Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 1 de 23

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Escola de equitação para moças

Mídias sociais

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Sumário

Capa

Folha de rosto

Créditos

Mídias sociais

Dedicatória

1

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9

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23

Agradecim entos

Sobre a autora

Para Mat

1

 

Eu tinha quinze anos quando m eus pais m e m andaram para a Escola de Equitação Yonahlossee. O internato ficava em Blowing Rock, na Carolina do Norte, oculto no m eio das m ontanhas Blue Ridge. Havia o risco de passar pela entrada e não chegar a notá-lo, a não ser que se estivesse procurando por ele, e com cuidado; m eu pai perdeu a entrada quatro vezes antes que, afinal, eu indicasse que tínham os chegado.

Ele m e levou de carro, da Flórida até a Carolina do Norte: m eus pais não confiavam em m im o suficiente para m e deixarem viaj ar sozinha de trem .

No últim o dia do percurso, fom os até a parte m ais alta das m ontanhas, e em determ inado m om ento nossa travessia foi ficando consideravelm ente m ais lenta. A estrada parecia inacabada, estreita e coberta de vegetação; ela era sinuosa e repleta de curvas fechadas.

Meu pai falou pouco durante a viagem ; acreditava que precisava se concentrar m uito na estrada à frente. Havia com prado seu prim eiro carro, um Chry sler Roadster, cinco anos antes, em 1925; logo, um autom óvel não era algo com um para ele, m as inovador. Param os em Atlanta na prim eira noite, e, depois de nos registrarm os no hotel, m eu pai pediu para que eu m e arrum asse bem . Coloquei o vestido de seda lavanda de cintura baixa e pequenas rosas estam padas. Eu usava a estola de visom de m inha m ãe, que eu havia pegado apesar de ela ter m e instruído a não fazê-lo. Quando criança, eu tinha a perm issão de usar a estola em ocasiões especiais — na ceia de Natal, no brunch de Páscoa — e acabei acreditando que era m inha. Porém , agora que eu a usava por conta própria, parecia m ais um fardo, um acessório elegante dem ais para m im . Eu m e sentia j ovem para o vestido, em bora não fosse o vestido, m as m eu corpo que m e fazia sentir daquela m aneira. Meus seios eram recentes e delicados, eu ainda tinha um a postura furtiva, típica de um a garota im atura. Meu pai, em seu terno cinza de risca de giz, não tinha um a aparência m uito diferente da usual, com exceção do lenço verde-lim ão que enfiara no bolso do paletó. Não o verde-lim ão de hoj e em dia, berrante e fluorescente. Naquela época, não havia cores assim . Não, eu m e refiro à verdadeira cor de um lim ão, com um brilho pálido.

Na entrada do restaurante, dei o braço a m eu pai, com o m inha m ãe em geral fazia, e ele m e olhou, espantado. Sorri e tentei não chorar. Eu ainda m e apegava à esperança de que talvez ele não m e deixasse na Carolina do Norte, que tivesse outros planos para a gente. Meus olhos estavam inchados de chorar por duas sem anas, e eu sabia com o era difícil para m eu pai ver alguém chorar.

O país atravessava a Grande Depressão, m as m inha fam ília não tinha sofrido as consequências. Meu pai era m édico, e as pessoas sem pre pagariam por saúde. E, além do m ais, havia o dinheiro da fam ília, do qual m eus pais acabariam por depender. Mas só depois que os pacientes de m eu pai ficassem tão pobres que não pudessem oferecer a ele um tostão sequer em troca de seus serviços. Percebi isso depois que voltei de Yonahlossee. A Depressão tinha um significado diferente para m im quando parti.

Raram ente eu m e aventurava para longe de casa. Vivíam os em um a cidadezinha no centro da Flórida, que recebera seu nom e em hom enagem a um falecido líder indígena. Era insuportavelm ente quente no verão — isso foi antes do ar-condicionado — e refrescante e agradável no inverno. Os invernos eram perfeitos e com pensavam os verões. Quase não víam os nossos vizinhos, m as eu tinha tudo de que precisava bem ali: éram os donos de um terreno de m il acres, e às vezes eu saía de m anhã m ontando Sasi, m eu pônei, com um farnel de alm oço, e só voltava quando o sol se punha, a tem po do j antar, sem ter encontrado vivalm a durante a cavalgada.

E então pensei em m eu irm ão gêm eo, Sam . Eu tinha a ele, acim a de tudo.

Meu pai e eu com em os filé m ignon e beterrabas assadas no restaurante do hotel. Na decoração, o que se destacava eram as j anelas de vidro tão altas quanto o salão. Quando tentei olhar para fora, para a rua tranquila, vi um reflexo borrado de m im m esm a, esquisita e cor de lavanda. Éram os os únicos clientes, e m eu pai elogiou m eu vestido duas vezes.

— Você está adorável, Thea.

Meu nom e é Theodora, um nom e de fam ília. Segundo m e contam , Sam reduzira-o para Thea quando tínham os dois anos. A beterraba estava insossa e dava um a sensação desagradável na língua; tentei não pensar no que m eu irm ão estaria fazendo enquanto eu com ia.

Meu pai m e contou novam ente que em Yonahlossee eu iria cavalgar todos os dias, m enos dom ingo. Agradeci a ele. Eu estava deixando Sasi para trás, na Flórida, m as isso não tinha im portância, porque eu j á estava grande dem ais para ele. Chutava os cotovelos dele quando o conduzia. Naquele m om ento, pensar no m eu lindo pônei pintado m e deixava m uito triste. O pelo dele, segundo m inha m ãe sem pre dissera, tinha um a beleza especial, dividido de m aneira uniform e em m anchas brancas e pretas. Pensei em seus olhos, um azul, outro castanho, o que não era tão raro assim em se tratando de cavalos: se o pelo que circundasse o olho fosse branco, o olho era azul; se fosse preto, o olho era castanho.

Nossa refeição, a últim a que faríam os j untos em um ano, transcorreu quase toda em silêncio. Eu nunca havia com ido sozinha com m eu pai. Com m inha m ãe, sim , diversas vezes, e com Sam , claro. Não sabia o que conversar com m eu pai. Depois de todo aquele problem a em casa, eu tinha m edo de dizer qualquer coisa.

— Você vai voltar logo para casa — disse m eu pai, tom ando café e com endo crem e brûlée — depois que essa confusão toda se acom odar.

E aí foi a m inha vez de ficar surpresa com o com portam ento dele. Bebi m eu café depressa e queim ei os lábios. Em casa, só m e deixavam provar o café da m am ãe. Meu pai raram ente falava de assuntos desagradáveis, de qualquer tipo, pessoal ou de outra natureza. Talvez fosse esse o m otivo pelo qual eu sabia tão pouco a respeito da Depressão.

Ele sorriu para m im , um sorriso doce e contido, e senti m eus olhos se enternecerem . Quando m inha m ãe sorria, todos os dentes da boca ficavam aparentes; o rosto dela se revelava. O sorriso do m eu pai, porém , era algo que precisava ser procurado. Nesse m om ento, seu sorriso significava que ele ainda m e am ava, depois de tudo o que eu tinha feito. Eu queria que ele m e dissesse que as coisas ficariam bem . Mas m eu pai não m entia. As coisas não ficariam bem ; nunca m ais elas ficariam bem .

Eu j am ais iria gostar de um lugar da form a com o eu gostara da m inha prim eira casa, onde eu nascera e vivera até a confusão se iniciar. Alguém poderia subestim ar m eu am or pelo lugar explicando que eu era apegada às pessoas que m oravam lá: m inha m ãe, m eu pai, m eu irm ão. Isso é verdade, eu realm ente am ava aquelas pessoas, m as eu não conseguia m e lem brar de m inha fam ília sem m e lem brar dos j ardins nos quais eles cam inhavam , das varandas envidraçadas em que liam , dos quartos para onde se recolhiam . Eu gostava da casa independentem ente de m inha fam ília. Eu conhecia a casa, ela m e conhecia, nós encontrávam os refúgio um a na outra. Por m ais absurdo que pareça, havia certa m ágica naquele lugar.

Confesso que estava tão triste em deixar a casa quanto em deixar m inha fam ília. Eu nunca m e distanciara por m ais que algum as poucas noites, e tinha absoluta certeza de que ela estaria m udada quando eu retornasse.

Eu tam bém estaria m udada. Quando m eus pais m e encontrassem na estação de trem de Orlando, m uito tem po depois, eles veriam um a pessoa totalm ente nova.

Deixei m inha casa, m inha am ada casa, e fui levada para a Escola de Equitação Yonahlossee, um enclave para m oças endinheiradas, com um a equipe com posta por ex-alunas que aguardavam por um casam ento.

Eu m e tornei um a m oça, com o é costum e dizer na Escola de Equitação Yonahlossee.

* * *

Naquela época, entretanto, eu não sabia nada sobre o lugar, exceto que era para onde m eus pais m e m andaram a fim de não precisarem olhar para m im . Chegam os ao entardecer, um a hora m elancólica que eu sem pre odiara. Por baixo de um a cobertura de carvalhos im ensos, seguim os pela longa estrada de cascalho que parecia não ter fim ; e então m e ocorreu que talvez levasse sem anas até que eu viaj asse por esse cam inho de novo.

Meu pai agarrava o volante com força e piscava, concluindo com cuidado a tarefa que lhe cabia, com o sem pre costum ava fazer. Param os em um a praça — na verdade, era m esm o cham ada de Praça, com o eu viria a saber m ais tarde — de aloj am entos com telhas de bétula, e m eu pai desligou o carro; olhei em volta procurando outra garota, m as não achei. Abri a porta.

— Thea! — cham ou m eu pai, m as ignorei.

Coloquei os pés no chão barrento, tão diferente do solo da Flórida, que agora estava ressecado por causa do verão. O ar tinha um cheiro úm ido, m as não de m aresia. O oceano estava sem pre por perto na Flórida, m esm o que se m orasse a horas de distância dele, com o nós; em Yonahlossee, ficava-se encapsulado, de todos os lados, por m ontanhas.

Observei o prédio à m inha frente enquanto m eu pai aj ustava o carro — ele não se afastava do autom óvel enquanto não se certificasse de que tudo estava desligado apropriadam ente. Mesm o agora. E esse prédio era algo com o eu nunca vira antes, parcialm ente construído na m ontanha. As estacas que o sustentavam m e faziam lem brar patas de cavalos, altas e instáveis, e pareciam incapazes de suportar tal peso. Sem pre tive a sensação de que o prédio poderia cair, iria cair. Mais tarde, m uito m ais tarde, nosso diretor m e contou que esse era, de fato, o m odo m ais seguro de se construir em regiões de m ontanhas. Jam ais acreditei nele.

Com o era dom ingo, todos no acam pam ento j á tinham j antado, m as eu não sabia disso àquela altura e fui tom ada por um a terrível sensação de m edo e solidão. Aquela não era m inha casa, m inha fam ília estava em outro lugar.

Um hom em se aproxim ou, com o se tivesse se m aterializado do nada, e ainda distante dem ais — três, seis m etros — estendeu a m ão para m eu pai apertar. Pensei por um instante que ele lem brava m eu irm ão.

— Meu nom e é Henry Holm es — falou em voz alta. — Sou o diretor.

A prim eira coisa que pensei foi que achei o título esquisito: eu não sabia que acam pam entos de verão tinham diretores. Depois, ele se aproxim ou de nós e prim eiro m eu pai apertou a m ão dele; em seguida, o Sr. Holm es segurou a ponta dos m eus dedos e fez um a ligeira m esura. Inclinei a cabeça.

— Thea — disse m eu pai. — Theodora, m as pode cham á-la de Thea.

Confirm ei com um aceno de cabeça e corei. Eu não estava acostum ada a lidar com estranhos, e o Sr. Holm es era atraente, com brilhantes cabelos castanho-escuros que pareciam precisar de um corte. As m angas de sua cam isa estavam cuidadosam ente puxadas para cim a e, agora que ele estava m ais perto, pude ver que, na verdade, ele não se parecia com m eu irm ão. Sam tinha um rosto aberto e alegre, com olhos arredondados cor de avelã — os olhos de nossa m ãe. Sam sem pre parecia tranquilo, bondoso. O rosto do Sr. Holm es estava um pouquinho tenso, os lábios apertados com o se fizesse um a avaliação. E ele era um hom em , com o som breado de um a barba. Meu irm ão era um m enino.

Naquele m om ento, eu veria o rosto de Sam em qualquer pessoa. Eu havia pegado um de seus lenços com m onogram a, que era algo que adultos nos livros faziam , dar um a lem brança aos entes queridos. Mas é claro que Sam não tinha m e oferecido nada; eu é que tinha tom ado. O lenço perm anecia aberto contra m eu tórax, por baixo do vestido; ninguém no m undo, além de m im , sabia que ele estava ali. Apertei a m ão contra a barriga e fitei o Sr. Holm es nos olhos, conform e m inha m ãe tinha m e ensinado a fazer com estranhos. Eu não conseguia m e lem brar de ter conhecido um hom em com o qual eu não tivesse algum parentesco, em bora certam ente isso deva ter acontecido.

— Estam os contentes que tenha decidido se j untar a nós — disse ele, e sua voz parecia m ais suave quando falou com igo, com o se estivesse tentando m ostrar solidariedade não com as palavras, m as com a m aneira com o elas soavam ao atingirem m eus ouvidos.

Eu lhe disse que tam bém ficava contente de estar ali. Ele deve ter adivinhado que algum fato desagradável fora responsável por m inha chegada a Yonahlossee com a tem porada j á iniciada. Eu estava m e m atriculando no m eio do verão; fiquei im aginando que desculpa m eu pai tinha dado.

O Sr. Holm es nos levou pela alta escada até o Castelo, e, ainda que eu só fosse descobrir m ais tarde que era assim que as pessoas cham avam o prédio, im aginei j á naquele dia que parecia um a fortaleza, im ponente e elegante. A escadaria era descoberta e devia ter acabado de chover, porque a m adeira estava escorregadia. Subi com cautela. Duas lam parinas a gás ladeavam o alto da escada. As cham as gêm eas queim avam , em laranj a e verm elho, dentro do vidro. O Sr. Holm es abriu a pesada porta de carvalho, pintada de azul-m arinho com detalhes em am arelo, as cores da escola, e nos levou até a sala da frente, que funcionava com o refeitório e local de oração.

O Sr. Holm es fez um a pausa diante da j anela frontal envidraçada.

— Tão diferente da Flórida — com entou m eu pai.

Ele sorriu para m im , e vi sofrim ento em seu sem blante. Seus cabelos tinham com eçado a ficar grisalhos nas têm poras no ano passado, e percebi, de repente, que m eu pai ficaria velho.

O Sr. Holm es fez um aceno para que entrássem os em seu escritório, onde m e sentei em um canapé de veludo m arrom , enquanto ele e m eu pai cuidavam dos trâm ites necessários. Eu podia sentir o Sr. Holm es m e observando, m as não levantei o olhar.

Tossi, e m eu pai virou o rosto.

— Você espera lá fora, Thea?

Não era, no entanto, um a pergunta. Saí e cam inhei pelo hall do lado de fora do escritório. De onde eu estava, podia ver as m esas que j á estavam postas para a próxim a refeição, m esas que am anhã de m anhã certam ente estariam cheias de m eninas. Centenas delas. Eu queria m uito estar em outro lugar.

Retornei ao escritório do Sr. Holm es e deparei com um a parede de fotografias que, por algum m otivo, eu não tinha reparado antes. Cavalos e, m ontadas neles, as m eninas. Cheguei m ais perto e li a pequena legenda gravada sob cada foto, toquei o m etal e senti as palavras. Em cada placa, havia o nom e de um cavalo e, em baixo, o nom e de um a m enina e depois, finalm ente, Primeiro Lugar, Torneio da Primavera , e o ano. Algum as fotos datavam dos anos 1800. Os cavalos não tinham m udado m uito, m as as prim eiras m eninas m ontavam de lado, as pernas penduradas inutilm ente para um só lado do anim al. Dava para perceber o passar do tem po, tanto pela qualidade das fotos quanto pelos nom es das m oças, as vestim entas e os penteados; os dois últim os cada vez m enores à m edida que o tem po corria. Tantas pessoas tinham passado por este lugar. A fotografia m ais recente era de um a m enina alta com cabelos louros quase brancos e traços aristocráticos, m ontada sobre um gigantesco cavalo; o conj unto fazia o hom em que estava próxim o a eles, oferecendo o prêm io, parecer um anão. Leona Keller, estava escrito, King’s Dominion, Primeiro Lugar, Torneio de Primavera, 1930.

Notei um a pequena m esa de tam po de m árm ore perto da porta do escritório do Sr. Holm es, com duas pilhas arrum adas de brochuras sobre ela. Escola de Equitação Yonahlossee, dizia a prim eira, Oferecendo temporadas equestres de verão para moças desde 1876. Logo abaixo do texto via-se um a fila de garotas sorridentes, vestidas com blusas e saias brancas, cada um a delas segurando a rédea de um cavalo. As orelhas dos anim ais estavam todas apontadas para cim a, a atenção voltada para algo atrás da câm era.

A princípio, pensei que as brochuras na outra pilha fossem apenas versões anteriores. Nas capas, um a foto do que deve ter sido todo o corpo discente, um a m assa de garotas enfileiradas e em pertigadas, todas fitando a câm era com olhares solenes. Escola de Equitação Yonahlossee, escrito com a m esm a letra, Educando moças desde 1902.

Ouvi um a voz atrás da porta do escritório do Sr. Holm es e m e afastei em direção à j anela. Apoiei um a das m ãos na vidraça, m eu polegar bloqueando m etade de um a cadeia de m ontanhas. A vista era espetacular, eu nunca vira nada parecido. A Flórida era plana e quente, m as, pelo que eu podia ver por esta j anela, aqui havia picos de m ontanhas cinzentos, salpicados de árvores, perfurando as nuvens que perm aneciam tão baixas que não deviam ser nuvens com uns. As nuvens que eu conhecia flutuavam , altas, nos céus.

Eu não estava tão enfurecida assim com m inha situação a ponto de não ser capaz de discernir o que era belo.

* * *

Fui designada para a Casa Augusta. Todos os aloj am entos tinham nom es inspirados em parentes dos fundadores: havia a Casa Mary, a Casa Spivey, a Casa Minerva. O Sr. Holm es nos conduziu, a m im e a m eu pai, pelo m eio da Praça, m as eu seguia um ou dois passos atrás deles, para não precisar falar. As passadas do Sr. Holm es eram enorm es; ele era alto e delgado e m uito m aior que m eu pai, que sem pre fora do tipo baixinho. Sam , que crescera com o um a erva daninha nos últim os m eses, agora estava m ais alto que ele. Meu irm ão deveria estar com endo naquele m om ento, ou — com o saber? — talvez o j antar j á tivesse term inado. Talvez ainda estivesse usando as roupas do dia: short e um a cam isa de linho de botões, o traj e ideal para tornar o sol m ais suportável. Nunca usávam os cam isas com m angas com pridas no verão, m as em Atlanta todo hom em que eu j á encontrara vestia um terno com pleto, apesar do calor. O Sr. Holm es usava um terno agora e tinha saído com papai do escritório vestindo um paletó.

Meu pai cam inhava com passos rápidos, para acom panhar o ritm o, e queria deixar as m ãos nos bolsos, m as as retirava constantem ente, por puro instinto, para m anter o equilíbrio.

Fiquei pensando se seria capaz de reconhecer a parte de trás da cabeça de papai no m eio de um a m ultidão. Sem dúvida eu reconheceria a cabeça de Sam , os cabelos grossos que m am ãe tentava alinhar sem pre que passava perto dele, adotando o hábito de alisar sua cabeça.

O Sr. Holm es abriu a porta da Casa Augusta e entrou prim eiro, m as antes disso se virou e m e deu um leve sorriso; pude ouvi-lo dizer às m eninas que elas tinham um a visita, e quando m eu pai e eu entram os, um instante depois, cinco garotas estavam de pé ao lado de seus beliches, as m ãos às costas, sem esboçar qualquer m ovim ento. Já estava quase escuro agora, e a luz vinda de um a arandela na parede era a única fonte de ilum inação do quarto. Achei estranho que o Sr. Holm es, um hom em adulto, tivesse entrado no aloj am ento cheio de m eninas sem bater. Mas elas sabiam que ele viria. Im aginei o que m ais saberiam .

— Esta é Theodora Atwell, que veio da Flórida para ficar conosco.

Um a após a outra, as m eninas fizeram um aceno com a cabeça, e o pânico tom ou conta de m im . Será que elas faziam tudo assim , em sequência? Com o eu saberia?

— E estas — o Sr. Holm es as apresentou, com eçando com a garota da esquerda — são Elisabeth Gilliam , Gates Weeks, Mary Abbott McClellan, Victoria Harpen e Eva Louise Cray ton.

— Prazer em conhecê-las — eu disse, e todas inclinaram as cabeças ligeiram ente.

Elisabeth, a prim eira m enina, relaxou a postura e quebrou a rigidez estabelecida, e fiquei grata por isso. Eram só garotas, com o eu. Ela colocou um a m echa do cabelo castanho atrás da orelha e sorriu, um sorriso m eio torto. Parecia ter um bom coração. Gostei de seus olhos azuis; eram bem afastados, com o os de um cavalo. Ela seria m inha am iga Sissy .

Fiquei pensando, naquele aloj am ento tão m al ilum inado e que cheirava tanto a m adeira, o que havia trazido cada m enina até ali. Ou quem as trouxera. Cada um a de nós tinha um a cam a num beliche, um pequeno arm ário, um lavatório, um a escrivaninha, um toucador. As m onitoras da casa dividiam um quarto em outro aloj am ento; nós, as m eninas, ficávam os com pletam ente sozinhas. Peguei a m ão do m eu pai, que estava ao m eu lado, e esperei que as outras m eninas não m e considerassem infantil. O aperto dele m e surpreendeu, e então percebi que era verdade, que ele realm ente iria m e deixar ali. Puxei m inha m ão e dei um passo à frente.

— Estou feliz por estar aqui.

Meu pai m e deu um beij o no rosto e m e apertou contra ele, em um a espécie de m eio abraço esquisito; eu fiquei constrangida em vez de triste, todas essas m eninas nos observando. O Sr. Holm es desviou o olhar, educadam ente. Então eles saíram , e fiquei ali sozinha, naquele quarto cheio de garotas, m e sentindo aterrorizada. Eu estava acostum ada ao sentim ento de m edo — ele se infiltrava em m eu cérebro cada vez que eu tentava um salto m ais alto —, m as tratava-se de um m edo acom panhado de certa excitação.

Eu observava os rostos ilegíveis de todas as garotas enquanto elas m e observavam e eu sentia um m edo que nunca sentira antes. Não havia para onde fugir, não havia ninguém para m e consolar, a não ser eu m esm a. Com ecei a cruzar os braços na frente do peito, m as então o instinto m e interrom peu: não queria que nenhum a delas percebesse que eu estava com m edo.

— Theodora? — perguntou a m enina bonita m eio cheinha, e m e lem brei de seu nom e. Eva.

— Thea — balbuciei. Mas eu não vinha de um a fam ília que balbuciava. Pigarrei. — Thea. Um apelido.

— Bem , assim é m elhor — retrucou Eva, e riu. — Theodora é grande dem ais.

Hesitei — será que ela estava caçoando do m eu nom e? Mas então ela deu um tapinha no beliche ao lado dela.

— Este é para você. Você fica por baixo.

Sissy riu. O som m e sobressaltou, depois m e confortou.

— Você j á dorm iu em um beliche? — perguntou ela. — Eu tam bém durm o na parte de baixo. É pior, m as você chegou tarde.

Apontei para m inha m ala, que perm anecia ao pé da cam a; apontar indicava falta de m odos, agora as m eninas iam pensar que eu era m al-educada, m as parecer sem educação era m elhor do que explicar por que eu tinha chegado tão tarde.

— Minha m ala j á está aqui.

— Foi um dos hom ens que trouxe — Mary Abbott se m eteu na conversa. A voz dela soava débil.

— Mas não o bonitão! — acrescentou Eva, e Sissy riu.

Gates, sentada à m esa escrevendo algo — um a carta? para quem seria? —, virou-se e percebi que ela não aprovava aquilo.

— Ah, Gates — disse Eva. — Não sej a tão séria. Só estam os conversando. — Eva se voltou para m im , languidam ente; ela se m ovim entava com o se não ligasse para nada no m undo. — Existem dois hom ens aqui que se incum bem das tarefas. Um é m uito bonito. E o outro... você vai ver.

Senti m eu rosto ficar quente e im ediatam ente cam inhei até a cam a, de m odo que as outras m eninas não reparassem . Eu corava facilm ente. Ocupei-m e da m ala e, depois de um m om ento, notei que todo m undo estava se trocando, vestindo a cam isola. Tirei m inhas roupas depressa — nunca na vida outra garota tinha m e visto nua. Só m inha m ãe, e ela não era um a garota. Tom ei cuidado de esconder o lenço quando tirei a roupa — elas iam m e achar infantil se vissem que eu tinha escondido um pedaço de tecido de m eu irm ão entre m inhas roupas. Ou pior do que infantil: esquisita.

Nossas cam isolas eram todas iguais — a m inha fora colocada em cim a da cam a: um vestido solto de algodão m acio, com decote em V, bainha na altura da canela, as iniciais EEY bordadas acim a de peito esquerdo. Sobre nossos corações. A cam isola que eu trouxera tinha gola alta, punhos franzidos e ia até o tornozelo. Teria m e denunciado im ediatam ente. Minha m ãe m e dissera que eu usaria uniform e; por isso, não precisei colocar m uita coisa na m ala. A ideia tinha m e deixado enfurecida. Eu seria tratada com o todo m undo! Mas agora eu estava satisfeita. Não sabia que m inha cam isola era com pletam ente inadequada.

As m eninas saíram aos pares — Eva e Sissy, Gates e Victoria — até que só restam os Mary Abbott e eu. Não tive escolha a não ser segui-las. Eu não queria perguntar para onde estávam os indo, m as o fiz.

— Para as latrinas. Sei o que está pensando: com o não tem os um banheiro em nosso aloj am ento? — perguntou. Ela baixou a voz com o se estivesse conspirando: — Eles acham que é bom para nós. — Seu sotaque sulista era bem forte. O Sr. Holm es tinha sotaque, m as não eu conseguia defini-lo. Ele falava em um tom entrecortado, o oposto de com o falava todo m undo na Casa Augusta. Eu não tinha sotaque algum , não em com paração a essas m eninas. — Pelo m enos tem os água encanada. E água corrente para os banhos.

Concordei com Mary Abbott, insegura sobre a m elhor m aneira de responder. Eu sem pre tivera água encanada e água corrente.

Eva e Sissy passaram por nós ao retornarem para o beliche, assim com o outros pares de m eninas. Parecíam os fantasm as naquelas cam isolas, e odiei aquele lugar, odiei aquelas garotas, m eu prim eiro sentim ento claro e inconteste desde que eu chegara. Apertei m ais o xale em volta dos om bros e odiei m inha m ãe.

O recinto das latrinas estava im pecável — o que m e deixou grata. Não quis esperar por Mary Abbott, corri de volta para o beliche sem precisar cruzar olhares com ninguém . Quando tínham os passado por Eva e Sissy, percebi pelo m odo com o sorriram que Mary Abbott não era alguém que eu iria querer m anter com o par. Eu j á estava deitada quando Mary Abbott entrou; ela m e olhou por um longo segundo, um olhar tristonho, pensei, m as não havia m otivo para isso, porque ela só m e conhecia há um a hora — e então alguém entrou no aloj am ento, j ovem dem ais para ser um a m ulher, velha dem ais para ser um a m enina. Ela m al olhou para nós. Quando m e avistou, fez um aceno com a cabeça:

— Theodora Atwell. Fico contente de ver que j á se acom odou. — E apagou as luzes. — Boa noite, m eninas — disse ela em voz alta ao sair do quarto.

— Boa noite, Henny — respondeu todo m undo, em uníssono.

As m eninas desej aram boa-noite, um as para as outras, em sussurros sonolentos; achei que j á tivessem term inado quando Eva falou:

— Boa noite, Thea — sussurrou ela, e todas as outras m eninas seguiram a deixa, m eu nom e sendo m urm urado cinco vezes, e pareceu surpreendente que eu soubesse que voz pertencia a quem ; pareceu surpreendente que essas garotas j á estivessem m e disputando.

A últim a m enina que eu conhecera fora Milly, um a vizinha na Flórida, e ela j á tinha se m udado havia anos. Carregava sem pre um a boneca. Eu a achava m açante, o que em m inha fam ília era a últim a coisa que você gostaria de ser. Outras pessoas eram m açantes; os Atwell eram interessantes.

Sam gostava de Milly, porém . Ela o ficava observando cuidar dos terrários dele, ela o aj udava a cortar os galhos das árvores em tam anhos que facilitassem a lida, ouvia com interesse m eu irm ão explicar com o seu enorm e sapo-boi transm itia veneno das glândulas por trás dos olhos. Apenas Sam era capaz de levantar o sapo; quando eu tentava, ele inchava até atingir o dobro do tam anho norm al. Sam exalava um ar de zelo em que os anim ais confiavam . As pessoas, tam bém .

Não gostei de ver Milly lá com Sam , quando voltei de um a cavalgada. Então roubei a boneca dela e a enterrei atrás da cocheira. Ela nunca m ais voltou à nossa casa.

Sam sabia o que eu tinha feito. Eu fora cruel, e ele detestava crueldade. Acho que m eu irm ão não com preendia isso, o im pulso de prej udicar outro ser vivo. Por isso ele não consegue cavalgar. A ideia de pressionar um a espora contra a superfície suave de um cavalo, ou de levantar um chicote para um anim al estúpido — bem , Sam não conseguia im aginar esse tipo de coisas.

Ele ficou com vergonha de m im , e eu quase fiquei com vergonha de m im m esm a, m as logo Milly foi esquecida, enterrada na poeira da m em ória de um a criança.

Um a das m eninas m urm urou algo sem sentido, falando enquanto dorm ia.

— Shh... — fez Gates —, shh... — E o m urm úrio cessou.

Em nossa prim eira parada em Atlanta, m eu pai e eu dorm im os em quartos separados. Nunca tínham os viaj ados sozinhos antes, então eu não sabia com o interpretar isso, m as em m eu grande quarto de hotel eu chorei, e depois m e dei um tapa por ter sido tão boba e desesperada: não era nada, disse a m im m esm a, recom ponha-se. Eu tinha adorm ecido com o barulho dos autom óveis sob m inha j anela, im aginando se m eu pai ouvia o m esm o som no quarto do outro lado do corredor, im aginando se pelo m enos ele estava acordado para escutar o barulho ou se estava m orto para o m undo.

Os autom óveis do lado de fora da j anela m e fizeram sentir m enos solitária, em bora isso fosse um a tolice — os hom ens e as m ulheres dentro daqueles carros não eram m eus am igos.

Fiquei pensando se Sam ainda estaria acordado, ouvindo os grilos de Em athla. Fiquei pensando o que m ais ele tinha escutado hoj e, o que m ais havia feito. Mam ãe ainda estaria acordada, lendo, escutando o rádio; papai ainda estaria dirigindo, se eu fosse adivinhar, serpenteando cautelosam ente por entre as m ontanhas.

Pensei em m eu prim o, Georgie, e quis chorar, m as não ia m e perm itir. Eu j á tinha chorado o suficiente por um a vida inteira. Por duas vidas inteiras. Três.

* * *

Na m anhã seguinte, fui acordada por um sino. Sentei-m e depressa e bati a cabeça no beliche. O rosto de Eva apareceu perto do m eu, vindo da cam a de cim a.

— Você parece um m orcego — eu disse, e ela m e olhou sonhadora; adm irei sua pele bonita, as bochechas cheias.

Massageei m eu couro cabeludo e esperei que as outras m eninas se levantassem . Porém , ninguém se m exeu por alguns m inutos; em vez disso, perm aneceram na cam a, bocej ando e se espreguiçando. Eu nunca tinha ficado sozinha com tantas garotas por tanto tem po. Mam ãe m andara a m im e Sam para a escola de Em athla durante duas sem anas, antes de decidir que não era boa o suficiente para nós; no entanto, as diferenças entre m im e as outras crianças, filhas de pessoas do cam po, ficaram bem claras. Aqui eu não sabia com o m e posicionar.

Todas as m eninas pareciam atordoadas, deitadas nas cam as. Eva era a m ais alta de todas; Mary Abbott, a m ais baixa. Victoria era a m ais m agra, m as era m agra dem ais, com um a clavícula tão acentuada que ela parecia desnutrida. Meu cabelo não era escuro nem claro; eu não era alta nem baixa. Em casa, quase nunca via outras crianças. Papai nos ensinava as lições, e quando Sam e eu chegávam os a ver outro m enino ou outra m enina na cidade, eles sem pre nos olhavam de perto, porque éram os gêm eos e parecidos de um a form a estranha: am bos tínham os o nariz forte de nosso pai, e as m açãs do rosto altas e largas. Nossos rostos pareciam esculpidos, m am ãe dizia. E am bos tínham os os cabelos de m am ãe, de um castanho-averm elhado vivo e grosseiram ente ondulados. Pareciam o m esm o, quando você tocava. Nossa sem elhança fazia com que cham ássem os atenção onde quer que passássem os. Aqui, sem Sam , eu era com o qualquer outra pessoa, exceto pelo fato de ser um pouco m ais bronzeada, por causa do sol da Flórida.

Outra pessoa entrou, claram ente um a criada — eu soube por causa do uniform e.

— Bom dia, Docey — disse Eva.

Docey sorriu rapidam ente na direção dela e então despej ou água em cada um de nossos lavatórios. Depois, todo m undo se levantou e se dirigiu até eles — que eram lisos e sim ples, feitos de nogueira, m as com as vasilhas lindam ente pintadas com flores delicadas. A borda do m eu estava lascada. Docey era m enor do que qualquer um a de nós. Eu diria que ela não tinha m ais do que um m etro e m eio, m as era robusta, com cabelos castanho-claros presos em um coque apertado, e era vesga. Falava com um sotaque bruto e rápido, sulista, m ais confuso do que o das outras. Tem pos depois, eu iria descobrir que sua fala revelava que ela vinha da parte m ais pobre de Appalachia.

Após nos lavarm os e nos vestirm os, atravessam os a Praça em direção ao prédio que eu visitara na noite anterior, com papai. Eu tinha dorm ido com o lenço de Sam em baixo do travesseiro. Eu queria colocá-lo por baixo das m inhas roupas de novo, m as o risco de Eva ou Sissy — era elas que eu queria im pressionar m ais — pudessem ver era alto dem ais. Aparentem ente, pela m anhã, precisávam os estar com pletam ente vestidas antes de sairm os do dorm itório.

Quando coloquei o pé do lado de fora, fiquei chocada com a m assa de m eninas. Havia m uitas, todas vestidas com blusas e saias brancas com golas peter pan, e o m onogram a azul-m arinho EEY bordado sobre o coração. Acho que para m e preparar, m eu pai m e dissera que haveria quase duzentas m eninas, m as eu não estava preparada, não para esse exército. A única coisa que de im ediato as diferenciava era o cabelo — um a garota com cachos apertados espiou na m inha direção e cochichou algo no ouvido da am iga, e percebi que eu estava com um olhar abobalhado. Aproxim ei-m e da m ultidão e procurei m anter o ritm o, procurei acertar m eu passo com o delas. Olhei para as pernas de todas as m eninas e percebi que ninguém usava m eia; da cintura para baixo, todas parecíam os um bando de crianças.

Sissy m e alcançou. Seus cabelos castanhos tinham um m oderno corte chanel. Toquei m eus cabelos, que caíam sobre os om bros. Eu queria aquele corte, m as m am ãe não tinha deixado.

— Você cam inha rápido — disse ela.

Reduzi o ritm o.

— É verdade.

— É quente na Flórida. — A voz dela era rouca; fazia um contraste acentuado com seus traços delicados.

— De onde você é? — perguntei.

— Monroeville.

Ela agiu com o se eu tivesse que saber onde ficava. Fingi que sabia.

— O que seu pai faz? — perguntou ela.

— Ele é m édico. E possui um pom ar de laranj as. — A últim a parte não era tecnicam ente verdadeira, as frutas eram da fam ília da m inha m ãe, m as supus que possuir terras significaria um a vantagem ali.

— Adoro laranj as! — disse e sorriu aquele sorriso torto, que retribuí, ao ver seu entusiasm o.

As laranj as não eram um deleite para m im . Eram um fato consum ado.

— O que seu pai faz? — perguntei.

— Adm inistra os negócios de m eu avô. E m onta a cavalo. Foi por isso que m e enviou para cá, para aprender a m ontar. Mas acho que não levo m uito j eito.

— Não?

— É suj o dem ais — explicou. Depois acrescentou depressa: — Mas não pense que eu sou assim . — E m e olhou de soslaio. — Sim plesm ente gosto m ais de outras coisas.

Fiquei surpresa com o som de m inha risada. Eu não ria há sem anas.

As outras m eninas se aglom eraram ao nosso redor quando entram os no refeitório. Agrupadas em m esas cobertas com toalhas de tecido, elas conversavam , e eu pude perceber que gostavam dali, se sentiam à vontade.

Sissy apontou m inha m esa, onde Mary Abbott, Victoria e Henny estavam sentadas entre outras garotas. Mary Abbott deu um a risada eufórica quando m e viu, eu a retribuí com um pequeno sorriso e, em seguida, escolhi o assento m ais distante do dela.

— Olá, Theodora — disse Henny .

Eu ia falar m eu apelido, m as Mary Abbott se introm eteu.

— Ela atende por Thea.

Henny nem reparou no que Mary Abbott disse e continuou apresentando as outras da m esa, um a m escla de m eninas m ais velhas e m ais novas e um a professora, a Srta. Metcalfe, que tinha um a pele m uito m acia e dentes pequenos e perolados.

Havia pratos quentes — ovos, bacon e presunto, m uffins de fram boesa, m ingau de m ilho — m as eu não tinha nenhum apetite. Na m aior parte do tem po, todo m undo m e ignorou, e fiquei agradecida por isso. Pensei que Sam teria adorado toda aquela com ida; ele com eçara a com er tal qual um cavalo nos últim os m eses. Eu sabia onde ele estaria naquele exato m om ento: fora de casa, cuidando de algum anim al m achucado, ou alim entando os insetos em um de seus terrários, rearrum ando um galho de m odo que um lagarto tivesse um lugar m elhor para tom ar sol. Nem sem pre ele tinha um anim al m achucado para cuidar, m as estava tom ando conta de um ninho de esquilinhos há algum as sem anas. A m ãe deles havia desaparecido.

— Eu posso fazer um a pergunta? — disse Molly , m ais ou m enos no m eio da refeição.

Ela tinha os dentes da frente grandes, o que a fazia parecer m ais j ovem do que era. Seus cabelos castanhos e finos caíam lisos, uns dois centím etros abaixo da cintura. Precisavam de um corte.

— Eu poderia... — corrigiu Henny .

Ela era rechonchuda, com um queixo duplo e um a verruga m al posicionada na têm pora esquerda. Não era feia, m as lá estava a verruga. Eu não gostava de Henny, m as fiquei aliviada com a presença dela, um a quase adulta que, j untam ente com a Srta. Metcalfe, estava ali para m anter a ordem .

Molly continuou:

— Por que você chegou tão tarde?

— Perdão?

— Por que não chegou no início da tem porada, com o todas nós?

Esperei que Henny interviesse, m as ela ficou sentada, quieta, com o as dem ais, m e observando. Alice Hunt Morgan, de Mem phis, Tennessee, passou o dedo pela borda do copo. Eu a cham aria de Alice e ela m e corrigiria: Alice Hunt, ela diria, esse é m eu nom e com pleto. Agora todas esperavam m inha resposta. Estavam curiosas, e eu não podia culpá-las: eu era um a intrusa.

— Foi um presente de aniversário tardio — esclareci. — Estávam os na Europa nas férias porque fica quente dem ais na Flórida durante o verão. — Fiz um a pausa. As m eninas esperaram , as cabeças inclinadas. Molly enrolava um a m echa do cabelo desgrenhado entre os dedos. — Nós vam os todo ano e eu desej ava m uito ir, m as m eu pai queria que eu viesse para cá de qualquer form a. Então ele organizou assim . — Encolhi os om bros, com o se dissesse que tudo estava nas m ãos de adultos generosos e capazes.

— Onde na Europa? — perguntou Molly, m as então as outras m eninas j á haviam se cansado de m im e tinham voltado aos próprios assuntos.

— Paris — respondi. — Adoro Paris no verão.

Molly concordou, satisfeita, e desviou o olhar. Toquei m inha cabeça procurando um ponto dolorido da batida da m anhã, m as não havia nada. Olhei para o outro lado do côm odo e vi Sissy, que sorriu para m im . Sorri de volta.

— Thea — cham ou Henny. Então ela ouvira Mary Abbott; Mary Abbott era um a m enina que costum ava ser ignorada. — Beba tudo. — Ela apontou para m eu leite.

Contem plei o copo, que m al fora tocado. Em casa, bebíam os suco de laranj a ou de toranj a, dependendo da época. Nunca leite. Mam ãe tinha aversão a leite. Às vezes m isturávam os leite ao chá, ou Sam e eu tom ávam os com a sobrem esa. Em Yonahlossee, logo eu iria saber, no alm oço, um j arro de vidro de chá doce gelado, um pedaço de gelo flutuando no âm bar, ficaria perto do prato de Henny, e ela o serviria cuidadosam ente. Esse chá gelado era grosso e xaroposo e, tenho de adm itir, delicioso. Anos depois eu sentiria desej os de beber esse chá gelado, seu peso fresco sobre a língua, o am argor do chá forte com pensado pelas copiosas quantidades de açúcar; eu viria a descobrir que sentir falta do chá doce de Yonahlossee era com o um a tradição.

No entanto, isso viria m ais tarde. Naquele m om ento, eu fitava m eu pálido copo de leite e tentava não chorar.

— Thea — repetiu Henny , a voz baixa, m as eu sabia que iria chorar se olhasse para cim a.

Então senti seu olhar se levantar; todas viraram os assentos na m esm a direção e achei que fosse algum a form a estranha de sair, até que ouvi a voz dele.

— Bom dia, m eninas — cum prim entou o Sr. Holm es.

— Bom dia, Sr. Holm es — todas responderam em coro, m enos eu, e o Sr. Holm es pareceu secretam ente encantado com a reação, m esm o que ele a ouvisse todas as m anhãs.

Depois de transm itir os anúncios da m anhã e liderar um a oração, um a m ulher se aproxim ou de m im , velha dem ais para ser um a m onitora. Era baixa e rechonchuda, com um rosto bonito.

— Sou a Sra. Holm es, a diretora. Acom panhe-m e. — Ela apontou a escada na extrem idade da sala.

Tentei não expressar m inha surpresa, m as ela percebeu assim m esm o, e m e olhou por um instante longo dem ais, de form a que eu com preendesse que havia com etido um equívoco. Porém , eu tam bém sabia que não podia ser a prim eira pessoa a ficar surpresa com o fato de ela ser casada com o Sr. Holm es. Quando a vi de m anhã, pensei que fosse a governanta, ou alguém da equipe de funcionários; m esm o do outro lado da sala, ela aparentava um j eito de m atrona introm etida. Ocorreu-m e que ela era im paciente. Eu a segui, obediente, andando devagar para não ultrapassá-la. A cintura dela parecia anorm alm ente fina, com o se estivesse apertada por algo, e percebi que ela devia estar usando um corselete. Nem m am ãe usava corselete, m as m am ãe era tão m agra que não precisava disso.

O escritório da Sra. Holm es ficava no terceiro andar, e, quando chegam os lá, ela estava sem fôlego. Enquanto ela abria a porta, fiquei perto o suficiente para ver com o seus cabelos castanhos estavam bem presos em um coque; ela estava ficando grisalha, e isso dava para ver de longe.

O escritório era elegantem ente decorado, com o canapé que ela apontou para que eu m e sentasse com o estofado de um padrão de xadrez m oderno.

— Theodora Atwell. Você está na m esa de Henny ? — Antes que eu pudesse responder, ela continuou. — Conheço Henny há m uito tem po. Ela é extrem am ente capaz. — Parecia um aviso. A Sra. Holm es baixou o olhar para os papéis a sua frente. — De Em athla, Flórida. Sem pre achei que ser j ardineiro na Flórida devia ser sublim e. Lá se pode plantar qualquer coisa.

Minha m ãe dizia exatam ente o m esm o. Mas eu não queria pensar nela.

— Todo m undo m e cham a de Thea.

— Ah, eu sei — disse a Sra. Holm es, sorrindo para m im .

Fiquei pensando se o Sr. Holm es j á teria dito a ela com o m e cham ar, se eles conversavam sobre as m eninas. Provavelm ente sim .

— Diga-m e, Thea — com eçou ela, enquanto se acom odava na pequena cadeira de m adeira lustrosa e m e fitava do outro lado da m esa, feita da m esm a m adeira, tam bém lustrada até brilhar —, você está gostando até agora?

— Muito — respondi, porque não havia m ais nada que eu pudesse dizer.

— Os fundadores de Yonahlossee eram pessoas m uito progressistas. Eles abriram este acam pam ento em 1876, onze anos após a Guerra Civil. Por que, Thea, essa foi um a época tão im portante na história de nosso país?

Pelo m enos isso eu sabia. Meu bisavô tinha fugido da Guerra Civil.

— Porque o Sul era inacreditavelm ente pobre. Porque era um a época horrível para essa parte do país. O m undo estava m udando rapidam ente, e ninguém sabia o que aconteceria com o Sul.

Eu a tinha im pressionado.

— Sim . — Ela balançou a cabeça concordando. Depois m e contou sobre Louisa e Hanes Bell, que nunca tiveram filhos, m as que se im puseram a m issão de fornecer um espaço de verão para as m ulheres naquele m undo que m udava tão rapidam ente, disse ela usando m inhas palavras. Lugares com o este só existiam no Norte, para m oças e rapazes, e no Sul, para rapazes, m as os Bell perceberam tal deficiência e decidiram saná-la.

“E depois o acam pam ento virou um a escola, à m edida que crescia a dem anda. — Antes ela soava com o se estivesse repetindo um discurso decorado. Agora ela m e olhava, concentrada, m as eu não sabia por quê. — Então neste m om ento Yonahlossee é um acam pam ento equestre para algum as m oças e escola para outras. Mas em am bos os casos é um local para as j ovens aprenderem a se tornarem dam as. Porque, Thea, tornar-se um a dam a não é algo que sim plesm ente acontece, com o em um passe de m ágica. — Ela estalou os dedos e depois balançou a cabeça. — Não, m uito pelo contrário: tornar-se um a dam a é um a lição que deve ser aprendida.

“Neste m undo de incertezas — concluiu —, um a dam a é m ais im portante do que nunca.

Ela estava se referindo à crise econôm ica, obviam ente. Parecia triste pensar que os Bell nunca tinham tido filhos, principalm ente porque haviam dedicado a vida aos j ovens. Devia existir algo errado com os órgãos de Louisa. Eu não tinha um a ideia exata sobre o que a Sra. Holm es queria dizer: ela poderia até estar falando grego. Um a dam a agora era m ais im portante do que nunca?

— E o nom e? — perguntei, porque a Sra. Holm es m e fitava de m odo esperançoso. — Yonahlossee?

— Ah. — A Sra. Holm es fez um gesto curto com o dedo. — Um velho nom e indígena. Não tem nada a ver com o lugar, na verdade. Era o nom e do cavalo da Sra. Bell.

Esperei que ela continuasse, que dissesse algo sobre atividades ligadas à equitação. Ri com igo m esm a; Sasi tam bém era um velho nom e indígena. Mam ãe dera esse nom e j á que eu não tinha conseguido pensar em nenhum outro. Sasi era um a antiga palavra m uskogee que significa “está aqui”. Com o em “a flor está aqui”. Mam ãe dissera exatam ente isso. Eu m e lem brava de sua voz com toda clareza.

— Espero que você goste daqui. — A Sra. Holm es colocou os cotovelos sobre a m esa e m e encarou com ar franco, as m ãos pequenas entrelaçadas à sua frente.

— Sinto que vou gostar.

E eu tinha gostado, um m inuto atrás, tinha gostado de ouvir a respeito de Louisa Bell; Yonahlossee parecia um lugar m elhor agora que seu nom e fora inspirado em um cavalo. Mas lem brar-m e de m am ãe, e de Sasi, m e deixara chateada de novo.

— Sua m ãe estava certa de que você gostaria.

Fiquei confusa por um segundo — ela tinha lido m inha m ente?

— Sou am iga de sua m ãe. Um a velha am iga.

Im possível. Minha m ãe não tinha nenhum a velha am iga; nós éram os tudo de que ela precisava. Quantas vezes eu a ouvira dizer que ela e papai tinham se deparado com sua utopia particular no interior da Flórida?

— Você tem o cabelo dela — disse a Sra. Holm es, e então percebi que era verdade, que ela tinha conhecido m inha m ãe.

— Frequentam os a escola de etiqueta j untas — ela continuou —, em Raleigh. Da Srta. Petit.

Meus olhos ficaram em baçados, e pensei por um instante que eu estava tendo um a reação alérgica, com o um dos pacientes de papai; alergia a um a picada de abelha, a um a fruta.

Mordi o lábio, e ficou difícil de respirar; então, com ecei a chorar.

— Ah, Thea, eu não queria aborrecê-la. Sua m ãe não lhe contou que nós nos conhecíam os?

Balancei a cabeça, negando.

— Sim , sei tudo sobre você. Ela confiou você a m im , de certa form a. Outro lugar talvez não fosse adequado.

Depois de um instante, a Sra. Holm es perguntou:

— Estam os entendidas, Thea?

Concordei com um aceno de cabeça.

— Por favor, olhe para m im .

Fiz o que ela pediu. Os olhos da Sra. Holm es eram am endoados. Que eu estivesse encarando os m esm os olhos que m inha m ãe um a vez encarara parecia im possível.

— E há outra coisa: se você reparar qualquer coisa fora do com um , qualquer coisa... física, por favor, venha m e procurar im ediatam ente.

— Física? — repeti.

— Física. Espero que você saiba o que quero dizer quando acontecer.

Eu disse que entendia, em bora não fosse verdade.

Enquanto eu cam inhava sozinha em direção às cocheiras, para a avaliação que faria, pensei que talvez ela estivesse se referindo ao m eu ciclo m enstrual. No entanto, eu j á tinha passado por isso e sabia com o agir.

Fiquei feliz que nenhum a m enina tivesse conseguido ver m eus olhos verm elhos; ainda bem que pude cam inhar para m e recom por. O que eu supunha era que Yonahlossee fosse um local ao qual eu tivesse chegado por acaso, pelas circunstâncias.

O cam inho após as latrinas se estreitava e se transform ava em um a aleia com largura suficiente para duas pessoas passarem ; havia árvores de am bos os lados, bloqueando a m aior parte da luz do sol. Estrem eci e fiquei aliviada quando em ergi subitam ente em um am plo círculo de terreno plano, lim itado pelas m ontanhas.

Arquej ei, m esm o sem querer; dissera a m im m esm a que tentaria não ficar surpresa com o que houvesse de novo em Yonahlossee. Mas eu j am ais tinha visto nada parecido; eu nem sabia que algo assim existia. Havia três galpões de pedra, form ando um a fila, e tinham um a estrutura sólida, em com paração com a cocheira da m inha casa, com o se abrigassem um exército de cavalos. A cocheira da m inha casa nem podia ser considerada um a verdadeira cocheira se com parada às daqui — agora eu percebia isso. Os cavalos estavam com as cabeças para fora das j anelas das baias, e vi um apalusa com a cabeça pintada, um a raça sobre a qual eu só tinha lido, nunca tinha visto.

Muitos cavalariços se m ovim entavam por toda parte, em purrando carrinhos de m ão ou puxando cavalos. Um hom em m e flagrou olhando e m e virei, ruborizada; ele parecia um a versão m asculina de Docey , m agro e nervoso, eficiente.

Havia cinco picadeiros de equitação, dois para saltos. Tudo parecia novo e perfeito, os picadeiros recém -revolvidos, as cercas recém -pintadas. Fiquei pensando de onde Yonahlossee conseguia toda a sua verba. As poucas cidades que tínham os atravessado no cam inho pareciam m uito pobres — os prédios caindo aos pedaços, as pessoas suj as —, m as eu sabia que estávam os passando por Appalachia, que afinal era pobre m esm o, independente da crise financeira. Papai m encionou um a estiagem terrível. Outra referência a coisas desagradáveis e pouco características, m as eu aprendia rapidam ente que m inha vida estava se transform ando em um a série de surpresas.

— Inesperado, não é? — um a voz perguntou, e dei m eia-volta para encontrar um hom em de pé à m inha esquerda. A seu lado, havia um cavalo j á selado e com as rédeas.

— O senhor m e assustou — falei, a m ão espalm ada sobre o coração. Eu esperava que m eus olhos verm elhos não m e denunciassem .

O hom em riu. Ele tinha sotaque alem ão; eu havia conhecido um alem ão antes, o Sr. Buch, que visitava m eu pai todo ano para tratar das laranj as.

— O senhor é alem ão?

— Sim . Sou o Sr. Albrecht.

— Meu nom e é Thea Atwell, prazer em conhecê-lo.

Fiz um a pequena m esura, para com pensar m inha rudeza. Reconheci o Sr. Albrecht pelas fotos penduradas na parede. Ele era o hom em que entregava os prêm ios. Era extrem am ente m agro, com um queixo achatado, o que m e surpreendeu. Pensei que os alem ães tivessem queixos quadrados. Mas a pele dele era m acia, para um hom em , e os dentes, alinhados. Ele era, se não bonito, pelo m enos passável. Parecia ter a idade do m eu pai.

— E este — disse ele — é Luther. — Ele afagou o pescoço de Luther, que baixou a cabeça e m e observou.

Luther era um cavalo rústico, de um castanho com um e com um a cabeça grande dem ais e orelhas pequenas. Mas tinha olhos dóceis.

— Ele é o prim eiro cavalo que todo m undo aqui m onta. Seu pai com entou que você é um a am azona experiente.

— Sou, sim .

— Provavelm ente não terá qualquer problem a com Luther. Dê uns tapinhas nele nos saltos, m antenha firm eza nos duplos. Ele vai saltar qualquer obstáculo, m as às vezes refuga se você for tím ida.

O Sr. Albrecht m e aj udou a m ontar, e acom odei-m e na sela enquanto ele aj ustava os estribos. Meu coração estava acelerado, em um a m escla do choque que eu tinha experim entado com a Sra. Holm es e da ansiedade de m ontar na frente de um estranho. Luther era enorm e, cerca de dezesseis palm os de com prim ento, talvez dezessete, o m aior cavalo que eu j á tinha m ontado. Isso não im porta, dizia para m im m esm a. Controle é controle. O Sr. Albrecht traçou o cam inho, e eu o segui até o últim o picadeiro. Ele m e deu dez m inutos para aquecer, e trotei em volta do picadeiro, testando Luther. Puxei a rédea esquerda e ele puxou para trás; dei um tranco violento. O Sr. Albrecht perm aneceu perto do portão, observando. Sua aparência era ao m esm o tem po form al e relaxada; ele estava de pé com as m ãos nos bolsos, a cabeça inclinada, a cam isa branca im pecável, culotes caprichosam ente passados e pregueados.

Tentei ignorar a figura do Sr. Albrecht m e observando cavalgar. Quando ele m e disse que estava na hora, interrom pi o trote de Luther e o fiz passar para o m eio galope; queria os reflexos dele aguçados. Outro hom em havia se j untado ao Sr. Albrecht perto do portão; estreitei os olhos: Sr. Holm es. Ele acenou e inclinei a cabeça. Eu não usava capacete, ninguém usava naquele tem po e, em bora algum as pessoas usassem luvas, elas deixavam m inhas m ãos sem sensibilidade. Os obstáculos que eu devia saltar tinham cerca de um m etro de altura; não tínham os m edo de nada. Não sabíam os que havia algo a se tem er.

Concluí a pista um tanto em botada. Nunca conseguia m e lem brar de m inhas pistas depois de term iná-las, alguém tinha que m e dizer se eu havia deixado cair um obstáculo ou se fizera um a curva errada. Após saltar o últim o obstáculo, trotei com Luther em torno do perím etro do picadeiro esperando aliviar a tensão em am bos os corpos. Aproxim ei-m e do local onde estava o Sr. Albrecht; o Sr. Holm es tinha ido em bora.

O Sr. Albrecht fez um sinal afirm ativo com a cabeça e deu uns tapinhas no pescoço de Luther.

— Deixe que ele esfrie. Você foi bem .

Eu ainda podia ver o Sr. Holm es; ele não tinha alcançado o cam inho no qual seria engolido pela m ata. Fiquei im aginando quanto tem po levaria para que Sam ficasse tão alto quanto o Sr. Holm es. Ele ainda era um a criança, ou em parte criança, em parte adulto, com o eu.

Segurei as rédeas pela fivela nas pontas e deixei Luther baixar a cabeça. Andam os sem rum o em torno do picadeiro. O fato de Yonahlossee não ser um local escolhido ao acaso m e perturbava, m as tam bém confirm ava que o plano de m eus pais estava além de m inha com preensão. Mam ãe tinha escolhido um lugar quase com o um paraíso no que dizia respeito a cavalos; pelo m enos havia isso. O fato de que m inha m ãe pudesse ter sido am iga de um a pessoa com o a Sra. Holm es era quase inacreditável; m as eu tinha que acreditar. Minha m ãe fora cruel com igo nas últim as sem anas de um a m aneira que eu sabia m erecer, m as m esm o assim era difícil de suportar. Meus pais não haviam m e m andado para os braços de estranhos; em vez disso, eles tinham m e enviado para os braços de um a m ulher que conhecia pelo m enos um a parte de m eu terrível segredo. Mas o que m inha m ãe teria contado para ela? Certam ente não tudo.

O Sr. Albrecht tinha desaparecido na cocheira. Parei Luther e desm ontei; depois fiz um a coisa infantil. Chorei sobre o om bro quente do cavalo, salgado de suor, e, pela prim eira vez em sem anas, m e senti reconfortada.