Esnobes
Oito
ELES ENTRARAM NO SAGUÃO do aeroporto de Mallorca e ficaram no meio do que parecia e soava como sendo os torcedores fanáticos do Wolverhampton Wanderers. A seguir, foram recebidos por um homem de bermuda de náilon vermelho, que falava com sotaque cockney e tinha o rosto marcado como couro curtido. Explicou que era o “motorista” de Eric que ia levá-los para a villa e Charles ficou um pouco contrariado por não ser recebido pessoalmente. Edith ia aprender que, como tantos figurões aparentemente simpáticos, ele ficava inseguro quando tratado como “gente comum”, embora dissesse que apreciava. Já ela gostou de sair do aeroporto e entrar num carro; aos poucos, foi passando esse alívio para ele. E perdoou os Chase por não saírem de casa: foram duas horas e meia de viagem atravessando a ilha, em meio a arbustos secos e choupanas. Edith não conhecia Mallorca, nem sabia o que esperar de lá. Mas, olhando pela janela do carro, concluiu que imaginava uma mistura de Monte Carlo com Blackpool e não as terras malcuidadas e as planícies arenosas da Salamanca. Quando estavam perto de Cala Ratjada, apareceram os imensos hotéis de concreto que ela previa, além das multidões (em geral, simpáticas, mas dando a impressão de gostarem de bonés com a inscrição Me beija) e de todas as cenas e indícios de férias a prestação.
A villa era uma grande e moderna casa branca construída junto a uma espécie de pátio/colina, com enormes varandas abrindo para a baía. Tinha uma praia particular, que parecia ser mais para nadar do que para ancorar embarcações, assim os hóspedes não precisavam ir à praia lotada e cheia de areia onde os turistas nadavam a poucos metros, à esquerda. Do outro lado, viam-se as bonitas casas do Mallorcin atrás de um suave cortinado de árvores; para além delas, o vasto oceano azul. Edith e Charles ficaram admirando a paisagem, uma moça esguia acenou para eles da praia e veio subindo a escada. Minutos após, Caroline apareceu. Os dois foram beijados e cumprimentados e, por sua vez, elogiaram a villa.
– Não é linda? Pertence a um cliente de Eric, por isso conseguimos um preço baixíssimo. Bem menor que o aluguel do ano passado e a casa tem o dobro do tamanho. Claro que nos acostumamos a ter hóspedes o verão todo.
Charles franziu de leve o cenho.
– Pensei que essa semana seríamos os únicos hóspedes.
– É, eu também pensei. Mas Peter ligou dizendo que só podia vir agora. Jane e Henry de repente avisaram que podiam, finalmente, vir. E um dos colegas de trabalho de Eric apareceu com a esposa.
Caroline franziu de leve o nariz.
– Acho que Eric tinha convidado o casal e esqueceu. Não é terrível? Bom, mas eles vieram e parece que nos perdoaram.
– Quer dizer que estão todos aqui? Esta semana?
– Agora. Foram trocar de roupa para o jantar. Alguém já mostrou a suíte de vocês? Ficaram com a melhor, não podem reclamar.
Charles jogou-se na cama de um jeito que Edith só conseguia descrever como “arrasado”.
– Céus! Era melhor termos armado uma tenda em Trafalgar Square!
Edith deitou-se ao lado dele.
– Ah, querido, não tem importância. Tenho certeza de que aqui cada um faz o que quer. Vamos dar um jeito.
Na verdade, ela se sentia meio culpada porque, quando Caroline avisou que havia outros convidados, ela, Edith, de repente gostou de saber que não iam ser só os dois casais. Não gostava do pouco que conhecia de Eric, ficava meio intimidada com Caroline e tinha de admitir que não conseguia conversar nada com Charles. “Depois que estivermos mais tempo juntos, será mais fácil”, ela pensou mas, meio desanimada, percebeu que já sabia a opinião dele sobre toda e qualquer coisa. Como se fizesse uma brincadeira consigo mesma, tinha começado a inserir temas estranhos nas conversas (tais como psicossíntese e Dalai Lama), na esperança de Charles surpreendê-la com alguma opinião porém, até o momento, isso não tinha ocorrido.
À noite, foram encontrar os outros convidados no terraço de cima. Nos meses de namoro com Charles, Edith se irritava com Caroline pelo simples fato de ser bem mais inteligente que o irmão. Tinha medo de que Caroline tirasse Charles da conversa e até de Edith, ou o deixasse na defensiva. Podia ser mas, apesar de esnobe e egocêntrica, Caroline era uma boa pessoa. Agora que as duas eram cunhadas, Caroline queria ter um bom relacionamento com Edith; queria também que Charles (por quem tinha um amor quase maternal) aproveitasse a estadia. Quando entraram na sala e passaram pelas portas envidraçadas ao encontro dos outros convidados, Edith confirmou tudo isso nos sorrisos sinceros, nos lindos canapés, no champanhe em balde de gelo. As mulheres usavam roupas caras de coquetel, em vez de trajes de noite, e os homens estavam sem gravata, de colarinho aberto. Os casais pareciam descombinados, como quando se recebe uma carta errada em Happy Families. Jane Cumnor era a mais exagerada, num tomara que caia preto de moiré, mas não chegava a competir com Edith, muito à vontade em seu vestido de algodão com decote nos ombros. Na última vez em que as duas se encontraram, Edith derrubou a fortaleza de Jane e agora era a mulher mais bonita da reunião. Ambas sabiam muito bem que a relação delas tinha mudado de uma hora para outra. Jane se inclinou para dar um beijo besuntado de batom no rosto da recém-casada. Pesadão, Henry encostou o rosto no dela. Com sua roupa de verão bem colorida, ele parecia uma cabine de banho numa praia do século XIX. Edith ficou imaginando a camisa dele se abrir de repente e mostrar um tímido banhista de maiô de malha listrado. Caroline levantou a taça e brindou:
– Seja bem-vinda à família.
– Muito bem, Edith – compartilhou Eric, que estava atrás, na beira do terraço.
Os outros fingiram não perceber o tom que ele usou, levantaram as taças e o brinde pareceu mais normal. Edith sorriu, bebeu o champanhe com Charles, os dois agradeceram e todos sentaram-se.
O mar iluminado pela lua brilhava por trás dos convidados, que conversavam espalhados pelo terraço nas cadeiras de vime com almofadas, segurando taças de champanhe, as mulheres em couture, diamantes reluzindo nas orelhas. Enquanto isso, acomodada nas confortáveis almofadas de estampas Liberty, mais observando do que participando, Edith sentiu o calor tépido do luxo envolvente do privilégio. Na juventude inteira ela se esforçou para ser caixa-alta e não uma pé-rapada e, exatamente quando achou que não ia conseguir, ali estava, realizando seu sonho. Aquele tagarelar de lordes e milionários era uma amostra da sua turma a partir de então e aquele cenário exótico seria o primeiro de muitos. Da mesma maneira que um motorista pode enxergar montanhas lá longe, no final do deserto, e depois vê que está no alto das tais montanhas, sem perceber que elas se aproximaram, Edith pensava, encantada, no seu progresso, da respeitável vida haute bourgeois em Elm Park Gardens e Milner Street até aquele misto de novela açucarada americana com romance de Laclos.
A primeira noite correu maravilhosamente bem. Edith conhecia todos, com exceção de uma loura desbotada que parecia ter vindo com amigos de Peter e Eric, o casal Watson. O marido, Bob, era sem graça e vulgar mas a esposa, Annette, embora também fosse vulgar, era bonita e engraçada, Edith gostou dela. Antes de se casar, Annette foi modelo e atriz no início da década de 1980, por isso tinha muitas histórias hilariantes de sua participação em épicos romanos e filmes de faroeste espanhóis. Falou bastante durante o jantar, servido no salão que abria para o pátio e assim Edith foi poupada do intercâmbio de nomes, única coisa que os outros convidados podiam lhe oferecer.
Charles foi mais reservado com esses convivas.
– Bom, Annette tinha muito assunto, então deixei que falasse – foi seu único comentário ao apagar a luz da mesa de cabeceira.
– Gostei dela, é engraçada.
– Não faça uma opinião apressada.
Por algum motivo, Edith tomou a frase como uma crítica, embora o tom não fosse agressivo. Colocou a cabeça no travesseiro com uma vaga apreensão, como uma criança com medo de levar umas palmadas no dia seguinte. Só parou de pensar quando dormiu e foi essa a primeira noite desde o casamento em que eles não fizeram sexo.
Na manhã seguinte, Edith acordou tarde, sozinha no quarto. Com uma sensação de bem-estar quase palpável, ligou para pedir o café da manhã como indicaram e, como sempre, pensou no que estava por vir. A criada trouxe a bandeja e informou que os outros já tinham tomado o café e estavam na praia. Assim que terminou o café, Edith vestiu um maiô, pegou uma toalha e desceu a escada íngreme escavada na rocha junto à villa. Viu os donos da casa, os Cumnor e Charles, mas não havia sinal dos outros convidados. Cumprimentou todos na praia, abriu a toalha e deitou-se, deixando a cálida e suave brisa sulista percorrer seu corpo. Charles deitou-se ao lado, pingando gotas de mar nela, e deu um beijo salgado.
– Bom-dia, querida.
Ela sorriu e retribuiu o beijo.
– O que vamos fazer hoje? Ficamos deitados aqui e tomamos sol?
Caroline respondeu.
– Pensamos em almoçar em Cala Ratjada e depois os Frank nos convidaram para tomar chá. Estão todos convidados.
– Quem são os Frank?
– É um casal ótimo, tremendamente rico e que tem uma coleção de esculturas que todo mundo precisa ver.
– Por que são tão ricos e como você os conhece?
– A primeira resposta, só Deus sabe; tem algo a ver com o ditador Franco, então é melhor não perguntarmos. Quanto à segunda resposta: nós não os conhecemos, mamãe é madrinha de um dos sobrinhos deles em Roma e contou que vínhamos para cá.
Edith fechou os olhos. Aquela vasta rede social, aquela teia que se estendia bem além das fronteiras pátrias, que atravessava mares e cordilheiras, não a ameaçava mais, agora ela estava dentro. Dali a pouco, em Viena, Dublin ou Roma, as pessoas iam dizer “Estive com Edith Broughton quando fui a Londres. Ela comentou que devem ir a Nova York em setembro...” então, algum membro do círculo fechado perguntaria: “Edith? E como vai ela?” ou, melhor ainda: “Adoro Edith. Vocês também, né?” e assim estariam excluídas todas aquelas pessoas em todos aqueles lugares de Viena, Dublin ou Roma que não conheciam Edith Broughton e elas se sentiriam mais pobres e mais classe média, exatamente como queriam os que vivem citando nomes e que então ficariam satisfeitos por, mais uma vez, mostrar qual era a classe a que pertenciam. Edith faria a sua parte sendo uma pessoa difícil de encontrar, a não ser para os da turma dela. E nessa determinada manhã, por um instante, com o sol tocando suas pálpebras e vozes de crianças vindo da praia distante, Edith pensou em qual seria a finalidade desse interminável levantar e abaixar de barreiras.
Ouviu um som surdo e assustador perto, abriu os olhos e viu a incrível figura de Henry Cumnor se estirando ao sol. Ele parecia mais gordo ainda de calção, como um cartão-postal da praia com a legenda: “Cadê meu pintinho?”
– Quem são essas pessoas? Vamos ficar com esses coitados? – a pergunta dele foi indireta, no ar, como se tivesse apenas o trabalho de mover os lábios.
Caroline deu de ombros.
– Acho que vamos, sim. Eu disse que ia ter muita gente.
Ela tinha aquela curiosa certeza da alta sociedade inglesa de que, em qualquer situação, por mais que as pessoas considerassem, como agora, a hospitalidade um dever, ela, lady Caroline Chase, estava lhes fazendo um favor. Essas pessoas não entendem que a casa não fica honrada em recebê-los. Portanto, por acharem que os convidados deviam estar honrados com a presença dela, Caroline não fez qualquer esforço para ser simpática com ninguém fora do seu grupo. E, embora fosse uma mulher inteligente, conseguia ser uma anfitriã totalmente entediante. O que nem ela, nem os outros do mesmo gênero sequer desconfiam.
– Quando vierem para cá, nós perguntamos – ela sugeriu.
– Eles ficam quanto tempo? – perguntou Jane, apoiando a cabeça nos cotovelos e pegando o óleo de bronzear.
– Quem? Peter ou os outros?
– Ah, não estou falando no querido Peter. Eu me refiro a “Bob” e “Annette”. – Jane pronunciou os nomes do casal com ironia, dando distância para ficar claro que não os considerava membros da festa e sim espécimes estranhos de uma cultura alienígena. Isso foi cuidadosamente pesado.
– Acho que ficam até terça ou quarta. – Caroline olhou para Eric, que concordou e franziu o nariz, deixando bem claro com qual dos grupos queria ficar.
– Caramba! – exclamou Henry. – Esta noite, quem vai ficar escutando ela falar?
Todos riram.
Edith teve muita vontade de rasgar seu cartão de sócia do clube.
– Estão falando de Annette? Vocês são engraçados, pois eu realmente gosto muito dela – disse, num tom falsamente incrédulo.
Henry não se alterou.
– Bom, se é assim, então sente ao lado dela no jantar. Prepare-se para ouvi-la falar ad nauseam sobre a carreira cinematográfica dela.
Edith sorriu.
– Por quê? Que assunto vocês preferiam? Comentar das pessoas que conhecem em Shropshire?
Ela deitou-se sem alterar o sorriso, de olhos fechados, desfrutando do silêncio estranho como uma colegial travessa.
– Na verdade, não vou muito a Shropshire. – Henry rolou-se para longe dela, gordo e ofegante como uma baleia que vem dar na praia, longe do mar.
– Vou nadar um pouco – avisou Charles.
Almoçaram tarde, num restaurante ao ar livre com vista para o porto com sua flotilha de iates balouçantes. Comeram uma paella com muita lula, depois foram em dois carros para a casa dos Frank, que ficava fora da cidade, à beira-mar e, pelo menos na parte terrestre, parecia cercada de altos muros de pedra cobertos com cacos de vidro. Os portões não eram portões, mas portas de ferro automáticas, que abriram e fecharam após eles se identificarem e, ao se fecharem com estrondo, por pouco não bateram no para-choque traseiro do segundo carro.
– Bom, pelo jeito eles não esperavam que viéssemos em dois carros – concluiu Annette, rindo.
Caroline dirigia o carro que ia na frente, com Edith, Annette e Henry; sem se intimidar, ela entrou pelos imensos jardins cuidados, que estavam desertos. Em meio às árvores, dava para vislumbrar belas esculturas de Henry Moore e Giacometti até que, após contornar uma enorme moita de rododendros, chegaram a uma encruzilhada. Um caminho levava a um castelo do século XIX pendurado no ponto mais alto da propriedade, que Edith concluiu que era o lugar para onde iam. O outro caminho apontava para uma casa grande como a primeira, só que moderna, à beira-mar. Era bem baixa e, vistos da estrada, os balcões pareciam pouco acima das ondas.
– Para que lado vamos? – perguntou Edith.
– Para a casa de baixo. A sra. Frank gosta de ficar perto do mar.
– O que tem no alto da colina?
Caroline fez um ar meio vago, como convinha.
– Acho que é mais para uso dos netos.
– Puxa vida! – exclamou Annette, e Edith reparou que ninguém mais iria reconhecer a estranheza, o luxo orgiástico que eles estavam vendo. Começava a entender que, naquele mundo, era questão de honra não se surpreender com qualquer manifestação de opulência, por mais impressionante que fosse. Registrar que qualquer nível de riqueza não é comum, nem mesmo banal, é se arriscar a ser “classe média”, faixa da sociedade à qual muitos deles passaram quase a vida toda mostrando que não pertenciam. Essa regra tem exceções. É possível exclamar “que gracinha!” mas dizendo a frase de forma a mostrar mais generosidade do que surpresa. Melhor ainda é exclamar: “céus, que imenso!” num tom dando a entender que a decoração, o cardápio, ou seja o que for, é exagerado e beira perigosamente a vulgaridade. Lady Uckfield era uma praticante disso, arrasando qualquer coisa com sorridente animação. Mas isso é difícil para uma novata e Edith fazia bem em não tentar.
Um mordomo de libré branca conduziu o grupo pelas reluzentes salas de mármore até o terraço onde a sra. Frank estava reclinada numa espreguiçadeira, bronzeada de sol, o corpo robusto envolto num sarongue de algodão colorido e chacoalhando grossas pulseiras nos braços musculosos, masculinos. Fez um gesto pedindo para todos se aproximarem.
Caroline se adiantou:
– Como vai? – cumprimentou, lânguida. – Sou Caroline Chase.
Ela apresentou os outros, parando uma fração de segundo na frente dos três convidados não Broughton (Bob, Annette e a namorada de Peter) como para mostrar à sra. Frank que eles não eram do círculo mais íntimo e, portanto, a dona da casa não precisava dar atenção a eles. A sra. Frank entendeu o recado e saudou os intrusos com um sorriso bem mais frio do que concedeu aos convidados mais importantes.
– Você deve ser a recém-casada – disse, levantando-se e segurando o braço de Edith para levar todos até a casa. Edith sentiu o perfume forte de almíscar que ela usava e viu as rugas duras mexerem ao redor da boca fina, besuntada de batom vermelho.
– O que está achando de Mallorca?
– Chegamos ontem à noite. Por enquanto, linda.
Ela retribuiu o sorriso da anfitriã de olhos entediados e opacos.
– Nós vamos cuidar de vocês aqui. E como vai a querida Gugu?
– Está ótima. Está na Escócia com Jojô.
Ao falar, Edith reparou que era a primeira vez que pronunciava aqueles apelidos ridículos. Antes do casamento, tinha decidido chamar os sogros de Harriet e John, mas quebrou a promessa devido às premências tácitas da proximidade, de pertencer a um clube, como dava a entender a sra. Frank. Na verdade, não importa o que dissesse aos amigos, ela não queria ser a nora “de fora”. Não queria que as pessoas lastimassem para lady Uckfield por Charles não conseguir nada melhor. Queria que a sogra fosse parabenizada por ela, Edith, ter brilho, bom gosto, charme, simpatia. Assim, Edith teve a primeira aula sobre por que a Inglaterra nunca teve revoluções e qual foi o empecilho em tantas carreiras, da esposa de Edward IV ao político Ramsay MacDonald. Ou seja: para lidar com um intruso problemático, o jeito é recebê-lo, convertê-lo com fervor doutrinário e dali a pouco ele estará plus catholique que le pape. Ao aprender essa lição, Edith não diminuiu o ressentimento por quem a ensinou e concluiu, encantada, que agora fazia parte do grupo. Sentiu-se poderosa. Virou-se e sorriu para Charles.
Havia um passeio programado para os convidados conhecerem as esculturas da mansão e lá se foram eles. Ao saírem pela porta da frente, aproximou-se uma moça magra, uma espécie de versão reduzida da sra. Frank. Era evidente que vinha da quadra de tênis, segurava uma raquete grande demais, que colocava na frente do rosto, meio como proteção e meio como quem usa um leque. A dona da casa apresentou-a como Tina, sua sobrinha. Ao contrário da tia, a moça era profundamente tímida. Acompanhou-os, como foi recomendada e só se manifestou, em voz baixa e em poucas palavras, quando alguém se dirigiu a ela.
Passaram por uma piscina encravada num pequeno rochedo sobre o mar e Edith ouviu Annette perguntar sobre os jarros de terracota ao redor da piscina, transbordando água levemente morna.
– Os jarros são romanos – respondeu Tina, numa altura quase inaudível. – Meu tio mandou trazer de um naufrágio no litoral perto daqui.
– E agora eles servem de encanamento?
– Desculpe, o que quer dizer “servir de encanamento”?
Charles cortou a pergunta de Annette, meio irritado.
– Ela quer dizer que agora são usados para encher a piscina.
– Sim, com água do mar.
– Água do mar? Aquecida?
Tina concordou com a cabeça.
– Você acha melhor, não? Temos outra piscina, de água doce, mas essa aqui é boa, não?
Annette calou-se um pouco. Começava a concordar com os outros: estava desambientada. O grupo tinha parado num terraço cheio de buganvílias com um pedestal de mármore mostrando um torso masculino de autoria de Rodin. Todos murmuraram, admirados. A sra. Frank virou-se para Caroline e perguntou de vários amigos em comum. Parecia ofendida por não ter sido convidada para o casamento de Charles, pois perguntou por várias pessoas acrescentando “eles deviam estar na festa”. Caroline teve de concordar várias vezes “sim, estavam”. Os nomes foram surgindo à medida que o grupo passava de um terraço a outro, tendo ao fundo o azul forte do céu mediterrâneo. Têm visto os Esterhazy? Os Polignac? Os Devonshire? Os Metternich? Os Frescobaldi? Nomes saídos dos livros de História que Edith conhecia por ter estudado a vida de Felipe II da Espanha, o Risorgimento, a Revolução Francesa, o Congresso de Viena. E ali estavam eles, despojados de qualquer significado concreto. Tinham se tornado apenas cartas da corte, ricas cartas no jogo do intercâmbio de nomes. Eram apostas altas e Edith reparou com certo prazer que Jane e Eric Cumnor tinham ficado para trás com Tina, certamente para não se sentirem excluídos como gostavam de fazer com os outros. Caroline e Charles não se perturbaram. Os dois conheciam todos aqueles nomes e muitos outros, por mais milhões de libras que os Frank tivessem. E assim a tarde se passou numa ladainha de duquesas citadas em meio a obras de arte sacralizadas pelo dinheiro. Uma hora e quarenta e cinco minutos após sair, o grupo voltou ao moderno palácio à beira-mar.
No terraço, seria servido um chá “estilo inglês”, ou seja, “estilo hotel americano”, e três mordomos de libré branca aguardavam para servir. A sra. Frank fez todos os convidados se sentarem. A essa altura, a namorada de Peter, Bob e Annette estavam exaustos, loucos para voltar para a villa e transformar aquele programa chato numa história engraçada. Eric ficou para trás, o rosto corado pelo esforço físico, irritado por sua ignorância social excluí-lo da conversa que sua esposa centralizou quase a tarde inteira. Desmontou-se em uma chaise ao lado de Edith e aceitou a xícara de chá que lhe foi oferecida.
A sra. Frank voltou sua atenção para a recém-casada.
– Escute, Hilary Weston foi ao casamento? Soube que ela não pôde sair do Canadá.
Eric olhou, com um muxoxo.
– Minha senhora, não adianta perguntar para Edith. Tem que esperar ela praticar um pouco mais.
Edith não ligou. Por sorte, tinha falado bastante com a sra. Weston na festa do casamento. Agradeceu ao seu santo protetor e falou sem olhar para Eric, excluindo-o da conversa:
– Sim, ela foi. Galen estava na Flórida e não pôde ir, embora tivessem planejado.
A sra. Frank concordou com a cabeça, dando um olhar meio estranho para Eric.
– Ela faz tanta coisa! Quando penso nela, fico me achando preguiçosa.
Continuou a falar. Edith tinha sido aprovada. Eric se recostou na cadeira e olhou para ela:
– Muito bem. Nota dez.
Ela encarou-o, mantendo cada centímetro do terreno conquistado.
– Você conhece Hilary?
– Tanto quanto você – respondeu Eric, e levantou-se para ficar com Caroline no outro lado do terraço. Edith ficou aliviada com esse diálogo, pois provou com todas as letras que Eric era seu inimigo na família. Não precisava fingir mais; além disso, ela havia vencido o primeiro round.
À noite, estava cantando no chuveiro quando Charles entrou no quarto, ia trocar de roupa para o jantar. Ele sorriu.
– Parece bem contente. Gostou do dia? Que coleção de arte! Que lugar lindo!
Mesmo nesse meio social, os adultos podem manifestar alguma admiração quando estão a sós e Charles achou que tinha ficado impassível por muito tempo.
– É, estou feliz sim.
Ela fechou a torneira, deu um beijo nele e ficou ali molhada e nua.
Os minutos seguintes, na verdade, o resto da noite, foram dos mais agradáveis que ela passou com Charles, e ela foi dormir com uma sensação de vitória e satisfação.
Charles virou-se para ela:
– Os Frank querem nos oferecer um jantar antes de irmos embora.
Ela fez cara indiferente:
– Ah, meu Deus. Temos de ir?
– Ora, querida. É simpático fazerem isso e eles não são tão ruins – disse Charles.
– A velha não é má, mas a sobrinha é um horror.
Ele riu.
– Achei-a delicada. Precisamos ser gentis.
Edith apoiou o rosto nas mãos, deitada ao lado dele.
– Por que vocês tratam com frieza e fazem caretas por trás de alguém como Annette, que é falante e engraçada? Mas perdoam e fingem que Tina Frank é encantadora, quando deve ser a jovem mais chata e sem graça que já conheci?
– Não entendo o que você quer dizer.
– Entende sim, Charles. – Ela estava estranhamente segura, quase alegre. Pela primeira vez desde o casamento, sentia que era realmente lady Broughton. Tinha administrado direito as coisas e, como diz a velha crença, “tinha direito à opinião própria”. Prosseguiu, sorridente, mas severa.
– Você sabe muito bem. E vou dizer o porquê. Annette não conhece as mesmas pessoas que nós e Tina conhece, além de ser muito rica. Não sei, querido, você não consegue entender? Nem um pouco?
Edith estava segura. Deu um sorriso intrigado para o marido, balançando de leve a cabeça, imaginando como os cabelos deviam estar lindos, fazendo ondas na nuca.
Charles encarou-a.
– Quem são essas pessoas que você e Tina Frank conhecem? – perguntou, mordaz, e apagou a luz.