Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 20 de 23

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Esnobes

Vinte

 

 

NA MANHÃ SEGUINTE AO ALMOÇO com Edith, nossa campainha tocou quando eram apenas 8:15.

– Céus! Quem será? – perguntou Adela. Estávamos no nosso pequeno quarto, de onde se via o térreo, mas não a porta de entrada, à direita, para saber quem era a nossa visita. Àquela hora, só podia ser o carteiro; por isso, não me arrumei, só avisei que já ia atender. Abri a porta de cuecas, descabelado, e vi que não era o carteiro que, afinal de contas, devia estar acostumado a ser recebido assim. Era Edith Broughton.

– Olá – cumprimentei, um pouco impressionado.

Edith passou por mim e entrou.

– Preciso falar com você. – Jogou-se no sofá que separava a área de visitas da sala de jantar da modesta “entrada” do apartamento.

– Posso me arrumar antes? – perguntei.

Ela concordou com a cabeça e fui correndo para o quarto, avisar a surpresa Adela, que se vestia apressada, quem era o nosso madrugador.

Ela ficou pronta primeiro e, quando fui encontrar as duas, Edith já estava com uma xícara de café e uma torrada.

– E então? – perguntei. Não dava para fingir que era um jeito normal de continuar a conversa. Edith olhou para Adela, que se levantou.

– Melhor eu sair, não? Não se preocupem. Tenho uma papelada para ver...

Edith fez sinal para ela sentar de novo.

– Fique, não há segredo. De todo jeito, você ia ouvir de onde estivesse – ela disse, olhando nosso minúsculo apartamento. Adela sentou-se e nós dois aguardamos.

– Quero encontrar Charles – A voz era bem insípida, mas claro que ficamos muito interessados. Não entendi por que ela precisou ir lá para nos avisar tão cedo; mesmo assim, fiquei fascinado. Soube logo qual seria a minha parte.

– Quero que você consiga isso.

Adela me olhou e balançou de leve a cabeça. Minha esposa tinha um sacrossanto horror de se envolver nesse tipo de coisa. Seja quais forem as consequências, quem se envolve é sempre culpado. E, como ela me disse mais tarde, não queria criar inimizade com lady Uckfield, que seria o inevitável subproduto do plano de ação proposto. Era bom lembrar que Adela estava do lado de lady Uckfield em tudo e por tudo, jamais no de Edith.

– Por que precisa de mim? – perguntei, lívido.

– Liguei para Broughton ontem à noite para falar com Charles, Gugu atendeu e disse que ele não estava. Tenho certeza de que estava. Liguei também para o apartamento em Londres e a casa em Feltham, disseram que ele estava em Broughton. Eu sei. Ela não quer que eu fale com Charles.

Tudo isso servia apenas para confirmar a suspeita de Adela: disfarçadamente, era para nós dois ficarmos contra lady Uckfield.

– Não sei o que eu posso fazer.

– Eles vão deixar você falar com ele. Diga que quer convidá-lo para almoçar ou algo assim e, quando ele atender o telefone, diga que quero me encontrar com ele.

– Acho que não posso fazer isso – avisei. – Não me importo de telefonar (o que era mentira), mas, se lady Uckfield perguntar o que quero falar com Charles, eu digo. Ela não pode pensar que vai impedir para sempre o encontro de vocês.

– Para sempre, não. Por bastante tempo.

– Não creio – eu disse, embora acreditasse.

Na verdade, eu tinha certeza de que, nesse ponto, eu também estava do lado de lady Uckfield. Era simples. Edith tinha se casado com Charles sem amá-lo, para ter status. Depois, transformou esse status num fracasso total, largou-o, se desinteressou, causou um grande escândalo e o fez sofrer muito. Agora, lady Uckfield queria se livrar dela de uma vez por todas e, sinceramente, alguém poderia achar estranho?

– Será que Charles vai querer encontrar com você? – perguntou Adela. – Talvez tenha sido ele que não quis atender o telefone. – Isso, sem dúvida, devia ser levado em conta.

– Se ele não quer, que me diga.

Nós três ficamos em silêncio um tempo. Adela mordeu sua torrada e passou a comentar a coluna de Nigel Dempster.

– A coluna traz alguma novidade? – perguntei.

– A irmã de Sarah Carter casou-se com um pintor e os Langwell estão se divorciando, o que já sabíamos desde outubro.

– Você faz isso para mim? – insistiu Edith.

Adela e eu nos entreolhamos, mas recusei a mensagem que ela me passou. Nos últimos tempos, por mais que eu quisesse, não podia abandonar Edith ao próprio destino e apoiar a causa dos Broughton. O que quer que eu achasse dos erros e acertos da situação, não seria honroso largá-la. Eu era, primeiro e principalmente, amigo de Edith, o que até lady Uckfield tinha reconhecido.

– Faço – respondi. – Mas não vai ser a essa hora da manhã, nem com você ouvindo. Vá para casa, depois ligo para você.

Edith concordou com a cabeça e, após terminar o café, foi embora.

– Algo vai acontecer – concluiu Adela.

Liguei às 10:30 e pedi para falar com Charles. Apesar do que Edith disse, fiquei surpreso quando lady Uckfield atendeu.

– Olá, como vai você? – perguntou.

– Queria falar com Charles.

Ela foi muito gentil e entendeu logo.

– Acho que ele não está. Quer um recado?

Pensei em mentir, mas claro que ela sabia muito bem por que eu estava ligando e parecia bobo esconder.

– Estou com uma incumbência. E não sei se você vai aprovar.

– Tente. – A voz dela passou de reservada a gélida.

– Trata-se de Edith, ela quer se encontrar com Charles.

– Por quê?

– Não sei. – Era verdade.

– Para quê?

– Não sei, mas ela não vai responder logo a sua pergunta, não resolveu sobre o pedido de divórcio, quer se encontrar antes com ele.

– Você falou com ela, portanto?

– Sim, e ela disse que vai pensar. Mas acho que depende de se encontrar com Charles antes.

Fez-se uma pausa rápida e ouvi aquele estranho eco de conversas ao redor, pequenos nacos de estranhas e anônimas vidas sendo vividas a centenas de quilômetros de distância.

– Você tem compromisso hoje à tarde? Pode tomar chá comigo?

– Gostaria muito, mas não posso acrescentar nada ao que foi dito.

– Estarei no Ritz às quatro.

Achei ótimo ela não marcar no apartamento deles na Cadogan Square.

– Decerto Jojô vai com ela. Talvez Charles esteja lá – disse Adela e, por um instante, tive vontade de dar uma volta e tocar a campainha de Edith. Pensei melhor e concluí que primeiro eu tinha de ouvir o que lady Uckfield ia dizer.

Mas liguei para Edith.

– O que vai dizer para ela?

– Não sei. Que é perda de tempo tentar afastar vocês dois, acho. Se é isso que ela está fazendo.

– Claro que é isso.

– Quero dizer, sem que Charles saiba.

Edith ficou calada.

– De todo jeito, telefono para você à noite. – E desliguei.

* * *

Perguntei ao maître se lady Uckfield tinha chegado, e ele não ia perder uma oportunidade dessas.

– O cavalheiro procura a marquesa de Uckfield – avisou, alto, ao garçom que passava, e esse me acompanhou gentilmente até ela, com as pessoas virando a cabeça para me olhar. Ela estava numa mesa no salão mármore, à direita da grande fonte dourada. Sorriu, acenou com sua mãozinha e se levantou para me cumprimentar com seus gestos leves como os de um passarinho. O garçom trouxe o chá acrescentando inúmeros “madames” para lá e para cá, todos gentil e serenamente recebidos. Ela sorriu, alegre.

– Não é uma delícia?

– Para mim, é – respondi.

Ela não estava exatamente mais séria porém, de qualquer modo, mais direta. Estava também um pouco menos ofegante e, ao lembrar aquela cena na sala de visitas em Broughton, concluí que ela ia dizer algo pessoal e verdadeiro, e não uma mentira.

– Vou ser bem franca, pois acho que você pode ajudar.

– Fico, ao mesmo tempo, orgulhoso e inseguro – observei.

– Não quero que Charles se encontre com Edith.

– Foi o que pensei.

– Não é maldade minha, sinceramente. Porém acho que Charles está muito confuso e não quero que fique mais ainda.

– Lady Uckfield, sei muito bem o motivo pelo qual não gosta da ideia. Eu também não gosto. Você acha que o casamento foi um erro e preferia não prolongá-lo. Concordo. Mas o fato é que, no momento, Edith está casada com Charles e, se quer vê-lo, e desconfio de que ele também queira, não é melhor sairmos do caminho?

O rosto dela mostrou um toque de irritação.

– Por que ele quer vê-la?

– Porque ainda gosta dela.

Ela ficou calada um instante e escolheu um sanduichinho de ovo, que mordeu com prazer exagerado.

– Como são deliciosos! – exclamou, baixo, como para não deixarmos ninguém ouvir. Fitou-me com aqueles olhos penetrantes, felinos.

– Você acha que fui injusta com Edith.

Balancei a cabeça.

– Não, acho que não gosta dela, não foi tão injusta.

Ela concordou com a cabeça.

– Não gosto muito dela. Mas o problema não é esse.

– Qual é o problema?

– É que ela não faz Charles feliz. Não se trata de gostar dela ou não, por isso ou por aquilo. Eu odiava minha sogra, mesmo assim reconhecia que ela transformou Broughton e o maldito pai de Jojô num sucesso. Levei vinte anos para esquecê-la. Pensa que me importaria de apenas não gostar de Edith? Não sou criança.

– Não. – Tomei meu chá. Aquilo era realmente interessante. Por alguma razão, lady Uckfield tinha decidido abrir a cortina que costumava manter fechada e dizer o que pensava. Ela não tinha terminado.

– Quanto ao meu filho, Charles é um homem bom, gentil, simples. Melhor do que eu. Mas é menos... – ela hesitou, procurando o adjetivo que fosse fiel e adequado.

– Inteligente? – arrisquei.

Já que eu disse, ela deixou passar.

– Precisa de uma esposa que não só o valorize, mas que goste dele e do que ele faz. Goste da vida que têm. Ele não vai aceitar uma outra visão das coisas dentro da própria casa. Não podia se casar com uma cantora de ópera socialista e respeitá-la por pensar diferente dele. Charles não é assim.

– Acho que Edith também não – concordei.

– Edith casou-se achando que ia ter a vida que leu em romances e revistas. Pensou que seria só viajar, ver desfiles de moda e encontrar com Mick Jagger. Imaginou-se dando festas para a princesa Michael nas ilhas Maurício... – Deu de ombros. Fiquei impressionado por ela saber quem era Mick Jagger. Ela continuou:

– Não sei se alguém vive desse jeito. Pode ser. Só sei que a vida de Charles jamais será assim. A vida dele segue o calendário da fazenda. Nos próximos cinquenta anos ele vai caçar e cuidar da fazenda; cuidar da fazenda e caçar e, em julho, passar três semanas no exterior. Vai se preocupar com os arrendatários, discutir com o pároco e conseguir ajuda do governo para fazer cercas de arame no lado leste. Os amigos dele, com poucas exceções, também vão colocar telhado novo nas casas, cuidar da fazenda, caçar e tentar conseguir subvenções e isenções do governo. Esse é o futuro dele.

– Tem certeza de que não poderia ser o de Edith também?

– Você tem?

Lembrei de Edith suspirando de tédio na caçada em Broughton e ficando mal-humorada por enfrentar toda noite as histórias de Jojô e o charme de Gugu. Mas, claro, lady Uckfield não sabia o quão entediada e deprimida Edith estava em sua nova vida. Lembrei dela na festa de Fiona Grey, sendo exibida como uma novilha premiada. Lady Uckfield interpretou o meu silêncio como uma concordância e ficou mais animada.

– A culpa não é só dela. Até eu sei. Aquela mãe horrorosa encheu a cabeça dela de bobagens dos livros de Barbara Cartland. O que ela poderia fazer?

– Coitada da sra. Lavery – lastimei. Lady Uckfield estremeceu e fez uma pequena careta. Era essa a mulher com quem a sra. Lavery tinha planejado deliciosos almoços e visitas à chapeleira.

– Não sou esnobe – começou a dizer lady Uckfield, mas aquilo foi demais e tive de franzir ao menos uma sobrancelha. Ela quis reagir. – Não sou esnobe! Sei que as pessoas podem se casar por interesse e ter uma boa união. Tenho muitos amigos diferentes. Verdade! – Ela estava indignada. Acho que acreditava que estava dizendo a verdade.

– Quem? – perguntei.

Ela pensou um instante.

– Susan Curragh e Anne Melton. Gosto muito das duas. Quero ver se você consegue negar. – A mulher que ela citou era uma herdeira americana milionária, que estava casada com um ministro de segunda. A outra era filha de um milionário da indústria da moda, que se casou com um conde irlandês pobre e com isso colocou-o no mapa social. Eu não conhecia nenhuma das duas, mas fiquei preocupado com Edith, se lady Uckfield achava que esses eram bons exemplos de “fazer um bom casamento”.

– Claro que você não acredita, mas fui educada para não pensar em termos de “classes sociais”.

O interessante era que lady Uckfield podia dizer isso até para um detector de mentiras, mas era claro que ela havia sido educada para só pensar em classes sociais e foi bastante (se não totalmente) fiel ao que lhe ensinaram. Ela continuou.

– O importante não é a classe à qual Edith pertence, seja lá o que isso signifique, mas que ela não gosta de obrigações. Ela e sua terrível mãe são “damas inglesas”. Querem almoçar em restaurantes italianos, ir a bailes de caridade e, no inverno, voar para um lugar com sol. Depois que deixa de ser novidade, não é fácil comandar uma mansão como Broughton, ou até Feltham. É só cuidar de papelada e participar de comitês. É discutir com inspetores do Departamento de Herança Inglesa que detestam você simplesmente porque mora lá e fazem tudo para dificultar a sua vida. É encaminhar pedidos aos departamentos governamentais e economizar na calefação. Essas mansões são ótimas para se hospedar, até as “damas inglesas“ gostam. Mas são difíceis, muito difíceis, de manter. Edith não podia gostar nem se realizar com essa vida. Não é culpa dela, mas não podia. E, para ser bem franca – ela fez uma pausa, quase indecisa, com medo de estar fornecendo muita munição –, não sei se ela gosta de Charles.

Lembrei daquele distante jantar de noivado em que Caroline Chase ficou sentada à minha esquerda. “Aqui é muito chato... exposições de flores o verão inteiro, encanamentos congelados o inverno inteiro. Ouvi até o eco da voz fria e dura dela. Acha que Edith está preparada para tudo isso?” Lembrei também de como Edith estava vitoriosa naquele jantar, de como atravessou a piscina e ganhou a taça.

– Se é assim, qual o perigo de deixar os dois se encontrarem?

– Porque acho que, depois de morar oito meses em Ebury Street com um ator desempregado, ela lembrou por que Charles era atraente ou, melhor dizendo, por que achou Charles uma possibilidade interessante, em primeiro lugar. Decerto quer voltar.

– E você é contra? – Lastimei um pouco que Simon fosse descrito como “um ator desempregado” quando ele, coitado, se considerava no auge do sucesso. Mas não era hora de criticar.

Ela falou com clareza de estadista.

– Sou contra, com cada fibra do meu ser. – Creio que alguma parte de mim se surpreendeu com aquela honestidade. Eu estava acostumado com a ojeriza ao divórcio, que é um dos comportamentos obrigatórios da alta roda. Embora, no fundo, eles não quisessem nem saber se alguém é divorciado ou não, só com quem está casado no momento. Mas lady Uckfield era da velha guarda e eu tinha certeza de que a árvore genealógica dela e de Jojô não tinha nenhum divórcio. Ela concordou com a cabeça.

– Você estranha que eu prefira que o escândalo continue. Compreendo. Preferia ficar com o pouco que resta dessa história, em vez de remendar as coisas e correr o risco de um estrondo maior daqui a cinco anos, quando Edith se entediar outra vez, ou encontrar um homem tão rico quanto Charles que a deixe menos entediada. A essa altura, pode haver filhos e prefiro que meus netos sejam criados pelo pai e a mãe, em Broughton.

– Sei – concordei. Não podia negar que o raciocínio dela era bem lógico.

– Então, pode me ajudar? – Ela pegou mais um sanduíche e serviu mais chá nas nossas xícaras. Tinha sido sincera comigo, eu também tinha de ser com ela.

– Não, lady Uckfield, não posso.

Ela parou de servir o chá, pasma. Deve ter achado que me concedeu um enorme privilégio revelando tanta coisa, portanto eu tinha de atender aos interesses dela. Vi o desapontamento e expliquei.

– Não é por discordar de você. Aliás, não discordo. É porque nada vai impedir Edith de encontrar Charles. E acho que não tenho o menor direito de intervir.

Ela concordou sem muita convicção, num movimento ágil e rápido que escancarou sua dor.

– Você deve estar dizendo que também não tenho o direito.

Balancei a cabeça.

– Você é mãe de Charles, tem direito de intervir, sim. Não sei se conseguirá, mas tem o direito de tentar.

Achei que a conversa tinha terminado e me levantei. Era pouco provável que lady Uckfield e eu voltássemos a ficar à vontade na presença um do outro. Ela tinha largado muitas das habituais defesas, não ia esquecer rápido que foi vista naquele estado. Para piorar tudo, ela começou a lacrimejar e, sob o meu olhar apavorado, uma solitária lágrima, impressionada por sair de um duto onde estava presa há vinte anos, começou a escorrer pelo rosto cuidadosamente empoado.

Ela se levantou e segurou no meu braço.

– Não ajude Edith. – A voz era urgente, é verdade, mas sem aquele tom pueril de não-conte-para-papai, aquela pseudopremência a que eu estava acostumado. Era um grito de desespero. – Não a incentive. É só o que peço. Por ela e também por ele, os dois estarão perdidos.

Concordei com a cabeça, garanti o mais que pude e agradeci o chá; ela se recompôs na minha frente. Assim, quando dobrei na altura do arco que me levaria à entrada da Arlington Street, ela acenou para mim tão composta como se estivesse no camarote real, em Ascot. Só sei que fui bem claro quanto ao que ia dizer para Edith.

* * *

– Tem razão. Ela não quer que você converse com ele.

– Eu disse.

– Mesmo assim, ela não pode impedir.

– Ela vai mandá-lo para o exterior de novo. Para os Estados Unidos. Para feiras de compra e venda de cavalos, ou algo assim. Vai combinar com os amigos dela. Tem amigos por todo canto.

– Até parece uma operação Watergate.

Ela deu uma risadinha seca.

– Você pensa que está brincando.

– De todo jeito, Charles não pode ficar nos Estados Unidos para sempre. Basta você continuar insistindo. Tenho a impressão de que, quando você conseguir encontrá-lo, ele vai aceitar. Garanto. Não tenha pressa.

– Mas não tenho tempo – disse Edith.

Alguma coisa no tom da voz dela me impediu de pedir explicação e confesso que resolvi tirar a frase da cabeça. Não queria tocar no assunto e, acho, tinha de contar para Adela, achando talvez que a situação fosse caso de tudo ou nada. Se fosse tudo, por que arriscar a colocar a notícia no ar? Se fosse nada, por que não esquecer?

Ficamos calados um instante e Edith deve ter notado que falou mais do que pretendia. Devia estar avaliando como tocar no assunto sem falar nele outra vez.

– Então, o que você pretende fazer? – perguntei.

– Não sei – ela respondeu.