Escola de equitação para moças

Anton DiSclafani · Capítulo 18 de 23

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Escola de equitação para moças

Capítulo 18

 

Sissy m e alcançou no cam inho de volta das cocheiras. Em geral eu esperava por ela, m as ultim am ente eu saía apressada do aloj am ento após a hora de descanso, antes m esm o que o sino tocasse; e quando term inava de m ontar, corria para acalm ar Naari. Era fácil evitar Sissy, que sem pre se atrasava. Eu tinha com eçado a fazer qualquer coisa que desej asse. Às vezes eu nem abaixava a cabeça durante a oração; ficava observando o Sr. Holm es. Ele fazia pequenos m ovim entos com as m ãos, m esm o m antendo os olhos fechados enquanto falava. Tentei isso um a vez no bosque, fechei os olhos e falei com as árvores. Mas m e senti tão estranha quanto se cam inhasse com os olhos vendados.

— Você está sem pre correndo — disse Sissy . — Nunca consigo alcançá-la.

Ela parecia irritada, a voz ríspida em tom elevado.

Encolhi os om bros. Outras m eninas nos rodeavam . Abri a boca para com eçar a falar, m as fechei de novo; na verdade, não tinha nada para dizer.

Sissy encolheu os om bros, e percebi, em choque, que ela estava m e im itando. Eu a encarei.

— O que foi? — Ela repetiu o gesto. — Nunca consigo ver você, e você parece não se im portar. Faz sem anas que não pergunta sobre Boone.

Então, era esse o m otivo. Fiquei aliviada e tam bém , por estranho que fosse, desapontada.

— Sei que ele ainda aparece — lem brei a ela. — Sou eu que aj udo você. Tom o seu lugar na cam a.

Ela m e em purrou para um dos lados do cam inho, até o bosque.

— Pare com isso, Thea. — A voz dela falhou. — Você tem andado por aí com a cabeça nas nuvens. Nem aparece m ais na Sala de Estudos.

— Ninguém estuda m esm o.

— Não é esse o ponto. — Eu ia com eçar a m e defender, m as Sissy continuou. — Você visita a Casa do Diretor com m uita frequência. As garotas estão com entando.

Esperei que prosseguisse, m as ela parou.

— O que elas estão dizendo? — perguntei.

— Que você está obcecada pelo Sr. Holm es, que está apaixonada.

Eu ri, m as o som saiu esquisito de m inha garganta.

— Sissy — falei, tentando parecer incrédula —, eu vou lá por causa de Decca. Ela pediu para eu ir, você sabe.

Ofereci isso com o se fosse a prova de algo. E então veio tam bém um a sensação de alívio, o que Leona dissera na Praça era boato, nada m ais.

— Thea, não com ece! — A voz estava m ais aguda. — Sou sua m elhor am iga. Não com ece.

Fiquei com ovida, m esm o naquele m om ento, que ela se considerasse m inha m elhor am iga. Sissy estava rígida; peguei a m ão dela.

— Gosto de ficar lá. Com Decca. Com o Sr. Holm es tam bém . Ele m e entende.

— O que ele entende a seu respeito? — Ela apertou m inha m ão e m e olhou m elancolicam ente. — Mandaram você para cá por causa de um rapaz.

Concordei com um aceno de cabeça. Eu tinha contado isso para ela, j á fazia tanto tem po que parecia ter sido em outra vida, quando eu estava m e acom odando em Yonahlossee e queria desesperadam ente arrum ar um a am iga.

— O Sr. Holm es não é um rapaz.

Retirei m inha m ão.

— Sei disso.

Fiz um a breve pausa. Se eu tivesse sido coraj osa o suficiente para confiar em Sissy, poderia ter perguntado o que ela queria dizer exatam ente, o que ela estava im aginando.

— E David? — perguntou Sissy .

— David — repeti, confusa. Eu quase tinha m e esquecido dele.

Sissy m e observava. Eva se aproxim ou, com Gates, e sorri para elas por cim a do om bro da Sissy .

— Ele não é... Desculpe-m e.

— Ah, não se desculpe. É que teria sido tão fácil, gostar dele. Tão divertido. Apareça m ais — disse ela, e sua voz tinha voltado ao norm al. — Por favor?

Eu j á vira Sissy fazer isso antes, decidir que um a discussão tinha chegado ao fim e concluí-la assim , com o quem sopra um a vela. Era um de seus dons, j am ais se perm itir brigar com alguém . Mas ela nunca havia agido assim com igo. Nunca precisara.

Pensei em David no restante do dia, enquanto cam inhava de um lugar para outro e cum prim entava diversas m eninas com a cabeça, e sabia que eu não era com o elas, não queria as m esm as coisas, tinha deixado m inha vida desnecessariam ente difícil e continuaria a fazer isso. E por quê? Por que, Thea, por quê?, a voz de m inha m ãe zum bindo, zum bindo.

Entretanto, eu sabia por quê. Eu era esperta. David era um rapaz e m e fazia lem brar do Georgie, com o qualquer rapaz faria. Eu estava farta dos rapazes.

* * *

De repente, Yonahlossee transform ou-se em um a nuvem de cores: tapetes de brássicas se espalhavam para além dos picadeiros em todos os tons de rosa; j acintos azuis cobriam a Praça; e finalm ente, os narcisos, m eus prediletos, circundavam nossos picadeiros em canteiros cuidadosam ente arranj ados. A Sra. Holm es tinha supervisionado o plantio das flores antes de partir. Ela era excelente com as flores, Henny dissera certa noite, e fui obrigada a concordar.

Não há futuro nisso. Eu continuava a esperar que o Sr. Holm es dissesse essas palavras, m as ele nunca o fez. Eu sabia que isso tudo iria term inar. Sabia a data. E sabia com o. A Sra. Holm es voltaria para casa, e nós sim plesm ente pararíam os com aquilo.

Não há futuro nisso, o Sr. Holm es poderia ter dito, poderia ter m e preparado para o inevitável. Mas eu não era ingênua. Poderia ser rotulada de m uitas coisas — indecente, covarde, ardilosa — m as não de ingênua. Por que agi dessa m aneira, prim eiro em casa e depois em Yonahlossee? Eu arriscava tudo quando eu era m adura o suficiente para não incorrer no m esm o erro. Mas sem pre havia isto: o âm ago do desej o em m inha garganta. Eu não conseguia afastá-lo. Não queria.

Minha m ãe ficaria desapontada com igo. Ela m e odiaria se soubesse o que eu estava fazendo. Ainda assim , se m inha fam ília foi capaz de m e banir tão facilm ente — para longe de casa, para longe de seus corações —, eu não seria capaz de agir da m esm a m aneira? Eu não era fraca. Havia tanto desej o dentro de m im , tanto anseio. Eu m e sentia explodir quando o Sr. Holm es m e tocava, m e sentia m ultiplicar.

Com Georgie, eu havia sentido desej o, sim , m as apenas um a fração do que eu sentia com o Sr. Holm es. Ele m e havia ensinado que o desej o é divisível, que se m odifica de acordo com o obj eto. Fiquei pensando se m inha m ãe sabia disso. Fiquei pensando se m eu pai sabia. Porque você não pode saber se só teve desej o por um a única pessoa na vida, se você se m anteve afastado de todas as outras.

Pensei naquilo que o Sr. Holm es m e dissera, que m eus pais haviam feito um a troca. Ele não os conhecia, não conhecia a ternura de m eu pai, o lar adorável de m inha m ãe. Ele não sabia com o nós todos nos am ávam os.