Escola de equitação para moças
Capítulo 22
Levantei-m e cedo na m anhã seguinte e m e vesti com esm ero, enfiei a cam isa cuidadosam ente para dentro da saia, engraxei um a m arca de desgaste em m inha bota. Dei um a olhada em Sissy, que estava dorm indo de costas, os braços estendidos dos lados. Sorri. Na noite anterior, ela m e havia contado que as garotas sabiam a respeito dela e de Boone; porém , não pareceu preocupada. Ela m e deu a im pressão de se sentir um pouco orgulhosa. Eu tinha fingido surpresa. Claram ente ela não tinha ideia de com o o boato tinha se alastrado, com o tinha se arrastado pelo acam pam ento até chegar aos ouvidos da Sra. Holm es.
Ao m e exam inar no espelho, tive quase certeza de sentir Mary Abbott m e observando, m as, quando dei m eia-volta e olhei, ela tinha os olhos fechados e a boca apertada em um a linha fina.
Fui ao Castelo cedo, para falar com a Sra. Holm es antes do café da m anhã. O refeitório estava quase vazio, com exceção de algum as alunas do segundo ano sentadas à m esa. Usei o cam inho m ais longo em torno delas e, quando estava passando pela cozinha, a porta se abriu de repente.
— Olá — cum prim entou Em m y e desviou o olhar, fitando um local no chão.
Ela carregava um a bandej a cheia de copos, tendo um pano de pratos pendurando no om bro. A porta se fechou atrás dela.
Eu não disse nada e com ecei a cam inhar quando ela falou novam ente.
— Você não vai dizer oi para m im ?
— Olá — eu disse. — Olá, olá, olá. Estou indo falar com a Sra. Holm es.
Em m y deu um riso breve. Nós nunca tínham os realm ente nos falado antes. Ela exibia um a postura m ais elegante do que a irm ã, não era vesga, m as o tom de voz era o m esm o, alto, com um sotaque tão carregado que eu tinha que prestar atenção para entendê-las.
— Docey sente pena de você. — Ela m exeu a bandej a de m ão.
— Desculpe; com o?
— Minha irm ã. Ela sente pena de você. — Em m y falou de m odo rápido, quase im paciente.
— Ah — soltei, m eio perdida.
— Mas eu penso diferente — continuou ela. — Eu estava lá. Você pode falar o que quiser sobre a Sra. Holm es, e as garotas sem pre falam , m as ela é um a boa alm a. Um a boa alm a — repetiu com firm eza, quase afetação.
Pensei naquelas tardes na biblioteca, Em m y espreitando atrás de portas fechadas. Encostei na parede, o suor frio em m inha testa.
— Ela sabe? — perguntei com calm a.
Virei-m e e encarei a m esa de alunas do segundo ano, que nos observavam ; ninguém aqui conversava com os criados. Mas com aquela m esa eu conseguia lidar; eram garotas do Kentucky , e desviaram o olhar rapidam ente.
— Você não tinha que ter refletido antes sobre isso? — Ela m udou a bandej a de lado de novo.
Os braços dela trem iam , e quase tive o ím peto de tirar a bandej a dela.
Ela aguardou, com o se esperasse um a resposta. Mudei a direção do olhar, da bandej a, repleta de copos, para o rosto dela, que m e encarava com ar arrogante.
— Refletir? — perguntei, e Em m y baixou os olhos. Eu a tinha deixado envergonhada, e tinha sido tão fácil... — Não é da sua conta.
Enquanto com eçava a m e afastar pela segunda vez, Em m y deu de om bros.
— Não por m im . Ela não sabe — acrescentou.
Fiquei contente que ninguém m e tivesse visto zom bar de Em m y, um a criada, que não nascera com nenhum a das vantagens que eu tinha desfrutado desde m eu nascim ento. Nunca pensara nela com o alguém que pudesse ser sarcástica. Mas era com o se eu tivesse discutido com Leona ou Katherine Hay es.
Dei m eia-volta antes de entrar na escadaria e vi Em m y arrum ando os copos na m esa onde se sentavam as alunas do segundo ano, os olhos para baixo, o rosto sem expressão. Depois, vi Henny, sentada à nossa m esa, com um livro diante de si. Ela m e avistou e instintivam ente levantei a m ão para acenar, antes que pudesse pensar m elhor sobre o assunto. Henny apenas levantou as sobrancelhas.
Mesm o que eu tivesse problem as m ais graves do que o descaso de Henny , ainda assim eu m e im portava. Se Yonahlossee tinha m e ensinado algum a coisa, era que era im possível não se im portar, não se m aravilhar com os m istérios dos afetos das garotas, os quais eram difíceis de conquistar e fáceis de perder. Se ninguém sabia sobre m eu caso com o Sr. Holm es, então por que Henny estava agindo de m aneira tão fria?
Era um a pergunta que ocupava m inha m ente enquanto eu subia as escadas devagar, m eio na esperança de que ela não estivesse lá. Mas então eu teria que voltar.
— Thea.
A Sra. Holm es levantou o olhar da m esa, no m om ento em que passei pela porta. Ela apontou para a cadeira com o se estivesse m e esperando. O Sr. Holm es estava de pé atrás da esposa, olhando pela j anela, m as, quando ouviu m eu nom e, se virou, as m ãos nos bolsos, sem pre nos bolsos, um a expressão confusa desfigurando seu rosto atraente. Fiquei parada na porta por um m om ento e notei que m inhas m ãos estavam trem endo. Apertei-as às costas e m e dirigi até a cadeira.
— Você queria nos ver? — perguntou a Sra. Holm es, distraidam ente aj eitando o vaso de hera sobre a m esa dela, retirando as folhas m ortas com um m ovim ento dos dedos.
A senhora, eu poderia ter dito, queria ver a senhora. Levantei a cabeça.
— Queria.
— Qual o assunto?
— Sissy .
Ela deu um ligeiro suspiro. Com o m e satisfazia vê-la ficar chocada. Ele m e observou, im passível. Será que ele m e conhecia tão bem a ponto de prever o que estava por vir? Será que ele tinha sentido algo esta m anhã, será que insistira em acom panhar a Sra. Holm es até o escritório? Isso significaria que ele m e conhecia m elhor do que eu m esm a, porque nem eu sabia que m e atreveria a ir tão longe. E ninguém m e conhecia tão bem .
— Sei que alguém disse que viu Sissy no bosque. Com Boone Roberts, da Academ ia Harris? — Não consegui evitar que m inha voz adotasse a entonação de um a pergunta. A Sra. Holm es tinha parado de m exer na planta, e agora segurava um a folha em pleno ar, a boca entreaberta. — Mas não era ela. Era eu.
Agora ela parecia confusa, um a expressão que eu j am ais vira cruzar seu rosto antes. Pareceu perplexa por um instante, antes de se recom por. Ela é que deveria ter sido o diretor, não o m arido. E, em term os práticos, ela era.
— Ah, sim ? — perguntou. — E então? Conte-nos.
Eu não estava bem segura se seria capaz de fazer o que teria que fazer em seguida. Porém , o fato de a Sra. Holm es ter pedido que contasse para ela e o m arido im plicitam ente, a m aneira com o ela fez um gesto em m inha direção, com o se eu fosse inofensiva, nada além de um a garota — o Sr. Holm es captou m eu olhar, e de repente m e senti exausta. Com pletam ente inconsequente.
Olhei a Sra. Holm es nos olhos.
— Pergunte a Eva — eu disse. — Minha cam a estava vazia. — Fiz um a pausa. Minha voz vacilou, e inspirei profundam ente. Quando falei novam ente, m inha voz estava segura. — Todo m undo adora Sissy. Todos adoram a fam ília dela. Ninguém vai querer vê-la partir, m uito m enos o pai dela, o avô. — Eu não tinha necessidade de explicar o que eu queria dizer; no m ínim o, a Sra. Holm es era um a m ulher esperta. — Principalm ente, se eles acreditarem na possibilidade de ter sido um equívoco. E vou assegurar que eles pensem que foi um equívoco. As pessoas não vão se im portar m uito quando eu for m andada para casa. — Balancei a cabeça. — A senhora percebe? Não levará a senhora a lugar nenhum , punir Sissy .
— Entendo — a Sra. Holm es disse. — Entendo m uito bem . Tudo isso é m uito interessante. Mas gostaria de perguntar um a coisa: j á pensou no que trouxe você para cá? Não pensou que talvez fosse m elhor para Sissy ser m andada para algum lugar onde ela não tivesse com o cair em tentação?
Olhei-a surpresa.
— E onde estaria tal lugar? Nós j á estam os no alto de um a m ontanha.
A Sra. Holm es virou-se brevem ente para o m arido, com o se dissesse: “Você vê esta garota na m inha frente, tão descarada, tão insolente?” Ela balançou a cabeça, deu um a risadinha desagradável. O Sr. Holm es tornou a olhar pela j anela, e eu sabia que tudo o que ele queria era não estar participando dessa conversa. Ele j am ais iria m e aj udar; era incapaz disso. A Sra. Holm es dera para ele a tarefa de disciplinar as garotas, a parte desagradável da tarefa de m anter a ordem .
— Você é adorável, Thea, exatam ente com o sua m ãe. Totalm ente adorável. Você acha que o m undo lhe pertence? Acha que tem algum a voz naquilo que o m undo faz com você? Tão adorável, tão ingênua.
— Beth — m anifestou-se o Sr. Holm es, um aviso, m as ela agia com o se não o tivesse ouvido.
Ela am assou a folha m orta e j ogou-a na lixeira.
— Sua m ente funciona de m aneira que não com preendo, Thea. Em geral, com preendo todas m inhas garotas. Você vai fingir ter se encontrado com o noivo de Sissy pelas costas dela?
Devo ter dem onstrado surpresa — o que era verdade — porque ela continuou.
— Sim , eu sei que eles ficaram noivos. Sei de tudo, Thea. — Ela sorriu, e levou um dedo aos lábios. — Acho que você não quer realm ente voltar para casa.
Pensei em com o m inha casa parecia régia em um dia cinzento, suas linhas im ponentes ilum inadas pelo céu que lem brava um a nuvem de cinzas por trás. Eu queria ir àquela casa, a casa de m inha infância, a casa que incluía Georgie, a casa onde m inha fam ília m e am ou sem reservas. Contudo, essa casa tinha ido em bora agora, vendida para estranhos.
— Com o você poderia voltar para casa? — perguntou ela, a voz m ais suave. — Sabe por que a m andaram para cá?
A m ão do Sr. Holm es agarrou o braço da esposa, delicadam ente, com o se ela fosse um a criança.
— Já chega, Beth.
Mas era evidente que eu sabia por que tinham m e m andado para cá. Quase dei um a risada.
A Sra. Holm es ignorou o m arido.
— Pensaram que você poderia estar esperando um filho. — A Sra. Holm es m e encarou, m as foi ela que pareceu chocada, não eu. — Eles saberiam logo, m as sua m ãe sem pre se preocupou dem ais — disse ela e virou a cabeça com rispidez. — Henry ! Está m e m achucando.
Pude perceber a força com que o Sr. Holm es estava apertando o braço da esposa.
— Já chega — disse ele calm am ente. — Não há m otivo para isso.
— Suponho que ela preferisse que eu lidasse com a pobre criança. De nós duas, sem pre fui quem m elhor solucionava problem as. Eu costum ava pensar que m oças bonitas não tinham que se preocupar tanto com a m ecânica da vida, os procedim entos sim ples. Mas seu pai, e ele? É um m édico, ele saberia em pouco tem po se você carregava ou não o filho do seu prim o.
Ela deu um pequeno suspiro e colocou a m ão na boca. O Sr. Holm es soltou a m ão, então, e a Sra. Holm es m assageou o braço no ponto em que ele apertara, um olhar distante. O rosto dela tinha se suavizado. Pensei nas plantas que ela cultivava em suas garrafas estreitas. Parecia incrível que ela sentisse qualquer tipo de solidariedade em relação a m im . Era tão fácil enganar as pessoas...
— Ela precisava saber — disse a Sra. Holm es, quebrando o silêncio. Depois virou-se para m im . — Ela devia saber o que a espera em casa.
Balancei a cabeça, apesar de não precisar dar resposta nenhum a. Lem brei-m e de m inha m ãe verificando m eus lençóis na véspera da m inha partida. Lem brei-m e do que a Sra. Holm es tinha tido quando a conheci, para procurá-la se eu reparasse qualquer coisa com m eu corpo. É claro.
— Não fico surpresa — eu disse, serena.
Teria sido um a surpresa se a Sra. Holm es houvesse m e dito que Georgie estava bom de novo, que m inha m ãe m e perdoara. Que m eus pais tivessem considerado e agido de acordo com o pior cenário possível, na realidade, não consistia nenhum a surpresa.
— Vou ter que fazer um anúncio, você sabe. Vou ter que usá-la com o exem plo.
— Eu sei — disse, tranquila.
A Sra. Holm es falou novam ente, agora de um j eito suave; tive que m e esforçar para ouvi-la.
— Sabe por que sua m ãe era am iga de alguém com o eu? Não frequentávam os os m esm os círculos sociais, não era isso. Você nunca tinha sequer ouvido falar de m im quando veio para cá... — Sua voz dim inuiu, e ela balançou a cabeça, rapidam ente, e continuou. — Sua m ãe era algo com o um a garota fácil na escola de Miss Petit. Não m uito diferente de você, Thea. Eu era a favorita de Miss Petit. Deram um a escolha para a sua m ãe: sair em desgraça ou passar a andar com igo. Ela não era tola, sua m ãe, e entrou na linha. Mas gosto de pensar que éram os am igas. Gosto de pensar que, no final, ela gostou de m im tanto quanto gostei dela.
Ela não sabia sobre a m inha relação com o Sr. Holm es; disso eu tive certeza. Um a pequena benção.
— Minha m ãe era um a garota fácil? — perguntei.
— Ah — respondeu a Sra. Holm es. — A m ais fácil de todas.
Sua voz voltou a ficar distante.
* * *
No refeitório, as m esas ainda estavam sendo arrum adas. Docey m e olhou curiosa, e sorri para ela, ansiosa para ser gentil com alguém . Em m y não estava à vista. Sentei-m e em um banco fora do cam inho de qualquer outra pessoa. O cheiro de toucinho frito era tão penetrante que m e senti enj oada. Mais garotas afluíam para o refeitório, os olhos pequenos de sono. Enquanto passavam , m al lançavam um olhar na m inha direção; estranham ente, senti um a vaga decepção. Eu não im portava m ais. Espiei o relógio; eu só tinha perm anecido dez m inutos no escritório da Sra. Holm es, o que parecia im possível.
O que o Sr. e a Sra. Holm es estariam fazendo agora no escritório dela? Talvez atribuindo culpas, decidindo que erro teriam com etido para que um a garota tivesse escapado ao controle deles — ou duas garotas, se fossem contar Sissy. Ou talvez o Sr. Holm es estivesse tranquilizando a esposa, puxando-a para si, dizendo-lhe que essa coisa estranha que tinha acabado de acontecer, com Thea Atwell, da Flórida, não era nada sério, que tudo acabaria bem .
Fechei os olhos para não ver o m ovim ento do refeitório e coloquei a cabeça entre as m ãos. Sentia um a dor irritante na nuca.
Eu tinha destruído um a fam ília, e cheguei perto de destruir outra. A dor na cabeça se intensificou, eu não sabia com o seria capaz de m e recuperar quando Sissy entrasse.
Sissy estava atrasada, é claro. Eu esperaria. Vi Katherine Hay es entrar, conversando com Leona, o que achei estranho. Alice Hunt engasgou quando as viu. Quase dei um sorriso — nunca vira um a pessoa parecer tão perplexa.
A Sra. Holm es irrom peu da escadaria, o rosto verm elho. O Sr. Holm es a seguia de perto, falando em voz baixa. Leona e Katherine pararam de andar. Eu nunca tinha visto o Sr. e a Sra. Holm es trocarem algum a palavra áspera. Vê-los brigar, abertam ente — isso era im pensável. Todo m undo com eçou a cochichar, o zum bido de todas aquelas vozes soando com o um a tortura. Fechei os olhos, tapei os ouvidos com as m ãos.
— Thea? — Um tapinha em m eu om bro. Abri os olhos. Docey. — Você está bem ? — sussurrou ela.
Olhando para além de Docey, vi Sissy entrar no Castelo com Eva. Todo m undo olhou na direção dela, o cochicho foi m orrendo, e observei que Sissy percebeu — esquadrinhou o salão lentam ente e colocou a m ão no pescoço. Tam bém levei a m ão ao pescoço. Nunca vira Sissy assustada antes. Vi Henny sussurrar algo para Jettie. Era o com portam ento típico de Henny — com preendi então que era aquilo que eu sem pre detestara nela. É evidente que ela pareceria presunçosa. Ela era estúpida dem ais para dar outra im pressão.
A Sra. Holm es levantou a voz na outra extrem idade do refeitório, e todo m undo desviou o olhar de Sissy .
— Thea — disse Docey, com m ais insistência —, você deve ir. Vá! — ordenou e tentou m e puxar do banco.
O tem po parecia estar operando de acordo com um relógio diferente. Tudo estava lento dem ais. A Sra. Holm es observava o Sr. Holm es serpentear por entre as m esas, que agora exibiam pratos de toucinho frito, terrinas de aveia; ele procurava algum a coisa enquanto cam inhava, verificando rapidam ente em cada m esa, garota após garota desviando o olhar. Ele parou na m inha m esa, e Mary Abbott apontou para trás dele, e o Sr. Holm es seguiu a direção do dedo dela até m im .
O am biente caiu em um silêncio m ortal, o zum bido evaporou. Ele inclinou a cabeça para a porta, com o se estivéssem os sozinhos, de volta à biblioteca, cercado por todos os livros dele. O senhor j á leu todos?, eu tinha perguntado. A m aioria, ele dissera, e rira. Estou velho. Tive um bocado de tem po para ler. Eu tinha sorrido, porque ele era bem j ovem , am bos sabíam os disso. Então, eu havia aceitado sua m ão, deixando-o m e puxar do sofá.
Agora, neste refeitório onde tínham os feito centenas de refeições, o Sr. Holm es ainda parecia j ovem , se perm anecer j ovem significa não ser afetado pelo m undo. Ele estava com ovido, eu sabia disso m elhor do que qualquer pessoa, m as não parecia assom brado, não havia um ar lúgubre nos seus olhos. Parecia im ortal.
Ele apontou o polegar para a porta, e Martha Ladue, que estava sentada em um a m esa distante da m inha, engoliu em seco, um rubor se espalhando por sua pele branca.
Siga-m e, ele tinha dito naquela tarde, m as era apenas um a form alidade, algo a se dizer. Eu o teria seguido para qualquer lugar. Ele m e levou para cim a, para um quarto onde eu nunca havia estado. Todo decorado em cor-de-rosa, com um a cam a estreita branca. O quarto de Sarabeth. Não entendi o m otivo de ele ter m e levado para lá. Ele retirou algo da penteadeira da filha, um a bela peça com tam po de m árm ore, enquanto eu avidam ente absorvia o quarto, e o colocou em m inhas m ãos. Olhe, ele dissera, e tinha de repente parecido tím ido, seu cabelo caindo sobre os olhos.
No entanto, agora, no refeitório, descobri que não era m ais verdade. Eu não o seguiria para qualquer lugar. Eu teria feito isso, por um m om ento, e tam bém tinha sido assim com Georgie. Houve um m om ento em que eu teria seguido m eu prim o para qualquer lugar, m as esse m om ento tinha passado.
Balancei a cabeça, e o Sr. Holm es m e observou daquele m odo intenso, com o se estivesse inventariando m inha alm a, e depois saiu. Olhei para a m esa principal; as filhas dele não estavam aqui. Ele as teria retirado, se elas estivessem presentes. Ele iria ficar com elas agora. Era com elas que ele sem pre estaria. Eu iria em bora, m as ele nunca poderia ir.
— Garotas — disse a Sra. Holm es, e se encam inhou para o púlpito do Sr. Holm es, onde ele costum ava liderar a oração da m anhã —, sua atenção por um m om ento. Tenho um anúncio a fazer.
Ela estava perturbada, a voz instável, as m ãos se m ovim entando à sua frente. Não m e agradava perceber que eu a havia deixado confusa.
Mas a paisagem , sem pre a paisagem : ela estava na frente da j anela, a m esm a j anela que eu tinha tocado quase um ano atrás, quando m eu pai m e m andara sair do escritório do Sr. Holm es. Ela estava em oldurada pelas m ontanhas; apesar de tudo, eu ainda podia apreciar um a m aravilha. Tanto naquela época quanto agora.
— Theodora Atwell vai nos deixar. Am anhã de m anhã. Foi m uito repentino, claro.
As garotas com eçaram a sussurrar novam ente, com o eu sabia que fariam , assim com o sabia o que a Sra. Holm es faria no m om ento em que eu a tinha visto entrar no refeitório. Foi um a estranha espécie de consolo, saber tudo isso e não ficar am edrontada.
— Por causa de um a infração. Envolvendo um rapaz. — O burburinho ficou ainda m ais alto, e a Sra. Holm es elevou a voz. — Espero que não haj a m ais qualquer conversa a respeito desse assunto. Vocês são dam as, e dam as não fazem fofoca. — Ela então m e olhou, do outro lado da sala.
No quarto de Sarabeth, eu tinha olhado para o que ele pusera em m inhas m ãos. Um a fotografia de um Henry Holm es m uito m ais j ovem em um porta-retratos de prata que precisava ser polido, a ausência da Sra. Holm es m arcada de pequenas m aneiras com o essa. Sou eu, ele dissera. Eu, quando tinha sua idade. Ele estava na frente de um lago, segurando um rem o. Olhava diretam ente para a câm era, com o os hom ens costum am fazer. Parecia igual, só que seu rosto era m ais cheio, e não esculpido pelo tem po para a aparência atraente de agora. Toquei no vidro. Tão bonito, eu tinha dito. Mas o que eu queria dizer era isto: tão novo.
— E que isso sej a um a lição, garotas, para que aj am de acordo com a idade de vocês. Para que obedeçam às regras.
Sissy m e olhava do outro lado do refeitório, assim com o todo m undo, um a lenta revelação ilum inando suas feições delicadas. Ela sabia. Ela desviou o olhar, m exendo na ferradura de brilhantes que pousava na cavidade de seu pescoço, e por um instante pensei que poderia ter acontecido o que a Sra. Holm es havia predito: Sissy iria acreditar que eu a traíra. Ela retrocedeu para a porta, sob os olhares de todas.
A Sra. Holm es m e observava. Então senti a m ão de Docey no m eu om bro. Eu a peguei, e fiquei segurando, e, em bora a m ão dela estivesse tensa no início, ela não a retirou. Pelo tato, eu podia ver que tínham os calos nos m esm os lugares — os m eus, por causa da equitação, os dela, pelo constante trabalho de pôr as coisas em ordem . Nossas m ãos eram sem elhantes.
* * *
Encontrei Sissy no bosque, onde ela e Boone se encontravam . Ela estava sentada em cim a de um a tora caída, chorando com o rosto nas m ãos.
Eu lhe disse o que havia feito, e aos poucos ela parou de chorar. Eu estava sentada tão perto dela que conseguia sentir seu cheiro. Foi isso que ganhei por dorm ir na cam a dela por um a dúzia de vezes — reconhecer o odor, surpreendentem ente penetrante, que ela deixava no travesseiro.
— Você vai dorm ir na enferm aria hoj e. É onde eles colocam as m eninas antes de irem em bora de vez. — Ainda assim , ela não olhava para m im . Dei um tapinha no om bro dela, e ela se virou para m im , os olhos inchados.
— Obrigada — agradeceu ela, a voz ainda m ais entrecortada por causa do choro. — Foi coraj oso de sua parte.
— Há um a prova. Eva notou que eu não estava na cam a naquela noite. Eu disse para a Sra. Holm es perguntar para ela.
— Eva não vai contar.
É claro que Eva iria contar, se fosse opor Sissy a m im .
— Não im porta. Ela não vai perguntar.
— Não — disse Sissy —, ela acredita em você, e todas as outras tam bém . — A voz dela vacilou.
— A Sra. Holm es não acredita em m im . Ela percebeu o que havia por trás disso. Dentro de m im . — Peguei a m ão de Sissy . — Sinto m uito.
— Eu sei. — Ela lançou a m ão para o ar, com o se estivesse dizendo “Já chega de tudo isso”. Esse gesto nunca m e deixou. Nas m inhas horas m ais som brias eu m e lem braria dele, o extrairia dos recessos da m ente. — Mas com quem vou conversar, agora que você vai em bora?
Pensei então que era sem pre um a questão de trocar um a coisa por outra, perder um tipo de am or por outro tipo.
— E por que você quer ir para casa, Thea? Não entendo.
Sorri. Ela estava certa em fazer a pergunta: por que eu queria ir para casa? Minha fam ília não m e queria.
— Quero aj udar você. E m eu irm ão. Preciso ver m eu irm ão.
Ela aquiesceu.
— Mas e sua reputação? O que seus pais vão pensar?
Olhei para longe. Era isso que eu m ais tem ia, m as não podia contar a Sissy. Eu estaria deixando Yonahlossee sob o signo da vergonha, que era exatam ente o oposto de com o queria partir. Queria que m eus pais m e am assem ; não, eles sem pre m e am aram , eu era filha deles — queria que eles voltassem a gostar de m im . E partir desta form a, em m eio a um escândalo — era um a form a de ter certeza que não gostariam . Porém , era m elhor que fosse eu, e não Sissy, que ainda tinha um a oportunidade; em m eu coração, eu sabia que estava arruinada aos olhos de m inha m ãe; um escândalo ou vinte, não im portava realm ente. A Thea que eu tinha sido desaparecera, era um a nuvem de fum aça.
— Acho que sou um a causa perdida para m eus pais.
Parecia que Sissy ia chorar novam ente. Ela pegou m inha m ão.
— É horrível, Thea. A coisa m ais horrível que j á ouvi.
— Não é a coisa m ais horrível que j á ouvi — repliquei. — Há coisa pior. Preciso fazer o que é certo, Sissy . Preciso aj udar m eu irm ão. Preciso ser um a m oça direita.
* * *
Vagueei pelo Castelo na tarde anterior à m inha partida de Yonahlossee, escapando da enferm aria, o que não era tão difícil de fazer. Ninguém m e vigiava. Eu sabia, por causa do sino, que era hora do descanso. Sam talvez j á soubesse que eu voltaria para casa. Mam ãe devia ter contado a ele. Sem dúvida, ele ficaria contente em m e ver, no coração, se não na m ente.
Eu tinha deixado um livro em um a das salas de aula. Mas o livro não m e interessava m uito. No fim das contas, eu tinha m e apegado àquele lugar, e gostaria de rever os locais aonde eu tinha ido prim eiro, ao chegar aqui quase um ano atrás, antes de voltar para a Flórida.
Eu sabia o que esperar agora, o rápido processo pelo qual Yonahlossee se transform aria em algo distante.
O refeitório estava desim pedido do caos da m anhã. Tentei m em orizar cada detalhe: a m esa onde eu tinha feito centenas de refeições; o espaço onde o Sr. Holm es tinha se posicionado para falar conosco sobre Deus.
Subi as escadas para o terceiro andar, para vê-lo pela últim a vez, m as talvez eu soubesse, de algum m odo, que a Sra. Holm es estaria na sala de aula.
Ela estava apoiada na j anela, em um a postura esquisita, a testa contra o vidro, a m ão espalm ada na parede, com o se estivesse tentando entrar nela. Eu conhecia m uito bem aquela visão: ela estava nas m ontanhas, apenas um a j anela separando-as. Achei que podia estar chorando.
E então ela se voltou e recuei, certa de que tinha m e visto. Mas ela se dirigiu a um a m esa, onde Decca estava desenhando. A Sra. Holm es sorriu e apontou algo no papel. Decca assentiu. Eu as observei por um tem po longo dem ais, Decca absorta no desenho — ela continuam ente olhava para a j anela, e percebi que estava desenhando as m ontanhas — e a Sra. Holm es olhando, o rosto se m exendo sem parar — os lábios, a testa — em reação ao trabalho de Decca. Ela parecia satisfeita. Am bas pareciam .
Quando saí, fiz um desvio por trás dos aloj am entos — eu ia m e encontrar com Sissy — de m odo que a Sra. Holm es não m e visse, caso retornasse para a j anela.
* * *
Um a aj udante de cozinha cuj o nom e eu não sabia m e trouxe o alm oço e o j antar. Eu m e m exi e m e virei no colchão duro a noite inteira. Eu iria ver m eus pais em breve. Meu irm ão. O que teriam dito a eles? Eu era duplam ente m á, voltava para eles pelo m esm o pecado pelo qual tinha sido banida.
A porta se abriu. Não havia tranca, e, por um instante, pensei que o Sr. Holm es tivesse vindo m e ver, e fiquei m uito contente.
Mas a silhueta era de um a garota. Sentei-m e e acendi a luz. Mary Abbott.
— Por que você está indo em bora? — perguntou ela em um tom de voz norm al.
— Shh. Porque agi m al. — Dei um suspiro. — Você não devia estar aqui
— Mas você não agiu m al! — Ela se aj oelhou perto da cam a. — Eu sei quem agiu m al.
Senti um nó na barriga. Eu m e lem brava da noite que eu tinha deitado na cam a de Sissy e Mary Abbott tinha cham ado.
— Ela não devia ter feito isso. Ela não devia ter saído escondida o tem po todo. — Ela fez um a pausa. — Mas não fique brava com igo.
— Não vou ficar brava — eu disse. — Prom eto. Apenas m e conte tudo.
— Não contei para a Sra. Holm es.
— Para quem você contou? — sussurrei lentam ente, com o se estivesse persuadindo um a criança pequena.
— Henny — sussurrou ela, os olhos arregalados. — Henny .
— Ah — eu m e recostei na cabeceira de ferro. — Ah.
— Ela perguntou! — disse Mary Abbott, defendendo-se. — Ela ouviu rum ores, era algo sobre o qual todas as garotas vinham falando há tanto tem po, e então vi Sissy .
— Na noite do baile — com pletei.
Ela encolheu os om bros.
— Um a porção de noites. Sei para onde eles vão. Já sei há m uito tem po. Às vezes, eu os sigo. — Ela parecia orgulhosa.
— Você fica observando os dois? — perguntei, incrédula.
Ela negou m uitas vezes, com gestos de cabeça.
— Só um ou dois segundos, só para ver se Sissy estava segura. Eu tam bém gosto de Sissy. Com o você.
Concordei, j untando toda essa nova inform ação, que afinal não era nenhum a surpresa. Não era surpresa que Mary Abbott seguisse Sissy e Boone até o bosque, não era surpresa que ela tivesse sido um instrum ento no problem a de Sissy sem a m alícia que tal ação dem andava. Ela era solitária. Apenas isso.
— Você agiu m al em casa, não é?
— É — respondi, sem pensar. — Agi m uito m al. — Senti m eus olhos quentes.
— Ah, Thea — disse Mary Abbott, e então m e abraçou, com firm eza, e suspirou no m eu ouvido: — Está tudo bem .
E qualquer que fosse o feitiço que ela tivesse lançado, se quebrou. Eu a em purrei, com força.
— Ai! — gritou ela, então esfregou o om bro e levou os braços para o peito com o se quisesse se proteger; ela realm ente precisava se proteger.
Reconheci um a característica nela, certo desvio de com portam ento, certa necessidade. Um anseio que ela sabia que precisava ocultar sem saber com o. Ela não tinha a m enor ideia. Ela parecia m uito com igo; eu não conseguia ser bondosa com ela. A única diferença entre nós duas é que eu não parecia estranha, olhando na superfície.
— É m elhor — falei — não ser estranha. Não ser notada.
Mary Abbott parecia m agoada, m as concordou. Ela pegou m inha m ão, e dessa vez, eu deixei. Ela estava sem pre tentando pegar m inha m ão, m as essa seria a últim a vez.
— Tom e cuidado — aconselhei —, tom e cuidado consigo m esm a.
* * *
Encontrei Sam na noite após ter confessado tudo para m inha m ãe, ou quase tudo: eu nunca contaria a ela que tinha m e deitado com m eu prim o. Pensei que eu estivesse sendo m isericordiosa; nunca im aginei que ela não fosse acreditar em m im , que ela tinha as próprias ideias sobre o ocorrido. Mas estava certa, no final; ela tinha razão em não confiar em m im .
Eu acreditava, enquanto a procurava pela casa, finalm ente a encontrando nos fundos, podando as rosas, que contar a ela poderia m e trazer alívio. Era um a crença tola.
Sam estava em nosso antigo quarto de brinquedos, lendo um a revista, sentado de pernas dobradas no chão duro. Ele balançou a cabeça quando entrei; seus olhos estavam apáticos, e o quarto estava bem escuro.
— Você quer m ais luz? — perguntei, a m ão no interruptor.
— Pode deixar assim .
Sam virou um a página, e notei um anúncio de patins, que nenhum de nós nunca tinha usado.
— O que você está lendo? — perguntei.
— Um artigo sobre pessoas com desej os que não são naturais.
— Sinto m uito. — Meu rosto estava inchado de chorar, parecia que havia areia sob m inhas pálpebras.
— Eu devia ter feito você parar. — Ele parecia arrasado, os olhos inchados e verm elhos, veias que eu nunca tinha visto visíveis na superfície.
O olho esquerdo estava preto por causa de um hem atom a.
— Você não conseguiria — eu disse serena. — Não cabia a você.
— Eles vão m andar você em bora.
Fiquei pasm a.
— Quem ?
— Quem você acha? Mam ãe e papai.
— Para onde?
Pensei no irm ão de m inha m ãe, no sul da Flórida; aquele era o único lugar que eles tinham para m e m andar.
— Para um lugar de que eu nunca ouvi falar. Com um nom e indígena.
— Não vou, Sam — m inha voz se elevou. Não parei para pensar com o ele sabia. Ele devia ter entreouvido algo. — Não deixe que eles m e levem .
— Por quê, Thea? — perguntou ele. — Por que você fez aquilo? — E com eçou a soluçar. — Agora eles vão m andar você em bora, e vou ficar sozinho. Você pensou nisso? Pensou? Pensou que você iria em bora e que eu iria ficar sozinho?
Joguei-m e nos braços dele. Senti m eu irm ão gêm eo ceder, e essa sensação tornou as duas sem anas seguintes, antes de eu partir para Yonahlossee — o clim a em casa totalm ente estranho, as cabeças da m inha fam ília se virando para o outro lado, o reconhecim ento de m inha profunda traição —, m eu irm ão se entregando a m im naquele m om ento tornou todo o resto suportável.
— Eu devia saber — m urm urou ele, o rosto contra m eus cabelos.
Mal consegui entender as palavras dele.
Segurei o rosto dele entre as m ãos. Suas bochechas estavam quentes e suadas.
— Você sabia, Sam .
* * *
Meu pai estava no escritório. Bati na porta e sua voz soou a m esm a de sem pre, dando-m e perm issão para entrar: serena, firm e.
— Thea.
— Papai. — Ele estava escrevendo um a carta. Agora ele dava leves batidas no queixo com a caneta e esperava. — Com o está Georgie? — soltei, porque ou eu perguntava agora, e rápido, ou não perguntaria m ais.
— Georgie está no hospital. Sabia disso?
Neguei com a cabeça.
— Ele estava respirando quando o vi na últim a vez.
— Sim . Infelizm ente, a pessoa pode respirar e ainda assim estar terrivelm ente m achucada. Parece que o cérebro dele está ferido. — Ele fez um a pausa. — Quando sua m ãe m e disse o que você havia confessado, eu tinha certeza de que ela estava errada. — A voz dele soava neutra. — Ela estava errada?
Neguei com a cabeça.
— Gostaria de todo m eu coração que ela estivesse. — Era estranho m eu pai usar um a expressão sentim ental com o aquela. De todo meu coração. — Mas seu irm ão tam bém está envolvido nisso. O ferim ento de Georgie — e aqui ele baixou a caneta e colocou as m ãos diante de si com o se estivesse carregando um m elão — é com patível com um golpe violento. Você entende, Thea?
Aquiesci, sem entender.
— Ou Georgie recebeu um golpe de seu irm ão ou ele caiu. De qualquer m aneira, as consequências são as m esm as. Mas existe um a diferença significativa entre as duas coisas, com o você deve saber.
Não falei nada.
— É um a hipótese plausível que Georgie tenha caído sobre um obj eto grande e rom budo. Contei para o hospital sobre a pedra. Eles levaram essa inform ação para a polícia. Que seu prim o tinha caído e batido a cabeça na pedra.
— Está certo — eu disse, pois ele parecia precisar de um a resposta. — Está certo.
— Quando encontrei seu irm ão m ais tarde, depois do acidente, ele não sabia quem eu era. Ficara sentado debaixo de um a árvore durante horas. Tinha urinado na calça. A versão dele em relação ao que aconteceu é, na m elhor das hipóteses, falha.
Papai m e olhou com o se estivesse surpreso de m e ver ali.
— Eu queria apenas descobrir com o Georgie está — sussurrei.
O nom e dele parecia suj o ao sair de m inha boca.
— Bom , agora você sabe. Ele não está bem .
— Mas ele vai ficar bem de novo?
Obviam ente eu não devia ter perguntado.
Meu pai deu de om bros.
— Se Deus quiser.
Fiz m enção de sair, m as m eu pai falou novam ente.
— Você viu, Thea? Pode m e dizer o que aconteceu? Pode ser sincera?
Ele parecia tão atorm entado, m eu pai, tão aflito... O botão superior de sua cam isa estava aberto; isso nunca acontecia.
— Foi a pedra — respondi. — A pedra, não Sam .
Pareceu um a tarefa fácil, deixar m eu pai acreditar naquilo que ele queria acreditar com todas as forças. Era o m ínim o que eu podia fazer.
* * *
Minha m ãe m e encontrou na cocheira algum tem po depois, desem baraçando os nós do rabo de Sasi. Era algo a se fazer.
— Thea.
— Mam ãe. — Eu segurava o rabo sem firm eza; não queria deixar de segurá-lo com pletam ente.
— Fui dar um passeio.
Ela fez um gesto em direção à am pla extensão ao nosso redor. Minha m ãe nunca saía para dar um passeio. Ela sem pre estava ou no j ardim ou dentro de casa. Ela tinha falado com igo três vezes na últim a sem ana. Tinha m e pedido para varrer a varanda da frente, o que eu tinha feito, duas vezes, apesar de nem ter precisado.
Ela descansou a testa no portão da baia; parecia cansada, vulnerável. Talvez tivesse notícias de m eu prim o.
— Decidim os m andar você para longe disso tudo.
— Eu não vou.
Olhei m inha m ãe nos olhos e, em bora ela estivesse surpresa, todas as regras de com o nos com portávam os uns com os outros tinham se evaporado de repente.
Ela fechou os olhos.
— Você não tem escolha. Vai ser m elhor para você, se for.
— Não. Estou bem aqui. Vou ficar longe do cam inho de todo m undo. A senhora vai ver. Vou dorm ir aqui. Não vou aborrecer ninguém . Por favor, não vai ser m elhor para m im .
Ela riu.
— Você vai dorm ir em um a baia? Você não é um bicho, Thea. Ou é? — Ela balançou a cabeça. — Você vai, sim .
— Ah. — Enrosquei o rabo de Sasi em volta do punho. — Entendo.
Minha m ãe m e observou por um m om ento.
— Por quê, Thea? Por que você fez isso?
A boca de m inha m ãe se encrespou form ando um nó feio e pequeno. Ela não parecia tão linda, naquele m om ento. Parecia a vítim a de um a traição.
— Por que a senhora achou tão ruim assim ? — perguntei. Minha voz falhou. — A senhora am ava Georgie.
Parecia que ela estava pronta para a pergunta, com o se j á tivesse se perguntado o m esm o.
— Eu queria m ais para você! — gritou. — Não percebe que Georgie não é bom o bastante? E, m esm o que fosse, está tudo um a grande confusão agora, Georgie no hospital, seu irm ão se sentindo culpado de ter colocado o prim o lá. O tio George e a tia Carrie não conseguem perdoar. E estou tão zangada com Georgie... e com você. — Ela fez um gesto para fora da cocheira, para os nossos m il acres. — Tínham os tudo, Thea. Tudo. Este lugar está arruinado.
— Por favor — gritei —, para onde a senhora está m e m andando? Não faça isso. Por favor, não. — Toquei o braço dela. — Por favor, deixe-m e ficar aqui. Vou m e com portar bem .
Ela olhou para o braço, para o ponto onde eu tinha tocado, depois olhou para cim a e de novo para m im .
— Receio que j á sej a tarde dem ais para tudo isso — disse ela, agora calm a.
* * *
Nós estabelecem os um arrem edo de rotina na m inha últim a sem ana em casa. Eu acordava cedo e m ontava Sasi até ele ficar exausto. Saltava obstáculos cada vez m ais altos, e Sasi conseguia ultrapassá-los com perfeição porque podia sentir com o eu estava ousada. Mam ãe se ocupava com as tarefas dom ésticas e eu a aj udava ficando afastada. Eu sabia que era a últim a pessoa que ela queria ver. Sam desaparecia durante horas no terreno de trás. Caçando, eu im aginava. Papai saía antes de eu levantar e voltava depois que eu j á estava na cam a. Quando eu passava por ele no saguão, fazia m enção a algum a criança enferm a de quem não conseguia cuidar. Não perguntei m ais sobre m eu prim o. Presum i que papai m e diria se a situação dele piorasse. Eu era ingênua, acreditava que o silêncio de m eus pais significava que Georgie estava m elhorando.
Deixaram para m im a incum bência de fazer m inha m ala. Mam ãe fora vaga em relação àquilo de que eu precisaria. O m áxim o que eu tinha conseguido era esvaziar as gavetas no chão. Agora eu pesquisava no m eio de todas essas pilhas de roupas finas: vestidos cintilantes, saias form ais de algodão, m acios lenços de seda. Eu não os m erecia. Não conseguia im aginar um futuro em que os usaria novam ente.
Um a batida na porta. Eu a m antinha fechada para poupar m inha fam ília.
— Entre.
Prim eiro, a m ão escura de Idella. Voltei a rem exer nas m inhas coisas. A decepção era quase insuportável.
— Sua m ãe m e m andou para aj udar você a arrum ar suas coisas.
Fiz um gesto m ostrando as pilhas.
— Fiz tanta bagunça!
— Deixe que eu aj udo.
Prestei atenção enquanto ela fazia pilhas m ais coerentes, j untava saias com saias, culotes com cam isas de m ontaria; dobrava com prim or todas as peças que eu tinha desdobrado.
— Sua m ãe disse para não pôr m uita coisa. — Idella m e olhou. — Ela disse que você vai ter uniform e.
— Uniform e — repeti. — Você sabe por que eu vou em bora?
Idella alisou o colarinho de um a blusa. Eu sabia tão pouco a respeito dela... Não era casada. Vivia com a m ãe e duas irm ãs; eram todas profundam ente religiosas.
— Tenho certeza de que está tudo bem .
Balancei a cabeça, quase às lágrim as.
— Não está.
— Se Deus quiser, está — disse Idella. — Se Deus quiser.