Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 22 de 23

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Esnobes

Vinte e dois

 

VOCÊ TALVEZ SE PERGUNTE por que Edith, sempre tão esperta, não tomou uma providência mais moderna em relação ao problema e não acabou com o estorvo numa rápida estadia em alguma discreta clínica rural. E por que não esperou os três ou seis meses estabelecidos por lady Uckefield e enfrentou todos eles. Creio que ela não sabia o motivo mas, por alguma razão, não quis. Pelo que sei, ela não era muito religiosa e acho que teve um mínimo de escrúpulo. Mas, talvez por ter visto um jeito de poupar uma vida, uma vida que dependia dela e de mais ninguém, não ia agora sacrificá-la. Creio que foi uma decisão mais animal do que sentimental – senão, toda tigresa na floresta seria sentimental. Creio que as mulheres entendem melhor que os homens essa atitude em relação a algo que mal existe fisicamente e que ainda nem existe legalmente.

Eis que Edith recebeu ajuda de onde menos se esperava. Ela me contou na manhã seguinte de sua breve passagem por Broughton e eu, naturalmente, temia que me pedisse mais participação na história. Ela disse então, para surpresa minha, que ia esperar a próxima vez que Charles fosse a Feltham.

– Ele vai a cada quinze dias. Pego-o lá.

– Como vai saber que está lá?

– Caroline me avisa. E vai me levar de carro.

A informação foi, ao mesmo tempo, aliviante e surpreendente. Aliviante porque, como era claro, eu estava dispensado de participar e surpreendente porque jamais imaginei que Caroline fosse contra os interesses da mãe. Até hoje não entendi isso direito. O casamento de Caroline estava balançando, talvez ela quisesse evitar que o divórcio do irmão herdeiro ofuscasse o dela. Ou talvez fosse uma rebeldia contra os valores da mãe, que Caroline sempre rejeitou (aliás, erradamente). Ou, mais simples: gostava do irmão e devia ser horrível vê-lo sofrer. No final foi, como sempre, uma mistura de tudo isso.

– Quando você falou com ela?

– Ela me ligou hoje de manhã. Soube que estive em Broughton. Acho que ficou com pena de mim.

– Bom, admito que estou surpreso, mas fico contente por você. É bem mais adequado você ser ajudada pela irmã de Charles do que por mim. Depois me conta como foi?

– Conto – ela disse.

* * *

Apesar da explicação, Edith não sabia direito por que Caroline a estava ajudando. Desde que Edith entrou para a família, as duas nunca foram próximas, embora não fossem inimigas. Na verdade, com os comentários maldosos de Eric a respeito de Edith, ela e a cunhada tinham assumido uma espécie de familiaridade defensiva. “Amizade” seria uma palavra forte demais para esse sentimento e Caroline nunca teve dúvida sobre sua preferência. Apesar da sua pretensa modernidade, Caroline Chase não conhecia a si mesma, mas continuava sendo feita da mesma massa que a mãe. Podia não gostar das sérias condessas e esposas de ministros do grupo de lady Uckfield, mas os amigos dela costumavam ser mulheres rebeldes, com filhos de roupas extravagantes.

Seja como for, Caroline tinha palavra. Dois dias depois, o telefone tocou no apartamento da Ebury Street, Edith atendeu e era Caroline.

– Se você quer ir mesmo, Charles está em Feltham. Foi sozinho na noite passada e fica lá até amanhã.

Edith olhou Simon, que estava mergulhado nas páginas do Daily Mail. Também recebia o Independent diariamente, mas nunca lia. Ela se preparou para uma daquelas conversas telefônicas meio esquisitas, que não deixam quem estiver perto entender do que se trata.

– Que gentileza a sua – ela disse.

– Quer que eu pegue você de carro?

– Se puder – foi a resposta afetada.

– Não pode falar agora?

– Não, na verdade.

– Espero às dez no alto da Sloane Street, ao lado da Coutts.

– Ótimo.

Edith colocou o fone no gancho com cuidado. Como explicou depois, continuava querendo muito se encontrar com Charles e, embora não tivesse comentado da visita a Sussex, ela não era muito eficiente em matéria de queimar pontes. Felizmente, Simon mal notou a conversa telefônica. Edith sorriu para ele.

– Não trabalha hoje?

Ele olhou.

– À tarde. Por quê?

– Caroline ligou convidando para almoçar.

– Você resolve, então.

Ela não respondeu, ele não se incomodou.

Mais uma vez, ela escolheu as roupas com certo cuidado. O mais fácil era usar um traje de campo dos tempos de Broughton, mas parecia meio inadequado, após a humilhação que lady Uckfield fez. O pior é que também era óbvio, agora que ela estava vendo as coisas com mais clareza. Não, se Charles ia aceitá-la de volta, era por ela e não para parecer com Diana Bohun, ou qualquer das outras frias vagabundas sem coração do mundo de Charles, que mantinham seus casamentos sem amor. Acabou escolhendo uma saia preta justa, mostrando as pernas, e um largo suéter azul entremeado de lacinhos coloridos. Escovou os cabelos e maquiou-se bem (portanto, estava se pintando para Charles, não para Caroline). Conferiu o resultado e aprovou. Estava bonita e interessante, bem londrina, o suficiente para não parecer que estava forçando.

– Muito bonita. Aonde vai agora? – perguntou Simon.

– Fazer umas compras. Tenho de ver um presente de aniversário para papai.

– Eu não devo estar convidado para o almoço das moças.

– É no apartamento de Caroline... – Ela deu de ombros, triste. – Por que não vem comigo agora? Se eu achar algo para o papai, depois vou ao Harrods ver quais são os lançamentos do verão.

Pode parecer que essa abordagem sutil era arriscada, mas não. Nenhum homem em sã consciência aceitaria a missão de acompanhar uma mulher pelos inúmeros departamentos de uma loja imensa, quando ela sequer está procurando algo específico. Sobretudo quando não tem almoço marcado depois. Ele balançou a cabeça, como ela esperava.

– Não, se não tiver problema. Vejo você à noite.

– A que horas você chega?

Ele deu de ombros.

– Sete, oito.

Despediram-se com um beijo, Edith vestiu um casaco e saiu. Um minuto após, estava indo para os antiquários do final da Pimlico Road. Durante as duas horas de estrada que tinham pela frente, sabia que Caroline ia perguntar o que ela ia fazer lá e Edith pensou no que diria e também em qual era a verdade, embora as duas coisas não precisassem estar necessariamente relacionadas.

Ela agora sabia, graças à oposição quase histérica de lady Uckfield, que havia a possibilidade de Charles voltar. Tinha fingido para si mesma que ainda estava avaliando essa possibilidade, mas, no fundo, sabia que estava um passo adiante. Ou não teria ficado tão preocupada em garantir um encontro. Mas a pergunta continuava a mesma: ela queria mesmo voltar? Queria Charles a qualquer custo? Não ia impor condições? Os dois voltariam a ter exatamente a mesma vida? E, de novo, poderia fazer exigências? Charles não estava com todas as cartas na mão? Pior de tudo: e se ela estivesse enganada e ele não quisesse voltar? Nessas ruminações, teve certeza de que tinha deixado de lado a verdadeira razão para mudar de sentimento mas, se conseguisse voltar, o que interessava saber como ia ficar a situação e por que se preocupar com isso agora? Parecia um tema tão aborrecido que não havia motivo para discuti-lo antes que fosse preciso. Para todos os efeitos e propósitos, a partir do momento em que soube que podia finalmente encontrar Charles, o segredo dela tinha deixado de ser real.

Parou na vitrine da galeria de arte em frente à Poule Au Pot e ficou olhando algumas gravuras. Nisso, uma reluzente limusine parou, o motorista ajudou a sair do carro uma mulher de algum região indeterminada do Oriente Médio e entrar na galeria. Ao ver aquela mulher muito maquiada, envolta em zibelina, com pulseiras de diamantes brilhando ao sol, Edith lembrou-se, de repente, da sogra. Tinha certeza de que aquele não era o estilo de lady Uckfield, que chegaria de táxi, bem discreta, de roupas elegantes e excelentes pérolas, sabendo que o dono da galeria saberia quem era ela. O fato era que, se aquelas duas mulheres se encontrassem, a árabe ficaria nervosa com a presença de lady Uckfield, que por sua vez ficaria educadamente indiferente à presença da outra.

A discussão de Edith com lady Uckfield na pequena biblioteca de Broughton, em vez de rebaixar a sogra aos olhos da nora causou, paradoxalmente, um certo respeito pelos princípios dela. Edith sempre teve um certo desprezo pelos amigos de lady Uckfield e de Charles que bajulavam a sogra, porém, recentemente, reconsiderou isso. Logo que se casou, ela talvez pretendesse ser como aquela mulher árabe, com seus casacos de peles, luxos, glamour e convívio com celebridades. Todas aquelas coisas (pelo menos, na versão inglesa) que a jovem Edith Lavery achava que faziam parte do mundo de uma “lady Broughton” e depois ficou pasma ao ver que sua nova vida era tão simples. Sabia que lady Uckfield achava que ela, Edith, tirou essas ideias de romances e de biografias de personagens do século XIX e às vezes até tentou defender a mãe da acusação de encher a cabeça da filha com fantasias burguesas. Mas concluiu que a acusação era justa. A vida com Charles parecia tão sem graça e monótona comparada com aqueles enredos cheios de ação, os salões de baile iluminados e cheios de gente importante, aquela vertiginosa carreira parecida com a de lady Palmerston que ela havia imaginado.

No dia do desfile, quando as pessoas se afastaram para lady Uckfield e Sua Alteza passarem como se fossem o Mar Vermelho se abrindo para Moisés, Edith viu o que tinha jogado fora, a chave para abrir todas as portas na Inglaterra e quase todas do mundo (ao menos, entre os fúteis). Um título de nobreza não garantia convites para frequentar Camp David, mas, mesmo no século XXI, ela não ficaria sozinha em Palm Beach. E agora Edith sabia que as pessoas que eram fúteis, os esnobes cuja vida consistia em reunir pessoas que dessem status, existiam na proporção de dez para um. Esse tipo de poder talvez não tivesse muito valor dentro de um contexto maior, mas era alguma coisa e o que ela ganhou na troca? A vida em Broughton podia ser monótona, mas e a vida em Ebury Street? O que ela preferia: falta de barulho ou falta de poder? Tinha largado o mundo dos mundanos num petulante ataque de tédio e, do dia para a noite, passou de carta alta no jogo da sociedade a não pessoa, com quem eles tinham vergonha de ser vistos.

Retomou a caminhada sentindo algo parecido com um calafrio. Pensou então nos dois homens. Sabia que tinha se casado com Charles por causa do nome e do dinheiro, senão jamais teria olhado para ele. Nos dois anos que ficaram juntos, passou a ter raiva dele, por mais que agora parecesse absurdo, por atraí-la com seus bens materiais e depois da conquista não conseguir mais interessá-la. A verdade era que ela foi atrás dele, porém, na sua mente desonesta e pronta a se justificar, quando Simon apareceu, Charles ficou na posição moral de uma arapuca.

Agora, andando pela Pimlico Road, admirando as vitrines dos antiquários, voltou às ruminações que fez no Green Park e concluiu que a separação tinha mudado as coisas. Sem querer, nos últimos dias ela tinha passado a entender melhor o marido. Será que ele era mesmo uma companhia tão desagradável? Era mesmo tão menos atraente que Simon? Afinal, homens bem piores do que Charles estão sempre achando esposas. Pensar em Charles como marido pareceu tão ruim, nos velhos tempos antes do casamento? Se ela tivesse sido apresentada ao sr. Charles Broughton como noivo de uma colega de escola, Edith ia querer sair gritando pela noite, arrastando a maldita garota? Claro que não. Sem dúvida, Simon era muito mais bonito, mas, com o passar dos meses, ela foi se acostumando e começava a se irritar com a eterna piscadela que acompanhava qualquer contato social dele. Estava ficando irritada com todos aqueles meios sorrisos e olhares semicerrados para garçonetes, comissárias de bordo e caixas do Partridges; começava a se aborrecer com aquele jeito de atirar os cachos dourados para trás.

Mais complicado do que comparar aparências (afinal, Charles não era lindo, mas bastante apreciável), era a questão sexual. Tinha de admitir que Simon era um amante muito melhor, um excelente amante, ainda mais se comparado ao pobre Charles. Não podia negar. Ela gostava de ir para a cama com Simon. Muito. Na verdade, pensar nisso ainda causava uma certa comichão interna, ela ainda ficava meio agitada e desconfortável, cruzando e descruzando as pernas. O querido Charles jamais poderia ser comparado nesse quesito, com suas desajeitadas performances de cinco minutos e seus “obrigado, querida” que a deixavam enlouquecida.

Porém, pela primeira vez, ela reconhecia que, após um ano, fazer sexo com Simon tinha perdido a novidade, o que talvez fosse de se esperar. O sexo continuava excelente, sem dúvida, embora menos frequente do que no começo, mas não a impedia de ver o que tinha perdido ao escapar da gaiola dourada. Afinal de contas, quanto tempo na vida uma pessoa passa fazendo sexo? Compensava o resto? Será que meia hora prazerosa, duas ou três vezes por semana, compensa aquelas festas horríveis, que pareciam não acabar nunca, aquelas pessoas com seus sotaques cafonas, fumando pelo apartamento todo, ou aqueles medonhos colegas da escola de arte dramática falando em “penteados”, dicas de jardinagem e férias a preços mais em conta? Será que Charles não era encantador do jeito dele? Não era mais correto que Simon? Não era mais sincero como pessoa?

Assim, Edith continuou pela Sloane Street, criticando seus falsos valores, tentando se convencer numa litania das qualidades de Charles até que, num raro momento de honestidade, como o sol passando entre nuvens, percebeu a ironia daquela conversa consigo mesma. Ela, Edith, estava argumentando como se o oposto fosse dominá-la, caso aceitasse. Estava se obrigando a dar o próximo passo, quando qualquer observador imparcial concordaria logo que, claro, Charles era mais correto do que Simon. (De repente, ela teve certeza absoluta disso.) Na verdade, sob todos os aspectos, era totalmente óbvio que Simon não era nada correto. Ao contrário de Charles, ele era só pragmatismo. Não podia ser sincero, pois não tinha sinceridade. Seus princípios eram uma confusão de teses ouvidas e na moda, que ele achava que agradariam aos diretores de elenco. Edith estava quase convencida de que, de certo modo, preferia Charles a Simon, embora quem conhecesse os dois soubesse que não havia comparação. Charles, por mais que fosse bobo, era um homem infinitamente melhor. Já Simon era um monte de nada.

Achou então que as pessoas não fariam mau juízo dela por chegar a essa conclusão (tinha muito medo de que fizessem); pelo contrário, elas se surpreenderam foi por trocar o marido por aquele paspalho. Apesar disso, achou que tinha a obrigação de ser honesta uma vez na vida e admitir que não queria voltar por causa das qualidades de Charles, nem por causa do segredo dela. Era pela sensação de proteção que agora, em sua crise não assumida, fazia mais falta do que nunca. A verdade era que os meses passados longe serviram apenas para, finalmente, confirmar os preconceitos da mãe. Edith tinha saído para dar uma caminhada e descobriu que estava frio.

* * *

– Acho que vou largar Eric – anunciou Caroline, quando finalmente entraram na rodovia M-11. Edith concordou com a cabeça, franziu de leve o cenho e ficou calada.

– Você não diz nada? – perguntou Caroline. Ela era uma péssima motorista, jamais dominou a arte de conversar com alguém sem olhar para a pessoa.

Edith viu, nervosa, um caminhão passar a centímetros de distância e balançou a cabeça.

– Não. Acho que não tenho o direito de comentar isso. Mas nunca entendi por que você se casou com ele. É mais fácil entender por que quer largar dele – disse, olhando pela janela.

Caroline riu.

– O problema é que esqueci por que casei com ele.

– Sorte que não há filhos.

– Será? – Caroline fez a expressão dura das estátuas do monte Rushmore, parecia um cacique num filme de faroeste dos anos 1950, quando ainda se podia torcer pelo mocinho. – Acho ruim não ter tido filhos. Significa que, se quiser um, terei de começar tudo de novo. – Tinha um pouco de razão. – Às vezes acho que, de certo modo, não faz muita diferença com quem a gente se casa. Acabamos cansando do marido.

– Então por que quer se separar de Eric?

– Eu disse “de certo modo” – respondeu Caroline, meio irritada, tirando os olhos da estrada e mal conseguindo desviar de um ônibus enorme. – A esta altura da vida, tenho que admitir que lady Uckefield podia estar certa.

Um dos detalhes mais impressionantes da vida pessoal dos Broughton era que Caroline e Charles só se referiam à mãe como “lady Uckfield”. Era uma espécie de brincadeira e de crítica. Em qualquer das hipóteses, era meio esquisito. Caroline continuou:

– Lady Uckfield me disse que não valia a pena casar com um homem vulgar e sem dinheiro mas eu, naturalmente, insisti. E que, se eu ia desrespeitar essas regras básicas, devia exigir que ele fosse educado e gentil, pois a rudeza e a crueldade são os dois defeitos que estragam a vida.

Edith concordou com a cabeça.

– Tem razão – disse. Ela decerto se surpreendeu com a sábia recomendação da sogra. Não devia. Lady Uckfield era inteligente o bastante para saber que a verdadeira infelicidade acaba com qualquer encantamento. Só que lady Uckfield sabia melhor que Edith o que era a verdadeira infelicidade.

– Eric era muito agressivo. Não só comigo, com todo mundo. Um jantar na nossa casa era uma espécie de curso de sobrevivência na selva. Os convidados tinham de vir armados e tentar se esquivar dos tijolaços até a hora de ir embora. Hoje, não sei como as pessoas ainda voltavam lá.

– Então, por que você casou com ele?

– Primeiro, para incomodar a minha mãe – respondeu Caroline, como se aquilo fosse muito compreensível. – Segundo, porque ele era bem bonitão. E, por último, porque ele queria demais casar comigo.

– Você agora acha que isso era mentira.

– Não, era verdade. Ele estava louco para casar comigo, mas por eu ser filha de marquesa. Não percebi, ou não percebi que era só por isso.

Edith ficou calada. A conversa estava enveredando por um terreno perigoso. Ouviu o gelo rachando sob seus pés.

– Sei – concordou, baixo.

Mas Caroline não tinha terminado de falar.

– Como você queria casar com Charles – ela completou. Edith não disse nada e ela continuou. – Não estou criticando você, seu caso é mais compreensível. Pelo menos, quando você se casou com Charles, virou condessa. Mas eu até agora não sei o que Eric queria conseguir.

Ficaram um tempo em silêncio. Edith então retomou a conversa.

– Se você acha isso, por que está me levando lá?

Caroline avaliou um instante, franzindo o cenho como se não tivesse pensado antes no assunto. Falou sem muita segurança.

– Porque Charles está tão infeliz.

– É? – perguntou Edith, interessada.

– É.

Caroline acendeu um cigarro e, por um instante, Edith achou que iam entrar no âmago da questão.

– Lady Uckfield acha que isso passa. Fantasia que ele vai esquecer você, casar-se com a filha de algum fidalgo e ter quatro filhos, dois dos quais herdarão propriedades de parentes da mãe. – Caroline deu uma risada irônica. Aquilo era, naturalmente, uma perfeita síntese dos sonhos de lady Uckfield.

– Será que ela não está certa?

– Você não conhece meu irmão direito – disse Caroline e voltou ao silêncio. Claro que Edith gostaria de ouvir mais sobre aquele homem infeliz e triste, que ficou tão triste sem ela e com quem, por algum estranho milagre, ela já era casada. Olhou intrigada para Caroline, que abrandou.

– Primeiro, não sei se quem minha mãe imagina como sua perfeita sucessora seja a mesma mulher de que Charles precisa. Para ser sincera, se ele quisesse uma mulher assim, teria encontrado facilmente. O problema não é esse. Charles é um homem simples. Tem sentimentos, que também são simples, sinceros e profundos. Não sabe se comunicar direito e não seduz ninguém.

Edith pensou, encantada, em seu outro homem, que só sabia se relacionar e seduzir. Simon tinha o problema inverso de Charles. Não tinha sentimento. Caroline continuou falando.

– Charles decidiu. Quer você. É a esposa dele, aquela que o coração deseja. Ponto. Não estou dizendo que, se você se divorciar dele, ele não acaba encontrando uma fêmea reprodutora, porém, no fundo, se sentiria frustrado, pois a verdadeira esposa dele estaria por aí, circulando com outro homem. E essa, minha cara, seria você.

O resto da estrada foi em silêncio. Era quase como se estivessem à espera do próximo acontecimento da trama para continuarem a conversa. E assim atravessaram a paisagem plana de Norfolk até finalmente virarem num caminho bem cuidado, mas meio sombrio, que as levou, após passarem por altos muros cobertos de rododendros, ao pátio largo, de cascalho, da casa sede.

A mansão Feltham passou para a família Broughton em 1811, quando o então lorde Broughton casou-se com Anne Wykham, única filha de Sir Marmaduke Wykham, sexto e último baronete da linhagem. A casa era em estilo jacobino, uma residência mais senhorial do que nobre, mais pitoresca do que marcante, de telhados com chaminés ornamentadas, daí talvez a família nunca ter se interessado muito por ela. Como tantas casas da época, ficava numa encosta (antes que as inovações hidráulicas do final do século XVII possibilitassem aquelas maravilhosas vistas), embora o campo plano ficasse um pouco mais amplo no final do vale. A casa podia ter sido uma alternativa para os Broughton, ou residência do herdeiro, mas eles tinham outras casas mais próximas de Uckfield usadas com essas finalidades até pelo menos a Segunda Guerra; há pouco, como sabemos, o herdeiro tinha preferido morar com os pais.

No passado, Feltham foi alugada, mas foi retomada para a realização de caçadas na década de 1890; desde então, foi bem cuidada, apesar da família interromper a prática do esporte após a guerra. Nos últimos anos, Charles tinha voltado a caçar e se orgulhava de garantir de duzentos a trezentos dias de caça por ano. Ele e seu capataz trabalharam muito. Os gramados e cercas vivas foram replantados, os redis de alimentação foram refeitos – ou seja, o campo todo ficou mais ou menos como era um século antes. Apesar disso, ele não convidava os amigos para caçar em Feltham. Colocava à disposição deles os esplendores de Broughton, deixando Feltham para ser alugada por dia para homens de negócio, gente com telefone celular e roupas esportivas tinindo de novas. Se pagassem (bem) mais, podiam até pernoitar lá, daí talvez as acomodações serem boas.

A Wykham que construiu a casa tinha sido uma favorita do rei James I, época em que a mansão era bem maior, mas a namorada do rei não se preveniu e o filho dele (sobrinho, já que os dois jamais se casaram) demoliu dois terços. Por isso a alvenaria, os entalhes da fachada e de toda a casa eram de melhor qualidade do que o esperado numa construção como essa. Por dentro, há muito os Broughton tinham tirado toda a mobília e os quadros melhores; quase tudo o que sobrou era da época em que passou a ser pavilhão de caça, no final do século XIX. Os assentos eram sofás Chesterfield de couro muito gasto e as paredes eram cobertas de enormes retratos de qualidade inferior e cenas mal pintadas de caçadas, competições de tiro e todos os demais métodos de matança campestre. Mas os aposentos eram agradáveis e a escadaria, quase única sobrevivente dos tempos da favorita jacobina, era magnífica.

Edith não conhecia direito o lugar que Charles considerava como uma espécie de “escritório”, em sua visita semanal. Ele administrava como se fosse um negócio e, mesmo indo ao condado de vez quando, não tinha qualquer vida social lá. Ia a algum evento na aldeia e ao coquetel anual para os vizinhos que, graças a esses agrados, aguentavam os tiros das caçadas. Ele se hospedava muito com os Cumnor, cuja casa, a uns seis quilômetros, era infinitamente maior e mais luxuosa; assim não dava trabalho para os velhos caseiros de Feltham, obrigando-os a preparar um quarto.

Caroline parou na frente da casa e as duas entraram no amplo e sombrio saguão que ocupava dois terços da fachada. O lugar era decorado com uma frisa de brasões meio falsos homenageando os Wykham e os Brougthon e assim a única cor do ambiente era o marrom das molduras e o marrom mais esmaecido dos móveis de couro.

– Charles! – chamou Caroline. Fazia frio e o interior da casa estava bem pior do que fora. Edith apertou o casaco no corpo.

– Charles! – Caroline chamou de novo e entrou por uma porta que levava primeiro à escadaria e depois à antiga sala matinal, que funcionava como escritório de Charles. Edith foi atrás. Escrivaninhas e arquivos estavam espalhados pelo aposento e o frio era amenizado um pouco pela lareira elétrica de três traves, que parecia desrespeitar todos os códigos de segurança. As duas ainda estavam lá paradas, quando uma porta em frente se abriu e elas viram um aturdido Charles. Para surpresa e até deleite de Edith, ela ficou chocada com a aparência dele. Não era mais aquele esguio cavalheiro rural que parecia sempre prestes a fazer um comercial da Burberry’s. Ficou assustada de ver que seu elegante marido estava desarrumado e desleixado. Quase sujo. Ao vê-la, ele passou os dedos pelos cabelos.

– Olá, que estranho encontrar você aqui – ele disse, com um sorriso aguado.

A essa altura, Caroline se retirou.

– Vou a Norwich – avisou. – Volto daqui a duas horas, mais ou menos. – Foi um verdadeiro alívio ela não querer consertar a situação, nem dar uma desculpa do tipo nós-estávamos-passando-por-aqui-e-então-resolvemos-entrar.

Charles concordou com a cabeça.

– Sei – disse.

Sozinha, Edith não sabia o que dizer. Sentou-se à beira de uma poltrona perto da lareira como uma criada numa entrevista de emprego e se inclinou para aquecer as mãos na lareira.

– Espero que não se zangue. Eu queria muito falar com você. De uma maneira adequada, mas já estava achando que nunca iam deixar. Acabei tendo de encontrar um jeito.

Ele balançou a cabeça.

– Não estou zangado. Nem um pouco. – Ficou indeciso. – Eu... desculpe os telefonemas que você recebeu e tudo o mais. Não foi só porque minha mãe mandou. Bom, não foi só por isso. Você deve ter achado que foi. É que eu não sabia o que dizer direito. Achei melhor deixar por conta dos advogados. Claro que agora você está aqui... – A voz dele foi sumindo, desolada.

Edith concordou com a cabeça.

– Eu queria saber o que você acha de tudo isso. Compreendo que seus pais queiram que você fique livre logo.

– Ah, é. – Ele parecia humilde. – Não me importo, sinceramente. Aceito o que você quiser. – Olhou bem para ela sob a luz que vinha do alto, que não o favorecia em nada. – Como vai Simon?

– Ótimo. Muito bem. Gostando dos seriados.

– Que bom. – Não parecia, mas Charles estava tentando ser cortês. Edith ficou de novo pasma com a sinceridade e gentileza daquele homem que ela havia rejeitado. O que pensou, quando fez isso? Ela às vezes não conseguia entender bem os próprios atos. Como se fosse um filme estrangeiro. E, mesmo assim, foi o que ela quis. A conversa ficou canhestra.

– Acho que nunca estive em Feltham nessa época do ano. Devo ter vindo, mas não lembro. É lindo, não?

Charles sorriu.

– A velha e querida Feltham – ele disse.

– Você devia morar aqui. Arrumar tudo, trazer de volta umas coisas.

Ele meio que concordou com a cabeça.

– Ficaria meio solitário, enfiado aqui sem ninguém. Não acha? Mas é uma boa ideia.

– Oh, Charles. – Apesar do cinismo daquela missão, Edith tinha virado vítima das próprias justificativas. Como Débora Kerr em O rei e eu, assoviando uma música alegre para tomar coragem, Edith tinha se convencido de que ela era uma figura romântica que perdeu seu amor, e não uma garota egoísta que se arrependia amargamente do que fez. Seus olhos lacrimejaram.

Pode parecer estranho, mas só aí Charles entendeu que ela foi lá tentar uma reconciliação. Até então, achava que aquela viagem devia ter algum motivo financeiro, ou relacionado a prazos. Apesar de suas suspeitas, a falta de amor-próprio fez com que ele custasse a chegar à conclusão óbvia; achou que ela queria convencê-lo de alguma coisa, antes que os advogados se manifestassem. Não ficou magoado, porém, se era assim, ele não queria mostrar o péssimo estado em que se encontrava. Não só em consideração a ela, mas também (o que era perfeitamente compreensível) por orgulho. Viu que não era esse o caso e seu estômago se contorceu. Ela queria voltar. Olhou-a.

Apesar de ser um homem tão simples, não era idiota. Continuava pensando do mesmo jeito que naquela noite no escritório em Broughton e sabia que não tinha ficado mais interessante do que quando ela o largou. Desconfiava também de que ela não gostou muito do mundo artístico, pelo menos não para “todo dia”. Da mesma maneira que um ano de pecado serviu para Edith ter uma ideia mais precisa de Simon, dois anos de casamento e um ano separados fizeram Charles entender Edith. Sabia que ela era uma arrivista, filha de arrivista. Conhecia sua vulgaridade de espírito tão bem quanto suas qualidades, as quais, apesar dos comentários de lady Uckfield, ainda achava que eram muitas. Sabia também que, se fizesse um movimento em direção a ela, a coisa estava resolvida.

Olhou para aquela figura debruçada, tentando se aquecer nas traves elétricas da lareira. O casaco que ela usava era meio cor de camelo e parecia barato. Será que aquela triste figurinha, aquela “lourinha” como dizia a mãe dele, seria a próxima marquesa de Uckfield? A ser retratada por algum pintor que fazia retratos em caixas de chocolate e ficar dependurada ao lado dos retratos das gerações anteriores, feitos por Sargeants, Laszlos e Birleys? Será que ela ia conseguir isso?

Ao olhá-la, teve de repente a impressão de que ela era tão vulnerável, com sua maquiagem exagerada e seu casaco comprado em loja de varejo, querendo agradá-lo e, em vez disso, parecendo meio patética. Ele teve muita pena e, com isso, muito amor. Quer ela fosse conveniente ou não, quer tivesse sentimentos limitados ou não, quaisquer que fossem os motivos dela, sabia que ele, Charles Broughton, não podia ser a causa daquela infelicidade. Em resumo, ele era incapaz de magoá-la.

– Você está bem? – ele perguntou, devagar, sabendo que as palavras permitiriam que voltasse para ele e para a vida dele.

Ao ouvi-las, Edith viu que estava perdoada. Apesar das dificuldades com Simon, com a sogra, com os jornais, com o sol, com a lua, ela podia voltar a ser esposa de Charles, se quisesse. E, em vista das circunstâncias, não era surpresa que ela quisesse.

Por um segundo, ficou quase tonta de alívio, mas, como não queria parecer desesperada demais, aguardou um minuto para falar, pontuando o momento com uma pausa prenhe. Sabendo que os dois já sabiam a resposta, levantou os olhos lacrimejantes para ele.

– Não – ela confessou.