Escola de equitação para moças
Capítulo 13
Querida Thea,
Você gostou do casaco? Como foi o Natal na escola? Seu pai diz que precisamos nos
afastar, ir para algum lugar por um tempo, mas para onde? Aqui é o lugar onde quero estar.
Não estou solitária. Seu pai está trabalhando mais do que nunca, mesmo que tudo mude,
sempre haverá doentes e moribundos. E parece existir mais doentes e moribundos agora.
Gostaria de vê-la, Thea. Gostaria que as coisas não fossem como são. Você deveria ter sido
minha criança durante mais tempo. Vocês três deveriam ter sido crianças durante mais
tempo. Vou parar com isso. Por acaso você se surpreende de ler uma carta assim, sua mãe
tão sentimental?
Podei todas as roseiras, adubei todos os canteiros, extirpei tudo o que estava morto.
Trabalhei durante dias, talvez tenha sido excessivo. Sam ajudou. Seu irmão ainda é seu
irmão. Tenho mais coisas para contar, sem dúvida, mas não consigo pensar no quê. Sei que
você escreveu para ele. Sei que ele não escreveu de volta. Ele ainda está oscilando, Thea;
espero estar agindo certo ao contar isso para você. Não quero magoá-la, apenas explicar
os sentimentos dele.
Georgie está bem. Sam disse que você perguntou.
Agasalhe-se bem nessas montanhas. Não cavalgue demais ou por muito tempo. Lembre-se
de sua saúde.
Com amor,
Mamãe
Eu estava sentada na Sala de Estudos com Sissy, em nosso lugar costum eiro, um sofá de veludo verm elho gasto, e li a carta de m inha m ãe. Estava exausta. Vinha dorm ido m al desde m inha visita noturna à Casa do Diretor, três dias antes.
Não era para term os rosas em Em athla, naquele clim a quente, úm ido, m as m am ãe adorava rosas. Preocupava-se com elas e, quando floresciam na prim avera, eram lindas; não dava para perceber que não eram nativas dali.
Eu estava m agoada. Ela sabia que isso aconteceria; eu m e sentia atorm entada, m achucada. Um a coisa era pensar em m inha fam ília separadam ente, seguindo com a própria vida; outra, inteiram ente diferente, era pensar que tinha se form ado um a aliança contra m im .
Katherine Hay es com eçou a tocar um a peça alegre no piano. O acidente de Decca tinha deixado Yonahlossee em silêncio — as garotas choraram nos om bros um as das outras, exibiram expressões sérias e olharam com tristeza na direção da Casa do Diretor —, m as apenas por um dia. Jettie, j unto a um cavalete, pintava um a aquarela que retratava a vista das m ontanhas pela j anela. Do ponto de onde eu estava, podia ver que Martha Ladue, sentada perto dela, folheava descuidadam ente as páginas de um a revista e que a pintura de Jettie era m uito ruim . Martha Ladue parecia só ter interesse em duas coisas: falar francês e estar sem pre linda.
No dia seguinte à m inha ida à Casa do Diretor, o Sr. Holm es contou para todo m undo durante a oração da m anhã que Decca tinha quebrado a clavícula, m as que estava se recuperando bem . Ele parecia exausto enquanto falava conosco. Seus olhos estavam cansados. Desde então ele tinha aparecido na m aioria das refeições. Na ausência dele, a Srta. Metcalfe, a professora de francês, ocupava a cabeceira. Foi a prim eira vez que prestei atenção na Srta. Metcalfe. Ela se encaixava na categoria da m aior parte das professoras e garotas de Yonahlossee: com um , m as não feia; boazinha, m as pouco interessante. Eu sabia que ela devia ir até a Casa do Diretor para conversar com o Sr. Holm es. Sabia que ela devia em prestar a ele seu ouvido solidário. Eu queria fazer isso. Queria consolá-lo. Agora eu sentia um pouco com o se ele pertencesse a m im . Ele tinha m e deixado entrar no escritório dele no m eio da noite; tinha m e consolado, e eu queria m ais ainda: entrar m ais lá, ser m ais consolada.
Henny partira com Sarabeth e Rachel na noite anterior, para acom panhá-las no trem para Nova Orleans, até a casa da avó delas, onde se encontrariam com a m ãe. Decca ficara, por causa dos ferim entos. Antes de partirem , porém , as duas garotas tinham feito as refeições na m esa principal quando o pai estava lá, e, em bora eu procurasse m eticulosam ente por sinais de pesar, Rachel parecia inalterada. Ela parecia feliz, até, e com preendi que sua felicidade era um acidente: poderia facilm ente ter term inado de m aneira m uito pior. Tentei ficar contente pela feliz fam ília Holm es. Tentei engolir a invej a que am argava em m inha garganta com o alcatrão.
Eu estava contente com o fato de Sarabeth e Rachel terem partido. Sabia que era um sentim ento vil, egoísta, m as eu queria ficar m ais perto do Sr. Holm es, e a ausência delas facilitaria as coisas. Ele pensava que eu era boa. Ou, pelo m enos, não pensava que eu era m á. E, com o ele pensava assim , m e pus a im aginar: eu não devia ser tão m á quanto pensava.
Era tão fácil estar entre essas garotas, que não sabiam nada sobre m inha visita à Casa do Diretor, que não sabiam nada sobre a intensidade de m eus pensam entos, que eu podia sentir se m ovendo rápida e perigosam ente para se transform ar em um a obsessão.
— Estou entediada — disse Sissy , e puxou um a pilha de cartas escritas por Boone de sua pasta escolar; era o que ela fazia quando ficava entediada.
Havia algum as garotas que estudavam na Sala de Estudos — Gates, do nosso aloj am ento —, m as a m aioria não; nossas aulas não exigiam isso. Nós sabíam os que os rapazes de colégio interno recebiam notas, o que tinha significado na vida deles, em bora perm anecesse vago o que significavam essas notas. Nós aprendíam os em sala de aula, nos ensinavam sobre guerras e períodos de penúria, rainhas e reis antigos, os hábitos dos presidentes. Porém , as aulas eram superficiais. Precisávam os saber o que havia acontecido, porque éram os as filhas bem -nascidas de hom ens que tinham condições financeiras de nos proporcionar educação — m as não o porquê ou como. Nada em relação ao que tornava os fatos interessantes.
Éram os classificadas de acordo com nossas habilidades equestres, m as nenhum a de nós iria com petir profissionalm ente, ou fazer qualquer coisa além de m ontar com o um hobby depois que deixássem os Yonahlossee. E m uitas garotas daqui iriam voltar para lugares onde só era possível m ontar com as duas pernas para o m esm o lado.
As poucas garotas que estavam genuinam ente interessadas em aprender — Gates, de nosso aloj am ento — não eram populares. Significava que você estava com um a fom e excessiva, que procurava por algo vago e desagradável. Era m elhor ser considerada encantadora e graciosa, com o Sissy , do que ser vista com o interessada em livros.
Observei Sissy levar a carta até o rosto, depois abri-la novam ente, com o se estivesse tentando iludir a m ente e fazê-la acreditar estar vendo a carta pela prim eira vez. Fiquei im aginando com o ela seria quando adulta, se ainda pareceria tão j ovem . O encanto de Sissy, seus pulsos finos, seus cabelos facilm ente trançados, seu pescoço com prido, esquisito — tudo parecia tão clara e profundam ente infantil para m im . Ela era adorável, Sissy, todo m undo podia ver isso. Mas ela era adorável porque parecia inofensiva.
Com o era ser Sissy ? Pensei em Boone m assageando os seios dela com delicadeza e ansiedade. Sissy sorriu para si m esm a, serena, e vi as m ãos de Boone e senti um a conhecida sensação na barriga. Virei a cabeça e observei Jettie pintando um a cena desfigurada do pico de um a m ontanha até a sensação passar.
Sissy nunca teria ido ver o Sr. Holm es no m eio da noite. Essa ideia nem m esm o teria lhe ocorrido. Ela tinha escolhido um nam orado norm al. Boone pertencia a um a boa fam ília; a palavra boa im plicava que a fam ília dele era abastada. O m aior obstáculo aos dois seria que am bos eram j ovens dem ais, que Boone não tinha raízes suficientem ente sulistas, não era da realeza do Alabam a. Ele era de Asheville, que Sissy m e dissera ser um lugar razoável, m as não m aravilhoso. Percebi, porém , que ele tinha dinheiro suficiente para suavizar esse deslize específico. Tudo isso parecia tão ridículo, as nuances de hierarquia, as sutilezas de posição, e, em bora Sissy às vezes ridicularizasse toda essa história, com igo, eu notava que ela levava a sério.
* * *
Lá fora, abracei a m im m esm a para afugentar o frio, m eu casaco velho pequeno dem ais. Estreitei os olhos por causa do sol até entrar na m ata, e então ficou escuro, a luz salpicando sobre o chão da floresta, em um efeito assustadoram ente bonito, um padrão sarapintado engendrado pelo acaso.
Não havia vestígios de que Decca tinha caído. O iodo tinha sido absorvido pelo solo fazia m uito tem po: Bright estava de volta à baia dele, m ascando feno; a árvore caída tinha sido retirada. Fiquei durante um tem po na baia de Bright e ele bufou em m inha m ão, curioso. Ele não tinha m em ória do que tinha acontecido, absolutam ente nenhum a ideia. Invej ei a estupidez de um cavalo, não pela prim eira vez na vida.
Nós nos revezam os saltando a com binação que o Sr. Albrecht havia idealizado. Eu era a penúltim a, e observei todas as garotas, um a a um a, falharem , chegarem ou rápido ou devagar dem ais entre o segundo e o terceiro saltos, e depois resvalar em um a barra.
— Bom trabalho, Thea — m urm urou o Sr. Albrecht quando passei por ele.
Foi só então que vi o Sr. Holm es cam inhando ao longo do picadeiro, na m inha direção, e entrei em pânico e fiquei quente, m as tam bém terrivelm ente ansiosa.
— Olá, Thea — disse ele e sorriu.
— Sr. Holm es.
— Bem — continuou ele depois de um a pausa, e descansou os braços em cim a da grade, num a postura que m e era tão fam iliar —, Decca está se sentindo m elhor.
Ele olhou para além de m im , na direção do outro picadeiro, e eu sabia que ele ficaria na m inha frente apenas um breve instante, antes de continuar seu circuito pelos picadeiros, antes que parasse e com eçasse a conversar com outras garotas. A invej a ainda era um sentim ento tão estranho... Em casa, não havia nada para invej ar, nada que eu quisesse que não possuísse ou conseguisse obter.
— Decca está solitária? — Deixei escapar, e depois tentei falar m ais pausadam ente. — Quer dizer, ela sente falta das irm ãs?
— Deve sentir. É a caçula. Nunca ficou sozinha antes.
— Sei com o é — eu disse.
— Você é a caçula? — perguntou o Sr. Holm es.
— Não.
Balancei a cabeça. Eu estava aliviada que ele não soubesse tanto a m eu respeito quanto eu pensava; e em seguida tam bém decepcionada exatam ente pelo m esm o m otivo. Ele m e olhou, curioso, esperando por um a resposta.
— Tenho um irm ão gêm eo — continuei. — Fraterno.
— Ah — fez ele.
Não parecia nem interessado nem surpreso. Ele deve ouvir tantas coisas a respeito de todas nós, o tem po todo. Retirou as m ãos da grade, preparando-se para sair.
— Posso visitar Decca? — perguntei, antes que não tivesse m ais chance. — Distraí-la um pouco?
O Sr. Holm es fez um a pausa. Eu podia sentir que ele tinha apreciado m inha proposta. Os pais gostam quando você se interessa pelos filhos deles. Fiquei pensando se m inha m ãe e m eu pai sentiam o m esm o contentam ento quando alguém elogiava a m im e a Sam . Mas ninguém fazia isso, a não ser de vez em quando, na cidade.
— Ela iria gostar de vê-la, Thea. Obrigado. — Ele com eçou a se virar, m as parou. — Quase ia m e esquecendo: queria lhe dizer que Rachel está bem . Que todo m undo ficou feliz de saber que Decca não se m achucou gravem ente.
Fiquei pensando qual seria a lem brança dele daquela noite. Eu tinha sido ousada, e ele não parecia se im portar.
Observei-o se afastar, as m ãos longas e irrequietas balançando ao lado do corpo, depois às costas, depois nos bolsos. Eu identificava a sensação, agora que ela estava entranhada em m eu cérebro. Saber disso fazia com que m e sentisse m enos terrível. Eu tinha o que m uitas garotas têm : um a queda por ele. Era sim ples e inofensivo assim . Nunca m e sentira dessa form a antes. Com Georgie, as coisas sim plesm ente tinham acontecido, um a após a outra; eu nunca tivera nenhum controle. Dessa vez, porém , eu tinha o controle. Era apenas um a quedinha.
Fiz Naari girar e vi que Leona estava perto do portão, observando, e m e livrei do sorriso estúpido estam pado em m eu rosto.
* * *
A em pregada da fam ília Holm es m e encontrou na porta da casa, naquela tarde, quando todo m undo estava na Sala de Estudos, estudando ou fingindo estudar. Entrei na casa e descalcei as botas.
— Não precisa — disse a em pregada.
Era j ovem , com cabelos dourados enrolados em um a trança. Um a boa quantidade de sardas salpicava suas faces. Enquanto ela falava, pude notar seus dentes terrivelm ente tortos. Ainda assim , era bonita. Tinha um a aparência dos habitantes da região dos Apalaches, pálida, m agra. As fam ílias das m ontanhas eram num erosas, disso eu sabia, e se casavam entre si. Sissy m e contou que eles não viam nada dem ais em se casarem com os prim os. Mas com quem m ais eles poderiam se casar, eu gostaria de assinalar, isolados em buracos e vales inatingíveis por autom óveis e trens, locais por onde estranhos nunca passavam ? Quando o único rapaz disponível para você acontecia de ser seu prim o?
— Acabaria fazendo um a bagunça.
Retirei as botas e as entreguei para ela, que voltou um instante depois e m e guiou até a escada.
O quarto de Decca estava gélido. Fiquei contente de ter m antido o cachecol e o casaco. Senti as luvas que Sissy m e em prestara para o inverno no bolso, m as colocá-las seria indelicado, m esm o eu estando apenas na presença de um a em pregada e de um a criança.
— Ela está bem aquecida? — sussurrei, porque Decca estava dorm indo.
A em pregada fez um a pausa por um m om ento, com o se estivesse considerando se iria m e responder ou não.
— Bolsas de água quente — disse afinal.
Depois, saiu do quarto.
Sentei-m e perto de um a cam a em um a cadeira claram ente colocada ali para aquele propósito: o Sr. Holm es devia se sentar aqui tam bém , eu sabia, durante horas, dias, caso se som assem as horas.
Decca estava em brulhada em cobertores cor-de-rosa. Seus longos cílios descansavam acintosam ente sobre a pele pálida. Seu cabelo — bem escuro, quase preto — estava brilhante pela oleosidade. Fiquei pensando se o Sr. Holm es sabia algum a coisa sobre com o lavar o cabelo de um a m enina, sobre com o cuidar de um a criança da idade de Decca. Toquei sua testa m acia e, em bora tenha estrem ecido, não acordou.
Se ele entrasse no quarto enquanto eu estava ao lado de sua filha seria um golpe de sorte. Ninguém poderia m e acusar de ser m á. Ninguém poderia m e acusar de ser atirada. Seria m eram ente um encontro engendrado pela sorte. Eu queria estar perto dele de novo, queria que ele falasse com igo, m e fizesse perguntas, respondesse às m inhas.
Eu retornaria no dia seguinte, e no outro. Calcei as luvas e pousei a cabeça no encosto da cadeira de couro. Era grande e confortável, adequada para um a pessoa m aior, um hom em . O m obiliário no quarto era o m esm o do nosso: lavatório, m esa e toucador.
Um bordado feito em casa estava pendurado na parede, entre as cam as, o pai-nosso bordado em linha verde. Mam ãe teria detestado esse quarto. Era lim po, im pecável, m as m edíocre. Retirei um a das luvas e toquei na colcha da Decca — feita de um tipo de linho grosso, com um a beirada larga verm elho-escura. Havia um a qualidade atem poral no quarto, talvez devido à sua frugalidade; a não ser pelo lustre, eu poderia estar em um quarto de uns cem anos atrás. Será que essa casa representava com precisão o gosto da Sra. Holm es, ou será que tinha sido sem pre assim , e a Sra. Holm es só m udara coisas pequenas, porm enores? Quadros, talvez travessas. Isso aniquilaria m inha m ãe, m orar em um local que não fosse dela.
Ao fim de um a hora, a em pregada m e levou até a porta da frente e m e m ostrou a saída, tendo conseguido m e guiar pela casa e m e entregar as botas ao m esm o tem po que m e ignorava totalm ente. Decca tinha passado o tem po todo da visita dorm indo.
Olhei para cim a, em direção à casa, esperando algum sinal do Sr. Holm es. As cortinas estavam fechadas por causa do frio, e, m esm o que não estivessem , era im possível ver através de um a j anela ilum inada pela luz do dia.
* * *
O Sr. Holm es ainda não tinha aparecido. Perguntei à em pregada onde ele poderia estar — fazia três dias que visitava Decca e não havia nem som bra dele. Ela encolheu os om bros.
— Você tem que perguntar ao Sr. Holm es.
Pensei ouvir um a nota de desafio na voz dela. Insolência. Ou um a nota de satisfação — evidentem ente que eu não podia perguntar, porque ele j á estava fora quando eu chegava na casa. Porque ele estava distante quando nos encontrávam os no refeitório — ou não nos encontrávam os, o Sr. Holm es fazia questão de assegurar isso. Ele se m antinha afastado, não era m inha im aginação. E assim com ecei a im aginar que ele tam bém queria m e ver, que havia algo entre nós. Eu ainda não podia dizer o que era — eu não sabia. Se eu fosse um a garota m elhor, um a garota de acordo com o que m inha m ãe esperava, interrom peria toda essa história, m e reintegraria à vida de Yonahlossee, iria à Sala de Estudos com Sissy em vez de vir aqui todos os dias. Porém , eu não sabia m ais que tipo de garota eu era.
Eu brincava com Decca, ou lia, ou cantava para ela. Desde aquela prim eira visita, ela nunca m ais ficara dorm indo. Eu acordava à noite quando Boone j ogava a pedra, m e levantava e sacudia Sissy forte, para ela acordar. Boone, tão atraente e sim pático; ele esperava lá fora com o um a arm adilha, esperava que Sissy caísse. Eu m e deitava na cam a de Sissy e a ouvia sair na ponta dos pés — ela fazia tanto barulho! — e a odiava, odiava Boone por fazê-la agir dessa m aneira furtiva.
Eu odiava as garotas da Casa Augusta, que achavam estranhas m inhas visitas.
— Você só fica sentada lá? — perguntou-m e Mary Abbott à noite, esgueirando-se a m eu lado a cam inho da casa de banho. — Por que faz isso?
Não estava tão aparente assim ? Dolorosam ente transparente? Mas não, não estava. Apenas para m im , apenas eu sabia.
Agora eu estava acordada e sabia que não voltaria a dorm ir, e m e senti tão quente, tão pronta...
“Você m e am a?”, im aginava Sissy perguntando. “Você m e am a? A m im ?”
“Você m e am a?” Ele poderia m e perguntar o m esm o.
“Por que você ficou afastado durante todo esse tem po?”
“Porque eu am o você”, ele diria. E colocaria a m ão em m eu seio, por baixo do m eu vestido. Aqueles dedos longos e finos dentro de m im , m e tocando, m e apalpando, as estranhas pressões, a proxim idade.
Ah. Mordi o travesseiro e vi as faíscas por trás das pálpebras. Se ao m enos essa sensação pudesse durar — m ais tem po, m ais tem po. Se ao m enos... m as nunca acontecia.
Minha respiração estava rápida, m as profunda. Meus m em bros estavam pesados sob o lençol. Usei m eu lenço para m e lim par entre as pernas e o deixei lá.
Agora eu podia adorm ecer. Fechei os olhos e não senti vergonha. Sr. Holm es, Sr. Holm es, Sr. Holm es. Quando fechava os olhos, era só ele que eu via.
Querida Mamãe,
Gostei do casaco, sim — obrigada. É tão bonito que nem sei quando vou usar. Aqui é frio,
mas bem agradável. Acho que prefiro o frio ao calor. No frio, pode-se montar o tempo todo.
Estou montando de novo, sabia? Não sei mais o que tenho para contar. Acho que não tenho
nada para contar. Está frio e voltei a montar e a vida por aqui permanece igual. Fazemos
as mesmas coisas todos os dias, exatamente as mesmas coisas, a não ser pelos domingos,
mas nossos domingos são exatamente iguais, então tudo aqui segue o mesmo padrão.
Você não ia gostar daqui, acho que não. Não existe muita vegetação no inverno, com
exceção das sempre-vivas, mas elas não contam, não é? Todo o restante morre e o mundo
só tem uma cor — branco — até chegar a primavera. Eu nunca tinha conhecido nada que
não fosse a úmida e colorida Flórida, e pensava que eu preferia daquele jeito, mas na
realidade era a única coisa que eu conhecia. Fico imaginando como deve ser o deserto, ou
o extremo norte. Quem sabe o que vou preferir?
A Sra. Holmes era sua amiga? Não sabia. Não sabia que você tinha amigas. Eu podia
escrever mais, mas estamos sempre tão ocupadas. Não se preocupe comigo. Nem mesmo
pense em mim.
— Meu pai falou ao telefone — disse Decca. — Com m am ãe.
Eu estava lendo para ela, um livro que ela adorava, O ursinho Puff; ela deveria ficar quieta, segundo m e advertira a em pregada. Mas Decca tinha voltado a seu antigo j eito, sendo a única evidência do acidente um a tipoia que precisava usar para m anter o braço direito im óvel de m odo que a clavícula se curasse. Não havia necessidade para eu vir assim , sabia disso, e apesar de dizer para m im m esm a, e para todo m undo, que eu vinha por causa de Decca, vinha m ais por m inha causa. Queria ver o Sr. Holm es.
— Ah, é? — perguntei.
— É. Papai parecia zangado.
Tentei esconder a surpresa. O Sr. Holm es deveria ter m ais cuidado ao falar certas coisas. Mas claram ente Decca não sabia o que tudo isso significava.
— Por que ele estava zangado, Decca?
— Quando m inhas irm ãs vêm ?
A voz dela soava com o um a queixa. Ela sentia falta das irm ãs, dava para perceber. Ela não com preendia a ausência delas. Eu, sim . Boone tinha contado a Sissy o que tinha acontecido com um rapaz da Academ ia Harris: ele fora m andado de volta para a escola com um a m ala cheia de dinheiro, e com a recom endação de escondê-la. Ele tinha optado pelo colchão. Era um esconderij o tão idiota que eu não sabia se a história era verdadeira, m as os bancos estavam falindo, todo m undo tinha conhecim ento disso. O tio de um a garota era presidente do First National, o banco de Charlotte que fechara em dezem bro. Ainda assim , a fam ília do rapaz da Academ ia Harris tinha dinheiro — afinal, ele frequentava a Harris, não em baixo da terra em algum a m ina. No entanto, o pai dele não sabia o que fazer com o dinheiro, com o guardá-lo em segurança, com o garantir que o m ontante pudesse proteger sua fam ília.
Havia dinheiro suficiente no m undo para que todas nós estivéssem os em Yonahlossee, cavalgando, usando nossas roupas brancas. Eu im aginava se a fortuna de frutas cítricas de m inha m ãe estava em um banco. Certam ente estaria. Não conseguia im aginar m inha m ãe escondendo dinheiro nos m óveis, em seus pertences. Mas eu não sabia — percebi —, não tinha a m enor ideia de com o m inha fam ília estava lidando com as questões financeiras. Nunca soubera disso. A renda proveniente das laranj as sem pre nos protegera, durante toda a m inha vida; era im possível im aginar os Atwell sem ela: eu via que ela nos dava um a vantagem , um pequeno pretexto para nos sentirm os m elhores do que as pessoas que não tinham a riqueza vinda de um a fonte distante, exótica.
Mam ãe nunca teria usado a palavra melhores. Éram os diferentes. Únicos.
— Thea?
Fitei Decca, que m e olhava curiosa.
— Elas vão voltar logo — respondi.
Detestei o tom vago que im prim i à voz, m as não sabia que tom em pregar.
O Sr. Holm es parecia zangado no telefone. Eu teria dado m eu braço esquerdo para saber por quê. Mas Decca não passava de um a criança — ela poderia ter ouvido m al. Talvez o Sr. Holm es tivesse soado aborrecido, não zangado.
Eu ficava im aginando o quanto ela lem brava acerca do acidente. Parecia um a bênção que fosse nova dem ais para entender a participação de Rachel.
Decca levantou a boneca — que tinha os cabelos rem endados, as roupas m anchadas. Provavelm ente pertencera a Sarabeth, e depois a Rachel; finalm ente, a Decca. Eu nunca tivera que dividir nada com Sam . Eu nunca gostara de bonecas, m as assim m esm o tinha pelo m enos m eia dúzia delas.
Decca sussurrava para a boneca. Tentei escutar o que ela dizia, m as depois m e afastei, envergonhada, um a garota de dezesseis anos se esforçando para ouvir os cochichos de um a criança. Eu deveria deixar Decca ter os próprios segredos.
Se nossas vidas não tivessem sido abençoadas, se não tivéssem os o dinheiro de m inha m ãe — se, se, se... Porém , essa linha específica de possibilidades nunca m e ocorrera. Então, m eu pai teria que m orar em um a cidade grande, onde ele tivesse m ais pacientes que pudessem pagar. Então, m inha m ãe não poderia se m anter, nem a nós, tão distantes de todas as outras pessoas. Poderíam os ter m orado a horas de Gainesville. Poderíam os nos ver apenas um a vez por ano, na época de Natal.
Não teríam os o dinheiro para dar. Não seríam os capazes de aj udar. Não seríam os m elhores. Não teríam os tanta sorte.
Será que m eus pais esperavam que eu tivesse aprendido um a lição? Eles pensavam que tinham m e enviado para um local seguro. Longe dos hom ens, longe dos prim os. Georgie, Georgie devia estar... eu tentava não pensar nele aqui. Levantei-m e; Decca ainda brincava com a boneca, o quarto ainda era feio e im pessoal, eu ainda estava sozinha nessa casa com a filha dele.
Pensei que nos conhecêssem os, m inha m ãe dissera, e m ais tarde: tudo vai ficar bem , faça o que m andarem , faça o que m andarm os e tudo vai acabar bem .
Se m eus pais m e tivessem m antido em casa, talvez eu houvesse aprendido a lição, talvez eu tivesse querido agradar a eles m ais do que a m im . Se eu pudesse fazer com que o Sr. Holm es m e am asse, pensei, tudo ficaria bem .