Escola de equitação para moças
Capítulo 14
Estava extrem am ente frio na vez seguinte em que fom os a Gainesville. A m ãe da tia Carrie havia piorado e m orrera de repente, e nós estávam os indo dar nossos pêsam es. Eu tinha um cachecol cobrindo toda a cabeça, deixando espaço apenas para os olhos. Fiquei observando a paisagem , que passava rapidam ente, pontuada por casas: todas pareciam iguais para m im , pedaços de árvores, j anelas de quadrados pretos sem vidro.
Desde o Natal, eu só vira Georgie três vezes, o que foi, pensei, m enos frequente do que em geral víam os os Atwell de Gainesville. Mas a regularidade com que nos víam os nunca havia sido um a coisa a que eu tivesse prestado atenção antes. Agora, porém ... agora eu queria ver m eu prim o m ais do que j am ais pudesse m e lem brar de querer qualquer coisa.
Mam ãe estava concentrada em dirigir, o que era um a novidade para ela. Não havia m uitas coisas que m am ãe não fizesse bem , m as dirigir era um a delas. O carro novo tinha um banco traseiro, que eu pensava ser o auge do luxo; Sam estava sentado na frente com m am ãe e eu estava esticada atrás no banco de pelo de cabra. Sam estava tenso. Ele ficava com um pouco de m edo com a velocidade dos carros.
Naquela m anhã, eu havia exam inado a bolsa de m am ãe, procurando o pequeno frasco de perfum e que ela guardava ali. Encontrei um envelope em branco, sem selo, e dentro um cheque nom inal a George Atwell com a m aior quantia que eu j á havia visto. A assinatura quase ilegível de papai estava m arcada no papel fino.
Apliquei o perfum e atrás das orelhas, com o m am ãe sem pre fazia. Georgie seria George Atwell um dia, perderia o apelido, e o que ele faria então? Será que eu seria a esposa dele? Acho que não queria ser esposa dele. Mas sabia pelos livros que era isso o que acontecia, quando você beij ava alguém .
Não havia casas na parte final de nosso percurso, j á que elas seriam engolidas pelo pântano. Parecia tão perto de cada um dos lados: se parássem os, os anim ais poderiam em ergir do bosque de palm eiras e do capinzal. Os linces se escondiam — quase nunca os víam os — m as os j acarés frequentem ente tom avam sol na beira da estrada quando estava quente, a pele lam acenta e enrugada, quase negra, os dentes im pressionantem ente brancos, visíveis quando m exia preguiçosam ente as m andíbulas, com o se desse — o que m ais poderia significar? — um aviso.
Talvez fosse só m inha im aginação, m as m am ãe parecia acelerar nesse trecho, o autom óvel balançava violentam ente, ela não dim inuía a velocidade com o em geral fazia por causa das curvas da estrada. Papai adorava essa parte da estrada; ele achava que a Flórida central possuía a paisagem m ais bonita do m undo; um tanto de pântano, um tanto de floresta.
Na casa de Georgie, saltam os do carro e esperam os m am ãe pegar suas coisas — um livro para a tia Carrie, um grande caixote de com ida: feij ão, o pão de Idella, conservas. Será que a fam ília de Georgie precisava da nossa com ida? Toquei o saco de feij ão, e olhei para m am ãe, curiosa.
— Apenas algum as coisas extras que tínham os — disse ela.
Cam inhei em direção à casa: seria m inha im aginação que a casa parecesse sinistra, precisando de reform a? Era verdade que a pintura estava descascando das m olduras da j anela, que um a calha estava pendurada por um fio. Mas as coisas não se deterioravam tão rapidam ente.
— Georgie está na casa de um vizinho — disse-nos a tia Carrie depois de haver nos acom panhado até a sala. — Ele volta logo — continuou, quando viu m eu rosto, ao qual tentei dar um ar de felicidade novam ente. Mas eu m e sentia arrasada. Havia esperado por sem anas!
— Sinto m uito por sua perda — eu disse; m am ãe havia m e ensinado.
Tia Carrie colocou o braço em volta de m eus om bros e m e apertou contra si. Ela parecia robusta perto de m am ãe, que era toda angulosa.
— Meus dois pais se foram — disse ela, a voz aum entando com o se estivesse m e fazendo um a pergunta, e percebi que ela estava quase chorando.
— Carrie — disse m am ãe, e guiou m inha tia até um a cadeira —, vai ficar tudo bem .
— Será que vai m esm o, Elizabeth? — Ela ofereceu a m am ãe um sorriso tím ido. — Você parece nosso presidente falando.
Percebi que tudo isso tinha transform ado a tia Carrie em um a pessoa cruel.
Mam ãe riu nervosam ente, e Sam e eu conseguim os fugir.
— Quer ir lá para fora? — perguntou ele, m as eu não queria.
Eu não queria observar o m undo natural hoj e. Não queria seguir Sam por aí.
— Estou cansada — respondi, em bora não estivesse.
Sam olhou para m im por um segundo — eu sem pre ia com ele — e não retribuí seu olhar.
— Tudo bem — disse, m agoado. — Vou sozinho.
Lam entei, m as não o suficiente para ir com ele. Fui até o quarto dos m eus tios, onde eu podia pensar. A cam a deles estava desarrum ada. Era tão raro as cam as ficarem desarrum adas no m eu m undo.
Pressionei a testa contra a j anela e olhei Sam até que ele desaparecesse entre as árvores. Na noite anterior, tínham os ficado acordados m uito além do nosso horário de dorm ir e nos revezam os lendo um para o outro um livro de m istério de Agatha Christie, que j á havíam os lido m il vezes antes. Eu passava praticam ente todo m eu tem po com Sam — ele não devia ficar m agoado agora. Olhei para as m ãos, para as unhas que eu havia aparado cuidadosam ente na noite anterior, pintado com esm alte. Não eram m ãos de criança. Levantei-m e e j untei m eus cabelos em um nó. Então soltei-o, penteei de dez m aneiras diferentes, decidi por deixar partido de lado.
Adorm eci na cam a da tia Carrie e do tio George; abri os olhos e Georgie estava lá, e senti com o se tivesse convocado m eu prim o por interm édio de um sonho.
Estendi a m ão. Dorm ir havia m e acalm ado. Meus dedos brilhavam na luz suave.
— Onde está Sam ?
— Lá fora. Mam ãe está m ostrando a Sam e a sua m ãe as prim eiras azaleias da estação. — Ele fez um a pausa. — Vam os ouvir quando voltarem .
Ele esfregava m inha m ão, eu o observava, ele esfregava m inha m ão delicadam ente com o polegar e eu tinha vontade de gem er.
Ele desenhou m inha sobrancelha com o dedo, de leve.
— Tão bonita.
— Você acha que Sam sabe?
Ele negou com um gesto de cabeça.
— Tenho quase certeza que não.
Isso era suficiente naquele m om ento. Olhei pela j anela e fiquei surpresa de ver que havia ficado escuro enquanto eu dorm ia.
— Você parece tão m ais velho — eu disse, e ele parecia m esm o, parado lá com um a m ão no bolso da calça, a outra sobre a m inha, m assageando-a devagar, m as insistentem ente.
Eu m e sentei e o beij ei, ele se inclinou e abriu a boca, colocando a língua na m inha.
— Abra a boca, Thea, assim .
Fiz o que ele falou. Ele virou a cabeça e eu não sabia o que Georgie estava fazendo, m as então eu vi que estava tirando o casaco. Estrem eci com a ideia: ele estava tirando a roupa, ia ficar. Ele m e encarou novam ente. Eu o observei por um m om ento. Ele estava respirando pesado, o rosto verm elho. Eu sabia que estava calm a — m ais calm a, certam ente, do que Georgie.
— Venha aqui — pedi.
— Sim — disse ele —, sim , sim — e m ontou em cim a de m im , apoiando-se nos cotovelos.
Eu queria que ele se aproxim asse, apertei com força as costas dele, e a princípio ele resistiu, m as depois relaxou e pressionou o corpo contra o m eu, e eu queria, ele pressionou-se contra m im e eu levei a m ão para baixo, entre nossos corpos, e senti a pressão rij a do seu pênis. Eu sabia que estaria ali. Não era com o eu esperava que seria, parecia inchado e m uito m acio. Alcancei...
— Não, não — sussurrou ele —, ainda não. Apenas m e sinta por fora. — Então o toquei com o ele queria, cuidadosam ente a princípio, m as ele continuava se im pulsionando contra m inha m ão, cada vez m ais forte, e então eu o toquei m ais forte, corri os dedos firm em ente por toda a extensão, e Georgie gem ia enquanto m e beij ava, gem ia e gem ia.
Eu estava tom ada de desej o. Puxei-o, apertando-o no ponto onde eu desej ava ser tocada, m udei de posição para que ele m e tocasse m ais, m ais forte, e pressionei e pressionei e, quando aconteceu, foi diferente, foi m ais rápido, e, quando term inei, Georgie ainda estava se m ovendo em cim a de m im , m e beij ando, beij ando m eu pescoço, m eu peito.
— Ah.
— O quê? — perguntou ele.
Balancei a cabeça. Ele não sabia o que eu tinha acabado de fazer. Georgie se levantou bruscam ente. Sua calça estava grudada na virilha. Eu fizera aquilo tam bém .
— Nós deveríam os descer — sussurrou ele —, eles vão se perguntar onde estam os.
Sentei-m e e soltei o cabelo.
— Você é tão bonita — disse ele, e se aj oelhou na m inha frente, colocou a cabeça no m eu colo. Aj eitei o cabelo dele com os dedos. Ouvim os a porta batendo e depois passos. — E se nos pegarem ?
— Está preocupado? — perguntei. — Achei que não.
— Não estou — respondeu ele —, na verdade, não.
— Eu tam bém não.
Naquele m om ento, eu estava totalm ente certa de que não nos pegariam . Isso não era nada que eles pudessem conceber, eu sentia. Que nós estivéssem os no quarto dos pais dele parecia provar a força de nosso segredo.
E era verdade, nem m inha m ãe nem a dele parecia ter notado qualquer coisa quando descem os, Georgie prim eiro, e eu cerca de dez m inutos m ais tarde, contando os segundos alto porque o relógio do tio George e da tia Carrie estava quebrado.
Quando desci, m inha m ãe estava j untando as coisas dela. Sam parecia entediado. Mas captei o olhar dele e sorri, e ele sorriu de volta.
* * *
A cam inho de casa, fingi que estava dorm indo no banco de trás; assim eu podia pensar livrem ente em m eu prim o.
— Você está bem , Sam ? — perguntou m inha m ãe.
Então ela tam bém percebia: Sam estava quieto dem ais.
— Sam ? — repetiu m am ãe. Ela se virou para olhar para ele, e o carro deu um a guinada. — Odeio essa geringonça — m urm urou m am ãe, abalada. — Sam , por que você está tão quieto? Se não m e contar, vou ter que olhar para você de novo.
Sorri. Quando Sam falou, sabia que ele estava sorrindo tam bém , por seu tom de voz.
— Georgie...
Mordi o lábio, com força. Ele podia contar a m am ãe bem agora, e tudo term inaria. E naquele instante, tanto m am ãe quanto eu aguardando, na expectativa pelo que Sam nos falaria, eu quase quis que ele contasse para ela.
— Ele m e ignorou hoj e.
A voz de m eu irm ão estava queixosa. Senti-m e aliviada pelo m al-estar dele não ter nada a ver com igo; e depois culpada. Tanto Georgie quanto eu o tínham os ignorado hoj e.
— As coisas estão um pouco tensas agora, na fam ília do seu prim o — disse m am ãe finalm ente.
Eu podia notar que ela estava pensando em com o explicar de form a que Sam pudesse entender.
— Por quê?
— Eles podem perder a casa, Sam .
Meus olhos se arregalaram . Eu queria tanto falar, m as não queria entrar nessa conversa. Fazer isso seria com o um a traição a Georgie.
— Eles não vão perder a casa — continuou m inha m ãe —, porque essa fam ília é generosa e ficam os felizes em aj udar. É o que as fam ílias fazem . Mas é difícil para seu tio aceitar caridade. E é difícil para Georgie saber de tudo isso. Ele não deveria ignorar você, m as ponha-se no lugar dele. Deve ser difícil para ele, ver você.
Fez sentido, subitam ente, por que não os víam os havia quase um m ês.
Pelo que eu podia m e lem brar, nós tínham os m ais do que a fam ília do m eu tio. Éram os dois filhos; um filho, naqueles tem pos, era algo que cham ava atenção. Meu pai era m ais inteligente. E m inha m ãe ganhava, em todos os quesitos, se disputasse com m inha tia. Minha m ãe era de um a fam ília rica, com contatos. E era linda; m inha tia era com um . Eu sentia tudo isso, m as não pensava m uito no assunto. E eu não tinha um a prim a com quem com petir. Eu não precisava ser a m ais bonita, ou a m ais graciosa, ou a m ais inteligente.
Mas é claro que eu sabia que m inha m ãe estava errada: Georgie tinha ignorado Sam não porque estivesse envergonhado ou se sentindo inferior, m as porque ele queria som ente a m im .
— Sim , bem — disse Sam . — Ele não ignorou Thea.
E eu sorri: Sam tinha razão. Mas então m am ãe falou:
— Thea é m enina.
Por um instante, pensei que ela queria dizer que eu era bonita dem ais para um rapaz com o Georgie ignorar. Mas então ela com pletou:
— Ela não é tão im portante quanto você.
Senti com o se o ar tivesse m e escapado. Meu coração bateu tão alto que tive certeza de que m am ãe ouviria. Mas m e acalm ei: eu sabia com o fazer aquilo, por causa de Sasi. Cavalos conseguem sentir o cheiro do m edo.
As casinhas pelas quais havíam os passado na ida estavam ilum inadas pelas lareiras agora. Tentei achar algum sinal de pobreza, m as não sabia o que procurar. Fiquei zangada, de repente, pelo fato de m eus pais terem m e m antido longe de tudo o que era real.
Mam ãe estava errada. Eu era im portante, pensei, e tentei deixar o som do vento contra o carro m e em balar para dorm ir. Eu era im portante. Meu nom e era Theodora Atwell e eu era im portante para Georgie Atwell.