Escola de equitação para moças
Capítulo 4
No dia do baile chegou outra carta, dessa vez da m inha m ãe. Era longa, m ais de duas páginas do papel de carta com arom a de rosas de m am ãe, suas iniciais gravadas no alto do grosso papel, cor de crem e. EAC, o E e o C ladeando o enfeitado A. Elizabeth Collins Atwell.
Minha m ãe tinha um a escrita surpreendente, irregular e cheia de curvas. Querida Thea, assim com eçava a carta, e continuava falando sobre nossa horta e os enxam es de abelhas e borboletas que atraía, antes de concluir:
Sam está bem, tão bem quanto se podia esperar. Contudo, ninguém sabe exatamente o que
esperar. Tudo está por decidir, e vai ficar assim por um tempo, eu imagino. Às vezes, fico
tão zangada com você... Outras, fico muito triste. Uma coisa horrível. Que Deus possa
trazer paz para eles e para nós.
Todo mundo aqui sente saudades de você. Será que as montanhas a fazem se sentir
pequena, Thea?
Dei um a olhada em volta do quarto e vi que Mary Abbott estava m e encarando. Encarei de volta. Os olhos dela m e aborreciam , pálidos, quase sem cor. Mary Abbott cedeu, encolheu os pequenos om bros e, do outro lado do quarto, articulou a palavra Desculpe com os lábios, algo que naturalm ente não correspondia a seus sentim entos.
Deitei de costas sobre o travesseiro fino (m eus travesseiros em casa eram roliços e perfeitos, eu queria ter trazido um com igo) e corri as pontas dos dedos pelas tábuas de m adeira m acia de nosso chão, m arcadas por um infinito núm ero de arranhões. Garotas usando botas de m ontaria do lado de dentro, Docey arrastando as cam as para arrum á-las, livros caindo. Ninguém tinha a perm issão de entrar usando sapatos em nossa casa, apenas as visitas, e se algo caísse no chão e m inha m ãe ouvisse, haveria um preço a pagar.
Sissy girava em torno do quarto, cantarolando um a valsa. Quando ela se aproxim ou de nosso beliche, Eva desceu da cam a e fez um a m esura, e pegou na m ão dela. Sissy aceitou, e elas com eçaram a dançar, Eva fazendo o papel de rapaz. As duas usavam saias brancas. Eva era m ais alta e m ais robusta; só os cabelos dela j á pareciam ser m ais pesados do que Sissy. Elas pareciam m ãe e filha dançando. Até eu sabia o quanto a valsa era antiquada, m as não havia j azz em Yonahlossee. Porque era hipnotizante, segundo explicara Mary Abbott.
Tanto Sissy quanto Eva vinham de fam ílias que costum avam dar festas. Eva, de um im pério de algodão da Carolina do Norte, e Sissy, de Monroeville, a que ela se referia com o o centro do m undo, onde o pai dela fazia algo vago relacionado aos negócios da fam ília e tam bém ocupava o cargo de prefeito. Todas as suas j oias vinham do lado da m ãe; supus que a m aior parte do dinheiro tam bém .
Apenas Mary Abbott e eu não m ostrávam os entusiasm o com o evento da noite, quando rapazes de um colégio interno de Asheville chegariam às oito horas, e todos esperavam que dançássem os a noite inteira. Eu, ao m enos, fingi estar ansiosa; Mary Abbott não sabia fingir.
— Mais um a — pediu Mary Abbott, quando Eva inclinou a cabeça e Sissy fez um a m esura, am bas dando a valsa por encerrada.
Todas levam os um susto ao ouvirm os a voz de Mary Abbott. Nós respeitávam os as regras em Yonahlossee e, em bora fosse pouco provável que um a m onitora das casas passasse por ali durante a hora de descanso, todas sabíam os que isso poderia acontecer.
Mary Abbott se levantou e bateu palm as com o um a criança que queria algo. Seus olhos sem icerrados estavam brilhantes. Eva m e contou que o pai de Mary Abbott era um pastor m etodista e que a m ãe dela tinha m orrido quando ela era pequena.
— Shh — sussurrou Victoria, o dedo nos lábios.
Eva colocou um a das m ãos nos quadris e analisou Mary Abbott, achando graça.
— Você vai ver m uitas danças hoj e à noite — sussurrou Sissy . — Não se preocupe.
Mary Abbott se deitou de costas na cam a e dobrou os braços. Fiquei im aginando o que ela achava que estava perdendo agora que Eva e Sissy tinham parado de dançar. Ao observar m inhas am igas rodopiando pelo quarto, vi duas pessoas inocentes.
* * *
A história favorita de m inha m ãe — m ais estim ada do que a de com o ela conheceu papai — era a história de nossos nascim entos, que ela transform ara em um a espécie de conto de fadas, a m ãe que carregava gêm eos sem saber. Meu irm ão e eu nascem os durante um a precoce tem pestade de inverno: nevava, os passarinhos caíam do céu, m ortos pelo frio inesperado, todas as plantas no j ardim de m am ãe m urcharam e m udaram de verde para um averm elhado forte. Meus pais estavam esperando um m enino grande, porque a barriga de m inha m ãe estava m uito baixa. Dessa form a, eu fui a surpresa, não Sam . Eu fui a criança que ninguém esperava.
Não havia histórico de gêm eos em nossa fam ília. Quando nascem os, as pessoas ficaram m eio tem erosas, especialm ente por m inha causa. Ou eu tinha extraído o vigor de Sam e era o gêm eo m ais forte, ou Sam tinha m e deixado debilitada. Ou eu era egoísta, ou inútil. Meu pai tentou afastar essas ideias, disse que não havia provas. Entretanto, m esm o ele estava preocupado, um m enino e um a m enina nascidos j untos, contrariam ente à ordem natural das coisas.
Nós éram os bebês irritadiços, am bos tínham os cólica. Minha m ãe ficou de cam a por sem anas, m eu pai cuidava dela e depois dos outros pacientes, que eram sem pre responsabilidade dele, sem pre, o único m édico em Em athla. Um a m ulher da cidade tom ava conta dos recém -nascidos, Theodora e Sam uel, nós dois. Minha m ãe tinha acabado de pintar cenas dos contos de fada dos irm ãos Grim m quando nós chegam os: um a m echa dos cabelos de Rapunzel adornava a parede de nosso quarto, apenas parcialm ente pintada de dourado. O m ural havia sido apagado anos antes, m as eu ainda m e lem brava m uito bem dele. Eu o adorava.
Eu falei prim eiro, com nove m eses; Sam esperou m ais cinco, em bora ele falasse com igo antes disso, na penum bra, na luz suave da m anhã, quando o restante da casa dorm ia. Minha prim eira palavra foi laranja, ou algo parecido com isso, m as m eus pais com preenderam assim m esm o. Minha m ãe gostava de atribuir m inha prim eira palavra a um conhecim ento herdado sobre as frutas cítricas. Sam e eu só tivem os dente m ais tarde, éram os carecas até os dois anos, detestávam os a hora da sesta, adorávam os pão e geleia de laranj a.
No entanto, ainda havia a m elancolia dos prim eiros dias: a surpresa com o nosso nascim ento, e depois a convalescença de m inha m ãe. Sem pre havia a possibilidade de m orte no parto, um risco difícil de evitar, então m esm o antes de a m inha m ãe entrar em trabalho de parto havia a preocupação de que ela pudesse não suportar. A tem pestade de inverno, neve cobrindo o chão pela prim eira vez em um a década, m inha m ãe na cam a tendo contrações. Devia significar algum a coisa, os bebês nascendo naquele dia, e não em qualquer outro dia, sem neve.
Prim eiro eu: “Um a m enina!”, papai gritou, de form a a que m am ãe pudesse ouvir. Todo m undo teria preferido um m enino com o prim ogênito, isso era fato, um a pessoa para herdar tudo; então, enquanto m eu pai m e enxugava com um a toalha e prendia m eu cordão um bilical bem apertado, de m odo que não fosse sacudido pelas roupas, outra cabeça coroou e outro bebê nasceu rapidam ente, m ais rápido do que eu, e... “Um m enino!” Papai não gritou dessa vez, envergonhado, confuso: ele quisera um m enino e conseguira um a m enina, m as agora um m enino tam bém ? Algo estava errado; os deuses não atendiam a desej os desse m odo, sem esperarem que algo fosse dado em troca, com o prova de gratidão.
Minha m ãe estava sofrendo dores dem ais para nos carregar adequadam ente; então a m ulher da cidade nos lim pou, aj eitou nosso cabelo irregular, torceu chum aços de algodão e retirou o m uco de nossos narizes e bocas, os fluidos de nossos ouvidos. Nós éram os pequeninos. Meu pai carregou cada um de nós, separadam ente, e levou até os seios de m inha m ãe. Mam am os indiferentes enquanto ela se contorcia. Minha m ãe decidira durante o resguardo que iria am am entar. Era costum e na época trazer um a am a de leite, m as quem em Em athla seria adequada? Quem poderia alim entar seu filho tão bem quanto ela?
Passarinhos m ortos suj avam o gram ado do lado de fora. Mais tarde, com a aj uda de um a lanterna e da luz da lua, m eu pai iria recolhê-los com um carrinho de m ão e queim á-los em um a pilha de resíduos, e iria observar as penas flutuando na coluna de fum aça, penas azuis, verm elhas, m arrons, brancas que não escondiam a suj eira. Ele observava e m editava. E se sentia vagam ente esperançoso, à luz da lua, sua respiração form ando um a fum aça no ar, seus bebês pequenos e pálidos, m as sadios, pelo m enos a olho nu.
Mam ãe nos dizia que éram os am ados m esm o antes de nascer. Mas isso não era exatam ente verdadeiro: um de nós era am ado, o outro, desconhecido.
Nós nunca partiríam os. Eu sabia a respeito da Srta. Petit, a escola que m am ãe tinha frequentado, m as eu nunca seria m andada para lá. Não havia necessidade. Logo, eu iria para um a escola de etiqueta em Orlando, m as apenas por algum as sem anas, apenas por tem po suficiente para interagir com m eninas da m inha idade, ver com o elas se com portavam . Mam ãe m e assegurava que eu não teria qualquer problem a em entender com o aquilo funcionava. Era para m e preparar para debutar, o que aconteceria antes que eu m e form asse na faculdade. Eu iria para Agnes Scott, com o m inha m ãe, e Sam iria para Em ory. Nós teríam os que com pletar nossos estudos. Nossas m entes eram afiadas, im portantes... Mentes Atwell.
Sam se tornaria um m édico ou um advogado. Isso não im portava. Algo com que se ocupasse, enquanto adm inistrava nossa fazenda. Nosso dinheiro vinha efetivam ente das frutas cultivadas m ais ao sul — lavouras e terras agora supervisionadas pelo irm ão da m inha m ãe em nosso nom e —, que Sam e eu tam bém herdaríam os, m as que, por enquanto, era gerido pelo irm ão da m inha m ãe.
Eu viveria onde m eu m arido estivesse, m as em algum local próxim o. Gainesville, talvez. Nem todo m undo tinha a sorte de viver em um local tão isolado; nem todo m undo tinha a sorte de tirar o sustento com o m eu pai, da form a que desej ava. E ele tinha essa sorte por causa do dinheiro de m am ãe. Ele era um filantropo — era isso que m am ãe dizia. Ele aj udava as pessoas, e m uitas não podiam pagar.
Essa era a história de nossos futuros. E era sem pre um futuro conj unto, um em preendim ento com binado.
No entanto, era com o se m am ãe estivesse falando grego quando m encionava tais coisas — que Sam e eu iríam os nos casar e viver separados. O m áxim o que tínham os ido ao sul era Orlando; ao norte, Gainesville. Eu nunca tinha visto um a universidade. Em m inha im aginação, ela era com o m inha própria casa, só que cheia de gente. Era dessa m esm a m aneira que eu concebia Yonahlossee antes de entrar em seu m undo: m inha adorada casa, com fileiras de m oças. Obviam ente, eu sabia que isso não seria verdade. Obviam ente. Mas isso eu sabia na m ente, não no coração.
E Georgie? Ele m oraria em algum local próxim o, era o que im aginávam os. O futuro dele, porém , não era tão delineado quanto o nosso. Ele não era filho da m inha m ãe. Eu diria que Georgie era com o um irm ão, só que sem ser; eu conseguia vê-lo com m aior clareza porque ele estava separado de m im .
As pessoas podem m entir sobre suas infâncias, podem inventar qualquer tipo de história e você deveria acreditar nelas, a não ser que estivesse j unto delas, a não ser que visse com os próprios olhos. Trata-se de um fardo conhecer um a pessoa tão bem . Às vezes um dom , m as sem pre um fardo.
* * *
Foi um alívio que m eu vestido cor de lavanda, o m esm o que eu tinha usado no j antar com m eu pai no hotel, fosse suficientem ente elegante.
Estrem eci. Eram quase oito horas da noite, m as o sol ainda brilhava, um tipo de luz diferente daquela do dia, m enos austera, m ais azul. Chovera m ais cedo, e o ar tinha um odor úm ido, o cam inho estava suj o e esponj oso sob nossos pés. Enxam es de vaga-lum es disparavam entre as m ultidões de m eninas. Eu ainda ficava encantada com a presença deles. Na Flórida, era quente dem ais, só havia m osquitos e enorm es e barulhentas libélulas.
Eu tinha hesitado em usar a estola de visom de m inha m ãe, tem erosa de que fosse boa dem ais para a ocasião, m as havia certa quantidade de peles. Alice Hunt esbarrou em m im , um a raposa enrolada no pescoço.
Levantei m inha m ão para acenar, m as ela não m e encarou. Ela não era o tipo de m enina que se dignasse a falar com qualquer um . Minhas bochechas queim avam . Era tão difícil lem brar com quem eu devia ser am igável e quem devia solenem ente ignorar.
— Alice Hunt — cham ou Sissy, e Alice Hunt parou e virou-se lentam ente. Ninguém se recusava a falar com Sissy .
— Sissy — respondeu Alice Hunt, seus olhos cinzentos se m ovendo brusca e brevem ente em m inha direção. — Thea.
Então, ela continuou a seguir seu cam inho, para se j untar ao restante das m eninas de Mem phis, que tinham , todas elas, um ar suave, falavam quase com o em um sussurro e raram ente a encaravam . Elas tinham um a m aneira de olhar através de você. Eram facilm ente reconhecidas com o a panelinha m ais esnobe do acam pam ento.
— O sol nunca se põe em Mem phis — m urm urou Sissy baixinho, e dei um a risada, em bora na prim eira vez que ouvi isso, eu tenha precisado adivinhar o que ela queria dizer.
Sissy era cheia de ditos assim : a Sra. Holm es era m ais rígida do que espartilho; a fam ília de Leona nadava em dinheiro, ao que eu havia rebatido, nadava m ais em petróleo, e então fora a vez de Sissy rir.
As m eninas se aglom eravam ao redor de Sissy e de m im , enquanto cam inhávam os, vestidas em sedas coloridas, estolas de pele e xales cintilantes sobre os om bros, presilhas de brilhantes nos cabelos. Vi Katherine Hay es, de Atlanta, que era a m aior fofoca do acam pam ento. Seu grupo de Atlanta a rodeava, todas as m eninas rindo com estardalhaço. A m im parecia que todas se cham avam Katherine, m as apenas Katherine Hay es tinha a perm issão de usar o nom e todo. As outras eram cham adas de Kate. Katherine tinha cabelos castanhos selvagem ente encaracolados; usava um vestido sem m angas azul-m arinho, o que era o m ais próxim o que se podia chegar do preto. Eu sabia pelas revistas que era m oda as estrelas usarem preto. Mas isso era em Holly wood. As pessoas no Sul não usavam preto a não ser que alguém tivesse m orrido.
As unhas das m ãos de Katherine estavam pintadas de verm elho. As m eninas de Atlanta eram típicas de cidade grande, andavam pelo acam pam ento com os cabelos em um corte chanel e unhas pintadas (a Sra. Holm es, sem pre que as via, m andava que rem ovessem o esm alte); elas estavam constantem ente fazendo gestos e rindo com o se todos as observassem . E, em geral, todos as estavam observando m esm o, com o agora. Elas removiam o esm alte, e então davam alguns dias para a Sra. Holm es esquecer antes de aparecerem com as unhas recém -pintadas de novo, com o m esm o tom , com o um bando de pássaros com garras exóticas.
Todas usávam os m eias de seda, e assim nossas pernas cintilavam . A m aioria das bainhas, incluindo a m inha, era recatada, m as, se Eva se sentasse de um a determ inada m aneira, você vislum brava os j oelhos dela.
Havia tanta coisa no m undo para se ver, e a m aioria de nós nunca tinha segurado a m ão de um rapaz. Queríam os fazer m ais do que isso, de qualquer form a, queríam os que os rapazes segurassem não apenas nossas m ãos, m as todo nosso corpo, nos apertassem em seus braços m usculosos e enrolassem nossos cachos em seus dedos grossos, m as ternos.
Porém , nada disso poderia acontecer, não para as boas e corretas filhas de hom ens ricos e poderosos, com nom es de fam ília, conexões de fam ília e deveres de fam ília. Seríam os prim eiram ente debutantes, depois esposas. Todas nós nos casaríam os algum dia, se tudo desse certo após com pletarm os dezoito anos m as antes de chegarm os aos vinte e um , ainda que eu duvidasse que algum a de nós relacionasse casam ento à paixão. Havíam os visto nossos pais, nossos tios e tias, nossas irm ãs e seus m aridos. Não éram os idiotas. Com preendíam os que o desej o era algo perigoso com o qual teríam os que lidar com zelo, com o o antigo frasco de perfum e de nossas m ães, transferido para a filha m ais velha quando esta atingia dezesseis anos.
No entanto, eu não tinha tanto a arriscar com o outras garotas de Yonahlossee. Eu via isso agora. Minha fam ília nunca estava nas colunas sociais; m eu erro não poderia arruinar os negócios de m eu pai. Eu apenas havia arriscado as conexões dentro de m inha própria fam ília.
— Já consigo ver os rapazes — cochichou Sissy .
Eu tam bém cochichei:
— Eles não m ordem .
Estávam os quase no Castelo, e os rapazes form avam um a fila, as costas contra as j anelas. Eles vestiam ternos de verão em cores claras e gravatas-borboletas, com o se estivessem fantasiados com a roupa do pai. Eu não conseguia m e lem brar da últim a vez que havia visto Sam ou Georgie vestidos de terno, m esm o que m eus pais tivessem dado um terno para Georgie no últim o aniversário. Eles disseram que em breve Georgie estaria procurando um a universidade; nessa época, isso ainda parecia possível.
Sissy deu um a risada. Ela estava bem espirituosa essa noite, e fiquei feliz com a distração, feliz em não ter que pensar em Georgie e no terno que ele ainda não tinha usado, pelo m enos não em m inha presença.
A escadaria para o Castelo era estreita, apenas três garotas podem passar ao m esm o tem po. Mary Abbott, os cabelos presos em um coque alto e antiquado, se j untou a nós no degrau de baixo. Sissy e eu dem os os braços. Ofereci m eu braço esquerdo para Mary Abbott, que preferiu apertar m inha m ão.
— Sua m ão está fria — disse ela.
A voz dela estava m ais alta do que o norm al, os olhos, m uito abertos.
— A sua está úm ida.
Parecia que eu segurava algo m olhado e m orto.
— Vai arrum ar um nam orado hoj e à noite, Mary Abbott? — provocou Sissy .
Seu vestido era verde-claro. O decote quadrado era bordado em um tom prata iridescente, que parecia ilum inar o pescoço longo e delgado de Sissy. Ela tinha enrolado os cabelos naquela tarde, com o os m eus, m as, diferentem ente dos m eus, os dela não seguravam os cachos. Eva tinha passado pó em nosso rosto, m enos no de Mary Abbott, e as sardas claras de Sissy haviam desaparecido. Ela passara brilho em nossos lábios tam bém , m as m uito sutilm ente, de m odo a que a Sra. Holm es não reparasse. Maquiagem era proibido, m as isso aparentem ente era um a das regras m ais flexíveis de Yonahlossee, j á que a m aioria das m eninas que vi naquela noite parecia m ais brilhante do que de costum e, seus traços lum inosos. Certam ente a Sra. Holm es notou. Ela não era tola. É preciso escolher suas batalhas, pensei.
Sissy usava um colar de pérolas com um fecho de rubi brilhante, e um anel de turquesa, um a pedra do tam anho de um a m oeda, ladeada por dois brilhantes redondos. Ela usava os brincos de rubi tam bém , com binando com o colar. Eu nunca tinha visto ninguém , nem m esm o m inha m ãe, usar j oias tão extravagantes. Ela era tão m agra que as j oias pareciam vesti-la — seu colar de todo dia, com a ferradura cravej ada de brilhantes, lhe caía m elhor —, m as, ainda assim , Sissy, se não era bonita, estava quase incandescente. Seus olhos arregalados — m ais um pouco e ela teria um a aparência estranha — salientavam sua qualidade sobrenatural. Ela parecia um a das fadas de Sonho de uma noite de verão.
Sissy assustara Mary Abbott.
— Nenhum a de nós vai. Não tem os idade.
— E quantos anos devem os ter? — perguntei.
— O suficiente para querer um nam orado — respondeu Mary Abbott, e deixou m inha m ão cair, dando um aperto final forte o bastante para m e fazer piscar.
Então, ela seguiu adiante rapidam ente, puxou o vestido longo dem ais até a altura da canela e subiu a escada, de dois em dois degraus, até ficar presa atrás de um grupo de três garotas. Olhei para Sissy .
— Ela é esquisita.
— Não sej a m aldosa — disse Sissy . — Não com bina com você.
Fiquei surpresa, quis perguntar a Sissy o que ela queria dizer, m as tínham os chegado quase ao topo da escadaria e estávam os nervosas. Os lam piões a gás na porta queim avam , com o sem pre, de m anhã à noite, em bora durante o dia fosse quase im possível notá-los. Então a porta foi aberta pelo Sr. Holm es, que sorria para nós. Ele abria a porta para cada grupo de m eninas e depois a fechava novam ente, em seguida a reabria — quando na verdade bastava que a m antivesse aberta, com o fazia quando entrávam os j untas para as refeições ou as aulas.
Ainda que isso fosse arruinar todo o efeito, teríam os podido ver antecipadam ente.
Nosso refeitório tinha sido com pletam ente transform ado. Provavelm ente haviam despoj ado o j ardim de Yonahlossee de todas as suas flores. Havia flores por todo lado, por m ais longe que a vista alcançasse. Em vasos, dispostas por cor: ram alhetes de verm elho-sangue, laranj a-queim ado, am arelo-claro, rosa-shocking, branco-puro, crem e com raj ados. As rosas tradicionais, m enores, que floresciam em m oitas fechadas, tinham sido entrelaçadas em um a corda grossa que pendia do teto, tão alta que não conseguíam os alcançá-la, nem m esm o a garota m ais alta. Eu j am ais vira tantas flores fora de um j ardim . Minha m ãe sem pre achou um a pena cortá-las, e, quando ela fazia, nunca arrum ava as flores por cor, com o ali. A desagradável luz elétrica tinha sido apagada, para o evento da noite; em seu lugar, im ensos candelabros de prata sustentavam velas tão grossas com o m eu antebraço. Os próprios candelabros eram m ais altos do que eu, belos da m esm a form a com o um a arm a pode ser bela: eu ficaria longe deles, para que um a das fantásticas cham as, tão espessas quanto um punho, não atingisse m eu vestido.
Um grupo de hom ens grisalhos estava sentado no lado oposto do refeitório, parcialm ente ocultos por um biom bo oriental. Talvez eles não devessem nos observar. Eles estavam em seus bancos, com penetrados, cada um com seu instrum ento: a banda.
Os m eninos se sentavam em um a linha perfeita, que se estendia de um a ponta a outra do refeitório, percebidos apenas pelo brilho ocasional de um a pedra quando refletida pela luz, enquanto as m eninas se am ontoavam desordenadam ente no lado oposto. Fiquei im aginando se os rapazes traziam cantis escondidos nos bolsos, com o Eva dissera. Eu sabia, por m eio dos anúncios da m anhã, que a Sra. Holm es m antinha firm es proibições: beber era prej udicial e im oral. A Srta. Brooks estava sentada perto deles, com o se para im pedir que um rapaz erroneam ente passasse para o outro lado. A Srta. Brooks nos guiava em nossas cam inhadas de botânica e observação de pássaros à tarde e lecionava história durante o ano letivo e, em bora parecesse ser estúpida, era sim pática. Eu gostava dela, pelo m enos em com paração com a Srta. Lee, que observava todo m undo com o se fosse um falcão.
Docey e outra funcionária nos serviram ponche de um a gigantesca tigela de cristal. Inclinei a cabeça para Docey, que não pareceu notar. Em vez de seu uniform e usual, ela usava um traj e form al para servir, com o aqueles usados por cam areiras de hotéis: avental preto engom ado, com um a cam isa branca por baixo.
— Docey está bem -vestida — sussurrei para Sissy quando nós duas recebem os nossa dose de ponche.
— Olhe — disse Sissy —, não, não olhe, vão notar.
Foi a prim eira vez que vi Sissy nervosa. E foi a prim eira vez que estive tão perto de um grupo de rapazes. Eu sabia o que eles esperavam de nós. Eu tam bém sabia o que devíam os esperar deles, o que era bem diferente — serm os conduzidas em um a porção de danças, rodopiando ao redor do salão sob os olhos atentos dos adultos. Queríam os que algum rapaz bonito caísse em nossas graças, para se tornar nosso par durante a noite. E então, talvez quase todas nós, queríam os que eles fossem em bora, para que pudéssem os sofrer de saudades.
Não respondi a Sissy. Tam bém estava nervosa, m as por um m otivo diferente. Por m ais tolo que soasse, eu nunca tinha ficado próxim a de um rapaz com o qual não fosse aparentada. Certam ente m am ãe e papai não sabiam que haveria um baile, com a presença de um a grande quantidade de rapazes.
Henny, Jettie e outra estudante do últim o ano, Martha Ladue, entraram no refeitório, e havia algo estranho na aparência de Henny ; levei um segundo para perceber que a verruga dela estava escondida sob a m aquiagem . Martha era a m oça m ais bonita do acam pam ento. Ela se parecia com Louise Brooks, só que m ais bonita, m ais tranquila.
Sissy m e cutucou. Leona estava na porta, vestida em um a discreta seda cinzenta, um a gargantilha de brilhante e pérola. Todas olharam para ela, era im possível não fazer isso, pois Leona era o tipo de garota que atraía a atenção de um a sala; era alta, quase um m etro e oitenta, e seus cabelos loiro-brancos caíam até a cintura, o que era um estilo para m oças m ais j ovens. Fiquei pensando se ela j á tinha cortado o cabelo algum a vez na vida.
O Sr. Holm es então cham ou nossa atenção. Ele estava no centro do salão, a Sra. Holm es próxim a a ele, um buquê de rosas raj adas de verm elho e crem e no pulso. O Sr. Holm es sobressaía ao lado da m ulher, tão m agro quanto ela era roliça. Ela usava os m esm os brincos de pérola e a saia antiquada arrastando no chão de todos os dias.
— Que o baile com ece — ordenou o Sr. Holm es, fazendo um gesto em direção à banda, que iniciou um a m úsica.
Nós nos espalham os de m odo que um rapaz pudesse se aproxim ar de nós de m aneira clara, sem precisarm os im aginar se ele estaria interessado realm ente em um a colega de aloj am ento, ou em nossa m elhor am iga. Os rapazes dispararam em nossa direção; dei um passo para trás, im pulsivam ente, esbarrando em Leona.
— Desculpe.
— Desculpas aceitas — disse ela; esqueci-m e de m e preocupar com os rapazes e, em vez disso, olhei para cim a, para Leona, que fitava um ponto alto, à frente, provavelm ente esperando que algum rapaz alto viesse tirá-la para dançar.
Ela era ainda m ais alta quando você ficava perto dela. Olhei para baixo e vi que Leona usava sapatos sem salto, tingidos de prateado para com binar com o vestido. Eu e todas as outras usávam os saltos altos quando nos arrum ávam os. Suponho que ela era rica o suficiente para ter qualquer sapato feito sob m edida, na cor que quisesse.
— Thea. — Olhei para cim a, surpresa em ouvir m eu nom e. Eu não pensei que Leona soubesse quem eu era. — Alguém quer dançar com você — disse ela, im paciente; eu m e virei e m e vi diante de um rapaz pálido e m uito m agro.
— Pode m e conceder o prazer desta dança? — perguntou, e aceitei o braço que m e estendia, percebendo, à m edida que cam inhávam os, que estava tocando um a m úsica lenta, o que significava que eu teria que ficar bem próxim a deste rapaz.
A voz dele era pouco firm e. Enquanto era levada para a pista de dança, olhei para trás, em direção a Leona. Ela m e observava, o que m e deixou satisfeita por algum m otivo.
— Thea, prazer em conhecê-lo — apresentei-m e, inclinando a cabeça, um a vez que eu não podia fazer um a m esura, não enquanto estivéssem os andando.
Eu esperava estar m e lem brando de m inhas boas m aneiras.
— Harry , prazer em conhecê-la.
Antes que eu percebesse, estávam os dançando, acom panhados pelos outros casais. Reconheci a canção — “Carolina Moon” — m esm o na ausência da letra. Era um a das canções preferidas de m inha m ãe, e parecia ridículo, agora, que eu tivesse acabado de pensar que a m elodia era bonita, que nunca tivesse pensando nisso. Aqui estava eu, na Carolina, dançando em seu ritm o lento e triste.
— De onde você é? — perguntei.
— Basicam ente daqui — respondeu ele, depois de um a pausa.
Ele não dançava particularm ente bem . Conduzia, m as pouco. No entanto, tinha o m esm o cheiro que Sam e Georgie; eu tinha m e esquecido do cheiro dos rapazes, que era tão diferente, m ais acre, m ais intenso, que o das m oças.
— E quando você não está aqui?
— Na Louisiana. Minha fam ília tem negócios no ram o m adeireiro. — Ele estava ansioso para agradar, o Harry. Suas respostas soavam com o perguntas: Basicam ente daqui? Louisiana? Negócios no ram o m adeireiro?
Eu teria desm aiado por alguns rapazes — havia um alto, de cabelos pretos, vestido com um paletó azul-claro, e Sissy tinha agarrado um ruivo bonitão —, m as Harry não era um deles. Molly, a estudante do prim eiro ano da m inha m esa, passou rodopiando por nós, seus cabelos rebeldes penteados. Mesm o a m ais j ovem de nós dançava. Sissy m e dissera que esses bailes eram um progresso; antes do casal Holm es, cada garota era designada para fazer par com um rapaz, com quem ela dançaria a noite inteira. Ele a acom panharia até o Castelo, levando sob o braço os sapatos de dança de cetim branco da parceira. Houve m em bros do conselho — com o o avô de Sissy — que lutaram contra as m udanças, que achavam que os bailes de Yonahlossee deveriam se pautar de acordo com os antigos bailes de debutantes do pré-guerra.
Quando a valsa term inou, fiz um a m esura, Harry se inclinou, e eu pedi licença para m e dirigir à m esa de bebidas. Aceitei outra taça de ponche de Docey, cuj os olhos encontraram os m eus brevem ente.
Senti um a m ão se fechar sobre o m eu om bro; por um m om ento, pensei que fosse um rapaz e corei, m as então m e virei e m e deparei com Sissy .
— Já acabou? — perguntou ela.
— Com um pouco de sede. — Levantei m inha taça de ponche pela m etade. — Você não está dançando?
— Você viu o rapaz com quem eu estava dançando? — Confirm ei com um gesto de cabeça. — Boone. Gosto dele. — Ela abaixou a voz. — Eu realmente gosto dele.
Senti um a estranha ponta de ciúm e. Ficam os im óveis por um segundo, em baladas pela m úsica. Exam inei m eu ponche, que estranham ente era azul, quase preto. Na superfície, boiavam am oras silvestres inchadas, que as m eninas m ais j ovens tinham apanhado no dia anterior com a Sra. Holm es durante a aula de oratória O ponche gelado de frutas cítricas que m inha m ãe fazia, um a antiga receita de fam ília, tinha um tom rosa-claro e um sabor gelado, doce e crem oso, ainda que ligeiram ente ácido.
Sissy rom peu o silêncio.
— Eu a vi falando com Leona.
— Não exatam ente. Por um segundo. Ela sabe m eu nom e.
— Fico surpresa. Achei que ela só soubesse o nom e do cavalo dela.
— Você não gosta dela? — perguntei.
Sissy deu de om bros com im paciência.
— Não im porta, no caso de Leona. Goste ou não, ela não dá a m enor im portância a qualquer um , com exceção do cavalo. Ela é tão rica, Thea. — Sissy m e olhou. — Ela pode fazer o que quiser. Não tem que parar para se preocupar com as pessoas.
Na verdade, em bora Sissy alegasse que Leona e Martha Ladue eram as m eninas m ais ricas de Yonahlossee, eu sabia que Sissy tam bém estava entre elas. Todo m undo sabia. E a fortuna da fam ília dela não era recente, com o a de Leona; ela tinha perdido aquele lustro feio. Eva m e contou que os fundos para a construção dos novos picadeiros tinham sido doados pelo avô de Sissy ; a m ãe e a tia dela eram ex-alunas, e o pai e avô faziam parte do conselho de adm inistração do acam pam ento.
Ainda assim , fingir que a fam ília não era rica, com o Sissy fazia, parecia parte do j ogo. Minha am iga j ogava com perfeição, m ovia-se com extrem a facilidade e naturalidade em Yonahlossee, era capaz de transitar sem esforço entre as hierarquias do acam pam ento. Ela sabia quem tinha bolsa de estudos (dez m oças por ano, inclusive nossa Mary Abbott), quem era esperta (ela falou que eu tinha recebido a reputação de garota esperta, o que ao m esm o tem po m e envaidecia e m e aborrecia), e quem era parente de quem (m uitas m oças eram prim as). Ela sabia quem poderia ser expulsa em breve, por causa de problem as financeiros do pai, apesar das declarações do Sr. Holm es de que a situação do país estava m elhorando (a posição de Victoria no acam pam ento estava cada vez m ais com prom etida). Ela sabia quem im portava, quem não im portava, ainda que fosse gentil com qualquer pessoa, tanto no prim eiro quanto no segundo caso. As garotas de Kentucky, por exem plo, não im portavam , eram caipiras, em bora eu não entendesse por quê. Molly se parecia com todas as outras garotas do prim eiro ano; tire os penteados m odernos das garotas de Atlanta, rem ova os m edalhões dourados, decorados com as iniciais, das garotas de Mem phis, e todas nós teríam os a m esm a aparência.
Os olhos azuis de Sissy eram francos e perfeitam ente redondos. Olhos de criança. Ela escolhera a m im , no m eio de todas essas garotas. Eu estava tão agradecida. Quando eu saísse daqui, iria m e lem brar dela para sem pre. Talvez até nos visitássem os.
Com preendi, de repente, com o m inha m ãe deve ter sido solitária em Em athla, apenas com m inha tia para cham ar de am iga. E eu estava zangada que ela nunca tivesse m e perm itido isso, que ela j am ais tivesse adm itido m ais alguém .
As valsas continuaram . Dancei com m ais três rapazes; um deles elogiou m eu cabelo acobreado — ele cham ou assim , acobreado — e as m ãos de outro eram tão úm idas e viscosas que pareciam cobras. Depois de term inarm os, pedi licença e decidi não dançar m ais pelo resto da noite. Eu m e acom odei nas cadeiras dispostas ali — verifiquei anteriorm ente que os rapazes não podiam , ou não iriam , se aproxim ar de um a garota sentada — e fiquei conversando com Henny , que alegrem ente com entava sobre os vestidos de cada um a. Deixei-m e sonhar acordada, im aginar que m eu pai apareceria a qualquer m om ento — após essa dança, antes daquela —, não, agora, no m eio da valsa interm inável, ele não se im portaria em nos interrom per: ele iria desesperadam ente chegar perto de m im . Talvez m eu irm ão viesse — então todas as garotas veriam com o ele era bonito —, ou talvez os três viessem , papai, m am ãe e Sam , e eu os perdoaria im ediatam ente e term inaria com essa história de Yonahlossee para sem pre.
Mary Abbott estava de pé perto da porta, sozinha, nervosam ente batendo o sapato preto e gasto no chão, com o se ela não conseguisse esperar para fugir. Senti pena dela. Iria m e custar algo, eu sei, atravessar o salão e ficar na frente dela. Outro teste, para ver que tipo de garota eu era. Não im portava se eu atravessasse o salão ou não; eu j á tinha falhado, em casa, de tal form a que não seria perdoada.
Se há um instante eu estava cheia de esperanças, im aginando que m inha fam ília chegaria para m e reaver, agora m e sentia infeliz, com a visão de Mary Abbott, m inha indecisão sobre aj udá-la ou não — os devaneios de m eu pai interrom pendo a dança não passavam disso. Um a fantasia, m aquinada em m eu cérebro inconsequente.
Olhei para o chão, para m eus bonitos sapatos, que eu só usara um a vez antes, no j antar de Páscoa, quando m e sentei entre Georgie e Sam . Quando voltei a olhar para cim a, tinha decidido atravessar o salão, desviar-m e dos dançarinos e ser am iga de Mary Abbott.
Mas não precisei fazer isso. O Sr. Holm es estava perto da porta, fazendo um gesto em direção à pista de dança, sorrindo. Mary Abbott falava, e o Sr. Holm es escutava com atenção. Ele era tão bonito, com seus bastos cabelos escuros, as sobrancelhas grossas. O nariz era torto, virado um bocadinho para a esquerda, e fiquei pensando se ele o teria quebrado praticando algum esporte.
Mary Abbott agora ria, e o Sr. Holm es apontou para um conj unto de cadeiras, e ofereceu o braço para Mary Abbott; ela aceitou e o seguiu, e eu observei o Sr. Holm es esperar Mary Abbott se sentar e depois se acom odar ele m esm o em um assento, e percebi que ele era generoso, que ele tinha notado com o Mary Abbott estava pouco à vontade, m as que, ao contrário de m im , reagira. Ofereceu um conforto. Im aginei o que ele teria feito se estivesse no lugar de m eu pai, se a generosidade do Sr. Holm es teria se despedaçado com o peso de um a m á filha.
Sua generosidade m e fez sentir saudades de casa. Relem brou-m e que houve um tem po em que eu só conhecia a generosidade. Observei o Sr. Holm es m urm urar algo para Mary Abbott e im aginei sobre que assunto eles estariam conversando — eu sabia por experiência própria que Mary Abbott não era boa em conversar trivialidades — e eu quis ser Mary Abbott, eu queria que o Sr. Holm es m urm urasse algo para m im .
— Não acha, Thea?
Voltei-m e para Henny relutantem ente.
— Hum m ?
— Você não acha que o vestido de Sissy está exagerado? Ela sem pre faz isso, desfila usando coisas refinadas dem ais. Parece tola. — A voz dela endurecera.
Todas nós parecem os tolas, pensei. Parecem os m enos garotas em um evento dançante em um acam pam ento do que grandes dam as em um baile. Acho que ela está linda, eu ia dizer, m as as palavras ficaram presas em m inha garganta. Henny m e encarou de perto, com o se estivesse concluindo algo sobre m im . Eu tinha pensado que todos gostavam de Sissy ; não, que adoravam Sissy. O que Henny poderia ter contra ela? Exatam ente naquele m om ento, Sissy rodopiou perto de nós, ainda com o rapaz ruivo, com o se tivesse sido cham ada, e captou m eu olhar e deu um largo sorriso, com o se fosse a garota m ais feliz do m undo.
— Um a tola — m urm urou Henny, e então o rapaz bonitão de cabelos escuros apareceu na m inha frente, e m e lem brei de onde eu estava.
Ela estava com invej a de Sissy . E quem não estaria?
— Thea? — cham ou ele, e ofereceu o braço.
Ele m e conduziu à pista, e m inha decisão de não dançar m ais desapareceu. Ele era m uito direto na m aneira com o m e segurava e conduzia m eu corpo; senti-m e sortuda por ele ter m e escolhido, m as tam bém surpresa — ele havia rom pido a regra im plícita sobre as m oças sentadas: será que eu era o tipo de garota de que os rapazes gostavam ?
— Eu m e cham o David.
— E você j á sabe m eu nom e.
Ele sorriu. Seus om bros eram tão largos que ficavam j ustos no paletó. Seus cabelos pretos e fartos estavam penteados em estilo m oderno, puxados para trás com pom ada a partir da testa, e seus dentes eram m uito grandes, brancos e retos. Ele era quase bonito dem ais.
— Quantos anos você tem ? — perguntei.
Ele dem orou um segundo para responder e o sangue correu para m eu rosto. Eu j á tinha com etido um erro. Mas então ele falou.
— Dezessete.
— Você é atleta?
— Futebol am ericano. Corrida. Sou m ais forte do que veloz. Sinta — disse ele brincando, e toquei o m úsculo que ele oferecia.
A m úsica ficou lenta, e David m e puxou para m ais perto. Ele tinha um suave odor de colônia. Em outro m undo, isso m e teria deixado feliz dem ais, que David tivesse m e escolhido entre tantas garotas. Eu podia sentir os olhares de invej a e adm iração de m inhas colegas de acam pam ento. E por que ele tinha m e escolhido? Porque eu parecia não querer ser escolhida. Os costum es, no que se referia aos rapazes, estavam com pletam ente errados. E, além disso, eu não queria David. Eu j á tinha term inado com aquilo. Eu não queria m e unir a m ais ninguém , nunca m ais.
Um a batida em m eu om bro. Abri os olhos e vi a Sra. Holm es, e então os casais além dela, que tinham parado de dançar e nos observavam .
— Está perto dem ais, Thea.
Mas certam ente não estávam os m ais perto do que as outras garotas de seus pares. Ou será que estávam os m ais colados do que eu pensava, e eu não tinha notado? Que eu não soubesse que distância significava estar perto dem ais m e horrorizou.
— Desculpe-m e — falei, suavem ente.
Eu não sabia o que fazer, qual era a etiqueta nessas situações. Eu deveria ir em bora, ou deveria ficar e suportar a desaprovação de todo m undo? A m úsica continuava a tocar, m as poucas pessoas estavam dançando. David voltou o rosto para o chão, e subitam ente pensei em m eu pai, com o ele tinha deixado de m e defender. Meu pai gostaria que eu tivesse ficado, sei disso. Mas ele deixara m inha m ãe ganhar a batalha. No entanto, o m undo não tinha acabado, m esm o que assim parecesse.
A Sra. Holm es m e observava. Não havia m udado m uita coisa desde a época dos sapatos de cetim branco que não podiam encostar na terra. Ela não m e m andou sair, ou ficar, então fiz um gesto com a cabeça para David e saí por conta própria, abrindo cam inho por entre os corpos quentes e brilhantes. Quando atingi o final do salão, vi que nem todo m undo estava m e observando. Os casais tinham voltado a dançar. Henny tagarelava com um grupo de garotas. Talvez a m eu respeito, talvez não. Preciso evitar essa situação, pensei. Tenho que fazer isso; não havia nenhum outro lugar para ir, pelo m enos não im ediatam ente.
Meu caráter não era o que deveria ser. Ninguém tinha m e dito isso, m as eu sabia. E talvez eu tivesse dançado de m odo inapropriado; talvez não fosse m ais a m elhor pessoa para avaliar o que era apropriado ou não. O que há de errado com você? — perguntara m inha m ãe. E o que era? Senti m inha testa quente e verm elha. E então eu m e virei para encarar qualquer um que estivesse m e observando — eu podia sentir os olhos sobre m im , com o se m e tocassem .
O Sr. Holm es. Ele m e ofereceu um sorriso tím ido, e sei que ele estava tentando ser gentil, com o fora anteriorm ente com Mary Abbot. E no início tive um a sensação de náusea na garganta, porque eu não queria que sentissem pena de m im ; m as então essa sensação foi substituída por certa esperança: o Sr. Holm es não achava que eu era m á. Ele m e observou por m ais um segundo antes de desviar os olhos polidam ente. Ele não m e via da m esm a form a com o os outros adultos agora m e viam : m eus pais, a Sra. Holm es. Mas ele tam bém não era um rapaz, com o David. Ele não estava atraído por m im sim plesm ente porque eu era bonita e disponível: um a garota no baile. Ele gostava de m im , percebi. E eu gostava dele.
Eu ainda era m ais criança do que adulta. Eu não era um m onstro, m as um a m enina confusa e inj ustiçada. No entanto, só depois de anos eu entenderia. Naquelas duas sem anas em casa, m inha m ãe tinha ficado zangada, m eu pai, principalm ente m udo, com o se não houvesse nada para dizer. Eles punham a culpa em m im . Então eu cheguei em Yonahlossee com o alguém que sente que m erece ser cham ada de culpada.