Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 3 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 3

 

Um a carta de papai chegou no m eu sétim o dia em Yonahlossee. O carim bo postal era de Atlanta. Beij ei a carta. A caligrafia dele era inclinada e floreada, com o a de um a m ulher. Eu nunca na vida tinha recebido um a carta. Um cartão-postal um a ou duas vezes de Georgie, quando ele fora ao Missouri visitar a fam ília da m ãe. Mas qualquer um podia ver um cartão-postal — era lido prim eiro por m am ãe antes que ela m e entregasse. Ninguém no m undo sabia o que havia no interior da carta, exceto m eu pai, e agora eu.

Querida Thea,

Fiquei com muita pena de ir embora do acampamento. Embora eu deva dizer que é um

lugar lindo para se passar um tempo. Antes de a sua mãe me conhecer, ela adorava ficar

com outras pessoas; sua apresentação à sociedade durou quase um ano. Vejo tanto dela em

você...

Amamos muito você. Cuide-se no acampamento. Pense nisso como uma oportunidade para

aprender mais, de diferentes (talvez melhores) professores. Não custa repetir que sua

família é sua tribo; esta fase não passa de uma interrupção em nossas vidas. Nós

mantivemos você isolada demais em casa. Devíamos tê-la feito sair antes. Aí, você vai

aprender como se comportar entre outras moças, Thea. Espero que não estejamos pedindo

muito. Sabemos o que é melhor para você, embora nesse momento você possa acreditar,

muito fervorosamente, no contrário. É assim entre pais e filhos.

Com amor,

Papai.

Ele havia cham ado de acam pam ento, não de escola — eu ficaria aqui até o final do verão, não m ais. Devolvi a carta para o envelope e a enfiei sob o travesseiro, perto do lenço de Sam . Eu não era um a criança. E era um castigo, ser m andada para cá, em bora ele e m am ãe dissessem que não; ele praticam ente adm itira isso na carta. De qualquer m odo, m eu pai só estava repetindo o que m am ãe tinha dito. Era ela que sem pre decidia o que fazer conosco.

Mas, principalm ente, eu sentia saudades do m eu pai. Eu podia ouvir sua voz, suavem ente lendo as palavras. A Srta. Lee teria dito para ele falar m ais alto.

Minhas colegas de aloj am ento estavam cochichando sobre um anúncio que o Sr. Holm es fizera no alm oço; Sissy m e falou que eu era sortuda, chegara havia um a sem ana e j á tinha um baile para ir. A m aioria das garotas esperava m eses e m eses por um baile, a visão radiante de um rapaz para tornar os m eses de inverno suportáveis.

Fechei os olhos, em bora nenhum a garota usasse a hora do descanso para cochilar. Mas eu estava exausta: tinha ficado acordada a noite anterior decorando um poem a de Robert Frost, “The Cow in Apple Tim e”, para a aula de oratória. Eu j á havia lido Frost antes, em casa, m as a Srta. Lee só estava interessada em com o nós pronunciávam os cada palavra, com o im postávam os a voz, não no que o poem a pudesse significar.

Em bora Yonahlossee fosse um lugar estranho para m im , estava rapidam ente se tornando fam iliar. Não sentir saudade de casa pareceu no com eço inconcebível, m as acabei entendendo com o o coração hum ano operava, que ele era volúvel, caprichoso.

* * *

Nasci na casa de onde m eus pais m e expulsaram , construída por m eu pai com o um presente para sua noiva. A fam ília da m inha m ãe era “Nova Flórida”, com o eram cham adas as fam ílias que foram para lá depois da Guerra Civil, quando a Geórgia não era m ais um lugar razoável para se viver. Meu bisavô, Theodore Fisk — cuj o nom e deu origem ao m eu —, decidiu-se pela Flórida porque era perto, e ele ouvira falar que havia terra lá, sem valor com ercial, à disposição.

No início, ele e a esposa eram pobres; m ais tarde, ricos donos de terra. Quando a estrada de ferro foi construída — contam que Henry Flagler se divertiu e nam orou na casa da fam ília Fisk —, a fortuna da fam ília da m inha m ãe se m ultiplicou exponencialm ente. A Sra. Fisk serviu ao Sr. Flagler um a fatia de torta de lim ão, um a iguaria que o hom em do Norte nunca havia provado. Desde então, os frutos cítricos foram transportados pela estrada de ferro, e nasceu um a indústria.

A fam ília do m eu pai era “Velha Flórida”, de ascendência espanhola. Não eram tão ricos quanto o lado da m inha m ãe: criavam gado em um a terra que não era de ninguém até que a Flórida com eçou a vender essa terra, e então tornou-se im possível levar o gado para o sul, atravessando residências e m uros recém -construídos, de onde seriam em barcados para Cuba.

A Flórida era um lugar diferente na época. Meu pai e seu irm ão m ais velho, George, iriam precisar de um novo m eio de vida. Meu pai, Felix, conseguiu um a bolsa para estudar na Faculdade de Medicina de Atlanta; George, na Escola de Direito em Illinois, m as am bos voltaram — cada um com um a nova esposa. Minha m ãe, Elizabeth, cursava o segundo ano na Faculdade Agnes Scott e deveria encontrar um m arido na Geórgia quando conheceu m eu pai em um baile pouco form al. Ela tinha vinte anos; ele, cinco anos a m ais. Era um a com binação perfeita.

George e a nova esposa, Carrie, se instalaram em Gainesville, cidade bem próxim a de Em athla. Meu pai podia ter se instalado em qualquer lugar, m as queria aj udar as pessoas; por isso, escolheu um local onde era o único m édico em quilôm etros de distância. Pelo m enos, foi assim que sem pre explicaram para m im e Sam : poderíam os ter m orado em qualquer lugar, m as m orávam os onde m orávam os por causa da bondade de papai. E no início, m am ãe, acostum ada à agitação de Miam i, pensou que ficaria solitária em um lugar tão rural. Mas a m agia da nossa casa era que ela destruía a solidão. Era possível ver outras pessoas — e m am ãe fazia, um a vez a cada poucas sem anas, um chá com um a vizinha, um a reunião da Cam ellia Society —, m as outras pessoas e lugares som ente faziam com que você am asse ainda m ais a sua casa, os seus parentes.

Estes eram os m eus: Sam , m inha m ãe e m eu pai; tio George e tia Carrie e o filho deles, Georgie, m eu prim o.

Essa era nossa prim eira história, a história de com o acabam os nos estabelecendo nesse pequeno pedaço de paraíso encravado na interior da Flórida. Sorte, em parte, m as tam bém am or: m am ãe e papai ficaram noivos duas sem anas depois de se conhecerem . George, Carrie e Georgie eram parte dessa história, claro, não o centro dela, m as agora era fácil ver com o a história teria desm oronado sem eles. Precisávam os deles em Gainesville para ilum inar nossa vida.

* * *

O sino tocou, indicando o fim da hora de descanso, e acordei de um salto.

— Até que enfim ! — exclam ou Gates.

Ela gostava de m ontar tanto quanto eu. Todas as outras j á estavam colocando os culotes de m ontaria e as botas. Era a prim eira vez que cavalgaria com todas as outras e eu estava tão nervosa quanto entusiasm ada, um a com binação que eu adorava. Enfiei m inhas botas com o calçador e percebi Sissy observando de canto de olho. Ela sorriu, sorri de volta. Eu queria m uito agradá-la.

Enfiei a cam isa para dentro do culote. Usávam os culotes brancos em Yonahlossee; até o suede nos j oelhos era branco. Nossas roupas eram lavadas pelas em pregadas, então não nos im portava o quanto elas ficavam suj as, m as m e parecia um a tolice nos vestirm os exclusivam ente de branco.

Quando saí do aloj am ento e senti o cheiro dos pinheiros e os raios de sol, vi Sissy m e esperando.

— Um a carta?

— Da m inha m ãe.

Eu m e lem brei de quando espiei as coisas delas, que os pais de Eva e Sissy não haviam escrito, som ente as m ães.

— Minha m ãe m e escreve — com entou Sissy — três vezes por sem ana. Mas as cartas são tão m açantes. Minha irm ã, quase nunca, só quando é obrigada.

Outras garotas se agruparam ao nosso redor, todas vestidas de m aneira idêntica. Elas acenaram para Sissy e, com o eu estava com ela, para m im tam bém . Sorri de volta. Eu nunca havia sorrido para tantas pessoas na vida.

— Odeio escrever cartas — retruquei —, dem ora tanto para escrever o que você poderia dizer em m etade do tem po.

Eu sentia um frio na barriga; fiquei contente de Sissy m e distrair.

Outra garota passou, tão perto que esbarrou no m eu braço. Com ecei a falar algum a coisa, m as parei. Era a garota com o cabelo quase branco que eu vira tom ando banho. E, percebi com um leve, prazeroso choque de reconhecim ento, a garota cuj a fotografia com o cavalo eu vira no Castelo. Eu sabia antes m esm o de Sissy dizer seu nom e.

— Aquela é Leona.

Nós duas observam os Leona desaparecer depois de um a curva. Havíam os passado das latrinas, e j á estávam os quase nas cocheiras. Leona era im ensa, a distância de suas passadas era o dobro das m inhas. Seu cabelo louro-branco estava preso em um coque bem arrum ado. Suas botas eram azul-m arinho, a única garota entre nós que não tinha botas pretas.

— Ela é de Fort Worth — disse Sissy. Ela pronunciou Fort Worth com o se estivesse falando de outro lugar, m ais im provável... Constantinopla, Porto Príncipe. Sissy estava sussurrando, m esm o Leona tendo desaparecido. — O pai dela é um especulador de petróleo que prosperou, a m ãe é da realeza. Ela tem o próprio cavalo, trazido de trem . Ela é treinada por m estres da equitação. Trazer o cavalo custou m ais do que suas despesas de aloj am ento e alim entação. — Leona não tinha cum prim entado Sissy. Fiquei im aginando se Sissy falou a verdade quando disse que a m ãe de Leona era da realeza, e decidi que não. Eu não conhecia m uito do m undo, m as não achava que houvesse princesas no Texas. — Ela ignora todo m undo, em geral.

Leona de Fort Worth, Thea de Em athla. De todos os lugares neste m undo, eu estava na Escola de Equitação Yonahlossee para Moças. Era um a e m eia. Eu era um a entre dezenas de garotas a cam inho da aula diária de equitação. Sissy havia unido seu braço ao m eu; sua pele era m acia, cheirava levem ente a água de rosas. Em casa, m am ãe estaria do lado de fora, no j ardim , um a toalha em volta do pescoço para enxugar o suor, um chapéu frouxo e gasto na cabeça para proteger a pele clara. Meu pai estaria trabalhando. Quinta-feira era um dos dias que ele viaj ava, então estaria na casa de alguém , dando um a inj eção, escutando algum a queixa de dor. E havia Sam .

Sam estaria alim entando seus esquilos. Eles tinham que ser alim entados frequentem ente, m ais do que um bebê hum ano — era o que m am ãe sem pre dizia, que Sam cuidava dos anim ais com m ais dedicação do que a m aioria dos pais fazia com os filhos. E ele era dedicado, m eu irm ão, dedicado e bom . Não era a prim eira vez que Sam criava um a ninhada de esquilos — era m uito com um as m ães serem capturadas por guaxinins. Os ninhos estavam sem pre escondidos em cantos que som ente Sam tinha paciência suficiente para descobrir.

Quando tive que m e despedir, depois de tudo ter acontecido, ele estava do lado fora, na varanda, segurando um deles.

— O filhote agora tem pelo — falei, porque não sabia m ais o que dizer.

Era de m anhã cedo, m as estava quente. O esquilo estava m enos feio do que estivera um a sem ana antes. Ele parecia tão vulnerável; eu podia ver por que Sam o am ava.

Ele usava as roupas do dia anterior. O cabelo estava desalinhado, espetado em todas as direções da cabeça. Isso m e assustou um pouco. Eu queria abaixá-lo, m as sabia que não podia tocá-lo. Os contornos dos seus olhos estavam cor-de-rosa. Naquele m om ento, seus olhos cor de avelã estavam tão escuros que quase pareciam castanhos. Eu sabia que, em plena luz do sol, eles ficariam claros novam ente, translúcidos. Nossos olhos eram diferentes. Os m eus eram de um castanho puro, com o os de papai.

— Você dorm iu? — perguntei, em bora soubesse a resposta.

Eu tam bém não tinha dorm ido; na verdade, eu havia entrado no quarto de Sam , esperando encontrá-lo. Em vez disso, no côm odo pouco ilum inado, consegui discernir vagam ente o contorno da cam a arrum ada, que parecia tão perfeita e intocada que com ecei a chorar, em bora não soubesse dizer por quê. A visão da cam a perfeita, arrum ada prim eiro por Sam , depois esticada m ais tarde por m am ãe, m e perturbou. O ventilador elétrico estava voltado para o espaço onde ele teria dorm ido, e zum bia continuam ente, sem refrescar nada.

Eu o desliguei e fui até a j anela, que fornecia um a vista do nosso quintal. Mas cham ar aquilo de quintal era falso; era o início dos nossos m ilhares de acres. Não havia cerca, nenhum lim ite. Os j ardins de m am ãe entravam pelo pom ar de laranj as. Aquelas laranj as não estavam à venda, eram para m inha m ãe, que as adorava, dizia que não podia viver sem elas.

Sam estava sentado na gram a, perto do j ardim de rosas da m am ãe, que estava florescendo. Eu não podia sentir o cheiro daqui, m as ele, sim . Eu o observei por um longo tem po; ele não se m exeu, perm aneceu sentado, im óvel com o um a estátua. Ele sem pre fora capaz de se sentar e ficar parado por m ais tem po do que eu; eu era inquieta, agitada.

Eu não conseguia ver seu rosto. Som ente as costas estreitas, os braços m agros. A voz dele estava com eçando a m udar. Eu sabia o que acontecia com a voz dos garotos; Georgie era dois anos m ais velho e a voz dele havia m udado alguns anos antes. Eu podia ouvir a voz de Sam bem agora, um a voz infantil, tão bonita e leve. Eu desej ava poder gravá-la antes de ela m udar.

Se Sam tivesse se virado para m e encarar, eu teria visto seu olho m achucado, o pequeno corte abaixo dele. Ferim entos m enores, sarando rapidam ente. Papai os cham ou de superficiais. Pelo que eu m e lem bro, foi a prim eira vez que vi Sam se m achucar. Tentei m uito m e lem brar se houve outra vez, m as não consegui. Eu tinha quebrado o braço duas vezes, e m e m achucado m ais do que podia contar. Era isso que acontecia quando você cavalgava. Mas Sam não cortej ava o perigo. Não era de seu feitio.

Ele virou a cabeça com o se tivesse ouvido algo, e provavelm ente ouvira: o farfalhar de algum anim al nos arbustos. Vi seu perfil à luz da lua. Nós dois tínham os o nariz de papai, que era forte, m as bonito. Pensei por um segundo que ele podia m e sentir observando-o. Coloquei a m ão na j anela.

— Sam — m urm urei.

Ele baixou o olhar na direção de algo, e eu sabia que ele estava segurando um dos filhotes de esquilo; até que ponto ele estava desestabilizado, até que ponto eu o havia m achucado, estava confirm ado. Porque quantas vezes ele m e dissera para não tocar em um filhote de anim al selvagem , que, se eu tocasse, ele ficaria acostum ado ao cheiro hum ano e, quando fosse solto na natureza, não teria m edo dos hom ens. E anim ais selvagens precisavam ter m edo de nós, para sobreviver.

— Thea? — perguntou Sissy . — Você está bem ?

Olhei de lado para ela. Ela não conhecia os segredos obscuros do m eu coração. Eu sabia que Sam pensava em m im com a m esm a frequência com que eu pensava nele; que quando ele não estava dorm indo, eu estava na cabeça dele. Dentro dela, am eaçando deslocar todo o restante com o acontece com um peso j ogado na água. Mas ele não conseguiria im aginar m inha vida em Yonahlossee, o que podia ser um a benção ou um a m aldição. Eu não sabia.

Logo chegam os nas cocheiras e cada um a seguiu seu cam inho. Inspirei profundam ente: o cheiro nas cocheiras era sem pre o m esm o, um m isto de feno e estrum e. Ou você gostava dele ou não. Um cavalariço — o rapaz bonito que Eva havia m encionado em m inha prim eira noite aqui — m e m ostrou m eu cavalo: Naari, um a égua cinza m osqueada de focinho rosa.

— Obrigada — disse ao cavalariço. — Vou prepará-la.

Estalei a língua, e Naari olhou por cim a de seu m onte de feno. Havia centenas de pintinhas m arrons espalhadas por seu pelo branco, por isso o term o, que sem pre achei um a m aneira horrível de descrever um padrão tão bonito. Eu estava anim ada, em bora tentasse não ficar. Não queria ficar m uito apegada a Naari, porque teria que deixá-la quando fosse em bora.

Depois de preparar a égua, entrei em um a fila com as outras garotas do grupo, os cavalos tão perto um do outro que o focinho de Naari quase tocava o rabo averm elhado do alazão à sua frente. Leona estava no início da fila, a líder de fato do m eu grupo. Seu cavalo castrado era enorm e, assim com o a dona. Ele era lindo, um grande cavalo baio com patas brancas e um a m ancha da m esm a cor descendo pelo rosto. Tam bém o reconheci da foto.

Sissy estava na turm a interm ediária; eu podia vê-la na pista seguinte em um apalusa m agro, seus cabelos castanhos voando por cim a do rosto enquanto ela trotava. Eu estava na turm a avançada, com cerca de vinte outras garotas, entre elas Gates, Leona e um a m enina cham ada Jettie, que se sentava à m esm a m esa de j antar que eu. A turm a avançada era a m enor, e o privilégio de fazer parte dela era enorm e: você não tinha que com partilhar seu cavalo. Todos os outros eram com partilhados, exceto os nossos.

Sissy era a am azona m ais fraca do seu grupo. Percebi que seria m ais fácil ser am iga dela porque eu era m elhor, m uito m elhor, em cim a de um cavalo.

Observei o Sr. Albrecht gritar as instruções de sua m aneira calm a e firm e. Eu gostava dele. Com o passar dos anos, m am ãe m e ensinava cada vez m enos sobre cavalgar e, em bora agora ela ocasionalm ente m e desse algum conselho, eu era sobretudo autodidata. O Sr. Albrecht era um m estre de saltos treinado na Alem anha, ele ganhara um a m edalha de bronze individual nas Olim píadas da Bélgica em 1920, e um a de prata por equipe. Ele j á m e aj udara a sentar, m e ensinara um a nova m aneira de m e encaixar na sela que eu achei m ais eficaz. Os cavalos de Yonahlossee eram todos puros-sangues, nossas pistas, planej adas por um consultor em saltos, um am igo da Alem anha do Sr. Albrecht; as cocheiras eram tão agradáveis, para não dizer m ais agradáveis, quanto nossos aloj am entos, os corredores alinhados com tij olos, cada baia com duas j anelas para ventilação e venezianas grossas e resistentes para o inverno. Apesar das boas intenções da Sra. Holm es, o restante da nossa educação era secundário em relação aos cavalos, com o aprendi em m eu prim eiro dia, quando faltei às aulas da m anhã para m inha avaliação de m ontaria.

Em casa, papai nos ensinava das sete às dez da m anhã, quando então saía para ver seus pacientes. Idella, nossa em pregada, nos servia o café da m anhã enquanto ele nos explicava ideias contidas em livros. As garotas do m eu aloj am ento achavam estranho que eu nunca tivesse frequentado um a escola de verdade antes, m as elas não sabiam : tínham os sorte de ter nosso pai com o professor, pois ele era brilhante, certam ente m ais inteligente do que os professores de Em athla. Eu cavalgava a tarde toda, e Sam j ogava tênis contra a parede da garagem , e cuidava dos terrários e de seus anim ais resgatados.

— Turm a adiantada! — gritou o Sr. Albrecht. — Venham ! — Ele bateu palm as.

Leona m ontou e, por um instante, ela e o cavalo pareceram um centauro: parte cavalo, parte m enina. Então eu e o restante da turm a adiantada subim os nas selas. Gates fazia um a figura bonita no cavalo, m agra, elegante e em pertigada. Jettie, baixa e forte, parecia poderosa na sela.

Ficam os em nossas m ontarias por um m om ento enquanto o prim eiro grupo enfileirado passou por nós, os peitos dos cavalos salpicados de saliva branca. Era verão, com eço da tarde. Em Em athla, era preciso ficar dentro de casa durante essa parte do dia, quando o sol estava alto. Seria perigoso cavalgar; você podia acabar m atando seu cavalo. Durante o verão, eu acordava antes de todo m undo e cavalgava até am anhecer, antes das aulas, e m esm o então eu tinha que levar um lenço velho para enxugar o suor de Sasi das rédeas. Sam e eu saíam os de qualquer form a, às vezes à tarde, e então ficávam os tontos do calor e do perigo em si — m am ãe ficaria furiosa se soubesse —, nossos cérebros fritando em nossas cabeças, o sol tão poderoso que parecíam os estar pegando fogo por dentro. Subíam os em carvalhos, eu encoraj ava Sam a ir cada vez m ais alto, e depois nos deitávam os em um galho por horas, procurando algum sinal de vida lá em baixo — som ente os répteis, insensíveis ao calor, se apresentavam : grossas cobras pretas, inofensivas, e lagartos verdes, brilhantes e velozes.

Aposto que nunca ficava tão quente em Yonahlossee. Essas garotas, elas não saberiam com o sobreviver com tanto calor. Então o enorm e cavalo de Leona — ele devia ter m ais de dezoito palm os — com eçou a andar, e Naari se m oveu em baixo de m im . Circulam os o picadeiro em um a única fila e depois, um a um , com o se fosse orquestrado, os cavalos se separaram e buscaram o próprio espaço; eu fui em direção ao finalzinho do picadeiro, m ais perto das m ontanhas. Eu era um a garota da Flórida, acostum ada a céus enevoados e planícies; as m ontanhas eram com o nuvens para m im , tão grandes e expressivas que pareciam possíveis de se alcançar.

Naari era inquieta e rápida; percebi im ediatam ente que gostaria dela. Ela era m uito inteligente, eu j á podia ver pela m aneira com o ela m e testou, torcendo o tronco para que pudesse carregar seu peso desigualm ente, puxando para o lado esquerdo para ver se eu iria notar. Realm ente notei, a corrigi com veem ência, puxei para trás a rédea esquerda, apertei as panturrilhas contra o corpo dela para que acelerasse e se endireitasse. Era um anim al inteligente, porém m edroso, duas características que pareciam sem pre vir j untas em cavalos. Um esquilo subiu em um a estaca, e Naari deslizou de lado.

Pensei nas próxim as sem anas, quando nos conheceríam os e nos entenderíam os, e quase m e levantei da sela de ansiedade. Às vezes, esse sentim ento m e afetava dessa m aneira, com o se eu pudesse senti-lo pulsando nas veias. Suponho que fosse coisa de m eninas.

Observei Leona guiar King em um a figura de oito. Ele ficava abaixando o om bro na diagonal, e ela o corrigia. Ela olhava bem em frente, que é para onde se deve olhar, m am ãe sem pre m e lem brava: “Olhe para onde você quer ir, e Sasi irá até lá.” Olhar para m inhas m ãos era um hábito que eu não conseguia perder; nem eu conseguia fingir que um a vassoura estava enganchada em m eus braços, para m anter m inhas costas arqueadas e m eus braços posicionados da m aneira correta. Leona passou pela diagonal m ais um a vez, e dessa vez King passou trotando suavem ente. Leona o virou, de form a brusca, e encontrou m eu olhar por um breve instante, e eu apertei Naari em um trote, envergonhada por ter sido flagrada observando.

Marcham os para fora do picadeiro quando o tem po de cavalgar term inou, Leona ainda liderando, m as tudo bem . Ela tinha m ais experiência técnica do que eu, fora treinada por m estres, m as não era m elhor. Eu não era um a am azona fisicam ente tão forte quanto Jettie, ou tão bonita quanto Gates, m as tinha j eito com cavalos; conseguia levá-los a fazer qualquer coisa que eu quisesse. Senti-m e estranham ente poderosa: um a garota de quinze anos, encarcerada nas m ontanhas, rodeada por estranhos. Mas eu ficaria bem ; iria m e destacar neste lugar.

* * *

Eu estava m exendo nervosam ente em m eus livros enquanto o Sr. Holm es liderava a oração da m anhã. Conseguia perceber pelo canto do olho Henny m e observando. Às vezes, eu olhava para cim a e analisava o teto quando deveríam os estar rezando. Nunca vira nada assim antes, estanho im presso com um intrincado padrão de flores. Rododendro, Sissy m e dissera, e m ais tarde apontou um grupo de arbustos com bonitas flores cor-de-rosa que contornavam o cam inho para as cocheiras. Im aginei, com o frequentem ente fazia, quem teria realizado aquele trabalho, e se teria levado horas ou dias, dias ou m eses, e deixei a voz do Sr. Holm es sum ir ao fundo. Ao que m e parecia, ele pedia as m esm as coisas todas as m anhãs: saúde, felicidade e prosperidade. Eu não conseguia m e acostum ar a ficar sentada por tanto tem po; prim eiro no café da m anhã, depois aqui, depois em todas as aulas. Quando chegava a hora do alm oço, sentia-m e um anim al enj aulado.

E apesar de ainda ter saudade de casa, m uita, eu estava m e acostum ando a essa nova ordem de coisas. Estava aprendendo. Eu sabia, por exem plo, que, em bora Yonahlossee a princípio tivesse parecido gigantesca, não era nem m esm o tão grande quanto nossa fazenda, apenas trezentos acres, e a m aior parte era de terreno m ontanhoso, inabitável.

O Sr. Holm es rem exeu um a pilha de papéis em seu púlpito. Todas nós prestávam os atenção, na m aior parte do tem po. A Sra. Holm es captou m eu olhar algum as vezes quando percebeu m inha atenção divagando. Ela se sentava ao lado do m arido, j unto com as três filhas. Quando não estava olhando o teto, eu observava as garotas Holm es, que m e fascinavam . Agora m esm o Sarabeth colocou a m ão sobre Decca, para que ela parasse de se m exer. Sarabeth era a m ais velha, de onze anos, e fazia lem brar a m ãe. Rachel era a seguinte, com dez anos, e era geniosa, um a tem pestade sem pre passando por seu rosto, ou am eaçando passar, enquanto o pai falava. Eu as invej ava. A diferença entre as garotas Holm es e todas as outras era clara: elas não estavam sozinhas.

Decca era alta e m orena com o o pai, e m esm o aos sete anos dava para ver que continuaria alta e m orena, parecia quase certo que cam inhava para ser linda. Era inj usto que a natureza tivesse sido tão precisa: cada criança nascia m ais bonita, Sarabeth fora a prim eira tentativa, Decca era perfeita.

Decca captou m eu olhar e olhei para o outro lado, m as não sem antes vê-la sorrir. Im aginei o que ela pensava de m im . Será que m e achava bonita? Será que as outras garotas achavam ? Eu não tinha certeza onde eu estava nesse quesito. Minha m ãe era linda, isso eu sabia, tanto porque podia ver por m im m esm a quanto porque era um fato em nossa fam ília. Ela até havia sido m odelo para um chapeleiro, por pouco tem po, antes de conhecer m eu pai. Eu era parecida com ela, m as sem pre soubera que não era linda. Eu tinha o cabelo da m inha m ãe, que era castanho-averm elhado e ondulado, selvagem . Um a vez vi um a foto de Am elia Earhart em um a revista; a m anchete a cham ava de vistosa. Eu achava que era isso que eu era. Vistosa.

— E m ais um a coisa — disse o Sr. Holm es e fez um a pausa. Ele levantou o olhar e nos fitou. O diretor estava na frente da j anela, o que perm itia a vista m ais perfeita das m ontanhas no acam pam ento inteiro. Quando ele olhava para nós dessa m aneira, era com o se a sala desaparecesse, com o se estivéssem os todas no topo da m ontanha. Alice Hunt se esticou a m eu lado. Todas ficam os apreensivas. — Algo m uito sério. — As cabeças se ergueram . — Vocês conhecem Herbert Hoover? — Um riso nervoso se espalhou pela sala. — Ah, claro, não pessoalm ente. — Ele sorriu, e m e peguei sorrindo de volta. — Em bora eu ouse dizer que algum as de vocês talvez j á tenham se encontrado com ele. — De canto de olho, exam inei Leona, que estava sentada perto de Sissy. Talvez Leona fosse um a das garotas que pudesse ter conhecido o presidente. — Nosso presidente falou recentem ente sobre sua crença de que o país vá se recuperar dessa crise financeira. — Ele segurou um j ornal, em bora estivéssem os todas m uito longe para enxergar. Um a garota na m inha frente bocej ou. — Esse é um pouco velho, claro.

Fez um a pausa, com o se esperasse pela nossa risada, que, claro, foi o que se seguiu. Todas as revistas e j ornais eram , no m ínim o, “um pouco velhos”. O m ais frequente era que fossem de m eses e m eses atrás, m andados para nós por m ães e irm ãs.

— Aqui o presidente declara que a Depressão acabou. — Ele deu tapinhas no papel, de leve, com a ponta dos dedos. — Ele pede o nosso esforço continuado para apoiar a econom ia.

Gates, que estava sentada em um a fila na frente, levantou a m ão.

— Sim , Gates? — O Sr. Holm es dobrou o j ornal cuidadosam ente enquanto a m oça falou.

— Com o podem os aj udar? — perguntou ela.

Pensei que talvez ela estivesse sendo im pertinente, m as o Sr. Holm es não achou.

— Boa pergunta — disse ele —, e um a das m elhores respostas deve vir dos pais de vocês. Para colocar de form a clara, dinheiro gera dinheiro. — Até a Sra. Holm es sorriu um pouquinho, atrás do m arido. — Encoraj em seus pais a investir, a gastar, a confiar nos bancos.

De início, eu não entendi o que havia causado a alegre gargalhada que se seguiu à resposta do Sr. Holm es. Sissy estava dando risadas perto de m im , e enquanto eu olhava seus dedos bonitos cobrirem a boca, entendi com pletam ente: não havia nada que pudéssem os fazer para aj udar. Não éram os nada além de filhas. A ideia de que pudéssem os oferecer conselhos financeiros a nossos pais era, sem dúvida, risível. Eu sorri, tam bém , m as não porque havia achado engraçado; sorri para não parecer diferente das outras garotas.

— Vam os rezar para que, quando vocês deixarem Yonahlossee, entrem novam ente em um m undo m ais feliz — concluiu o Sr. Holm es, e deu um passo atrás para que sua m ulher pudesse dar um passo à frente.

Eu não ouvia o nom e Hoover desde que saíra de casa. Pensei no tio George, que havia retornado de Miam i da últim a vez e disse que não voltaria, que era inútil, que o banco podia ficar com tudo. A form a com o o presidente Hoover estava lidando com a crise era um ponto de discordância entre m eu pai e o irm ão dele: m eu pai achava que ele estava lidando bem . O tio George achava que era necessário que se fizesse m ais, e logo.

Todo m undo aqui parecia tão rico e sulista, insensível às reviravoltas do m undo... E lá estava eu, que havia aprendido a m ontar com m inha m ãe, em um pônei sem pedigree. Meu nom e do m eio não era um nom e im portante, m inha fam ília não tinha cinco propriedades nos Estados Unidos nem passava o Natal em Veneza. Estávam os bem por causa do dinheiro das laranj as, m as m eu pai era m édico, não um m agnata do algodão ou um rei do petróleo.

Yonahlossee era o lugar para onde os hom ens im portantes do Sul m andavam suas filhas. Posteriorm ente, eu aprenderia m ais sobre o lugar: um a Astor, por casam ento com os Langhornes da Virgínia, havia se form ado um ano antes de eu chegar. Um a das garotas era parente de Robert E. Lee. Sua fam ília possuía plantação de árvore-da-borracha na Malásia. Havia outras escolas para m oças, m as Yonahlossee era a m ais antiga, e deve ter fornecido certo conforto a esses hom ens, escondida com o era nas m ontanhas; ninguém podia alcançar as filhas deles aqui. Ninguém podia tocá-las. Depois da Segunda Guerra Mundial, esses m esm os hom ens com eçariam a m andar suas filhas para as escolas do Norte, onde elas teriam acesso a m ais experiências e conhecim ento. Mas, neste m om ento, experiência e conhecim ento não era o que ninguém procurava. O Sul ainda era um a terra em si m esm a; de algum as m aneiras, era um a terra que o tem po havia esquecido. Havia garotas que se recusavam a acreditar, ou pelo m enos adm itir, que o Norte havia alegado vitória na Guerra Civil.

— Obrigada, Sr. Holm es — com eçou a Sra. Holm es. Ainda havia um riso nervoso, vindo de algum lugar lá atrás, e a Sra. Holm es abruptam ente parou de falar. — Garotas!

Os risos nervosos desapareceram .

— Nessa m esm a nota, talvez de form a m ais específica — aqui ela sorriu, quase im perceptivelm ente —, perm itam -m e trazer a atenção de vocês para um a m aneira em que façam m ais pelos afortunados do que sim plesm ente m antê-los em suas orações. — Sua oratória era perfeita. A Srta. Lee teria aprovado. — No espírito da caridade cristã, por favor, considerem fazer um com prom isso de contribuição ao Fundo para as Operárias, que m oram a algum as horas de autom óvel daqui e não desfrutam de nossas vantagens.

Jettie e Henny se levantaram e cam inharam para a frente da sala, carregando um a caixa de papel com as palavras FUNDO PARA AS OPERÁRIAS cuidadosam ente escritas em verm elho. Jettie colocou um a pilha de pequenos papéis perto dela, j unto com um copo cheio de lápis, e as garotas com eçaram a se levantar e a rabiscar núm eros nos papéis, depois dobrá-los e j ogá-los na caixa. A caixa era do tipo da que m am ãe pegara na Cruz Verm elha e levara para casa, quando éram os bem pequenos e ela fazia serviço voluntário lá.

— Agradeço antecipadam ente por sua generosidade — disse a Sra. Holm es.

Eu não tinha dinheiro algum , nem um único centavo. Eu nunca tivera qualquer dinheiro, ou pelo m enos nenhum em que pudesse m exer.

— Tudo bem , garotas — disse a Sra. Holm es.

Era o que ela falava sem pre que term inava. Tratava-se de um am biente m antido pela rotina. A Sra. Holm es era bastante gentil, eu im aginava. Mas não tão gentil assim , que era com o você devia agir se ninguém estivesse escutando-o. Eu era assim quando cavalgava.

Henny se levantou. Estávam os indo para a aula — m inhas disciplinas eram oratória e etiqueta, um a após a outra. Elas eram tão m açantes que dava vontade de chorar. Meus pais nunca pareceram interessados em um a filha que tivesse caligrafia perfeita, ou que fosse capaz de distinguir um garfo de azeitonas de um garfo de lim ão (o de azeitonas tinha dois dentes; o de lim ão, três), m as fiquei im aginando se m am ãe sabia, ou se não se im portava exatam ente com o tipo de educação que eu estava tendo. Alguém beliscou m eu braço.

— Ai! — gritei.

Era Eva.

— Desculpe. — Mas ela estava dando risadinhas. — Você parece sem pre tão perdida em seu próprio m undo. Eu com i tanto! Adoro o dia dos bolinhos de batata. — Ela alisou a barriga.

Sorri.

— Eu m e entupo com o um porco assado em toda refeição.

E era verdade. Eu fazia isso. Meu apetite reaparecera após os prim eiros poucos dias.

— Eva — com entei, enquanto subíam os as escadas para nossa sala de aula —, eu não trouxe nenhum dinheiro com igo.

Parecia um a palavra suj a, dinheiro, m as Eva não deu sinais de que se im portava. Eu nunca havia conhecido um a pessoa tão despreocupada.

— Ah, isso — disse ela. — Você tem que pedir a seu pai.

Concordei, e sabia que nunca pediria dinheiro a m eu pai. Soaria com o um a confissão de que eu gostava deste lugar.

— Meu pai — continuou Eva — diz que dá o suficiente com as m ensalidades. E a Sra. Holm es vem bater à nossa porta todos os invernos, pessoalm ente, pedindo doações para a escola. Meu pai diz que ela é m uito persuasiva. — Ela sorriu, e percebi que havia colocado pó no rosto e blush nas bochechas, m as m uito sutilm ente. — Ela deve visitar seus pais tam bém . Mas talvez não, j á que você é da Flórida. — Eva parou e m ordeu o lábio. — Eu não quis dizer...

— Não — eu a interrom pi. — Tudo bem . — Chegam os à sala de aula; eu podia ver as costas largas da Srta. Lee por trás, escrevendo em letra cursiva no quadro. — Eu sei que a Flórida é... — m inha voz dim inuiu, e Eva m e olhou com expectativa — um lugar estranho — term inei. — Não é para qualquer um .