Escola de equitação para moças
Capítulo 20
Eu estava sentada em m inha cam a com um a carta nas m ãos. O Sr. Holm es esperava por m im ; se m e dem orasse m ais, ele ia com eçar a im aginar coisas.
Toquei as palavras escritas no envelope. Theodora Atwell, estava escrito. Aos cuidados da Escola de Equitação Yonahlossee para Moças. As cartas que m inha m ãe enviava eram superficiais, e ela nunca se dirigia a m im com o Theodora. Ela disse que estavam encaixotando todas as nossas coisas, que ela, Sam e m eu pai iriam m orar em um hotel enquanto procuravam um a casa, que papai iria antes para estabelecer o novo consultório. Acho que fiquei feliz ao ler as cartas, pois ela estava m e preparando para m inha nova vida, pois eu era capaz de im aginar a vida deles enquanto vivia a m inha em Yonahlossee. Ela deixava im plícito, m as não afirm ava, que iria m orar com eles na casa de Orlando.
Esta carta, porém , que agora tinha nas m ãos, trazia a caligrafia de Sam . Às vezes parecia que Deus estava brincando com igo. Era véspera do torneio, e chega um a carta de m eu irm ão, que ainda não havia m e escrito um a única palavra.
Querida Thea,
Sei que você quer uma carta minha, mas por quê? No momento em que você a ler, a carta
já vai estar desatualizada. Você sabe que estamos de mudança. Tudo permanece igual aqui,
a não ser por sua ausência. Mas não vai ser igual em breve, porque vamos embora. A
família que vem morar em nossa casa tem cinco filhos. Cinco. Pense nisso. Você gostaria
de alguns dos irmãos, e gostaria menos de outros. É simplesmente assim que aconteceria.
Papai tem me passado mais tarefas. Acho que ele pensa que quanto mais ocupado eu
estiver, melhor. Não sei o que escrever, Thea. Você disse que queria uma carta, mas o que
quer que esteja escrito nela?
Há algo errado com Georgie. Mamãe e papai não me contam, mas escuto quando
conversam. Não é difícil, eles pensam que sou um tolo que não sabe ouvir por trás das
portas, mas eles é que são tolos. Papai fala a mesma coisa sobre ele há meses — “ele não
está totalmente bem”. O que você acha que isso quer dizer? Sabia que a polícia me
interrogou? Não fiquei com medo, mas mamãe e papai ficaram. Nós não vimos a tia Carrie
e o tio George desde que você foi embora. Acho que papai se encontrou com o tio George,
mas não tenho certeza. Estamos pagando por tudo. Isso eu sei. A casa em Orlando vai ser
menor. É o que mamãe diz. Mas ainda não compramos outra casa. Eles ainda estão
procurando. Eles não me diriam isso, mas acho que não temos dinheiro para comprar uma
casa nova imediatamente. Acho que eles têm que esperar.
Estou entediado. Queria ter um amigo.
Seu irmão,
Sam
Dobrei a carta em centenas de partes, até que não consegui dobrar m ais, e depois a desdobrei e olhei para todas as palavras, e a li e reli até m em orizá-la. Sem querer; teria preferido que a voz do m eu irm ão não ficasse presa na m inha cabeça, um disco tocando a m esm a m úsica sem pre e sem pre e sem pre até m e dar vontade de gritar. Mas eu não tinha vontade de gritar. Tinha vontade de chorar. Chorar aos prantos, com o as heroínas dos rom ances. Mam ãe tinha m entido. Georgie não estava bem . Mas quis acreditar nela, e foi isso que fiz.
Eu não sabia qual era o sentido da carta dele, a não ser que estava solitário e com raiva. Sam nunca fora um a pessoa raivosa; tudo isso o deixara com raiva, o transform ara em um rapaz diferente. Senti-m e egoísta, pequena, m esquinha: eu fora m andada para um lugar onde era im possível alguém se sentir solitário. E Sam , bem , ele teve que perm anecer lá, o único j ovem naquele m undo. E Georgie — há quanto tem po Sam sabia? Há quanto tem po ele carregava esse fardo sozinho?
Decidi que a carta dele era um a m aneira de m e pedir para voltar. E, no início, eu tinha querido voltar. Mas não queria m ais. Não havia um futuro para m im em casa.
Levantei-m e e tirei os brincos de m am ãe da caixa de veludo verm elho. Doeu para colocar, m as eu j á esperava por isso. Não usava brincos havia m eses, desde quando tinha experim entado os de rubi de Sissy. E depois atravessei apressada a Praça em direção à Casa do Diretor, onde eu sabia que o Sr. Holm es estaria esperando.
Na Casa do Diretor, o Sr. Holm es m e guiou até a biblioteca, m as não o segui.
— Quero ir lá para fora, para trás — eu disse —, com o na sem ana passada.
— Está bem — concordou ele —, o que você quiser.
Eu o guiei através da casa, e saím os pela varanda dos fundos. Estava um dia ensolarado, com o se fosse aquele outro dia, e eu esperava que a luz do sol não estivesse arruinada para m im para sem pre. Eu esperava que em algum m om ento de m inha vida fosse capaz de não m e lem brar daquele dia com tanta clareza.
Nós cam inham os por um a trilha íngrem e, e senti que o Sr. Holm es tocou a parte de trás da m inha coxa. Virei-m e e sorri, m as continuei a andar. Eu sabia que ele estava tentando im aginar por que eu estava tão silenciosa. No entanto, ele não precisava. Eu sabia aonde queria ir. Sabia o que queria fazer.
Com Georgie, parecia que era um a transgressão, algo que nós não devíam os fazer. Um a transgressão de quê, eu não sabia. Só sabia que Georgie nunca m ais seria o m esm o. Eu soubera disso o tem po todo; a carta de Sam apenas tinha confirm ado o que eu j á suspeitava. Um a série de circunstâncias. No início, pensei que eu poderia ter m udado as coisas, evitado a tragédia da fam ília Atwell: havia tantas form as de ter interrom pido aquilo tudo. Se eu não tivesse m ontado naquele dia. Se eu sim plesm ente houvesse tom ado outro cam inho. Se Sam tivesse se recusado a caçar com Georgie. Se eu não tivesse chorado com o um a garotinha.
Entretanto, eu via agora que tudo tinha com eçado antes m esm o de eu nascer. Com dois irm ãos, e os filhos deles. Um a filha, a garota estranha. E então fom os todos pressionados por circunstâncias que, a princípio, nada tinham a ver conosco. Circunstâncias às quais reagim os m uito m al, m as que não foram criadas por nós. A expansão im obiliária de Miam i, que destruiu a confiança de m eu tio; a Depressão, que am pliou a ideia de m inha fam ília de ser m elhor do que o resto do m undo.
Então, falar que tudo poderia ter se dado de m aneira inteiram ente diferente: só Deus poderia dizer isso. Seria com o dizer que eu nunca deveria ter nascido, o que era o único m odo, e eu via isso agora, de que tudo isso pudesse não ter acontecido. Um de nós teria que ir em bora: eu, Georgie, Sam .
Parei na clareira e m e voltei para encarar o Sr. Holm es.
— Thea — disse ele —, Thea.
Tocou m eus brincos, os brincos que tinham sido presente de m inha m ãe. Que m inha m ãe e o Sr. Holm es tivessem tocado a m esm a coisa sem saberem disso parecia ultraj ante, triste, m as tam bém reconfortante.
Quase um ano antes, o que ele tinha visto ao se aproxim ar do carro? Ele estivera esperando por nós, por m im . Observou m eu pai, que parecia hesitante; observou-o dar um a volta por trás do autom óvel, im undo por causa da viagem ; depois a m im , eu tinha pulado para fora do carro antes que m eu pai pudesse abrir a porta. Será que ele m e achou ousada? Im pertinente? Theodora Atwell, da Flórida, que se com portara de m aneira im prudente — pior que isso, m uito m al, e por isso tinha sido expulsa. As prim eiras coisas a em ergirem do carro foram m inhas pernas, pernas de um a garota. Depois fui eu, m enor do que ele pensava, e bonita, com um a postura perfeita. Ou, se não bonita, de aparência interessante. Viu tudo isso através da escuridão do entardecer. E então percebeu que tinha se alongado dem ais nas observações e correu para fora para nos cum prim entar.
— Thea — repetiu.
Isso era tudo o que dizia. Tudo aconteceu com igo por algum tipo de instinto que eu não sabia possuir. Eu fizera certas coisas, claro, m as nunca com tanta confiança, tanta facilidade. Ficávam os tão à vontade um com o outro agora, o que parecia tão correto, e dava a im pressão que seria im possível que outras pessoas além dele e de m im j am ais tivessem se sentido assim antes. Nunca desej ei George dessa m aneira.
Dei um beij o nele, intenso, segurei o rosto dele entre as m ãos.
Em seguida apontei para o chão, e ele com preendeu, com preendeu exatam ente o que eu queria e se deitou no chão, na terra, e desafivelei o cinto dele e o aj udei a tirar as calças.
Abaixei-m e por cim a dele, e ele era tão grande e sólido dentro de m im , e eu não queria que aquela sensação term inasse. A sensação que parecia m e dar um m otivo para tudo o que eu fizera, a com eçar por Georgie: por causa daquela sensação que eu não estava sozinha. E m esm o enquanto a sensação m e queim ava o cérebro, eu ficava triste, pois sabia que seria a prim eira e a últim a vez que faríam os isso. E não parecia possível, naquele m om ento — agarrei os om bros dele, e ele puxou m inha blusa e chupou m eus seios, e m e apertou contra seu corpo —, não parecia possível que algum dia eu fosse vir a m e sentir assim novam ente. Interrom pi o m ovim ento de m eus quadris por um m om ento, inclinei-m e e o beij ei. Nossos corpos estavam m elados de suor.
— Não pare — m urm urou ele, e prom eti que não pararia.
Observei o rosto dele, os olhos sem icerrados; do que será que ele gostava quando era criança? Será que pegava a m ão da m ãe quando percorriam um a rua congelada e sentia consolo no toque dela? Será que tinha am ado a voz do pai ao recitar as orações? Ele deveria sentir saudades dessas coisas agora, o toque e o som que se esvaíam tão rapidam ente da m em ória.
Acelerei m eus m ovim entos, e ele colocou as m ãos em m eus quadris e m e puxou para baixo, para baixo, para baixo, para dentro dele; e depois fiquei em um ângulo diferente em cim a dele e fechei os olhos para sentir todo o prazer, aquela sensação de confiança.
Eu não queria tirar Georgie da m ente. Queria tirar a m em ória daquela noite, do dia seguinte. E isso, percebi agora, era im possível. A dor era parte do prazer, e am bos faziam parte da recordação que eu tinha do m eu prim o.
* * *
A m anhã estava linda no dia do torneio, o tipo de m anhã que prenuncia um lindo dia. Se com frequência cham o de lindos os dias de Yonahlossee é porque o eram de fato, porque não consigo encontrar outra m aneira de descrevê-los com tanta precisão a não ser sim plesm ente dizer que eram lindos, com o um cartão-postal, um a pintura, algo irreal.
Andei até o cam inho do bosque com Sissy de um lado, Mary Abbott do outro, o culote dela dobrado até os j oelhos. Sissy torceu os cabelos lisos em um nó j usto. Minha casaca de concurso estava apertada nas costas quando eu levantava os braços. Em dois m eses não caberia m ais em m im . Mas eu não estava pensando nisso, não estava pensando sobre daqui a um ano, ou m esm o daqui a um dia: estava pensando na próxim a hora, quando saltaria na frente de todas essas garotas, e do Sr. Albrecht, e do Sr. Holm es.
O Sr. Holm es estava de pé no portão com Decca. Meu corpo agora reagia à presença dele; era com o se eu tivesse um ím ã em butido na pele, m e dizendo para ir na direção dele. Mas, obviam ente, eu não faria isso, não poderia fazer isso. Levantei a m ão fazendo um sinal, e olhei para longe. Vi os cabelos louros de Leona, com a costum eira trança apertada; ela contava os passos entre os obstáculos de um duplo.
Posicionei-m e atrás de Leona, que estava fazendo o reconhecim ento da pista pela segunda vez. Isso m e irritou; de acordo com as regras da etiqueta, era a vez de outra pessoa. Contei os passos entre cada salto e tentei ver a pista a partir da perspectiva de Naari, tentei prever o que poderia am edrontá-la — os vasos de plantas que delim itavam cada obstáculo, as tendas na extrem idade do picadeiro que forneciam som bra às nossas m esas de alm oço, a m era presença de todas aquelas pessoas. Eram tantas coisas.
Eu estava com dor entre as pernas, m as sabia, pela experiência da últim a vez, que a sensação iria desaparecer rapidam ente. E então tudo o que m e restaria seria um a m em ória, que iria enfraquecer, enfraquecer e enfraquecer até que eu tivesse apenas um a m em ória daquela m em ória. Porém , o Sr. Holm es tinha m e transform ado. Eu era um a garota diferente por causa dele.
Tentei m e concentrar nos saltos. Fiquei im pressionada com a pista, proj etada pelo grupo de Sissy. Os obstáculos m ais com plicados na pista avançada eram um rio, que levava a um oxer, dois obstáculos próxim os um do outro; e um tríplice que term inava com um m uro. O m uro era o obstáculo m ais alto e o últim o salto da pista, proj etado com o um teste final. Os tij olos do m uro eram falsos, feitos de m adeira leve, m as os cavalos não sabiam : para eles, tratava-se de um obstáculo sólido.
O Sr. Albrecht soprou o apito, Leona passou e as faces dela pareciam m ais rosadas do que de hábito, o que m e deixou totalm ente chocada — ela não parecia o tipo de pessoa que usava ruge.
Sei que devia deixá-la vencer. Sissy até tinha m e dado um a pista sobre isso. E eu rira, dissera-lhe que provavelm ente Leona iria m e derrotar. Mas eu tinha esperanças de que não fosse verdade.
As rodadas de qualificação ocorreram rapidam ente. Fiz o aquecim ento no picadeiro adj acente e observei o obstáculo do rio atrapalhar três garotas antes de chegar m inha vez: duas alunas do terceiro ano de Louisville e Martha Ladue. Eu seria a antepenúltim a a m e apresentar. O Sr. Holm es ainda segurava Decca; não conseguia vê-los m uito bem , apenas os perfis, Decca bloqueando o Sr. Holm es. Já havia acontecido um a queda, um a garota que eu não conhecia bem tom bou depois que seu cavalo refugou diante do oxer.
Houve um intervalo no m eio das rodadas de qualificação. Tentei m anter m inha respiração regular, tentei relaxar Naari com firm eza. Esta rodada não era no cronôm etro — eu precisava m e concentrar na precisão. Fechei os olhos e visualizei cada salto, contando as passadas entre eles.
Quando chegou m inha vez, avaliei o tem po para iniciar com perfeição; quando o Sr. Albrecht soprou o apito, eu estava na linha do prim eiro salto. Naari desviou o olhar para um dos j arros, m as a im pulsionei com as pernas e ela passou sem problem as. Saltei com o sem pre fazia: tudo e todos desapareciam . Todas as pessoas da plateia eram um borrão. Concentrei-m e no odor acre do suor de Naari, seu corpo se m ovim entando entre m inhas pernas.
E u sabia que nós tínham os o últim o salto, sabia com certeza, m as então os tij olos falsos caíram em baixo de nós, e xinguei Naari em voz baixa. Ela não tinha elevado as patas o suficiente. Mas tínham os sido rápidas.
Leona passou voando por nós, trotando, tão perto que criou a própria brisa enquanto se m ovia. Naari queria trotar, tam bém , estava nervosa e tensa. Eu queria perguntar ao Sr. Albrecht em quanto tem po eu tinha feito o percurso e o localizei, de costas para m im , gesticulando. Ele estava falando com alguém , m as não consegui perceber quem era até passar devagar, e então vi que era a Sra. Holm es.
Observei Leona a partir de um a distância segura. Minha cabeça latej ava, e m inha boca estava m uito seca. Já acabou, sussurrei no ouvido de Naari, enquanto observávam os a cena, m as, m esm o assim , quase não acreditava. Talvez m eus olhos tivessem m e enganado. Talvez m inha m ente estivesse m e pregando um a peça. Mas eu sabia a verdade, que era sim ples assim : a Sra. Holm es tinha voltado para casa um dia antes. As pessoas antecipam a volta para casa o tem po todo.
King com pletou os saltos sem erros, incluindo a últim a com binação, com o se todos fossem pequeninos brinquedos. As pernas dele tinham quilôm etros de com prim ento; ele quase não precisava se em penhar.
Sissy m e encontrou na baia de Naari, que agora pendia a cabeça, exausta. Ela deslizou para dentro da baia e puxou o portão atrás de si. Eu afagava a garupa de Naari. Ela teria algum as horas para descansar. A turm a adiantada entrava prim eiro, m as na rodada seguinte passavam para o final, de m odo que as m ontarias tivessem m ais tem po de recuperação.
— Por que você está aqui em baixo? — perguntou Sissy .
Tinha as faces verm elhas, e o coque estava se desfazendo. Estava inteiram ente vestida de branco, com o todas nós. Eu não concorria com Sissy, m as na verdade ela não era am eaça para ninguém . Sissy não era tão boa assim ; não se im portava tanto assim .
— Estou cansada.
— Mas ainda tem os o alm oço. Não está com fom e?
Segui o dedo de Sissy e vi garotas vestidas de branco, andando para todo lado.
— O que tem de alm oço?
Odiei a form a queixosa com o m inha voz soou.
— Sanduíches. Mas estão bons.
— A Sra. Holm es voltou.
— Eu sei.
Eu segurava m inha testa latej ante com a m ão e não olhava para ela.
— Estou triste — disse, finalm ente.
— Mas você sabia que ela iria voltar. — A voz de Sissy estava suave.
— Sim — falei. — Eu sabia. Mas não é sem pre assim ? Você vê o fato prestes a acontecer, m as não consegue evitá-lo.
Sissy m e puxou para um abraço, e notei a intensidade com que fez isso, com o se estivesse receosa de eu recusar. Mas não recusei. Ninguém tinha m e abraçado no últim o ano, depois de Georgie. Ninguém tinha tocado em m im .
* * *
As três finalistas — eu, Jettie, Leona — tinham que desem patar. Fui a prim eira, o que não era um a posição invej ável, m as fiquei contente de com petir logo. Precisávam os ser rápidas. Eu sabia que a disputa seria entre m im e Leona; sem pre soube disso. King era um atleta m aior, m ais dotado, porém Naari era m ais rápida, com o j á havia provado naquela noite m uito tem po atrás; e, m ais do que isso, era m ais esperta. King era estúpido, im perturbável. Mas se eu conseguisse deixar Naari tensa na m edida certa, ela iria tão rápido quanto naquela outra noite, e nós venceríam os.
Na pista de aquecim ento, m antive os olhos nas pontas das orelhas de Naari e a fiz cam inhar em círculos, cada vez m enores, até ela estar praticam ente fazendo um a pirueta. Eu não a deixaria trotar — queria que ela reservasse cada fração de sua energia. Eu ainda não tinha encarado o Sr. Holm es, m as, ah, com o ele m e observava. Dava para sentir. O Sr. Albrecht m e olhava curioso quando eu passava por ele. Eu deveria estar aquecendo Naari lentam ente, trabalhando-a aos poucos na pista, m as, no fim de tudo, regras eram apenas regras, e am bos sabíam os disso. Eu poderia lidar com m eu cavalo do j eito que quisesse.
Enrolei as rédeas nas m ãos, algo de que eu tinha ouvido falar recentem ente. Era um gesto estúpido; se Naari refugasse um salto no últim o instante, eu seria atirada por cim a dela de qualquer m aneira, ainda presa pelas rédeas; no m ínim o, eu quebraria am bos os braços. No entanto, senti m eu velho destem or ressurgindo, com o sem pre ocorria antes de um a pista difícil. Com o sem pre ocorria, quando havia pessoas assistindo. E agora essa m ultidão o incluía, e eu m e sentia tão inconsequente; inconsequente, enquanto enrolava as rédeas tão apertadas em volta das m ãos que o couro chegava a m achucar m inha pele; inconsequente, enquanto ouvia o apito do Sr. Albrecht e incitava Naari a galopar.
Gostei do poder extrem o que as rédeas enroscadas m e trouxeram ; flexionei os braços e Naari andou m ais devagar, m ais depressa, e depois virei os dedos dos pés para fora e enfiei as esporas em seus flancos, e ela não tinha escapatória, eu m antinha todo seu vigor controlado entre m inhas pernas e m ãos, em baixo de m im . Eu nunca sentira tam anha energia, agitando-se sob m im com o um a onda violenta.
Nós estávam os indo depressa dem ais; se fosse um a aula, o Sr. Albrecht teria gritado para que eu reduzisse pela m etade nossa velocidade. Todas as garotas vestidas de branco form avam um a m ultidão indistinta, interrom pida de tantos em tantos m etros pelo chapéu de um a m onitora. Se eu tivesse desej ado encontrar o Sr. Holm es na m ultidão, não teria conseguido.
Saltei o rio, senti Naari m udar seu andam ento, e eu sabia, à m edida que ela se recuperava em preparação para o oxer à nossa frente — e depois à m edida que voava por cim a dele, as orelhas niveladas em relação à cabeça por causa da concentração —, que nós nos entendíam os: eu queria vencer, e ela queria se livrar de m im , esta garota confusa nas suas costas, incitando-a para a frente com dores pontiagudas em seus flancos, então fazendo-a frear com um terrível repuxo no canto da boca; ela sentia o gosto de sangue com a pressão do bridão se m ovim entando de um lado para outro, achatando sua língua contra os dentes, tornando a respiração difícil.
Naari bufou em sinal de frustração.
— Bom trabalho — sussurrei no ouvido dela, m antendo o m esm o ritm o de seu m eio galope —, ótim o, ótim o, ótim o.
E, quando nos aproxim ávam os da últim a com binação (e tinha sido um a j ogada m aliciosa, deixar o salto m ais alto para o fim ), bati as pernas em seus flancos e levei as m ãos para o alto do pescoço dela, e ela sentiu alívio na boca, no cérebro, e saltou.
Nessa passagem , o que contava era a velocidade; logo, derrubar um obstáculo não retirava pontos, m as eu precisava saltar o m uro, eu precisava que o Sr. Holm es m e visse fazendo isso. Enquanto perm aneci suspensa no ar acim a do últim o obstáculo — por um segundo, dois segundos —, fechei os olhos e por um breve instante im aginei que estava em casa novam ente, m ontada em Sasi, saltando de novo, saltando rum o ao espaço vasto e desconhecido.
Tive que fazer Naari dar cinco voltas antes que ela finalm ente voltasse a cam inhar. A m ultidão se m antinha em com pleto silêncio. Eu com pletara a pista sem faltas.
Leona entrou trotando m ontada em King, e m e ignorou com pletam ente. Mas o Sr. Albrecht captou m eu olhar, e percebi que todas as outras garotas em torno do picadeiro tam bém m e observavam : a m im , não a Leona. Dei um a palm ada no pescoço de Naari, e ela recuou.
— Ela precisa esfriar — m urm urou o Sr. Albrecht quando passam os por ele.
Aquiesci. Tentei não reparar que todo m undo nos encarava. Mary Abbott estava de pé na entrada, e, quando passei, ela agarrou m inha rédea.
— Não — falei, furiosa —, deixe-m e.
— Bela apresentação — disse ela, com um a voz m onocórdia —, que bela apresentação! Boa garota — disse para Naari.
— Não toque nela.
Mary Abbott levantou o olhar para m im , sem aparentar surpresa, e soprou os fios de cabelo que lhe caíam no rosto enquanto m e contem plava.
— Se houver um desem pate, garanto que você vai vencer tam bém . Diria que você vai vencer tudo hoj e, se fosse apostar.
— Deixe-m e em paz — m urm urei, e aticei Naari para com eçar a trotar, fazendo-a dim inuir a velocidade e voltar a andar depois que ultrapassam os a m ultidão.
Deslizei da sela e com ecei a levá-la a cam inhar em círculos, novam ente observando Leona de um a distância segura.
— Você está bem — m urm urei para Naari, m as ela não reagiu, pendeu a cabeça, quase até a altura do chão.
Tentei secar o suor dos locais m achucados onde eu tinha enfiado as esporas, cada um deles do tam anho de um a m oeda pequena, m as ela recuou a m eu toque. De repente, senti um trem endo rem orso. Por tudo isso.
Um a garota do prim eiro ano cuj o nom e eu não sabia — Holly ? — passou por nós correndo, encarou Naari com olhos arregalados. Quando tentei captar seu olhar, ela o desviou. Naari estrem eceu quando um a brisa soprou, o ar frio em sua pele quente. O chiado suave dos galhos nos envolvia, e subitam ente m e senti tranquila, vazia, livre de qualquer força violenta que tivesse m e possuído. Afaguei o pescoço de Naari e quis nada m ais do que ser transportada, por um passe de m ágica, de volta para a m inha cam a, um a colcha m acia m e cobrindo até o pescoço.
Era difícil avaliar a velocidade de Leona e King — ele era tão desengonçado que sem pre parecia se m over em câm ara lenta, com o se estivesse dentro da água. Form avam um belo par, Leona e King: eu não podia deixar de adm irá-los, o reflexo das botas fazendo um lustroso contraste com a pelugem brilhante de King. Eles pareciam da realeza, pensei. A realeza de Yonahlossee. E em breve não iam significar nada para esse lugar, a vaga recordação de um a garota e seu cavalo.
Novam ente King com pletou a pista sem faltas, com o se fosse sim ples.
* * *
As três finalistas — eu, Jettie, Leona — se alinharam no picadeiro. Ninguém sabia nossos tem pos. Eu dizia palavras suaves para Naari, que em pinava e arqueava o pescoço; Leona m e lançou um olhar penetrante quando Naari tentou ultrapassar King.
— Contenha Naari! — ordenou ela.
Leona ficaria bem , eu sabia; parecia que ela poderia resistir a quaisquer tem pestades da vida.
— Estou cansada de ver você sem pre com o prim eiro lugar — respondi.
Este estava se tornando facilm ente o segundo pior dia de m inha vida, m as o ar de choque no rosto de m árm ore de Leona m e trouxe satisfação. Em purrei Naari para a frente de King.
Avistei Henny próxim a do portão, conversando anim ada com alguém que não consegui reconhecer até ela virar a cabeça e m e fitar. A Sra. Holm es. Tudo nela estava m ais curto: o cabelo, que estava preso em um coque pequeno e solto; a saia, que não m ais se arrastava pelo chão; a cam isa, que não estava m ais fechada até o pescoço, arrem atada com um cam afeu, e que revelava um pedacinho de sua pele pálida. Senti-m e tonta, inclinei-m e para a frente na sela rápido dem ais, com o se fosse desm aiar.
— Você está bem , Thea? — perguntou a Sra. Holm es
Olhei para ela, boquiaberta. Não consegui ocultar m inha surpresa. Ela parecia m ais revigorada, com o se tivesse vindo de um spa. Dava para ver com o ela tinha sido bonita na j uventude. Não linda, m as bonita, de um a form a ousada e sólida. Senti m eu estôm ago em brulhado.
— É m esm o, Thea — disse Henny , com a voz fria. — Você está bem ?
Concordei com a cabeça e m e afastei, evitando encontrar o olhar fixo da Sra. Holm es, ignorando a repreensão de Henny .
— Thea — cham ou ela —, o que aconteceu com suas boas m aneiras?
Porém , eu não podia encarar a Sra. Holm es; não conseguia, por nada neste m undo, fingir que gostava dela.
Eu tinha m e esquecido, é óbvio, tinha m e esquecido de tudo. Tinha m e esquecido de que ela voltaria, reivindicaria de volta o m arido, a vida dela aqui. E ainda assim , enquanto m e dirigia para dentro do picadeiro, eu queria vencer.
Todas nós viram os os cavalos para o Sr. Albrecht e Rachel, que estava entregando as flores para nossa turm a. Ela sorriu para m im , o rosto cheio de sardas por causa do sol. Ela ficara fora durante um m ês, m as creio que ser filha do diretor perm itia alguns privilégios. O Sr. Albrecht tinha o braço em volta de Rachel; de m aneira protetora, pensei. Ela ainda era am ada aqui. Suas faces estavam rosadas, e ela parecia confiante. Era óbvio que estava confiante. Os pais estavam j untos novam ente, a fam ília toda reunida. Avistei Molly na prim eira fila conversando anim adam ente com outra aluna do prim eiro ano. Todas as garotas do prim eiro ano pareciam ainda com potrancas, os cabelos finos e os m em bros flácidos. Elas não pareciam saber onde colocar as m ãos e os pés quando cam inhavam , com o controlar as pernas que tinham crescido tanto em tão pouco tem po.
— Em poucos instantes — anunciou o Sr. Albrecht, e a m ultidão se pôs em silêncio —, terem os nossos resultados.
Jettie estava resm ungando consigo m esm a, furiosam ente, e m e voltei e olhei para ela.
— Sem pre encarando — disse ela, quando m e flagrou olhando, o que foi algo que Henny tinha m e dito um a vez.
Fiquei em silêncio, fechei os olhos para todas aquelas pessoas.
Quando os abri novam ente, vi um a m assa de rostos, todos atentos, sérios. Isso significava m uito para nós. Vi Martha trocando ideias com Henny, e a tranquila Alice Hunt observando com atenção. Molly roendo um a unha. Eu sabia tão pouco sobre qualquer um a delas, com exceção de Sissy . Tam bém conhecia Eva o suficiente para cham á-la de am iga.
Os olhos de Rachel encontraram os m eus e se desviaram , rapidam ente, e percebi que eu tinha vencido.
— E isso nunca aconteceu antes — com eçou o Sr. Albrecht, de pé na nossa frente, dirigindo-se à m ultidão. Ele podia ser qualquer um dos hom ens, seu inglês carregado com o única pista de que não era com o o restante das pessoas ali. — Nunca antes concedem os o prêm io a um a novata.
Fez um a pausa. Vi Henny cochichar algo com a Sra. Holm es, que balançou a cabeça. Todo m undo agora sabia que ele se referia a m im , evidentem ente; Mary Abbott estava radiante e Katherine Hay es m e olhava com interesse. Eu observava a Sra. Holm es para evitar olhar para o m arido dela, que eu sabia que estaria na parte de trás da m ultidão, com Decca ao lado. A Sra. Holm es tam bém m e observava, um a expressão serena no rosto.
— A equitação — continuou o Sr. Albrecht — é, se posso dizer isso, um a verdadeira parceria entre hom em e anim al, entre o poder da m ente de um a pessoa e a força absoluta da energia de um cavalo.
— Acabe logo com isso — resm ungou Leona em voz baixa.
— E tudo é j ustiça na pista de saltos, onde não pode haver favoritos, onde o que im porta é habilidade e velocidade, nessa ordem . Garotas, é um a lição que vale para a vida: em tudo a que se dedicarem , esforcem -se árdua e honestam ente, e grandes recom pensas virão.
Ele apanhou a guirlanda m ais sim ples dos braços de Rachel, que tinha as outras penduradas em um a fila perfeita. Colocou a guirlanda em volta do pescoço do cavalo de Jettie, que nivelou as orelhas e expôs os dentes. Depois colocou outra guirlanda no pescoço de King, que esperou pacientem ente enquanto o Sr. Albrecht m exia com o gram po.
— E nossa vencedora de hoj e, Theodora Atwell, de Em athla, Flórida, que nos im pressionou a todos com sua ousadia e habilidade. — O Sr. Holm es entrou no picadeiro, passou pela esposa e por Henny e fez um cum prim ento de cabeça.
Beliscou a bochecha de Rachel depois de pegar a guirlanda do braço dela, e ela virou o rosto, envergonhada. O pânico cresceu na m inha garganta. Eu não queria que ele chegasse tão perto, m as então ali estava ele, tão perto que eu podia ver o repartido em seu cabelo. Outra tradição de Yonahlossee.
— Thea — m urm urou —, m uito bem .
Ele afagou o pescoço de Naari, cautelosam ente, com o apenas um a pessoa que não estivesse acostum ada com cavalos faria. Em seguida, colocou a guirlanda no pescoço de Naari. Guirlanda de sino-dourado salpicado de floxes roxa, a prim eira floração de cada. E quem teria im aginado que tal com binação tão im provável — a prim eira tão vibrante, quase elétrica; a segunda, tão delicada — form asse um belo conj unto? A Sra. Holm es teria pensado nisso. A Sra. Holm es retornou a tem po de cuidar do j ardim .
Agora ela estava cuidando de Decca, na m ultidão, a querida e m orena Decca. A Sra. Holm es não m erecia o que eu tinha feito.
King recuou, repentinam ente consciente da guirlanda, e Leona enterrou as esporas nele. O Sr. Holm es ordenou que Rachel se afastasse para a lateral do picadeiro. Minha boca estava m uito seca; negar água para m im m esm a era um castigo, o m elhor que eu podia pensar de im ediato.
— Está tudo bem , King — disse o Sr. Albrecht, e as orelhas de King se voltaram na direção dele, e fiquei com pena do cavalo, pois sua dona se tornara cruel devido a um a derrota que ele não podia com preender.
Estalei a língua, e King virou a cabeça para m im , ansiando por algum conforto, e pela prim eira vez o rosto de Leona ficou fácil de decifrar: eu não deveria ter vencido. Eu sabia, em m inhas entranhas, que tudo isso estava acabado.
Nos livros acontecia m ais com o um a revelação gradual, o reconhecim ento lento e doloroso de algo. Mas soube em um instante que Leona queria m e prej udicar de todas as m aneiras possíveis. Eu m e introm eti no cam inho da única coisa no m undo com a qual ela se im portava: sua últim a chance.
E eu não ia m e retirar. Morreria antes de perder. Eu era um a am azona tão boa porque não tinha m edo. Sem pre im pressionei as pessoas com m inha disposição para tentar saltos que eram altos e am plos, largos dem ais para um a garota tão pequena. E agora eu passava a língua por m eus lábios rachados e procurava pelo Sr. Holm es. Ele estava de m ãos dadas com Rachel na extrem idade do picadeiro. Todo m undo observava Leona, que estava dando um espetáculo, enfiando freneticam ente as esporas em King. Mas o Sr. Holm es m e observava, e eu sabia que ele o faria. Quando encontrei seus olhos, ele balançou a cabeça, de m aneira triste, e, se eu pudesse, teria cravado um a faca em m eu coração, ah, certam ente teria.
Em vez disso, esperei, com o um a boa m oça, Jettie e depois Leona com pletarem a volta da vitória, e em seguida iniciei m inha própria, sob aplausos ensurdecedores, com o um aviso; esperei o fotógrafo tirar m eu retrato, esperei o Sr. Holm es desaparecer no bosque com a fam ília. Esperei enquanto um a centena de garotas m e cum prim entava, m inha apresentação sem elegância perdoada.
— Ah, que lindinha! — elas disseram e tocaram no pescoço de Naari, um a a um a.
Depois, guiei Naari para fora do picadeiro, passei pelas cocheiras e subi a m ontanha em um a trilha que cruzava a floresta por alguns quilôm etros antes de chegar a um a clareira. Era a única trilha que não levava você de volta às cocheiras — ia dar em Asheville por m eio de um a velha estrada de m ineiros. Ou pelo m enos foi isso que eu ouvira falar.
Dei rédea para Naari e tirei a guirlanda, com algum as flores j á m urchas e m achucadas, e a deixei cair em algum lugar do bosque. Eu tinha sido m uito dura com m inha m ontaria, com todo m undo assistindo. Não m e arrependia disso. Tinha controlado m inha m ontaria de form a dura dem ais para esse concurso em particular, m as tinha vencido.
Cheguei à prim eira clareira e desm ontei. O ar estava tão cortante que eu sentia a garganta apertada quando respirava profundam ente. Naari pousou o focinho na palm a da m inha m ão, um gesto incom um ente afetuoso para ela. Eu sabia que existia um sentim ento nascido da exaustão, da incerteza — não estávam os em um lugar que ela reconhecesse —, m as fiquei agradecida. Coloquei a palm a da m ão em sua testa am pla, e com o dedo desenhei um círculo em volta de seus olhos brilhantes.
Eu era coraj osa, um a característica que m e servia bem no picadeiro e m al na vida.
* * *
Escolhi um dos vestidos do arm ário de Sissy, que estava repleto das finas sedas e cetins da estação, peças que a m ãe dela tinha acabado de lhe enviar. Sissy ficava constrangida com sua riqueza, m as não devia. Um vestido novo faria dela um obj eto de invej a, não de desdém ; significava que estava segura. Ela não seria arrancada deste lugar, com o Leona. O vestido escolhido por m im era form al, na altura dos tornozelos.
— Quer um colar? — perguntou Eva.
— Acho que não.
Eu m e observei no espelho, que era pequeno dem ais e não dava para ver m eu reflexo inteiro. Meus cabelos estavam suj os, eu não os lavava havia quase um a sem ana, m as pareciam m uito cheios, m onotonam ente castanho-averm elhados. Dei um passo para trás e avaliei m eu corpo, o cetim verde colado nos quadris de um a m aneira que m inha m ãe teria considerado indecente. O vestido estava apertado no peito, achatava m eus seios. Eu não estava certa se o efeito era estranho ou atraente. As alças estavam largas no om bro, e eu não conseguia m e livrar da im pressão de que estavam caindo.
Usei os brincos de m am ãe novam ente. Pela prim eira vez, eu usava um a j oia de valor.
Deixei o aloj am ento antes de todo m undo. Elas ainda estavam aplicando um pouco de m aquiagem que esperavam que a Sra. Holm es não notasse: pinceladas de ruge e pó; um batom leve. Eu não quis passar nada, e estava evitando Sissy ; pareceu um extraordinário golpe de sorte eu ter conseguido escapar do aloj am ento sem ser notada. Estava com essa sensação enquanto atravessava a Praça e m e perdia na m ultidão de garotas que se dirigiam ao Castelo. Eram sete horas da noite, entardecer, e a luz nos deixava m ais suaves. A fam ília Holm es se postava na entrada, que fora adornada com guirlandas de fitas am arelas e azul-m arinho, m as eu estava tranquila. As filhas tam bém estavam ali, agrupadas ao redor do pai.
Eu m e sentia doída com um a tristeza que não tinha nada a ver com ele: eles form avam um a fam ília, apresentando um front unificado, m esm o com suas m ágoas e divisões secretas. De repente, senti um a falta enorm e de m eu irm ão gêm eo e quase cheguei às lágrim as de invej a. Endireitei-m e, certifiquei-m e de que m eu cabelo estava no lugar, as alças. Com o seria nosso reencontro, quando acontecesse? Será que m eu irm ão ficaria feliz de m e ver? Não parecia possível.
— Nossa cam peã — disse a Sra. Holm es na porta.
E com o o Sr. Holm es se colocava atrás da esposa, ela não podia ver com o ele evitava m eus olhos.
— Obrigada — agradeci, em bora ela não estivesse exatam ente m e dando parabéns.
Olhei para as m eninas. Todas m e observavam , principalm ente Rachel.
— Estão contentes de voltarem para casa? — Minha voz estava surpreendentem ente firm e. — Para ver o pai de vocês?
Todas confirm aram com um gesto da cabeça.
— Foi m uito divertido ficar com nossos avós — disse Sarabeth.
— Muito divertido — repetiu Rachel.
— Todas nós tivem os um a boa tem porada — com entou a Sra. Holm es. — E m e encontrei com m uitas ex-alunas de Yonahlossee. — Ela sorriu. — Existem tantas com o você, espalhadas por todo o Sul...
Levei um m inuto para identificar o “você” a quem a Sra. Holm es referia — m as era óbvio. Eu agora era um a garota de Yonahlossee.
Vê-las não foi tão difícil quanto pensei. Na realidade, vê-las m e dava certo alívio: eu não tinha arruinado a fam ília Holm es.
— Bom — eu disse, e virei a cabeça para verificar se algum a outra garota estava chegando, para desviar o olhar de m odo que eu não precisasse ver o Sr. Holm es m e ignorar tão solenem ente.
Molly e Henny estavam na parte de baixo da escada, com Molly falando, Henny m eio que prestando atenção. Voltei-m e novam ente para a fam ília Holm es, fiz um a m esura, e cruzei as portas m antidas abertas por Docey e Em m y, a prim eira vez que eu as via j untas. E havia um a sem elhança entre elas, o m odo com o se posicionavam , o m odo com o suas cabeças se aj ustavam no pescoço, o m odo com o suas m ãos se m exiam rapidam ente de um lado para outro. Sorri para elas. Docey retribuiu o sorriso, m as Em m y fingiu não ter m e visto.
O refeitório estava lindam ente decorado, as flores do concurso transportadas para cá. A Sra. Holm es tinha retornado havia apenas um dia, e j á organizara as coisas, colocando tudo de volta nos seus devidos lugares.
Os rapazes todos se colocavam no outro lado do refeitório, usando ternos, coloridas gravatas-borboletas, e fiquei em baraçada com o com prim ento e a form alidade do vestido que tinha escolhido. Todas as outras m oças usavam vestidos m ais curtos, m enos form ais — Sissy levantara as sobrancelhas ao ver a roupa que eu escolhera, m as eu ficara com ele de qualquer m aneira, e por quê? Por que eu queria que todo m undo olhasse para m im ? Senti os olhos dos outros, um a centena deles, m e seguirem do outro lado da pista de dança. No entanto, não foi um a sensação inteiram ente desagradável. Im aginei Sam no m eio das pessoas, esperando para dançar com um a m oça. Eles deveriam ter expulsado Sam tam bém ; será que não sabiam com o pareceria inj usto, m e deixar em um lugar distante, m as não ele? Eram uns tolos, com o Sam tinha dito.
Sissy chegou com Eva. Ela deu um a espiada rápida na direção da m ultidão de rapazes, e gostaria que ela não fosse tão óbvia, gostaria que as em oções dela fossem um pouco m enos evidentes naquela noite.
— Está tudo bem ? — perguntou Sissy quando se aproxim ou de m im .
Reparei nos seus brincos, os brincos de rubi que eu tinha encontrado quando bisbilhotei a Casa Augusta, quase um ano atrás. Com o o tem po voou.
Aquiesci e m ordi um a pequenina tartelete de frutas verm elhas, ainda quente do forno, a m anteiga se derretendo na língua. A m úsica se iniciou, e os rapazes com eçaram a se aproxim ar. Nós ficam os lá, um tanto desaj eitadas, Sissy m e observando de perto, eu fingindo que ela não estava fazendo aquilo. Por que ela achava que eu poderia transferir facilm ente m eu afeto para outra pessoa? Nesse m om ento, com o se tivesse sido convocado, David apareceu, tão alto e atraente com o da últim a vez.
— Thea? Nós nos encontram os de novo.
— David. — Ele era o tipo de rapaz que se recusava a ser recusado. — Você está aqui. — Um com entário idiota. Certam ente eu poderia ter arrum ado algo m elhor para dizer.
— Estou.
Deixei-o m e guiar até o grupo de pessoas dançando, dei a m ão a ele, coloquei a outra m ão dele nas m inhas costas. O Sr. Holm es era m ais alto do que David. Katherine Hay es usava um vestido verm elho-brilhante e tinha pintado os lábios da m esm a cor para com binar. Era um a atitude ousada, usar batom tão acintosam ente. Mas se havia algum a característica inerente a Katherine era a ousadia.
David estava em silêncio e m e guiava de form a bastante graciosa em torno da pista de dança.
— Gosta desta m úsica? — perguntou ele quando a banda term inou a prim eira m úsica e iniciou a seguinte.
— Gosto bastante — respondi.
Ele desviou o olhar, e achei que m eu tom tivesse sido ríspido dem ais, m as então senti seus dedos passearem por m inhas costas.
— Com o esse ano cuidou de você? — perguntou ele.
— Vam os apenas dançar — eu disse, e sorri para am enizar m eu pedido.
Ele m e puxou para m ais perto, e tive vontade de repousar a cabeça no om bro dele, fechar a pequena distância que nos separava. E assim o fiz. Pousei a cabeça no om bro do estranho rapaz e deixei-o puxar-m e, guiar-m e em torno do Castelo, um lugar onde eu tinha feito centenas de refeições, recitado um a centena de orações. Dessa vez, não tinha m edo de ser apanhada. As luzes estavam fracas, nós estávam os cercados por dezenas de outros casais dançando, não era um risco. Ele cheirava ligeiram ente a colônia.
A m úsica term inou e ele parou e m e segurou pela m ão, parecia relutante em m e largar. Sorri, m e desculpando, virei-m e na direção do últim o lugar onde havia visto o Sr. Holm es, e, em vez dele, avistei a Sra. Holm es, que m e encarava sem o m enor traço de bondade. Afinal, tive que desviar o olhar, porque ela não desviaria. Agarrei a m anga do casaco de David.
— Outra dança? — perguntei, e ele pareceu surpreso.
Eu m e j oguei no que restava da noite, fazendo apenas um intervalo entre danças, quando segui David, Boone e Sissy para um canto distante e tom ei alguns goles de um cantil de uísque. Sissy tom ou um grande gole; bebi o m áxim o que consegui. Depois do uísque, eu m e sentia adorável, m e sentia um a garota adorável com o pescoço m acio e lábios brilhantes. Podia sentir David m e observando enquanto eu inclinava o cantil nos lábios, e fiquei feliz por ter escolhido aquele vestido.
Leona não estava presente. Eu tinha procurado, e era difícil deixar de notá-la. E talvez fosse o uísque, m as m e senti ousada o suficiente para m e esquecer dela, expulsá-la de m inha m ente. Talvez eu tivesse im aginado a am eaça: ela não sabia de nada, não com certeza, e será que realm ente traria um boato sobre m im e o Sr. Holm es para a esposa dele? Ela teria que provar.
— O que você está fazendo? — sussurrou Sissy , quando trocam os de parceiros, m as ela sorriu ao dizer isso.
— Nada — form ei a palavra nos lábios sem em itir qualquer som .
Então caí nos braços de Boone; ele m e levou para longe de Sissy. Boone e eu estávam os am bos um pouco bêbados. De perto, ele parecia ligeiram ente assustado, com sua cabeleira ruiva. Porém , m ais do que os cabelos, era a pele, translúcida com o é a pele dos ruivos. Veias verdes finas em olduravam seus olhos.
— Está se divertindo?
— Estou — respondeu ele, e m e girou.
Ele dançava bem .
— Sissy conseguiu um bom partido.
Boone sorriu.
— É m esm o? Engraçado, pensava que eu tinha conseguido um bom partido.
Era estranho, estar abraçada assim , tão próxim a a ponto de sentir o odor da pom ada que Boone usava no cabelo, m as com o im plícito entendim ento de que aquilo tudo era platônico. Boone tinha no rosto um sorriso gentil que devia reservar para as garotas que não eram Sissy. Olhei para as suas calças bege, tão claras que dava para ver onde se enrugavam , e fiquei im aginando quem escolhia as roupas deste rapaz. A m ãe dele, quando ele ia para casa de visita? Será que ela o levava a um a costureira, esperava enquanto lhe tiravam as m edidas, e depois cuidadosam ente escolhia o tecido entre am ostras apresentadas? Será que ela pensava que, ao vesti-lo bem , ela o deixaria preparado para o m undo?
— Você a am a?
Ele sorriu, e as pregas de pele em torno dos olhos se m ultiplicaram .
— Am o — disse ele, e fez um a pausa. — Você está bem , Thea? — Ele parecia preocupado. — É que... parece algo estranho de se perguntar.
Minhas faces ficaram ardendo. Ele era tão bom , o Boone. Meu coração se condoía com sua bondade. Ele olhou através da pista de dança, e, quando segui seu olhar, vi que ele estava fitando o Sr. Holm es, que aj udava a Sra. Holm es a cortar um enorm e bolo retangular, decorado com pétalas de rosa de açúcar; ela cortou um pedaço e o deslizou para o prato que ele segurava, e depois ele deixou outro prato pronto em um instante. Boone m oveu o olhar do Sr. Holm es para m im , e baixei a cabeça.
— Tudo vai ficar bem — disse ele sereno, e eu não disse nada, apenas deixei Boone m e segurar em seus braços bondosos, castos.
Ele m e devolveu a David, e dancei com ele até a hora de ir em bora. A banda tocava um a m úsica lenta, algo que soava m elancólico, David estava dizendo com o gostava de m im , e eu olhava por cim a do om bro dele e assistia aos outros casais.
Boone carregou Sissy para um canto, e fiquei surpresa com a ousadia deles; Sissy devia estar m ais bêbada do que eu pensava para j ogar seu decoro para o espaço daquela m aneira. Ou talvez fosse um efeito de Yonahlossee, j ogar o decoro para o espaço.
Senti o olhar fixo do Sr. Holm es antes de m e virar para vê-lo. Havia apenas um canto da sala para onde eu não havia olhado, e era ali que ele deveria estar, e então m e voltei para poder ver se a expressão dele era a que eu tinha im aginado, se estava com um a aparência descontraída, tam bém conform e eu tinha im aginado, e assim que nossos olhos se encontraram , ele virou o rosto e saiu da sala. Senti com o se tivesse levado um a ferroada. Ainda estava no m eio da m úsica, m as m urm urei algo para David sobre pegar m inhas coisas.
Ele segurou m inha m ão pelas pontas dos dedos novam ente e a puxei com m ais energia do que pretendia, e o rosto dele se endureceu.
— Você é um a provocadora — disse ele alto, e percebi que estava tão bêbado quanto bravo.
Meu pedido de desculpas estava na ponta da língua, m as acabei dizendo:
— Você não passa de um rapaz tolo.
O rosto de David se enrugou, e ele realm ente ficou com a aparência de um rapaz tolo, m as eu não podia m e preocupar com ele agora. Saí apressada e percebi que não tinha nada para recolher, nada que m e m antivesse naquele lugar e fizesse com que eu não precisasse sair, ir aonde o Sr. Holm es estaria esperando. Ou pior, não estaria. A sala exibia o fim da anim ação, a m esa dos refrescos abarrotada de pratos e copos suj os, um naco de bolo desfigurado sobre um suporte. Docey estava lim pando, balançando ao ritm o da m úsica triste.
— Tchau, Docey — eu disse, porque não havia m ais nada a dizer, porque m e senti terrivelm ente constrangida e aborrecida.
Ela sorriu para m im e acenou com a m ão, um a expressão m elancólica no rosto.
Corri escada abaixo e teria saído, m as o Sr. Holm es cham ou m eu nom e. Percebi então que a Sra. Holm es tinha ido em bora. Ele m e em purrou para um a parte som breada, fora do alcance da luz proj etada pelo lam pião a gás.
— O que o senhor quer?
Ele pareceu perplexo, m as logo se recom pôs, visivelm ente, com um lento balanço do corpo, com o se estivesse se preparando para discursar.
— Você se divertiu essa noite?
Ali estava o Henry Holm es público, não aquele que eu am ava. A gravata dele estava com um nó bem -feito, o cabelo, penteado liso. Reparei que seu cabelo tinha sido aparado, e, de todas as coisas que aconteceram hoj e, esta era de longe a pior, ver o cabelo dele pousado em linhas tão retas contra a pele, saber exatam ente quem o tinha aparado, que só daqui a alguns m eses as m echas cairiam novam ente sobre os olhos.
— O que o senhor acha?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Ele parou e pousou a palm a de um a das m ãos sobre a telha de m adeira atrás dele, de m odo que estava de pé em um a posição contorcida. Eu o queria, m as nunca o teria outra vez.
Ele com eçou a falar, m as o interrom pi:
— Não há nada a se dizer. Não m esm o.
Ele sorriu.
— Tem os tantas coisas a dizer, Thea. Tantas.
— Então, não vam os dizer nenhum a delas. — Olhei para m inhas m ãos, ainda verm elhas por causa da com petição de hoj e. Eu deveria usar luvas, m as elas atrapalhavam m inha conexão com o freio. — Vou em bora — continuei. — Tenho que ir, agora.
— Você não...
— Não — disse eu, e j usto naquela hora a Srta. Brooks surgiu, vinda do Castelo, e nos viu de im ediato.
O Sr. Holm es acenou, e a Srta. Brooks nos olhou curiosa, e fiquei im aginando se todo m undo sabia, ou se a ideia de nosso relacionam ento era inim aginável dem ais para alguém tão boa com o a Srta. Brooks.
Logo que ela desapareceu na Praça, virei-m e para o Sr. Holm es.
— O senhor tinha razão — eu disse. — Acabei por adorar este lugar. Realm ente adoro. É tão lindo.
— Então fique, Thea. Deixe que continue a ser lindo. Não se puna indo em bora.
— Não estou m e punindo. Já fui punida o suficiente, acho. Foi um castigo, m e m andarem para cá, m as não foi assim que acabou sendo, não é? Cheguei aqui em circunstâncias tão ruins, e agora estou partindo em circunstâncias tão boas.
— Está?
— Estou — respondi, e eu tinha um a vontade enorm e de tocar nele, m as sabia que não podia; então, em vez disso, repeti m inha resposta e tentei dar ênfase, de m odo que ele se lem brasse de que tinha m e aj udado. — Estou.
— Para onde você vai?
— Para casa — respondi. — Para casa.