Escola de equitação para moças
Capítulo 2
O túnel de árvores das cocheiras até a Praça era escuro e, em bora eu nunca tivesse ficado com m edo de estar sozinha, apressei o passo. Todas as outras garotas estavam em sala de aula. Que anim ais estariam à espreita nos bosques da Carolina do Norte, que tipos de plantas venenosas havia? Eu conhecia tudo aquilo na Flórida. Em Yonahlossee, eu era inocente.
Não havia tanto para se ter cautela, pelo m enos no que dizia respeito ao m undo natural. O inverno vinha todos os anos e elim inava os anim ais, as plantas. Na Flórida, nada m orria, nada retrocedia.
Quando estava suficientem ente fresco, Sam e eu gostávam os de peram bular sem rum o, além do pom ar de laranj as, a quilôm etros da casa. Um dia, quando tínham os onze anos, levei Sasi conosco, porque era um dos últim os dias toleráveis antes do verão. Sasi tam bém era novo na época, podia ser cavalgado por horas e horas e ainda assim não se cansar. Sam estava à m inha frente, em busca de am oras; eu estava a cavalo, seguindo-o. Era abril, faltavam algum as sem anas ainda para a época das am oras, m as Sam achava que podíam os dar sorte.
— Sasi está cansado? — gritou Sam .
— Não — respondi. — Ele gosta daqui.
— Você gosta daqui, Sasi? — perguntou Sam com um sotaque inglês, e dei um a risada.
Andam os m ais um pouco. Sam desapareceu em um em aranhado de galhos.
— Mesm o se você achar algum as am oras, elas vão estar azedas — eu disse.
Sam reapareceu de m ãos vazias.
— Porque ainda está m uito cedo — expliquei.
Sam riu.
— Eu tinha entendido o que você quis dizer.
Eu m e virei e apanhei m eu alforj e à procura de um cantil; um a depressão repentina no solo, um a sensação de leveza, e depois um zum bido. De início, não com preendi o barulho, m as, quando senti um ferrão no rosto, soube que Sasi havia pisado em um ninho subterrâneo de vespas.
— Sam ! — gritei. Desm ontei de Sasi, que estava batendo os cascos na terra, nuvens de poeira subindo em volta de suas pernas. — Sam !
— Thea — disse ele, e sua voz m e enfureceu: estava tão calm a, tão devagar.
— Socorro! — gritei, dando tapas no rosto. — Depressa!
— Thea, m e escute. Escute — continuou Sam , enquanto vinha na m inha direção.
Balancei a cabeça furiosam ente; eu sentia m inhas faces inchando, a garganta apertando. Eu podia ver círculos verm elhos surgindo em m eu braço, sentia-os no pescoço. Senti gosto de bile.
— Thea — Sam repetiu m eu nom e e, quando m e alcançou, tocou na m inha testa. — Olhe para m im .
Mas eu não conseguia. Eu olhava para Sasi, que m ordia furiosam ente a pata onde havia sido picado; olhei além de Sam , nos quilôm etros e quilôm etros de arbustos e árvores de carvalho; olhei para o céu, que estava azul, nenhum a nuvem à vista. Eu podia ouvir as batidas do m eu coração. Eu podia sentir o cheiro do m eu suor.
— Não é um ninho com pleto — disse Sam , m as parecia que ele estava falando a um a grande distância. — Não há um núm ero suficiente de vespas. Mas se você não ficar calm a vai piorar. Tudo bem , Thea? Vej a — continuou —, j á se foram .
Olhei para ele.
— E Sasi? — perguntei.
— Sasi vai ficar bem . Ele é m uito grande — respondeu Sam , e entendi que eu não era bem grande, que m inha respiração trabalhosa, m eu rosto quente e coçando eram evidências da m inha pequenez.
— Quantas picadas? — perguntei, a voz alta.
— Não m uitas.
Mas eu sabia que ele estava m entindo. Sam nunca conseguiu m entir para m im .
— Ahh. — Arquej ei, m inha garganta apertando cada vez m ais. — Ahh. — Estávam os a quilôm etros de casa. Eu sabia o que acontecia se você fosse picado m uitas vezes por vespas; sua garganta inchava, você parava de respirar, e tudo acontecia m uito rapidam ente.
Com ecei a chorar e a enfiar as unhas no pescoço, e podia sentir as feridas que m inhas unhas provocavam , e eu sabia que ia m orrer.
— Thea! — disse Sam , quase gritando. — Você vai fazer piorar. Olhe para m im . — Ele colocou a m ão em m eu rosto e ela parecia tão gelada contra m inha pele em cham as. Ele segurou m inha face e m e obrigou a olhar dentro dos seus olhos; não m e deixou desviar o olhar, e, pouco a pouco, m inha respiração tornou-se m ais fácil. Com o um encantador de cobras, sussurrei de form a quase inaudível.
— Apenas m e escute — pediu Sam , e m e aj udou a m ontar, e andou a m eu lado e segurou m inha m ão enquanto Sasi cam inhava com dificuldade, todo o tem po m antendo um fluxo estável de conversa; sobre am oras verdes, sobre um novo salto que eu e Sasi deveríam os tentar, sobre m am ãe e papai, sobre Georgie, sobre nada. O som de sua voz é que era im portante.
Quando chegam os em casa, tarde por causa da lentidão com que tínham os andado, m am ãe m e viu e gritou; m eu rosto estava inchado, m eus lábios e pálpebras, saltados. Sam levou a m ão à testa para afastar o cabelo e percebi que a m ão dele trem ia terrivelm ente, prova de que ele tam bém estivera assustado; seu m edo dem onstrava que eu estivera em perigo, que Sam havia m e salvado com sua calm a. Ele sem pre fora assim , tranquilo quando eu m e m ostrava frenética.
Mas aqui eu nunca ficaria a quilôm etros do acam pam ento. Eu seria observada, de um a m aneira com o nunca fora antes.
Bati à porta do aloj am ento antes de abrir, um hábito de que eu logo m e esqueceria. Nosso aloj am ento nunca estava trancado, nenhum a das construções aqui estava. Talvez o do “diretor”, localizado depois da Praça. Ou talvez houvesse um cofre em algum lugar no Castelo, com itens valiosos do acam pam ento. Eu não m e im portava, Docey ou qualquer outra podia pegar qualquer coisa que quisesse, eu não havia trazido nada de m uito valor.
— Alô — cham ei, quando com ecei a tirar as botas na porta.
Um a lufada de partículas de pó atravessou obliquam ente a luz da m anhã. Tudo estava em perfeita ordem , assim deixado por Docey . Eu nem precisava fazer m inha cam a.
Tirei as botas. As m eias finas que eu usava enquanto cavalgava estavam ensopadas de suor, e senti o ar frio contra os pés e as panturrilhas. Eu precisava polvilhar o interior de m inhas botas com talco. Sabia que haveria um suprim ento na cocheira, m as não tinha verificado. De todo o tem po passado com um cavalo, cavalgar era um a parte bem pequena.
Fui prim eiro ao arm ário de Sissy, e encontrei som ente roupas. Metade do arm ário dela era ocupado por vestidos de festa, a seda m acia roçando a ponta dos m eus dedos. Eu pensava que tinha m uitas roupas, m as no guarda-roupa de Sissy havia o triplo do que havia no m eu. E, no últim o ano, m am ãe não com prara qualquer roupa nova para si m esm a ou para m im . Ela dizia que seria de m au gosto, visto que todos estavam ficando tão pobres.
Na escrivaninha de Sissy, encontrei algum as canetas, um a carta da m ãe dela, recebida escrito errado, o i no lugar do segundo e. A carta era curta, contava um a sem ana que ela e o pai de Sissy tinham passado “fazendo m uito de nada”. Um livro que parecia novinho em folha, cham ado A arte da amizade. Tracei com o dedo o lírio em alto relevo na capa verm elha. Bobagem , m am ãe diria. Havia um a escova de cabelos no toucador, com um em aranhado de seus cabelos castanhos. Três vidros de perfum e francês na gaveta, cheios. Eu não havia percebido nenhum cheiro nela. No fundo da gaveta, encontrei um a bolsa de veludo enrolada, com pequenos com partim entos para j oias. Segurei um par de brincos de rubi na luz, pedras idênticas, de um profundo e perfeito tom rosado. Um m edalhão oval, encravado com iniciais — não as de Sissy — e um a m echa de cabelo trançado atrás do vidro. Fiquei im aginando quem teria m orrido. Eu não tinha nenhum a j oia tão bonita. Mam ãe dissera que eu herdaria suas j oias um dia, m as eu im aginava se isso ainda seria verdade. Tudo estava guardado em um cofre. Com o se alguém fosse m exer com isso, ou conosco, onde m orávam os.
Os brincos de rubi m achucavam para colocar. Encontrei resistência nas duas orelhas, principalm ente na esquerda, que tinha o furo um pouco torto. Mam ãe e Idella as haviam furado, com um a agulha quente e linha. Coloquei os brincos m enos para ver com o ficavam e m ais para abrir os buracos em m inhas orelhas, m as eles não caíram bem em m im m esm o, ficaram m uito grandes e vistosos. Mam ãe provavelm ente teria dito que eles valorizavam o ruivo de m eu cabelo. Apesar de m orar tão longe da cidade, ela sabia o que estava na m oda. Havia um a pilha de revistas na varanda envidraçada do andar de baixo, m as m am ãe tam bém lia livros, os m esm os que papai. De qualquer form a, eu não tinha vestidos com o aquele e nunca havia ganhado um a j oia tão bonita.
O que a m ãe de Sissy teria lhe dito quando lhe dera os brincos? Talvez ela os tenha presenteado antes de um a festa, colocando-os nas m ãos de Sissy e fechando as suas próprias em volta das m ãos da filha. Os pinos teriam espetado a palm a de sua m ão, m as a sensação teria sido prazerosa. Eu nunca tinha ido a um a festa, som ente a restaurantes. Eu podia im aginar Sissy em um baile, no vestido de seda azul-m arinho pendurado no arm ário, os rubis realçando seu cabelo castanho, sua pele m acia, bronzeada pelo sol de verão. Passando de garoto em garoto, flertando com sua voz rouca. Subitam ente, fiquei zangada com m eus pais por m e m andarem para Yonahlossee despreparada. Eles haviam m e m antido protegida a vida toda, e então m e m andaram para essa escola, ignorante de tantas coisas.
A escrivaninha de Eva era perto da de Sissy, sob a j anela. A Praça ainda estava vazia. Havia um a pilha grossa de fotografias em sua gaveta. Seu pai era bem gordo, ficando ainda m ais gordo à m edida que as fotos progrediam . A m ãe era rechonchuda. Eva teria que tom ar cuidado, algo que certam ente j á sabia. Podia perder com pletam ente a boa form a depois de ter filhos, com o eu presum ia que tivesse ocorrido à Sra. Holm es. Isso acontecia com algum as m ulheres — m am ãe m e dissera. As fotos estavam am arradas com um a fita, m as o restante estava um a bagunça — um em aranhado de papéis, j oias, e potes de ruge e crem e. Havia frases em francês. Os potes de m aquiagem estavam agrupados no centro. Fiquei pensando se ela era um a garota fácil no que se referia a rapazes. Eu conhecia as garotas fáceis dos livros.
A gaveta de Mary Abbott tinha espaço de sobra. Eu quase não dei atenção às coisas dela. O arm ário estava praticam ente vazio, exceto por alguns vestidos caseiros e uniform es de Yonahlossee. As cartas grossas tinham sido escritas pelo pai. Os carim bos do correio eram de Raleigh, que não ficava longe da escola. Mary Abbott se vestia com o a gente, então não tinha com o saber, sem olhar para seu arm ário, que as coisas dela não eram tão boas quanto as nossas. A fam ília de Mary Abbott devia ter dinheiro suficiente para m andá-la para cá, então talvez a pobreza de seu arm ário se devesse a algum fervor religioso. Espiei um a carta; de fato, Deus era m encionado algum as vezes. Eu gostava de j untar as peças dessa m aneira. Devolvi as cartas e abri um pequeno estoj o de pó de arroz; dentro, grudada ao espelho, havia a foto de um bebê. Reconheci as feições de Mary Abbott — os lábios finos, os olhos assustados. Toquei a fotografia, suavem ente, e sorri. Ela tinha sido bonita.
Fiquei aterrorizada antes de saber o m otivo; devo ter visto um a som bra pelo canto do olho; então m e virei e vi o Sr. Holm es através da j anela. O Sr. Holm es tam bém se virou e olhou para dentro, direto para m im . Ele era m ais bonito do que qualquer astro de cinem a que eu j á tivesse visto: o queixo anguloso, os olhos escuros, em oldurados por cílios escuros e sobrancelhas ainda m ais escuras. Encarei o Sr. Holm es por m ais dez, quinze segundos, enquanto ele passava, e ele estava tão bonito que quase pensei: “Deixe que ele m e encontre. Ele vai entender.” Mas ele não parou, e fiquei instantaneam ente aliviada que o sol estivesse forte dem ais para ele conseguir ver o interior do aloj am ento. Claro que ele não teria entendido. Eu pareceria um a ladra. Ou pior, um a bisbilhoteira.
Fechei a gaveta de Mary Abbott com um acesso de alívio, e enquanto fazia isso, ouvi o bater de um a sola de sapato dura no chão.
— Olá?
Era Docey, com um a pilha de toalhas. Ela não falou nada. Eu não sabia para onde olhar por causa do seu olho errante.
— Eu estava procurando talco — expliquei. Andei até m inha cam a e peguei m inhas botas. — Para polvilhar. — Meu rosto estava quente. Segurei as botas no peito, o couro ainda m orno. Ela m e observou pelo que pareceu ser um longo m om ento e vi com o aquilo iria acabar: ela iria contar, eu seria considerada um a intrusa.
— Tudo bem — falou Docey, e levei um segundo para entender o que ela dissera, por causa do sotaque.
Ela virou as costas para m im e foi até o arm ário de cada garota, tirando a toalha suj a e substituindo por um a lim pa, acum ulando um m onte de roupa de cam a e de banho suj a nos braços. Quando acabou, pensei que talvez fosse sair sem dizer nada. Parecia ter m inha idade, m as tinha um rosto pálido, sem idade definida. Não havia qualquer sinal de contornos sob o uniform e. Ela era m agra e pequena. Eu tinha sido estúpida. Me perm iti ser flagrada.
Quando chegou a m eu arm ário, ela parou, com o se pedisse perm issão. Fiz um gesto de concordância com a cabeça; enquanto pegava m inha toalha, ela falou:
— Vou deixar você pôr de volta.
Na porta, ela se virou brevem ente e, em um gesto tão m ínim o que talvez eu o tenha im aginado, levou a m ão à orelha. Senti m inhas próprias orelhas, os brincos que eu havia esquecido de tirar. Ela não iria falar nada.
* * *
Eva e eu estávam os do lado de fora do aloj am ento, vestindo nossos roupões, esperando Sissy .
— Ela está sem pre atrasada, seu único defeito — m urm urou Eva.
O com entário m e pareceu estranho, porque Eva não parecia ser do tipo de pessoas que fazia críticas, m as então ela sorriu. Quando Sissy apareceu, saím os. O sol se pusera havia um a hora e estava gelado, m as m eu roupão era grosso e felpudo.
— Você vai se acostum ar? — perguntou Sissy .
Eu ri.
— O Sr. Holm es m e fez a m esm a pergunta ontem .
— O que você disse a ele?
— Eu disse que sim . O que m ais poderia dizer?
— Bem , o Sr. Holm es podia fazer você dizer qualquer coisa. — Ela sussurrou no m eu ouvido. — Henry .
Dei risadinhas.
— Aqueles olhos — continuou ela, e extasiou-se. — Mas só para que você saiba, ele não flerta. Ele acha que é nosso pai.
— A Sra. Holm es iria bater na sua m ão com um a régua se ouvisse você falar assim — com entou Eva. — Ela j á fez o discurso dos fundadores para você? Sobre com o devíam os ser gratas pela educação das m ulheres?
— Ela contou que o nom e Yonahlossee é por causa de um cavalo.
Eu gostava disso, de andar em grupo. Outras garotas olharam para nós com curiosidade, adm iração.
— Ah. Ela não gosta de cavalos — disse Sissy . — Ela não gosta de nada.
Aparentem ente, ela tinha gostado da m inha m ãe, m as nem em um m ilhão de anos eu diria isso.
— Yonahlossee é difícil a princípio — disse Eva. — Eu não conseguia sair da cam a. Não conseguia acordar com o sino da m anhã. Perdia o café, e até a prim eira aula. Em casa, eu dorm ia até m eio-dia.
Eu não conseguia im aginar dorm ir até m eio-dia. Sam m e acordava todos os dias antes de o sol nascer. Um tapinha no om bro bastava; eu estava pronta, ansiosa para com eçar m eu dia. Sam se divertia com m inha im paciência. Eu tinha que cavalgar cedo, em casa, para evitar o calor; Sasi ficava afetado com o nascer do sol.
— Você não tinha coisas para fazer?
— Não. Foi por isso que eles m e m andaram para cá. Porque eu não tinha nada para fazer em casa. Mas eu estava bem , na verdade. Eu gostava de não ter o que fazer.
Eva era m ais alta do que nós duas, e ela se m ovia languidam ente. Sua pele sem pre parecia um pouco úm ida, de um a m aneira bonita, com o se ela tivesse acabado de sair do banho. Ela realm ente parecia preguiçosa.
— Você não teve problem as por isso?
Ela levantou os om bros e deixou-os cair novam ente, desleixadam ente.
— Ninguém tem m uitos problem as por aqui, Thea. A Sra. Holm es conversou com igo. E eu m e acostum ei a acordar cedo.
— Você pode ter problem as aqui — disse Sissy . — Eu não enfrentaria a Sra. Holm es.
— Quem tem problem as? — perguntei.
— No m ês passado, a irm ã de Gates e outra garota foram pegas fum ando. No ano passado, um a garota estava se encontrando com um garoto de Asheville no bosque. As fum antes receberam um a advertência. A outra garota foi expulsa no dia seguinte. Ninguém soube o que aconteceu com ela até a Sra. Holm es anunciar depois da oração da m anhã. Foi com o se ela tivesse desaparecido.
Estávam os na casa de banhos agora, que não era nada m ais do que um côm odo grande cheio de banheiras, dispostas a cerca de um m etro e m eio um as das outras, em fileiras. Docey abriu cam inho entre garotas nuas, entregando-lhes toalhas.
— Ninguém olha — sussurrou Sissy enquanto entrávam os, m exendo nervosam ente em um a delicada ferradura de diam ante pendurada no pescoço.
O que não era verdade; eu olhei. Todas olhavam . A hora do banho era um exercício de evitar ser flagrada olhando para as outras garotas. Mary Abbott era a m ais m agra dentre nós, parecia que dava para soprá-la, leve com o um a pena. Eu era m agra, m as m eus m em bros eram definidos pelas cavalgadas. A água quente era agradável e eu fechei m eus olhos e afundei a cabeça. Esfreguei o couro cabeludo, o ponto m ais oleoso no topo. O recinto estava em baçado com toda aquela água quente, perfum ado pelos vários sabonetes e hidratantes.
Ficávam os em silêncio enquanto tom ávam os banho, com o se fingíssem os estar sozinhas.
Então Docey parou à m inha frente com um a toalha e o banho acabou.
— Obrigada.
Mas ela j á tinha se dirigido para outra garota. Percebi que ninguém agradecia. Tentei tim idam ente deslizar para dentro da cam isola, o que se provou im possível. Avistei um a garota com cabelo de um louro-branco em um a banheira perto do canto, e a posição de seu rosto logo acim a da linha d’água m e deu um arrepio na espinha.
Docey estava com Mary Abbott. Gates e Victoria protegiam um a à outra com suas toalhas enquanto se vestiam , m as era possível ver perfeitam ente a silhueta de seus corpos. Era bizarro, senti bastante intensam ente. A coisa m ais estranha até agora na sem ana m ais estranha de m inha vida. Eu sabia que estávam os em segurança, m as parecia um a coisa tola nos colocar todas j untas dessa m aneira, todas no m esm o lugar, nuas.
Victoria passou apressada por nós voltando ao aloj am ento, e Sissy analisou sua figura batendo em retirada. Victoria tinha olhos m uito j untos, e um rosto longo e estreito; parecia im provável, m as ela era bonita.
— Victoria — falou Sissy .
— Ela parece um m acaco m uito m agro, m uito bonito.
Sissy caiu na gargalhada, teve que parar e se apoiar em um a árvore de tanto rir. A única outra pessoa que eu conseguia fazer rir tanto assim era Sam . Fiquei parada, nervosa; o que eu diria quando ela parasse de rir? Ainda tínham os m uitos m inutos para preencher.
— Parece m esm o! — exclam ou Sissy , finalm ente.
— Não se pode tom ar banho sem pre que se quiser, pode? — perguntei a Sissy, depois de um m inuto ter passado.
Ela negou com um gesto de cabeça enquanto andávam os.
— Acho que dá para entrar escondida. Com o um a bandida do banho. — Ela sorriu, os olhos azuis enrugando-se, e não consegui evitar sorrir de volta. Sissy era tão despreocupada...
— Fique parada — pediu ela, e se lançou atrás de m im . Senti m eus cabelos sendo levantados do pescoço.
— O que... — com ecei, surpresa, m as Sissy apenas torceu a água dos cabelos, pela segunda vez naquela noite.
— Pronto — m urm urou ela, ainda atrás de m im , as m ãos em m eu cabelo. — Por que você chegou tão tarde, Thea?
Ela enxugou delicadam ente a água do m eu pescoço com um a toalha. Minha m ãe m al tinha m e abraçado quando parti. Fora doloroso para Sam olhar para m im . Então essa era a prim eira vez em sem anas que alguém m e tocava sem estar zangado, e fiquei surpresa com quanto eu estava vulnerável e com com o aquilo m e fez sentir bem . Eu queria oferecer algo a Sissy .
— Me expulsaram .
Tão logo falei, m e arrependi. O que eu estava pensando? Que essa garota iria m e confortar? Essa garota que não sabia nada a m eu respeito?
Sissy largou m eus cabelos, que havia torcido com o um a corda, em cim a de m eu pescoço. Achei que podia senti-la se decidindo.
— Ah! — disse, finalm ente. — Bem , eu tam bém fui, de certa m aneira. Mandada em bora para aprender a ser um a dam a.
Ela engrossava a voz, tornava tudo um a piada. E eu m e senti m uito grata. As bochechas de Sissy estavam verm elhas por causa do vapor, e seus cabelos caíam úm idos. Ela não parecia a garota da escrivaninha no quarto, com todas aquelas j oias e perfum es. Sissy era am iga de quase todas aqui, havia sem pre um a garota acenando para ela, aproxim ando-se dela silenciosam ente para com unicar algum a notícia. Fiquei pensando por que Sissy havia m e escolhido, e esperava ser m ais do que só novidade. Parecia que era.
— Saí um a garota, m as voltei um a dam a — Sissy entoou, na m esm a voz, e continuou fazendo isso até o aloj am ento, onde im plorei que parasse, eu estava rindo dem ais.
Senti um pouco com o se estivesse andando nas nuvens — e pensar que eu ficara nervosa sobre com o iria preencher o tem po enquanto voltávam os para o aloj am ento. Não havia por que ficar nervosa quando se estava com Sissy .
Ao entrarm os na Casa Augusta, form ávam os um a dupla. Nossas cam as j á estavam feitas por Docey, com o se estivéssem os em um hotel. Eva sorriu para nós, despreocupada, m as Mary Abbott não gostou de nos ver j untas, deu para perceber. Nós nos preparam os para deitar: Sissy aplicou crem e no rosto, Victoria escovou os cabelos. As pernas de Eva estavam penduradas no beliche, perto do m eu rosto. As unhas dos pés, pintadas. Ela estava lendo o livro da m esa de Sissy .
Gates estava concentrada em sua escrivaninha, praticando caligrafia, e sua letra era horrível, redonda e confusa. A Srta. Lee, nossa professora de etiqueta e oratória, havia balançado a cabeça em desaprovação para o trabalho de Gates hoj e. Gates fez um a pausa e balançou a m ão dram aticam ente.
— Dói! — gritou ela.
Seu cabelo louro-suj o tinha um corte chanel, e havia duas presilhas, adornadas com pérolas m ínim as, um a sobre cada orelha. Ela parecia um a garota que não queria cabelo no rosto.
— Espere até a aula com eçar — falou Sissy . — Aí vai doer m esm o.
Gates fez um a careta, e todos riram , até Mary Abbott.
— Que outras aulas elas vão ter? — perguntei. — As estudantes — acrescentei, quando Sissy m e olhou inexpressivam ente.
Nossas m anhãs eram dedicadas a aulas: oratória, depois etiqueta, francês, em seguida um instrum ento m usical (piano para m im ). Depois vinha o alm oço, então a hora do descanso, depois cavalgada, atividades de “lazer”: observação de passarinhos, botânica, pintura. Após isso, tem po livre até o j antar, que norm alm ente passávam os na Sala do Castelo, apelidada de Sala de Estudos, em bora ninguém parecesse estudar ali. Eu não era boa na observação de pássaros: tudo o que eu avistara eram falcões e beij a-flores, que eram os m ais com uns.
— As estudantes? — perguntou Sissy .
Gates baixou o livro, cuidadosam ente, certificando-se de m arcar a página com um m arcador de prata. Eu vi que tinha um m onogram a quando estava espionando.
— Algum as garotas vão em bora — com eçou ela, devagar —, m as a m aioria fica. — Sua voz estava aguda, entusiasm ada. Ela m e olhou de m aneira solene. Senti m eu pescoço quente, um sinal revelador de rubor.
— Entendi — falei.
— É que — continuou Sissy — som os todas estudantes. Este é um aloj am ento de m eninas que ficam o ano todo.
Ela m e olhou cautelosam ente por um m om ento, e eu sorri. Sissy não entendeu que eu não era um a estudante, que eu só estava naquele aloj am ento porque não houvera outro lugar para m e colocar.
Gates voltou à caligrafia, pressionando tão forte o papel que ele rasgou; ela gritou de novo em desespero. Sissy estava apoiada nos travesseiros e pegou seu trabalho de costura, um belo bordado de um riacho em um a m ontanha. Eu a observei pacientem ente preencher o riacho, ponto azul por ponto azul. Esse lugar era m uito estranho. Ontem um a dúzia de nós havíam os nos sentado do lado de fora atrás de cavaletes, encarando as m ontanhas e sendo orientadas a pintá-las. Henny cam inhava atrás de nós, m urm urando com aprovação diante de certas pinturas, estalando a língua tristem ente para outras. Eu havia recebido um estalar de língua, claro; não era boa na observação de pássaros, ou em costurar linhas retas, ou em pintar um a folha que parecesse um a folha, atividades que nem conseguia im aginar que fosse praticar quando deixasse esse lugar.
Cham ava-se Escola de Equitação, m as não era nem som ente um a escola de equitação nem um lugar para m oças. Supunha-se que nos transform ássem os em dam as. Pensei em onde isso m e deixava. Eu ainda pensava em m im m esm a com o um a garota, m as não era com o m inhas colegas de aloj am ento. Eu nunca m ais seria um a garota assim .
E será que algum dia eu tinha sido com o elas? Em casa, eu era um a garota entre garotos e hom ens. Não havia ninguém m ais bonita, ou m ais rica, ou de m aneira algum a m elhor do que eu. Eu im aginava, claro, se tal pessoa existiria, e sabia que devia existir, m as então esse pensam ento saía da m inha cabeça. Meu lugar na fam ília era tão bem definido que eu não tinha necessidade de pensar no que poderia ser por m uito tem po.
Minha m ãe era nosso padrão de beleza. Eu não sabia nada sobre enrolar o cabelo, porque m am ãe ainda usava o dela preso. E ela nunca pintara as unhas; pensar nisso m e fazia sorrir. Eu sem pre pensara nela com o atem poral, com o as m ulheres que eu via nas pinturas que papai m e m ostrava durante nossas aulas. Mas agora podia ver que ela estava fora de m oda, que era de um m undo diferente. Não m enos bonita, m as talvez m enos adequada.
Henny entrou apressadam ente e apagou todas as luzes, nos desej ando boa-noite.
Gates acendeu um a vela, para ler. Toquei no lenço sob m eu travesseiro.