Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 10 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 10

 

As garotas Holm es esperavam na porta do m eu aloj am ento.

— Olá — disseram elas, quase em coro, e procuraram m inhas m ãos.

Elas haviam parado de fazer reverência após a prim eira sem ana. O Sr. Holm es estava com elas, observando com um a expressão de quem achava graça. As m ãos dele estavam nos bolsos, e ele inclinou a cabeça quando sorriu. Eu não falava com ele desde o Dia de Ação de Graças, algum as sem anas antes.

Percebi os olhares das outras garotas. Thea Atwell e as garotas Holm es, com o Sr. Holm es.

As garotas acenavam para ele enquanto passávam os, garotas com quem eu nunca falara: Roberta, Laura Bonnell, Hattie. O Sr. Holm es as cum prim entava com um m enear de cabeça, m as não tirava as m ãos dos bolsos.

Nas cocheiras, prendi Luther e Bright com cordas, e as garotas os esfregaram freneticam ente, parando apenas para bater os pentes na parede. Bright era um pônei velho e negro, com olhos inteligentes: m uitas, m uitas crianças haviam se sentado em sua garupa. Eu olhava e m ostrava os pontos que elas tinham deixado passar. O Sr. Holm es m antinha um a distância dos cavalos, principalm ente de Luther, o que era engraçado: pôneis eram notoriam ente ariscos; cavalos, dóceis. Todas estavam ansiosas hoj e: Decca levantou o casco de Bright e apontou para sua ranilha m acia, depois m ostrou ao pai com o tirar a suj eira com um a rineta. O pelo sobre a testa de Bright estava em baraçado, e Rachel desfez os nós delicadam ente.

Depois que havíam os selado os cavalos, nós os guiam os ao picadeiro onde cavalgávam os; o Sr. Holm es ficou parado do lado de fora, observando, em um a pose que todos os hom ens pareciam adotar — os braços descansando na estaca m ais alta da cerca; um a perna para o alto apoiada na tábua central, o j oelho dobrado.

O Sr. Holm es observou Decca fazer sua série — a m esm a que eu fazia quando era um a m enininha, que m inha m ãe m e ensinara —, inclinando-se para dentro do picadeiro com o se ele o dom inasse, com o se ele não tivesse m edo de cavalos.

— Suas pernas estão bem fortes, Decca — gritou ele, e Decca aquiesceu, satisfeita.

O am igo alem ão do m eu pai, o Sr. Buch, certa vez m e disse que eu parecia turca, de perfil. Fiquei encantada com o com entário; eu gostava de pensar que parecia alguém de outro lugar. Tive o cuidado de não deixar transparecer, a fim de que Sam não pensasse que eu era vaidosa. Você deveria ser bonita, você deveria ser linda, m as não deveria se im portar com isso.

Fiquei pensando sobre o que o Sr. Holm es pensaria do m eu perfil, se ele j á havia visto um a garota turca. Provavelm ente não.

— Mude o ritm o — gritei para Decca, que estava dom inando a técnica do trote elevado. — Bom — gritei novam ente.

Nós havíam os desenvolvido nossa própria linguagem , ou m elhor, as garotas haviam se tornado fluentes em m inha língua. Ninguém havia caído ainda, nem m esm o chegado perto disso. Eu caía o tem po todo quando era pequena, e por sorte nunca sofrera m ais do que um a torção no tornozelo. Mas eu caía porque era audaciosa, e ninguém tom ava conta de m im . As garotas Holm es eram sem pre observadas.

Mais tarde, depois que elas haviam desm ontado, o Sr. Holm es elogiou o desem penho delas.

— Muito bom , garotas — disse ele, e, em bora Decca e Sarabeth tenham sorrido para ele, Rachel se apertou entre Decca e o pai e pegou a m ão dele.

Ela olhou ofendida, m as então o Sr. Holm es estendeu a outra m ão.

— Tenho duas — disse o Sr. Holm es, e Decca aceitou a m ão dele, e pensei com o eu e Sam éram os diferentes das garotas Holm es, que com petiam entre si, que sem pre, pelo m enos na m inha presença, tentavam ganhar a atenção do pai, tentavam andar um pouco à frente das outras irm ãs.

Mais tarde, as garotas estavam paradas no largo corredor das cocheiras, Bright e Luther presos com cordas, e elas os esfregavam para tirar as m arcas das selas. Eu estava no côm odo onde se guardavam os arreios, de onde eu podia ficar de olho nelas, e lim pava os apetrechos, retirando o suor das cabeçadas, a gram a dos bridões.

— As garotas fazem isso? — perguntou o Sr. Holm es.

Dei um pulo.

— Perdão?

— Desculpe-m e. Entrei sem avisar. — Ele se m oveu para m ais perto, exam inando m eu trabalho braçal. — As garotas norm alm ente fazem isso?

— Elas sabem fazer e Sarabeth faz direito, m as Rachel e Decca são pequenas dem ais.

— Pequenas dem ais para lim par?

— Muito descoordenadas.

O Sr. Holm es anuiu e exam inou m eu trabalho. Ele tinha um cheiro forte, de óleo. Eu tinha experiência em lim par os equipam entos de m ontaria, as fivelas das m inhas cabeçadas brilhavam , as testeiras reluziam . Ele em itiu um som — um suspiro? — e se abaixou cuidadosam ente em cim a de um baú. Esfreguei um crem e nas rédeas e esperei que ele dissesse algo. Mas nenhum de nós falou. Eu podia vê-lo com o canto do olho, e parecia que ele estava m e observando atentam ente, e com ecei a apreciar nosso silêncio, que pareceu sociável, m as não com pletam ente neutro: nós dois estávam os conscientes da presença um do outro.

Mam ãe havia m e ensinado com o lim par os arreios, com o fazer o couro rígido se tornar flexível, com o prolongar a vida dos equipam entos que eram necessários para a m ontaria. Eu havia sem pre cuidado m uito bem de m eus arreios, tinha orgulho dessa tarefa, o que satisfazia à m am ãe. Eu era bem filha dela, de m uitas m aneiras. Nós duas apreciávam os a ordem .

As garotas entravam e saíam com suas selas. Leona entrou, trazendo em baixo dos braços um a m anta de sela ensopada com o suor do King, e inclinou a cabeça na m inha direção. Ela estava m ais calorosa com igo desde nossa cavalgada noturna, m as quase im perceptivelm ente; trocava olhares com igo m ais frequentem ente, acenava com a cabeça quando passávam os um a pela outra no Castelo; na casa de banhos ela havia até m esm o m urm urado algo sobre com o a cavalgada noturna fizera bem a King. Depois que term inam os com os cavalos, o Sr. Holm es nos escoltou de volta à Praça.

— Vou vê-la em breve, tenho certeza — disse ele, e as garotas m e agradeceram , um coro atrás de m im .

Com eçou a chover, de leve.

Acenei.

— Que ótim a oportunidade — disse ele, quando m e virei — para as garotas aprenderem a lidar com os cavalos.

— O prazer é todo m eu.

Lem brei-m e do m eu prim eiro dia aqui, m eses atrás, papai a m eu lado, o Sr. Holm es, um estranho.

Eu não era um a professora tão boa para as garotas quanto m inha m ãe fora para m im . Ela sem pre havia sido capaz de prever o que eu faria depois — com o eu m udaria o peso do corpo na sela, com o eu puxaria a rédea direita em vez da esquerda —, o que Sasi tentaria em seguida, e essa presciência a havia tornado um a professora assustadoram ente boa. Eu via isso agora. Eu não era tão boa em prever o que essas garotas fariam , m as claro que m am ãe m e conhecia m elhor do que eu conhecia as garotas Holm es. Sua presciência se estendia para além do picadeiro: ela sabia quando Sam tinha se apressado com a lição de aritm ética, quando eu havia usado um a toalha boa para lim par um a bagunça. Mam ãe sabia tudo. Mas ela não soubera de Georgie. Tudo aconteceu debaixo do seu lindo nariz.

Eu saí da Casa do Diretor — um chalé charm oso, de verdade, coberto com telhas de vidoeiro — e m e j untei à m assa de garotas que tam bém retornavam do picadeiro. Talvez m am ãe tivesse m e m andado para cá em parte porque ela estava zangada consigo m esm a, por não ter percebido o que estava acontecendo na sua própria casa. Por não m e conhecer tão bem quanto pensava; por não ter interrom pido aquilo.

Sissy correu para m eu lado, ansiosa para saber com o era ensinar com o diretor m e olhando. Eu sorri para ela, a m ultidão de garotas se m ovim entando à nossa volta. Eu era um a delas. Nós pararíam os em nossos aloj am entos prim eiro e trocaríam os rapidam ente de roupa, m as não nos seria dado tem po suficiente para tirar o cheiro dos cavalos.

* * *

Na véspera do Natal, eu era a única garota na Casa Augusta. Até a fam ília de Mary Abbott havia j untado dinheiro para que ela fosse para casa. A m aior parte das garotas que ficaram era bolsista. E então as garotas davam as m ais variadas desculpas: a fam ília delas estava viaj ando este ano; era um a viagem longa dem ais para um período tão curto. Eu dera essa desculpa, exatam ente, e para m im pareceu pelo m enos um pouco concebível: Em athla, na Flórida, era m uito longe de Yonahlossee.

O sino noturno havia soado horas antes, m as eu não conseguia dorm ir. Nem era um a questão na m inha cabeça, se eu voltaria ou não para casa para as festas de final de ano; claro que eu não voltaria. Nós havíam os cantado m úsicas natalinas no Castelo aquela noite, havíam os decorado um a árvore gigantesca. Eu fora poupada de um interrogatório das garotas Holm es, porque todo m undo que não havia ido para casa tinha sentando j unto, em um a m esa com prida; a fam ília Holm es se sentou na ponta oposta à m inha. Decca dera um j eito de se sentar em m eu colo no final do j antar, m as ela era nova dem ais para se preocupar com o porquê de eu não ter ido para casa.

Ouvi um barulho do lado de fora e pensei que pudesse ser Boone novam ente, ignorante da ausência de Sissy. Mas claro que não seria ele — que certam ente estava em casa com sua fam ília perfeita, trocando presentes perfeitos.

Alguém riu, m as o som era assustador. Parecia vir de bem debaixo da m inha j anela.

Ouvi o m esm o barulho novam ente, a m esm a risada, aguda. Fez com que eu m e arrepiasse até os ossos — um a das expressões de m am ãe. Olhei para fora da j anela, com m uito cuidado. Vi as costas de um a garota, vestida com sua cam isola branca, sem casaco, os cabelos rebeldes. Ela se virou e reconheci o perfil agachado: Jettie.

Levantei, m e agasalhei e corri para fora, um dos casacos extras de Sissy na m ão.

— Jettie — sussurrei —, por que você está aí fora?

Entreguei o casaco a ela, que balançou a cabeça. Seus olhos estavam apáticos, e ela levantou um a garrafa cor de âm bar.

— Já estou m uito aquecida — disse ela. — Não preciso de casaco.

Coloquei o dedo nos lábios.

— Por quê? — perguntou ela, ainda m ais alto. — O que poderia acontecer?

Coloquei o casaco de Sissy em volta dos om bros dela e peguei a garrafa. Ela estava se m ovendo devagar dem ais para m e im pedir.

— Se a Sra. Holm es visse você — falei —, ela teria um ataque.

Jettie sorriu.

— Eu acabei de fazer com que Henny m e salvasse. Ela é a queridinha da Sra. Holm es. Elas são farinha do m esm o saco. Pode m e devolver m inha garrafa, por favor?

Sentei-m e ao lado dela.

— Contanto que você fique de casaco — respondi.

— Fechado. — Ela tom ou um grande gole da garrafa, com o um hom em . — Thea Atwell. Você foi o assunto do dia quando chegou. Katherine Hay es disse para todos que aconteceu algum problem a com um rapaz. — Jettie m e olhou de cim a a baixo, sem disfarçar. Puxei m eu casaco m ais apertado em volta de m im . — Mas ninguém m ais se im porta com você. É assim que o m undo funciona.

— Você está bêbada — falei.

— Você está certa. — Ela deu sua risada estranha. — Eu sei por que você não foi para casa, m as você sabe por que eu não fui? Vou contar — continuou ela. — Se você puder guardar um segredo.

— Posso — eu disse, cautelosam ente.

Não tinha certeza se queria saber os segredos de Jettie.

— Meu pai perdeu o em prego. Então agora eu tenho que m e casar. E não quero. — A voz dela se tornou furiosa. — Essa é a últim a coisa no m undo que eu quero. Mas m am ãe diz que preciso. E Henny diz que sou egoísta. O que você acha?

Ela aproxim ou bem o rosto do m eu, e pude notar um a cicatriz esm aecida em sua têm pora.

— O rapaz com quem você vai se casar, ele é legal?

— Não é um rapaz. É um hom em . É velho. Rico. Do ram o de tabaco. E ele é até sim pático, m as não gosto deles. Dos hom ens. Tem algum a coisa errada com igo. Eu preferia ficar sozinha.

Parecia que ela ia chorar. Tom ei a garrafa de suas m ãos e a virei na m inha boca. Quase cuspi, o gosto era forte dem ais.

— Vou dizer outra coisa. — Ela então com eçou a chorar, intensam ente. — Eu não quero ir em bora — disse ela. — Eu não quero sair de perto dela. Daqui. Eu não entendo. Não estam os passando fom e. Não som os m iseráveis. — Seu olhar estava perdido ao longe.

Yonahlossee, um a ilha de garotas ricas no m eio da pobreza. Pensei em Docey, na fam ília dela. Nós tínham os m ontado um a cesta para as operárias: presunto, torta, batatas. A Sra. Holm es dissera que seria entregue a tem po da ceia de Natal.

— Thea — m urm urou Jettie —, a vida é tão difícil depois que você cresce.

— Talvez sej a m elhor — falei, finalm ente.

— O quê?

— Não gostar de rapazes. Hom ens. Eles só trazem problem as.

Ela m e olhou por um longo instante.

— Não sej a boba, Thea.

Sorri, depois derram ei o conteúdo da garrafa no chão enquanto Jettie olhava. Mais álcool a deixaria m ais triste. Ela se levantou então, e foi em bora desequilibradam ente. Ela parecia um pônei: baixa e robusta.

— Lem bre-se — ela falou. — É um segredo.

Passei o dedo pelos lábios, e fiz um gesto com o se j ogasse um a chave fora.

* * *

Acordei na m anhã seguinte e o m undo estava branco.

Deslizei para dentro das m inhas botas e saí sem casaco para encarar trinta centím etros de neve.

— Olá — alguém cham ou, e vi o Sr. Holm es, atravessando a Praça, carregando um a chave inglesa.

Acenei e cruzei os braços. Eu devia ter m e agasalhado m ais antes de sair. Minhas m ãos estavam rachadas. Precisava de luvas, m as não queria escrever para m am ãe pedindo.

— Feliz Natal — desej ou-m e ele. — Um a das tubulações estourou. — Exibiu a chave inglesa. — O Castelo está sem água, e nosso faz-tudo foi para casa para as festas de fim de ano.

Parou quando chegou perto de m im , um a única linha de pegadas atrás dele.

— Eu nunca tinha visto neve antes — falei. — Não assim .

— Não? — Ele olhou em volta, na extensão de branco, branco em todos os lugares, nos telhados, nas árvores, nas m ontanhas. — Eu adoro o frio — disse.

Ele usava um casaco velho, o botão de cim a faltando.

— Im agino que faça você sentir saudade de casa — sugeri.

— Você se lem brou. — Ele parecia satisfeito. — Sim , m e lem bra Boston.

— Eu só conhecia o calor. Mas isso — continuei —, isso é lindo.

E Sam não estava aqui para ver.

— Minha m ãe costum ava dizer que Deus estava zangado quando nevava, m as nunca considerei dessa form a.

— E com o Ele está então, senão zangado?

O Sr. Holm es riu; um a baforada branca.

— Contem plativo. — Fez um a pausa. — Parece que você está gostando de Yonahlossee, Thea.

Confirm ei com um aceno da cabeça. Eu estava ficando cada vez com m ais frio, m as não queria ir em bora. Com ecei a falar, m as parei.

— O que você ia dizer? — perguntou ele.

Havia um pequeno risco verm elho em cim a do lábio do Sr. Holm es, no local onde ele havia se cortado, ao se barbear. Ele e a fam ília celebrariam o próprio Natal, antes de nos j untarm os para cear no Castelo. Eu queria estar lá, com ele. Queria que ele m e convidasse. De repente, eu queria m uito. Por favor, convide-m e, pensei, enquanto ele m e olhava com expectativa; convide-m e.

Mas é claro que ele não convidaria. Eu não era um a Holm es. Fiquei im aginando se esse seria m eu últim o Natal sem m inha fam ília, e entendi nesse instante que não: eu podia ver vários Natais em m eu futuro, desenrolando-se à m inha frente, vazios. Eu não sabia onde estaria, m as sabia que m inha fam ília não estaria lá.

O Sr. Holm es ainda m e olhava, curioso.

— Gosto daqui — eu disse, afinal, e fiz um a pausa. Eu não confiava em m inha voz. — Mas tam bém sinto saudades de casa.

Ele não pareceu surpreso.

— É claro que sim , Thea. Claro que sim .

* * *

Meu presente de Natal vindo de casa: um casaco de caxem ira, cor de vinho escuro, com botões prateados. Alegre, alegre, feliz, feliz, o cartão dizia, a caligrafia de outra pessoa, palavras ditadas por m inha m ãe. A etiqueta tinha o nom e de um a loj a de roupas de Asheville. Segurando na frente de m eu corpo, no espelho, o casaco fazia m eu cabelo brilhar contra o verm elho. Desfiz m inha trança e peguei um punhado: m eu cabelo crescia rápido, estava ficando com prido, grosso. Que estranho retrato eu form ava no espelho prateado, os olhos inchados de sono, os lábios ressecados por causa do frio, o casaco ousado e opulento. Toquei o espelho. Mam ãe nunca havia visto o casaco, a cor. Era um presente extravagante — diferente dela, diferente de m im . Ela deve ter se sentido culpada, não m e levando para casa nem para o Natal. Ela não sabia que eu não iria se eles tivessem convidado.

Enfiei o casaco em um a de m inhas gavetas vazias.

* * *

No Natal passado, não trocam os presentes. Mam ãe alertara a m im e a Sam sobre isso com antecedência e, apesar de eu ter reclam ado a princípio, m am ãe m e lem brara que a fam ília de Georgie estava com problem as — ela usou essa palavra exata, problem as — e nós não queríam os trazer outros para eles. E, além disso, ela acrescentou, nós não precisam os de presentes de Natal; tem os tudo o que precisam os, não tem os? E o que m ais dizer senão concordar, em bora eu tivesse apreciado um a cabeçada nova ou um par de culotes m ais elegante.

Alguns dias antes do Natal, fizem os um a fogueira ao ar livre. A tia Carrie estava de volta do Missouri, a m ãe dela estava m elhor. Ficam os parados em frente ao fogo por um tem po que pareceu longo dem ais. Papai colocou o braço delicadam ente em volta dos m eus om bros. Mam ãe e Idella vieram com canecas de chocolate quente.

— Ah, não — disse tia Carrie, apalpando a barriga roliça.

Observei m eu prim o enquanto eu com ia e tentei fingir com m uito em penho que não estava observando ou interessada em qualquer coisa em especial. Ele ficou perto de Sam , fazendo a vontade dele, aparentem ente. Nós nunca bebíam os chocolate. Era m uito forte; senti-m e pesada com a bebida e derram ei m inha caneca no fogo. Percebi que m am ãe m e observava; por isso, voltei m eu foco para as cham as, as cinzas e o crepitar do fogo.

Estávam os quietos naquela noite. É tentador presum ir que todos sabíam os que estávam os no lim ite de algo.

Georgie ficou longe de m im até que o fogo com eçou a dim inuir e os hom ens decidiram não acrescentar lenha. Eu tinha ficado com calor, e m e sentei a uns trinta ou sessenta centím etros m ais longe da fogueira do que os outros. Georgie saiu do lado da m ãe e se aj oelhou perto de m im , m as perm aneceu em silêncio e fiquei contente. Descruzei os braços — o ar estava cortante — e descansei as palm as das m ãos na gram a fria; Georgie inclinou-se para trás e pousou a m ão seca em cim a da m inha. Estávam os fora do ângulo de visão dos outros, não era um gesto coraj oso. Ficam os sentados assim por dez, quinze m inutos, e o que senti nesse pouco tem po, a ansiedade, o prazer, a sensação assustadora de felicidade — bem , isso tudo ainda era novo para m im . Passara-se um a sem ana desde que m eu prim o havia m e beij ado, e eu era outra pessoa. Ou talvez não outra pessoa, m as, de repente, eu m e im portava com questões com pletam ente diferentes, o que parecia a m esm a coisa.

Nós não havíam os nos beij ado de novo, ou m esm o falado sobre o assunto. Mas Georgie m e tocava, agora, o tem po todo, segurava m inha m ão na cocheira com o se não fosse nada. Nós havíam os entrado nesse j ogo de m aneira tão fácil; e agora eu queria m ais.

* * *

No dia seguinte, sentei-m e sozinha nos degraus da varanda da frente, observando nosso quintal silencioso. Georgie havia substituído Sasi em m eus devaneios. Eu pensava nele agora m ais do que podia im aginar ser possível pensar em algo — o que queria dizer: sem pre.

A porta da frente rangeu. Virei-m e, e Georgie apareceu no batente. Tudo parecia m ágica. Eu estava esperando que ele m e encontrasse, e ele tinha encontrado; havia algo de delicioso na m aneira com o ele m e cortej ava na m inha própria casa, parecia que sem pre conseguia m e encontrar. Quando eu o via agora, quando ficava perto dele, m inha virilha pulsava e eu sentia um a sensação m olhada entre as pernas, que parecia vir quase im ediatam ente. Ele sorriu de volta, m as a cabeça dele estava inclinada que não consegui saber se tinha um ar tím ido ou convencido.

Ele se sentou a m eu lado e colocou a m ão sobre a m inha.

— Nós não devíam os — sussurrei.

— Todo m undo está lá atrás.

Ele beij ou m inha testa, e m e retraí, atordoada, e não consegui saber por quê: se era pelo fato de ele ser tão atrevido, m e beij ando onde qualquer um pudesse ver, m as tam bém pelo prazer dos lábios dele na m inha testa.

— Georgie.

— Eu não posso beij ar m inha prim a na testa? — perguntou.

Era um desafio. Ele parecia tão grande perto de m im ; se fosse um estranho que eu tivesse encontrado na cidade, pensaria que era um hom em j ovem .

Toquei no rosto dele. Eu gostava de ver com o m inha m ão era pequena perto do rosto dele.

— Você fez a barba hoj e de m anhã?

Pareceu em ocionante, ter o direito de fazer essa pergunta.

— Fiz.

Ele agarrou a m inha m ão e a pressionou contra o rosto dele, depois beij ou a base do m eu polegar. Fiquei im aginando onde ele aprendera a fazer tudo isso. Esse Georgie era um estranho para m im .

Passei m eu polegar pelos lábios dele; ele o m ordeu, delicadam ente, e prendi a respiração. Virei a cabeça porque isso tudo, de repente, parecia dem ais, bom dem ais, e fiquei tonta com tal prazer. O grande canteiro de hera na frente da casa pareceu borrado, m as então um ponto claro na extrem idade pouco a pouco entrou em foco: m eu irm ão. Enxuguei a m ão na saia e m e levantei; Georgie pulou e ficou de pé do m eu lado. Acenei para Sam , que dera a volta pela casa sem eu notar. Ele inclinou a cabeça em nossa direção, as m ãos nos bolsos. Tire um a, pensei, tire um a m ão do bolso e m e deixe saber que você não viu nada.

Coloquei a m ão sobre a boca e m e virei para Georgie.

— Não se preocupe — disse Georgie —, ele não viu nada.

Mas era tudo um a suposição, se Sam tinha ou não visto.

* * *

Na véspera de Natal, eu m e sentei entre Georgie e Sam na m esa de j antar.

Eu usava um vestido de seda dourado que m am ãe disse que realçava o verm elho do m eu cabelo. Era a últim a vez que eu iria usá-lo — o corpete ficara desconfortavelm ente apertado, e até que tivesse outra ocasião para usar um vestido tão claram ente feito para um a festa, reluzente e pouco sério, eu estaria alta e larga dem ais. Mas eu queria usá-lo um a vez m ais, e ignorei a sugestão de m am ãe de escolher outro vestido.

Eu tam bém usava a estola de visom de m am ãe. Ela m e em prestava com o se eu estivesse brincando de m e arrum ar para um a festa, o que era verdade, m as agora a estola parecia m ais m inha do que dela. No Natal passado, eu tinha quatorze anos, e as m esm as pessoas estavam lá.

Papai fez a prece. Georgie pegou m inha m ão em baixo da m esa e a segurou, brevem ente. Em m eu rápido inventário pela m esa, as cabeças de todos ainda estavam abaixadas. A últim a parte da prece de papai foi pelo pom ar de laranj as. Isso não era incom um . Mam ãe exalou de form a audível.

— Am ém — o tio George acrescentou —, vam os todos rezar pelas frutas cítricas.

Meu pai olhou para a taça de vinho. Eu sabia que ele estava considerando com o responder, que a taça sim plesm ente estava lhe dando tem po. Parecia que papai sem pre buscava um tem po para si m esm o, ele tinha m ilhares de pequenos truques que costum ava usar antes de falar.

— Você está gracej ando? — perguntou ele.

Era um a palavra tão form al, com o ele estivesse lendo Shakespeare, e senti-m e totalm ente desconfortável.

Georgie observava os adultos, cauteloso; eu queria que ele prestasse atenção em m im , não neles. Toquei na m ão dele, por baixo da m esa.

— Um hom em pode rezar por qualquer coisa que queira, não pode, Felix? — perguntou o tio Georgie.

Meu tio parecia tenso naquela noite, com o todo m undo. O ar estava pesado e você poderia cortá-lo com um a faca — essa frase ficou em m inha cabeça.

Então a m ão de Georgie estava em m eu colo, em m eu j oelho. Pude sentir o calor da m ão dele, m esm o através do vestido.

— Por favor — disse m am ãe.

— Pode, sim — afinal m eu pai respondeu. — Suponho que sim .

Georgie m ovia os dedos para cim a e para baixo em m eu j oelho tão delicadam ente, tão ritm adam ente, que m e dava vontade de gem er. Ele fez isso por tanto tem po — três m inutos, quatro — que fiquei fora do ar. Estava na parte de cim a da coxa, não, estava m ais em baixo, estava subindo dem ais, não estava subindo o suficiente.

Coloquei m inha m ão em cim a da dele e o interrom pi. Era loucura, nos tocarm os na frente de todos, principalm ente na frente do m eu irm ão. Minhas coxas estavam trem endo. Os adultos conversavam sobre a apresentação de Natal de Gainesville, sobre a qual m inha m ãe havia lido um artigo no j ornal; um assunto am eno, escolhido para dim inuir a sensação pesada que se instalara sobre a m esa, e, em bora não estivesse funcionando, em bora a tia Carrie ainda parecesse que fosse cair em prantos, agradeci a Deus que algo desviasse a atenção de todos. Graças a Deus pelas apresentações de Natal, m urm urei, e Georgie riu, baixinho, m as Sam m e olhou de form a esquisita.

* * *

Eu nunca valorizava m uito os sonhos. Sam costum ava acordar com pesadelos, angustiado e com falta de ar, e tudo o que ele m e dizia enquanto eu segurava sua m ão era que estava caindo de um grande precipício, que um segundo antes de atingir o chão ele acordava.

Nunca acreditei m uito nele, porque não conseguia acreditar em um sentim ento tão irreal, fora de propósito, tudo na cabeça do m eu irm ão. Depois da fogueira, adorm eci rapidam ente e sonhei com Georgie, m e tocando. Ele m e tocava por baixo da roupa de baixo, delicadam ente, depois m ais forte, e depois colocava um dedo dentro de m im . Depois dois. Acordei sem saber onde estava, o prazer tão intenso que pensei que ainda estivesse sonhando. Eu estava no auge; coloquei m eus dedos onde Georgie havia colocado, fiquei surpresa em ver com o estava firm e contra a pressão da ponta dos dedos, a pressão que era sentida m ais profundam ente aqui. Depois toquei do lado de fora da calcinha, com o Georgie havia feito. Eu estava m olhada, ensopada. Faíscas brilhantes reluziram contra m inhas pálpebras. Mais, e m ais, depois nada além da pulsação forte, rápida entre as pernas. Esfreguei m inha testa com o pulso, as m ãos precisavam ser lavadas.

Esse tipo de prazer ainda não era um segredo, com o se tornaria m ais tarde. Não, era algo que nunca havia existido, então não havia a vergonha com o consequência.

* * *

Sam m e acordou na m anhã de Natal, deu um tapinha suave no m eu om bro. Prim eiro, pensei que fosse Georgie.

— Se você quiser cavalgar — disse ele —, é m elhor ir agora.

— Tudo bem — m urm urei.

— Feliz Natal — acrescentou, depois de pensar um pouco.

— Feliz Natal — retribuí.

Ele m e observou enquanto eu m e sentava na cam a e esfregava os olhos para espantar o sono. Sorri, e ele sorriu de volta, m as seu sorriso estava distante, de algum a form a. Por um instante, parecia que Sam estava dentro da m inha m ente, que sabia a respeito de Georgie.

Sam inclinou a cabeça, e senti um a incrível onda de alívio: ele não sabia.

Balancei a cabeça, e sorri novam ente, para que ele soubesse que estava tudo bem , e, apesar de Sam ter anuído, eu sabia que ele não tinha acreditado em m im .

Eu queria tentar um novo salto que vinha treinando. No picadeiro, os com andos eram quase invisíveis, deveria parecer que você e o cavalo estavam em com pleto e silencioso acordo. Mas aqui fora, com o picadeiro atrás de nós, Sasi m e escutaria se eu sacudisse m eu corpo e j ogasse m eu peso, batesse as pernas contra o corpo dele, gritasse. Era um a m aneira feia de m ontar, m as parecia m ais genuína.

Eu havia deixado m inhas esporas na cocheira. Quando apertei as pernas contra os flancos de Sasi, geralm ente um com ando que ignorava, ele explodiu em um trote elaborado, o pescoço arqueado, as orelhas para a frente, prestando atenção em tudo, m enos em m im .

Eu tinha vindo aqui fora exatam ente por essa razão: precisava de poder, precisava que ele saltasse o m ais alto que j á conseguira, não por m im , m as porque o salto estava apontando para o grande e m isterioso além .

Assim que virei, percebi que dera m ais espaço do que deveria — um a linha reta com prida dem ais, tem po e razão dem ais para que ele corresse para longe, para que eu perdesse o controle. Mas senti, por baixo de m im , que ele unia as pernas, em nítida expectativa pelo salto.

— Sim , sim , sim — m urm urei, no ritm o de seu m eio galope.

Minha trança pulava nas costas, m inha visão se estreitou, e eu só estava consciente da m aneira particular com o os cascos de Sasi tocavam no chão — o som forte que fazia — e a distância dim inuindo entre nós e o obstáculo. Era tudo instinto agora, não havia nada que ninguém pudesse ensinar sobre aquele instante antes de sair do chão.

— Agora — eu disse, e nós voam os.

Desej ei que Georgie estivesse aqui, olhando. Então o om bro esquerdo de Sasi se abaixou e caí, na gram a úm ida, m as eu ainda estava com as rédeas, não as tinha soltado.

— Tudo bem — eu o tranquilizei —, tudo bem .

Ele m eio que m e puxou, m eio m e arrastou, andando para trás, assustado, m as tam bém consciente da oportunidade: se ele conseguisse se livrar de m im , poderia correr para longe, ouvir seu cérebro, a parte profunda que lhe dizia para ir, a qualquer custo.

Mas eu segurei. Eu am ava esse pônei; não o deixaria ir por nada. Depois que ele se acalm ou, m ontei novam ente. Coloquei-o na linha do obstáculo pela segunda vez, e saltam os sem qualquer incidente, com o eu sabia que faríam os. Era assim que m inha m ente trabalhava, era por isso que eu era coraj osa em situações em que outros não teriam m ontado outra vez. As estrelas não se alinhariam para tirar Sasi do equilíbrio de novo, não duas vezes no m esm o dia. Caía-se de vez em quando porque era esperado, você m ontava em um cavalo e esperava que ele fizesse coisas que ele não faria naturalm ente. Caía-se um a vez a cada centena de saltos lim pos.

Subi sorrateiram ente depois de ter refrescado Sasi e o alim entado com sua ração m atutina de aveia. Parei na porta do quarto do m eu irm ão e abri um a fresta.

Sam havia voltado para cam a, Georgie dorm ia em um estrado com colchão no chão. Eu fiquei surpresa por eles estarem dorm indo separados — a cam a de Sam era grande, havia espaço suficiente para os dois.

Os braços e as pernas de Sam estavam dobrados em ângulos estranhos, e seu cabelo estava colado ao rosto por causa do suor. A colcha m arrom havia caído no chão, e o lençol estava enrolado entre suas pernas.

Olhei para ele prim eiro, quase sem vê-lo. Olhei porque ele estava lá. E então Georgie, o edredom de Sam drapej ado por cim a do seu torso. Ele não estava suando. Talvez fosse m ais frio no chão. Ele dorm ia de form a quase m eticulosa, os braços em linhas retas, os pés descalços alinhados, os dedos dos pés para cim a.

Georgie m udou de posição, e vi um lam pej o m arrom quando ele tirou o edredom . Ele m urm urou algo, quase um gem ido, e então vi o pênis dele, ereto por entre a abertura do pij am a. Era m ais escuro do que o restante de sua pele, tinha um tom arroxeado. Eu nunca havia visto um hom em nu, nem conversado com ninguém sobre anatom ia m asculina, m as de algum a form a eu sabia que o pênis do m eu prim o estava ereto.

Virei-m e e fechei a porta atrás de m im . Senti-m e envergonhada, m as de um a m aneira difícil de explicar: não devia ter m e m ostrado aquilo, eu não devia ter visto, m as ele estava dorm indo, não teve a intenção.

Então senti o oposto de vergonha: eu m e senti um pouco poderosa, com o se conhecesse um segredo, um m om ento só m eu.