Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 9 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 9

 

No últim o Dia de Ação de Graças, passei a m anhã no quarto de hóspedes da casa do tio George e da tia Carrie, dorm indo e correndo para o vaso sanitário para vom itar. Eu podia ouvir m inha tia e m inha m ãe na cozinha, fazendo a com ida; Sam e Georgie subindo e descendo as escadas. Eu adorava essa preparação caótica, e am aldiçoei a doença e m eu pai, que não conseguia curá-la m esm o sendo m édico.

Eu estava cochilando, sem idesperta; abri os olhos e vi Georgie, sentado a m eu lado, na ponta da cam a.

— Você veio m e visitar.

— É. — Ele sorriu. — É, eu vim .

Talvez porque eu estivesse dorm indo há pouco, tivesse acordado e m eu cérebro ainda não tivesse se recom posto; talvez porque eu tinha ficado enj oada e agora estava m e sentindo um pouco m elhor — não sei dizer por quê, m as m eu prim o estar sentado perto de m im m e trouxe um intenso prazer. Eu m e senti quase flutuando; m inhas m ãos form igavam . O sorriso dele parecia um tipo de cam inho para outro m undo.

— Estou contente — falei, e m inha voz soou estranha. Toquei sua m ão, por cim a das cobertas. — Obrigada.

— Sam tam bém veio — disse ele, e percebi que m eu irm ão estava lá, sentado no canto do quarto. Os dois tinham vindo m e ver, m e acordar do cochilo. Então o tio George bateu à porta e nos disse para descer, e, em bora eu tenha certeza de que todos fom os, tam bém tenho certeza de que vagueei em um a espécie de sonho, ainda entorpecida, sem entender com pletam ente o prazer que eu sentira com Georgie, m as ávida por aquela sensação, com vontade de que não desaparecesse.

* * *

A tia Carrie era um a cozinheira m aravilhosa, um elogio que m eu pai costum ava lhe fazer. Minha m ãe, não; ela não tinha tanto interesse em com ida — beliscava nas refeições, com ia m etade do prato — a ponto de querer saber prepará-la. Sua m agreza era parte de sua beleza; seus ângulos acentuados abriam um espaço para ela onde quer que fosse — m inha m ãe era um a m ulher para quem se precisava olhar. A beleza de m am ãe era delicada, frágil; pescoço de cisne, m açãs do rosto pronunciadas, olhos que nunca se decidiam entre castanho-claro e verde.

A tia Carrie era com um . Eu im aginava que, na j uventude, ela tivesse um a aparência robusta típica do m eio-oeste: cabelo louro-palha, olhos azul-escuros, tinha um form ato que funcionava. Quando a conheci, a tia Carrie era o que m am ãe cham ava de forte, em um a constante batalha com a balança, e eu ficava pensando o que tinha acontecido com sua silhueta depois do problem a, se ela abdicara da com ida por se sentir triste ou se fizera dela um conforto. Em Yonahlossee, quando eu pensava nela, eu a via de duas m aneiras: delgada e atorm entada, com buracos escuros no lugar das bochechas cheias; ou obesa e desleixada, o pescoço com dobras, os braços envoltos em gordura. Mas parecia im possível que ela tivesse a m esm a aparência de quando eu a vi pela últim a vez.

Acordei cedo no dia seguinte ao de Ação de Graças, m inha noção da hora desregulada com o acontece no caso de doenças. Sentia-m e com pletam ente bem . Dorm i na cam a, Georgie e Sam no chão; sentei-m e e vi que Georgie tinha saído. Meu irm ão era um calom bo em baixo de um a velha colcha azul.

A tia Carrie tinha pouco talento no que dizia respeito à decoração. O quarto de hóspedes ficaria m elhor se fosse m ais sim ples, com cores lisas em vez de estam pas florais exageradas. Passei o dedo no edredom , de algodão vinho bordado com m edalhões dourados. Pom poso e feio, o quarto todo era de variações de vinho — as cortinas, as cadeiras, o tapete oriental. A m obília do quarto, pesada, de m ogno. Mam ãe ia adquirindo cada vez m ais m óveis de art déco, que tinham linhas despoj adas e geom etria sim ples. A casa da tia Carrie parecia pertencer ao século passado.

Ainda assim , a casa tinha certo encanto, m inha fam ília m orava lá.

A porta se abriu, e um a fresta de luz brilhou por entre as cortinas e lançou um a som bra no rosto do m eu prim o. Eu havia desej ado que ele estivesse aqui e ele viera; fiquei nervosa, de repente, quando o observei entrar no quarto, quando o observei fechar a porta de m aneira um pouco firm e dem ais, um a batida forte, e certam ente m am ãe viria ver com o eu estava. Mas ninguém veio.

Georgie estava perdendo o corpo de criança, desenvolvendo um a postura atlética, subitam ente larga em vez de estranha. Eu ainda era pele e ossos.

— Você j á acordou? — perguntou ele.

— Quase.

Levantei as cobertas e ele entrou na cam a, a m eu lado.

— Com i um pouco de torta de café da m anhã.

— Você não podia esperar até o alm oço?

— Vou com er de novo — disse Georgie —, não se preocupe.

Ele m udou de posição, ficando de lado, e pude senti-lo m e encarando. Fechei os olhos. A coberta farfalhou, e Georgie pôs o dedo na parte superior de m eu nariz, e o deslizou até a ponta.

— Um nariz tão bonito — disse ele, de m aneira m eio séria.

Eu dei um a risadinha, e puxei o lençol por cim a do rosto. A m ão de Georgie ficou presa, ele a deslizou para m eu pescoço e m inha respiração ficou m ais rápida, m as não era incom um para Georgie e para m im nos colocarm os em situações de intim idade. Sem pre tivéram os um a afeição fácil um pelo outro, consequência de term os sido criados j untos. Mas naquele m om ento — e eu sabia disso na época —, foi diferente. Eu não conseguia vê-lo, sua m ão repousava quente no m eu pescoço. Seus dedos se m overam , levem ente, e estrem eci. Rolei para o lado e o fitei, e puxei o lençol por cim a de nós dois. A m ão dele estava na m inha bochecha, agora, seus olhos, fechados. Estávam os tão próxim os que dava para sentir a respiração dele em m eu rosto, úm ida e picante. Eu ouvia perfeitam ente cada inspiração. Coloquei a m ão no om bro de Georgie; ele não se m exeu. Mudei de posição e senti que m eus m am ilos haviam enrij ecido por baixo da cam isola. Arqueei as costas, para ficar m ais perto dele, e naquele instante houve um a batida na porta, e m am ãe entrou.

— Bom dia, crianças — disse ela, e m e sentei, ruborizada, revelando Georgie tam bém , que havia se enrolado com o um a bola e fingia dorm ir.

Mam ãe fez um a pausa aos pés da cam a, seus olhos viaj ando de m im para m eu prim o, e cruzei os braços por cim a do peito, em bora eu soubesse que ela não conseguia ver nada.

— Está se sentindo m elhor, Thea?

Seu rosto estava calm o e indecifrável.

Georgie e eu havíam os dorm ido na m esm a cam a no m ês passado. Não tínham os feito nada errado.

— Estou, obrigada. Pronta para o brunch.

— Tudo bem — disse ela. — Georgie, por que você não acorda e desce com igo? Acho que sua m ãe está precisando de você.

Minha m ãe sem pre m entira m uito m al. A voz dela ficava fina, m ais aguda no final das palavras.

Fiquei sentada na cam a depois de eles terem saído, um pouco atordoada.

— Bom dia, flor do dia — disse Sam , e dei um pulo.

Eu havia m e esquecido que ele estava lá, deitado na cam a dele, a cabeça apoiada no cotovelo dobrado.

— Você está acordado?

— É claro!

A voz dele soava estranha, e ele não m e olhava nos olhos, fitava algum ponto perto da porta. Sua visão da cam a era total. Fiquei im aginando há quanto tem po ele estava acordado. O tom da sua voz — som bria, pesada — fez com que eu m e sentisse flagrada pela segunda vez.

Com em os o brunch, e observei, aliviada, o hum or azedo de Sam se dissipando, enquanto ele e Georgie com petiam para ver quem conseguia com er m ais panquecas.

— Sam — falou tia Carrie —, é hora de você crescer.

Mam ãe havia lançado um olhar de rabo de olho para a tia Carrie com esse com entário, m as fora o único sinal de tensão que notei. Ninguém havia m encionado a palavra Miami, e fiquei contente com isso. Era um lugar de que eu só ouvira falar por causa de nossas plantações de laranj as, m as que eu nunca visitara; agora era o lugar onde o tio George tinha agido com im prudência.

Papai m e fez tom ar um gole do seu cham panhe para acalm ar m eu estôm ago. Acenei para Georgie m e despedindo da j anela traseira do carro, parando som ente quando Sam agarrou a m anga de m inha cam isa, m e puxando para perto dele. Sentei-m e de bom grado. Eu m e sentia culpada, em bora não soubesse por quê; com o se tivesse feito algum a coisa errada, em bora não conseguisse dizer o quê.

* * *

No dia seguinte à com em oração de Ação de Graças, m am ãe e Idella desapareceram dentro do porão e em ergiram com os enfeites de Natal: alguns de vidro, tão frágeis que não tínham os perm issão para tocar; quatro renas de m adeira entalhadas à m ão, com pradas de um catálogo; um Papai Noel com prido e esguio esculpido em um único pedaço de m adeira. Um presépio de prata passava de geração em geração pela fam ília do m eu pai, com nom es em espanhol gravados na parte debaixo de cada figura: José, María, Jesús.

Na sem ana seguinte, enquanto estávam os com papai na varanda envidraçada para as aulas, ouvim os pancadas e batidas enquanto m inha m ãe e Idella colocavam tudo nos seus devidos lugares.

— Você acha que elas precisam de aj uda? — perguntou Sam , o dedo enfiado em um lugar do livro para não perder o ponto em que estava.

Papai o ignorou, e eu continuei lendo: estávam os no m eio da aula de m itologia, que eu am ava. Tão expansivos e am áveis, esses deuses e seus céus. Devíam os ficar quietos enquanto líam os. Papai era rigoroso com relação a essa regra, pelo m enos tão rigoroso quanto sem pre fora.

Levantei o rosto e encontrei o olhar de Sam ; ele m e olhava im passível; baixei os olhos e voltei ao conto de Narciso.

Eu estava usando um vestido antigo de m am ãe, de algodão, reto e sem m angas, com um decote quadrado. O vestido ficava largo em m im . Eu tinha a altura m édia para um a garota da m inha idade, m as era um pouco m agra. Com o eu raram ente via outras garotas da m inha idade, tinha apenas m am ãe com o referência, e não percebia que as garotas não se tornavam m ulheres im ediatam ente após atingirem certa idade, que havia um desaj eitado período de transição. Talvez eu estivesse m uito à vontade com igo m esm a. Eu usava os antigos vestidos casuais de m am ãe porque eles m e faziam sentir m ais adulta.

Papai fechou o livro, sinalizando que nossa aula havia term inado.

— Tudo bem — disse ele —, vocês podem tratar dos seus outros assuntos, m ais urgentes, com o aj udar sua m ãe.

Ele sorriu. Sam e eu nos levantam os; fui até m eu pai e o beij ei na testa antes de sair da sala, segurando m eu vestido contra o peito com a palm a da m ão enquanto m e abaixava sobre ele. Metade garota, m etade m ulher.

* * *

Mais tarde aj udei m am ãe a enroscar as guirlandas de Natal no corrim ão da escada do portão da frente, e em cim a das j anelas. Naquele dia o sol brilhava diretam ente sobre nossas cabeças, realm ente cruel; eu estava com calor, m inha pele parecia fina, m inhas axilas e m inha testa estavam salpicadas de suor. Mam ãe trabalhava com afinco, e rápido. Papai dizia que ela era m ais eficiente do que qualquer hom em . Cada vez m ais, m am ãe gostava que eu a aj udasse com as tarefas de casa. Quando eu reclam ava, ela m e dizia que eu devia aprender, que cuidar da casa era um a arte. E, claro, eu reclam ava indiretam ente: nós nunca desafiávam os m am ãe ou papai, sobretudo m am ãe.

Quando term inam os, ficam os paradas na frente da casa e a adm iram os. Mam ãe sem pre gostava dessa parte — depois de colocar a m esa para um feriado, ela a observava por alguns m inutos, tom ada por sua beleza, adm irando a louça delicada e a toalha de m esa engom ada.

— Parecem sobrancelhas — eu disse, m e referindo às guirlandas natalinas em cim a da j anela. — Sobrancelhas grossas. Com o se a casa estivesse nos observando.

Eu não estava feliz, aqui do lado de fora, fazendo esse trabalho m açante enquanto Sam estava fazendo o que lhe desse vontade.

Esperei m inha m ãe parar de olhar. Ela com eçou a falar algo, m as pareceu hesitar, o que era incom um : m inha m ãe nunca hesitava.

— Georgie está vindo ficar conosco por uns tem pos — disse ela, finalm ente.

Não com entei nada. Era com um Georgie ficar conosco. Mesm o assim , pude ver o desconforto dela. Pensei que fosse falar no dinheiro. Eu não m e im portava com o dinheiro. “Maldito tolo”, m eu pai dissera à m inha m ãe, quando achavam que não estávam os escutando. Mas nós estávam os, eu e Sam . Era fácil entreouvir as conversas — eles nunca pareceram notar que a porta do quarto deles não bloqueava nenhum som —, m as norm alm ente não havia necessidade, o que eles falavam na hora de dorm ir não eram do nosso interesse.

— A m ãe da tia Carrie está doente. Ela vai até lá para ficar com a m ãe.

“Lá” significava algum lugar do Missouri, a cidade m ínim a no m eio-oeste que sem pre soara horrorosa: pequena, plana, sim ples.

— Georgie vai ficar aqui por algum as sem anas, então — continuou m am ãe —, e vai dorm ir no quarto de Sam desta vez. Com Sam .

— Por que ele não pode ficar na casa dele? Com o tio George?

Em bora, na verdade, eu quisesse ver o Georgie, sentia um pouco de raiva. O que ela queria dizer? Que Georgie e Sam dorm iriam separados de m im ? Nós sem pre havíam os dorm ido no m esm o quarto. O feitiço pode ser virar contra o feiticeiro, falei a m im m esm a.

Mam ãe não m e repreendeu por m eu tom , que foi atravessado; em vez disso, olhou pensativa.

Mas então o rosto dela assum iu um ar sério, e baixei o olhar em direção a m eus sapatos.

— O tio George tem que ir para Miam i.

Isso era suficiente. Eu havia entendido — ela podia parar. Mas não ia.

— Para ter um a reunião com o banco. Então Georgie vem para cá, porque um garoto de dezesseis anos não pode ficar sozinho por um a sem ana. Ele vai trazer as tarefas escolares dele.

Levantei a cabeça e encontrei o olhar firm e da m inha m ãe, sua expressão severa. Era assim que ela olhava para você quando queria aquiescência. Se Sam estivesse aqui, ele teria chutado um m onte de terra, ou encolhido os om bros, teria disfarçado colocando as m ãos nos bolsos. Mas eu sem pre sabia com o sustentar o olhar da m inha m ãe.

Mudei a direção do olhar e m irei para além dela: que vista m inha casa proporcionava! Grupos de gigantescos carvalhos, interrom pidos ocasionalm ente pelas plantações regulares de laranj eiras. Quilôm etros de um cultivo verde e denso. Nada parecia distante, havia tão pouca oportunidade de perspectiva naquela região plana. Essa falta de um horizonte distante sem pre fora reconfortante para m im , desde que eu era criança, tudo tão perto m esm o quando não estava.

— Por que não podem os dorm ir no m esm o quarto? — perguntei.

Senti as lágrim as chegando.

Ela m e puxou para perto antes que eu tivesse chance de reagir.

— Não chore — disse.

Afagou m eu cabelo, o que ela sabia que eu adorava. Cedi.

— Thea — m urm urou ela —, você está crescendo.

— Não estou.

— É natural. É assim que as coisas acontecem . Você entende? — Ela pegou m eu queixo com a m ão e levantou m eu rosto.

— Eu m e sinto igual.

— Mas não está igual. Vocês vão continuar próxim os, você, seu irm ão e Georgie. Mas há certas coisas que não pode m ais fazer. Entendeu?

Confirm ei com a cabeça.

— Diga, por favor. — A voz dela era gentil, m as firm e.

— Entendi.

— Ah, Thea... — Ela deu um tapinha em m eu rosto. — Tudo vai ficar bem . É só a hora de dorm ir.

Deslizei para fora do seu abraço e corri para longe.

— Fique bem — gritou ela de trás de m im , um a frase proferida tão frequentem ente que não queria dizer nada.

* * *

Fui cruel com Sasi naquele dia. Ele estava lento ao saltar cada obstáculo, no aquecim ento, e estendi os dedos dos pés e bati em seus flancos com as esporas. Esse era um problem a que estávam os tendo nas últim as sem anas: a falta de j eito dele ao ultrapassar aquele tipo de obstáculo. Sem pre havia um problem a, um a dificuldade, quando alguém cavalgava: era por isso que existia o em penho, a batalha constante. E atingir o que se queria dependia tanto de m im quanto da m inha m ontaria e, geralm ente, de nossas naturezas. Eu era obcecada, com o papai dizia; no m ínim o, perfeccionista. E um cavalo era um anim al estúpido, claram ente não podia querer as m esm as coisas que eu, m as podia querer m e satisfazer, e hoj e eu não estava sentindo esse desej o nele.

E então tudo acabou, rapidam ente, com o em geral acontecia com m inhas batalhas contra Sasi: nós brigávam os intensa m as brevem ente.

Quando m e virei na sela, exam inando as feridas que m eu chicote fizera nos flancos de Sasi, vi Sam em poleirado na cerca, um a perna para cim a, o queixo apoiado nela. Fiquei m e perguntando há quanto tem po estava ali; fiquei im aginando se ele teria m e visto virar o chicote na m ão para poder m anuseá-lo com m ais vigor. Será que ele saberia que aquilo estava errado? Mam ãe saberia. Ela teria m e feito parar, im ediatam ente, não, não, não, sua voz se elevando.

Incitei Sasi a seguir em frente. A cabeça dele pendia. Eu o havia exaurido. Ele esqueceria; talvez j á tivesse esquecido. Mas não esqueceria o m edo, e a m em ória da dor seria substituída por um instinto de desconfiança. Este era o problem a com cavalos: eles eram estúpidos dem ais para lem brar direito, m as ainda assim havia um a m em ória para com bater, um a m em ória com a qual não era possível racionalizar.

— Georgie vai chegar am anhã.

— Já sei — eu disse.

Tentei sorrir, m as o esforço pareceu grande dem ais. Observei Sam enquanto ele ficava ali sentado, com a perna para cim a. Eu nunca poderia colocar m inha perna para cim a daquele j eito; m esm o de culote, aquela postura indicaria falta de boas m aneiras, não era fem inina. Eu sabia que outros gêm eos, os gêm eos a respeito de quem eu lia nos livros, eram idênticos; fiquei pensando com o seria se Sam fosse m enina, com o eu. Foi a prim eira vez em que pensei nisso. Nós dois teríam os que dorm ir separados de Georgie, então. Nós dois teríam os com eçado a m enstruar.

Sam inclinou a cabeça, tentando ler m eus pensam entos, e sorri. Im aginar Sam com o garota era im possível. Eu era a única garota da casa.

— Tenho que dorm ir separada de você e de Georgie — falei, puxando a rédea para Sasi parar, o que ele fez de bom grado.

Sam confirm ou com um gesto de cabeça.

— Eu sei. Mam ãe m e disse. — Ele fez um a pausa. — Mas vai ser só na hora de dorm ir, Thea.

Levei Sasi para outra cam inhada, de m odo que Sam não visse m eu rosto verm elho. Eu estava furiosa com m am ãe por ter contado a Sam . Afinal, nós não éram os a m esm a pessoa.

— Thea? — cham ou Sam , m as eu o ignorei.

Sasi ficou parado, im óvel e cansado, preso, enquanto eu passava água m orna em seus m úsculos tensos. Tracei com o dedo as m arcas em relevo, com o um bordado em ponto de cruz, que o chicote tinha deixado em suas ancas. Fiquei envergonhada. Pus os braços em volta do pescoço úm ido de Sasi e ele baixou a cabeça. Ele m e am ava. Eu podia sentir seu enorm e coração, batendo no rechonchudo peito de pônei. Quase todos os m eus cadernos tinham desenhos de seu belo rosto. Desculpe-m e, eu queria dizer, desculpe-m e, m as eu sabia que era inútil.

Eu tam bém sentia m uito por Sam .

Norm alm ente, eu era calm a e j usta quando m ontava, m esm o quando estava frustrada. Prom eti a m im m esm a que não deixaria isso acontecer de novo. Que eu não ficaria descontrolada tão facilm ente. Disse a m im m esm a que agiria diferente da próxim a vez. Mas de que valiam aquelas prom essas, feitas na calm aria que se segue a um desastre?

* * *

— Vão — disse Georgie, e cobriu os olhos com os dedos entrelaçados.

Sam e eu correm os em direções opostas, silenciosam ente, o ar revigorante e frio, o sol brilhando, um dos perfeitos dias de inverno da Flórida.

Entrei na cocheira na ponta dos pés, para que m eus calcanhares não fizessem barulho contra o chão de cim ento. Brincávam os havia horas, e eu estava cansada, pronta para j antar, m as não seria eu a sugerir que parássem os.

— Olá — sussurrei a Sasi, que estava parado em seu m onte de feno, m ascando im passivelm ente.

Esse era um esconderij o fácil, um lugar que eu j á havia usado antes; eu esperava que Georgie tivesse esquecido. Ou que viesse para a cocheira por últim o, com o norm alm ente fazia. Eu estava perdendo. Nossa pontuação era configurada de acordo com um sistem a com plexo. Quanto m ais perigoso o esconderij o, m ais valioso. As regras antigas nunca m udavam , m as nós estávam os sem pre adicionando algum as novas, até que, ao longo dos anos, o obj etivo do j ogo havia se tornado, extraoficialm ente, que nunca se estivesse seguro.

Estávam os m uito velhos para brincar disso, Georgie tinha quase dezessete anos, Sam e eu, quase quinze. Mas m eu prim o havia sugerido a brincadeira, e os olhos de Sam se ilum inaram .

Agachei-m e no canto da frente da baia, em baixo do cocho de com ida. Não era um esconderij o que valesse m uito, Sam provavelm ente estava em cim a do carvalho. Observei as pernas delgadas e nodosas de Sasi; toda vez que ele engolia, seu pescoço inteira saltava com o um a onda.

Georgie apareceu na j anela da baia. Ele se arrastou em volta da cocheira tão silenciosam ente que eu não suspeitei. Pressionei m inhas costas contra a parede fria e rezei para que Sasi não saísse do lugar.

— Ei, você — disse Georgie, e fez um som incerto de beij o com a boca.

Sasi virou a cabeça.

Georgie esperou um instante m ais e logo saiu. Esgueirei-m e para fora da baia, andando na ponta dos pés, da m esm a m aneira com o havia entrado. Quando cheguei à extrem idade da cocheira, surgi dando a volta em vez de correr de pronto, e esse foi m eu erro tático.

Georgie, rastej ando ao longo da parede de fora dos estábulos, m e viu e sorriu.

— Eu sabia que você estaria aqui — disse ele.

Dei um passo para trás, fora da vista dele.

— Nem tente — disse ele. — Eu não quero correr.

Corri m esm o assim , em direção à outra ponta da cocheira, m as m esm o que nós dois corrêssem os na m esm a velocidade (eu era rápida, para um a garota), Georgie estava em vantagem , e m e encurralou, j á que eu estava do lado de dentro e ele, não.

— Eu disse que não queria correr — falou ele, quando m e encontrou na outra ponta; virei-m e para m udar de direção, m as era tarde dem ais.

Ele agarrou m eu vestido, fazendo-m e escorregar, e parei. Achei que ele fosse m e soltar im ediatam ente para continuar a procurar Sam , m as ele segurou m eu vestido e m e em purrou com força contra a parede.

— O que eu disse?

Olhei para ele. Não era assim que costum ávam os brincar.

— Vá pegar o Sam — falei.

— Eu disse para você não tentar — repetiu ele.

Ele colocou as m ãos em m eus om bros, de repente, e m e pressionou contra a parede. Eu podia ouvir Sasi m astigando o feno ritm adam ente.

Relaxei com o toque das m ãos de Georgie m e apertando; o rosto dele estava tão perto do m eu que dava para ver a som bra tênue e espaçada de seu bigode raspado. Eu não sabia que ele havia com eçado a se barbear.

— Muito m á, Thea — disse ele, e sorriu, e sorri de volta, e depois ele foi procurar o Sam .

* * *

Eu estava agitada, agitada. Fui para a cam a na m esm a hora em que Sam e Georgie, e depois que tudo ficou em silêncio os ouvi conversar através de nossas portas fechadas. Senti a curva do seio sob a cam isola, o bico inchado, a pele m acia, m acia.

Norm alm ente, eu ficava na cam a até que o sono viesse, m as hoj e à noite eu queria sair. Fiquei parada do lado de fora da porta dos garotos e tentei ouvir roncos, sinais de que estavam dorm indo.

As portas envidraçadas que separavam a sala de estar do lance inferior da escada eram frágeis, toda de painéis de vidro e estrutura de m etal, m as eu sabia com o abri-las silenciosam ente. A árvore de Natal ia até o teto e nós tivem os que cortar o topo para que o anj o coubesse: sem rosto, sem cabelo, vestido com um a roupa com prida dourada brilhante. O prim o de Idella entregava um a árvore para nós todos os anos. Apertei m ais m eu cobertor ao redor dos om bros, estrem ecendo.

Sem pre que vej o um a árvore de Natal agora, adornada com um a coleção de enfeites que não com binam , fico envergonhada por ela. A árvore de m am ãe era linda: bolas de vidro roxas e verm elhas, sopradas artesanalm ente, e por causa disso levem ente irregulares — era possível ver o lugar, em cada um a, onde o artesão dobrara o vidro quente, fechando a esfera. Os enfeites eram tão finos que pareciam quase líquidos quando a árvore estava acesa.

Mam ãe usava velas para ilum inar a árvore, dúzias delas, presas em suportes de vidro especiais. Era perigoso, m as lindo. A m oda na época era usar luzes elétricas e coloridas, verm elhas, azuis, laranj a e verdes — m as m am ãe detestava todas aquelas cores, achava vulgar.

Alguém estava no patam ar da escada, depois desceu os degraus, então o sétim o degrau rangeu e eu soube que era o Georgie; todos nós sabíam os que era para pular aquele degrau.

— Shh — eu fiz, quando ele chegou perto, m as ele segurou a lingueta afiada da fechadura com o quadril.

Inspirei rapidam ente: a porta chacoalhou, um som oco e fam iliar, capaz de acordar m am ãe. Se ela nos encontrasse, eu sabia que ela acharia que não tinha m e com portado bem . E m inha explicação — que eu não estava fazendo nada, que Georgie havia m e seguido —, bem , ela não acreditaria em m im . Eu vi tudo isso claram ente enquanto observava Georgie passar por m im , em direção à porta da frente, e eu gelada, depois furiosa com m eu prim o.

— Pare — sibilei, m as Georgie j á estava fora de casa; ele olhou para trás na m inha direção e acenou. Corri para a porta, precisando alcançá-la antes de Georgie fechá-la grosseiram ente.

— O que você está fazendo? — sussurrei, enquanto puxava a porta até quase a fechar atrás de m im .

— Estou olhando a lua — respondeu, em seu tom norm al.

— Olhe de dentro de casa.

Ele deu de om bros, e se virou para m im :

— Não.

A voz dele estava pastosa, sonolenta. Quando ele olhou para m im , seus olhos estavam desfocados, distraídos.

Então eu tam bém olhei a lua, cheia e gorda.

— Por quanto tem po você vai ficar parado aqui? — perguntei.

— Por quê?

— Estou com frio.

— Você m e acordou — disse ele.

Ele parecia ranzinza, nessa visita, passava m ais tem po no quarto de Sam , sozinho. Ele dizia que estava lendo, m as Georgie nunca lia.

— Com o eu o acordei?

Eu tinha sido m uito silenciosa.

— Eu sem pre sei onde você está, Thea — disse ele.

— Som ente Deus sem pre sabe onde eu estou — respondi suavem ente.

— E Ele está olhando agora? — perguntou Georgie, tam bém suavem ente.

Ele aproxim ou-se um passo. Mais um . E então ficou a três ou cinco centím etros do m eu rosto, sua respiração leitosa e grossa.

— Claro — falei, m as j á tinha perdido o fio da m eada sobre o que estávam os falando.

Ele tocou no m eu cabelo, e depois deixou a m ão cair para m eu pescoço.

Nós nos observam os: m eu cobertor havia caído dos om bros, eu estava nua e com frio sob a cam isola. Meus olhos estavam grandes pela exaustão. O rosto de Georgie estava inchado de sono, suas feições com o as de um bebê. Doce — ele parecia doce. O cabelo dele havia crescido ainda m ais na ausência da tia Carrie, caindo sobre os olhos e lhe dando um ar que era igualm ente desordeiro e tím ido.

Ele aproxim ou m ais o rosto e m e beij ou nos lábios. Depois tocou no m eu rosto, e m e beij ou novam ente, e abriu m eus lábios com os dele.

Eu sabia que estávam os nos beij ando, m as eu nunca vira ninguém beij ar dessa m aneira. Papai beij ava m am ãe no rosto, na nossa presença. As pessoas nos livros que eu lia se beij avam , m as nunca fora descrito daquele j eito. Com o a língua do Georgie era quente na m inha boca, com o aquilo era estranho e ótim o, em iguais m edidas, com o se a estranheza o tornasse ótim o.

Eu não fora criada em um a casa onde o prazer significava culpa. E isso — a língua de Georgie na m inha boca, com o um a coisa viva, o rosto que eu conhecia desde que nasci tão perto, m ais perto do que nunca antes: isso era êxtase.