Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 15 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 15

 

A notícia chegou por interm édio de um a antiga m onitora, que vivia em Dallas e era am iga de Henny. A fam ília de Leona tinha perdido tudo. O petróleo do pai dela estava ácido, ouvim os dizer, em bora ninguém soubesse o que isso significava. Agora valia m enos do que água potável. Isso nós sabíam os o que significava. Tudo, Henny dissera, m as m esm o ela não parecia sentir prazer com essa notícia.

— Onde eles vão m orar? — perguntei a Sissy, a cam inho da casa de banho, nós duas enroladas em nossos roupões.

Ela olhou de lado para m im .

— Eles ainda vão ter a casa, Thea. Mas não o padrão de vida que tinham .

Quando chegam os à casa de banho, esquadrinhei o lugar em busca de Leona, que às vezes eu via por volta daquela hora, m as avistei apenas um grupo barulhento de calouras, Molly entre elas. Era obrigatório que tom ássem os banho dia sim , dia não durante o verão, m as, durante o inverno, apenas um a cada três dias. O padrão de higiene da Sra. Holm es era alto.

Enquanto eu esperava Docey preparar m eu banho, fiquei im aginando que tipo de padrão de vida havia restado para Leona. Ela não fizera nada errado, nada im perdoável. Ela iria em bora daqui. Desistiria dos cavalos, ou pelo m enos de cavalos com o o King, que havia custado um a pequena fortuna. Possivelm ente, ela não iria para um a faculdade de m oças.

Docey fez sinal de que o banho estava pronto e tirou m eu roupão enquanto eu entrava. Eu havia descartado quaisquer resquícios de pudor depois das prim eiras sem anas aqui. As m ãos de Docey estavam verm elhas, por testar a água tantas vezes. A vida de Leona podia ficar lim itada, agora, de um a m aneira que não era antes, m as ela não seria um a em pregada, com o Docey. Ela nunca passaria fom e. Certam ente haveria algum parente rico que a aj udaria.

Victoria, Leona, todas as garotas que haviam sido m andadas para casa — a vida delas m udaria de m aneiras sutis. Não afluiriam pretendentes ricos. Elas teriam que fazer escolhas com m ais cuidado. Todas as edições da revista Ladies’ Home Journals que as m ães m andavam estavam cheias de artigos sobre pequenos trabalhos que as m ulheres podiam fazer para aj udar no sustento da casa: lavagem de roupas, costura. Eu quase ri. Com o se a m ãe de Leona pudesse salvar a fortuna da fam ília. Com o se a tia Carrie pudesse dobrar o tam anho do j ardim e pagar a dívida no banco. Que as esposas pudessem ganhar nem que fosse um a fração do que os m aridos haviam perdido era um a fantasia.

Eu entendi que nossas professoras, de quem anteriorm ente sentíam os pena, por não terem nenhum de nossos benefícios, eram m ulheres de sorte. A Srta. Brooks tinha um salário, além de quarto e com ida; falava sobre livros o dia inteiro em vez de se preocupar em m anter a fam ília sem dívidas. Devia ser um alívio, não ser responsável por um a fam ília agora.

Nos dias que se seguiram , todos observaram Leona, procurando sinais de que ela tinha vacilado, iria vacilar. Mas ela não m udara sua form a de agir. E, gradativam ente, as garotas, com o sem pre acontece, perderam o interesse por ela. Se havia algum a m udança, é que ela agia com ainda m ais arrogância. Observá-la conduzir King nos obstáculos com o se fossem brinquedos, com pletar a pista sem com eter nenhum a falta, de m aneira bonita, perfeita, depois passar por nós saindo do picadeiro sem nada além de um aceno com a cabeça — bem , nos fazia pensar se aquilo tudo era realm ente verdade. Mas ela ainda nos lem brava do nosso próprio precário equilíbrio na teia do destino. Se o pai de Leona podia perder tudo, o que dizer de nossos pais? E de nós? A pergunta flutuava sobre nós, agora, com o um a nuvem .

* * *

Na Casa Augusta, certa noite, Eva apagou as luzes e acendeu velas; ela trouxe um a tábua Ouij a, que havia tom ado em prestada de garotas do prim eiro ano. As calouras usavam -na excessivam ente. Nós havíam os ficado presas do lado de dentro quase o dia todo, sem poder cavalgar por causa da chuva. O clim a parecia quase típico de um de furacão.

— Isso — disse Gates, assim que viu — é proibido. Além de ser um a tolice.

Mas, m esm o assim , ela se j untou a nós no círculo, colocou a ponta dos dedos m uito de leve no pedaço de m adeira em form a de coração. Nós nos sentam os no tapete oriental desbotado que ficava no centro do aloj am ento. Eu penteava as franj as do tapete distraidam ente. Eles cobriam o chão de todos os aloj am entos; eu sabia com o eram caros. O Sr. Holm es devia vender tudo isso, pensei, e pagar a anuidade de algum a das garotas.

— Meu pai diz que isso aí é coisa do dem ônio — falou Mary Abbott, da cam a. — Vocês não deveriam j ogar.

— Ah, Mary Abbott — disse Eva. — Não sej a tão rígida. É só um pouco de diversão.

— Com quem vocês estão tentando contato? — perguntou Sissy .

— Minha avó — sugeriu Eva. — Mas ela era tão m açante na vida real... Não consigo im aginar que a m orte tenha feito com que ela ficasse m ais interessante.

— Eva! — Gates a repreendeu.

Eva levantou as sobrancelhas, preguiçosam ente, e sorriu. Abafei um a risada.

— E você, Thea? — perguntou Sissy. — Tem alguém que queira contatar? Conhece alguém que m orreu?

A pergunta soou com o um sino, tilintando claram ente em m inha cabeça. Será que Georgie estava m orto? Fiquei com os olhos cheios de lágrim as, aquela velha e conhecida um idade. Mas não: m am ãe dissera na últim a carta que ele estava bem .

— Não — respondi, e sorri, levem ente —, não consigo pensar em ninguém .

Sissy tentou encontrar m eu olhar.

— E algum a antiga estudante de Yonahlossee? — perguntei, para interrom per o silêncio dela.

— Qual? — perguntou Gates.

Ela estava sentada em pertigada, as pernas dobradas por baixo dela, da m aneira com o haviam nos ensinado na aula de etiqueta caso não houvesse cadeira.

— Lettie Sim s — sugeriu Eva. — Ela é a razão por não poderm os m ais nadar no rio. Afogada — acrescentou.

— Quando? — perguntei.

— Nos anos m il e oitocentos — respondeu Sissy. — Há m uito tem po. — Ela sorriu de m aneira tranquilizadora. — Há m uito tem po m esm o.

Sorri de volta, para m ostrar a ela que eu estava bem . Mas Sissy parecia um pouco do outro m undo à luz da vela; todas nós parecíam os. Eu não era tão frágil a ponto de ficar assustada por causa de um a garota afogada no século anterior.

Todas nós tocam os no coração de m adeira, de leve. Mary Abbott apagou as luzes elétricas, e assim só tínham os a ilum inação das velas.

— Espírito do lado oculto — com eçou Eva, e Sissy deu um a risadinha. — Espírito do lado oculto — recom eçou —, por favor, deixe-nos falar com a Srta. Lettie Sim s, a quem sabem os que as garotas cham avam de Sim sy . Querem os fazer um a pergunta a ela. Com todo respeito.

O coração se m oveu, claro que sim , um a de nós estava em purrando. Observei o rosto das garotas brilhando suavem ente e fiquei im aginando o que eu perguntaria se pudesse fazer qualquer pergunta e soubesse que a resposta seria verdadeira.

“F-A-Ç-A-U-M-A-P-E-R-G-U-N-T-A-S-E-Q-U-I-S-E-R-M-A-S-U-M-A-S-Ó.”

Os dedos sardentos de Gates, pensei; ela queria que isso funcionasse.

Mary Abbott choram ingou, da cam a:

— Estou com m edo.

— Shh — sussurrou Eva. — Ela não quer nos m achucar.

As m ãos de Sissy estavam trem endo. Será que as garotas realm ente acreditavam nisso? Nós tivéram os um a aula sobre ocultism o com papai, com o era sim plesm ente um a m aneira de não acreditar que todos os soldados da Grande Guerra estavam m ortos. Tentei encontrar o olhar de Gates, m as seus olhos estavam fixos na tábua.

— Isso é besteira — eu disse. — Um a de nós está m exendo.

Com ecei a tirar m inha m ão, m as Sissy balançou a cabeça.

— Por favor, Thea — sussurrou. — Espere.

— Depressa, então. Faça um a pergunta.

O vento chicoteava nosso aloj am ento, que de repente pareceu pouco resistente, com o se fosse feita de papel. Um galho atingiu a j anela e Eva engasgou. Durante algum tem po, quando tinha sete anos, Sam teve m edo de Kate, que, segundo um a lenda am ericana, era um a bruxa que assom brava a fam ília Bell no Sul dos Estados Unidos; ele disse que ela podia se disfarçar de qualquer pessoa ou qualquer coisa, reconhecível apenas pelos olhos verdes. Um a cobra, um pássaro, um a garotinha. Georgie havia contado a lenda para ele, e deixou o tolo do Sam assustado. Mam ãe pôs a culpa nele, pois havia deixado o m undo de fora entrar. Durante anos Sam reparava cautelosam ente nos rostos das pessoas que encontrava. Mas não encontrávam os m uitas pessoas, e nenhum daqueles olhos, para alívio dele, era verde.

— Alguém tem algum a pergunta? — indaguei.

— Eu tenho — pronunciou-se Gates, o que nos surpreendeu a todas.

Ela fechou os olhos e respirou profundam ente.

— Nós vam os ficar bem ? — A voz dela vacilou, tão de leve, de m aneira que nunca havia vacilado antes e nunca vacilaria novam ente, pelo m enos não na m inha presença.

* * *

Naquele inverno, m inha perform ance em cim a de um cavalo ficou cada vez m elhor. O frio parecia ter um acordo com igo. Pelo m enos, podia-se cavalgar por m ais tem po sem m edo de a tem peratura do cavalo aum entar m uito. Mais rápida e m ais forte, eu saltava com perfeição qualquer pista que o Sr. Albrecht arrum asse, norm alm ente na prim eira tentativa. Minhas pernas j á não doíam depois de eu term inar os exercícios. Meus braços estavam m usculosos e definidos. Eva havia cortado m eus cabelos; estavam na altura dos om bros, o que m e dava um ar m enos infantil. Quando eu m e analisava no espelho sobre o lavatório, gostava do que via, gostava do que m e tornara: talvez fosse m inha im aginação, m as eu olhava no espelho e via que era superior à antiga Thea, m ais poderosa do que ela j am ais havia sido.

Eu lim pava o prato na m aioria das refeições. Henny observava e bebericava copo atrás de copo de água gelada. Não era gorda, não ainda — era roliça, m uito redonda, m as qualquer um podia ver que ela logo ficaria gorda. Era seu destino.

Às vezes, eu perguntava a ela sobre o casam ento. Ela então ficava satisfeita — ah, com o era fácil cair nas graças de Henny ! Ela falava m enos do noivo do que das flores, do carrinho de sobrem esas, do vestido que viria de Nova York. Martha e Jettie seriam as m adrinhas. Fiquei im aginando se era doloroso para Henny pensar na linda Martha ao lado dela. A Srta. Metcalfe ficava em silêncio enquanto Henny falava da sua alegria m atrim onial im inente, e percebi, chocada, que ela estava com invej a.

Fiz um a pergunta sobre a casa nova, para onde eles se m udariam depois que se casassem , e Henny se virou para m im , excluindo todas as outras garotas da m esa.

— Você vai saber com o é, Thea, você vai saber quanta alegria há nisso.

O hálito quente dela cheirava levem ente a chocolate. Que m aneira estranha de se expressar, a alegria flutuando em algum lugar, um a quantidade infinita dela, com o se você tivesse apenas que estar no lugar certo para conseguir alcançá-la.

* * *

Quando o Sr. Holm es apareceu, um a sem ana após m inha visita a Decca, não foi nada extraordinário. Tantas coisas eram assim : você esperava, esperava e esperava, e, quando acontecia, você continuava a m esm a. Eu não tinha certeza se isso era um a decepção ou um alívio. Parecia um pouco de cada.

Nós estávam os no andar de baixo, j ogando dom inó na m esa de centro. Eu bebia chá e observava Decca tom ando seu leite — o copo dela estava m uito perto da beira da m esa e eu estava com m edo de ela esbarrar com o cotovelo. Já tinha dito para a m enina tom ar cuidado duas vezes, e havia um lim ite, eu aprendera após passar tantas horas com Decca, de quantas vezes você podia cham ar atenção de um a criança.

Havia enfeites caros na sala: um a coleção de pequenas peças de porcelana de Lim oges em um a cristaleira, seis porta-cartões de prata em um a m esa lateral, todos gravados com iniciais variadas. Um a pintura a óleo de um a garota sentada em um cam po, um carneiro a distância, que m e fazia lem brar de Tess of the D’Urbervilles . Não havia nada de pessoal, exceto porta-cartões com iniciais; m ais um a vez fiquei im aginando se algum a dessas coisas pertencia à fam ília Holm es. Haveria um fundo discricionário que perm itia que cada diretora retirasse um tanto? Mas aquele fundo certam ente acabaria agora, com os problem as. Mesm o se o dinheiro do fundo não tivesse sido afetado, seria de m au gosto usá-lo.

— Sua vez.

— Desculpe — eu disse. — Desculpe, vam os ver...

Mas não vi. Nunca tinha j ogado dom inó antes e aparentem ente as m eninas Holm es j ogavam desde que nasceram . Era um j ogo m açante, sem fim .

Decca usava um vestido de verão, evidência da m ão do pai. Decca podia ser obstinada e era exigente com as roupas. Eu im aginava que ela tivesse insistido nesse vestido, e o Sr. Holm es perm itira à filha um capricho inapropriado para a estação.

Eu usava o uniform e de Yonahlossee, m as não m e im portava. Eu tinha m e acostum ado à nossa aparência, todas iguais à prim eira vista. Eu não estava usando nenhum a j oia.

Decca se levantou; interrom pi o afago em m eu cabelo.

Eu era vaidosa, tinha dezesseis anos e nunca m ais m e sentiria tão observada.

— Papai chegou — anunciou ela, e rodopiou.

— Decca — repreendi —, com porte-se.

Sem pre havia algum a tragédia acom panhando a chegada dele: o leite, dessa vez.

— Decca! — fiquei furiosa.

Toda essa espera, todos os m eus aj ustes, e agora o leite havia derram ado e Em m y não estava disponível; com o cham á-la sem parecer grosseira?

Decca correu até o pai e m e ocupei enxugando o leite com a saia.

— Um acidente? — perguntou o Sr. Holm es, e pegou Decca no colo. Ele ofereceu a m ão livre para m im e aceitei, levantando-m e.

— Em m y — cham ou ele, e ela apareceu tão rapidam ente que percebi que devia estar esperando.

— Nós estávam os apenas...

— Jogando?

Confirm ei, olhei para a direita e para fora da j anela. Tudo estava branco, im óvel e frio.

— Jogando — eu m e senti derrotada.

Decca se sentou encolhida e pequena no colo do pai, Em m y se apressou com a lim peza do tapete, dando tapinhas e tateando.

— Está bom , Em m y .

E em bora parecesse distraído, ele falou delicadam ente com Em m y , que se levantou, fez um a m esura e saiu da sala sem olhar para ele um a única vez.

Eu não ia falar nada, queria que ele fosse o próxim o a falar, depois de eu esperar e esperar.

Mas foi Decca quem falou:

— Estou ganhando no dom inó.

— Não fique se gabando.

— Ela não está se gabando. É verdade. — Sorri para Decca, que retribuiu o sorriso.

O Sr. Holm es colocou a filha no chão, m as ela se agarrou à perna dele. Ele descansou a m ão no topo do couro cabeludo dela e cuidadosam ente livrou a perna.

— É isso m esm o? — Ele sorriu.

Decca anuiu, incerta; os adultos riam e às vezes aquilo era bom , às vezes não.

— Suba agora — disse ele a Decca. — Por favor — pediu, antecipando a recusa dela. — Vou subir em um segundo.

Ficaríam os sozinhos! Fiquei im aginando se ele m e achava bonita. Eu ansiava que ele m e olhasse, m e notasse, m as o Sr. Holm es parecia distraído.

Decca m e beij ou na bochecha e m eu rosto ficou verm elho, ela estava tão perto de m im , o cheiro de seu couro cabeludo e seus om bros finos.

O Sr. Holm es deu um tapinha na cabeça da filha quando ela passou e sorriu para ela, e eu sabia que, se Decca não era a preferida dele antes, seria agora.

Havia algo nesta sala que não pertencia ao lugar, pensei, e era eu: eu era um a intrusa; é claro que o Sr. Holm es achava que eu era um estorvo. Às vezes, as m onitoras se encontravam aqui com a Sra. Holm es, m as, em geral, a casa dos Holm es era privada, da fam ília, não um lugar para as garotas do acam pam ento. Com o o Sr. Holm es se acom odou em um a cadeira, percebi que não queria que eu ficasse aqui.

— Bem — disse eu, pronta para dar um a desculpa.

O que eu estava pensando? Que o Sr. Holm es se apaixonaria por m im ? Era assim que as paixonites pelos hom ens tornavam as garotas tão bobas! Decidi nunca m ais gostar de ninguém , nunca am ar alguém até que ele m e am asse prim eiro: a controlar m eu coração.

— Sente-se, sente-se — disse ele —, por favor.

E gesticulou em direção a um a cadeira, e eu estava errada. Ele m e queria lá. Parecia sincero. Não era apenas m inha im aginação.

Nesse m om ento, Em m y entrou de novo na sala, carregando um a bandej a, que pousou na m esa de centro. Ela encheu m inha xícara de chá com passos m edidos, cuidadosos: prim eiro pegar a chaleira, apoiá-la tanto por baixo quanto pela asa. Dobrar o punho, não perm itir que o braço trem a. Servir. Endireitar o pulso agora, rapidam ente, para interrom per o fluxo de chá de form a decidida, para que nenhum a gota de água fervente pule do líquido que j orra cada vez m enos e aterrisse na bandej a de porcelana — ou, Deus perdoe, de prata, que m ostra tudo ou m ais — ou ainda pior, da dam a a quem você está servindo.

Em m y não ergueu a cabeça nenhum a vez nem olhou para m im . A m ão dela estava perfeitam ente firm e. Não era à toa que ela estava aqui na Casa do Diretor.

Ela entregou ao Sr. Holm es um copo alto e transparente e saiu. Eu estava com um gosto de giz na boca. Tom ar m ais chá era o que eu m enos queria.

O Sr. Holm es tom ou um grande gole de seu copo fino, j á pela m etade. Ele estava pálido, m as podia ser a claridade que dim inuía rapidam ente e nos enviando para dentro da escuridão.

Um sino tocou. Todo m undo ainda estava na Sala de Estudos; pensei em Sissy, que provavelm ente estaria m e esperando. Eu não iria a lugar nenhum .

— Hora da aula — disse o Sr. Holm es, m as de m aneira tão inform al, com o se eu não precisasse m e preocupar.

Ele engoliu o resto da bebida.

Ouvi água correndo lá em cim a, Em m y dando um banho em Decca.

— Dê-m e licença por um m om ento, Thea — disse calm am ente, e saiu da sala.

O Sr. Holm es voltou com um decantador de vidro. Tínham os alguns sim ilares em nossa sala form al.

Eu criei um m au hábito desde que a Sra. Holm es partiu, eu o im aginava falando.

Ele parecia m uito distante, do outro lado da sala, m exendo um a bebida em cim a do piano, o copo suado na m adeira crua — aquilo deixaria um a m arca, ele era um hom em e não pensava em m arcas —, m as não, ele levantou o copo e enxugou o local m olhado com a m anga do casaco.

Ele se sentou e exam inou a bebida. Ouvim os um barulho vindo do andar de cim a e olham os para o alto da escada. Captei o olhar dele e sorri, ele retribuiu o sorriso, era assim que se fazia para agir fácil e naturalm ente com um hom em . Olhei para cim a novam ente, m as o Sr. Holm es estava olhando para baixo, m exendo a bebida com o dedo.

— Thea — com eçou o Sr. Holm es, e depois parou.

Ele dobrou o dedo m olhado da bebida e então o cheirou, e fiquei súbita e insuportavelm ente constrangida — esses gestos eram privados, eu não deveria vê-los. Ele tom ou um grande gole da bebida.

E com o eu estava nervosa, a prim eira coisa que m e veio à cabeça eu soltei, com o um dos três sapos de Sam .

— A Sra. Holm es ainda está viaj ando?

E era precisam ente a pior coisa que eu podia falar. Pareceu que eu estava j ulgando a ausência da Sra. Holm es, quando na verdade estava agradecida: se ela estivesse aqui, eu não estaria, isso era certo.

Ele aquiesceu lentam ente.

— Estou m eio inclinado a m andar Decca para lá, com atadura e tudo, m as acho que vou ficar m uito sozinho.

Sorri — não parecia possível que a solidão de um adulto pudesse ser aliviada por um a criança. Mas suponho que nós aliviássem os a solidão de m am ãe.

— Falta apenas um m ês para ela retornar — continuou ele. — Espero conseguir m anter o acam pam ento por m ais um m ês.

Ele tom ou um gole da bebida e fez um a careta, daquelas que os adultos fazem quando tom am um a bebida forte. A careta significava que o gosto era prazeroso. Eu sabia disso por observar o tio George.

— E houve m ais doações?

Ele m e olhou, surpreso.

— O senhor falou antes — expliquei — que as pessoas não estavam doando tanto quanto esperava.

— Sim , sim . Você tem um a m em ória excelente, Thea.

— Na verdade, não — eu disse. — Meu irm ão é que tem a m em ória excelente. Ele sabe os nom es de todas as plantas e anim ais, centenas e centenas deles.

— Seu irm ão gêm eo — disse ele. — Eu m e lem bro de algum as coisas.

Eu podia sentir m eu rosto ruborizar de prazer. Ele se lem brava de um detalhe da m inha vida e m e fez tão, tão feliz, m ais feliz do que eu conseguia m e lem brar em anos.

Ele term inou a bebida e colocou o copo no colo.

— Beth está tendo m ais sorte, sim . Melhor ela do que eu. Eu não sou bom em separar as pessoas do dinheiro delas. Sabe o que está fazendo as pessoas quererem contribuir m ais?

Neguei com um gesto de cabeça.

— Cavalos. — Ele riu em descrédito. — Para as m ulheres, pelo m enos, esse parece ser o ponto fraco. O acam pam ento está cheio de garotas, garotas com bolsas de estudo, garotas que vão ser m andadas para casa se as bolsas não tiverem fundos. As m ulheres não se com ovem com a situação dessas garotas. Mas m encione a situação dos cavalos e — ele estalou os dedos — o cheque está assinado.

— A situação dos cavalos?

Eu não queria m e alinhar às m ulheres que ele tão obviam ente desprezava, m as queria saber o que ele queria dizer. Se eu não pudesse m ontar, não sabia o que faria.

— Ah, não quis alarm á-la, Thea. Os cavalos não correm perigo algum de serem levados em bora. — Ele suspirou. — Ninguém com praria um cavalo m esm o. O custo de m antê-los é que assusta. Os preços dos grãos foram parar nos céus, graças à estiagem . Nunca pensei que fosse ficar tão a par da econom ia da agricultura. Os cavalos com em m uito, tenho certeza de que você sabe m uito bem .

— Sei. São anim ais grandes.

Entendi o im pulso de proteger os anim ais que não tinham voz, nem pais para olhar por eles. Eu certam ente teria m ais vontade de doar para um fundo que aj udasse cavalos do que para um fundo que aj udasse garotas.

— Eu não deveria m ais entediá-la com tudo isso — disse ele.

— Não estou entediada.

E não estava. Nunca estivera tão pouco entediada, eu queria dizer, porque este m undo adulto, onde eu não era a filha ou sobrinha de alguém ... bem , isso era inteiram ente novo para m im .

— Thea Atwell, da Flórida. Tão sóbria. Você foi um a criança séria?

— Não sei. — Norm alm ente, o Sr. Holm es se m antinha reservado; a sociabilidade atual parecia um ato incom um , influenciado pela bebida.

Ele riu.

— Não sei o que deu em m im . Olhe aqui — disse ele, se inclinando para a frente, girando o copo sem parar —, obrigado por toda a aj uda. Você tem sido um a bênção.

— Disfarçada — acrescentei, e o Sr. Holm es não riu, com o era m inha intenção, m as assentiu, com o se concordasse.

Voltando ao aloj am ento, apreciei o silêncio do acam pam ento. Apreciei a m ão dele que havia tocado no m eu om bro quando saí, durante um tem po prolongado — foi m inha im aginação? Não, ela ficou um tem po a m ais ali, não queria m e deixar ir em bora. Ele se inclinou para a frente e m e agradeceu e foi tanta em oção que senti-m e em estado de graça.

* * *

Depois do j antar naquela noite — um ensopado grosso, sem graça, era surpreendente que algo tão insípido saísse da cozinha de Yonahlossee, m as eu o com i assim m esm o —, o Sr. Albrecht ficou parado enquanto term inávam os a sobrem esa de biscoitos am anteigados (saborosos, m as tam bém um pouco sem graça) e nos disse para nos j untarm os a nossos grupos de m ontaria. O Sr. Holm es estava sentado perto dele.

— Mas por quê? — perguntei.

— O Show da Prim avera — Molly respondeu — vai acontecer logo.

— Ainda estam os em fevereiro.

— Há m uito para planej ar. E então vem a Despedida da Prim avera, logo depois.

— Você nunca ouviu falar? — perguntou Henny. — Todo m undo com pete, todo m undo assiste. É esplêndido! As m onitoras bebericam cham panhe com os adultos e assistem às disputas.

— É esplêndido! — confirm ou Molly. — Fazem os piquenique no alm oço e depois nos arrum am os para o baile.

O refeitório virou um enxam e de garotas enquanto cada um a tentava localizar o próprio grupo. Vi Leona do outro lado do côm odo, andando em linha reta. As garotas desviavam do cam inho dela, fazendo claram ente um a espécie de curva quando a viam se aproxim ando, com o se Leona fosse um debulhador e elas fossem o trigo. Os problem as da fam ília de Leona só nos tornaram m ais cuidadosas com ela. Eu m e lem brei da fotografia de Leona na parede do lado de fora do escritório do Sr. Holm es. A m aioria das pessoas não se parecia com elas m esm as em fotografias: a câm era as deixava solenes dem ais, com a fisionom ia rígida dem ais, praticam ente irreconhecíveis. Sam costum ava dizer que a m aneira com o as pessoas encaravam a câm era fazia com que parecesse que elas estavam olhando para um a coisa horrível. Mas Leona não era m ais discernível em carne e osso. Ela passou por m im sem m e notar e entrei na fila atrás dela.

Encontram os um a m esa e nos sentam os. Meu grupo, o da turm a avançada, ficou responsável por desenhar a pista para o grupo interm ediário. Gates esboçou um triplo, e todas nós nos inclinam os para a frente para observar, sua m ão pálida refletindo o branco do papel. Jettie olhava m ais de perto, soltando m urm úrios de aprovação.

A cena era perfeita: o Sr. Albrecht estava sentado com o Sr. Holm es na m esa principal; o Sr. Holm es estava tão perto que eu podia ver todos os detalhes da sua figura — o colarinho enrugado, o relógio, as pontas retas do cabelo —, m as nós estávam os dispostas em um ângulo tal que ele não podia m e ver.

O Sr. Albrecht desenhou algo no ar, o Sr. Holm es concordou, os cotovelos apoiados na m esa, m as não havia qualquer problem a nisso, tudo j á tinha sido retirado da m esa e os hom ens às vezes agiam assim . O Sr. Albrecht cruzou os braços na frente do peito e escutou o que o Sr. Holm es dizia; então eles acabaram de falar, pois o Sr. Albrecht não era o tipo de hom em que era bom em falar sobre nada. Tanto a cadeira de um quanto a de outro tinham braços e as nossas não tinham , porque éram os garotas, não diretores, não hom ens. Observei o rosto deles, m as pareciam m áscaras, não olhavam para um ponto específico, am bos encarando além do outro, para o espaço profundo m arcado pelas garotas de Yonahlossee.

Não m e ocorreu na época que devia ser difícil ser um hom em adulto cercado de centenas de garotas, tão obviam ente fora do alcance deles que podíam os flertar, podíam os de brincadeira pegar o cotovelo do Sr. Albrecht no quarto de guardar as selas, deixar nossa m ão segurar a dele por m ais tem po quando ele nos aj udava a desm ontar, e ele não podia fazer nada. O Sr. Albrecht não se configurava com o hom em , não para qualquer um a de nós, eu não achava, porque ele não era bonito, rico ou j ovem . Mas flertávam os com ele porque ele estava lá e nós tam bém . Provavelm ente ele se tocava à noite, quando estávam os ocultas nos nossos aloj am entos, e ele em sua casa na cidade. Ele se tocaria e pensaria no cabelo m uito claro de Leona contra suas costas nuas, as curvas dos seios de Eva, contidos pela blusa branca — ele cobriria um deles com a m ão, depois o outro, ela desej aria desabotoar a cam isa, m as ele não deixaria, ele gostava de sentir com o os m am ilos dela se enrij eciam contra o algodão. Ela não estaria usando um a roupa de baixo grossa, não haveria nada além do algodão fino e esticado entre a m ão dele e o seio dela.

— Thea? — cham ou Leona.

— Sim — respondi, com um a intenção autoritária, em bora não tivesse ideia do que elas queriam .

— Um obstáculo triplo tem sua aprovação?

Dei de om bros, depois tentei parar os om bros, e concordei. Na sem ana anterior, eu havia tido problem as com um triplo.

— Tem — disse, e fiquei pensando na serenidade de Leona.

O m undo dela havia m udado drasticam ente, a fam ília não era m ais o que era antes, e ela não deixava transparecer nada.

Então Martha passou por nossa m esa, segurando o desenho do grupo dela (ela estava na turm a de Sissy, e, apesar de ser um a am azona m elhor do que m inha am iga, a tranquilidade de Martha não a aj udava em nada em cim a de um cavalo). Ela estava usando pequenos brilhantes nas orelhas, e eu a observei e ela era um a faísca, um vislum bre, um lam pej o — algo que não pertencia a este m undo.

O Sr. Holm es tam bém parecia estar estudando Martha. O rosto dele estava m uito tranquilo. Eu não queria adm itir para m im m esm a que Martha era m ais bonita do que eu, em bora soubesse que era, eu sabia que quase todos no acam pam ento, se perguntados, apontariam Martha com o a garota m ais bonita. Mas eu tam bém sabia que não havia nenhum a m aneira verdadeira de m edir a beleza, e talvez algum detalhe específico em m eu rosto fosse algo que o Sr. Holm es pudesse gostar.

O Sr. Holm es virou a cabeça, e foi um segundo antes de eu perceber que ele havia m e flagrado olhando. Virei o rosto, rapidam ente, constrangida.

— O que você está achando de tudo isso, Thea? — perguntou Leona novam ente.

— Eu acho... — respondi, e olhei para os desenhos em cim a da m esa — acho que está perfeito.

Leona sorriu.

— Nós a estam os distraindo?

Meu rosto ardeu. Todos m e olhavam . Leona se virou e olhou acintosam ente para a m esa onde o Sr. Holm es e o Sr. Albrecht estavam . Balancei a cabeça, negando. Eu não queria m e subm eter tão facilm ente a Leona, m as parecia a m aneira m ais rápida de pará-la.

— Então, que bom — disse ela. — Não gostaríam os que isso acontecesse.

Gates se postou a m eu lado quando j untam os nossas coisas e saím os, seu caderno enfiado cuidadosam ente em baixo do braço.

— Thea. — A voz dela estava baixa. As bochechas estavam verm elhas por baixo da grande quantidade de sardas. — Leona venceu no ano passado. Ela foi a garota m ais j ovem a vencer.

— Eu sei — respondi.

Aquilo não era de conhecim ento geral?

Gates aquiesceu lentam ente.

— Então você deve saber com o ela quer vencer novam ente a qualquer custo. — Ela tocou m eu braço. — Apenas tom e cuidado — sussurrou.

Fiquei surpresa com o fato de Gates se im portar. Norm alm ente ela não se envolvia nos assuntos m esquinhos do acam pam ento.

Observam os Leona, que estava sentada sozinha na m esa, revisando o desenho de Gates. Ela parecia estar dando ao pedaço de papel toda a sua atenção, que era com o Leona se m ovia pelo m undo: ela dava atenção integral para o que quer que estivesse fazendo.

— Quem sabe se ela vai estar aqui para o torneio — disse Gates, e o que senti foi decepção, não alívio. Leona era m inha única concorrente real.

Naquela noite, abri um a carta de m am ãe. Sissy tinha saído com Boone. Eu havia sido insolente em m inha últim a carta, eu sabia; dirigindo-m e à m inha m ãe com o se ela fosse igual a m im , quando obviam ente não era.

Querida Thea,

Você pareceu zangada na última carta. Eu entendo, claro. Sim, eu era amiga de Beth

Holmes. Ela era Beth Babineaux, na época. Ela era de uma boa família de Nova Orleans.

Tão ricos quanto possível. Suponho que não estejam tão ricos agora, mas quem sabe? Perdi

contato com ela; perdi contato com todo mundo, e você quer saber por quê? Eu tinha tudo

de que precisava com você, Sam e seu pai. Eu poderia ter tido vinte amigos; eu poderia ter

tido trinta. Mas sua família é seu maior amigo, Thea. Eu não contei que conhecia Beth antes

de você partir porque havia muitas outras coisas em minha cabeça. Não tramei nada, Thea.

Sinceramente, não imaginei que você fosse se importar com isso.

Vendemos a casa. Surpreendentemente, alguém quis comprar; não achei que haveria

interessados, mas seu pai estava certo: ainda há gente com dinheiro. Nós estamos entre

eles, por sorte. Estou encaixotando todas as nossas coisas agora. Vamos nos mudar para

Orlando, onde seu pai vai trabalhar. Talvez depois nos mudemos mais para o sul, para

Miami. Tudo está incerto. Precisávamos levar Sam para longe. Precisávamos de um novo

começo, como você está tendo aí, em Yonahlossee.

Com amor,

Mamãe.

Rasguei a carta em pedacinhos assim que term inei de ler. Não fiquei surpresa por outra pessoa querer com prar m inha casa; ela era linda, perfeita. O que m e chocou foi que m eus pais a tivessem vendido. Que a casa houvesse acabado para nós. Nunca pensei realm ente que m am ãe um dia sairia dali.

Eu sabia m esm o quando estava rasgando a carta que era um a tolice; um gesto que ninguém a não ser eu m esm a veria. Eu teria que ficar de quatro no dia seguinte para j untar quaisquer pedacinhos que tivessem ido parar em baixo da cam a. E as outras garotas podiam perceber, podiam ficar im aginando o que é que eu estava fazendo, e então eu teria que m entir, de novo, para fazer m inha fam ília parecer diferente do que era.

Meu pensam ento seguinte foi Sasi. Eu sabia que ele seria vendido, j á que, de qualquer m aneira, eu estava ficando grande dem ais para ele, m as afastei esse pensam ento da cabeça. Será que m oraríam os em um a fazenda em Orlando? Ou em um lugar onde se podia avistar a casa do vizinho, ou de am bos os vizinhos, dos dois lados? Eles venderiam Sasi para um a garota ou para um garoto? Sam iria para a escola em Orlando? E será que ela pensava que eu era idiota? Que Yonahlossee não era nada além de um lugar para se livrar de m im ? Se isso era um novo com eço, eu era um a m acaca de circo.

Há um ano, eu não acreditaria em nada disso: papai deixando seus pacientes, m am ãe deixando a casa. Mas acreditava agora. Eu sabia que a pior coisa que eu podia fazer, a coisa que m ais a m agoaria, seria não escrever um a carta em resposta.

* * *

Eu tinha m edo de ele não voltar, m as ele voltou, no dia seguinte, m andou Decca subir com o da últim a vez, e fiquei tão agradecida quanto assustada.

— Decca está indo bem ?

Aquiesci. Ele estava procurando um a bebida, j á tinha term inado a prim eira. Esperei a voz dele vacilar um pouco, seus gestos ficarem m enos precisos. O álcool tornava o Sr. Holm es um rapaz.

O que eu notava nele pessoalm ente — que sua j unta rosada estava inchada, ralada, que havia um trecho seco de pele em seu antebraço — não era o que eu notava quando o im aginava. O m esm o acontecia com Georgie. Eu sonhava com com o seria bom quando ele m e tocasse, m as então, quando ele m e tocava, eu notava coisas estranhas: com o seu cotovelo era ossudo, e que ele tinha um pouco de cheiro de feno estragado.

— Você soube sobre a fam ília de Leona? — perguntou ele.

Fiquei surpresa. Ele nunca m encionara outra garota de Yonahlossee; o diretor estava quebrando um a regra.

— Soube — respondi —, todo m undo ouviu falar.

— Verdade? — O Sr. Holm es sorriu. Ele estava brincando com um a abotoadura. Parecia velha. Do pai, do avô. — E o que todo m undo ouviu falar?

Seu tom de voz m e desestabilizou.

— Não é da m inha conta — respondi.

Eu não queria que ele pensasse que eu era introm etida.

— E isso j á parou alguém antes? Seria pouco natural, em um lugar com o este, não se im portar com os assuntos das outras pessoas.

Tudo estava acontecendo tão rápido, essa m udança de ótim o para horrível.

— Eu não sei o que o senhor quer dizer — eu disse, m as sabia.

Tentei m anter a voz calm a, para que pudéssem os conversar sobre outra coisa, m as o som contido da m inha voz o irritou e ele balançou a cabeça.

— Ah, claro que sabe. Você está sem pre observando, não é? Todas essas garotas tolas, você as observa, não é? Elas vêm a você com as preocupações e você as escuta e não diz nada.

— Elas não m e procuram com frequência.

— Você observa, eu sei, porque eu observo você, às vezes, vej o com o você passa despercebida, com o se m ove entre as outras garotas e repara as coisas... — Ele parou. — Seu rosto não se m exe, Thea. Você se m antém alheia. O que as outras garotas devem pensar de você?

Esforcei-m e para não chorar.

— Não acho que elas pensem , não m uito.

Senti-m e frágil, eu havia recebido a carta de m am ãe fazia um a sem ana, m as ainda sentia cada palavra fresca e dura; se algum dia visse m inha casa de novo, eu a veria com o um a estranha. Estava perdida para m im . Será que o próxim o dono de Sasi, fosse um garoto ou um a garota, o am aria tanto quanto eu? Não parecia possível. Eu havia passado m ais tem po com Sasi do que com Sam . Eu sabia pela m aneira com o ele baixava as orelhas se estava assustado ou sim plesm ente em polgado; sabia pela m aneira com o ele m ordiscava m eu om bro se estava zangado ou brincando.

— E não acho que você realm ente acredite nisso.

Se ele fosse m eu am igo, perguntaria a ele: por que o senhor está sendo tão m au? Tão cruel? Mas ele não era m eu am igo.

Fiquei de pé.

— Tenho que ir agora.

Eu tinha sido tão, tão tola. Eu não era a confidente do Sr. Holm es. Não era am iga dele. Não era nem m ais nem m enos do que um a garota fofoqueira de Yonahlossee. Mas eu era ainda pior do que isso: o Sr. Holm es acreditava que eu pensava ser m elhor do que qualquer outra. Nada podia ser m ais distante da realidade — esse foi m eu prim eiro pensam ento. E o segundo, que chegou tão rapidam ente que pensei se não era o pensam ento m ais verdadeiro, era que eu era m elhor. Eu não m e perm itia envolver dem ais com o acam pam ento porque sentia, em algum lugar bem no fundo de m im , que era m elhor do que todas aquelas garotas. Que eu sabia m ais, havia entendido m ais, estava destinada a um tipo diferente de vida.

Passei por ele a cam inho do arm ário de casacos, m exi nervosam ente na m açaneta, não sabia com o abri-lo, nunca o havia aberto antes. Onde estava Em m y ? Ela devia estar aqui, devia ter nos interrom pido, interrom pido a ele. Eu queria dizer ao diretor que o tipo diferente de vida para a qual eu estava destinada não era um tipo m elhor de vida. Que em alguns m om entos som brios, daria tudo para voltar atrás em tudo o que eu havia feito.

Meus ouvidos zum biam e só o ouvi quando ele estava bem atrás de m im . Perm aneci onde estava; não m e viraria e o encararia por nada neste m undo. Ele passou um dedo por m inha coluna.

— Você está sem pre tão reta... m esm o quando está escapulindo. Eu j á lhe disse que essa foi a prim eira coisa que notei em você, quando seu pai veio aqui? Que sua postura era perfeita. — O dedo dele desceu por m inhas costas, parando no cóccix. — Acho que eu não teria falado isso para você, não é? Não teria tido oportunidade. Leona vai ter que ir em bora, Thea. Tudo ruiu, tudo está ruindo. Não consigo m anter m eus nervos calm os.

A voz dele havia se tornado suave.

Virei-m e para fitá-lo, e ele tocou m eu rosto.

— Desculpe-m e, Thea. Tenho um a veia cruel, parece. Está tudo errado — disse ele, e então se foi.

Não abri o arm ário dos casacos até escutá-lo no andar superior, acim a de m im , no quarto de Decca. Tentei abotoar m eu casaco, m as m inhas m ãos trem iam , terrivelm ente. E m inhas m ãos nunca trem iam .

Saí e fui para m eu aloj am ento. Eu estava sozinha e, em bora soubesse que todas as outras garotas estavam na Sala de Estudos, ainda assim fiquei agradecida por isso. Tudo estava em ordem , nossas cam isolas dobradas e guardadas nas gavetas, nossas loções e perfum es cuidadosam ente tam pados e alinhados nos lavatórios, nossas cam as feitas de m anhã e depois esticadas por Docey após a hora de descanso. Havia detalhes pessoais: fotografias em olduradas, retratos de revistas, caixas de j oias de veludo roxo. Fantasm as viviam aqui, nós assom brávam os o aloj am ento, nunca nos apossam os dele.

Eu estava intrigada. Gostava da gentileza dele, e agora a gentileza dele havia desaparecido, m as eu ainda o queria. Eu o queria ainda m ais, se é que isso era possível.

Não m e preocupei em m e cobrir. Ninguém estava lá, ninguém veria que eu havia levantado a saia até a cintura, colocado os sapatos suj os em cim a da colcha, m ovido m inha m ão tão rudem ente que cheguei a m e m achucar. Ninguém m e ouviu. Ninguém viu a m ancha de sangue, ninguém perguntou por que eu fiquei olhando pela j anela por tanto tem po, o que possivelm ente eu estava olhando por tanto tem po? Nada, nada.

* * *

Quando m e sentei no toucador, m ontei na cadeira com o se fosse um cavalo. Eu cavalgava, m esm o quando não estava de fato em cim a de um a sela, os cavalos estavam sem pre na m inha m ente. Eu passava no m áxim o duas horas por dia em cim a de um cavalo, o restante do tem po no chão com o um a garota, m as, m esm o assim , quando eu andava com os m eus próprios pés, m eus passos eram vagos, constantem ente desestabilizados, com o se eu estivesse sem pre saindo de um navio para terra firm e.

Eu estava em um a fase boa, saltava cada obstáculo com três centím etros de folga. Com cinco centím etros. O Sr. Albrecht m e pedira para fazer dem onstrações para as outras turm as. Era assim . Você não é um a am azona bonita, ele m e disse um a vez, não é graciosa, m as é tecnicam ente im pecável.

Eu queria vencer. Leona estava tornando isso fácil, querer vencê-la. Eu via agora que a afabilidade dela com igo coincidira com m inha convalescença. E agora que eu era um a am eaça, sua única am eaça real, ela m e ignorava quando m e via no Castelo. Na Sala de Estudos, na sem ana passada, eu a vira dando risadinhas com Jettie. Sorri para Jettie, m as ela virou as costas, e Leona olhou por cim a do om bro de Jettie por um longo instante, m e avaliando, até que sussurrou algum a outra coisa em seu ouvido e as costas robustas de Jettie trem eram de tanto gargalhar. Olhei para baixo rapidam ente e m e avaliei, m as nada parecia errado; m eu rosto queim ava e m e virei para Eva, fiz um a pergunta idiota a ela, e tentei parecer que não m e im portava.

Percebi que as outras garotas provavelm ente ficavam im aginando o que era dito sobre elas o tem po todo. Mas eu nunca antes tivera a sensação peculiar de querer tanto saber e depois nunca querer saber o que outra pessoa pensava de você.

Ser próxim a de Sissy havia m e servido bem ; gostavam de m im porque gostavam dela, eu absorvia um tanto do brilho dela e o passava com o se fosse m eu. Em geral, pensei, eu não era m uito conhecida.

No j antar, Molly um a vez m e provocara por eu ser m uito séria. Quando eu dissera algum a coisa engraçada na Sala de Estudos, o grupo de garotas com as quais Sissy e eu estávam os sentadas riu e se entreolharam , um pouco perplexas, por perceberem que eu tinha senso de hum or. Agora o Sr. Holm es m e dissera que eu escapulia. Quem m ais agia assim ? Anim ais, crim inosos.

Será que Leona e Jettie estavam zom bando de m im por eu ser m uito séria? Será que elas pensavam que eu era orgulhosa?

Durante o treino, Leona m e cortou, duas vezes. E então fiz um a coisa estranha: trotei com Naari diretam ente na frente de King, passando tão perto deles que o cavalo deixou um rastro de saliva na m inha bota. Lim pei depois, ainda surpresa.

Era incom um duas garotas do terceiro ano serem as m elhores. E deve ter sido ainda m ais incom um que Leona tivesse sido a m elhor no ano anterior, estando no segundo ano. Além de m im , havia Gates e Leona, e as dem ais garotas de nossa turm a eram veteranas. E em bora Gates fosse um a am azona elegante, era m uito inquieta, calculista dem ais em cim a de um cavalo para ser excelente.

Mas agora eu queria fazer parte da história de Yonahlossee. Eu queria ser adm irada, queria m inha fotografia pendurada na parede do lado de fora do escritório do Sr. Holm es. Queria que ele passasse por m im um a dúzia de vezes por dia, sem pre que entrasse ou saísse. Queria que as pessoas m e vissem e pensassem que eu era bonita, sim , m as que era m ais do que bonita: que eu era boa em algum a coisa de um a m aneira com o poucas pessoas eram boas em algo na vida.

Era m uito para se querer? Era m uito querê-lo? Sim e sim . No fundo da m ente, sem pre m e pairava o pensam ento desagradável de que eu seria m ais feliz se não quisesse tanto.