Esnobes
Dois
EDITH LAVERY ERA FILHA DE UM BEM-SUCEDIDO contador juramentado que, por sua vez, era neto de um imigrante judeu que chegou à Inglaterra em 1905 fugindo dos violentos pogroms do falecido czar Nicolau II, a quem o pai de Edith jamais perdoou. Eu nunca soube direito se o nome original da família era Levy ou Levin. De qualquer forma, o retratista eduardiano Sir John Lavery inspirou a mudança do nome, o que na época pareceu uma boa ideia e devia ser mesmo. Quando perguntavam aos Lavery se tinham parentesco com o pintor, eles respondiam “por alto, creio”, e assim se conectavam com o establishment sem fazer qualquer reivindicação que pudesse ser contestada. Quando alguém pergunta a um inglês se ele conhece fulano e sicrano, costuma dizer “sim, conheço-os, mas eles não vão se lembrar de mim”, ou então “bom, conheço-os, mas não pessoalmente”. Na verdade, não conhecem.
Isso se deve à grande necessidade que tinham de dar a boa impressão de que a Inglaterra (ou melhor, a Inglaterra das classes alta e média alta) é tecida por um milhão de fios de seda invisíveis que formam uma brilhante comunidade de distinção e graça que exclui as demais. Não foge muito à verdade, pois, no geral, eles se entendem. Para um inglês ou inglesa de certo nível social, responder “bom, eu os conheço, mas eles não se lembram” significa “não os conheço”.
Por mais que a sra. Lavery, mãe de Edith, gostasse do marido, ela se considerava um pássaro de plumagem diferente da dele. Era filha de um coronel do exército indiano, mas o detalhe importante era que a avó paterna tinha sido sobrinha-neta de um baronete das finanças. Embora fosse simpática, a sra. Lavery era de um esnobismo que beirava a loucura e portanto sua leve ligação com o nível mais baixo da escala hereditária dava-lhe a confortadora impressão de pertencer ao círculo mais fechado da distinção e dos privilégios onde seu pobre marido seria sempre um estranho. Nem por isso o sr. Lavery tinha mágoa da esposa. Nenhuma. Pelo contrário, se orgulhava dela. Afinal, ela era uma mulher alta e bonita, que sabia se vestir, e ele gostava do fato de que a expressão noblesse oblige (uma das preferidas da sra. Lavery) pudesse fazer alguma referência à casa dele.
Eles moravam num grande apartamento em Elm Park Gardens, quase na parte ruim de Chelsea, o que não agradava muito à sra. Lavery. Mas não era Fulham nem, muito menos, Battersea, bairros que só há pouco tempo tinham começado a aparecer no mapa mental da sra. Lavery. Ela ainda sentia a emoção pelo novo, como uma intrépida exploradora se afastando cada vez mais da civilização, por isso sempre aceitava convites para jantar na casa dos genros ou noras das amigas. Ouvia atenta quando esses casais comentavam que valia a pena comprar um suporte para colocar as torradas quentes; que as crianças estavam gostando de morar em Tooting depois daquele apertado apartamento na Marloes Road. Para a sra. Lavery, tudo isso era grego. Ela se sentia no inferno até atravessar para o outro lado do rio, seu Estige pessoal, que separava para sempre o submundo da vida real.
Os Lavery não eram ricos, mas também não eram pobres e, como só tiveram uma filha, nunca precisaram economizar. Edith frequentou uma creche elegante, depois foi para Benenden (“Não, não foi por causa da princesa real. Nós simplesmente demos uma olhada e achamos que era o colégio mais interessante.”) A sra. Lavery gostaria de que a filha tivesse chegado à universidade mas, quando os resultados das provas de Edith não foram bons (ao menos para os lugares onde gostariam de matriculá-la), a sra. Lavery não se desapontou. A grande meta dela sempre foi fazer a filha debutar na sociedade.
Stella Lavery não teve festa de debutante, o que a deixava bastante constrangida. Procurava esconder o fato rindo muito ao contar como se divertiu quando jovem e, se fosse preciso detalhar, suspirava que o pai tinha sofrido um baque financeiro na década de 1930 (assim, fazia uma ligação entre ela e a queda de Wall Street, com ecos de Scott Fitzgerald e Gatsby). Ou então, misturando épocas, ela culpava a guerra. Na verdade, nos seus piores momentos era obrigada a admitir para si mesma que na década de 1950, quando o mundo era socialmente mais fechado, eram mais definidas as linhas que separavam quem era da sociedade e quem não era. A família de Stella Lavery não era. Por isso, sentia uma profunda e secreta inveja das amigas que conheceu quando elas eram debutantes. Uma inveja de roer as entranhas. Chegava a detestar até quando a incluíam nas lembranças que envolviam Henrietta Tiarks ou Miranda Smiley, como se ela, Stella Lavery, tivesse “debutado” embora soubessem (e ela sabia que sabiam) que não tinha. Por tudo isso, ela decidiu desde sempre que tais sombras não iriam toldar a vida de sua amada Edith. (Nome, aliás, escolhido por dar uma leve toque de uma Inglaterra mais tranquila e melhor. A escolha talvez tenha sido um tanto proposital, dando a entender que Edith foi alguma linda integrante da família que viveu nos tempos eduardianos. Não foi.) De todo jeito, Edith devia ser apresentada logo às rodas elegantes. Na década de 1980, a cerimônia de apresentação à corte – o que poderia ter causado um problema – tinha ficado no passado distante; portanto, só o que a sra. Lavery precisava era convencer o marido e a filha de que frequentar a sociedade seria tempo e dinheiro bem gastos.
Ela não precisou insistir muito com os dois. Edith não tinha planos concretos para a vida adulta e parecia uma boa ideia atrasar por um ano a decisão, indo a uma festa atrás da outra. Já o sr. Lavery gostava de imaginar a esposa e a filha frequentando o beau monde e ficou muito satisfeito de pagar por isso. As ligações muito bem urdidas pela sra. Lavery fizeram Edith entrar na lista de Peter Townend para os chás de abertura da temporada e a boa aparência da moça granjeou-lhe um lugar na passarela do Berkeley Dress Show. Depois, tudo seguiu em mar calmo. A sra. Lavery compareceu aos almoços das mães, fez as malas com os vestidos para a filha usar nos bailes nas casas de campo e se divertiu bastante, no geral. Edith também gostou muito.
A única ressalva feita pela sra. Lavery foi que, quando a temporada terminou, quando acabou o último baile de caridade de inverno e as notas da revista Tatler estavam coladas num caderno de recortes ao lado dos convites, as coisas pareceram continuar as mesmas. Claro, Edith tinha se divertido com muitas filhas de diversos nobres (inclusive um duque, o que era muito emocionante); aliás, todas as moças compareceram ao coquetel oferecido por Edith no salão do Claridge’s (que foi uma das noites mais felizes da sra. Lavery), mas as amigas que manteve depois dos bailes eram muito parecidas com as moças que ela trazia para casa depois da escola, filhas de prósperos homens de negócio da classe média alta. Exatamente do mesmo nível de Edith, na verdade. A sra. Lavery não gostou. Pois atribuía o próprio fracasso em atingir os escalões superiores da sociedade londrina (que preferia chamar de “a corte”) por não ter tido uma apresentação adequada. A sra. Lavery achava que a filha se sairia melhor. Talvez o entusiasmo a impedisse de ver uma verdade simples: a temporada tinha recebido a filha dela de braços abertos, o que mostrava que, na década de 1980, a instituição não era mais tão exclusiva quanto na juventude dela.
Edith notou o desapontamento da mãe mas, embora também apreciasse dinheiro e posição social (como veríamos), não sabia direito como comentar esses detalhes com as herdeiras das grandes famílias. Para começar, todas pareciam se conhecer desde o berço e ela achava que era difícil conseguir agradá-las morando num apartamento em Elm Park Gardens. Acabou apenas cumprimentando a maioria das moças de sua idade e voltou para um canto muito parecido com aquele onde estava quando saiu do colégio.
Eu soube de tudo isso assim que conheci Edith na casa dos Easton, pois constava que ela era secretária numa imobiliária em Milner Street, perto do apartamento onde eu morava. Passei então a vê-la na loja de departamentos Peter Jones; comendo um sanduíche num dos bares das redondezas; comprando uma garrafinha de leite no Partridges; aos poucos, quase sem perceber, fomos nos aproximando. Um dia, eu a vi saindo da General Trading Company mais ou menos à uma da tarde e convidei-a para almoçar.
– Tem visto Isabel? – perguntei, enquanto nos apertávamos numa banqueta daqueles pequenos restaurantes italianos onde os garçons berram.
– Jantei com eles na semana passada.
– Está tudo bem?
Sim. Eles estavam enfrentando um problema da filha na escola. Isabel tinha descoberto que a filha era disléxica. Tive pena do diretor.
– Ela perguntou por você. Eu disse que o tinha visto – acrescentou Edith.
Comentei que Isabel ainda não tinha me perdoado por não contar que conhecia Charles Broughton. Edith riu. Foi então que fiquei sabendo da existência da mãe de Edith. Perguntei se a mãe soubera da nossa visita a Broughton. Eu estava com Charles na cabeça porque naquela manhã o tinha visto numa dessas reportagens idiotas sobre solteiros que são bons partidos e Charles encabeçava a lista. Fiquei impressionado com os diversos trunfos dele.
– Nem pensar. Não quero que mamãe fique imaginando coisas.
– Ela deve ser bem sensível.
– É, sim. Percebe as coisas no ar.
– E você não quer se casar?
Edith me olhou como se eu estivesse louco.
– Claro que quero.
– Não quer fazer carreira? Pensei que todas as mulheres hoje quisessem se profissionalizar.
Não sei por que escorreguei nesse pomposo antifeminismo que não tem nada a ver com o que penso.
– Bom, não quero passar o resto da vida atendendo telefone numa imobiliária, se é o que você quis dizer.
Fui duramente criticado.
– Não foi isso que quis dizer – avisei.
Edith me olhou com paciência como se tivesse de me ensinar a tabuada.
– Estou com 27 anos. Não tenho qualificações e, pior, nenhum talento especial. E as coisas de que gosto exigem uma renda mínima de 80 mil libras anuais. Quando meu pai morrer, vai deixar todo o dinheiro para minha mãe e não creio que nenhum dos dois saia de cena antes de 2030. O que você sugere que eu faça?
Não sei por que emudeci frente a essa praticidade tipo Anita Loos que parecia exalar da rosinha na minha frente, com sua tiara de Alice no País das Maravilhas prendendo os cabelos e seu comportado conjunto azul-marinho.
– Portanto, quer se casar com um homem rico? – insisti.
Edith me olhou intrigada. Talvez tivesse achado que falou muito, talvez conferisse se a estava julgando e, portanto, se ela devia prosseguir ou não. A conclusão deve ter sido positiva, pois sempre achei que quem sabe logo o que quer da vida, tem mais chance de não sofrer da inevitável doença moderna da crise de meia-idade.
– Não necessariamente – ela respondeu, com certo tom defensivo na voz. – Só não consigo me ver muito feliz casada com um homem pobre.
– Entendo – concordei.
Após esse almoço, ficamos sem nos ver por algum tempo. Fui escalado no elenco de uma daquelas minisséries americanas que ninguém vê e tive de passar alguns meses em Paris e até em Varsóvia. O trabalho incluiu a experiência deprimente de passar o Natal e Ano-Novo num hotel fora da Inglaterra, onde servem queijo no café da manhã e todos os pães são dormidos. Quando voltei para Londres, em maio, não achava que tivesse aprimorado muito a minha arte. Mas me sentia um pouco melhor do que quando fui. Assim que cheguei em casa, recebi um cartão de Isabel convidando para participar de um grupo que ia ao segundo dia das corridas de Ascot. Ela decerto tinha me perdoado enquanto estive fora. Pensei em recusar, já que não tinha reservado lugar na Tribuna Real, mas minha mãe fez isso por mim (e assim confirmou que era contra o trabalho e a vida que escolhi). Hoje, nesses tempos bem menos encantadores, ela não poderia reservar lugar por outra pessoa, mesmo sendo filho; mas na época, podia. Na verdade, desde a minha juventude ela havia assumido essa tarefa todos os anos e não queria abrir mão disso.
– Você vai se arrepender de não ir a um evento tão divertido – dizia ela, sempre que eu avisava que não pretendia ir. Dessa vez, ela estava com razão. Aceitei o convite de Isabel abrindo o meio sorriso que meus lábios sempre dão frente à perspectiva de passar um dia em Ascot.
– Como tantas instituições conhecidas, a fama da Tribuna Real de Ascot tem pouca ou nenhuma relação com a realidade. O próprio nome Tribuna Real (para não falar na abjeta cobertura que a imprensa de segunda classe faz) supõe príncipes e duquesas, mulheres lindas e famosas, milionários das finanças circulando pelos gramados impecáveis em trajes da haute couture. De tudo isso, só posso garantir a qualidade do gramado. A grande maioria dos presentes à tribuna parece homens de negócio de meia-idade, moradores dos subúrbios mais abonados de Londres. Vêm acompanhados das esposas, que usam roupas inadequadas, geralmente, de chiffon. Mas o que torna diferente e divertida essa disparidade entre sonho e realidade é o apoio incondicional que os participantes dão à imaginação. Mesmo aqueles que são da sociedade, ou melhor, que pertencem à classe alta ou média alta têm um prazer comovedor de se arrumar e se comportar como se estivessem no evento elegante e exclusivo que os jornais comentam. As esposas também usam roupas inadequadas, embora mais elegantes, e ficam se pavoneando para todo lado cumprimentando-se como se estivessem numa festa nos jardins do palácio Ranelagh em 1770. Esses trabalhadores se dão ao luxo de, por um ou dois dias por ano, fingir que fazem parte de uma extinta classe ociosa daquele mundo que eles veneram e admiram e do qual fariam parte (o que, por regra, não fariam) se ele ainda existisse. E mais: que esse mundo está vivo e muito bem, nos arredores de Windsor. As pretensões deles são claras e evidentes, daí serem também muito interessantes – para mim, pelo menos. Aprecio muito passar um dia em Ascot.
David veio me buscar em seu Volvo, entrei no carro e lá estavam, como tínhamos combinado, Edith e mais um casal, os Rattray. Creio que Simon Rattray trabalhava na Strutt and Parker e falou muito em caças a raposas. A esposa dele, Venetia, falou pouco nos filhos e menos ainda do resto. Entramos pela rodovia M-4, passando pelo Windsor Great Park até chegarmos finalmente ao hipódromo e ao local meio escondido onde David estacionava o carro. Isso era uma fonte inesgotável de aborrecimento para ele, por não poder usar o estacionamento principal e sempre reclamava quando Isabel mostrava as placas de orientação. Nunca me incomodei com isso, tinha passado a fazer parte de Ascot (como papai reclamando das luzes da árvore em todos os Natais, uma das poucas lembranças que tenho da infância). Afinal, eu já tinha ido com eles lá muitas vezes.
Dali a pouco, o carro estava estacionado na vaga numerada e abrimos o lanche. Era evidente que Edith não teve qualquer participação nele, já que Isabel e Venetia assumiram o controle, tagarelando, rindo, cortando e misturando os acepipes até o banquete ficar à nossa frente em toda a sua glória. Os homens e Edith ficaram olhando, do conforto de suas cadeiras dobráveis, segurando taças de champanhe de plástico. Como sempre, todo aquele preparativo foi meio apressado, já que havia pouco tempo para comer. Tínhamos acabado de arrumar nossas cadeiras em volta da mesa cambaleante quando Isabel olhou o relógio e deu o aviso que era tão previsível quanto a preocupação de David com o estacionamento.
– Temos de ir logo, faltam vinte e cinco minutos para as duas horas.
David concordou e serviu-se dos morangos. Ninguém precisava de explicação. Fazia parte desse dia como num ritual de missa, subir a escada da Tribuna a tempo de ver a família real chegando de Windsor. E chegar cedo para pegar um bom lugar. Edith olhou para mim, fez uma careta e, obedientes, nós dois engolimos nossos cafés, prendemos nossos crachás e fomos.
À entrada, os funcionários se ocupavam de separar alhos de bugalhos. Dois coitados foram impedidos de entrar, não sei se por estarem com o crachá errado ou com a roupa errada. Edith apertou o meu braço dando mais um de seus sorrisos secretos. Olhei:
– Qual é a graça?
Ela negou com a cabeça.
– Nada.
– Ah, bom.
– Consigo sempre entrar em lugares onde os outros são barrados.
Eu ri.
– Você pode achar isso, muita gente acha. Mas é meio vulgar admitir.
– Ah, meu caro, então devo ser muito vulgar. Espero que isso não me impeça de entrar.
– Acho que não vai impedir – desejei.
O interessante nesse diálogo foi a sinceridade. Edith estava o arquétipo perfeito da patricinha estilo Sloane e comecei a ver que ela possuía uma desconcertante consciência das verdades de sua vida e posição, embora essas garotas costumem ter um falso desconhecimento. Não que os sentimentos dela a diferençassem. Os ingleses de todas as classes são viciados em exclusividade. Ponha três ingleses numa sala e eles vão inventar uma regra que impeça um quarto de entrar. O que diferençava Edith dos demais era que a maioria das pessoas (e, certamente, todos os caretas) não querem ter consciência disso. Qualquer insinuação de que é melhor ser convidado do que pagar entrada; entrar por uma porta exclusiva; ser recebido num lugar onde os outros não entram fará os aristocratas (ou os pretensos aristocratas) fazerem um olhar vago e uma estudada incompreensão. A dama experiente decerto fará um pequeno movimento de sobrancelhas para mostrar que a própria ideia já prova falta de classe. Claro que a falsidade de tudo isso impressiona mas, como sempre ocorre com essas pessoas, obedecer às regras com atenção exige um certo respeito.
Nós provavelmente nos atrasamos, pois os outros já estavam em seus lugares e acenaram para nós das arquibancadas, que lotavam rápido. Um rumor ao longe anunciava que as carruagens estavam chegando e os lacaios e mordomos de quem quer que fosse correram para abrir os portões do hipódromo. Edith me cutucou e fez sinal para Isabel quando a primeira carruagem com Sua Majestade e algum obscuro figurão de um lugar rico em petróleo passou. Como todos os homens, tirei meu chapéu com uma animação totalmente sincera; nem por isso deixei de notar a cara de Isabel. Era o olhar parado, vítreo, de um coelho frente a uma cobra. Estava hipnotizada, extasiada. Para participar da festa de Ascot, ela (como Pervaneh, em Hassan), teria assistido ao Desfile da Morte Procrastinada. Ou, pelo menos, teria pensado nisso. O que apenas mostra, acho eu, que apesar de todo o desprezo das classes finas pelo mundo das celebridades, também são suscetíveis à fantasia, quando exibida de maneira palatável.
Na verdade, o desfile naquele ano foi meio frustrante. O Príncipe de Gales, que Isabel considerava o máximo da perfeição, não compareceu, nem os demais príncipes. A única realeza jovem a aparecer foi Zara Phillips, toda empetecada numa roupa que poderia ser usada na praia. Edith ficou fazendo comentários irreverentes no meu ouvido, o que incomodou Isabel e uma mulher de cabelo azul ao lado dela. Para não estragar a festa das duas, resolvemos sair dali e foi então que ouvi alguém perguntar, bem atrás de mim:
– Olá, como vai?
Olhei em volta e dei de cara com Charles Broughton. Dessa vez não houve confusão com nomes, a vantagem da Tribuna é que todo mundo tem de usar um crachá. Assim não há problema de apresentações, nem de fingir que as pessoas já se conhecem. Basta uma rápida olhada na lapela ou no peito do desconhecido e tudo se resolve. Esse crachá devia ser obrigatório em todos os eventos sociais. O de Charles proclamava Conde Broughton na inconfundível letra redonda das educadas moças do escritório de Ascot.
– Olá – respondi. – Lembra de Edith Lavery? – Usei o hábito inglês de apresentar uma pessoa da qual a outra certamente não se lembra, mas no caso quem se enganou fui eu.
– Claro que sim. Você é aquela que vive muito bem em Londres.
– Bom, creio que nem tanto.
Edith sorriu e, por iniciativa própria ou a convite de Charles, deu o braço para ele.
Os Eaton e os Rattray estavam de olho em nós e a surpresa deles foi quase palpável quando sugeri uma visita às cocheiras. Isso deve parecer esquisito e mostrar uma enorme insegurança minha, mas fiquei sem graça com a ansiedade da pobre Isabel e a ambição de David, que pareciam quase prejudiciais de tão fortes. Felizmente, Charles (que, aliás, era muito educado) cumprimentou Isabel, de longe, o que a dispensou de se aproximar mas, pelo menos, mostrou que ele sabia que tinham sido apresentados. David conteve a agitação e nós três fomos para as cocheiras onde os cavalos estavam desfilando antes do primeiro páreo.
Claro que Charles demonstrou seus vastos conhecimentos sobre equinos e dali a pouco discorria animado sobre boletos e silhueta de corpo, o que não me interessava nem um pouco, mas me diverti observando Edith olhar para ele com uma atenção fascinada, encantadora. É uma técnica que essas mulheres parecem adquirir no berço. Ela usava um simples vestido de linho azul-claro (acho que o nome correto da cor é eau-de-nil), com um pequeno chapéu pill-box levemente inclinado para a frente. Dava uma impressão fútil mas, comparado às matronas de Weybridge com seus babados de organza, ficava descontraído e chique. A roupa acrescentava um toque de humor e graça ao rosto dela que, a essa altura, era muito sedutor. Ela prestava atenção no cartão de apostas e anotava ao lado dos nomes dos cavalos as observações de Charles, com o lápis dele. Fiquei observando os dois se olharem e deve ter sido a primeira vez que notei que ele podia estar interessado nela. Não que isso fosse grande surpresa. Ela possuía todos os atributos certos. Era bonita e inteligente e, como ela mesma disse, vivia muito bem. Claro que não era da turma dele, mas circulava com eles e falava como eles. É crendice popular achar que há muita diferença de educação e comportamento entre a classe média alta e a alta. Na verdade, no dia a dia eles são quase iguais em tudo. Claro que o círculo da aristocracia é bem menor e seus integrantes têm sempre a impressão de serem sócios de um clube. Daí a tendência a demonstrar segurança com uma sem-cerimônia inadequada que não incomoda a eles, mas irrita quase todos os demais. À parte isso (e sem-cerimônia se aprende fácil), não há muito o que dizer deles socialmente. Sim, estava claro que Edith Lavery era a garota para Charles.
Assistimos a um ou dois páreos, mas senti que Edith, da maneira mais delicada possível, tentava se livrar de mim e assim, quando Charles obviamente convidou-a para tomar chá no White’s, pedi licença e fui procurar os outros. Edith me deu um olhar agradecido e os dois saíram de braços dados.
Encontrei Isabel e David num dos bares que serviam champanhe atrás da tribuna principal, bebendo licor Pimm’s quente. O gelo tinha acabado.
– Onde está Edith?
– Foi ao White’s com Charles.
David pareceu contrariado. Coitado. Nunca conseguiu ir ao White’s em Ascot, nem na antiga tenda ou, pelo que sei, na nova, mais espaçosa. Ele daria um dedo para ir lá.
– Que ótimo. Eu bem que gostaria de tomar um chá – rosnou, entredentes.
– Acho que os dois iam encontrar com os amigos de Charles.
– Certamente.
Já Isabel não disse nada, continuou bebericando o líquido morno com quatro fatias de pepino flutuando.
– Combinei de encontrarmos no carro após o segundo e último páreo.
– Ótimo – repetiu David, sério, e ficamos em silêncio. Mesmo assim, Isabel ainda parecia mais interessada do que irritada, olhando para seu drinque insosso.
Quando chegamos lá, Edith já estava encostada no carro e percebi na hora que o dia tinha sido maravilhoso.
– Onde está Charles? – perguntei.
Ela fez sinal para a tribuna principal.
– Foi encontrar as pessoas com quem vai sair esta noite. Ele vem às corridas amanhã e sexta.
– Boa sorte para ele.
– Você gostou? – ela perguntou.
– Gostei, mas não tanto quanto você.
Ela riu e calou-se; David então apareceu e abriu a porta do carro. Não comentou nada a respeito de Charles e estava claramente irritado com Edith, daí que não foi num comunicado geral, mas num cochicho, que ela contou que Charles convidou-a para jantar na terça-feira seguinte. Claro que ela não conseguia manter segredo disso.