Escola de equitação para moças
Capítulo 19
Georgie estava no Missouri, com os pais. Minha m ãe m e dissera que nós poderíam os vê-lo na sem ana seguinte, m as eu não podia confirm ar a data sem cham ar atenção para m im m esm a.
Eu tinha acordado e engasgado, porque o ar estava denso, pesado. O relógio na m esa de cabeceira indicava três e m eia; em m ais ou m enos um a hora j á estaria claro suficiente para cavalgar.
No verão, você tinha um a segunda pele, um a cam ada de um idade e suor sem pre presa ao corpo. E ainda estávam os no início da estação.
Do lado de fora, o m undo parecia m orto e desinteressado; nem sequer um a brisa para farfalhar a gram a, nenhum grilo esfregando as patas para interrom per o silêncio. Sentei-m e nos degraus e desabotoei os prim eiros botões da cam isola, o que não fazia diferença algum a. Fechei os olhos e pensei em m eu prim o, no m odo com o ele tinha m e tocado da últim a vez, no m odo com o eu o havia tocado, com o estávam os aprendendo.
— Thea — cham ou Sam , vindo de trás de m im .
Eu sabia, sem olhar, que ele estava sentado em um a cadeira de balanço.
— Sam .
— Você não ficou com m edo? — perguntou.
Sam falava com o se j á estivesse desperto há um tem po. Ele sem pre gostara de dar susto nos outros, de aparecer pulando de detrás das portas, de esperar atrás de um arbusto e surgir de um salto, de repente, de surpresa.
— E quem m ais poderia ser? — A pergunta perm aneceu solta no ar por um m om ento ou dois. Falei novam ente. — Não conseguiu dorm ir?
— E alguém consegue? Deve ser um recorde, este calor. Pelo m enos, parece.
— Nunca é. Um recorde.
— Não — concordou ele. — Realm ente, nunca é.
Ficam os em silêncio por alguns m inutos. Sam soltou um suspiro.
— Você vai ficar cansado am anhã — eu disse.
— Então vou dorm ir am anhã. Não vou perder nada.
— Acho que não.
— Quero ir em bora, Thea. Quero viaj ar.
A voz dele soou estranha. Eu m e virei e o encarei. Ele estava descalço, esparram ado na cadeira de balanço em suas roupas norm ais de usar durante o dia. O rosto estava virado, de perfil, e notei com o m eu irm ão estava se tornando um garoto atraente. Ele seria m ais bonito do que eu, nossos traços sendo m ais adequados para o rosto de um rapaz; m as afastei o pensam ento da m ente. Eu tinha quinze anos; queria ser bonita. Não queria que ninguém fosse m ais bonito, nem m esm o m eu irm ão gêm eo — ou principalm ente m eu irm ão gêm eo.
— Você não quer? — perguntou e se voltou para m im .
Mam ãe com entara que a sem elhança de alguns gêm eos vai dim inuindo à m edida que envelhecem , m as isso não parecia acontecer com igo e com Sam .
— Para onde você iria? — perguntei.
Meu irm ão nunca havia m e falado de ir em bora. Jam ais.
— Acho que eu gostaria de ir a algum lugar de navio — respondeu, e não pude deixar de rir.
Sam não olhou para m im .
— Desculpe — disse. — É só a im agem de você em um navio. Você queria ser m arinheiro?
Ele não respondeu.
— Sam — com ecei. — Sinto m uito...
— Não, você não sente m uito. De qualquer m odo, você não ficaria contente se eu fosse em bora?
Seu tom de voz era alto, e com preendi que Sam não queria m esm o ir a lugar algum , que ele não queria alterar nada em nossas vidas.
— Por que eu ficaria contente, Sam ? — falei suavem ente. — Preciso de você.
— Precisa de m im ? — Foi a vez dele de rir. — Precisa de m im para quê? Você passa o dia todo com Sasi. Você não precisa de ninguém .
— Não é verdade — protestei.
Mas, estranham ente, não fiquei m agoada. Achei que fosse ficar, esperava ficar, m as não.
— Não — disse Sam . — Suponho que não sej a verdade. Você precisa do nosso prim o.
Deitei-m e no piso duro, subitam ente exausta. Podia sentir a presença de Sam de pé atrás de m im ; pensei que ele fosse entrar naquele m om ento, m as, em vez disso, ele se sentou a m eu lado. Observei as costas dele: m eu irm ão estava ficando m ais largo à m edida que eu ficava m ais estreita.
— Não há lua hoj e. — A voz dele soou neutra.
Balancei a cabeça, m esm o sabendo que ele não estava olhando para m im .
— Você se lem bra de quando pensou que um índio m orava lá? — perguntei.
— Você tam bém acreditava nisso.
Ele se deitou a m eu lado, e percebi que o frio do piso tam bém trazia alívio para ele.
— Thea?
— Sim .
— Você j á pensou, algum a vez na vida, em com o deve ser a sensação de estar m orto?
Refleti sobre a pergunta. Sam passou a m ão suavem ente por cim a dos m eus olhos.
— Feche os olhos — ele disse, e obedeci. — É esta a sensação — continuou.
— Não, não é.
— Tente e durm a. Você pode m uito bem estar m orta, quando está dorm indo.
Tentei afastar todos os pensam entos e deixar a m ente vazia. Tentei não pensar em Georgie, tentei em balar m inha m ente em calm a total. Queria agradar m eu irm ão.
— Acho que não está funcionando. — Sam não respondeu, m as eu sabia que ele não estava dorm indo, apenas tentando. — Im agino qual de nós dois vai m orrer prim eiro.
— Eu — disse ele. — Eu vou m orrer prim eiro.
Não falei nada. Ficar viva sem Sam — será que isso seria vida? Eu sabia que m inha m ãe e m eu pai iam m orrer antes, apesar de não saber a ordem ; isso fazia sentido. A vida deles com eçara antes da m inha, e eu ainda teria um a vida depois deles. Mas Sam e eu nunca tínham os existido um sem o outro, e agora essa existência parecia tanto um fardo quanto um prazer. Ou talvez não fosse nem um a coisa nem outra. Talvez fosse m eram ente um fato.
— Thea. Tente de novo.
Escutei as palavras de Sam . Fechei os olhos. E o que foi que vi? A velha m anta de carruagem de m am ãe pesando no braço dela com o um a pedra. Tentei pensar em outras coisas, colocá-las acim a da m anta: Sasi, Georgie, o de sem pre. Porém , tudo levava de volta à m anta. E eu que costum ava ser tão eficiente em arrancar do cérebro aquilo que eu não queria levar em consideração...
Quase caí no sono. O sol se levantou m uito lentam ente, aos poucos, e m antive os olhos fechados para m e proteger da claridade, tentando perm anecer nas asas do esquecim ento. Então, subitam ente, consegui ter um vislum bre do que seria se tornar nada. E foi um a ausência tão profunda que quase não consegui concebê-la, apenas fiquei aterrorizada.
Abri os olhos e m e sentei; virei-m e para o Sam , que dorm ia serenam ente. Minha m ão ficou suspensa sobre o om bro dele. Eu precisava despertá-lo, precisava lhe dizer que eu estava com m edo. Ele m e aj udaria a com preender. Mas então deixei m inha m ão cair, contra o piso. Eu queria ser alguém separada de Sam . Queria experim entar algo que ele não ia experim entar. Assim , fiquei na varanda por m ais um a hora, o sol nos deixando cada vez m ais quentes, à m edida que se elevava.
Eu devia ter acordado Sam para evitar a queim adura que exibim os na sem ana seguinte, nossos braços e rostos de um verm elho-vivo, depois rosado, em seguida descascando. Mas não o acordei. Meu rosto estava m ais verm elho no lado esquerdo, quase com o se eu tivesse m e m aquiado com ruge; foi a face que ficou voltada para o sol enquanto eu observava m eu irm ão. Ele tinha desej ado que eu o seguisse, para onde quer que fosse, e não fui. Não consegui. Eu o observei e percebi claram ente que havia lugares aos quais eu não seguiria o Sam , aos quais ele não m e seguiria.
* * *
O que Sam tinha dito ficou reverberando em m inha m ente: “Você precisa do nosso prim o.” Nós gostam os dele de form as diferentes. Georgie, a cintura grossa, o tórax largo — isso era o que Sam podia ver. O que Sam não podia ver: o cam inho de pelos que se dividia em seu um bigo, a superfície firm e da sua barriga.
Nós gostam os dele de form as diferentes, m as qual era a diferença? Minha m ãe e m eu pai gostavam um do outro, com partilhavam um a cam a; eu gostava de m inha m ãe, m eu pai gostava de m im , am bos gostavam de Sam . O casam ento significava que você incluía alguém , perm anentem ente, em sua fam ília. Esse tipo de casam ento fazia sentido. Na Bíblia, Jacó se casou com duas prim as de prim eiro grau, Raquel e Léa, e foi um evento festivo. Eventos. Eu não queria tanto — apenas um a pessoa, um único ser.
Mas isso aconteceu m uito tem po atrás. No início dos tem pos, todo m undo devia ter sido prim o. Casam ento entre prim os, antigam ente, era um a expressão m oderna, aplicada a casais com o Charles Darwin e Em m a Wedgwood, sendo o casam ento deles um a anedota, que papai inseria nas aulas para nos entreter, para m anter nossa atenção. Fiquei pensando se Em m a seria parente do fabricante de porcelana. Nem papai nem m am ãe sabiam dizer, e não havia m eio de eu descobrir naquela época de m inha vida, por m ais intensam ente que eu quisesse.
E assim a história de Em m a e Charles se aloj ou em algum canto de m eu j ovem cérebro. O Sr. Darwin tinha sido cauteloso ao considerar tanto os benefícios quanto as desvantagens do casam ento, tendo se com prom etido com a Srta. Wedgwood por toda a vida. Casar significava ter m enos verbas para o trabalho dele, m enos tem po para catalogar todas as espécies desconhecidas da flora e da fauna. A Srta. Em m a Wedgwood j á estava catalogada, j á era conhecida, e o Sr. Darwin não poderia estar m enos interessado naquilo que j á conhecia. Em seu cérebro enorm e e determ inado, a capacidade de am ar do Sr. Darwin j á fora preenchida pela am pla gam a de habitantes da terra do Senhor.
Se m am ãe soubesse o que eu vinha fazendo, ela poderia desej ar que eu m e casasse com Georgie. E eu não queria m e casar com m eu prim o. Não queria m orar em Gainesville. Não queria — e este pensam ento m e envergonhava — ser pobre. Porém , ainda assim , eu queria m eu prim o. Eu o queria intensam ente. Tentei separar as duas coisas em m inha cabeça. Não conseguia ver o sentido de tudo aquilo, com o eu poderia querer um a parte, m as não a outra.
Foi o tem po m ais longo que Georgie e eu tínham os ficados separados. Naquela época, eu não pensava nisso, m as a noite na baia deve ter m exido com a m inha consciência, porque, de repente, percebi claram ente o que eu vinha fazendo, e fiquei aterrorizada com a possibilidade de alguém descobrir. Eu ainda ansiava por ele — queria que m eu prim o m e tocasse, ansiava por seus carinhos —, m as m eu desej o era m itigado com um a dose de cautela. Talvez fosse sim ples assim : eu estava m ais velha. Vi m inha m ãe desenrolando sua preciosa m anta de carruagem , puxando-a por debaixo da m esa, e isso esclareceu as possibilidades em m eu cérebro. Se eu tivesse perm itido que as coisas fossem ainda m ais adiante, eu não seria m ais virgem . Essa foi a prim eira coisa, e a segunda era que, se alguém descobrisse, eu não seria m ais um a m oça para casar. Eu poderia ter concebido um a criança, nós poderíam os ter concebido um a criança. Era um a possibilidade. Estrem eci ao pensar na m inha vida caso isso tivesse acontecido.
Minha m ãe expôs a m anta, e, sem Georgie por perto, ela se revelava para m im com o um facho no céu noturno que surgiu de m aneira súbita e apavorante.
Depois, Georgie voltou para casa, e fom os até Gainesville para tom ar um chá, só m inha m ãe e eu, pois Sam estava ocupado com qualquer coisa. Sua ausência teria parecido um a bênção um m ês antes. Mas agora eu gostaria que ele estivesse presente. Georgie tom ou chá conosco, m e encarou de um a m aneira que era óbvia, m as m am ãe e a tia Carrie pareceram não notar. Com i um bolinho que pareceu areia em m inha boca.
Mais tarde, eu o segui escada acim a. Ele deu tapinhas no espaço ao lado dele em sua cam a desarrum ada; obedeci relutante. Jam ais gostei do quarto dele.
— Sentiu saudades de m im ?
— Senti.
— Meus prim os de lá não são com o os daqui — disse ele, e o fitei.
Georgie se inclinou para m e beij ar, os olhos j á fechados, e desviei o rosto.
— Você deixou a m anta na baia na últim a vez.
— Deixei?
— Mam ãe a encontrou. Nós poderíam os ter sido pegos.
Ele alisou o lençol entre nós e, apesar de quase m e tocar, não o fez. Eu podia ouvir m eu próprio coração. Ele continuou a traçar um padrão com o dedo que fazia com que sua m ão se aproxim asse e depois voltasse a se afastar.
— Georgie — eu disse, m inha voz quase um sussurro.
— Meus prim os de Kansas City não estão indo m uito bem . Todo m undo se m udou para a casa de m inha avó. — Ele m e lançou um olhar enviesado. — Foi bom que ela tenha m orrido.
— Não diga isso.
— O quê? É verdade. Eles são todos fazendeiros, não têm um a profissão para se sustentarem , com o os nossos pais. Bem , com o o seu pai. As pessoas sem pre ficam doentes, não é? Mas não chove lá há m eses. Estão desesperados.
Interrom pi o m ovim ento da m ão dele e a m antive entre as m inhas. Esse era o Georgie que m e pertencia, que ninguém m ais via.
— Lam ento.
— Você sabe com o as pessoas estão pobres agora? Papai diz que é só o com eço, que vai piorar antes de m elhorar. As vacas nos pastos estão esfom eadas. Dá para ver seus ossos.
Estrem eci.
— Deviam atirar nelas, tirá-las de sua tragédia.
— Não podem . Aí seria o fim de tudo. Pense, Thea... Eles precisam do gado.
— Vai chover de novo. Sem pre chove.
— Apenas Deus pode dizer isso.
— Ou os oceanos. Os oceanos decidem quando vai chover.
— Diga isso a m eus tios. Diga para eles pedirem aos oceanos.
Eu não queria parecer frívola.
— Tenho certeza de que é horrível.
— E é m esm o.
Ele descansou a cabeça em m eu om bro, o que nunca tinha feito antes. Em geral, eu é que m e apoiava nele. Acariciei o braço dele e observei com o seus pelos finos se eriçavam ao toque.
— Eu só pensava em você, quando fui em bora. Com o gostaria que você estivesse com igo.
— Bem , aqui estou.
— Quer dizer, ficar com você de m aneira diferente. — Ele passou o dedo pelo m eu colo. — Você tam bém quer ficar com igo assim ?
Olhei ao redor do quarto — a colcha andraj osa, atirada ao chão, as tábuas irregulares, a m esa de segunda m ão; a foto em oldurada de um hom em que eu não reconhecia, alguém da fam ília da tia Carrie. Havia um pequeno cofre em baixo da cam a, que guardava seus tesouros: um dólar de prata, um a pedra lisa da praia de Orm ond, um cartão-postal enviado de Toronto.
Esses eram todos os seus pertences no m undo. E agora eu, eu tam bém pertencia a ele.
— Você não precisa responder — disse ele próxim o a m eu pescoço. — Sim plesm ente fique aqui com igo.
* * *
Eu vim para Yonahlossee no final de j ulho, quase no final do verão. Na Flórida, era sem pre o pior m ês, quando o calor era tão terrível que levava vidas, um a dúzia delas todo m ês de j ulho. Os m osquitos eram insuportáveis, zum bindo, picando, tentando atingir as pessoas de todas as m aneiras possíveis. Quando eu tirava as roupas, encontrava m osquitos na m inha roupa de baixo, abrigados entre m inhas coxas.
Georgie viria nos visitar, para a com em oração de Quatro de Julho. Eu estava ansiosa para ver m eu prim o, com um a notável com binação de terror e j úbilo.
Em um im pulso de extravagância, m eu tio havia com prado fogos de artifício de um a barraca de Gainesville, um a caixa deles. Nós nunca tínham os acendido fogos de artifício antes. Vi a expressão no rosto de m eu pai quando o tio George revelou a surpresa que trouxera, e não foi um a expressão de satisfação, qualquer um podia perceber.
— Um presente — disse o tio George; um presente, e m eu pai não disse um a palavra, então fiquei com pena do tio George, e m uito zangada com m eu pai por sua insensibilidade.
— Ótim o presente — disse m inha m ãe, interrom pendo o silêncio —, um ótim o presente.
Mas j á era tarde dem ais.
Às vezes, quando penso naquele fim de sem ana — e tenho refletido sobre ele com frequência, vendo e revendo as cenas em m inha m ente —, não fico im pressionada. O que aconteceu m e parece, se não norm al, pelo m enos inevitável, previsível. Minha fam ília saiu dele com o um a fam ília diferente, m as isso teria acontecido de qualquer form a. Sam e eu teríam os ido para a faculdade, Georgie teria se casado. Os filhos teriam partido.
E outras vezes penso naquele fim de sem ana e m e sinto um a j ovem estranha — aquele fim de sem ana com o algo im possível.
* * *
Realm ente eu tive a sensação de que alguém estava nos observando. Fui m uito cuidadosa, deliberadam ente ignorei Georgie quando estávam os na frente dos outros, inclusive de Sam . Meu irm ão m e olhava com o se tivéssem os feito um trato, quando eu não ria de algum a piada do Georgie, quando eu recusava até m esm o um sorriso; era tão fácil agradar m eu irm ão.
Assistim os aos fogos de artifício tarde da noite, quando ficava m ais escuro. Meu tio continuava a rezar, de brincadeira, para que a lua fosse em bora. Sam e Georgie carregaram a caixa para a extrem idade do cam po, além da cocheira. Georgie deu um pequeno salto e bateu os calcanhares no ar, deu um berro, e Sam sorriu e eu tam bém , apesar de não querer, m as depois adotei um a atitude fria. Os fogos não tinham entusiasm ado Georgie. Eu, sim , e o que ele im aginou que faríam os m ais tarde. Olhei para m inha m ãe, que observava m eu irm ão, m eu tio e m eu prim o desaparecerem na escuridão.
— Espero que tenha cuidado — disse m inha m ãe, e eu não tinha certeza sobre a quem ela estava se referindo.
Se soubesse; então, ela poderia m e dizer para tom ar cuidado, poderia interrom per os eventos antes que fossem longe dem ais. Nós não conseguíam os m ais ver os três, m as ouvi Georgie gritar para Sam , provavelm ente algum a instrução, e a voz dele ecoando em m eu cérebro m e deu calafrios, am plificou algum desej o que eu não sabia que tinha.
— Faz anos que não vej o fogos de artifícios — papai disse calm am ente.
Coloquei a m ão sobre a dele. Ele a virou e segurou m inha m ão. Papai era alguém m uito fácil de se gostar.
— Você assistia a fogos quando era criança?
— Não m e lem bro.
Achei aquilo estranho — a pessoa se lem braria se tivesse visto fogos de artifício na infância —, m as fiquei sentada quieta, porque senti que papai desej ava ficar sentado quieto. Eu m e lem braria dessa noite, pensei, m as talvez algum dia tudo isso se desvanecesse em um a recordação vaga, quase im perceptível. Parecia insuportável que tudo isso pudesse sim plesm ente desaparecer.
Ouvim os um urro e m am ãe se levantou, apavorada, e então ouvim os o estrondo de um fogo de artifício, e os raios de cores se espalhando pelo céu.
— Está tudo bem , Elizabeth — disse m eu pai, e m inha m ãe voltou a se sentar.
— Você gosta deles, Thea? — perguntou m inha m ãe.
Olhei para o céu e disse:
— Gosto.
A tia Carrie estava quieta. Olhei para ela e m e deu vontade de gritar. A senhora deveria saber, a senhora deveria fazer seu filho parar com tudo isso.
Saí dali antes que os hom ens retornassem , fui checar Sasi, que estava, conform e eu tinha previsto, fora de si. Fiz com panhia a ele por um tem po, m as não conseguia acalm á-lo. Cam inhei com ele ao redor do picadeiro, deixei-o livre para pastar, m as ele não estava interessado em com er. O ar tinha cheiro de queim ado, e não havia m eio de explicar a ele que tudo tinha sido parte de um divertim ento, que não havia nenhum a am eaça real.
Dentro de casa, m am ãe m e disse que ia colocar a casa para dorm ir — um a expressão que eu nunca a vira usar antes. Ela deve tê-la lido em um livro. Encontrei-a na sala de estar, fechando as cortinas, e lhe disse que ficaria lá fora por algum tem po, cuidando de Sasi. Ela m e pediu para não ficar acordada até tarde e prom eti que não o faria, em bora eu planej asse dorm ir do lado de fora, se Sasi não se acalm asse. Talvez Georgie estivesse no côm odo ao lado — na cozinha ou no corredor — e tivesse nos ouvido, ou talvez ele tivesse ido m e procurar na cam a e adivinhado, com toda razão, que eu estaria na cocheira. Era lá que tínham os nos encontrado antes. Não seria de todo inconcebível que eu esperasse lá novam ente.
Eu estava cochilando — não inteiram ente adorm ecida, m as longe de estar desperta, tam bém — quando o ouvi chegar. Observei m eu prim o enquanto ele m e procurava. Sasi estava exausto de tanto se exercitar, e estava im óvel, a cabeça no canto acim a de m im . Eu o am ava. Senti o sentim ento afluir em m inha garganta.
Georgie passou pela baia, o rosto suado. Um instante depois, ele passou novam ente e parou na frente dela, apoiou os cotovelos na porta, e sorriu.
— Achei você.
Sasi se assustou, j ogou a cabeça para cim a e cam inhou até a porta; Georgie deu um passo atrás.
— Não estava m e escondendo.
Levantei-m e perto de Sasi e afaguei o pescoço dele, corri os dedos por sua crina cheia de nós. Eu não estava cuidando m uito bem dele ultim am ente.
— Thea?
Virei a cabeça e olhei para m eu prim o, que estava m uito ansioso. Ele fez sinal para que eu m e aproxim asse, e eu fui, era o esperado de m inha parte, depois de tudo o que tínham os feito j untos. Segui-o de bom grado, e logo que saí da baia, ele m e em purrou contra a fria parede de tij olos, que m e dava um a sensação agradável através do vestido. Ele cheirava a suor, e m ordeu m eu lábio. Virei o rosto e ele com eçou a j untar m eu vestido em volta de m eus quadris. Ele pressionou sua ereção contra m inha perna nua, e m e virei de volta e vi que ele estava se observando, que ele estava excitado com a visão da própria ereção pressionando m inha perna.
— Georgie — eu disse —, espere.
— Por quê?
Ele pegou m inha m ão e m e guiou até nossa baia vazia. A voz dele soava m ais profunda do que um m om ento antes. Afastei o cabelo da testa dele e sorri.
— Está bem .
— Você — ele disse —, você é tão boa.
Naquela hora eu teria feito qualquer coisa. Virei-m e de costas e desabotoei a frente do vestido, e ele veio por trás de m im , fazendo o vestido escorregar por m eus om bros. Ele beij ou m eu pescoço e sentiu m eus seios, e então m e girou para ele.
Colocou o dedo por baixo do m eu queixo e o levantou.
— Você está bem ?
— Não.
— Vou fazê-la se sentir m elhor.
Porém , eu queria que ele m e perguntasse por que eu não estava bem ; queria que ele percebesse o risco que corríam os, pelo m enos a m etade do que eu parecia perceber. Ele parecia tão despreocupado, Georgie, tão despreocupado em relação a tudo isso. Não desviava os olhos. Pergunte, gritei, dentro de m inha cabeça; pergunte, pergunte, pergunte. Em vez disso, ele colocou a m ão entre m inhas pernas enquanto m e observava, agindo de m odo delicado. Depois parou, um m eio sorriso estam pado no rosto, e eu sabia que ele estava m e provocando. Funcionou.
— Não pare — eu disse, e ele desafivelou o cinto, e tudo pareceu tão bom , e então eu o desej ava, precisava dele, pois o que eu sentia nesse instante não era prazer, exatam ente: era a prom essa do prazer, um a coceira que precisava de unhas para coçar.
E talvez, pensei enquanto o sentia perto de m im , enquanto ele afastava m inhas coxas ao m esm o tem po em que fazia desenhos com os dedos sobre os m eus m am ilos. E talvez, pensei, enquanto ele se im pelia para dentro de m im , fosse suficiente, que Georgie tentasse m e entender m ais tarde, que exatam ente agora havia um a necessidade e, quando term inássem os, a necessidade talvez não existisse m ais.
— Relaxe — disse ele, e eu tentei relaxar.
No entanto, doía, m as a dor, percebi, era um a parte do prazer. Eu não devia ter feito isso, tinha sido m uito m á, e agora estava sendo punida. Estava tudo tão claro. Olhei pela j anela da baia na direção da um a noite negra, m uito negra. Senti o tecido da cam isa de Georgie, coloquei as m ãos nos om bros dele e o puxei para m ais perto de m im . Se um a porta tivesse batido, se m am ãe tivesse posto o pé na varanda de trás e cham ado por m im ...
O rosto de Sam surgia em lam pej os em m inha cabeça, não com o ele estava agora — zangado, m agoado —, m as com o costum ava ser, um garotinho que sentia o m undo profundam ente.
“Nós devíam os inverter vocês dois!”, m am ãe costum ava dizer, com o se as m eninas fossem m ais adequadas a sentirem o peso do m undo do que os m eninos. Georgie se curvou e lam beu m eu seio com o um cão fam into; estrem eci e puxei-o para cim a — eu m e sentia excluída do que ele estava fazendo agora, ele estava dentro de m im , m as estava interpretando um a fantasia privada, um a fantasia que requeria m inha presença, m as não m eu am or.
Mam ãe tinha razão. Eu agia m uito com o um rapaz, sem pensar nas consequências. Lem brei-m e da tenda que m am ãe nos deixara m ontar entre nossas cam as quando éram os pequenos. Sam apertou m eu rosto entre as m ãos gordas:
— Thea — disse ele —, Thea!
Georgie arfou contra m im , um a vez, duas, e pareceu ficar m aior dentro de m im , im possivelm ente grande. Depois, colocou a cabeça em cim a de m eu peito e respirou profundam ente. Tudo acabou rápido dem ais.
O que Sam tinha querido? Eu não conseguia lem brar de form a algum a.
Escorreguei pela parede fria até m e sentar. Georgie estava de pé sobre m im , enfiando a cam isa nas calças, apertando o cinto. Foi o fato de vê-lo fazer todas aquelas coisas, aqueles gestos norm ais, do dia a dia, que m e fizeram m e sentir m uito solitária. Pus a cabeça entre as m ãos.
— Thea?
— O que fizem os?
— Você não sabe? — Lá estava, um a risada ultraj ante, im possível, na voz dele.
— Não m e refiro a isso.
Ele se sentou perto de m im .
— É tudo m uito natural — disse.
— Não parece. — Balancei a cabeça.
— Não?
— Devíam os ter esperado. — Eu olhava ao longe.
Ele riu.
— Por quê? — perguntou. — Não havia um m otivo para esperar, no nosso caso.
Eu estava nua e m eu prim o estava com pletam ente vestido. Ele fez um desenho na terra e parecia estar pensando no que diria a seguir, o que era um a atitude pouco usual nele, pensar antes de falar.
— Agim os errado — eu disse.
— Não forcei você a nada.
Balancei a cabeça. Ele não entendia nada.
— Quero m eu vestido. — Apontei para onde ele estava.
Ele pegou m eu vestido no m eio da baia, e parecia que se m ovim entava com o um estranho. Depois ficou de pé perto de m im , m e observando.
— Não achou que isso ia acontecer? — Ele soava genuinam ente curioso.
Tudo o que eu queria era ficar sozinha.
Eu tinha a nítida im pressão de que tinha desistido de m uita coisa por apenas noventa, cem segundos. E aquele m inuto, aqueles dois m inutos, tinham sido dolorosos para m im , tudo tinha acontecido para o prazer de Georgie. Percebi m uito claram ente nosso futuro: faríam os isso m ais um a dezena, duas dezenas de vezes, e então George term inaria com igo, com nosso arranj o. Os rapazes podiam fazer isso, eu com preendia agora, observando m eu prim o, a m aneira com o ele se colocava de pé perto de m im , sem qualquer preocupação, tão confiante. Os rapazes eram feitos para este m undo.
— Não som os do tipo de casar — disse ele. — Thea? Você pensou que nós éram os do tipo de casar?
— Não sei o que pensei — respondi. — Mas não era isso.
Fiz um gesto apontando a baia, as paredes m arrons, m ofadas; elas precisavam ser esfregadas, um a das m inhas tarefas para o verão. Georgie seguiu m inha m ão, seguiu-a até onde ela parava: nele, vestido com roupas que m eus pais haviam com prado, as únicas coisas boas que ele possuía. Minhas bochechas estavam pegando fogo.
— É suj o.
Ele se aj oelhou a m eu lado e tocou na m inha face.
— Não é assim .
— É, sim — disse e tirei a m ão dele. — É exatam ente assim . É o que você faz, na sua fam ília.
— Na m inha fam ília?
Senti todas as palavras se form ando no m eu coração, prontas para explodir; apertei o vestido contra o peito e vi com o eu term inaria isso tudo. Sentia pena dele agora. Ele estava ali de pé, tão m udo, tão confuso... Eu não queria sentir pena dele. Não queria nenhum a parte dele. Queria lavar m inhas m ãos para lim par os vestígios dele, e nesse m om ento isto pareceu possível: eu poderia não ter m ais nada com ele para sem pre.
— Você é com o seu pai. — Eu falava rapidam ente; visualizei m eu tio, bom e terno, e m e senti um a garota m uito, m uito m á, m as não tinha escolha. — Seu pai veio até o m eu com o você veio até m im , suplicando. Você é exatam ente com o ele, constrangedor.
Mantive o vestido no peito e a única coisa que eu queria neste m undo era estar vestida. Meu prim o olhou pela j anela da baia, para a noite preta com o breu, aqui onde as luzes da cidade não alcançavam . Senti-m e enj oada. Eu queria que tudo isso acabasse. Mas observei o perfil do m eu prim o e vi que não acabaria nunca; nós fazíam os parte da m esm a fam ília, j am ais poderíam os nos livrar um do outro.
Olhei para baixo. Quando voltei a levantar o olhar, o rosto de Georgie tinha um a expressão cruel. E que alternativa ele teria? Faço-m e essa pergunta agora, anos m ais tarde, tarde dem ais, tudo em ruínas.
— Olhe para si m esm a — disse ele, e seus olhos peram bulavam por m eu corpo, o vestido m e cobrindo tão inapropriadam ente.
— Se você não for em bora daqui — am eacei —, vou gritar.
— Você vai gritar?
E se eu tivesse esperado um segundo antes de am eaçar gritar? Ou m elhor, e se eu tivesse dado um passo para trás no tem po e não dissesse nada, desse um beij o de boa-noite e agisse com o se tudo continuasse igual, e deixasse nosso acordo term inar lentam ente, com o Georgie tinha dito, de form a natural? Ele podia ser estúpido, grosseiro e cruel; ele era igualm ente gentil, engraçado e sincero. De qualquer m aneira, nada disso im portava. Ele era um dos m eus. Era m eu prim o. Eu queria retirar tudo o que falara. Queria que ele retirasse tudo o que falara. Pela prim eira vez na vida, com preendi que certas palavras eram com o ferro quente, m arcadas no cérebro.
— Quem vai ouvir você?
— Todo m undo.
— Não acho que você queira que todo m undo ouça.
Nós nos encaram os. Deus sabe o que você estava pensando, Thea. Só Deus sabe. Eu conseguia ouvir a voz de m inha m ãe. Georgie m e observava, m as eu não consegui encará-lo. Finalm ente, ele saiu.
Dorm i na cocheira. Eu m e sentia suj a, m as não suj a o suficiente para m e lavar. Parecia natural adorm ecer na baia vazia, ficar na cocheira até o dia clarear.
Esgueirei-m e para o andar de cim a da casa ao am anhecer e tom ei um banho, pensei em Georgie, que dorm ia no quarto ao lado. Eu poderia m uito bem não ter m e dado o trabalho de fechar a porta. Ele j á tinha m e visto nua. Mas havia Sam , que não m e vira nua. Cravei as unhas no braço. Fui usada por m eu próprio prim o. Eu era um a j ovem em um a época em que as j ovens não tinham poder. Você pode dizer que eu poderia ter previsto o que aconteceria. Mas nunca m e senti sem poder em m inha casa. Não aprendi a ser cuidadosa a esse respeito.
Quando desci para tom ar café da m anhã, Georgie não estava na m esa, e nem Sam . Supus que ainda estivessem dorm indo — era cedo ainda, não passava das sete horas.
— Seu pônei se acalm ou? — perguntou m am ãe.
— Sim .
— Você está bem , Thea?
Eu queria m uito contar para ela. Queria m uito ser consolada. Estou tão envergonhada, m am ãe, fiz um a coisa tão horrível que você não vai nem acreditar.
Ela tocou no m eu pulso.
— Thea?
A voz dela era suave, agradável.
— Estou bem — respondi. — Apenas cansada.
Ela m e olhou, a cabeça inclinada, e percebi que não poderia contar nunca, não nesta vida.
Depois do desj ej um , selei Sasi e fui para o pom ar de laranj as. Cavalguei a m anhã inteira, dei a volta e deixei Sasi voltar para a cocheira a m eio galope. Eu m e sentia descuidada hoj e. Haveria consequências — Sasi lutaria por sua cabeça da próxim a vez que fôssem os em direção à cocheira — m as elas pareciam pequenas, e eu m e sentia grande e m á. E tam bém com m edo, em bora tentasse ignorar o sentim ento de m edo quando ele surgia, tentasse abafá-lo, m andá-lo de volta. Eu sem pre fora tão eficiente em refrear o m edo. Estive à beira das lágrim as a m anhã toda; agora o m eio galope m e em balava em um tipo de transe e eu balançava na sela com o um a boneca de pano. Com ecei a chorar, com o um a m enina, com o um a criança.
Então Sasi deu um a guinada para evitar algum a coisa — não consegui ver exatam ente o quê —, engasguei, agarrei a crina curta dele e m e endireitei na sela, ligeiram ente, enquanto tentava m urm urar palavras tranquilizadoras, enquanto tentava tom ar o controle das rédeas. Cavalgar era assim : fazer um m ilhão de coisas ao m esm o tem po, tudo por instinto.
— Desculpe — gritou Sam atrás de m im , e desej ei ter caído, de m odo a ter um pretexto para as lágrim as. — Thea? — perguntou Sam . — Você está bem ?
Não, eu queria dizer, não estou, e então desatei a chorar. Eu tinha deixado Georgie fazer coisas com igo que se tornaram inim agináveis em m inha m ente; tinha feito coisas com ele que nunca poderia contar para ninguém . Nem para m inha m ãe, nem para m eu pai, nem para Sam , nem para — e isso m e ocorreu apenas naquele m om ento, na garupa do pônei que eu adorava, no m eio do laranj al por onde eu tinha cavalgado m ilhares de vezes, não, m ilhões — m eu m arido. Senti-m e tonta e enj oada.
— Thea? — E essa voz pertencia a Georgie. É óbvio. Georgie estava sendo sim pático com Sam , talvez porque eu não fosse m ais a favorita dele. — Thea? — repetiu, e logo Sam estava a m eu lado, segurando as rédeas de Sasi, falando com ele serenam ente.
Sasi m ordiscou a cam isa de Sam , nervoso, m as depois se acalm ou. Lem brei-m e do que m am ãe sem pre dissera, que estava em nosso sangue am ar os cavalos. E que outras atitudes estariam em nosso sangue?
— Por que você está chorando? — perguntou Sam , m as só consegui soluçar ainda m ais forte.
A beleza do dia am pliava m inha desgraça; se tivesse chovido, eu não teria m e sentido tão sozinha, tão infeliz.
Sasi arfava pesadam ente, e por um ou dois m inutos foi o único som a ser ouvido — suas respirações graves e ritm adas.
— Thea? — Sam cham ou novam ente.
Pare de dizer m eu nom e, era o que eu queria gritar. Pare. Desviei o rosto para não ter que olhar para ele e vi Georgie, sentado em um a pedra. Ele não tinha se aproxim ado de m im . Notei então que tanto Georgie quanto Sam tinham arm as penduradas nos om bros. Fiquei pensando se Sam tinha atirado em algo. Certam ente não. Ele não ia ficar cuidando de esquilos órfãos para depois caçá-los quando se tornassem adultos.
— Desculpe — falei, afinal —, desculpe, desculpe, desculpe.
Lim pei o rosto, m olhado de tanto suar, fungar e chorar. Eu m e sentia repugnante, com o um m onstro.
Georgie se levantou e cam inhou na m inha direção, e, antes que eu percebesse, ele colocou a m ão na m inha coxa, vencendo seu m edo de Sasi, e gritei para ele:
— Não toque em m im ! — Eu nunca m e sentira assim antes. Vi centelhas contra o claro céu azul. Eu estava quente, m uito quente. — Não toque em m im ! — gritei sem parar, até m inha voz ficar rouca. Pude sentir os dois rapazes m e observando, espantados.
Sam se virou para Georgie.
— O que você fez?
— O que nós fizem os — respondeu Georgie, e sua voz se tornou cruel. — O que nós dois fizem os j untos.
E então com eçou a se afastar, e Sam se arrem eteu contra ele e o em purrou ao chão. Georgie levou um segundo para se levantar, de tão surpreso que ficou.
Sasi, nervoso, trem endo por baixo da sela, com eçou a trotar, m as eu ainda estava olhando para trás, então vi Sam — sua nuca, que eu conhecia tão bem , os om bros finos, a pose graciosa — levantar a m ão e dar um tapa no rosto de Georgie, com a palm a aberta, e depois m eu prim o reagir com um soco no rosto do m eu irm ão, e o nariz dele com eçar a sangrar m uito.
— Parem ! — gritei.
Inclinei-m e para a frente; Sasi em pinou brevem ente e caí de m au j eito na cabeça da sela pois não estava prestando atenção. Agora, sentia um a dor aguda entre as pernas, e quase fiquei contente com a sensação, porque tornava as coisas reais novam ente, Sam e Georgie deixavam de ser figuras surreais, se esm urrando desaj eitadam ente, tendo com o cenário um laranj al gigantesco.
— Parem ! — gritei m ais um a vez, e acenei com a m ão, com o se isso fosse aj udar.
Quando m e virei para trás de novo, vi Sam levantar a coronha do rifle e acertar no om bro do m eu prim o — do prim o dele, do nosso prim o —, e Georgie, surpreso, cair para trás, recobrar o equilíbrio e se j ogar para cim a de Sam . Ele parecia um a criança tentando desequilibrar um adulto. Georgie tinha m edo de cavalos; bati as pernas contra os flancos de Sasi e o guiei em um galope na direção do m eu irm ão e do m eu prim o. Eu queria interrom per a briga deles. E, enquanto eu galopava, eu estava ciente não do que poderia acontecer — que algum de nós poderia se ferir gravem ente, que eu estava tom ando um a atitude que com quase toda certeza acabaria por deixar um de nós m achucado —, não, eu só pensava em com o estava cavalgando desaj eitada, com o eu deveria estar feia sobre m eu pônei desvairado e furioso, e com o estava envergonhada por Georgie m e ver dessa m aneira.
Georgie dirigiu o olhar para nós, a boca sangrando, um a expressão de terror no rosto; m udei o peso na sela de m odo a galopar exatam ente entre m eu irm ão e m eu prim o. Sasi voava — eu nunca tinha chegado a tal velocidade com ele —, o laranj al parecia um a m ancha. Senti um gosto am argo na boca. Fiquei pensando se seria m edo.
Eu não os apartei, com o tinha esperança de fazer. O que aconteceu foi que Georgie entrou em pânico e correu na m inha frente na direção de Sam . Ele pensou que eu queria passar por cim a dele, que estaria seguro ao lado de Sam . Ele não sabia que um cavalo j am ais faria isso; seria m ais fácil um cavalo perm anecer em um prédio em cham as do que atropelar um a pessoa. Sasi tropeçou; o casco dele bateu em algo duro — percebi que era a pedra em que Georgie estivera sentado —, e nesse instante vi Sam levantar a coronha da arm a e atingir na lateral da cabeça, m as Sasi recuperou o equilíbrio. Ele galopava m uito rápido e não dim inuía a velocidade. Usei todo o peso do corpo para frear, m as o pônei era um fio elétrico em baixo de m im , então deslizei enquanto ele ainda estava no m eio galope e caí com violência no chão.
Levantei-m e rápido, m e virei e lá vi Georgie, Sam balançando-o pelos om bros com o se ele fosse um boneco. Dava para ver com o a cabeça de Georgie estava arrebentada, dava para ver que ele não estava nada bem .
— Sam ! — berrei. — Você vai m atar Georgie!
Sam m e olhou, horrorizado, e vi que ele estava em choque. Eu não estava em choque. Havia sangue por todo o rosto dele, grudado nas bochechas e no pescoço com o se fosse um a tinta; Georgie tam bém estava ensanguentado e caído no chão. Havia m uito sangue. Eu nunca tinha visto tanto sangue assim , m as m e ocorreu que obviam ente m eu pai j á teria visto, que obviam ente ele saberia o que fazer.
Fiz um sinal para Sam se aproxim ar de m im , e ele com eçou a correr desesperadam ente, os m em bros descontrolados, com o um a criança.
— Vá cham ar papai! — m andei. A saliva brilhava em volta de sua boca. — Vá cham ar papai — repeti.
Fiquei sozinha com Georgie enquanto Sam corria para casa. Afastei o cabelo da testa dele. Sua pele estava quente. O cabelo estava grudado com sangue. Sam havia ferido nosso prim o com a arm a, um a arm a que nunca usara antes contra qualquer ser vivo.
Aj oelhei-m e a seu lado e o arrum ei para que ele não parecesse desgrenhado. Aj eitei o colete e usei m eu lenço para enxugar o sangue dos lábios dele, m as a boca continuava verm elha; então, inclinei a cabeça dele para trás e passei em seus dentes. Ele tinha um a aparência m elhor quando acabei. Alisei sua testa novam ente. Ele respirava e eu m eio que esperava que ele abrisse os olhos e sorrisse para m im , com o se a noite anterior j am ais tivesse acontecido. Mas ele abriria os olhos e sorriria para m im , e eu nunca seria capaz de retribuir o sorriso. Eu não tinha esquecido.
Ouvi um grito vindo de casa — m am ãe ou a tia Carrie, não consegui distinguir — e reparei no rifle de Sam , que estava j ogado perto de m im . Tam bém havia sangue nele, e por isso, sem pensar, lim pei-o em m eu culote, que j á estava cheio de sangue m esm o, e o atirei longe, o m ais longe que consegui, que não era tão distante assim .
Ele ainda estava deitado do m esm o m odo quando m eu pai apareceu, com os outros adultos. Eu segurava a m ão dele, e m eu pai m e lançou um olhar estranho por um segundo antes que eu fosse em purrada para o círculo que cercava Georgie — m inha m ãe e m eu pai, m inha tia e m eu tio.
Sam m e olhava. Peguei a m ão dele, em um im pulso, e ele a tirou. Os olhos dele estavam apáticos. Ele m e fitava com o se não m e conhecesse.
— Sam ? — eu disse suavem ente.
Tentei ignorar o círculo de adultos nas proxim idades, tentei m e concentrar apenas no rosto ensanguentado de m eu irm ão.
Ele m e olhou por um breve instante e depois se agachou no chão, abraçou as pernas e com eçou a balançar suavem ente, para a frente e para trás. Agachei-m e perto dele, e pousei as m ãos em seus om bros, e ele m e olhou novam ente, e m ais um a vez pareceu não m e reconhecer. Então eu quis m orrer, quis que Sam esm agasse minha cabeça com a arm a.
Minha m ãe se desgarrou do círculo e se aproxim ou de nós. Olhou para Sam , depois para m im , depois de novo para Sam . Ela se abaixou e agarrou nós dois pelos braços, com o costum ava fazer quando éram os crianças, m eu braço direito e o braço esquerdo de Sam , com o se fôssem os um a pessoa só, e se inclinou para nos fitar ao nível dos olhos. Isso tam bém era um a rem iniscência da infância.
— Vão para seus quartos — m urm urou, e seu hálito soprou em nossos rostos.
Ela agarrava nossos braços com força, cravando as unhas através do tecido, m as não dissem os nada. Sam não pareceu nem m esm o reparar nela, e m am ãe não pareceu reparar em com o Sam estava estranho.
— Vão — m urm urou novam ente, e nos largou fazendo um gesto com a cabeça em direção à casa.
Sam se levantou e, do chão, eu o observei. Esfreguei o local onde m am ãe havia agarrado m eu braço. Ele peram bulou para longe dali, o passo instável, m as depois deu m eia-volta e m e encarou. Olhei para o outro lado.
— Thea — disse Sam —, Thea, Thea, Thea.
Ele ficou repetindo m eu nom e. Parecia possesso; não parecia ele m esm o.
— Pare! — gritei —, pare! Agora!
Tapei as orelhas com as m ãos. Isso era o que ele fazia quando éram os pequenos, quando ele queria m e aborrecer. Eu odiava, odiava a m aneira com o m eu nom e se transform ava em nada m ais do que um som quando repetido indefinidas vezes. Quase tinha m e esquecido. Ele não fazia isso havia anos.
Então ele parou, os lábios entreabertos. Eu queria ardentem ente dizer m ais algum a coisa, m as sabia que não havia nada a dizer. Sam apontou algo atrás de m im ; voltei-m e e vi Sasi, que estava na entrada da cocheira, o corpo agitado. Eu tinha m e esquecido dele. Aproxim ei-m e do m eu pônei, peguei as rédeas e acariciei seu pescoço enquanto observava a figura elegante do m eu irm ão desaparecer. Eu não podia devolver Sasi para a baia daquele j eito, ele poderia ter um a cólica e m orrer. Fui cam inhar com ele ao redor do picadeiro e vi o tio George a distância, seguido pelos outros adultos, carregando o filho nos braços, inerte e ferido.
— Ele está m orto? — perguntei em um grito agudo. — Ele está m orto?
E m inha m ãe correu para m im e parou quando alcançou a grade.
— Não — m urm urou ela, m as com o se fosse um grito —, não, ele não está m orto, m as está m uito m achucado, e o que aconteceu, Thea?
Eu não disse um a palavra.
— Thea — repetiu ela, e a voz dela soou m uito solidária.
Eu não m erecia aquela voz, e sabia que era a últim a vez que ela a ofereceria. Quando falasse novam ente, a voz seria horrível.
Minha m ãe não podia ficar ali para sem pre, e quando os outros adultos passaram , ela se j untou ao grupo. Encostei o rosto no pescoço escorregadio de Sasi, senti seu suor poeirento em m inha testa e tentei não olhar para m eu prim o.