Esnobes
Cinco
RARAMENTE PARTICIPEI DE ALGO QUE pudesse ser considerado, nem de longe, um grande evento social. Ou, pelo menos, que despertasse muito interesse público. Mas, a essa altura, Edith tinha o status de pequena heroína dos tabloides e, quando conseguiu agarrar seu homem, os repórteres que a descobriram ficaram loucos para colher os frutos. Eles tinham razão em achar que ela era notícia. Por isso, as revistas Hello! e OK! propuseram cobertura exclusiva do casamento, o que lady Uckfield achou muito divertido. A proposta foi recusada, claro, mas os jornalistas continuaram interessados. A princípio, acho que a sra. Lavery não entendeu a recusa. Ela bem que gostaria de ver a foto de Edith e Charles numa daquelas capas de revistas de fundo vermelho, rodeados pela prole dos amigos nobres de Charles. Mas, quando insinuou isso para lady Uckfield, ficou desapontada, pois ela virou-se para Edith e disse:
– Sua mãe não tem humor. Quase me levou a sério.
Naturalmente, a sra. Lavery riu muito, só de pensar que lady Uckfield tinha acreditado nela! E não tocou mais no assunto. De todo jeito, tive todos os motivos para me sentir honrado, além de curioso, ao ser convidado para ser um dos padrinhos de Charles. Pois aquele prometia ser o casamento do ano, segundo os jornais.
Recebi o convite de Charles por escrito, com sua letra redonda e bonita, perguntando se eu aceitaria. É sempre difícil para um ator assumir qualquer compromisso social, pois uma lei tácita do teatro diz que, se você dá importância, por menor que seja, a qualquer coisa que não seja o palco, prova que não tem talento. Acho que eu recusaria fazer o protagonista de Ben Hur, mas estava decidido a aceitar o meu papel na apoteose de Edith. Nessa mesma manhã, Isabel me telefonou:
– Soube que você vai ser padrinho. David não foi convidado – contou. Argumentei, naturalmente, que era mesmo meio difícil se conformar com o fato.
– Pois é. Ele está de mau humor, o que é um aborrecimento, não posso fazer nada – avaliou.
Concordei mas, afinal de contas, eu era o único amigo da noiva que Charles conheceu antes de tudo começar.
– Eu sei; falei isso para David, mas sabe como ele é.
– E você? – perguntei.
– Como assim?
– Vai ter alguma participação na cerimônia? Alice podia ser uma das damas de honra, ou algo parecido.
Alice era a filha mais velha dos Easton. Era sem graça como um poste, apesar de muito simpática.
– Não. Edith queria, mas parece que combinaram outras coisas e ela preferiu ter só daminhas. Fica mais bonito mesmo – resmungou, com voz bem desapontada.
Senti que Isabel ainda tinha mais o que dizer.
– Não sei como vai ser a despedida de solteiro de Charles.
– Vai ter? – perguntei.
– Não sei, imagino.
– Você não foi convidado?
– Não. Era para ser?
– Bom, David estava pensando se ele, ou você e ele, não deviam organizar uma... – a voz dela sumiu.
– Nem pense nisso. Nós mal o conhecemos. Não é?
– Acho que você tem razão.
Tive a impressão de que David estava no mesmo aposento que ela naquele momento.
– Se você for convidado, conte para nós.
No fundo, a preocupação de David estava ficando incômoda. Era óbvio que ele tinha passado a citar Charles a toda hora e não aguentava ser publicamente excluído do círculo de íntimos.
– Está bem. Mas tenho certeza de que não vou ser convidado – garanti.
Eis que, um mês após, dez dias antes do casamento, fui. Deve ter sido porque alguém não pôde aceitar. O fato é que dali a uma semana, três dias antes do grande evento, alguns amigos iam de avião para Paris, jantar e passar a noite no hotel Ritz. A passagem aérea foi entregue por um rapaz de bicicleta, que informou que um carro viria me buscar em casa à hora marcada. O voo sairia do aeroporto na cidade. Em vez de avisar Isabel, liguei para a noiva.
– Fui convidado para a despedida de solteiro de Charles.
– Eu sei. Foi ideia dele. Acho que vai ser divertido, não? Adoro o Ritz de Paris.
– David não vai ser?
– Não. A organização ficou por conta de Henry Cumnor e de Peter, tio de Charles, que estão pagando tudo. Charles não podia convidar todo mundo.
– Sou obrigado a comentar com David.
– Já falei com Isabel – disse Edith, e fez uma pausa. – Aliás, acho que eles estão meio cansativos. Gosto de Isabel, mas os dois querem ser “os melhores amigos” o tempo todo. Me sinto uma heroína adolescente do livros de Angela Brazil. Afinal de contas, não conheço David direito e Charles mal foi apresentado a ele.
– Minha cara, isso é apenas o começo – avisei, sabiamente.
Às três da tarde do sábado seguinte, um chofer de uniforme e boné tocou a campainha do meu apartamento no porão e pegou minha mala para colocar no carro. Eu me dei ao trabalho de comprar uma mala nova em honra das altas companhias que ia ter, por isso fiquei bem irritado quando o motorista pegou a mala no canto da escada e uma das alças se soltou. Assim, apesar dos meus esforços, fiquei péssimo a viagem inteira. Sic transit gloria mundi ou, suponho, sic transit gloria transit.
Henry Cumnor já estava no carro, espalhando sua corpulência pelo banco de trás em grandes dobras da camisa Turnbull & Asser, quase sem deixar espaço ao lado. Ao entrar, me senti como Carrie Fisher se espremendo com Jabba, o Hut em O império contra-ataca. Eu conhecia Henry de vista, já que frequentamos o mesmo colégio em anos diferentes, o que me protegeu um pouco do esnobismo dele, mas não muito. De todo jeito, sabia o que esperar do encontro, pois Edith tinha me contado uma história engraçada sobre a primeira vez em que saiu com Charles.
O carro tinha mais um passageiro no banco da frente, apresentado como Tommy Wainwright e que reconheci como membro em ascensão do Parlamento, se fosse possível algum conservador estar em ascensão naquela época. Pelo que lembrei dos valorizados perfis publicados nas páginas coloridas dos jornais dominicais, ele era o filho mais jovem de um nobre de condados próximos a Londres e, portanto, uma figura meio surpreendente no grupo para o qual a sra. Tratcher tinha sorrido, pois ela não simpatizava muito com a aristocracia. Era alto, quase franzino, com rosto redondo e simpático e cabelos ralos que o faziam parecer um bobo. Eu depois veria que não era bem assim. Ele virou-se para mim, sorriu e cumprimentou, o que o deixou bem acima dos padrões de cortesia de Henry Cumnor. Partimos.
No caminho para o aeroporto, a conversa foi sobre política e gostei do contraste entre meus dois companheiros. Tommy explicou por que os Conservadores ficaram tão abaixo da crítica. Ele tinha certa razão e valia a pena discutir, mas Henry contra-atacou com vários argumentos ridículos, todos elegantes e todos defasados, que ele deve ter recebido direto do falecido pai (como as roupas que usava). Achei que precisava dizer alguma coisa, comentei então que o partido não tinha sido muito criativo em relação às artes.
Henry virou o corpanzil para mim:
– Meu caro, quantas pessoas fazem parte do que você chama de “artes”? São poucas centenas e não centenas de milhares, milhões de pessoas. Sabe quantos trabalhadores tem o Sindicato dos Empregados dos Transportes? Queira ou não, as suas “artes” não interessam.
E recostou-se no banco, achando que ganhou a discussão.
– Existe algo mais importante do que quarenta milhões de pessoas ligarem suas tevês todas as noites para saberem o que pensam? – perguntou Tommy.
O tema não interessava a nenhum de nós, mas vi que Henry se irritou por Tommy ficar do meu lado, mostrando que tinha a mesma fantasia dos membros menos inteligentes da classe dele: seja qual for o assunto, do vinho do Porto à eutanásia, há uma maneira “correta” de pensar e basta mostrá-la para ganhar terreno. Como eles costumam conversar com quem pensa igual, é fácil ganhar a discussão. Tommy Wainwright não fazia esse jogo e se arriscava a parecer, na cabeça lerda de Henry que, depois que passou a fazer política séria, deixou de ser um “perfeito cavalheiro” – que é a reação padrão ao pensamento original.
Após os procedimentos de praxe no aeroporto, fomos levados a um portão de embarque menor, onde encontramos os outros nove integrantes da viagem. Entre eles, lorde Peter Broughton, meio-irmão bem mais jovem de lorde Uckfield e Eric Chase, marido de Caroline, que conheci rapidamente no jantar de noivado. Ele era um acréscimo improvável ao clã dos Broughton, sendo a perfeita definição de yuppie. Isso quer dizer que era um “executivo” polido e briguento, que falava sobretudo platitudes capitalistas e fazia questão de dizer que era sócio do exclusivo Brook’s. Sua maior característica era uma simplicidade quase patológica, que o fazia ao mesmo tempo menos patético e mais desagradável embora, por estranho que pareça, as mulheres o achassem atraente. Ignoro o motivo disso mas, como não fazia sucesso com os integrantes do seu sexo, fazia com os do sexo oposto. Imagino que ele fosse atraente num estilo certinho e superalimentado, satisfeito com o ótimo casamento que conseguiu e com o corpo exuberante, o que mostrava trocando as roupas sob medida a toda hora, de lãs e tweeds. Depois eu soube que o pai dele tinha sido administrador da Ferrovia Britânica. Ele formava um casal estranho com Caroline, estavam a quilômetros de distância um do outro em matéria de política e filosofia. Na verdade, teve um comportamento de direita ao se casar com ela e ela, por sua vez, um comportamento de esquerda ao se casar com ele. Os dois não percebiam, pois mal se falavam quando a sós. Talvez por isso muitos casais demorem até vinte anos para descobrir que discordam totalmente a respeito dos temas mais fundamentais.
Charles apareceu com uma taça de champanhe e um sorriso caloroso. Por Edith e talvez por mim também, ele estava decidido a me incluir no grupo. Todos, com exceção de Peter, se conheciam desde aquelas longínquas brincadeiras da infância e Charles temia que fossem antipáticos com um ator (eu) do qual jamais ouviram falar. A intenção me comoveu, mas ele não precisava se preocupar. Não fui ator desde sempre. Não só tinha sido colega de Cumnor na escola como reconheci um colega do primário, amigo antigo, além de um conhecido de Cambridge. E sabia que lorde Peter tinha sido noivo de uma prima da minha cunhada, portanto eu não tinha muita dificuldade de integração. Tal como é esse mundo exclusivo que ainda existe em um país de sessenta milhões de habitantes, mesmo um século depois dos socialistas chegarem ao poder pela primeira vez.
Como mais um sinal de gentileza, Charles sentou-se ao meu lado no pequeno avião fretado para o evento. Uma sedutora comissária de bordo trouxe um pouco mais de champanhe e uma panqueca um pouco dura, recheada com um tico de caviar. Nós nos acomodamos.
– Está tudo ótimo – aprovei.
– Estou satisfeito de você vir.
– Eu também.
– Foi você que nos apresentou.
Ri.
– Vamos ver, nos próximos anos, se isso será motivo de elogio ou de crítica.
Charles não estava disposto a gracejos.
– Ah, eu diria que de elogio. Edith acha você muito inteligente – acrescentou.
– Que bom saber. – Ele olhou para a taça.
– Claro que ela é uma mulher brilhante. Você vai ver.
Eu não podia dizer que concordava. Com certeza, Edith não era Gertrude Stein. Ela achava que ser intelectual era ler o livro mais recente de John Mortimer. Mesmo assim, era uma pessoa muito engraçada e, para mim, quem tem humor é sempre inteligente.
– É sempre um prazer para mim estar com ela, o que decerto prova isso – afirmei.
Ele deu um sorriso irônico.
– Bom, espero que ela goste sempre de me ver.
Fiz algum comentário bobo, mas ele não deu o assunto por encerrado. Respirou fundo:
– Espero merecê-la.
Esforcei-me para não rir desse diálogo estilo Frederick Lonsdale. Eram declarações simples, embora sinceras, para iniciar uma despedida de solteiro. Charles era uma pessoa típica do meio a que pertencia, no sentido de não ser original, acabava quase sempre falando clichês de filmes para comentar de amor, irritação ou qualquer coisa que não fizesse parte das regras de conduta do Jóquei Clube. Eu disse que ele ia ser totalmente merecedor e que Edith era sortuda, uma grande honra para ela etc. etc. Costumo acertar nesse tipo de comentário, mas dessa vez não atingi o alvo. Ele cortou meu entusiasmo incentivador:
– Quero estar à altura da inteligência dela. Não quero que sinta tédio na minha presença.
Ele riu e levantou de leve as sobrancelhas para mostrar que era uma brincadeira, mas vi que falava sério – e que tinha razão. Edith não era um Einstein, mas eu tinha a impressão de que, a certa altura da vida, podia não aturar ir às corridas com um bando de gente bem-vestida que repetia opiniões alheias. Mas não encontrei nenhum comentário útil, já que não podia elogiar a perspicácia dele.
– Charles, a única coisa que me deixa desconfortável é modéstia, podemos parar por aqui.
Ele riu e o assunto passou.
Adoro Paris. Há cidades onde só é possível se divertir com ajuda dos habitantes e outras onde a diversão está à disposição de todos, como em Paris. Daí talvez os habitantes não serem muito solícitos. Minha mãe só falava sua língua natal, o inglês, e quis evitar esse problema para os filhos, pois ela concordava e sorria muda para as esposas dos diplomatas franceses, numa espécie de imagem glacial da boa vontade entre as nações. Assim, desde adolescentes estragamos nossas férias escolares sendo obrigados a ficar com famílias nos confins da França, onde mamãe teve o cuidado de checar que ninguém falava inglês. O resultado dessa grande maldade foi todos nós termos um francês aceitável, o que também aumenta o prazer de visitar a linda capital deles.
Eu nunca tinha me hospedado no Ritz de Paris, só estive lá numa grande recepção, parte das comemorações pela união de duas famílias importantes. Trata-se de um grande hotel, isto é, um hotel do tempo dos grandes que não existem mais, onde lindas senhoras de chapéu aguardavam seus criados conferirem as vinte malas da bagagem antes de partirem para a Riviera. Bem longe dos nossos tempos, de comer e sair correndo, apressados. O Ritz é um palácio vermelho, branco e dourado, suntuoso mas bonito, ao contrário dos modernos similares na Park Lane londrina, que parecem imensos salões de cabeleireiro do Maida Vale. Adorei ficar lá, sobretudo por não estar pagando; nem o desprezo dos funcionários pela minha mala feia e capenga conseguiu abalar minha animação.
Nós nos encontramos no bar, enfatiotados em trajes de gala, com aquele jeito meio desesperado de ingleses iniciando uma “farra” e mergulhamos no champanhe. Tommy Wainwright se aproximou e perguntei se ele sabia qual era a programação da noite.
Ele deu de ombros.
– Suponho que vamos jantar aqui, depois vamos a algum lugar constrangedor à margem esquerda do rio. Não é assim que é?
– Creio que sim. Você conhece Charles há muito tempo?
– Fomos colegas em Eton. Depois, saí algumas vezes com Caroline, quando tínhamos vinte e poucos anos, de modo que agora foi uma espécie de reencontro. E você?
– Conheço-o há pouco tempo. Fico me sentindo meio falso por estar aqui. Eu apenas apresentei os noivos, portanto acho que estou representando Edith. Só para impedir que alguém convença-o a mudar de ideia.
Tommy sorriu.
– Quer dizer que você é amigo de Edith. Que interessante. Ela e eu mal nos conhecemos. Acho-a muito bonita. Merece ganhar o prêmio.
– Muita gente torceu o nariz quando eles anunciaram o casamento.
Ele riu.
– Sem dúvida. Acho que a irritação foi porque nenhum deles sabia quem ela era. Pelo menos, as pessoas que conheço. Como se um azarão ganhasse um clássico. A certa altura, ela parecia uma mistura de Eliza Doolittle com Rebecca, a mulher inesquecível.
Concordei. Ele sorriu.
– Pelo pouco que sei dela, vai se sair muito bem. – Fez sinal indicando o noivo. – Ele está muito apaixonado. Fico contente com isso.
A noite estava quente e o concierge do hotel colocou as mesas do restaurante no pequeno pátio ao lado. O piso de pedras claras, cuidadosamente encaixadas sob o olhar exigente de César Ritz, a fonte simples espirrando frescor na noite davam aquela satisfação vinda da combinação de luxo com beleza à qual é bobagem resistir, qualquer que seja a sua filosofia. Deus sabe que essa combinação é rara. Nas mesas próximas à nossa estavam elegantes casais europeus, as mulheres exibindo suas reluzentes joias, uma das senhoras carregava um poodle branco, que dava seu latido bem nutrido. Achei agradável olhar os ricos desfrutando de seus prazeres menos controversos. Infelizmente, nada é perfeito e fiquei sentado ao lado de Eric Chase, que passou a criticar tudo.
– Traga-nos mais uma garrafa – disse Eric, de repente, ao garçom, ao sentar-se. – E veja se consegue na temperatura certa.
Virou-se para mim e perguntou:
– Nós nos conhecemos da casa da minha cunhada, não é?
Concordei com a cabeça.
– Você estava com aqueles amigos horrorosos de Edith.
Concordei de novo, já que não estava disposto a estragar a noite por causa de Isabel e David. Mas como todos os que querem provocar, ele continuou.
– Onde diabos ela os conheceu?
– Não sei. Conheço Isabel desde que éramos crianças.
– Coitado de você. Aceita?
Sem esperar resposta, ele serviu champanhe na minha taça.
– Acho que a pobre Edith vai ter de selecionar um pouco, se quiser conseguir.
– Como assim?
– Se ela quiser acertar. Como lady Broughton.
Ele começou a cantar There will be some changes made.
– Ah, não sei. Você teve dificuldades ao se casar com Caroline?
Claro que, de certo modo, foi um erro perguntar isso e Eric virou-se para o vizinho do outro lado, após me considerar um inimigo. Mas gostei de manter a reputação de Edith. Como muitos arrivistas agressivos que conseguiram subir na vida, ele achava que as pessoas não notavam suas gafes. Grosseiro, não poupava ninguém. Era a armadura dele. Não me importei de contrariá-lo, já que não gostei dele de cara e não era só de brincadeira que eu estava ali para defender Edith.
A próxima etapa da noite foi bem constrangedora. Fomos ao Chez Michou, em Montmartre, uma pequena boate onde artistas cantavam imitando estrelas. O lugar foi sugestão de lorde Peter que, como eu sabia vagamente, era um beberrão simpático com fama de “grande sujeito”. A essa altura, estávamos todos altos, tomando champanhe sem parar desde o aeroporto em Londres. Claro que isso nos ajudou a gostar do espetáculo, que teve poucas surpresas: imitações de Judy Garland, Barbara Streisand, uma Marilyn Monroe meio sem graça e uma inverossímil Rita Hayworth cantando Long ago and far away como no filme Modelos que a própria Rita, à época, apenas dublava também. Bêbado ou não, o travesseiro começou a me chamar; olhei para Tommy, que fez sinal de “vamos embora” exatamente quando o compère (ou seria commère?) subiu ao palco e anunciou:
– Teremos agora o momento especial da noite, com nossos melhores votos de felicidades aos noivos. Senhoras e senhores, lady Edith Lavery!
Quase caí da cadeira quando o jovem que tinha interpretado Marilyn Monroe voltou como Edith. Uma Edith exagerada, com um jeito espalhafatoso que ela não tinha mas, afora isso, muito parecida. Até no vestido, que podia ser do guarda-roupa dela. Olhei para Charles. Estava pasmo, como todos nós. Peter, claro, ria muito. O rapaz/Edith começou a cantar uma música do filme Guys and Dolls:
– “Pergunte como me sinto, coitadinha de mim com minha origem modesta ...” – e veio pelo palco em direção a Charles, que continuou impassível.
– “Bem, senhor, só tenho a dizer que, se eu fosse um sino, estaria badalando...”
Nessa altura, concluí que aquilo era, de alguma maneira indefinida e complicada, uma grande ofensa para Edith. Os outros começaram a rir em silêncio, quando a loira no palco saltitava e berrava versos bobos sobre ter acertado no alvo. Charles estava quieto. O ator chamou-o para o palco e era evidente que isso tinha sido combinado, mas ele continuou sentado, inabalável. O rapaz/moça olhou, intrigado, para Peter, sentado ao lado de Eric, que ria muito com mais dois amigos. Iam interromper a cena. Dali a pouco, Peter pulou no palco, fez par com ela e dançaram. Quase no final, Peter ajoelhou-se e entregou um porta-joias de papelão; Edith abriu a caixa e se enfeitou com as brilhantes bugigangas. Lembrei das caricaturas de Gillray criticando a atriz Elizabeth Farren, que conseguiu se casar com o conde de Derby na década de 1790. No fundo da caixa havia um diadema, um negócio ridículo, reluzente de vidros coloridos. No final da canção, Edith pôs o diadema na cabeça.
Tenho certeza de que Peter Broughton jamais imaginou que Charles fosse se ofender com aquilo. Sem dúvida, a última coisa que ele queria era que a noite terminasse daquela maneira. O pobre Peter não era um sujeito dos mais sutis e achei que Charles, ou um dos outros, devia ter incentivado a ideia dele, de alguém interpretar Edith. Se a personagem tivesse apenas apresentado uma canção de amor, seria bem divertido. Do jeito que ficou, e acho que sem Peter ter total conhecimento, ela foi caricaturada como uma aventureira ambiciosa, alpinista social, na frente do noivo. Eric e alguns outros aplaudiram entusiasmados. Estavam atrás de Charles, por isso não viam a cara dele, mas não sei como puderam pensar que ia achar graça. Eric era do tipo que ofende você e depois pergunta “não vê que estou brincando?” Acho que estava tão acostumado a fazer isso que começou a se divertir com ofensas e quem não as entendesse era burro (inclusive Charles). Charles levantou-se.
– Estou cansado. Acho que vou para o hotel – avisou. Tommy e eu nos oferecemos para acompanhá-lo e saímos, deixando os outros por conta da fracassada brincadeira de Peter.
– Chamamos um táxi? – perguntou Tommy. Era tarde e a noite tinha esfriado bastante, mas Charles recusou a sugestão.
– Que tal caminharmos? Quero um pouco de ar fresco. – Andamos em silêncio até ele comentar: – Foi bem desagradável, não?
– Bom – respondeu Tommy, conciliador. – Tenho certeza de que eles não tiveram a intenção. E que a moça, ou rapaz, ou o que seja, entendeu mal o recado.
– Culpa de Peter.
– Bem...
Charles parou um minuto e olhou em volta.
– Sabem o que achei mais deprimente?
Nós dois imaginávamos mas, naturalmente, ficamos quietos.
– Foi perceber de repente que a maioria dos meus amigos é totalmente idiota. Pelo amor de Deus, são meus doze melhores amigos! – Deu uma risada amarga e acrescentou: – Foi constrangedor por eles e por mim.
Acabamos andando por Paris. Os outros padrinhos já deviam estar dormindo quando entramos no hotel na Place Vendôme. Nos despedimos, cada um foi para o seu quarto e acho que, no final, a noite podia ser considerada um fiasco, principalmente se avaliados os custos. Mas, por algum motivo estranho, gostei da explosão de Charles. Reconsiderei a opinião que tinha dele e acho que naquela noite vi o quanto ele era decente. Essa qualidade não era valorizada na época, mas achei que a felicidade de Edith estava em melhores mãos do que tinha pensado.