sei por onde começar. É

exatamente o oposto de casa. Há tantas garotas.

Fui cavalgar à noite na semana passada. Foi pura diversão, Sam. Às vezes, até esqueço por

que estou aqui, às vezes tudo aquilo simplesmente desaparece.

Eu nunca tinha escrito uma carta para você. Nem recebi nenhuma carta sua. Nunca. Ainda

pareço comigo mesma, Sam? Como seriam suas palavras, fico imaginando. Suponho que

você não vá ler isso. Você pode gostar de fingir que eu não existo, que nunca vou voltar

para casa, e não posso culpar você, Sam, eu não posso de maneira alguma.

Penso em você em casa e imagino se tem feito as mesmas coisas que fazia enquanto eu

estava aí. Fico pensando se você, mamãe e papai têm piadas novas, ou se Idella fez alguma

comida nova. Você não vai saber como é até ir embora também, mas é impossível pensar

que a vida continua sem mim. Isso parece presunçoso? Não é minha intenção. Acho que

você sabe o que eu quero dizer.

Quando você for embora, vai ver que existem outras pessoas no mundo além de mim. E de

mamãe e papai. Convivo com tantas garotas aqui... Centenas delas. Elas têm nomes que eu

nunca tinha ouvido antes: Harper, Roberta, Mary Abbott, Leona. Gosto delas. Não de todas,

mas de muitas. Acho que, quando você vir quantas outras pessoas existem no mundo, não

vai me odiar tanto. Embora eu saiba que você não me odeia — você foi muito claro nesse

ponto. Você odeia o que eu fiz. Mas faz diferença, Sam?

Estou ensinando três menininhas a montar. Bem, uma não é tão menininha — acabou de

fazer doze anos. Mas a minha preferida, Decca, tem sete anos. Ela me lembra você —

Decca tem jeito com animais, todos os cavalos gostam dela de imediato. Ela é tão nova e

não conhece nada. Ela me faz as perguntas mais estranhas. Ontem me perguntou por que

eu era uma garota e não um garoto, como se eu tivesse alguma chance de escolha nesse

assunto. Eu não me lembro muito de mim mesma quando tínhamos seis anos. Mas me

lembro de você.

Você não pode imaginar como eu me sinto sozinha às vezes.

Vou parar antes que fique muito triste. Mas antes, preciso perguntar: nosso primo continua

se recuperando?

Sua irmã,

Thea

Eu sabia que havia um a boa chance de m am ãe ler qualquer carta que eu escrevesse. Ela talvez nem desse para Sam . Eu achava que ela daria, m as não tinha certeza; ela sem pre nos perm itiu ter privacidade, cham ava de nossa autonom ia, com o se tivéssem os qualquer ideia do que aquilo significava. Mam ãe lia livros sobre a educação de crianças e m arcava algum as passagens para papai ler. Ela se considerava liberal. Perm itir que eu e Sam peram bulássem os livrem ente na m aior parte do dia era um a evidência dessa característica, de seu desej o de educar crianças que pensassem e agissem com independência.

Mam ãe havia m e m andado um presente de aniversário, em nom e de todos de casa, em bora eu duvidasse que Sam tivesse algum a participação, e um sinal da parte dele era tudo o que eu desej ava. Um par de brincos pendurados de pérolas, com filigrana de brilhantes. Eram pequenos, m as lindos. Eu os enfiei na gaveta de m eu toucador sem m ostrar para ninguém . Os brincos eram de m am ãe, que os usava em ocasiões especiais. Era um m istério, por que ela os havia m andado para m im . Será que achava que eu teria um a oportunidade de usá-los aqui? Eu teria, provavelm ente, em um baile, m as ela não tinha com o saber. O presente tinha o valor de um gesto, um gesto extravagante, m as eu o via com o era na verdade: um a m aneira de não m e ver. Eram apenas brincos, brincos que ela nunca usava m esm o.

“Seu dia!”, m am ãe exclam ava logo que nos via, na m esa de café da m anhã, beij ando a têm pora de Sam e depois a m inha. “Feliz aniversário para você e para você.”

No ano passado, por nosso aniversário, Idella fez um bolo de especiarias com cobertura de laranj a. Ela fazia a própria essência de laranj a todo ano, a receita de m inha bisavó. No ano passado, m eu presente havia sido um vestido novo e dois livros de m eu pai. Eu queria um perfum e francês, que eu vira em um a revista, e fiquei decepcionada por não ter ganhado. Mas para quem você iria usar, m am ãe havia perguntado, achando graça. Sasi?

No ano passado, as coisas com eçaram a ficar sérias. Sam e Georgie ganharam um rifle de caça, m esm o que não fosse aniversário do m eu prim o. Sam tinha desej ado um estoj o de quím ica que vira em um a revista, não um rifle, e ele havia ficado bastante decepcionado quando lhe entregaram a caixa com prida, claram ente um a arm a.

Meus pais sem pre faziam aquilo, dar a Georgie um presente que com binasse com o de Sam . E m eu prim o e m inha tia e m eu tio estavam sem pre lá, haviam com em orado todos os aniversários conosco. Assim com o nós havíam os celebrado todos os de Georgie com ele. Até m esm o as com em orações de aniversário dele eram feitas em nossa casa, com um bolo que Idella preparava, em bora tia Carrie fosse um a cozinheira m aravilhosa. Nunca parecera estranho. Nossa casa era, claro, onde todos queriam estar. Apenas a presença dos vizinhos do tio George e da tia Carrie parecia intrusa. E tínham os todo o quintal para brincarm os.

Não contei para ninguém sobre m eu aniversário, nem m esm o para Sissy, que estava satisfeita por Boone ter revelado a m im quanto gostava dela.

— Viu? — disse ela. — Ele m e am a.

E tive que concordar, realm ente parecia que sim .

Fiquei pensando no que Sam teria recebido de aniversário. Eu devia ter lhe m andado um livro j unto com a carta; um livro onde alguém com ete um erro e arca com as consequências. Mas esse podia ser qualquer um dos livros que eu adorava: Retrato de uma senhora, A casa da felicidade, A idade da inocência. E Sam não leria um livro m andado por m im .

Em Yonahlossee, nós fazíam os as com em orações depois do j antar, cada garota ganhava um a fatia de um enorm e bolo retangular; m as, felizm ente, m eu aniversário havia passado despercebido. Talvez, nas preparações do Dia de Ação de Graças, tenha ficado de lado. Ou talvez a Sra. Holm es não tenha querido que eu tivesse um a com em oração. De um a m aneira ou de outra, eu estava agradecida.