Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 12 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 12

 

Logo correu no acam pam ento a notícia sobre a caçula da fam ília Holm es. Um autom óvel desconhecido estava estacionado atrás da Casa do Diretor, em um local onde nenhum a garota repararia, a não ser que procurasse. O carro do m édico, eu sabia. Decca estava m achucada, era só um a questão de avaliar a gravidade da situação. Ela havia perdido a consciência, o que eu sabia ser um m au sinal.

Em m eu cam inho de volta da casa de banhos — pois eu estava im unda, coberta de suj eira e areia —, vi um bando barulhento de garotas j ovens, Molly entre elas, cochichando dram aticam ente. Ela acenou para m im , com vigor, e, quando acenei de volta com pouco entusiasm o, ela disparou em m inha direção. Ela ainda era toda braços e pernas, com o um a potranca. Suas bochechas estavam com um tom verm elho-vivo por causa do frio, seus cabelos presos em um a espécie de nó. Se a Sra. Holm es estivesse aqui e visse isso, m andaria Molly voltar ao aloj am ento para se arrum ar de form a apropriada.

— Thea! Estão dizendo que Rachel perdeu a cabeça! Que ela tentou m atar Decca! — A voz dela era praticam ente um guincho.

Eu não era m ais alta do que m uita gente, m as era m ais alta do que Molly. Inclinei-m e e segurei seu punho. Eu era capaz de sentir os ossos dela com o se fosse um pássaro por baixo daquela pele.

— Molly — repliquei —, isso é um absurdo. Entendeu?

Ela concordou com um lento gesto da cabeça, e vi um brilho nos olhos dela que não estava ali antes. Eu tinha lidado da m aneira m ais inapropriada com a história — eu deveria ter rido daquele boato, espanado-o com o se não fosse m ais que um grão de areia.

Soltei o pulso de Molly. Ela m e encarou, os olhos arregalados de ansiedade. O que será que eu lhe diria em seguida? O que ela levaria para contar para o bando de am igas que estavam bem ali esperando? Molly não fazia parte de um grupo de garotas que im portasse, m as, ainda assim ... Os rum ores se m ultiplicavam tão rápido em Yonahlossee, espalhando-se por todas as alas. Katherine Hay es cam inhou ali por perto, com ar indiferente, m as ouvia cada palavra que era dita. Ela iria correr de volta para o aloj am ento e espalharia as notícias de m aneira com pleta e fria. Fitei Katherine, que se escondia atrás de um a cortina form ada por seus cachos. Ela, que havia tão pouco tem po fora obj eto do escrutínio, deveria dem onstrar solidariedade em relação a Rachel. Agora, porém , j á fazia dois m eses que seu tio tinha m orrido, e se extinguira toda conversa a respeito dele e dos m odos inadequados da fam ília Hay es. Vi a Srta. Brooks do outro lado da Praça, o nariz enfiado em um livro. Os adultos em Yonahlossee eram inúteis.

E sem pre havia algo de verdade nos rum ores, algum as vezes apenas um naco dela, m as ainda assim . Todo m undo deve ter ouvido Rachel gritando. E eu, que havia prej udicado a m enina que eu m ais adorava, porque queria que o pai dela prestasse atenção a m im ? Virei-m e para Molly :

— Foi um acidente — disse alto, um com entário inútil.

Da últim a vez que algo terrível acontecera, eu tinha tentado m e explicar, tam bém falando alto e de m aneira inútil. Agora, porém , eu estava m ais esperta, ou pelo m enos não era m ais tão tola. Retornei para a Casa Augusta e fingi dorm ir, ignorei até m esm o Sissy, que pude perceber atrás de m im um a ou duas vezes, esperando que eu m e virasse, que desse algum sinal para que ela pudesse se aproxim ar. Afinal, ela saiu, assim com o todas as outras garotas, para o j antar. A vida seguia seu curso, com o sem pre acontecia, e Decca poderia estar diante da m orte, m as Yonahlossee continuaria a alim entar as garotas com três refeições diárias. Parecia cruel que, em casa, m inha m ãe continuasse a esticar m inha cam a toda m anhã, que m eu pai ainda saísse depois do desj ej um para visitar seus pacientes.

Eu não conseguia afastar a im agem de m eu prim o da cabeça, e em geral eu era m uito eficiente precisam ente nisso, em viver um a vida em Yonahlossee que não tivesse nada a ver com Georgie, ou Sam , ou qualquer um deles. Eu via Georgie quando abria os olhos, quando os fechava: não com o ele estava quando o deixei, m as com o ele tinha sido quando o conheci m elhor. Mam ãe ficaria tão decepcionada com igo... Percebi que parte do conforto que eu sentia em Yonahlossee era por ser um m undo com pletam ente separado do de casa, e agora parecia que os dois m undos estavam se m esclando de form a assustadora, e por quê? Por m inha causa. Thea Atwell: se existiu um a garota errada no m undo, era ela.

— Thea — dissera Sam e repetira, e repetira, e repetira. — Thea, Thea, Thea.

Sentei-m e na cam a e cravei as unhas na testa. Eu queria poder penetrar m inha própria pele e m eu crânio, até chegar ao cérebro, e dali extrair todas as lem branças de Georgie, daquele dia, inteiram ente. Mas, o que dizer de m inha alm a? Pelo que m eu pai m e dizia, eu sabia que, apesar de nossos cérebros m em orizarem , as nossas alm as eram , em prim eiro lugar, o m otivo por que nos lem brávam os. E não havia um a m aneira de se atingir a alm a. A dor que m inhas unhas m e infligiam , ainda que dim inuta, m e distraiu, m e trouxe alívio.

Eu ainda estava na cam a quando Mary Abbott m e trouxe um pãozinho do j antar, se aj oelhou a m eu lado e o desenrolou de um lenço bordado.

— Aqui — sussurrou ela.

As outras garotas se aproxim aram : Eva, Gates, e depois Sissy, que levantou as sobrancelhas por trás de Mary Abbott.

— Obrigada.

O pãozinho estava frio e m ole na palm a da m inha m ão. Quando estavam quentes, esses pãezinhos derretiam na boca. O ar os arruinava.

— De nada.

Mary Abbott ficou a m eu lado, enroscou um a m echa de cabelo em volta do dedo, evitou m eu olhar. Havia um a alergia leve espalhada por sua testa, no local onde o chapéu de lã atritava com a pele. Vê-la assim , tão próxim a, m e deixou com raiva.

— Você precisa de algum a coisa?

Ela m e olhou, sem se surpreender.

— Você não vai com er o pãozinho?

Neguei com um aceno de cabeça.

— Tudo bem — m urm urou Mary Abbott.

As outras garotas estavam se preparando para dorm ir; os om bros am arelados de Eva, as costas salpicadas de pintas escuras; os cabelos bonitos e em baraçados de Sissy, recém -escovados, um a bela pulseira de ouro no pulso, o que significava que Boone viria novam ente, duas noites seguidas. Eu sentia com o se algum a coisa horrível estivesse prestes a acontecer. Podia sentir o cheiro disso no ar.

— O Sr. Holm es apareceu e fez um discurso. Achei que você ia querer saber. Certo? — perguntou Mary Abbott, repentinam ente ousada, a m ão fria e pegaj osa na m inha.

Deslizei m inha m ão, tirando-a de debaixo da dela, fiz que sim com a cabeça.

— Eu sabia. — Ela sorriu, m as para si m esm a; ela tinha feito um a aposta e ganhara. — Ele apareceu na hora da oração. Pediu que rezássem os por Decca e pela fam ília dele. E depois pediu que rezássem os por você, Thea. — Mary Abbott fez um a pausa. — Por você e por Decca.

Sissy nos observava, da cam a. Mas agora a palavra estava toda com Mary Abbott.

— Você ficou contente que ele nos pediu para rezar por você?

— Lisonj eada — respondi, e fechei os olhos — e cansada.

Em bora não sej a incom um alguém ser m encionado nas preces do Sr. Holm es, neste m om ento o pedido pareceu um a traição. Ele m e odiava. Por que ele afinal tinha concordado em m e deixar responsável por suas filhas? Ele sabia algo sobre a m inha vida da Flórida. Sabia o suficiente para entender que eu não era confiável. Mas agora ele m e odiava, tinha que m e odiar — eu havia m achucado um a das filhas dele, então que opção ele teria?

— Achei que você ia ficar contente, quando eu estava vindo para cá, achei que você ficaria feliz. — Mary Abbott se inclinou, em um ar de conspiração. A respiração dela estava seca e quente. — Porque ele não está zangado.

— Quero ficar sozinha. — Minha voz estava fria com o gelo.

Mary Abbott retrocedeu, m as não antes de se inclinar para a frente, tão rápido que não consegui m e proteger. Eu m e virei, e ela tocou os lábios nos m eus.

* * *

Dorm i um sono sem sonhos, quente e coçando, acordei dezenas de vezes, com um m edo sem m otivo, achando o beliche alto e as garotas cobertas de branco deitadas neles pouco fam iliares, assustadoras. Depois m e acalm ei, às vezes era um a tática, perm anecer lúcida, convencer-se de que o m undo não havia conspirado integralm ente para se opor — a você, contra você. Digo que m e acalm ei, m as na verdade m inha m ente foi m isericordiosa ao optar por não se perturbar, com o acontecera nos dias que antecederam m inha vinda, quando chorei até m eus olhos se transform arem em duas bolsas horrendas em m eu rosto.

— Thea.

Eu m e sentei, assustada.

— Tudo bem , tudo bem — acalm ou-m e Sissy —, você está bem .

— Estou com calor.

— Está com febre? — Ela colocou as costas da m ão em m inha testa para sentir a tem peratura. — Não. Você estava falando dorm indo.

— O que eu disse?

— Nada, balbucios. Você está se sentindo bem ?

Aquiesci e perguntei:

— Teve notícias de Decca?

Ela negou com um aceno de cabeça.

— Rezei ontem à noite. Eu não rezava há tanto tem po... — Sua voz m orreu. — O que aconteceu? Todo m undo está dizendo que Rachel tentou m atar Decca, que ela perdeu a cabeça.

— Um a coruj a — sussurrei.

— Um a coruj a? — repetiu ela. Com o não respondi, ela continuou: — O m édico está aqui. O Sr. Holm es deve estar m orto de preocupação.

— O Sr. Holm es está sozinho — m urm urei. Acim a de nós, Eva se m exeu. — Eu tinha m e esquecido — eu disse, baixando a voz. Levei a m ão até a boca. Meus dedos cheiravam a couro.

— Thea, tenho que ir. Boone está aqui.

— Não vá — pedi —, por favor.

— Ah, Thea — sussurrou ela, e beij ou m inha testa. — Tenho que ir. Mas eu volto.

Ela estava de pé. Seus cabelos, enfiados na parte de trás do casaco, as luvas, presas no bolso, com o se fossem m ãos. Senti a m ordida desagradável da invej a: eu queria trem endam ente ser Sissy , indo m e encontrar com um rapaz que m e am ava.

Ela aguardou por um segundo, e depois apontou para a própria cam a, im paciente.

— Ah! — m urm urei, e fui para a cam a dela, um pouco m agoada.

Depois de tudo que tinha acontecido com igo hoj e, e um rapaz ainda era m ais im portante.

Depois que ela se foi, eu m e levantei, coloquei o casaco e saí. Então, nervosa e com m edo de ter acordado Mary Abbott, espiei o aloj am ento pela j anela. Mary Abbott dorm ia quase em paz. O braço e a cabeça de Eva estavam j ogados sobre a lateral da cam a, pendurados, inertes. Não consegui avistar Gates, m as eu sabia que ela estava dorm indo enroscada com o um a bola, com o de hábito.

Nenhum a das m inhas colegas de aloj am ento, que agora dorm iam , precisavam se preocupar com o perigo do lado de fora — até onde eu tinha conhecim ento, nunca houvera um bisbilhoteiro em Yonahlossee. Todas as garotas sabiam que o perigo estava presente na própria fam ília — a am ante do pai; a relação conflituosa entre a m ãe e a sogra, sua avó; o prim o que tentara se suicidar. Mas nós não éram os ninguém , nada, sem nossas fam ílias.

Se algo acontecesse a Decca, a caçula, a m elhor e a preferida da fam ília, Rachel teria arruinado a própria vida j unto com a da irm ã.

Com um choque breve e distante, notei um a luz além da Praça, na direção da Casa do Diretor, não em um a parte da Praça, m as tam pouco com pletam ente distante; à vista de todos, no caso de algo acontecer, no caso de um a garota precisar de algo.

Minhas botas ficavam presas na lam a à m edida que eu cam inhava, as solas provocando um som rápido, de sucção, cada vez que eu levantava um pé; o barulho era desagradável, e era o único som que eu ouvia, estando a noite quieta, tão inteiram ente silenciosa: as noites da Flórida nunca eram assim . Sem pre havia um chilreio, um as passadas, um uivo.

Estava frio, o ar estava parado, o céu, escuro, m as é preciso explicar essa escuridão. As estrelas quase não apareciam , os lam piões duplos a gás que circundavam o Castelo tinham um a cham a constante, sem pre, m esm o à luz do dia, m as não adiantavam nada diante de tam anha escuridão. Assim , a dim inuta luz, ilum inando a j anela da fam ília Holm es, m e pareceu significar algum a coisa: a luz ficou m ais forte, acendia a porção vil do m eu cérebro, e eu queria m e m over em sua direção, queria entrar naquela casa, naquele lar, queria tanto que era capaz de sentir o desej o subir por m inha garganta.

Com ecei a correr pela lam a, desaj eitada, parando a uns seis m etros da Casa do Diretor. Eu estava fora de m im , eu sabia que não podia confiar em m im m esm a, m as tam bém sabia que precisava falar com ele.

Dei m eia-volta e vom itei na lam a. De repente, eu estava enj oada, à deriva. Além da Casa do Diretor ficava o bosque, que levava até as m ontanhas; eu poderia desaparecer naquela m ata. E quem sentiria m inha falta, se eu fosse? E por quanto tem po, antes que m inha ausência trouxesse alívio? Eu j á estava quase fora da vida da m inha fam ília. Com o j á tinha feito isso antes, estava displicente. Tinha deixado o desej o ditar m inhas ações. Fechei os olhos, tentei fazer o m undo parar de rodar. Se Decca estivesse irrem ediavelm ente m achucada, então eu iria desaparecer na m ata. Se o Sr. Holm es m e odiasse, se eu tivesse arruinado outra fam ília, iria m e afastar de Yonahlossee.

— Achei que nós nos conhecêssem os — dissera m am ãe, no quarto em que ela e m eu pai dorm iam , onde eu tinha ido procurá-la naquele outro dia terrível; ela estava deitada sobre a cam a arrum ada, a luz am arela do fim de tarde ilum inando seus traços delicados, sua cabeça escorada em um ângulo estranho. — Você não é a garota que eu pensei que fosse.

E quem eu era, então? Quando senti o corpo de Georgie contra o m eu, perdi toda a razão. Agi com ele de form a perigosa e não teria m e im portado se m inhas duas falecidas avós estivessem ouvindo atrás da porta. Toda a pressão de um rapaz contra m eu corpo, a pressão de suas m ãos, insistentes, apertando com firm eza; a pressão suave e vívida de sua língua; a pressão quase im perceptível de seu pênis em purrando o tecido de suas calças.

— Basta. — Agora fui eu que falei, m e assustando, um a de m inhas táticas.

E j á que eu estava agindo de m aneira perigosa, cruzei a distância que havia entre o ponto em que eu estava e a porta da frente da casa da fam ília Holm es, reparando com o a Sra. Holm es ou um a das m eninas havia tom ado o cuidado de cobrir os vasos de alecrim que ladeavam a porta com lençóis velhos, am arrando-os com um a fita cuidadosam ente atada. A porta estava destrancada, conform e eu esperava; abri-a devagar e entrei; estava totalm ente escuro, um a escuridão quente e densa.

A escada da casa era im pecável, as paredes tinham fotografias da fam ília penduradas, com m olduras prateadas lim pas e brilhantes. Os retratos m e surpreenderam : para m im , os Holm es form avam um a fam ília sem um local de proveniência ou um passado, m esm o que eu soubesse que todo m undo tinha um passado e m esm o que eu soubesse detalhes específicos do passado deles: m inha m ãe, Boston.

A luz vinha do andar de cim a.

Já fazia m eses, eu m e dei conta, que não subia as escadas de um a casa — havia m e esquecido de com o elas eram barulhentas, e ainda estava de botas. Eu m eio que esperava que as escadas rangentes m e anunciassem . Quando cheguei em cim a, tirei o casaco m e sacudindo.

Percebi a luz no final do corredor, claram ente se esparram ando no chão de pinho.

Passei por portas fechadas. Fiquei im aginando onde estariam Decca e as irm ãs.

Prim eiro notei todos os livros, tantos que o côm odo lem brava um a biblioteca, onde eu estivera apenas um a vez, em Gainesville, com Georgie e Sam . Os rapazes estavam na superfície do m eu cérebro essa noite; tudo o que eu via m e fazia recordar deles.

O Sr. Holm es estava de pé ao lado de um a m esa de frente para a j anela, lendo um j ornal. Ele virou a página, e vi um a fotografia granulada, m as não consegui distinguir o que era. Era um lugar pouco prático para a m esa, de onde ele não podia ver ninguém entrar, onde o sol poderia desbotar suas coisas, seus livros, suas cartas, suas fotografias. Mas eu entendia por que a m esa estava ali: ele podia ver tudo em baixo, todas nós, garotas, indo e vindo pela Praça; e além de nós, as m ontanhas. Sem pre as m ontanhas. Toquei o m arco da porta.

— Quem ...

Ele se virou e m e avistou, surpreso. Estava com pletam ente vestido, um a cam isa branca e calças com padrão espinha de peixe. Nos pés, chinelos com m onogram a.

— Você não deveria estar aqui, Thea — disse.

Depositou o j ornal na m esa, e pensei em com o aquele hom em era diferente do m eu pai, ou do tio George. Ou de Sam e Georgie, aliás. Ele não m e conhecia — era por isso, e dessa m aneira, que ele era diferente.

— Com o Decca está? — perguntei.

O Sr. Holm es inclinou a cabeça, com o se estivesse tentando m e avaliar. Baixei a cabeça; há m uito tem po que alguém não m e olhava tão de perto.

— Está preocupada, Thea? Desculpe. Eu deveria ter m andado notícias m ais cedo. Decca quebrou a clavícula. O outro ferim ento é superficial, um corte na m ão. A cabeça não foi afetada; o m édico ficou m uito satisfeito com isso.

O iodo fora para a m ão dela. Meus olhos ficaram em baçados.

— Thea?

Mas eu não conseguira levantar o olhar. A cabeça dela.

— Thea? Por favor, olhe para m im .

A voz dele era firm e; ainda era m eu diretor. E assim levantei a cabeça e reparei que o Sr. Holm es segurava um copo na m ão. Uísque.

— A personalidade dela está intacta — m urm urei.

Ele confirm ou com a cabeça, lentam ente.

— Deixei o portão aberto — eu disse. — Eu m e distraí.

Ele colocou o copo na m esa e fez sinal para eu m e sentar em um a cadeira de braço excessivam ente estofada próxim a a sua m esa. Puxou sua cadeira para ficar de frente para m im — parecia tão pequena em sua m ão, tão leve — e se sentou.

— Thea — disse ele —, Decca vai ficar bem . Foi apenas um susto, m as nada que não possa ser curado.

— Ela podia ter se m achucado m uito — eu disse. Pensei em Rachel.

— É verdade. Mas não aconteceu.

Com ecei a falar novam ente, m as ele levantou a m ão.

— Não aconteceu — repetiu ele. — Foi um a série de circunstâncias, Thea. Graças a Deus, tudo acabou bem , e ponto final.

Um a porta se fechou em m eu cérebro, inesperadam ente. Minha com preensão do nosso m undo se transform ou: foi um a série de circunstâncias, pensei, apenas isso.

— Não consegui falar com Beth. Ela está em algum lugar do Alabam a, m as não sei exatam ente onde. Já estava sendo um dia ruim , para com eçar. Nossos patrocinadores não estão cooperando. Nossos doadores não estão doando.

Ele sorriu, e tom ou m ais um gole de sua bebida. Ele estava m enos cauteloso, com o eu j am ais o vira; devia ser assim que ele se com portava com a esposa. Mas talvez não. Talvez Henry Holm es raram ente estivesse tão aberto.

— E o pior de tudo é que não os culpo. — Balançou a cabeça. Havia um a nota am arga em sua voz. — Perdoe-m e, Thea. Você sem pre m e parece m ais velha do que sua idade real.

— E Rachel? — perguntei.

— Rachel — repetiu ele e fez um a pausa. — Rachel está fora de si.

— O senhor está bravo com ela?

— Estou — respondeu ele. — É claro que sim .

— Não fique.

— Mas com o ela vai aprender, Thea, se eu não ficar bravo?

— Ela com eteu um erro — falei.

Inclinei-m e para a frente, ainda em m inha cadeira. Eu podia sentir um rubor crescer em m eu peito, em m inha face.

— Um erro! — Pensei em m eu irm ão e m eu prim o quando eu os tinha visto pela últim a vez. Tudo não passou de um erro. — Se foi um a série de circunstâncias, então deixe para lá. Ela aprendeu a lição.

O Sr. Holm es pareceu surpreso. Term inou o drinque e depositou o copo no chão, perto dos pés.

— Aprendeu? — perguntou. Sua fala estava m ais solta. O álcool, com binado à ausência da esposa. — Gostaria de pensar assim . Mas, com o pai, posso dizer que nunca se sabe o que o filho está aprendendo.

O Sr. Holm es virou a cabeça ao ouvir o som de um a porta se fechando. Ele com eçou a se levantar, e agarrei a ponta de sua m anga. Ele m e olhou.

— Não odeie Rachel.

— Não se odeia um filho j am ais, Thea.

Ele baixou o olhar, m e fitando. Eu m e obriguei a sustentar o olhar.

O Sr. Holm es não desviou, m as eu sim . Então, levantei-m e e vesti o casaco. Percebi de repente com o era inadequado, eu estar na frente de um hom em que não era m eu parente sem nem m esm o um roupão para cobrir a cam isola. No entanto, eu não queria sair. Queria perm anecer ali, ficar com ele, ir aonde quer que ele fosse, ser envolvida pelo Sr. Holm es e seus livros.

— Tenho que ir em bora — falei —, desculpe-m e ter aparecido dessa m aneira.

Ele concordou com um gesto de cabeça e deu um passo à frente, e estava tão próxim o que eu podia sentir seu cheiro, a pom ada em seu cabelo, e m e fez pensar sobre a época que ele fora m e visitar na enferm aria e dissera que eu acabaria por adorar Yonahlossee. Ele tinha sido gentil. Som ente agora, m eses depois, eu era capaz de perceber com o ele tinha sido gentil.

— Rachel não é m á. Ela com eteu um erro. Há um a... — então ele olhou para o teto, com o se estivesse decidindo a m aneira de form ular a frase — um a diferença.

Então ele saiu, balbuciando algo sobre verificar com o Decca estava, deixando-m e observar em silêncio o escritório dele e todos os seus livros: cuidadosam ente organizados, em prateleiras; em pilhados na m esa dele, com pequenas tiras de papel sobressaindo das páginas; um deles aberto, em cim a do sofá.

Fui até o sofá e levantei o livro. Toquei as páginas que ele tinha tocado, a lom bada. Eu podia ver com o o Sr. Holm es se perdia em outros m undos.