Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 23 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 23

 

O trem de Asheville para Orlando estava m eio vazio. Havia outra garota da m inha idade sentada na prim eira classe. Com em os na m esm a hora no vagão-restaurante, em m esas separadas. Fiz um a avaliação dela. Não olhava para o garçom enquanto pedia, e, quando a refeição chegou, com eu com pressa, tím ida, com o se tem esse ofender alguém por estar j antando. Ela usava lindos brincos de esm eralda, em form ato de gota, nos quais tocava constantem ente, da m esm a m aneira com o Sissy tocava seu pingente de ferradura. O pingente de ferradura agora estava pendurado no m eu pescoço, e percebi que eu tocava nele constantem ente, assim com o Sissy, m as por m otivos diferentes: eu m exia nele porque era assim que Sissy fazia, porque sentia falta dela.

Não consegui com er a sopa de tom ate que o garçom trouxe. Não estava m uito boa, m as eu devia estar com fom e; eu não m e alim entava direito havia dias. Obriguei-m e a com er o pãozinho. O trem , a com ida insípida diante de m im tornavam tudo real novam ente. Podia sentir m inha determ inação se espalhar com o os pelinhos de um dente-de-leão. Estava tudo tão verde do lado de fora do trem , tão verde e vivo! A beleza da Carolina do Norte residia em sua austeridade, as m ontanhas longínquas, tão frias, tão distantes. Após cruzar a Flórida, tudo era vivo. Eu sabia, assim que desci do trem , que o calor iria m e dar as boas-vindas, com o um velho am igo, m esm o que ainda fosse prim avera.

Fiquei com invej a da garota, cuj o nom e não sabia, a quem nunca veria novam ente. Nunca tinha querido tanto ser outra pessoa. Queria com eçar tudo de novo: desde o nascim ento, sem um irm ão gêm eo, sem um prim o tão próxim o que era com o um irm ão.

— Sabe qual é a próxim a parada? — perguntou a garota.

Ela estava ali, na m inha frente. Nem tinha reparado que ela havia saído da m esa. Por um m om ento, não m e recordei do nom e. Mas finalm ente ele veio a m inha m ente.

— Church Street — respondi. — Orlando.

A garota parecia nervosa, e eu queria tom á-la pelos om bros e dizer: “Olhe, por favor, não há m otivo para você ficar nervosa agora.” Contudo, eu não sabia disso. Não sabia o que ou quem ela ia encontrar quando descesse do trem , que com eçava o lento processo de parar. Já dava para discernir a estação, onde logo eu estaria, e parecia im possível que eu pudesse estar no trem , m as que em cinco m inutos, ou dez, não estivesse m ais. E que eu não estaria por m inha própria vontade. Por quê, Thea, por quê? Por que eu tinha desej ado retornar para tudo isso? Para m eu irm ão, que não m e escrevera um a única palavra durante m eses, para m inha m ãe e m eu pai, que tinham m e expulsado tão rapidam ente com o se j á soubessem o tem po todo o que fariam para lidar com um a crise, um a tragédia, um a coisa que m inha m ãe não tinha planej ado: m andar a garota em bora, m anter o rapaz.

E então eu os vi, m eus pais, esperando por m im na plataform a, m eu pai em um terno, m inha m ãe com um chapéu de abas largas. E percebi o m otivo de querer voltar. No entanto, não estava preparada para vê-los. Vacilei. Coloquei a cabeça entre as m ãos.

Olhei para cim a novam ente e vi a garota m e observando. Em Yonahlossee, ela não teria sido popular; era nervosa dem ais, carente dem ais.

— Quem você vai encontrar? — perguntou ela.

— Meus pais.

Olhei pela j anela. Minha m ãe estava na frente de m eu pai; as m ãos de m eu pai estavam às costas, a cabeça inclinada. Minha m ãe parecia inquieta. Minha m ãe fácil, que fora linda e im pudica um dia. Ela parecia m ais m agra. Sam não estava lá.

Fiquei observando m eus pais, enquanto o trem parava, fiquei no m eu assento enquanto os outros passageiros desem barcavam e m inha m ãe olhava ansiosam ente para o rosto deles.

Levantei-m e. Já podia sentir m inhas pernas perdendo a força, se atrofiando nem que fosse ligeiram ente por falta de uso. Fazia dias que eu não m ontava.

Quando finalm ente em ergi do trem , a últim a passageira, m inha m ãe ficou visivelm ente aliviada.

— Thea! — disse ela, a voz aguda.

Seus olhos percorreram m eu corpo e se prolongaram no colar; depois, eles se endureceram . Mas ela não conseguia evitar; vi que estava tentando ser gentil.

Meu pai levantou a cabeça e vi com surpresa que tinha envelhecido. Ele ficara com pletam ente grisalho na m inha ausência. Até suas sobrancelhas estavam grisalhas. Esperam os enquanto um carregador j untava m inha bagagem , enquanto m eu pai lhe dava um a gorj eta e m inha m ãe protegia com um lenço os cabelos para a viagem de carro. Os passageiros do próxim o trem se m oviam de um lado para outro, e fiquei contente. Eram outras pessoas. As m ulheres usavam cor-de-rosa, roxo e verde, um a surpresa para m eus olhos após tantos dias de branco. E ninguém prestava atenção nelas. Ninguém se ocupava de estar na sala de aula no tem po devido, ou apagava as luzes às nove horas, ou se levantava às sete. Ninguém se im portava com coisas assim .

Minha m ãe e m eu pai se viraram prontos para ir em bora, e esperaram que eu os seguisse. Minha m ãe se virou prim eiro, depois m eu pai, e esperei que dissessem algo.

— Está na hora de ir — disse m eu pai. — Vam os.

Meu pai estendeu a m ão; os olhos de m inha m ãe estavam desesperados.

— Está certo — falei —, vam os para casa.

Mas, ainda assim , perm aneci onde estava. Eu tinha m e enganado. Nós não iríam os para casa. Olhei para trás e vi o trem deixando a estação, e outra m áquina gigantesca vindo tom ar seu lugar. Haveria outros trens. Sorri para m eu pai e perm iti que pegasse m inha m ão. Eu não tinha desej ado soltar a m ão dele tantos m eses atrás, e agora eu tinha que m e obrigar a tocá-la. Todos nós estávam os nos com portando com m uita coragem .

Meu pai abriu a porta para m im , e esperou eu m e acom odar para fechá-la. Perm anecem os em silêncio enquanto m eu pai dirigia o carro pela estrada. Orlando parecia agitada — eu não via carros ou estradas ou prédios altos havia m uito tem po. Então m inha m ãe se acom odou no banco da frente, e virou, de form a que pude ver seu belo perfil e soube que não precisava tentar de m aneira algum a am ar m inha m ãe e m eu pai; eu não sabia com o seria fácil. Eles tinham m eu coração sob controle, e vi que para sem pre o teriam , até a m orte deles. Então, eu seria verdadeiram ente livre, a não ser por Sam . Um a única am arra, em vez de três.

Observei o perfil de m am ãe, a velha visão conhecida. Estava m ais pronunciado agora; eu tinha provocado isso. Esperei que ela falasse.

— Thea — com eçou ela, e pude sentir seu cheiro, m esm o daqui; pude sentir o velho cheiro conhecido.

Inclinei-m e para a frente.

— Sim ?

Ela se virou e m e encarou, fechou os olhos e tocou levem ente a própria testa com dois dedos, um novo gesto.

— Esta dor de cabeça — disse. — Não m e deixa.

Eu queria dizer algo antes que ela falasse. Queria dizer a ela sobre a estranheza de tudo isso, a com pleta estranheza. Tanta coisa tinha acontecido no últim o ano, o ano m ais cheio de toda a m inha j ovem vida; eu m e sentia tão velha, agora. Queria dizer a ela, e tam bém a m eu pai, sobre com o era estranho estar com todas aquelas garotas no início; e depois com o todas aquelas garotas tinham deixado de parecer estranhas. Com o agora eles é que pareciam estranhos, m eus próprios pais, m esm o que eu os am asse, m esm o que quisesse agradar a eles. Eu queria dizer: vocês não podem nem im aginar esse m om ento, parece que nunca virá, m as então vem , e lá está, Thea Atwell, de Em athla, Flórida, a m esm a garota que você pensou que era.

— Thea — disse m inha m ãe. — Estam os m orando em um hotel desde o últim o m ês, m as vam os sair na sem ana que vem . Com pram os um a casa. Existem tantas por aqui, abandonadas.

— Sasi? — perguntei.

Não conseguia form ar sentenças com pletas; a única coisa que conseguia proferir eram palavras soltas.

— Foi vendido, Thea. Você iria ficar grande dem ais para ele, de qualquer j eito.

A voz dela estava suave. Ela tentava ser gentil m ais um a vez.

— Para quem ?

— Para um a m enininha — respondeu m eu pai. — Ela o adora. A verdade, Thea — m inha m ãe em itiu um breve ruído de protesto, m as m eu pai pediu que ela se calasse, o que foi chocante; no entanto, m ais chocante foi ver m inha m ãe agir com o ele tinha ordenado, e ficar em silêncio —, a verdade é que, no m om ento, não podem os arcar com as despesas de um cavalo para você.

— Ele era um pônei — eu disse, calm am ente.

— O que foi, Thea?

— Nada — respondi —, não im porta.

Olhei para m inhas m ãos, as m esm as m ãos que o Sr. Holm es tinha segurado. Minha m ãe se virou e apoiou a cabeça na j anela.

— Esta dor de cabeça está m e m atando.

Era difícil não chorar. Minha m ãe, afinal de contas, era um a m entirosa, um a m entirosa a quem eu am ava, m as ainda assim um a m entirosa. Ela tinha m e prom etido que Georgie ficaria bem , que ela escreveria se isso não acontecesse. Fui tola em acreditar nela, m as eu tinha desej ado acreditar. Fiquei prestando atenção à rua, e vi um a m enininha suj a, e im aginei se ela era pobre, se os pais dela tinham abandonado a casa; ou talvez ela fosse apenas um a m enininha suj a por brincar no quintal. Seu vestido parecia bem bonito. Eu nunca iria saber.

O hotel em que estávam os pareceu suntuoso para m im , com tapete verm elho felpudo e elevador. Um carregador de m alas do hotel acom panhou a m im e m inha m ãe até m eu quarto. Só eu dorm iria ali, vi assim que ele abriu a porta, m eu irm ão não estava em nenhum lugar. O quarto cheirava a m ofo, m as isso era com um na Flórida.

O carregador era j ovem , atraente, com cabelos castanhos e espessos, m em bros longos e delgados. Obviam ente, pensei, obviam ente eu seria atendida pelo carregador j ovem e atraente, não pelo velho e enrugado. Eu lhe disse onde colocar m inhas coisas, e, quando ele acabou, ficou aguardando.

— Isso é tudo — m inha m ãe disse.

— Mãe.

Olhei para a bolsa dela.

— Ah, sim — disse ela. — Desculpe-m e, desculpe-m e.

Parecia nervosa, e eu sabia por quê. Estava prestes a ficar sozinha com igo. E o fato de que eu tinha acabado de falar com um hom em , e dito a ela o que fazer com relação a esse hom em , não tinha aj udado m uito. Ela preferia que eu m e escondesse no canto até ele sair, m esm o após ele sair. Bem , eu não faria isso.

Ele fechou a porta atrás de si, e m e virei para m inha m ãe e a encarei; esperei que ela falasse.

— Bom — disse ela —, o acam pam ento foi um a m aravilha para você, Thea. Sua aparência está ótim a.

— Não era um acam pam ento, m ãe. — Ela se enrij eceu. Mas eu não ia continuar com aquilo. — Não, tudo bem . Estou contente de ter ficado lá por tanto tem po.

Ela m e observou por um longo tem po, o ventilador elétrico fazia o único barulho do quarto. Ela usava um vestido que eu j á vira um a centena de vezes antes. Ainda era bonita; o carregador tinha prestado m ais atenção nela do que em m im . Senti m inha coragem enfraquecer. Ela era m inha m ãe, eu era filha dela, e isso era um fato, com pletam ente inalterável. Esperei que ela m e repreendesse, expressasse seu descontentam ento, dissesse que sabia tudo sobre com o eu m e com portara m al, pela segunda vez.

— Bem — disse ela, finalm ente, e pegou m inha m ão —, o que vam os fazer com você agora, Thea?

Com ecei a falar, m as ela m e interrom peu.

— Não, por favor. Vam os falar sobre isso m ais tarde. Agora estou cansada.

— E Sam ?

— Sam está no quarto vizinho. Sugiro que você deixe que ele a procure. Mas você vai fazer o que achar m elhor, tenho certeza disso.

Concordei com um gesto da cabeça. Faria m esm o. Ela estava certa.

* * *

Eu tinha a intenção de ficar na enferm aria na m inha últim a noite. Mas não consegui. Levantei-m e após um tem po, que pareciam horas, m e rem exendo e virando na cam a, o que aconteceu depois da visita de Mary Abbott. Eu queria adorm ecer, aproveitar o breve repouso fornecido pelo sono. Porém , o sono não vinha e com ecei a m e sentir quente, em pânico; m eu couro cabeludo queim ava no alto do m eu cérebro. Pelo m enos, era assim que parecia, que m eu cérebro estava refletindo sobre um a quantidade exagerada de pensam entos inquietantes, que estava pegando fogo. Eu esperava não m e arrepender de ir em bora. Esperava que Sam ficasse feliz de m e ver. Esperava que Sissy tocasse a vida exatam ente com o ela desej ava.

A Praça estava deserta. Era noite de lua cheia, que estava linda dem ais, dem ais. Não havia luz algum a acesa na Casa do Diretor. A Casa Augusta estava silenciosa, todas m inhas am igas dorm indo em sono profundo. Boone não viria m ais, agora que Sissy quase tinha sido pega. Não tive a im pressão de que a identidade de Boone tivesse sido revelada, um golpe de sorte. Fiz Sissy m e prom eter que escreveria um a carta para ele, pedindo para que fosse m ais cuidadoso.

Pensei em Kate, a Bruxa dos Bells, enquanto cam inhava para as cocheiras, tendo de cada lado o bosque escuro e denso. Seria tão fácil desaparecer...

A m aioria dos cavalos não se deu o trabalho de virar a cabeça por cim a do portão da baia. Mas Naari, sim . Ela reconheceu m eus passos. E ela os esqueceria, e nunca saberia que teria esquecido.

Encostei seu focinho no m eu rosto, respirei seu cheiro suavem ente penetrante, e a deixei sentir m eu cheiro. Quem saberia qual era m eu cheiro? O de um a garota? O de Thea.

Ouvi um barulho de m etal contra m etal atrás de m im , e dei um salto; pensei ter sido apanhada. Mas o que m ais poderiam fazer com igo? Não tinha nada a perder, não tinha nada m ais para dar a eles.

Era Leona, em ergindo da baia de King, fechando o portão atrás de si. Usava cam isola, que só ia até a altura dos j oelhos enquanto a m inha batia na canela, apesar de eu ter m e trocado e vestido m inha roupa do dia a dia quando desci para cá. Reparei em seus pés descalços. Era o cúm ulo da estupidez, cam inhar descalço em volta de um cavalo. Os cabelos dela estavam desgrenhados. Ou quase desgrenhados, o m áxim o que poderia acontecer aos cabelos de alguém com o Leona. King colocou sua gigantesca cabeça para fora do portão e m e olhou. Leona avançou e afagou o focinho dele, distraída. Eu a im aginava capaz de tam anha traição. Mas, na verdade, m eu prim eiro instinto acerca de Leona estava correto: ela só se im portava com cavalos.

— Thea Atwell — disse ela. — Você m e venceu. Ninguém nunca tinha m e vencido antes.

— Lam ento — desculpei-m e, e neste m om ento eu lam entava: deveria ter sido m ais generosa, deveria tê-la deixado ganhar.

— Não lam ente. Eu teria feito o m esm o se estivesse em seu lugar. Em sua sela. — Ela sorriu, e retribuí.

— Sinto m uito por King — eu disse, e fiz um gesto apontando atrás dela, para aquele rosto largo e bonito.

Leona se virou e enterrou o rosto no pescoço dele, e King relaxou com o abraço, com o um a criança. No picadeiro, ele era feroz, m as fora dele era terno. Achei que ela estava chorando, sei que eu estaria chorando, m as, quando ela m e olhou de novo, o rosto estava seco com o um deserto.

— Outros cavalos virão — disse ela —, m as não com o este aqui. E não por um bom tem po.

Assenti. Acreditava nela. Se havia alguém que conseguiria encontrar seu cam inho de volta aos cavalos, era Leona.

— Você tam bém vai ter que deixar Naari — ela disse, sem m alícia na voz.

— É verdade. — Olhei para o rosto pequeno e delicado de Naari. — Mas ela nunca foi m inha m esm o.

* * *

Sam não apareceu na m inha porta. Fiquei deitada na cam a durante horas e horas. Caí no sono; quando acordei, a j anela estava ilum inada pela luz da rua, em bora eu fosse capaz de dizer, olhando para a escuridão que chegava às j anelas, que j á era quase anoitecer. Minha boca estava seca. Aqui não havia Docey para m e trazer água, nenhum a outra garota para m e dizer as horas.

Eu m e servi de um copo de água da pia e a bebi, avidam ente, enchi m ais um copo e bebi tudo tam bém . Meu olhar captou um papel branco; um bilhete, colocado por baixo da porta. Meu coração ficou apertado; Sam . Mas não, era m am ãe, dizendo que eles não quiseram m e acordar para j antar. Eles. Será que Sam estava com eles? Percebi com o tudo isso era tão triste; m inha fam ília vivendo em quartos diferentes de um hotel. Ouvi algo lá fora, no corredor, m as não tinha fam iliaridade suficiente com este lugar para discernir o que seria.

Abri a porta devagar, e lá estava ele, m eu irm ão. As costas dele, m as eu sabia, da m esm a form a que eu reconheceria m inha m ão se alguém a trouxesse para m im .

Ele deu m eia-volta e, na luz brilhante do corredor, vi que realm ente tinha se tornado m ais atraente do que eu estava bonita, conform e eu previra. Ele era um hom em agora, os om bros largos, um a cabeça m ais alto do que eu, pelo m enos. Esta vida era tão surpreendente: ela pegava um a pessoa que você conhecia com pleta e totalm ente e a transform ava em um estranho.

— Sam .

— Thea.

A voz dele era profunda. Eu nunca m ais a ouviria com o era quando parti, suave e bonita. Ele tinha um a voz que agora se m ostrava segura, que dirigia as outras pessoas, que se fazia notada em um a sala repleta de pessoas. Um a voz de hom em .

Coloquei a m ão na garganta.

— Que horas são?

— Tarde — respondeu.

— Você não conseguiu dorm ir?

Sam não disse nada, ele não m e encarava.

— Entre — convidei, e abri a porta de m eu quarto —, por favor.

Ele hesitou.

— Por favor — repeti —, não m e faça im plorar.

E então ele entrou sem dar um a palavra, e se sentou na cam a; sentei-m e a seu lado. A cam a estava desfeita, e de repente fiquei constrangida de ver um rapaz em m eu quarto e a cam a desarrum ada, o que era vulgar. Mas então m e lem brei de que Sam não era um rapaz, era m eu irm ão.

Ficam os em silêncio por um bom tem po. No entanto, era um a sensação conhecida; eu preferia isso à nossa conversa, que tinha sido form al, estranha. Sentado, ele não parecia tão alto; era de novo m eu irm ão.

— Tanta coisa m udou... — com ecei, m as Sam m e interrom peu.

— Para você — disse ele. — Mais para você do que para m im . Eu não fui em bora.

— E eu retornei — rebati. — Por sua causa.

Ele então m e olhou, e seu ar era de com pleto espanto. Quando parti, o rosto dele estava todo m achucado; agora estava perfeito. Ele riu.

— Por m inha causa? — perguntou. — Por m inha causa?

— Por você — respondi, a voz vacilante.

— Vam os tentar não fingir que tudo isso foi por m inha causa. Podem os tentar, Thea? — A voz dele se transform ou em um a súplica.

Balancei a cabeça.

— Pensei que você queria que eu voltasse. Eu disse que lam entava tantas vezes. — Toquei m eu colar, e o olhar de Sam se fixou nele, e vi que ele estava ansioso por m e ver, assim com o eu; ele queria ver todas as m udanças que tinham se operado em sua irm ã gêm ea, assim com o eu queria.

— Você m e abandonou.

E com preendi que ele se referia às duas vezes: eu o abandonei por Georgie, e depois um a segunda vez, quando parti para Yonahlossee.

Ele sorriu tristem ente para m im , e eu queria m uito tocá-lo, a m ão dele, o om bro dele.

— Ah, Sam . — Eu sabia que iria m e lem brar daquele m om ento por toda a m inha vida. Eu poderia viver cem anos e este m om ento nunca m e deixaria. — Sinto m uito — falei —, sinto m uito m esm o.

Eu estava sendo sincera, sentia m uito por tudo: por todos nós, agora separados para sem pre. Um soluço ficou preso em m inha garganta, e só isso bastou: Sam se virou e m e abraçou, com força, e percebi então com o nossas vidas tinham se tornado im possíveis. E Georgie, de quem não tínham os falado, não teve seu nom e m encionado. Não havia necessidade. Ele estava entre nós, tão real em sua ausência com o tinha sido quando presente.

Depois de algum tem po, Sam m e largou, levantou-se e cam inhou até a j anela. Com o ele não estava m e encarando, tom ei coragem para falar.

— Onde eles estão?

Ele continuou a fitar a noite lá fora.

— Eles se m udaram para o Missouri.

— E a casa de Gainesville?

— O banco se apossou dela. O tio George deixou que isso acontecesse. Eles queriam se m udar. — Tam borilou no vidro. — Não os vej o desde... — Sua voz dim inuiu. — Apenas o papai fala com o tio George. Som ente isso. Todo m ês papai m anda um cheque para eles. “É nosso dever de cristãos” — ele entoou, usando a voz que sem pre usava quando im itava nosso pai: baixa, vagarosa. Mas agora ele soava exatam ente com o papai.

— Eles disseram isso? — Para ser honesta, não era algo típico de nossos pais.

— Eles tinham que dizer algum a coisa, Thea. Tivem os que vender a casa. E, além disso, acho que eles querem que eu saiba que nossa vida não é exatam ente a m esm a agora. Eles querem m e preparar.

Ele virou a cabeça para m e olhar, para ler a expressão em m eu rosto, e então se voltou novam ente para a j anela.

— Eles têm dinheiro suficiente, não se preocupe.

— Não estou preocupada.

— Apenas não tanto quanto antes. E ninguém sabe por quanto tem po isso vai continuar.

Ele se referia à Depressão, sobre a qual ele não sabia nada quando parti. Meu irm ão sabia tantas coisas agora. Ele não era m ais um a criança.

— Você se lem bra do que aconteceu, Sam ?

Ele olhava pela j anela; a noite na cidade era tão ilum inada, tão diferente das noites em Yonahlossee. Ele continuou olhando para fora tanto tem po que pensei que não tinha entendido m inha pergunta, m as então falou:

— Lem bro — respondeu —, com o m e lem bro de um sonho. Mam ãe e papai puseram a culpa na pedra. — Eu olhava as costas dele. Ele colocou a palm a da m ão na j anela. — Você se lem bra com o m am ãe costum ava dizer que nossas vidas eram abençoadas, que tínham os nosso pedaço particular de paraíso?

Aquiesci, e nossos olhares se encontraram no reflexo da j anela.

— Bom , ela não diz m ais isso. — Ele deu um a risada curta. — Achava que Deus estava olhando por nós. — Ele ficou em silêncio por um m om ento, e a única coisa que eu podia fazer era não interrom per. Eu nunca tinha ouvido isso antes. Eu não acreditava. — Sei que é um a tolice. Mas pensava que Deus sabia que éram os especiais. — Ele sorriu. — Eu não queria ferir Georgie, Thea. Seria m elhor que ele tivesse m orrido.

— Shhh. Com o você pode dizer isso?

— Eu posso dizer isso! — Ele falou, quase gritando. — Eu posso! — Balançou a cabeça. — Eu posso — repetiu m ais suavem ente —, porque fiquei aqui e vi tudo acontecer. Tudo, Thea.

— Tudo — repeti, surpresa pelo som de m inha própria voz. — Você deveria ir em bora, Sam . Não foi você que criou a confusão.

— Então, quem foi?

— Ninguém . Foi apenas um a série de circunstâncias. Um a série de circunstâncias — repeti.

— Não, Thea. Fom os nós.

— Não eu. — Levantei-m e e cam inhei até a j anela, e espiei por cim a do om bro dele. O sol estava se levantando, e os garis varriam as calçadas com afinco. — Existem todas essas pessoas no m undo, e som os apenas duas delas. Mam ãe e papai pensaram que estavam m e castigando, ao m e m andarem para longe. Ficar aqui era um a recom pensa. Mas eles estavam enganados. Não foi um castigo.

— Você aprendeu tanto, no acam pam ento.

Eu sentia a respiração dele, o cheiro penetrante que ele tinha sem pre que não dorm ia o suficiente.

— Aprendi bastante — concordei. Peguei a m ão dele e a apertei. — Você tam bém deveria ir em bora. Nossas vidas estão em algum outro lugar.

Ele riu.

— Onde?

Dei de om bros.

— Quem sabe? Mas Deus só concede a felicidade àqueles que procuram por ela.

* * *

No dia seguinte, ouvi um a batida na porta ao m eio-dia. Eu estava desperta — tinha adorm ecido ao nascer do sol — m as não estava vestida. Abri a porta e m e deparei com m am ãe, e Sam atrás dela. Ele parecia alerta, revigorado, e fiquei pensando quando ou se ele tinha dorm ido depois de sair de m eu quarto. Ele m e fitou e desviou o olhar, e m am ãe fez o m esm o, e percebi que nenhum dos dois queria m e ver de cam isola. É claro.

— Vam os alm oçar?

Mam ãe perguntou, os olhos voltados para o outro lado, e eu lhes disse que ficaria pronta em quinze m inutos, em bora só fosse dem orar cinco. Esperei na beirada da cam a, em um vestido que era pequeno dem ais para m im , que m al cobria m eus j oelhos e que apertava m eus braços. Porém , era bonito, bolinhas brancas em um fundo m arrom . Eu o tinha escolhido de um catálogo na prim avera anterior; tinha chegado depois de eu partir. Eu tinha m e esquecido que esse vestido existia. Mas lá estava ele, pendurado em m eu arm ário por m inha m ãe, o sim ples fato de vê-lo m e dava as boas-vindas depois de quase um ano. Tinha sido caro, e eu o tinha desej ado ansiosam ente por causa de Georgie, porque queria que ele m e visse com ele. O rosto de Georgie surgiu em m inha m ente rapidam ente. Era outra vida, eu m e dizia enquanto esperava sentada na beirada da cam a, porque sentia que m am ãe queria que eu esperasse por ela, não queria que fosse encontrá-la. Tudo em outra vida.

— Seus cabelos — disse ela, no elevador, esticando a m ão e penteando as pontas, sem corte, onde Eva tinha cortado reto. — Estão bonitos, Thea. Muito bonitos.

Senti as faces em cham as; não consegui evitar. Virei a cabeça para o outro lado, m as m am ãe j á tinha reparado.

Ela, Sam e eu fizem os a refeição em silêncio por quase todo o tem po no restaurante do hotel, que parecia m elancólico por estar tão vazio. Sam estava distraído, observando o único outro freguês — um hom em m ais velho, de terno — lendo e relendo o cardápio. Mam ãe estava calada. Ela não parecia calada em suas cartas.

Ela m al tocou a com ida, m as fez com que Sam term inasse o que ela não tinha conseguido, com m edo de a equipe do restaurante considerá-la gulosa, dada a desperdícios. Nunca antes eu a tinha visto se colocar tão ardentem ente m erecedora das graças de estranhos, e percebi que isso era um a das recom pensas de se esconder do m undo; ela não tinha por que se im portar. E era exaustivo, se im portar. Acostum ei-m e a isso em Yonahlossee, m as im aginar o que as outras pessoas pensavam de você — tudo isso podia pesar na m ente. Mas às vezes, pesava de um a m aneira agradável, quando alguém a adm irava ou a queria. Mam ãe nos tinha privado, nesse sentido.

Beberiquei m eu chá gelado, que não era tão bom quanto o de Yonahlossee, um chá que m am ãe e Sam nunca tinham provado, nunca provariam . Mam ãe observava Sam com cuidado enquanto ele devorava o sanduíche dela — o apetite de m eu irm ão parecia ter duplicado durante m inha ausência — e os olhos dela iam continuam ente do garçom para o filho. Eu quase não conseguia acreditar, m as acreditava assim m esm o. Nossas vidas estavam de um j eito inim aginável para nós; se um ano atrás um quirom ante tivesse lido nosso futuro para m am ãe, ela teria rido, gargalhado. Ela então teria fechado a porta e nos fechado novam ente. Mas aqui estávam os nós, nossa casa desm ontada, e m am ãe se im portando profundam ente com a opinião de um garçom , um garçom cuj o nom e ela j am ais saberia.

— Fiquei satisfeita — disse ela quando lim param nossa m esa. — Acho que vou repousar os olhos.

E percebi que agora ela se im portava com pequeninas coisas, porque as grandes tinham -lhe feito m uito m al. O que funcionava, eu percebi, com o um a vantagem para m im : ninguém tinha m encionado m inha desonrosa saída do acam pam ento.

Bati suavem ente à porta de Sam depois do alm oço, m as ele não respondeu. Pensei que estivesse dorm indo. Eu esperava que fosse o caso, esperava que ele não estivesse m e evitando. Ele tinha sido gentil durante o alm oço, m as distante. Passei a tarde escrevendo cartas: para Sissy e Eva e até um a carta curta para Mary Abbott. Eu tentava ser gentil com ela, da m esm a m aneira com o tantas m eninas tinham sido gentis com igo em Yonahlossee.

Papai bateu à m inha porta às seis horas, em ponto, no exato m om ento em que badalavam os sinos da igrej a rua abaixo, fazendo-m e lem brar de Yonahlossee. Nós com íam os às seis horas lá, tam bém , em bora obviam ente m eu pai não soubesse disso.

Sam estava atrás dele, exatam ente com o antes.

— Sua m ãe não está se sentindo bem — disse papai e deu um passo para o lado, de form a que pudesse sair, com o se eu fosse um a dam a.

Sam e eu nos entreolham os e percebi que eles estavam se revezando conosco.

Depois de pedir a com ida, papai m e perguntou o que eu tinha aprendido no acam pam ento.

— Aprender?

— O que você lia? O que estudava?

Eu ri, e papai m e olhou de m aneira estranha.

— Aprendi a estar cercada por outras garotas — respondi.

E papai concordou com um gesto de cabeça. Era isso que eles tinham desej ado afinal de contas; ele tinha m e escrito isso na prim eira carta. Você vai aprender a se comportar com outras crianças por perto, Thea. Espero que não seja pedir muito. Eu nunca m e esqueceria dessas palavras. Mas papai não se lem brava do que tinha escrito; ele parecia vagam ente perturbado, com o se eu estivesse caçoando dele. O que acho que era verdade, m as não da m aneira com o ele im aginava.

— Você gostou? — perguntou ele. — Depois de se acostum ar?

Sam tam bém m e encarou; eles queriam saber. Queriam que eu lhes contasse um a história. Mas isso eu não faria. Yonahlossee era só m inha.

— Acabei gostando m uito — respondi.

* * *

Na m anhã seguinte, tanto m am ãe quanto papai apareceram à porta de m eu quarto, Sam atrás dele em sua posição habitual.

— Pensam os em dar um passeio de carro — disse papai e deu um leve sorriso, do j eito dele. — E ver nossa casa.

Mam ãe ficou agarrada a papai enquanto atravessávam os o hotel e cobriu os olhos para se proteger do sol quando pusem os os pés do lado de fora. Sam olhava para fora da j anela, para as loj as, para a estação de Church Street, onde eu tinha chegado no dia anterior, para as plantações de laranj as que afinal se sucediam à cidade. O cam po, pensei; nós vam os m orar no cam po novam ente, porque m am ãe não suportava m orar na cidade. Ninguém falava no carro, nem um a única palavra, ninguém nem m esm o tentou, a com eçar por m im m esm a. Agora eu estava habituada às conversas, ao barulho, ao constante zunido das vozes das m eninas; eu estava prestes a explodir, a rom per aquele silêncio.

Depois de um tem po, papai desceu por um a rua estreita, e então fez outra curva, após uns cinco m inutos, e vi onde m inha fam ília iria m orar. Era um a casa bonita, em estilo espanhol, branca, rem atada por um telhado verm elho. Espessas palm eiras circundavam a casa, form ando um quadrado perfeito. Estim ei que tinha a m etade do tam anho da nossa casa anterior, m as aquela outra casa era realm ente grande, grande dem ais na verdade, para nós quatro.

— Tem algum a cocheira? — perguntei, apesar de não ter im portância.

— Não — respondeu papai, e nos guiou para dentro, subindo os degraus da frente.

A porta estava trancada. Nunca, em nossas vidas, havíam os trancado nossas portas. Mas agora isso seria feito. Entram os na casa vazia, em um a sala vazia, as paredes inteiram ente brancas. Mas dava para ver com o ela poderia ficar bonita, com o toque de m am ãe. O pé-direito era alto, a escadaria em ferro forj ado, os pisos de m adeira de um castanho vivo e uniform e.

— É bonita — eu disse, m e voltando para m eu pai, e notei que ele ainda queria m e agradar, e a nós, que ele tinha a esperança de que a casa fosse algum tipo de tábua de salvação.

— Sim — concordou —, não é bonita?

E m inha m ãe não pareceu reparar que ele tinha feito a pergunta a ela.

— É — ela respondeu, afinal. — Bastante.

Sam e m eu pai foram olhar a garagem , e m inha m ãe voltou para fora, em direção ao carro, im agino que para descansar. Esperei por um m om ento, tentei m e recobrar. Não seria fácil; nunca seria fácil, e esperar não ia m udar nada. Fui até a j anela e vi que m am ãe não tinha se dirigido ao carro. Ela estava sentada nos degraus da frente, as pernas cuidadosam ente dobradas de lado.

Ela parecia digna de pena, e fiquei brava com ela, porque eu não queria sentir pena, que era o pior tipo de sentim ento para m inha m ãe. Ela devia estar além da piedade. Papai parecia o m esm o, quieto e gentil. Sam estava distante, m as a m aneira inata com que ele se m ovim entava pelo m undo, tão fácil, tão natural, não tinha se alterado. Mas m am ãe estava arruinada. Ela fora arrancada de casa. Ela pertencia a um lugar, não a pessoas.

Lem brei-m e de um a m ulher, am iga do tio George e da tia Carrie, vindo para Em athla para ver nossa casa. Ela e o m arido iam construir um a casa para eles, e tinham ouvido falar que a nossa era m agnífica. E era. Porém , facilm ente destruída: um incêndio, um furacão, um velho carvalho tom bando sobre o telhado. Um a filha se com portando de form a inadequada.

Lem brei-m e de m am ãe m ostrando ao casal todos os quartos, m esm o o m eu e o de Sam , e a m ulher, que era m uito alta e m agra, com o um passarinho, dizendo sem parar “prim orosa”. Eu m e lem brei dela com tanta nitidez porque não recebíam os visitantes com frequência. A tia Carrie seguia atrás; fechei os olhos com essa im agem dela. Coloquei a cabeça nas m ãos; todas essas m em órias, da nossa casa antes da confusão, de Yonahlossee, um redem oinho na m inha cabeça.

“Prim orosa”, a m ulher não parava de dizer “prim orosa”, e percebi que nossa casa era prim orosa; eu nunca tinha pensado nela de outro j eito antes, a não ser para cham á-la de m eu lar. No final da visita, m inha m ãe parecia aborrecida. E aquela m ulher era entediante; ela ficava dizendo a m esm a coisa, sem parar, sem parar, em cada côm odo visitado. Mas m am ãe ficou aborrecida porque a m ulher afirm ava algo tão óbvio que não precisava ser dito. Assim com o cham ar m am ãe de linda. Assim com o dizer que nós tínham os sorte.

Perm anecem os na varanda da frente até o carro deles desaparecer em um a nuvem de poeira, e m am ãe pegou m inha m ão.

— Bom — ela disse —, vam os voltar a nosso prim or, que tal?

Agora eu a observava sentada nos degraus da entrada, fingindo olhar um quintal que ela não iria am ar, em frente a um a casa que nunca seria dela. A casa dela era um filho, percebi; m as não, isso estava errado. A casa dela era sua m ãe, seu pai; m am ãe se sentia confortável dentro dela, esperava que a abrigasse dos altos e baixos da vida.

Eu m e esgueirei pela porta da frente em silêncio. O calor m e atingiu im ediatam ente. Não havia cores no quintal, apenas as palm eiras, e arbustos. Certam ente m inha m ãe acrescentaria as cores.

— Belo quintal — eu disse por trás dela, e ela concordou, m as não falou.

Sentei-m e perto dela, e ela acariciou m eu j oelho de leve.

— Mãe — falei —, quero ir em bora novam ente.

Ela voltou o rosto para m im , de m aneira lânguida; parecia estar se m ovendo debaixo da água, e m e ocorreu que papai poderia ter-lhe prescrito um rem édio, para as dores de cabeça.

— Por que não, suponho? — disse ela. — Por que não?

A resposta dela caiu com o um soco, um a pancada. Eu esperava que houvesse certa relutância; não, eu queria certa relutância, algum sinal de que ela precisava de m im . Mas eu iria em bora de qualquer j eito, então não era um sentim ento tolo aquele que eu experim entava? Estava conseguindo o que queria, m ais facilm ente do que esperava.

Meus olhos se encheram de lágrim as. Mas ela falou novam ente, e a voz dela era m ais firm e, de acordo com o que eu m e lem brava.

— Pensei que você acabaria querendo ir em bora de novo. Um a vez que experim entasse o que é isso.

— Você estava certa — disse, e com ecei a chorar, e m e odiei por chorar.

— Ah, Thea — m inha m ãe m urm urou, e m e puxou para perto, e, se eu pudesse parar o tem po, congelar todos os relógios, o teria feito. Mas não podia. Eu não passava de um a garota. Minha m ãe não passava de um a m ulher. — Beth m encionou algo a respeito de um rapaz com quem você estava se encontrando. — Ela riu. — Pensei que não houvesse rapazes lá, m as obviam ente há rapazes por todo lado. Você vai para algum outro lugar, e m eu conselho, se achar que vale a pena, é que encontre um bom rapaz. — Ela afagou m eus cabelos. Ela soava com o antigam ente. — Encontre um bom rapaz, com o seu pai. Certa vez, tive problem as por causa de um rapaz. — Tentei levantar a cabeça, olhar para ela, m as ela m e apertou contra o peito. — Muito antes de conhecer seu pai. É um tipo de problem a tão m aravilhoso! Contanto que você possa se livrar dele. E você não conseguiu exatam ente. — Ela fez um a pausa. — Livrar-se do problem a, quero dizer. Conseguiu?

Ela soltou m inha cabeça, e m e sentei ereta, tentei olhar o m undo borrado através de m inhas lágrim as.

— Não saí de lá por causa de um rapaz. Você pode não acreditar, m as eu queria voltar. Queria voltar e ver m eu irm ão.

— Para poder ir em bora novam ente?

— O que existe para m im aqui? — perguntei. — Não há nem m esm o um cavalo.

Mam ãe m e fitou por um m om ento.

— É verdade — concordou ela —, é verdade. Não existe nada para você aqui, não m ais. Eu queria algo m ais para você e para Sam — continuou, novam ente com a voz suave. — Mas esse foi um erro m eu, não é? Pensar que eu pudesse m e introm eter com a natureza de cada um de vocês.

* * *

A sem ana antes do Quatro de Julho foi a últim a que passam os j untos, eu e Sam , antes de ficar exposto aquilo que eu tinha feito. Havia algo entre nós agora, am bos sabíam os disso, em bora evidentem ente nenhum dos dois tivesse de fato a m enor ideia.

Lá fora estava chovendo, um dilúvio. Eu m e rem exia de um a cadeira para outra, m orta de tédio. Entrei no quarto do m eu irm ão, abrindo a porta sem bater. Ele parecia com m edo, m as se virou de volta para o que estava fazendo quando viu que se tratava de m im e não de m am ãe.

— Um ninho — explicou, quando m e aproxim ei — de filhotes de esquilo.

— Apenas dois?

Sam j á tinha cuidado de esquilos antes, m as geralm ente as ninhadas eram m aiores. Eram tão feios, do tam anho de ratinhos, cor-de-rosa, sem pelos, os olhos com pletam ente fechados. Sam os havia aconchegado em um cobertor velho. Parecia im possível que eles crescessem e se tornassem esquilos.

— Um guaxinim pegou o resto.

Um dos filhotes se m exeu, e fiz m enção de tocar em um deles...

— Thea!

— Desculpe — eu disse. — Eu m e esqueci. — Continuei, depois de um instante: — Mam ãe vai m atar você.

Ela não perm itia que Sam m antivesse seus anim ais dentro de casa.

Sam sorriu.

— Não. — Ele balançou a cabeça. — Se ela visse, não iria acreditar.

Mas provavelm ente m am ãe não entraria no quarto de Sam novam ente; ela j á tinha feito as cam as e arrum ado o andar de cim a.

Observei Sam tentar alim entar um dos esquilos com um a das seringas de papai, sem agulha.

— É leite? — perguntei.

Sam negou com a cabeça.

— Leite de vaca m ataria os filhotes. É água m orna com açúcar. Acho que estão m elhores agora. — O esquilo abriu a boca e com eçou a sugar e até eu fiquei entusiasm ada. — Pronto — disse Sam . — Prontinho.

Eu o observei por alguns m inutos.

— Pronto, pronto — ele dizia, repetidas vezes, um refrão para o esquilo bebê.

— Por que você am a tanto os esquilos? — perguntei.

Ele encolheu os om bros.

— Por que você am a tanto os cavalos?

Havia um a quantidade de m otivos, m as, quando tentei destacar um bom , não consegui.

— Está vendo? — perguntou Sam . — E, além do m ais, eu não am o os esquilos. É só que... gosto de ficar ao ar livre. Gosto do m undo natural.

— A natureza — repeti.

— Exatam ente. A natureza.

Ele com eçou a m urm urar palavras para o esquilo novam ente, então m e j oguei na cam a e fechei os olhos ao som de sua voz.

Perm aneci deitada, quase dorm indo, ouvindo a bela voz do m eu irm ão, ainda bonita m esm o enquanto ficava cada vez m ais grave, o que estava acontecendo nos últim os m eses, com a voz de Sam m udando para com binar com o fato de ele estar cada vez m ais alto. Meu irm ão era um a flor, desabrochando, se elevando até os céus.

* * *

Naquela noite, fui até o quarto dele no hotel. Parecia um quarto habitado, ao contrário do m eu. Em cim a da m esa, havia flores em um j arro de geleia, além de três peles de cobra, quase inteiram ente intactas, com pequeninos orifícios onde antes se localizavam os olhos. Toquei um a delas, m uito de leve.

— O que aconteceu com seus terrários? — perguntei.

Sam estava na beirada de sua cam a, m e observando.

— Acabaram .

Fiz um gesto de assentim ento.

— Estou indo em bora — eu disse.

— Eu sei.

— Você tam bém podia ir. Eles deixariam .

Minha voz soava exageradam ente insistente. Mas ele devia partir tam bém . Ele não deveria deixar isso tudo engoli-lo por com pleto.

Quando ele finalm ente falou, sua voz era em tom de desafio.

— Mas não quero ir em bora, Thea. Não quero...

E fez um a pausa, m as não, foi m ais do que um a pausa. Ele se deteve, se abstendo de dizer qualquer coisa horrível que iria dizer. Eu sabia, porém .

— ... ser com o eu? — perguntei.

Ele desviou o olhar. Eu sabia que tinha razão. Obviam ente não era j usto. Eu tinha sido obrigada a ir em bora. Eu não o tinha abandonado de propósito. Contudo, no final, fiquei com o m elhor negócio. Existiam tantos acidentes no m undo, alguns alegres, outros não. Eu pegaria aquilo que vinha para m im .

Aproxim ei-m e do m eu irm ão e m e sentei perto dele na cam a. Meu irm ão gêm eo não partiria, porque era um filho m elhor do que eu; ele não conseguia partir porque não conseguia im aginar a vida sem eles. Sam não era coraj oso. Nunca tinha sido. Era leal e sincero e ainda pertencia aos m eus pais de um a m aneira com o nunca m ais aconteceria com igo. Ele não era coraj oso, m as um a pessoa podia ser tantas coisas. Ele ainda era filho de m eus pais, e talvez sem pre fosse. Apenas o tem po diria.

— Você é um rapaz da Flórida — eu disse.

Enfiei a m ão no bolso e puxei o lenço que eu tinha levado com igo para Yonahlossee. Não parecia pior pelo uso. Coloquei o lenço na m ão dele e fechei-lhe os dedos.

Ele olhou para o lenço, e depois para m im .

— Sim — disse suavem ente com sua nova voz. — Eu sou.

* * *

Naquela noite m e deitei na cam a e tentei evocar os olhos de Sissy, as m ãos elegantes do Sr. Holm es, o rosto gracioso de Naari. Mas não conseguia m e lem brar. Tudo estava escapando da m inha m ente. Levantei-m e e vesti o uniform e de Yonahlossee; era a única coisa que cabia. As roupas ainda exalavam o cheiro da Casa Augusta, e tentei não chorar, tentei não desej ar algo que j am ais teria de novo.

Lá fora, o ar estava pesado com a um idade, a lua pairava acim a de nós com o um rosto redondo. Algum as poucas pessoas se espalhavam pelas calçadas. Um a porta se abriu e vi de relance um a sala esfum açada, apinhada de gente, um hom em ao piano.

— Com licença, senhorita — alguém disse, e percebi que estava na passagem .

Dei um passo para o lado e um hom em passou por m im ; reconheci o carregador de m alas a quem m inha m ãe quase tinha esquecido de dar a gorj eta. Estava de braços dados com um a m ulher, m as só dava para ver as costas dela, o vestido fino, os cabelos pretos. Ele não deu sinal de m e ter reconhecido. Observei-o adentrar a noite, para outro lugar, ou talvez para casa, onde ele tocaria essa m oça, ela o tocaria, e a noite se abriria com o um a flor.

Cam inhei e cam inhei. Um a hora, duas. Perdi a noção do tem po. Pensei, tolam ente, que poderia encontrar Sam . Eu sabia que ele costum ava vaguear à noite. Sabia que ele costum ava andar a esm o. Porém , não havia sinal dele. Cam inhei na escuridão, longe das luzes da rua. Mam ãe não nos tinha ensinado a tem er o m undo; ela nos tinha ensinado a desdenhar dele.

Finalm ente cheguei à estação da Church Street, visível a um a quadra de distância. Eu sabia que estaria cheia de gente, ou pelo m enos, se não cheia, viva de algum a form a. As pessoas sem pre estavam indo para algum lugar, voltando de algum lugar, sem pre.

O céu se abriu de um a só vez, com o acontecia na Flórida, repentina e violentam ente, e um raio ilum inou o céu de um a m aneira ao m esm o tem po bela e aterradora. Eu não estava com m edo. Nada no m undo natural m e assustava. Esse raio estava a um a considerável distância, e eu estava cercada por estruturas m ais altas do que eu, que o atrairiam prim eiro.

Sentei-m e em um banco coberto, perto de um a senhora idosa que claram ente esperava um trem . Ela m e indagou as horas, e olhei para o gigantesco relógio acim a de nós e respondi. Ela não agradeceu; estava irrequieta, e com preendi por quê.

— Vou para Miam i — disse ela. — E m eu trem está tão atrasado!

Quase dei um a risada. Miam i. Sam tinha m e contado que lá havia m ilhares de acres de terra, abandonados pelos proprietários, sendo nosso tio apenas um exem plo disso.

Com preendi a inquietação da m ulher. Ela esperava para ser levada para longe daqui. Estava vestida com o alguém de outro século, saias excessivam ente longas, um a blusa que cobria até m esm o os pulsos. E percebi que ela efetivam ente era de outro século. Ela tinha nascido m uito antes de m im , e eu sabia que, algum dia, um a j ovem im petuosa iria pensar o m esm o a m eu respeito: que eu era velha e tola, antiquada, nascida há tanto tem po que não tinha m ais im portância.

Perm aneci sentada ali, esperando o trem com a m ulher. Tentei não tem er o futuro. Eu esperava que fosse m ais generoso do que o passado.

Em m inha viagem para Yonahlossee, m eses antes, fiquei observando o perfil de m eu pai enquanto ele dirigia, e m e senti envergonhada. Eu tinha esperanças de não m e sentir assim para sem pre. Mas então percebi que sem pre m e sentiria. Era m inha natureza.

Enquanto estava sentada no banco, senti o vento forte chicotear m eus tornozelos e tentei conservar todas m inhas recordações. Toquei no colar de Sissy . Eu via a m im m esm a viaj ando de trem no futuro e im aginei com quem eu viaj aria. Im aginei aonde iria.

Eu não viaj aria para lugar algum com Georgie, que acabou por m orrer seis dias antes de com pletar vinte e cinco anos. Nunca m ais o vi, nunca m ais vi a tia Carrie ou o tio George, ou a antiga casa deles em Gainesville. Georgie nunca m ais voltaria a ser o m esm o, um a m aldição pior do que a m orte. Se ele tivesse m orrido im ediatam ente, as circunstâncias que cercavam a m orte dele decerto teriam sido exam inadas com m aior clareza; felizm ente para nós, Georgie sobreviveu. Ainda que por um curto espaço de tem po.

Por com paixão, m eus tios ficaram iludidos e cuidaram de Georgie pelo resto da vida dele. Em Yonahlossee eu só m e lem brava de Georgie e da fam ília dele no tem po passado, tentava nunca pensar no que m inha fam ília, principalm ente m eu prim o, estaria fazendo no presente. Talvez fosse um a falha no m eu caráter o fato de ter conseguido tão rapidam ente esquecer m eu prim o ferido. Era o que eu pensava na época. Agora, m e alegro de ter conseguido deixar o evento fora de m inha m ente, a fim de sobreviver. Não falávam os sobre ele com frequência, m as m eu pai m e revelou, certa noite, m uito bêbado e velho, bastante tem po depois de m inha m ãe m orrer, que Georgie regularm ente padecia de terríveis acessos de fúria, que a parte do cérebro que controlava a raiva tinha ficado lesada no acidente. O acidente.

Minha m ãe se tornou um a inválida, trancava-se no quarto a m aior parte dos dias e ficou propensa a enxaquecas. Eu fui enviada a um colégio interno adequado, na região nordeste, um local escolhido por m im . Havia um haras próxim o dali, e continuei a m ontar. Eu exercitava os cavalos dos ricos, o que descobri ser um a boa m aneira de m e colocar sobre um a sela, j á que não podia ter m eu próprio cavalo. Pensava em Leona naqueles dias, e im aginava com o exatam ente ela encontrara seu cam inho de volta à equitação. Tinha certeza de que ela conseguira; a questão era com o.

Deixei o Sul. Meu irm ão continuou lá. Levou a vida com m eus pais, que perm aneceram na Flórida, m as, na verdade, se m udaram para o sul do estado, m ais estranho e diferente. Mudaram -se para Miam i, onde m eu pai continuou a exercer a m edicina.

Meu pai nunca m ais viu o próprio irm ão, m as continuou a enviar-lhe um a som a de dinheiro. Certa vez eu vi a carta dobrada, com um cheque no m eio: o destinatário era George Atwell, em Centralia, Missouri. A plantação de laranj as continuou a ser um a atividade vantaj osa para m inha fam ília; nos m anteve a salvo na década de 1930, e na década de 1940 nos tornou ricos novam ente. Ela foi nossa salvação, perm itiu que eu fosse para o internato, perm itiu que m antivéssem os um a vida sem elhante àquela que tínham os im aginado para nós.

Quando Georgie m orreu, a tia Carrie nos enviou o obituário, cortado de um j ornal. Havia um bilhete preso ao recorte de j ornal, com a caligrafia da tia Carrie: “Ele nos deixou.” Ela e o tio George achavam que acontecera um a briga entre os prim os; tenho quase certeza de que j am ais souberam da m inha parte na história. Eu teria cortado a língua da boca antes de contar para eles, e Georgie — bem , m esm o que ele se lem brasse do que tinha ocorrido, ele não estava m uito norm al, e estou quase certa de que não teriam acreditado nele. Tenho levado m inha vida com Georgie com o um a som bra; ele é um a pessoa que certa vez eu am ei, e cuj a m orte teve algum a participação m inha. É um fantasm a. Meu fantasm a.

Tenho certeza de que Sam não queria m atar Georgie. Ele era um garoto, tornando-se um hom em . Não conhecia a própria força. Foi um a série de circunstâncias, Sam . Um a série de circunstâncias.

Jam ais confessei a vivalm a o que eu vira, m eu irm ão levantar a rifle e golpear Georgie na cabeça. Será que m eu pai sabia? Ele era m édico e certam ente saberia distinguir a diferença entre um ferim ento causado por um a queda e um ferim ento originado por um golpe violento. Porém , só Deus sabe.

Eu retornava para casa duas vezes por ano, quinze dias no Natal e quinze dias no m eio do verão. A décim a segunda parte de um ano. De certa form a, a m aneira com o nos relacionávam os continuou igual: m eu pai ainda distante, m inha m ãe difícil. Porém , a qualidade dos nossos sentim entos se com plicou pelo que eu tinha feito, pelo que m inha fam ília tinha feito com igo. É difícil dizer o que Sam pensava sobre aquilo tudo — éram os irm ãos gêm eos, nunca tínham os que expressar nossos sentim entos um para o outro, apenas sabíam os. Mas não m ais, é seguro dizer que Sam e eu não nos conhecíam os m ais. Ele era agradável e distante quando eu vinha para casa, o que era o pior castigo em que eu podia pensar, tratar-m e com o um a estranha. Nunca m ais chorei na presença dele, nem ele na m inha.

Eu voltava e conseguia fazer as refeições com m inha fam ília, conversar assuntos de pouca im portância, dorm ir na m esm a casa que eles graças apenas a Henry Holm es. Apenas porque ele m e fizera entender a troca efetuada por m eus pais. Eles tinham m e trocado por Sam . Mas era eu quem tinha feito a prim eira troca: m eu irm ão por m eu prim o.

Experim entei o am or genuíno, a alegria, quando m eus filhos nasceram , novam ente a tristeza quando perdi um bebê com cinco m eses de gravidez. Eu tive um a vida, separada de m inha fam ília e daquilo que acontecera quando eu era j ovem . E os cavalos sem pre fizeram parte dela, um a bênção; consolar-m e com eles sem pre foi algo que fiz por instinto, e um instinto que j am ais m e deixou. Tinha prazer em perceber com o eu era boa em cim a de um a sela, com o eu conseguia lidar com um cavalo. Eu era boa em algum a coisa, m elhor do que a m aioria das pessoas em algum a atividade qualquer. Os cavalos eram um a dádiva; quantas pessoas têm um a constante assim na vida, separada da confusão difícil e às vezes bela que constituía a fam ília de cada um ?

Em Yonahlossee aprendi a lição que tinha com eçado a ensinar a m im m esm a em casa: m inha vida era m inha. E tive que reivindicá-la para m im .

Quando eu voltava para o Sul, vinda da região Nordeste, sem pre ficava surpresa com as palm eiras, o calor sem igual, a um idade tão pesada no ar que era quase enj oativa. Meus pais viviam em um a área da cidade onde podiam avistar as casas vizinhas a partir da casa deles; viviam em um a casa bonita e fria.

Sam decidiu ser m édico, com o papai. Ele parou de explorar a natureza. Passava todo o tem po no lado de dentro, agora, e quando eu voltava para casa, prestava atenção em suas faces, agora pálidas por sua preferência em viver m ais dentro de casa do que ao ar livre; quando ele se virava para m im , havia um sinal superficial, um a breve sensação de desespero. Nós estávam os perdidos um para o outro. Em Yonahlossee, aprendi a viver sem m eu irm ão; aprendi que aquilo que antes parecia im possível na verdade não era. E ter a vida som ente para m im era m ais fácil, em vários sentidos. Mais solitário, m as um irm ão gêm eo é tanto um fardo quanto um prazer. Eu não conhecia a vida sem ele, nós tínham os um a língua só nossa na infância, nós tínham os com partilhado um útero. Quando todo m undo esperava um bebê só — m inha m ãe, m eu pai, m eus avós —, viem os dois. E não era fácil fazer parte de um a dupla em um lugar onde deveria caber apenas um . Se houvesse apenas um a pessoa, então Georgie ainda estaria vivo. Porque ninguém m ais além de Sam teria ficado tão profundam ente, tão irrevogavelm ente afetado por algo realizado por sua outra m etade.

Meus pais tinham m e m andado em bora porque perceberam que eu era um a m enina que ansiava dem ais, desej ava em excesso, de form a inapropriada. E, naquela época, todo aquele desej o era perigoso.

Ai de você, Thea, dissera o Sr. Holm es. Estávam os na biblioteca, cercados dos livros dele. Minha blusa estava desabotoada. Ele pegou m inha m ão e beij ou m eu polegar. Ai de você por querer tanto. Ele beij ou m eu pulso. Por desej ar tanto. Ele m e deitou no sofá, m eu uniform e levantado até os quadris.

Eu queria tudo. Queria m eu prim o. Queria o Sr. Holm es. Aprendi que eu era um a m enina que conseguia o que queria, m as não sem tristeza, não sem deixar um rastro de destruição tão grande que consum iu m inha fam ília. E quase a m im . Quase o trilhei, j unto com m inha fam ília. Quase m e perdi.

Mas eu era egoísta dem ais. Eu queria dem ais, com o afirm ou o Sr. Holm es. E nada do que aconteceu foi um a decisão m inha, um a lista pré-concebida, um plano articulado. Não escolhem os quem am am os. E ai de todos nós, por causa disso.

Ai de Sam , que nunca deixou a Flórida, que nunca viveu em um m undo além das praias dali. Ele se casou, teve um a m ulher, teve um a fam ília. Ele não teve sua irm ã gêm ea. Ai do Sr. Holm es, a quem j am ais voltei a ver, que certam ente m e considerou um a perda, a m esm a sensação que tive em relação a ele. Ai de m inha m ãe e de m eu pai, que perm itiram que o que fiz desm ontasse a vida deles. Ai de Georgie principalm ente, cuj o prim eiro am or foi o últim o, que agora tinha voltado a ser pó, um a lápide no cem itério do Missouri sendo a única evidência de que ele existira, prova de que vivera e deixara algum a m arca. Evidência de que existira, m as não de que am ara. Eu sou a prova de que ele am ou. E talvez este fosse m eu papel m ais im portante na vida de Georgie: viver um a vida para nós dois. Ver as coisas que ele nunca viu. Fazer o que ele não pôde fazer.

Mas ai de Thea — não. Retire isso, Henry. E certam ente ele teria feito, se tivesse continuado a m e ver. Certam ente ele teria constatado que m inha vida era cheia, rica, e só m inha.

Um a fotografia estaria pendurada na parede do lado de fora do escritório do Sr. Holm es, apesar de eu nunca chegar a vê-la. Nunca m ais eu retornaria a Yonahlossee, ou à m inha casa da Flórida. A fotografia serviria com o um lem brete para ele. Um lem brete para todo m undo de que Theodora Atwell e Naari tinham vencido o Torneio de Prim avera em 1931. Eu tinha partido em desgraça, m as ainda assim m inha fotografia estaria lá. Era um a tradição.

Ouvi um trem a distância, o apito fam iliar. A m ulher perto de m im se levantou, esquecendo-se de m inha presença. Ai de nós. A m em ória brotou, sem ser convidada. Um a das incontáveis tardes em que passam os j untas, tudo escorrendo agora, escorrendo para fora da m inha cabeça e se transform ando em um a brum a espessa. Vacilei. Coloquei a cabeça entre as m ãos.

Mas não. Olhei para cim a novam ente. O trem apareceu vagaroso para parar na estação, e a m ulher m archou para a chuva, em bora ainda faltassem m uitos m inutos para lhe perm itirem subir a bordo. Ela não se im portou, porém . Sim plesm ente queria partir.

Pensei na m inha foto no Castelo, que nem m eus pais nem Sam chegariam a ver algum dia.

E o que as futuras alunas veriam quando m irassem a fotografia durante suas idas e vindas diárias, se olhassem com atenção? Não o m atiz dos m eus cabelos, que tinham perdido o colorido na foto. Não o Sr. Holm es que estava situado atrás. Nada especial, na verdade. Apenas um a garota m ontada em um cavalo, exatam ente com o tantas outras.

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Anton DiSclafani

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