Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 17 de 23

Páginas do PDF

Esnobes

Terceira parte: Dolente-Energico

TERCEIRA PARTE

Dolente-Energico

DEZESSETE

 

DEPOIS DISSO, PASSEI ALGUNS MESES sem ver Edith. No outono, fui o vilão numa dessas séries otimisticamente consideradas “livre para todos” porque ninguém sabe direito a que categoria pertencem. A gravação foi em Hampshire e, portanto, fiquei bastante tempo fora de Londres. Aluguei um chalé em Itchen Abbas e Adela ia me encontrar quando podia. Em novembro, descobrimos que ela estava grávida e, ao pensar que minha vida ia dar mais um salto qualitativo, afastei da cabeça todas as demais considerações. Compramos dúzias de livros para saber mais sobre nosso novo estado e passamos noites procurando causas para Adela sentir gosto de metal na boca ou dores nas costas. A busca acabou sendo totalmente inútil, pois a resposta para quase tudo o que perguntávamos era “causa ainda ignorada”. Mas ficamos alegremente ocupados.

Tínhamos poucas notícias de Edith, Simon e Charles. Os jornais os esqueceram, já que não havia sinais de divórcio e, pelo jeito, estavam deixando a segunda parte da história para quando o caso chegasse aos tribunais. Um dia, escrevi para Charles, pois tinha lido numa obscura revista de arte que estava à venda um retrato dos Broughton e achei que ele, ou algum parente, pudesse se interessar pela compra. Naturalmente, dei notícias nossas e recebi quase em seguida um comovedor cartão nos desejando felicidades. “Que bom vocês não esperarem muito tempo”, escreveu. “Casar é bom, mas o filho é que faz do casal uma família de verdade. Sinto inveja de você.” Discordo um pouco dessa opinião, mas considerei, acho que com razão, um comentário sobre os desapontos conjugais dele. Terminou dizendo para avisar quando voltássemos à circulação, concordei. Senti que, àquela altura, Charles e eu tínhamos passado por tantas coisas que podíamos nos considerar amigos, mesmo pelos padrões ingleses. E o temor potencial de condenar amizades com os poderosos não tinha mais cabimento. Ainda bem que ele não perguntou por Edith, pois não tínhamos notícias. Os boatos diziam que ela e Simon continuavam juntos e que, fosse pela fama ou pelo talento, ele tinha feito um personagem importante num seriado policial. Resolvi entrar em contato com ela quando voltasse para Londres, pois não queria ser uma daquelas pessoas que largam os amigos quando eles deixam de ser importantes. No final das contas, foi minha esposa quem retomou nossa ligação, não eu.

Tínhamos voltado para Londres há pouco, quando uma prima de Adela convidou-a para assistir ao desfile de primavera da Hardy Amies. A prima em questão, Louisa Shaw, estava na casa de uma parente mais jovem da família real; por isso ou, mais provavelmente, por de vez em quando comprar roupas da marca, era convidada para esses sofisticados eventos, ficando sempre em ótimos lugares. Ela era amiga de infância de Adela, por isso gostava de dividir seus privilégios com minha esposa.

Adela e Louisa combinavam a ida ao desfile, mas não sabíamos que nossa velha conhecida Annette Watson também era cliente da Hardy Amies. Como já contei, ela havia sido uma bela do cinema no passado e era caçada pelos fotógrafos em grandes eventos com poucas celebridades. Mas agora ela aparecia nas páginas de revistas de moda usando roupas de couture e, portanto, era bem-vinda nessas festas. A essa altura, Annette estava muito bem, sobretudo porque, contra todas as previsões, o terrível Bob tinha passado de financeiramente bem a riquíssimo na agitada década de 1990. Acho que o sucesso dele estava de alguma forma ligado à bolha das ponto com, embora eu não lembre exatamente o que ele fazia, se é que algum dia soube. Era óbvio que, fosse o que fosse, soube lucrar. Dois ou três anos após terem sido os constrangedores convidados de Eric em Mallorca, eles se firmaram socialmente e, pelo menos em Londres, tinham uma agenda de telefones bem satisfatória. Não conseguiram entrar no círculo sofisticado de lady Uckfield, mas tinham boas relações com alguns dos mais mal-afamados jovens marqueses e com as it-girls que faziam parte da cena londrina na época. Annette tinha até aparecido com a duquesa de York nas páginas de compras da Hello. Estava satisfeita, no geral.

Grande parte dessa satisfação era porque agora podia recusar os convites dos Chase, que tinham ficado mais insistentes. Claro que Caroline Chase não ligava para os Watson, mas os negócios escusos de Eric, que ele chamava com otimismo de “Técnicas de negócios e relações-públicas”, foram muito prejudicados pela recessão. Tais técnicas, parece, foram as primeiras economias prejudicadas nas empresas que cresceram depressa demais e que agora pareciam estar encolhendo com a mesma rapidez. Eric achava que uma ajuda de Bob Watson seria bastante providencial. Decerto seria mesmo, porém, talvez por causa daquele horrível jantar em Fairburn, não veio. Os Watson não precisavam mais dos Chase ou, pelo menos, de Eric, no tabuleiro social deles. E Eric não devia circular por muito mais tempo. Sabia-se que estava sustentado por Caroline e os amigos dela começavam a se perguntar quanto tempo isso ainda ia durar. Principalmente porque não havia filhos para complicar a situação. O grupo de Caroline achava que era pouco racional casar-se com um homem grosseiro e, ainda por cima, pobre. Embora eu não tenha os mesmos valores que essas pessoas sobre vários temas, confesso que entendo-as, no caso de alguém tão agressivo quanto Eric.

É bom registrar que a mesma Annette Watson foi a única pessoa a não excluir Edith e, portanto, a ficar do lado de Charles para continuar com os Broughton. Edith pagou caro pela escolha que fez. Na verdade, eu não condenava essas pessoas: para início de conversa, eram amigas de Charles, e Edith, sem dúvida, se comportou mal. Mas essa não foi a verdadeira razão para se bandearem para o lado dos Broughton. Qualquer homem teria ficado com Charles, mesmo se ele espancasse Edith e tivesse um bando de amantes no quarto. Mas é preciso concordar que, nesse item em particular, era difícil discutir com eles. De todo jeito, Annette manteve a amizade, fosse por não gostar muito de Charles ou da mãe dele, ou por gostar mesmo dela. E um dos convites que fez para Edith foi o de as duas almoçarem e depois irem ao desfile da Hardy Amies.

* * *

Edith nunca tinha ido ao restaurante no primeiro andar do hotel Méridien em Piccadilly, que tinha passado há pouco por uma enorme “renovação”. A sala de jantar ficou no antigo terraço, que foi envidraçado e recebeu palmeiras e piso de mármore para fazer todos aqueles nativos de Los Angeles se sentirem em casa pois esperava-se que eles fossem entrar aos magotes pelas portas recém-inauguradas. Edith chegou e foi passando pelas mesas, respondendo ao aceno de Annette. Estava muito bem num elegante conjunto de inverno, arrematado por colar de pérolas e broche. Para surpresa própria, ficou tentada a usar um chapéu. Resistiu, mas o hábito, no caso, devia ser uma parte da vida dela que ficou escondida sob as camisetas e lantejoulas que pareciam ser as duas únicas escolhas para vestir do grupo de Simon. Até ele comentou o figurino, enquanto lia tranquilamente as cenas que seriam gravadas no dia seguinte:

– Céus! Como está elegante! Parece a sua sogra!

Mas ela não se animou. Talvez, no fundo, se sentisse elogiada.

Annette cumprimentou-a com beijos e pediu champanhe para as duas. Não demorou para passarem dos comentários habituais ao assunto que interessava.

– Então, quando você dá o próximo passo? – perguntou Annette.

– Próximo passo? – repetiu Edith.

– Sim, o divórcio. Está providenciando?

Edith se sentiu meio desconfortável.

– Não, ainda não.

– Por quê?

Ela deu de ombros.

– Acho que eu... nós... achamos melhor esperar dois anos e fazer tudo sem muita confusão. Senão, fica tanta discussão...

– Dois anos! Ah, não sei se Charles vai querer esperar tanto – disse Annette, rindo.

– Por quê?

Annette olhou bem para ela.

– Querida, você deve saber que a vida continua.

Edith levou um susto, teve um frio na barriga.

– Como assim?

– Minha cara, assim que circulou a notícia, ele foi atacado pelas mulheres. Como não? Você não teve nem filhos, portanto não há nada para impedi-las.

Edith viu que estava se irritando. Como aquela mulher ousava saber mais sobre o marido dela do que ela?

– Não creio que ele esteja encontrando alguém especialmente.

– Pois está enganada. – Annette deu um gole no champanhe para pontuar a pausa. – Lembra de Clarissa Marlowe?

Edith riu e voltou a respirar normalmente. A ilustre Clarissa Marlowe, bisneta de uma cortesão que tinha recebido um baixo baronete na década de 1920, era prima em segundo grau de Charles por parte das mães. Uma simpática e saudável lourinha, boa ginete, que ajudava bastante em jantares chatos. Era recepcionista numa empresa duvidosa de altos investidores e, assim, conferia certa respeitabilidade ao local; morava com a irmã num apartamento perto de Old Brompton Road. “Clássica integrante da brigada das patricinhas”, pensou Edith, acalmando-se. Não fazia o tipo de Charles.

– Não seja boba, é prima dele. Está só sendo simpática.

Annette franziu o cenho.

– Pois foi simpática antes do Natal, quando ficou uma semana com ele no Caribe inglês, depois passou o Ano-Novo em Broughton.

Sem dúvida, foi um golpe. Na verdade, Edith ficou pasma com a força dele. O que tinha pensado? Que Charles ia ficar solteiro para sempre? Largou dele há oito meses e ele era apenas humano. Pensou em Clarissa e teve muita raiva daquela inocente garota de condado. Na verdade, gostava de Clarissa, que procurava ajudar nas festas, ria das histórias engraçadas de Edith e nunca foi daqueles parentes que insistiam em tratá-la como uma estranha cansativa. Ao pensar nisso, concluiu que a prima sempre teve uma queda por Charles e, desanimada, passou a considerar Clarissa como o tipo da garota com que homens como Charles se casam.

– Oh – exclamou.

O garçom veio entregar enormes cardápios com capa de couro e o nome dos pratos escrito em francês errado. Retirou-se resmungando erres guturais.

– Anime-se, querida. Fale de Simon. Ele vai bem? – perguntou Annette, com olhar terno.

– Ah, sim. Muito bem – respondeu Edith, recompondo-se. – Está num seriado que vai até junho e depois, com sorte, volta em dezembro.

– Que ótimo! Sobre o quê?

– Hum, uma daquelas coisas de detetive – disse Edith, tentando decidir entre fígado e salmão grelhado. – Ele faz o ajudante que não entende nada. – Finalmente, resolveu pedir rins com salada.

– Que bom – aprovou Annette. – Quem mais está no elenco? Você foi ao set e tudo?

Edith apreciou bastante os esforços de Annette. Era gentil.

– Não, não. Às vezes. Assim tenho uma ideia das histórias. Ele fica muito nervoso.

Na verdade, por mais que ela se esforçasse, tinha chegado à conclusão de que não podia se envolver no trabalho de Simon. Gostava muito de algumas coisas, como noites de estreia, algumas (bem poucas) festas e conhecer pessoas que só vê na televisão. Gostava de ler os roteiros e depois compará-los com o resultado final, mas a maioria das coisas do trabalho dele, bem... No começo, ela foi algumas vezes aos sets mas, sinceramente, era tão chato. Dava a impressão de que repetiam os mesmos diálogos sob milhares de ângulos até que, lá pelas tantas, ela ia para a sala de maquiagem e ficava fofocando com as garotas. Para ser totalmente honesta, não entendia por que Simon falava mundos e fundos daquilo tudo. No geral, parecia bem simples. Você decorava as falas, a câmera focava em você, você dizia as falas. Ela via que alguns atores conseguiam fazer isso e outros não, mas não adiantava sofrer. Nunca achou que Simon tivesse ficado melhor nas partes que suou para fazer do que nas que improvisou. Desde aquele nosso distante almoço, ela só sabia de uma coisa: o set não tinha espaço para ela. Após algumas tentativas, ela apareceu uma ou duas vezes, ou passou o fim de semana no local da filmagem para conhecer o resto do elenco e o pessoal da parte técnica, e pronto. Era melhor assim.

– Dê lembranças a ele – disse Annette. Elas se olharam um instante e, para alívio de Edith, o garçom ressurgiu nesse exato momento para anotar os pedidos. As duas passaram então a falar de assuntos mais gerais.

* * *

Louisa tocou a campainha do nosso apartamento no sótão pontualmente às 12:45. Elas tinham resolvido almoçar em casa e, depois do desfile, ir tomar chá na Fortnum. Adela estava com cinco meses de gravidez, tinha parado de enjoar há pouco tempo e precisava muito de um agrado. Eu ia dar carona para elas até a Savile Row e seguiria para experimentar uma peruca na Old Burlington Street. Eu gostava da prima de Adela. Filha de um proprietário de terras anglo-irlandês, tinha aquele jeito levemente excêntrico, isento e incapaz de julgar alguém, tão diferente de suas contrapartes inglesas; por isso, era uma companhia agradável para todos, apesar de seus tweeds e seus sapatos finos. Era também uma solteirona por escolha; creio que achava que viver a serviço da realeza era como enfrentar a azáfama de marido e filhos. Claro que estava emocionada com a chegada do nosso bebê e, antes de Adela me dizer, eu tinha visto que Louisa tinha as qualidades de uma vovó clássica.

O trânsito não estava muito difícil e, assim, eram 14:45 quando as duas subiram a escada da Hardy Amies e entraram no amplo salão do primeiro andar que dava para a Savile Row, onde seria o desfile da coleção.

Não vale a pena chegar cedo nesses eventos, já que todos os lugares são cuidadosamente marcados. Mas as duas tinham muito para conversar; depois que foram conduzidas até as duas cadeiras marcadas com cartões manuscritos “Lady Louisa Shaw & Amiga”, ficaram tão imersas nas próprias histórias que não prestaram atenção no resto do salão, que enchia depressa. Estavam num bom lugar, na primeira fila da passarela, na parte menor do lugar, perto da porta da escada e assim tinham visão panorâmica não só da passarela, mas de quase toda a plateia. Quando as luzes se acenderam, indicando que o desfile estava prestes a começar, Adela ficou muito surpresa de ver Edith Broughton no canto distante, na fila de trás, de costas para a porta por onde as modelos entravam. Estranhou Edith não tê-las cumprimentado, pois devia ter passado por elas para chegar ao lugar onde estava e até aquele momento, embora olhasse para Adela, não deu sinal de reconhecê-la. Suponho que isso mostrava o tratamento que Edith teve de aguentar nos últimos meses. De todo jeito, Adela considerava qualquer sinal de feudo como um anátema e imediatamente sorriu e acenou para Edith que, talvez com um alívio, retribuiu o aceno.

A conversa estava terminando, na expectativa do desfile, quando houve uma pequena agitação na porta. Adela virou-se a tempo de ver uma das princesas entrar no salão, seguida de lady Uckfield. Desculpando-se com sorrisos, as duas seguiram para as cadeiras reservadas na primeira fila, perto de minha esposa e de Louisa. Sentaram-se; Adela virou-se para trás e viu Edith de olhos fixos na sogra. Claro que percebeu o contraste entre as duas, o que também deve ter ficado bem claro para Edith. Estava na fila de trás, com sua amiga superanimada, prestes a ver roupas que ela não podia nem pensar em comprar. Estava a duas fileiras de distância da mulher que ela poderia ter sido, acompanhando alguém da família real, invejada por praticamente todas as presentes. O som começou, uma seleção de rock, o que era uma escolha estranha, considerando-se a idade média da clientela. Adela olhou o programa do desfile para saber qual seriam os primeiros vestidos. Três modelos entraram na passarela, tendo em suas elegantes mãos um disco plástico com o número do vestido. Começou.

Foi animado, com a plateia comentando na hora cada grupo que desfilava. “Lindo para usar na Espanha”; “Que cor estranha, será que tem em creme?”, “Bonito vestido, mas na modelo errada” e frases similares, bem audíveis, enquanto as moças seguiam, impávidas. De vez em quando, um pouco de riso, quando uma modelo deixava cair seu disco numerado (acho que por isso não fazem mais), ou outra tropeçava ao dar uma graciosa volta, mas esses foram raros senões na operação superorganizada. Adela, porém, se distraiu. Toda vez que virava na direção de Edith, ela não estava olhando a passarela, mas as costas da sogra, que ainda ignorava a presença dela, pois rabiscava observações no programa e cochichava com sua augusta companhia.

O desfile terminou e a plateia, anotações feitas e figurinos vistos, levantou-se para sair. Abriu-se caminho para Sua Alteza passar, seguida de lady Uckfield. Com a discrição adequada, Adela não se fez notar, mas, por acaso, a princesa reconheceu Louisa na mesma hora em que lady Uckfield viu minha esposa. Adela então foi apresentada, fez a reverência e, por alguns instantes, as pessoas se afastaram respeitosamente para as quatro passarem. Comentavam cordialmente seus modelos preferidos, quando Adela viu Edith vindo na direção delas, no meio do aperto. Essas situações são delicadas. Garanto que Adela não foge de uma situação difícil, mas para que estragar a tarde de lady Uckfield, ou colocar sua acompanhante numa situação constrangedora? A nora era personagem de um escândalo e aquele era um lugar público, cheio de jornalistas. Como uma Judas, Adela preferiu evitar os danos e fez sinal com os olhos para lady Uckfield, mostrando Edith, que se aproximava. Lady Uckfield, com a agilidade que dominou o Império, notou a presença da nora num átimo. Nem Adela seria capaz de dizer que a saída imediata foi mero acaso, se a velha dama não lhe desse um apertão conspiratório no braço. Num instante, princesa e acompanhante sumiram e Adela teve de apresentar Edith quando ela se aproximou de Louisa, que não entendeu direito o que tinha acontecido.

Conversaram um pouco, Edith pediu notícias minhas; Adela, de propósito, não perguntou de Simon e as duas se despediram. Não sem antes Edith dizer, animada:

– Minha querida sogra está bem.

– Muito bem, eu diria – concordou Adela.

Edith riu.

– Engraçado, a relação fica tão estranha! Ah, mas ela não pode me evitar para sempre. Vai se acostumar com o fato de eu ainda morar em Londres, queira ou não.

– Não creio que ela tenha evitado você. Apenas não viu – disse Adela, acrescentando, desajeitada: – Eu não disse nada...

– Por que haveria de dizer? – perguntou Edith.

E as três se separaram. Adela e Louisa foram para a Fortnum’s e depois para o apartamento, contar todos os detalhes para mim. Edith voltou para Ebury Street, onde Simon estava irritado porque uma de suas falas tinha sido cortada da cena do dia seguinte. Ele desconfiava do colega que dividia com ele as partes mais importantes, começava a não gostar dele e estava tão irritado com essa injustiça que não ouviu direito o que Edith contou. Não creio que tenha contado muita coisa. Só que viu Gugu, mas ela não a viu. Na verdade, além daquela noite horrorosa no Annabel’s, essa foi a mais dura prova do seu declínio e ela não conseguia falar nisso sem se sentir um pouco mal.

* * *

Pelo relato de Adela, concluí que Edith devia estar passando por uma fase dura e difícil, por mais feliz que estivesse com Simon. Então, resolvi telefonar e convidá-la para um bom almoço. Mas, antes de tomar essa iniciativa, tive a surpresa de receber um convite de Isabel Easton para um fim de semana em Sussex. Na verdade, o envelope estava endereçado para Adela. Pelo jeito, Isabel tinha feito a lição de casa e sabia que na classe alta os envelopes são sempre dirigidos à esposa. Por quê? Sei lá? De todo jeito, Adela leu primeiro o convite e sugeriu que aceitássemos, embora ela não gostasse muito de Isabel e menos ainda de David. Desconfiei então de que havia outro motivo para aceitar.

– De lá, podemos ligar para Charles – sugeriu, e vi logo qual era o motivo.

Acho que não me hospedava com os Easton desde aquela época, há três anos, quando fomos todos a Broughton testemunhar a vitória de Edith. Eu os tinha visto em Londres, então o intervalo não era tão grande e, pensando nisso agora, não sei por que parei de ir lá. Talvez por Edith e eu termos ficado amigos acima deles e isso tivesse causado um estranhamento entre nós. Não sei. De todo jeito, fiquei muito contente por, duas sextas-feiras depois, estar com minha esposa de novo na sala de mesas com toalhas franzidas, sofás de chintz e almofadas imensas. Tínhamos desfeito as malas, tomado banho, recebido um drinque pré-jantar e nada mais que isso, quando surgiu o verdadeiro motivo para sermos convidados.

– Vocês vão a Broughton? – perguntou David.

Olhei para Adela.

– Não sei, talvez eles não estejam lá. Pensamos em ligar.

– Muito bem – disse David. Fez uma pausa. – Dê lembranças a Charles, se falar com ele.

Pronto. Eu devia ter adivinhado. Afinal, que situação a deles! Durante anos, quase enlouqueceram por não conseguirem qualquer relacionamento com a família. Até que, milagre dos milagres, a amiga se casa com o herdeiro da mansão. Eles começam a entrar no condado. E, quando conseguem um pequeno avanço com Sir William Fartleys, pum, surge o escândalo. Edith, a amiga que eles foram os primeiros a levar por aquelas plagas (pois, certamente, não fizeram segredo do papel deles), foge com um ator, põe a família em desgraça, faz o querido Charles sofrer, coitado. David e Isabel Easton saem de cena.

Acho que precisava ter um coração duro para não sentir pena deles, coitadinhos, mesmo que a pretensão fosse fútil. É fácil rir das metas dos outros, sobretudo quando são bobas, mas todos nós passamos por alguma fase espinhosa em alguma área da vida e que não merece a importância que damos a ela. Imagino que seja difícil conviver num pequeno grupo e ser obrigado a aceitar ser excluído dele. Para completar, os Easton tinham chegado (ao menos na cabeça deles) tão perto do prêmio...

David prosseguiu.

– A verdade é que a nossa cara Edith agiu muito mal.

Todos nós, inclusive Isabel, ouvimos num leve silêncio. Até Adela (que eu sabia que concordava totalmente) relutou em ficar do lado de David, na ausência de Edith.

– Não sei – eu disse.

– Francamente! Fico surpreso por você defendê-la – David disse, indignado.

– Não estou propriamente defendendo. Só que a gente nunca “sabe” da vida dos outros – insisti.

Trata-se de um truísmo meio falso. Todo mundo sabe da vida dos outros. E eu, sinceramente, sabia muito das vidas de Edith e Charles, mas, mesmo me sentindo um pouco desonesto, disse uma certa verdade. Garanto que nunca se sabe o suficiente dos outros para condenar.

Isabel entrou na conversa com sua bandeira pacifista.

– Acho que David quer dizer apenas que lastimamos o que aconteceu com o pobre Charles. Ele não merecia nada disso. Pelo menos, na nossa opinião.

Concordamos, porém era totalmente óbvio que David queria livrar-se de Edith e, ao mostrar sua indignação a alguém que levaria a história para a mansão Broughton, achava que ganharia pontos e voltaria à lista de convidados. Ou à lista, ponto, já que achava (erradamente) que tinha penetrado na fortaleza durante o reinado de Edith. Errado por dois motivos: primeiro, porque Charles não gostava dele. A classe alta inglesa, em geral, não aprecia cópias dela na classe média alta. Esse tipo de arrivista tem todos os defeitos daqueles que são apenas conhecidos e nenhuma qualidade dos que são íntimos. Quando a alta roda confraterniza com pessoas de fora do grupo, prefere que sejam artistas, cantores, ou gente que os divirta. O segundo motivo era mais pessoal: Charles não aprovaria que David largasse Edith e sua causa, embora isso agradasse a ele, Charles.

Obedecendo às considerações de David e à sugestão de Adela, liguei para Broughton naquela noite. O mordomo Jago atendeu, disse que Charles estava em Londres e, quando eu ia desligar, a extensão do telefone foi retirada do gancho e lady Uckfield entrou na linha.

– Como vai você? Outro dia encontrei sua linda esposa – contou. Eu disse que sabia. – Tem alguma chance de vocês virem aqui um dia? Espero. – Ela falava com aquela urgência íntima, aquela voz de moça-que-tem-um-segredo que passei a associar ao comportamento social dela e a me encantar.

– Na verdade, Adela e eu estamos aqui, hospedados com os Easton. Liguei só para saber se Charles estava.

– Bem, ele volta amanhã à noite. Onde vão jantar? Será que podem sair? – Fez o pedido cruel sem qualquer dor na consciência. Será que ela sabia que David daria a vida para ficar entre os íntimos da casa? Provavelmente.

– Creio que não – respondi.

O tom dela ficou ainda mais conspiratório.

– Não pode falar agora?

– Creio que não – repeti, e vi David ao lado da lareira, me observando com olhos de gavião.

– E um chá? Certamente você consegue?

– Creio que sim – respondi, ainda sem me comprometer.

– E traga sua linda esposa. – Ela desligou.

David ficou amargamente desapontado pelo fato do telefonema não resultar num convite geral, como ele esperava, embora não dissesse. Sugeriu, meio irritado, ligar para lá e convidar os Uckfield para jantar, porém Isabel, sempre mais sensata, não deixou.

– Imagino que eles queiram falar um pouco sobre Edith e tal. Não é?

No final, como ele nos hospedou com a intenção de restabelecer o contato com a mansão, não podia impedir que fôssemos lá. Concordou com o chá, mas teríamos de convidar os Uckfield para tomar um drinque no domingo de manhã na casa deles, Easton.