Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 23 de 23

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Esnobes

Epílogo

Smorzando

 

PELO QUE ME LEMBRO, não se comentou muito quando Edith deu à luz uma menina, uns sete meses após a reconciliação. Claro, falaram bastante, principalmente a mãe dela, que declarou estarem surpresos por Edith “ter uma gravidez tão prematura”. Na verdade, a sra. Lavery exagerou ao insistir em ficar a noite toda na maternidade devido “aos riscos de um parto prematuro” o que, naturalmente, deu origem a muitas histórias engraçadas nos jantares, mas ninguém se importou. A alta sociedade ainda usa versões comoventes para esse tipo de bobagem. Essas coisas fazem parte de um ritual, não chegam a ser inverdades e não prejudicam ninguém. O bebê era uma menina, o que excluía qualquer futura sucessão. Significava que tudo podia voltar ao normal sem deixar ressentimento.

Quando telefonei para saber da novidade, até lady Uckfield, não resistiu e baixou a guarda um instante, ela, que sempre foi tão prevenida.

– Menino ou menina? – perguntei, quando ela atendeu.

– Menina. Não é um alívio? – perguntou. E acrescentou, rápido, mas nem tanto: – Um alívio que as duas estejam passando muito bem.

– Um grande alívio – concordei, mantendo essa hipocrisia. Ela não tinha culpa de ter os preconceitos de sua classe. Agora, que o bebê não podia herdar as glórias de Broughton graças às leis antiquadas que regiam a nobreza e que nem o sr. Blair conseguiu mudar, apesar de ele tanto trompetear os direitos da mulher. Portanto, a menina não oferecia perigo e podia viver em paz. Como os três “pais” eram louros, não houve perigo do bebê ter a cor errada e, pelo menos, até o momento, não é muito parecida com Simon supondo-se, naturalmente, que seja filha dele – o que, afinal, nunca se pode ter certeza absoluta. Nenhum integrante do Guia de Nobreza de Debrett jamais se arriscaria a fazer o teste de DNA, com medo do resultado. Um estrangeiro em visita a Broughton, que não conhecia a excelente máxima eduardiana “nunca se comenta com quem parece uma criança”, perguntou se eu não achava a menina parecida com Charles.

Imaginei que um súbito calafrio tivesse tomado conta da sala, mas concordei.

– Sim, ela não parece nada com Edith. – E com isso recebi um olhar especialmente caloroso do meu anfitrião. Engraçado, quando olhei melhor o bebê, realmente parecia um pouco com ele. Mas podia ter sido mais na expressão do que nos traços. Talvez seja estranho, mas, com o tempo, ele passou a gostar tanto da filha que os outros filhos reclamavam do favoritismo. Mais ilógico ainda é o fato de ela se tornar a neta preferida de lady Uckfield, o que apenas confirma o velho ditado “nada é mais esquisito do que gente”. De todo modo, lady Broughton deu à luz novamente apenas catorze meses depois – desta vez, um menino. O novo visconde Nutley foi saudado com fogueiras e festejos em Sussex e Norfolk e, para ser franco e pouco moderno quanto a isso, ninguém mais queria saber quem era o pai da pequena lady Anne.

Caroline divorciou-se mesmo de Eric. Tudo foi acertado sem brigas e, confesso, com mais estilo que pensei que Eric tivesse. Mas ele não ficou solteiro por muito tempo. Dezoito meses após, casou-se com a filha de um industrial milionário de Cheshire, Christine Alguma Coisa. Ela e Eric tinham muito mais afinidade do que Eric com Caroline. No mínimo, porque ela possuía as mesmas ambições de Eric, que perseguia como se fossem dela e, claro, acabaram sendo mesmo. Por acaso, encontrei-os em Ascot alguns meses após o casamento e devo dizer que gostei dela. Era bem animada e mais fácil de lidar do que Caroline, apesar de já ter sido contaminada pela idiotice de Eric. Lembro dela usar a frase “gente do nosso tipo” querendo dizer, imagino, que eles pertenciam a algum grupo social exclusivo. Eric certamente adorou, pois tinha passado o ex-casamento inteiro sendo lembrado diariamente da existência de um grupo fechado do qual ele jamais poderia fazer parte.

Ele grunhiu alguma coisa para mim à guisa de reconhecimento, mas não me ofendi. A essa altura, eu tinha esquecido as grosserias de Eric e uma das vantagens de envelhecer é que não nos sentimos na obrigação de detestar alguém só porque essa pessoa nos detesta. Afinal, ele tinha o direito. Lady Uckfield não escondia o desprazer na companhia dele e acho que às vezes me usou para mostrar isso, com certa maldade.

– Você ainda encontra com todos eles, imagino? – Eric perguntou, quando a esposa parou de falar na sua nova cozinha Poggenpohl.

Concordei com a cabeça.

– Agora temos um bebê, então nos vemos menos. Mas, sim, encontro com eles.

– E a querida Edith está contente? – Era compreensível que ele se irritasse com quem sobreviveu ao problema que o derrubou.

– Creio que sim.

– Imagino. E como vai a querida “Gugu”? – Ele cuspiu o nome exatamente como Edith fez uma vez, antes de ser reabilitada. Agora, ela tinha voltado a pronunciar o apelido direito. – Não sei o que minha cara ex-sogra acha dos últimos acontecimentos.

– Ah, ela está muito contente, de certo modo – afirmei, como se achasse que ele realmente se incomodava. Nos despedimos e pronto.

Quando fui encontrar Adela, que tomava chá com Louisa na Household Stand, pensei nas minhas respostas e concluí que falei apenas a verdade. Claro, como todo mundo previa, as crianças mudaram tudo. Duas crianças de menos de 4 anos de idade deixam qualquer um exausto, mas não sobra tempo para o tédio. Sobretudo pelo fato de que Edith não contratou uma babá normanda, como seria de praxe, o que deixou a sogra preocupada. Preferiu babás portuguesas e australianas, moças simpáticas (quase todas), mas não daquelas que consideram o quarto das crianças como domínio delas. Achei bastante prudente e tive o prazer de ver que Charles também.

Quanto ao que lady Uckfield achava de tudo aquilo... era preciso acordar bem cedo para saber exatamente o que ela achava de qualquer coisa, pelo menos mais cedo do que eu acordo, sem dúvida. Como eu tinha previsto, não ficamos tão próximos após a volta de Edith. Mas ainda não perdi a esperança de recuperar meu antigo posto de favorito da corte. Pobre senhora, ousou sonhar um pouco no intervalo e tramou grandes coisas em relação à querida Clarissa ou alguma outra do gênero como jovem castelã. Por ironia, suas fantasias eram parecidas com as da desprezada sra. Lavery. Lady Uckfield também tinha se imaginado grande amiga dos sogros do filho. As duas avós podiam talvez almoçar juntas, depois iriam ver uma exposição... Portanto, foi difícil se adaptar à volta de Edith, quando menos porque lady Uckfield se deu ao luxo de confessar o que realmente achava, enquanto Edith estava longe. Pior, confessou tais segredos não só a si mesma e ao marido, o que já era ruim, mas para mim, que não era da família. Sabia que, com isso, forneceu munição. Desde então, sempre que ela falava na “nossa querida Edith”, corria o risco de eu olhar para ela e lembrar tudo. Eu não faria isso, mas a mera possibilidade causou uma frieza entre nós. Lastimei e ainda lastimo, mas não há o que fazer. Porém Adela e eu continuamos a nos hospedar em Broughton de vez em quando.

Lembro que uma vez lady Uckfield se soltou um pouco mais. Era um jantar e os convidados estavam espalhados em pequenos grupos pela sala e pelo salão vermelho, ao lado. Edith era o centro de um grupo de admiradores, pois você há de compreender que muitos precisavam recuperar o terreno perdido durante o exílio dela. Supõe-se que os amigos fiéis (como Annette Watson, por exemplo) seriam recompensados com uma chuva de convites, mas acho que não foram. Era previsível, talvez. Mas nessa determinada noite, rodeada de pessoas, Edith fez alguma observação, não lembro o quê, que causou frouxos de riso nos bajuladores. Eu estava me servindo um pouco mais de café, portanto ninguém mais ouviu quando lady Uckfield resumiu:

– Edith vencedora – ela disse. Concordei, mas ela não deixou por menos. – Ao vencedor, o espólio.

– Edith venceu? – perguntei.

– Não venceu?

– Não sei. – Dei de ombros. Acho que eu estava querendo filosofar e, sem querer, fui desleal.

– Claro que venceu, você ganhou – disse lady Uckfield, bem sincera.

Fiquei irritado. Ela estava com a razão sobre Edith, concordo, mas não a meu respeito. Sempre defendi os Uckfield na luta pela alma de Charles e ela sabia disso.

– Não me culpe – eu disse, firme. – Você me pediu para não incentivá-la e não fiz isso. Quem arrumou tudo foi sua filha, não eu. O fato é que Charles queria que ela voltasse. Voilà tout. Imagino que ele saiba o que é melhor para ele.

Lady Uckfield riu.

– É exatamente o que ele não sabe.

O tom foi meio amargo, mais para triste. E também, eu sabia, resignado.

– Eu disse que não acreditava que seriam felizes e espero ter me enganado. Mas – ela mexeu as mãozinhas e os anéis reluziram à luz da lareira – está feito. Temos de aproveitar o que existe. É hora de passar para a próxima casa do jogo. Esperemos, ao menos, que não sejam menos felizes que todo mundo. – E ela se retirou.

Seriam eles menos felizes do que todo mundo? Era, sem dúvida, a questão. Edith voltou para Charles sem fazer exigências, apesar de algumas concessões. Primeiro, concluiu que era bobagem preferir se entediar no campo a se divertir em Londres e convenceu Charles a comprar uma casa em Fulham, que custou mais ou menos o mesmo que a venda do pequeno apartamento em Eaton Place. Ela agora se dava ao direito de passar dois ou três dias por semana em Londres. Passou também a participar de alguns comitês em Sussex, além da administração de um hospital perto de Lewes. No final das contas, começou a ter a vida que levaria aos 60, quando ela (e todos os demais) já teria esquecido que houve um tropeço no início de sua vida conjugal. Assim, concluí que estava tudo bem.

Em geral, íamos a Broughton duas ou três vezes ao ano. Adela e Edith mantiveram sempre uma cordialidade recíproca, mas Charles passou a gostar muito da minha esposa e então acho que éramos hóspedes simpáticos. Gostávamos de ir lá, até porque levávamos um bebê a tiracolo e eram poucas as casas onde podíamos ficar sem parecer que trouxemos um minianarquista. Nosso filho, Hugo, era uns cinco meses mais velho do que Anne e isso propiciava atividades conjuntas, além de muita alegria às respectivas mães. Trata-se de um truísmo, mesmo assim verdadeiro que, quanto mais se conhecem as pessoas, menos importa se no começo gostava-se delas ou não. Eu sabia, pela amizade com Isabel Easton, que nada substitui uma história em comum e, depois de dez anos, minha esposa e lady Broughton se considerariam muito amigas, embora não se gostassem muito mais do que no começo.

Não é preciso dizer que, logo após a grande confusão, Edith mostrasse que não queria falar muito sobre suas decisões passadas ou presentes. Eu concordava plenamente, ela não precisava se preocupar. Sei muito bem como é chato ser depositário de intimidades passadas quando elas se tornam constrangimentos irrelevantes. Mas ela percebeu que eu era sensato e não tinha a menor vontade de desrespeitar a decisão.

Edith me testou algumas vezes para ver se, quando ficávamos a sós, eu ia comentar de Simon, Charles, o casamento ou, pior, o bebê. Porém jamais comentei nada e tenho o prazer de dizer que voltamos à nossa velha intimidade.

Na verdade, mesmo se ela tivesse perguntado alguma coisa, eu teria pouco a dizer sobre Simon. Não sei se a esposa ficou muito ansiosa para voltar quando teve a surpresa de saber que o grande amor dele tinha acabado, mas, quaisquer que fossem seus sentimentos, ela voltou. Vi-o uma vez, alguns meses depois, numa audição e ele contou que ia para Los Angeles “tentar a sorte”. Não foi surpresa, acontece muito com atores malsucedidos. O modelo Hollywood para atores ingleses é simples. Eles adoram ir para lá, todo mundo diz que tem muito trabalho, se eles aguentarem; depois eles contam que lá é ótimo, gastam todo o dinheiro que ganharam – e voltam para a Inglaterra. Isso costuma durar de dois a seis anos. Mas há sempre exceções e eu não estranharia se Simon fosse uma. Ele parecia ter todas as qualidades que os nativos de Hollywood gostam e nenhuma das que eles não gostam.

Talvez por saber que íamos ficar afastados por um tempo, ele perguntou de Edith. Resmunguei que estava bem, ele concordou com a cabeça.

– Que bom.

– Ótimo.

Ele balançou a cabeça e franziu o cenho.

– Sei lá. Ah, as mulheres!

Concordei, dei uma risada solidária e nos despedimos como amigos. Acho que essa reação dá uma ideia do sofrimento dele. Não creio que Charles fosse balançar a cabeça para um conhecido e dizer “ah, as mulheres!” como um personagem de comédia de costumes cuja esposa o largou. Imagino que se enroscaria em algum lugar escuro e nunca mais diria o nome dela, portanto podemos concluir que Edith terminou com o homem que mais a amou. Mesmo assim, o olhar de Simon não tinha maldade e deve-se lembrar ao menos que, depois de tudo acabado, ele não guardou mágoa. Já é alguma coisa.

Eu também nunca revelei a ansiedade de Isabel e David Easton, ou melhor, de David, de se relacionar com a família, de preferência com a ajuda dela. Aos poucos, essa ligação meio desconfortável também foi diminuindo. E tudo voltou ao normal bem rápido, o que é incrível. Os jornais deram apenas algumas notinhas – acho que o Standard e um dos tabloides, mais nada.

Ela só falou no assunto uma vez, talvez por eu nunca ter comentado. Três ou quatro anos após ela voltar ao seio familiar, nós dois andávamos pelos jardins de Broughton num domingo de verão, e nos aproximamos do roseiral onde, anos antes, eles tinham colocado nossas cadeiras para a filmagem. Os outros convidados do fim de semana estavam jogando croqué e fomos andando, ouvindo ao longe o barulho dos tacos nas bolas e da torcida. De repente, lembrei daquele distante dia em que Simon Russell, em sua camisa bufante, se deitou no gramado em toda a sua formosura, conversando com uma Edith mais jovem e mais ingênua. Claro que eu não disse nada e levei um susto quando, de repente, ela comentou o que eu estava pensando.

– Você ainda o vê? – perguntou.

Balancei a cabeça.

– Não, acho que ninguém o vê, ele foi para a Califórnia.

– Para fazer cinema?

– Bom, a ideia era essa. Ou, pelo menos, fazer um seriado de tevê.

– Já está fazendo algum?

– Ainda não, mas nunca se sabe.

– E a esposa?

– Foi com ele.

Edith concordou com a cabeça. Andamos pelo roseiral. O ar cálido tinha o aroma penetrante de algumas rosas vermelho-escuras, deviam ser da espécie Papa Meilland, com seu cheiro adocicado.

– Você nunca vai perguntar se estou feliz? – perguntou Edith, com um gesto provocativo da cabeça.

– Não.

– Bom, pois vou dizer. – Ela pegou uma rosa entreaberta e colocou na botoeira da minha camisa. – Pois estou muito feliz.

Não questionei. Fiquei contente por ela estar e continuar feliz. Isso é muito mais do que grande parte dos nomes que estão na minha agenda de telefones.

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