Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 17 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 17

 

Na vez seguinte em que o vi foi a m esm a coisa: ele m andou Decca se afastar e aceitou um drinque de Em m y . Ficam os sentados por um m om ento antes que ele falasse.

— As garotas estão com eçando a pleitear um a vaga para o ano que vem .

— É um processo rigoroso?

— Pode ser. — Ele sorriu.

— Nós som os escolhidas a dedo entre m ilhares?

— Você não foi — disse ele —, m as é verdade, existe certa escolha a ser feita.

Ouvim os as severas advertências de Em m y e as risadas histéricas de Decca vindo do andar de cim a. Frequentem ente a m enina agia assim durante as tardes, com o um cavalo que havia sido confinado na baia durante dias. Alguns m inutos depois ouvi a porta da frente abrir e fechar. Pela j anela vislum brei a figura de Em m y levando Decca através da Praça.

O Sr. Holm es estava em sua cadeira de couro, eu estava no sofá, a quase um m etro de distância.

— Com o é feita a escolha? — Coloquei a m ão no sofá, com o se quisesse dim inuir a distância entre nós.

— Conexões fam iliares. Se sua irm ã tiver frequentado Yonahlossee, ou sua prim a. De que fam ília você vem . Tentam os m anter certa paridade entre os estados. Em bora St. Louis sej a o local m ais ao norte do qual j á tivem os garotas. E então, depois de tudo isso, acho que observam os a garota propriam ente dita. O que os pais dela querem que ela obtenha ao vir para cá.

— O que os pais dela querem — repeti.

— Exatam ente. Eles escrevem a carta, respondem às perguntas no form ulário de adm issão. Em geral, o pai faz isso. Você achou que seria de outra m aneira?

Perm aneci em silêncio.

— Ter alguém tom ando todas as decisões para você é um a m aldição. Mas acho que você conhece bem a situação.

Ele tinha entendido exatam ente o que eu queria saber; ele articulara o que eu im aginava m elhor do que eu faria. Mas parecia distante hoj e.

— Não costum ava ser assim , para m im . — Sorri com m inhas próprias palavras; por que eu estaria defendendo m eu pai? Mas o Sr. Holm es m e olhava com expectativa, então, continuei. — Nunca senti isso, que tudo era decidido para m im , até que m e m andaram para cá.

— Para cá — repetiu ele e parecia perdido em seus pensam entos.

— O senhor gosta? — perguntei. Eu estava perdendo a atenção dele.

— Gosto — respondeu depois de um tem po. — Eu gosto, afinal. O que digo para m im m esm o é que o m undo está m udando rapidam ente, que a educação das m ulheres está se tornando crucial. Mas, na verdade, eu caí neste cargo, e é um a vida bastante agradável, um lugar bastante agradável para as m eninas. Apesar de eu pensar, na m aior parte do tem po, que deveria estar lendo um livro. — Ele fechou os olhos e esfregou as têm poras. — Quando você é j ovem , não pensa que as coisas vão sim plesm ente acontecer em sua vida — disse ele, levantando a cabeça e olhando para m im —, e é exatam ente assim .

Levantei-m e e fui até ele, rapidam ente, de m odo a que eu não m e convencesse a parar. Sentei-m e a seu lado, no pequeno espaço que a cadeira perm itia. E o que m e im peliu a fazer o que fiz em seguida? Se eu tivesse m e afastado, ou se sim plesm ente não tivesse feito nada — bem , tenho certeza de que o Sr. Holm es não teria tocado em m im . Ele havia m e tocado, sim , da últim a vez, m as hoj e parecia que não faria isso; hoj e parecia que iríam os apagar os pecados de ontem . E eu não queria que eles fossem apagados; se ele apagasse a m aneira com o tinha m e tocado — bem , ele apagaria a m im , Thea, o seu breve interesse que eu havia conseguido com tanto esforço. E assim , pousei a m ão no j oelho dele, e virei o rosto para o casaco dele.

Ele não se afastou. O prazer daquele m om ento foi tão intenso que parecia quase insuportável, um presente generoso dem ais. No início, ele estava tenso, m as depois senti que relaxou. Se um a garota do acam pam ento entrasse e nos visse, ficaria chocada, por um breve instante, m as depois pensaria que o Sr. Holm es estava m e confortando; que eu tinha ficado aborrecida, que nosso diretor m e oferecia seu consolo.

Ou talvez eu estivesse m e enganando. Talvez ela com preendesse exatam ente o que estaria vendo.

— É um local bonito.

— É verdade, Thea. — Ele colocou a palm a da m ão na m inha face. A voz dele trem ia. — Não podem os — disse.

— Está tudo bem — m urm urei colada à cam isa dele. Eu estava certa ao adivinhar seus pensam entos.

Ele se pôs de pé, e baixou o olhar para m im .

— Você m e trouxe conforto. Não sei por quê. Não deveria ser assim . Sabe com o está tudo péssim o lá fora? — Ele tinha um a expressão dolorida. — Este lugar aqui corre o risco de fechar, Thea. Vam os torcer para que a Sra. Holm es consiga fazer m ágica na viagem dela, m as estam os pedindo às pessoas um dinheiro que elas não têm ou que querem guardar. — Ele balançou a cabeça. — Mas vam os torcer para que não sej a verdade, vam os torcer para que este sej a apenas o pior ano de nossas vidas. E você tem sorte, j á que o pior ano veio tão cedo. Você não tem nada pela frente a não ser anos cheios de esperança.

Eu ri, e depois m e levantei para ficarm os um de frente para o outro, o Sr. Holm es e eu. Ele levantou um a m ão e pensei que poderia m e tocar, m as então ele afastou um cabelo da testa, e vi que a m ão dele trem ia, e fiquei em ocionada, fiquei desconcertada, fiquei em êxtase: a m ão dele trem ia por m inha causa.

— Por que você está rindo, Thea? — perguntou ele suavem ente. — A vida de todo m undo está ruindo. O que você quer? Eu sei o que eu quero, aqui e agora. Se as coisas não estivessem tão ruins lá fora, talvez eu quisesse m enos. Mas o desespero leva os hom ens a com eter ações desesperadas. Não é assim ? Diga-m e que é assim .

Em vez de responder, eu o beij ei. Mesm o naquele m om ento fiquei chocada com m inha ousadia, m as grata por isso, tam bém . Ele era tão m elhor do que Georgie, tão firm e e delicado. Georgie às vezes era bruto. O Sr. Holm es continuou de pé, olhou para m im , e deu um passo para trás, e não consegui saber se ele estava se afastando de m im ou m e pedindo para segui-lo.

— Leve-m e para algum lugar — sussurrei.

Ele m e fitou por um m om ento, e depois virou a cabeça e olhou pela j anela, e percebi que estava decidindo o que fazer.

— Aonde você gostaria de ir? — A voz dele era solene.

Se não respondi foi porque a pergunta não parecia exigir um a resposta. Porque eu sabia exatam ente aonde eu queria ir. Com ele, a qualquer lugar.

No final, após um a centena de segundos, ou duas centenas, ele m e guiou para cim a, para a biblioteca. Ele se m ovia rápido, quase desaj eitado, com o se estivesse surpreso com o curso dos eventos da tarde. Fechou a porta atrás de nós e passou os olhos em todos os livros enfileirados nas paredes antes de m e deitar sobre o sofá. Ele m e puxou na sua direção e a m aneira com o a m ão dele pousou nas m inhas costas quase m e fez desm anchar; soltei um gem ido, e ele m e beij ou. No final, ele se deitou por cim a de m im . Beij ou m inha boca, m eu rosto, m eu pescoço. Eu nunca tinha sido beij ada daquela m aneira. Senti-m e indefesa, m eus braços presos do lado pelo peso do corpo dele, m as indefesa de um j eito adorável.

O Sr. Holm es oferecia conforto. Mas eu oferecia o m esm o. Nós nos confortávam os m utuam ente.

* * *

Leona m e pegou saindo da Casa do Diretor, no cam inho para a Casa Augusta. Tentei ignorá-la, m as ela não queria ser ignorada hoj e.

— O tem po está m udando — disse, e deslizou para perto de m im . Eu não em iti um a palavra. — Vou fazer um a visita a King. — Ela disse quando estávam os quase chegando ao aloj am ento. — Quer vir?

Todas as outras garotas desapareceram em seus aloj am entos. Eu só estava vestindo um suéter leve, e agora eu o abotoava para m e proteger contra o frio. Um a tem pestade se insinuou o dia inteiro, m as não se cum prira; um desses dias que parecem um a am eaça.

Eu ainda conseguia sentir todo o peso do Sr. Holm es em cim a de m im , m esm o enquanto atravessávam os a Praça, m esm o enquanto eu ficava parada ali, decidindo o que dizer para Leona; com o se agora eu carregasse algum vestígio do que nós tínham os acabado de fazer. Eu m e sentia transform ada.

— Por quê? — perguntei.

— Por quê? Só pensei que você podia gostar. Só pensei...

— Pare. Pensei que ao m enos você, entre todas as pessoas, não teria tolerância para artifícios. Então, pare, por favor.

Algo m udou na postura de Leona.

— Está bem — disse ela, friam ente.

Ela observou um grupo de garotas que passeava. Que ela pudesse agir de m aneira tão despreocupada enquanto discutíam os m e deixava furiosa. Novam ente senti o im pulso de tocá-la, de m agoá-la.

Ela inclinou a cabeça.

— Im agino que você tenha andado ocupada — disse ela — com outros assuntos. Você é um a garota tão ocupada, Thea. — Fez um a pausa, e eu sabia que ela ia dizer algo horrível sobre m im agora, o m otivo pelo qual ela tinha se esgueirado para perto de m im , afinal de contas. — Por que m esm o que m andaram você para cá?

Fiquei im óvel, sem palavras, apalerm ada, consciente de com o eu devia parecer im potente.

Avistei Sissy descendo a escada do Castelo, e cam inhei, quase corri, afastando-m e de Leona e indo na direção de Sissy . Ela tinha m e aniquilado. Leona gritou:

— Mas eu m e esqueci. Você não é m ais um a garota. Você é bem adulta agora, não é? Tem passado tanto tem po com os adultos ultim am ente...

Você não vai nos deixar em breve? Estava na ponta da m inha língua para gritar. Mas não consegui. Parecia m aldoso dem ais, até para m im .

Observam os Leona se afastar, desaparecer no bosque.

— Vai ver King — m urm urei.

— Você soube? — perguntou Sissy .

— Soube o quê? — Pensei que ela ia m e contar que a Sra. Holm es estava prestes a retornar.

— A respeito da Leona.

— Não. — Fiquei aliviada. Ainda teria m ais tem po.

— Ela vai em bora até o início do verão. E quando ela for, King vai ficar aqui.

— Ah, não.

Fiquei horrorizada. Ter que deixar o cavalo quando ela não tinha feito nada de errado. Fui obrigada a deixar Sasi para trás, m as de qualquer m aneira eu j á estava grande dem ais para ele. E, m esm o assim , eu tinha m e sentido péssim a. Porém , um a pequena parte de m im se encheu de satisfação com a desgraça de Leona. Ela era tão m edonha; talvez esse fosse o m otivo por que coisas m edonhas acontecessem a ela.

— Isso é horrível — eu disse, j á que Sissy parecia esperar que eu falasse m ais algum a coisa.

— Não tão horrível com o tudo o que aconteceu com a fam ília dela — disse Sissy, e m e olhou curiosa, e apesar de não concordar, não respondi.

Isso era a pior coisa que poderia acontecer com Leona, obviam ente.

* * *

Na vez seguinte em que encontrei o Sr. Holm es ele m e levou novam ente para a biblioteca, e fechou a porta, e eu tentei agarrá-lo, m as ele interrom peu m eu gesto no ar. Mesm o aquilo, a m ão dele na m inha, causava um a sensação em ocionante.

Eu sabia o que ele estava fazendo, a m aneira com o segurava m inha m ão, com o se interrom pesse um a criança. Ele estava perguntando se eu queria parar. Mas eu não queria parar.

— Em m y saiu? — perguntei.

— Saiu — repetiu ele. — Com Decca.

Eu o beij ei, então, e a ideia de que nós íam os parar, de que nós não nos tocaríam os novam ente, desapareceu, um a nuvem de fum aça.

Ele beij ou m eu pescoço, e desabotoou o prim eiro botão da m inha blusa. A m ão dele trem ia, e eu toquei nela.

— Você é tão adorável, Thea — disse ele, a voz m elodiosa, trêm ula.

Levou m inha m ão até a face dele, e a m anteve ali por um m om ento enquanto m e fitava, e nunca m e senti tão observada, tão cuidadosam ente exam inada.

Puxei m inha m ão e com ecei a desabotoar a blusa, com ecei o processo em que eu ia m e revelar para ele, e o m om ento pareceu tão doce, com pletam ente diferente de tudo o que eu j á sentira antes. O Sr. Holm es tocou m eus seios, e depois m e puxou ao encontro dele e escorregou para o chão de m odo a se aj oelhar na m inha frente.

O m undo hoj e estava escuro, invernoso, o tipo de dia que nunca tínham os na Flórida. Eu só conseguia ver as m ontanhas pela j anela dele, o restante do acam pam ento estava abaixo da m inha linha de visão.

— Thea — disse ele e pegou m inhas m ãos nas dele —, você quer m esm o isso?

E a voz dele estava tão terna, tão suave... Eu queria dar prazer a ele; eu queria que ele m e desse prazer.

Confirm ei com a cabeça.

— Quero — respondi e quase não confiei em m inha própria voz. — Quero.

Ele colocou a m ão por baixo de m inha saia e a deslizou pela m inha coxa até atingir a beirada da m inha calcinha.

— Tire isso — m urm urou ele, e deixei que ele puxasse prim eiro a m inha m eia-calça, depois m inha calcinha.

Eu m e sentia relaxada, sonolenta, m as não cansada. Ele acariciou a parte interna de m inha coxa.

Coloquei as m ãos nos om bros dele para m e estabilizar, e ele levantou o olhar para m im , e vi que tudo iria acontecer com m uita velocidade para nós dois, agora.

— Abra as pernas.

Obedeci. Ele enfiou um dedo dentro de m im , e m e retesei.

— Dói?

Neguei com um gesto de cabeça.

— Aqui — disse ele, e m e puxou para baixo, para perto dele, no tapete. Ele se deitou a m eu lado e abriu as calças. Colocou o dedo dentro de m im novam ente, depois outro, e em purrou m inha saia para cim a.

— Isso — disse. — Consigo ver você. Você é tão... — E acariciou m inha testa. A voz dele era tão suave, tão relaxada.

— Linda.

Ele sorriu.

— Você agora vai elogiar a si m esm a? Eu ia dizer outra coisa. Você é tão...

Esperei. Ele em purrou os dedos m ais forte dentro de m im , e era um prazer tão estranho que eu adorei.

— Excepcional — disse ele. — Linda, tam bém , m as existem tantas m oças lindas. Sej a algo além de linda, Thea.

— Está bem — falei. — Vou tentar.

Ele tirou o sexo para fora e o toquei, m as ele negou com um aceno de cabeça.

— Não, apenas fique deitada assim . Fique deitada assim .

— E sej a excepcional.

— Isso.

Ele m antinha os dedos em m im enquanto se tocava e m e olhava até que gozou, e então pareceu que ele sentia um a enorm e dor de repente, fechou os olhos e disse um palavrão.

Ficam os deitados no tapete j untos, depois de tudo.

— Posso fazer um a pergunta?

— Nada m uito com plicado, por favor — disse o Sr. Holm es.

Ele afagou a m inha m ão. Sorri. Tudo estava tão fácil agora. Se eu pudesse ficar deitada aqui para sem pre, fechar a porta para m inha vida e tudo o que ela continha, eu faria isso. Naquele m om ento, certam ente faria isso.

— Thea? — A voz dele era suave.

— Sr. Holm es...

— Jesus Cristo. Por favor, m e cham e de Henry . Eu suplico.

Virei o rosto para ele e o encarei. Ele colocou a palm a da m ão sobre o m eu tórax.

— Tão forte.

— Sabia que a Sra. Holm es conhecia m inha m ãe?

— Sabia.

Achei que ele fosse ficar tenso — raram ente ele falava da Sra. Holm es —, m as não ficou.

— Você acha que algum dia vai deixar esse lugar?

Ele ficou em silêncio por um bom tem po.

Finalm ente eu disse:

— Desculpe. Eu nunca...

— Não, está tudo bem . De certa form a. Se algum dia vou em bora de Yonahlossee? É um a pergunta que faço a m im m esm o, claro. De certa form a gosto daqui. Quando eu era j ovem , tudo o que queria era sair de Boston. Eu detestava a cidade. E então parti. — Ele parecia perdido em seus pensam entos.

— Para onde? — perguntei.

— Nova Orleans. E então acabei aqui. Pensei que o Sul fosse diferente. E era. Mas não o suficiente. — Ele se virou para m im . — Mas você nunca consegue realm ente ir em bora de casa, não é?

— Eu não queria ir em bora — respondi. — Eu am ava m inha casa.

Ele levantou um a m echa dos m eus cabelos e a exam inou.

— Você tinha cabelos tão longos quando chegou aqui. E depois cortou, com o o restante das m oças. — Ele sorriu. — Você deve ter em m ente que os pecados da j uventude parecem m uito distantes quando você não é m ais j ovem .

Eu não disse nada. Pensei em m inha m ãe, m eu pai, m eu irm ão. Sasi. Meu prim eiro pônei, antes de Sasi, que j á m orrera havia alguns anos.

— Ainda vê sua fam ília? — perguntei.

Ele negou com a cabeça.

— Depois que m eu pai m orreu, Beth e eu nos encontram os com m inha m ãe na Filadélfia, quando Sarabeth era bebê. Mas desde então, não m ais.

— O que o senhor fez?

Devo ter parecido afetada, porque ele se levantou apoiando no cotovelo e tocou m inha face.

— Thea, Thea. Não fiz nada. Meus pais queriam que eu fosse um determ inado tipo de pessoa, m as eu não era. Fui um a grande decepção. Mas... e levei anos para perceber isso... eles tam bém foram um a grande decepção para m im . — Ele m e observava. — Thea, não sei o que você fez, m as veio para cá para que sua fam ília pudesse esquecer. Para que você pudesse esquecer, para que, quando você for em bora daqui, o que aconteceu tenha desaparecido.

— Arruinei m inha fam ília.

— Duvido m uito — disse ele, calm o. — Se sua fam ília ficou arruinada, não foi por sua causa.

— Eles confiavam em m im .

— Quem ?

— Meus pais, m eu irm ão.

— Seu irm ão devia confiar em você, m as seus pais nunca confiaram . Os pais nunca confiam nos filhos. Não sei o que aconteceu exatam ente, e você não precisa m e contar. Acreditei durante m uito tem po que eu havia envergonhado m inha fam ília. Mas é do interesse da fam ília fazer com que um filho acredite nisso.

Ele falava com tranquilidade, m as tam bém firm eza. Ele lecionava um a única m atéria em Yonahlossee, um sem inário de literatura avançada para as alunas do últim o ano. Fiquei pensando se era assim que ele explicava o com portam ento dos personagens dos livros nas aulas. Parecia tão im portante para ele que eu entendesse o que queria dizer.

Aquiesci, m as não disse nada.

— Você percebe m esm o? Você tem dezesseis anos. O que sua fam ília pensa de você pode parecer a coisa m ais im portante. Mas não é. Eles têm os próprios interesses para proteger. Eu gostaria de ter sabido disso antes, o quanto um a fam ília tem que proteger, com o às vezes um filho interfere nisso.

— Agora o senhor sabe.

— Isso foi um a pergunta? Eu sei. Sim , eu sei. — Ele fez um a pausa. — Você tem um irm ão, não é? Ele foi expulso tam bém ? — Mas nenhum a dessas frases era realm ente um a pergunta.

— Tam bém tenho um prim o — eu disse.

— E onde ele está?

Fiz que não com a cabeça.

— Não sei — disse, afinal.

A luz por trás das cortinas estava enfraquecendo. O Sr. Holm es beij ou m inha testa e m e abraçou com força.

— Então seu irm ão está em casa. Seu prim o está em algum lugar desconhecido. E você está aqui. Com igo. — Ele passou o dedo por m eu lábio. — Eles fizeram um a troca, no seu caso, Thea. Eles m andaram você para cá e m antiveram seu irm ão. — Com ecei a falar, m as ele balançou a cabeça. — Não acredite neles — disse, suavem ente. — Nunca acredite no que falam a respeito de você.

Peguei a m ão dele e a coloquei entre m inhas pernas, e ele m e olhou com ar de dúvida, m as depois entendeu, e os dedos dele estavam frios no início. Ele sabia m elhor do que Georgie o que fazer. Ele sabia com o se apoiar no cotovelo, de m odo a poder m e observar. Ele m ovim entou os dedos vagarosam ente, e não fiquei constrangida ou tím ida ao olhar para ele, com o geralm ente acontecia.

— Você está bem m olhada, Thea. E excepcional.

Havia algo no tom de voz dele que eu não conseguia definir.

— Mais rápido, por favor.

— Claro.

Toquei m eus seios e fechei os olhos. Ele sabia com o m e guiar com m uito cuidado por esse cam inho; ele não faria rápido dem ais, ou devagar dem ais. Soltei um gem ido, o que pude fazer porque a casa estava vazia. Eu m e im pulsionava contra a m ão dele, e ele m e em purrava para baixo, gentilm ente. Meus olhos estavam fechados, m as eu conseguia ver assim m esm o — em rápidos lam pej os, vi m inha m ãe, m eu irm ão, Sasi, e depois Georgie, Georgie, Georgie —, e a m ão dele desapareceu, tudo desapareceu, e só havia clarões brilhantes e o rosto do m eu prim o.

Abri os olhos e interrom pi o m ovim ento da m ão dele. Ele m e observava atentam ente. Puxei a cabeça dele para m eu peito, e ficam os deitados assim por um tem po, até que ouvi o sino tocar, e tentei m anter gravado na m ente o rosto de Georgie. Era a prim eira vez em m uito tem po que eu pensava nele e aquilo não m e doía.

* * *

Então: eu sabia que tudo isso term inaria, eu sabia que a Sra. Holm es iria voltar para casa. Estávam os no final de fevereiro. Ela retornaria em m eados de m arço. Mas eu sem pre fora um a especialista em ignorar o inalterável. Às vezes, era com o se Deus estivesse observando, com o se Ele tivesse estreitado os olhos até conseguir enxergar Yonahlossee, abrigada no m eio das m ontanhas. Eu tinha desej ado um a coisa intensam ente, e tinha conseguido, e conseguir só fazia m elhorar.

O inverno estava prestes a sum ir. Levantado, com o um a segunda pele. Docey retirou nossos edredons dos pés das cam as. Nossos cachecóis azuis e am arelos desapareceram dos arm ários, assim com o os suéteres. Nós tam bém m eio que descongelam os; todo m undo parecia m ais bonito, m ais agradável, m ais saudável no ar da prim avera.

Eu passava as tardes na Casa do Diretor, e nossos dias com eçaram a parecer com o anos. Com eçava a dar a im pressão de que nos conhecíam os há m uito tem po. O Sr. Holm es descam ava Yonahlossee de um a m aneira que Sissy não conseguia. Ela era um a das garotas, não tinha a m esm a perspectiva dele. Ele m e contou que o fato de Jettie beber era um problem a conhecido, que a Sra. Holm es j á a teria m andado em bora anos antes se não fosse por Henny, que a convencera que m anter Jettie era um dever cristão. Ele m e contou que eles iam ficar com King em troca da m ensalidade de Leona, que j á não era paga há um ano. Ele m e contou que o pai de Katherine Hay es não ia tão bem quanto Katherine achava, que o avô dela tinha interferido e pagado a m ensalidade dela; que o tio havia se suicidado porque estava prestes a ser preso. Ele gostava das garotas de Kentucky porque elas eram as m enos afetadas. Assim com o as garotas da Flórida, ele dissera e sorrira. Eu tam bém gostava delas.

* * *

Voltei da aula de francês cedo porque não estava m e sentindo bem . Minha barriga estava m e dando problem as: cólicas, era aquela época do m ês.

Docey estava esfregando o piso, as costas arqueadas. Estava cantarolando um a canção sem afinação, m as tinha certeza de que ela havia m e ouvido. Esperei que se virasse, m ostrasse que m e vira, m as ela passava o esfregão de um lado para outro, no m esm o ponto. De costas, ela quase parecia um a de nós.

— Docey ?

Só então ela se virou, m as não disse nada.

— Vou m e deitar um pouquinho. — Parei antes de perguntar se por ela estava tudo bem .

Ela fez que sim com a cabeça e m e observou enquanto eu tirava as botas e atravessava o chão úm ido na ponta dos pés. Ela não se ofereceu para m e aj udar. Minha m eia-calça agora estava m olhada. Deitei de costas na cam a e tirei a m eia, surpresa com a sensação de m inhas pernas nuas contra a m anta. Fechei os olhos e fingi estar cochilando.

Ontem o Sr. Holm es estava m elancólico, m e disse que eu esqueceria este lugar. Mas não conseguia im aginar isso.

O hálito do Sr. Holm es cheirava a gim . Bagas de zim bro, ele m e dissera, o perfum e das sem pre-vivas. Se nós dois tivéssem os nos casado e tirassem um a fotografia do casal, não form aríam os um par estranho. O Sr. Holm es tinha trinta e um anos. As m ulheres se casavam com hom ens com o dobro da idade delas o tem po todo. Os cabelos dele eram grossos e brilhosos — Eva tinha brincado que m orreria para ter os cabelos dele —, seu porte era j uvenil e os lábios, m uito verm elhos. Eu revelava m inha j uventude na m aneira com o m e m ovim entava, em m inha fala e em m eus gestos furtivos. Mas eu não parecia j ovem quando estava im óvel.

Um som estridente. Sentei-m e, desorientada, a boca seca.

— Você estava falando um as coisas — disse Docey. Ela estava lim pando por baixo da m esa de Mary Abbott.

— Estava? — Levantei-m e e m e servi de um copo de água. — O quê?

— Palavras sem sentido. Só isso.

Por um segundo fiquei aterrorizada de ter revelado algo. Já fazia um a sem ana que eu tinha m e encontrado com Leona na Praça. Agora nós nos evitávam os, com o se tivéssem os chegado a um consenso. Repassei m inhas idas e vindas à Casa do Diretor. Não havia possibilidade de ela saber algo. Pensei em Em m y tam bém , m as Leona não era o tipo de garota que iria falar com um a criada. Eu gostava de pensar que havia algum tipo de entendim ento tácito entre nós duas, que ela sabia que eu sabia a respeito de King, que eu lam entava, um a m era form a de piedade. Leona, porém , não queria que sentissem piedade dela.

— Você conhece a Em m y , Docey ? Da Casa do Diretor?

Ela sorriu, quase riu. Eu estava prestes a perguntar novam ente quando ela m e respondeu:

— Em m y é m inha irm ã.

Ela se virou para m e encarar, e m e fitou direto nos olhos pela prim eira vez naquele dia, o olho vesgo m exendo de um lado para outro freneticam ente.

— Eu não sabia.

Docey retom ou o trabalho.

— Eu não sabia — repeti.

Eu devia ter percebido. Observei Docey arrastar o pano velho em cim a da m esa, cuidadosam ente, prestando atenção nos florões e nos puxadores — cuidadosa, m as rapidam ente — e de súbito m e dei conta de que elas falavam de nós.

— Mas seus cabelos são castanhos. — Fiz um a pausa. — Vocês não são parecidas.

E era verdade: Em m y era bonita, Docey , não.

— Você é parecida com sua irm ã?

O tom de voz de Docey estava agudo.

— Não tenho irm ã.

— Não? — Ela parecia surpresa.

Neguei com a cabeça.

— Tenho um irm ão. E nós nos parecem os sim , porque som os gêm eos.

— Um irm ão gêm eo? — perguntou. Foi a prim eira vez que notei satisfação em sua voz. — E com o é isso?

Sorri.

— Só tenho essa experiência — eu disse. — É com o se existisse outro você, em outro lugar.

— Não sei se ia gostar disso.

— Você não gostaria ou deixaria de gostar, se fosse o caso. Seria apenas... com o as coisas são.

Docey não disse nada. Observei seu olho. Fiquei pensando se poderia ser consertado, se havia algum m étodo corretivo disponível, ou se as pessoas vesgas sim plesm ente tinham que viver assim a vida toda. Im aginei o que ela via, logo agora: será que m eu rosto ficava im óvel? Será que ele se m exia, freneticam ente? Mas é óbvio que Docey nunca seria capaz de consertar o olho dela.

Percebi que eu a estava encarando.

— Quantos vocês são? — perguntei e então pensei que talvez ela não m e com preendesse. — Irm ãos...

— Doze — respondeu. — Som os doze irm ãos.

Fiquei atônita. Não podia im aginar doze parentes. Juntando a fam ília de Georgie e a m inha, éram os apenas sete.

Docey riu quando percebeu o choque estam pado em m eu rosto.

— O que eles fazem ? — perguntei.

— O que eles fazem ? — repetiu ela.

Deu de om bros, e com preendi com o Em m y e Docey deviam achar Yonahlossee abom inável. O pai de Mary Abbott, o pastor, escrevera sobre dois m enininhos que m oravam não m uito longe daqui, para o lado das m ontanhas. Eles tinham m orrido porque haviam com ido frutas silvestres venenosas. Todas as outras garotas acharam que eles sim plesm ente não sabiam que eram venenosas, m as é claro que sabiam ; na Flórida, eu sabia exatam ente quais frutos silvestres eu podia com er e quais m e levariam direto para a m orte. Certam ente, esses m enininhos tinham passado tanto tem po ao ar livre quanto eu, ou talvez m ais. Eles haviam com ido as frutas porque estavam m orrendo de fom e. Quis pedir desculpas a Docey , m as por quê? Sorte, fortuna, destino.

De qualquer m aneira, ela tinha se afastado de m im . Abaixara-se e enrolara o tapete que ficava sob a m esa até form ar um rolo apertado. Ela parecia estar prolongando a tarefa. Eu aj udava m inha m ãe a lim par, estava fam iliarizada com o desespero que acarretava, resultante da inutilidade. Era um sistem a fixo de entropia, com o m eu pai explicara j ogando um a m oeda para cim a.

— Você gosta de fazer a lim peza?

Docey riu. Era um a pergunta idiota. Minha m ãe gostava de fazer a lim peza, apreciava ordenar seu m undo. Mas este não era o m undo de Docey ; era o nosso m undo. Eu m e virei para enfiar os sapatos e sair, m as então ela falou:

— Não m e im porto.

Ela estava m entindo, porém ; nós duas sabíam os disso.

* * *

Hoj e ele estava quieto, parecia um enlutado acom panhado de seu copo de gim . A cam isa estava abotoada com os botões trocados, e, em bora o Sr. Holm es estivesse m elancólico, a cam isa o deixava engraçado.

— Vam os lá para trás.

Levantei-m e e o Sr. Holm es m e seguiu. Eu sabia que ele m e seguiria, ele estava em seu m odo passivo.

Era um pouco em ocionante cam inhar por áreas da casa que eu nunca tinha visto — a sala de j antar, até um a sala de estar form al cuj as portas francesas davam para um a varanda. Havia um a m esa perto da j anela, repleta de garrafas de vidro, com os gargalos com pridos. Aproxim ei-m e da m esa. A visão, de perto, era um a m aravilha: um a variedade de plantas exóticas que eu nunca tinha visto, crescendo em garrafas, com o se fossem m odelos de navio.

— Da Beth. — O Sr. Holm es tinha chegado por trás de m im . Lem brei-m e de que a Sra. Holm es adorava j ardinagem . Ele levantou um a garrafa. — Ela encom enda as sem entes.

Im aginei toda a atenção que deviam exigir, as ferram entas especiais, o ato zeloso de cultivá-las. Não pensei que a Sra. Holm es fosse capaz de um a m ágica dessas.

A varanda de trás fora claram ente proj etada para o lazer — havia um bar no canto, e grupos de m esas pequenas com cadeiras. Im aginei os pais das ex-alunas que vinham até aqui com o Sr. Holm es para apreciar a vista e conversar — sobre o quê? O propósito de um lugar com o este. O obj etivo de se dar um a educação às m ulheres. Coisas sobre as quais nós, garotas, j am ais falávam os, nenhum a de nós.

Eu não queria m ais ficar aqui, aonde os pais vinham para falar com o Sr. Holm es a respeito de suas filhas.

— Vam os para fora — propus.

— Estou com um a dor de cabeça terrível.

— O ar fresco alivia — rebati.

Ele abriu a porta-balcão que dava para o bosque atrás da varanda. Do lado de fora, o piso era cheio de pedras, m as isso era bom , porque o Sr. Holm es tinha que m e oferecer a m ão, e ele parecia relutante em m e tocar hoj e.

— Às vezes eu subo aqui, com Naari — eu disse. O Sr. Holm es não disse um a palavra. Eu ainda era cautelosa para m encionar assuntos relacionados a cavalos perto dele. — É m ais fácil quando é ela que sobe.

Ele riu.

— Está se sentindo m elhor? — perguntei esperançosa.

— Não é tão horrível assim . Quando eu era garoto, eu tinha que m e deitar no chão em um quarto escuro. Sem pre no chão, porque por algum a razão eu m e sentia m elhor, e esperava a dor passar. Não havia um a lógica. Às vezes ela desaparecia im ediatam ente, outras vezes levava dias.

— E você tinha que ficar deitado no chão durante dias?

— Na m aior parte das vezes, sim . — Ele parou e se apoiou em um a árvore. — A governanta costum ava se sentar do lado de fora do quarto proibindo qualquer um de entrar. Eu não conseguia suportar nenhum barulho.

Fechei os olhos e visualizei um Sr. Holm es criança, paralisado pela dor, a am a inglesa bloqueando a porta.

— Você tinha um a governanta?

— Tinha. Você parece surpresa. Minha fam ília era m uito rica. É m uito rica. Bom , m enos rica do que costum ava ser, im agino, m as tenho certeza de que eles sobreviveram . — Ele soltou um a risada forçada.

Eu não tinha ficado surpresa. Eu sabia que ele vinha de um a fam ília de recursos.

— Minha fam ília era m uito rica, m eu pai e m inha m ãe viviam na Europa na m aior parte do ano, eu tinha um a governanta. Fui reprovado em Harvard, duas vezes. Então conheci Beth. — Abri os olhos. — E o resto, com o dizem , é história. — A voz dele tinha m udado, estava fria e distante.

— E o resto, com o dizem ... — e fui dim inuindo a voz.

— É história — com pletou o Sr. Holm es. — Fui um a decepção para m eus pais.

— Eu tam bém — eu disse.

— É verdade. Mas existem coisas piores.

Fiquei calada.

— Thea, quando você é j ovem , decepcionar os pais parece ser a pior coisa do m undo. Mas não é. Acredite em m im , não é.

Aquiesci. Cam inham os em silêncio por um m om ento. O ar estava quente, um a sensação de prim avera. Às vezes eu m e ressentia de sem pre ter que usar saia — eu nunca podia brincar tão à vontade com o Georgie e Sam —, m as j usto agora era conveniente, m e perm itia dar passos gigantescos para m anter o ritm o do Sr. Holm es. Pensei que as calças — principalm ente as de lã, com o a do Sr. Holm es — teriam m e incom odado, quentes e sufocantes dem ais.

— Qual é a pior coisa, então? — perguntei hesitante. — Se não é decepcionar a fam ília?

— Decepcionar a si m esm o — respondeu rápido. — Decepcionar a si m esm o — repetiu. — E é tão fácil.

Fiquei rem oendo essa frase — a ideia nunca tinha m e passado pela cabeça. Por que a m inha decepção seria im portante? Meus pais estavam decepcionados com igo. E m eu irm ão, m inha tia e m eu tio. A palavra parecia perturbadora, da m aneira com o as palavras são quando você fica presa a elas m uito tem po — decepção. O que significava realm ente? Com o seria possível, afinal, decepcionar a si m esm o? Eu era o que era. Eu era Thea, um a garota, um a filha, um a prim a, um a irm ã e, agora, um a am iga.

— Você decepcionou a si m esm o? — perguntei.

Ele riu:

— De tantas m aneiras que não é possível contar.

Observei a nuca dele, enquanto ele ficava calado por um segundo. Ele era tão forte, o Sr. Holm es; estávam os subindo um a ladeira íngrem e e a respiração dele perm anecia regular, suas pisadas, seguras.

Pensei que j á tinha esgotado o assunto, m as ele continuou.

— Se eu pudesse voltar atrás, reviver m inha j uventude, com o dizem , faria as coisas de outro m odo. Mas acho que todo m undo faria o m esm o. O segredo é não ficar rem oendo o passado. — Era um a expressão que m eu pai usava. Ele se virou e observei seu perfil. — O passado ficou no passado, Thea. Espero que alguém j á tenha dito isso para você. Mas, se ninguém disse, bem ... é algo que você não deve esquecer.

O Sr. Holm es parou em um grupo de árvores e entrou em um a abertura que eu não tinha reparado. Um a abertura secreta, pensei, enquanto o seguia, para o nosso caso secreto. A ideia m e entusiasm ou. As árvores se abriram e pude olhar direto para o céu. Acho que m etade das transgressões em Yonahlossee é com etida por causa do clim a. E a outra m etade... em hom enagem ao clim a. Peguei no paletó dele, suave ao toque de m eus dedos.

— Onde Em m y acha que estam os? — perguntei.

— Não sei, Thea. — Ele balançou a cabeça. — Você deveria estar na Sala de Estudos, com suas colegas. Não deveria estar aqui com igo.

— Mas é aqui que quero estar.

Ficam os em silêncio por um instante, e eu sabia que, quando ele falasse novam ente, poderia m uito bem dar um fim a tudo isso, m e m andar de volta para j unto das outras garotas.

Em vez disso, porém , ele se abaixou e delicadam ente apanhou um a pele de cobra transparente.

— As cobras estão aparecendo de novo.

Peguei a pele, um tubo longo, suj o e translúcido.

— Esta é velha.

Ele m e olhou, surpreso.

— Existem cobras por toda a Flórida.

— Você não tem m edo?

— Não exatam ente. Deixe as cobras em paz e elas vão deixá-lo em paz.

Levantei o rosto e o beij ei. Beij ei com força, guiando a língua dele; puxei-o para m ais perto de m im .

— Podem os fingir que estam os com pletam ente sozinhos aqui — eu disse.

— Porque realm ente estam os.

O Sr. Holm es beij ou m eu pescoço, e, de repente, estávam os no chão, ele em cim a de m im . Minha saia estava desabotoada, e ele estava sem paletó. Agarrei as calças dele. O Sr. Holm es em cim a de m im , em oldurado pelo céu m ais azul que eu tinha visto, e m e senti com tanta sorte, que ele estivesse aqui com igo, que eu estivesse tendo de novo aquilo que sabia que eu não devia ter.

— Não — m urm urou ele, e, em vez de parar, lam beu m eus seios, depois m inha barriga, e continuou descendo.

Sua boca estava sobre a m inha calcinha, e fiz um m ovim ento para m e sentar. Ele levantou a cabeça e em purrou m eu om bro, com força, até eu relaxar. O que você está fazendo, pensei em perguntar, m as senti que se eu falasse poderia interrom pê-lo. Minhas coxas trem iam , e a língua dele parecia estar dentro de m im . O que era im possível, m as não era, e parecia tão grande, e se m ovia de tal form a, que coloquei as m ãos em cim a da cabeça dele com o se fosse um a bênção.