Escola de equitação para moças
Capítulo 21
Quando retornam os da festa, as outras garotas da Casa Augusta estavam acordadas, em variados estágios de preparação para se deitarem . Sissy tinha saído; estava destem ida, pelo m enos nesta noite. Deslizei para baixo das cobertas com o vestido em prestado ainda no corpo. Mary Abbott tinha a atenção voltada para m im , m as ninguém m ais notou.
— Você se divertiu?
Aquiesci. Meus olhos estavam fechados, m as pelo som parecia que Eva falava com a cabeça pendurada no beliche.
— E você?
— Sim ... — A voz dela dim inuiu.
Pensei que ela j á tinha acabado, m as voltou a falar:
— Vou ficar tão triste quando form os em bora daqui; sem outros bailes.
— Vej o m uitos outros bailes na sua vida.
— Mas não vão ser com o estes — retrucou ela.
Para o bem e para o m al, pensei.
— Não. Você é tão sonhadora, Eva... Sem pre sonhando com algum lugar diferente. — Não era exatam ente isso que eu queria dizer, m as não consegui articular o que sentia. — Você vai ser sem pre assim .
— Assim com o? — perguntou Mary Abbott.
— Jovem e bonita — eu disse, e Eva riu. Ela tinha ficado encantada com igo. — Jovem e perfeita.
Depois que a respiração de todo m undo tinha regularizado, fui até a cam a de Sissy e m e deitei lá por um a ou duas horas — obviam ente, eu não estava enganando ninguém . Devo ter adorm ecido, porque, ao abrir os olhos, fiquei assustada, e depois aliviada, pela escuridão. Atravessei o quarto com passos pesados e m e servi de um copo cheio de água, bebi tudo e enchi outro.
Antes que as luzes se apagassem , Mary Abbott tinha perguntado onde estava Sissy, se nós devíam os contar para um a m onitora. Eva rira e dissera para Mary Abbott não se preocupar. Após todas as nossas precauções, senti um lam pej o de raiva; até eu estava sendo m ais cuidadosa do que Sissy . Ela estava sendo tola ao se arriscar daquela form a.
* * *
Na m anhã seguinte, cheguei ao Castelo no m om ento em que as orações estavam term inando, e tom ei m eu cam inho no m eio dos grupos desordenados de garotas que se dirigiam para suas salas. A m ultidão parecia se dividir à m edida que eu passava, com o se as garotas form assem um a tropa de cavalos e eu fosse um a cobra. Katherine Hay es e um a garota de Atlanta cochichavam ; Katherine levantou as sobrancelhas com o só ela podia fazer, quando passei. Mas Leona, que estava sozinha na extrem idade da m ultidão, m e observava im passível, e algo na m aneira com o ela se posicionava m e deu esperanças: talvez fosse tudo m inha im aginação.
Senti um a m ão encostar na m inha. Rachel.
— Olá — sussurrou ela, e apertou m inha m ão. — Você vai nos dar aula novam ente?
Eu a puxei para um abraço e beij ei o topo de sua cabeça.
— Senti saudades de você.
Rachel sorriu, envergonhada, e eu disse a ela que íam os ver a respeito das aulas. Ela saiu e vi que o Sr. Holm es estava m e observando do seu lugar no púlpito.
Ele m e olhou com ar triste, e senti com o se todas as garotas e seus olhares desaparecessem . Eu nunca m ais estaria sozinha com ele.
Percebi alguém a m eu lado: Sissy. Ela voltou o olhar para onde o m eu se fixava, e depois m e encarou.
— Venha — disse. — Vam os para a aula.
Naquela m esm a tarde, quando nos dirigíam os para as cocheiras, Sissy parecia eufórica, e não foi difícil im aginar por quê.
— Boone e eu ficam os noivos — ela m e contou enquanto cam inhávam os, eu protegendo os olhos com as m ãos —, secretam ente.
Apertei a m ão dela.
— Isso é m aravilhoso. Desej o a vocês toda a felicidade do m undo.
E era totalm ente verdade, eu desej ava; os olhos brilhantes de Sissy pareciam prova de algum a coisa.
Havia apenas algum as garotas do lado de fora, m as não era m inha im aginação: só Sissy parecia não perceber — os efeitos tranquilizantes do am or, im agino —, m as todas nos encaravam . Tentei não olhar, m as era im possível. Quando acenei para Molly, ela correu para longe com o um rato am edrontado. Quase dei um a risada; com o se eu estivesse em posição de am edrontar alguém .
— As pessoas estão olhando — com entei com Sissy .
— Estão? — Ela passou um a vista geral pela Praça. — Acho que não. Talvez estej am apenas contentes em ver você.
O tom da voz dela, porém , estava artificial; é claro que estava m entindo.
Quando estávam os quase nas cocheiras, vim os Gates, guiando seu belo alazão para o picadeiro.
— Gates — cham ou Sissy , e ela se virou.
Quando nos viu, o rosto dela se retesou; parecia assustada, com o se tivesse visto um fantasm a. Seu cavalo nos olhava atentam ente, as orelhas apontadas para a frente.
— Olá — gritou ela, a voz trêm ula.
O cavalo bufou no om bro dela, e Gates deu um sorriso tím ido antes de seguir cam inho. Mas Sissy falou novam ente:
— Espere! — gritou. — Espere!
— Sissy — m urm urei furiosa.
Outras garotas estavam olhando agora. Vi Henny prestando atenção na situação, curiosa, a cabeça inclinada, Jettie a seu lado, sem pre a seu lado. Eu as observei por um segundo. Ficou evidente para m im que Jettie gostava de Henny. Mas então tive que m e apressar seguindo Sissy, que cam inhava na direção de Gates.
— Há algo que eu precise saber, Gates? — perguntou ela, a voz calm a e firm e. — Algum m otivo para m e ignorar?
Gates balançou a cabeça, e senti pena dela. Ela não estava ignorando Sissy ; estava ignorando a m im . Ela era boa, a Gates — naquele m om ento, ela chutava a terra e parecia prestes a chorar. Afaguei seu cavalo, no topete verm elho que lhe caía entre os olhos, e ele m e olhou desconfiado.
— Está tudo bem — m urm urei.
E para Sissy :
— Não é você. Deixe Gates em paz. Sou eu — com pletei sussurrando.
— Mas nós estávam os cam inhando j untas! — gritou Sissy furiosa, e ela m e deixou contente por ter vindo, apesar de tudo, desej ando estar confinada neste lugar, se isso significava conhecer Sissy .
Olhei para Gates e vi o que Sissy via: um a garota fraca de espírito.
— Nós nos conhecem os desde que você tinha doze anos, Gates Weeks! Você devia ficar envergonhada. — Vi o Sr. Albrecht vindo na nossa direção e puxei Sissy para longe.
Quase trom bam os em Alice Hunt, que guiava seu im enso cavalo baio; ela deu um j eito de ignorar nossa presença.
— Sissy — eu disse, depois de tê-la em purrado para dentro da baia de Naari e ela ter ficado m editando silenciosa durante alguns m inutos. Eu estava desem baraçando os nós do rabo de Naari para m e ocupar com algo — não im porta o que acontecesse no m undo, o rabo de um cavalo sem pre estaria cheio de nós. — Eu vou em bora, m as você vai ficar. Não transform e todas as outras pessoas em suas inim igas.
— Você não pode ir em bora — disse ela. — E por que você desej aria ir?
— Está na hora.
Parecia que Sissy ia chorar. Quando falou, porém , estava zangada.
— Não é tão sim ples assim . Você não pode sim plesm ente resolver ir em bora.
— Vou pensar em algo.
— Gostaria que você nunca tivesse conhecido o Sr. Holm es — continuou Sissy. — Gostaria que a Sra. Holm es nunca tivesse ido em bora. Odeio o Sr. Holm es — disse ela, e levantou o olhar para m im , as faces em fogo. — Sei que você não o odeia, então eu o odeio duplam ente.
— Ele é... — com ecei, m as Sissy balançou a cabeça.
— Por favor, não fale nada — rebateu. — Vou odiá-lo para sem pre. É errado — prosseguiu. — Muito errado. Você poderia ter am ado outra pessoa.
Eu a observei por um m om ento, m inha am iga querida e verdadeira, os cabelos castanhos presos por trás das orelhas, as faces ainda verm elhas, a testa franzida de raiva. Ela queria dizer que eu poderia ter am ado David; ela queria dizer que eu poderia ter sido m ais com o ela.
— Eu am ei outro rapaz antes de vir para cá.
— Sei disso — falou, im paciente.
Mas ela não sabia. Eu nunca nem havia m encionado para ela que tinha um prim o.
— Você não sabe que o rapaz era m eu prim o. E não um prim o que eu nunca encontrava, não um prim o de terceiro grau que m orava em outro estado — eu falava rapidam ente; tinha que contar tudo de um a vez, ou então não contaria nada. — Ele era com o um irm ão para m im .
Sissy não disse um a palavra, apenas ficou m e observando, então continuei, m eio por m edo, m eio por alívio, porque contar dava tanto alívio, e, à m edida que eu falava, eu m e lem brava de que contar tinha esse poder, essa doce catarse que eu não experim entava havia m uito tem po. Quando eu era pequena, m eu tím pano foi perfurado devido a um a infecção, e ainda que o pus e o sangue que m e escorriam pelo pescoço tivessem aterrorizado Sam , que correu para buscar nossa m ãe, não senti nada além do alívio de um a dor que tinha m e acom etido tão aos poucos que nem reparei que m eu ouvido estava ferido. E agora era a m esm a coisa, m as dessa vez em relação a m eu coração.
— Meu irm ão descobriu.
— Sam — disse Sissy suavem ente.
— Sam . Meu prim o contou para ele. Eles se atracaram , m eu prim o e Sam . Um a briga horrível. — A voz m e falhou. — Foi por isso que m e m andaram em bora.
— Mandaram Sam em bora tam bém ?
Quando não respondi, ela levantou m eu queixo com o dedo, com o m am ãe faria. Balancei a cabeça:
— Não sou um a garota direita.
— Um a garota direita. — Sua voz rouca estava suave. — Fico im aginando o que seria isso, ou onde vam os encontrar um a.
— Você não entende — eu disse, finalm ente.
— Não? — perguntou ela. — Acho que entendo m uito bem . Não escolhem os quem vam os am ar, não é? — Ela sorriu, e eu sabia que estava pensando em Boone. — Não escolhem os nossas fam ílias, tam bém . Mas, pelo m enos, você pode escolher ficar zangada. — Ela pegou m inha m ão e a apertou, com força.
— Ai — reclam ei, m as ela não soltava a m ão.
— Não deixe sua fam ília decidir o resto da sua vida.
— Foi isso o que o Sr. Holm es m e disse.
— Então concordarm os em algum a coisa, ele e eu. O que você acha que vai fazer? — perguntou ela. — Você é apenas um a garota.
— Eu sei — respondi calm am ente. — Sou apenas um a garota. Mas tam bém sou um a irm ã. Preciso ver m eu irm ão. Ele não fez nada de errado.
— Nem você.
Ela deixou m inha m ão cair e m e puxou para ela. Ela cheirava a suor e suj eira, um odor incom um no caso dela.
— Até agora você não teve sorte — sussurrou ela no m eu ouvido —, m as a sorte m uda, o tem po todo. Deus concede a felicidade apenas para aqueles que a procuram .
* * *
Mary Abbott voltou para o aloj am ento enquanto todas as outras estavam na Sala de Estudos. Era nessa hora que eu costum ava estar com o Sr. Holm es, na Casa do Diretor. Não dem oraria m uito para a Sra. Holm es notar m inha ausência, chegar à conclusão de que eu não estava estudando o bastante. Eu precisava sair antes que isso acontecesse.
Mary Abbott m e encarou por um longo tem po, a cabeça dobrada.
— Qual é seu problem a?
— Por que você se im portaria? — disparei.
Ela desviou o olhar e não disse nada.
— Desculpe. Estou cansada. Preciso dorm ir.
— Mas é só o que você faz agora. Dorm ir. Som os am igas, não som os?
— Som os, Mary Abbott. — Por que Mary Abbott tinha m e escolhido? Por que não Eva ou Gates? Ou Sissy ? Sissy, sem dúvida, teria sido m ais gentil, teria sabido com o lidar com ela. — Do que você precisa? — Senti que a estava desafiando a m e dizer que todo m undo sabia sobre m im e o Sr. Holm es, que o acam pam ento inteiro estava com entando.
Ela se abaixou até a beirada da m inha cam a.
— Alguém viu Sissy no bosque ontem à noite — sussurrou, m esm o que estivéssem os sozinhas. — Sabia que ela estava lá? Com um rapaz? Todo m undo está com entando. Corre um boato de que a Sra. Holm es sabe.
Sentei-m e na cam a, de m odo que m eu rosto ficasse a apenas poucos centím etros do dela.
— Quem , Mary Abbott? Quem viu Sissy ?
Os fatos de hoj e repassaram rapidam ente pela m inha m ente: todas as garotas se desviando, m as não de m im ; todas as garotas encarando, m as não a m im .
Porém , Mary Abbott não sabia ou não queria m e contar. Ela parecia preocupada, e fiquei im aginando se tinha m edo de Leona. Porque eu sabia quem tinha contado. Leona, que não estivera no baile, que provavelm ente estivera nas cocheiras, teria visto facilm ente Sissy e Boone no cam inho de volta. Ela era a única garota que eu conhecia que falaria algo sobre Sissy. Que m agoaria outra garota de form a tão terrível a fim de m e m agoar.
Por outro lado, todo m undo podia ter visto Sissy na noite anterior — ela tinha sido m uito descuidada. Senti um lam pej o de raiva, novam ente. Com o ela pôde ser tão negligente? Olhei para Mary Abbott, que não parava de m exer na m inha colcha. Poderia ter sido ela? Acho que não. Eu sem pre fora o foco de Mary Abbott, os olhos dela queim ando com tanta constância em m inhas costas que parecia um a estranha espécie de praga. Eu, não Sissy .
Levei Naari para as m ontanhas nessa noite enquanto todas as outras estavam no j antar. Os dias ficavam claros até as oito da noite àquela altura do ano, e então eu ficava do lado de fora até conseguir ver o contorno fraco das estrelas.
Era tão fácil fechar os olhos e ver os lindos cabelos castanhos de Sissy, seus olhos separados; eu podia ver seu rosto m ais vividam ente do que o de m inha m ãe, de m eu irm ão, de m eu pai. Quando eu fosse em bora, pediria um a fotografia dela. Mary Abbott disse que Sissy iria para casa em um ou dois dias, agora que o boato estava com eçando a se espalhar e, apesar de não confiar particularm ente em Mary Abbot, eu sabia que ela estava certa. A Sra. Holm es descobriria; ela sem pre descobria. E se Sissy fosse m andada para casa por causa de um rapaz, ela nunca receberia perm issão para se casar com ele, o m esm o que a tinha desonrado, m arcado sua reputação até então im aculada. Todos os planos de Sissy, toda a sua vida, em ruínas. Logo ela, que estivera tão certa j usto ontem de com o m inha fam ília deveria ter agido. Quem poderia dizer o que a fam ília dela faria, pensaria dela, por m ais que ela pudesse se j ustificar? Certam ente não a própria Sissy. Não ter perm issão de se casar com Boone poderia ser o m enor dos problem as dela.
Notei a silhueta do Sr. Albrecht nas cocheiras quando desm ontei. Já era tarde dem ais para m ontar novam ente e voltar a cavalgar até que ele desaparecesse dali.
— Thea — cham ou ele, e fez um sinal com cabeça.
— Olá.
— Não há m ais aulas para você. Apenas as cavalgadas noturnas pelas trilhas.
Encolhi os om bros. O sotaque dele em prestava um ritm o realm ente estranho à sua fala.
— Acho que não tive a oportunidade de cum prim entá-la pelo sucesso. — Ele estendeu a m ão. — Parabéns.
Deixei-o apertar-m e a m ão, a áspera palm a de sua m ão em volta da m inha, pequena e relativam ente m acia.
— Obrigada.
E senti-m e prestes a chorar de novo, inexplicavelm ente. Coloquei a palm a da outra m ão na larga testa de Naari. Seria com o se eu tivesse m orrido, logo que m eu odor desaparecesse, logo que ela aprendesse a parar de esperar, nas tardes, pelo som de m inhas botas contra o chão, logo que ela ficasse acostum ada aos barulhos e aos odores de outra garota. Mas eu iria sem pre m e lem brar de m eu prim eiro cavalo. Não m e esqueceria nunca.
O Sr. Albrecht m e olhou por um tem po que pareceu bem longo.
— Você é um a am azona talentosa. Pode m anter isso. — Ele enfatizou a palavra manter, por causa do sotaque.
— E fazer o quê?
— Você poderia fazer coisas que ainda não foram feitas — respondeu, ainda segurando m inha m ão.
Desviei o olhar.
— Talvez.
Ainda existia bondade no m undo, em Yonahlossee. Pareceu quase irrelevante.