Esnobes
Dezenove
ERA UMA TAREFA DIFÍCIL. De um lado, prometi dar o recado de lady Uckfield para Edith aceitar o divórcio imediatamente; de outro, tive certeza absoluta, quando fomos a Broughton, de que Charles continuava apaixonado pela esposa.
– Então, o que você vai dizer? – perguntou Adela no dia em que combinei almoçar com Edith. Naturalmente, contei tudo para minha esposa. Não tinha jurado guardar segredo e, mesmo se tivesse, só se deve excluir o/a consorte em casos excepcionais. Nada é mais irritante do que viver na intimidade com um boca de siri.
– Vou dar o recado de lady Uckfield.
– Não me diga que vai ajudar aquela miserável Clarissa Marlowe?
Balancei a cabeça.
– Não, vou ficar fora disso. Vou dizer que os pais de Charles querem dar um fim à situação, só isso.
Adela avaliou.
– Diga que lady Uckfield quer que termine. É mais verdade. – Levando em conta a situação, era justo.
Combinei de encontrar Edith no Caprice. O lugar, sobretudo no almoço, tinha um clima arrumado, de negócios, com um toque de glamour; era, portanto, o cenário adequado e descontraído para a nossa conversa. Ao chegar, vi que me deram uma mesa no fundo do restaurante, longe do bar. Foi por acaso, mas não podia ser mais conveniente. Pedi uma taça de champanhe para me animar e aguardei minha convidada.
Edith gostou da minha escolha. Simon andava trabalhando muito e ganhando muito bem, mas, com a hipoteca da casa, a família e o monte de coisas que um ator tem de pagar quando as coisas voltam a engrenar, ele só podia ir a lugares no West End se fosse à custa de alguém. Edith podia gastar, já que não recebeu nenhuma recomendação de Charles, mas não queria usar o dinheiro dele em supérfluos. Seguiu isso à risca, não seria muito correto sair com Simon para comer e beber e depois pagar com o dinheiro do marido. O pior era não ter seu dinheiro próprio, o que ela passou a estranhar muito, já que não era mais adolescente fazia tempo. Mas gostava de uma desculpa para se vestir bem e sair.
Nós nos cumprimentamos com beijos, conversamos e pedimos os pratos, sabendo que tínhamos muito a falar e, por mútuo acordo, esperamos primeiro os acepipes: frango bang-bang para mim e entrada quente para ela. O garçom nos serviu o vinho e retirou-se, tivemos então um tempinho para falar das nossas coisas.
– Estivemos com David e Isabel no fim de semana passado. Na verdade, ficamos hospedados com eles – comecei.
– Como eles estão?
– Muito bem. David está bastante ocupado, embora eu nunca saiba com o que exatamente. – Fiz uma pausa e acrescentei: – Nós quatro fomos tomar um drinque em Broughton.
Edith deu uma garfada em uma massa fina recheada de alguma coisa.
– David deve ter gostado.
– Nem tanto. Grudou em Diana Bohun, tentando impressioná-la e acho que não conseguiu.
– Imagino que não. Ela outro dia fingiu não me conhecer na Peter Jones. – Edith continuou a comer e beber com satisfação, sem ajudar em nada o cumprimento da minha missão. Dei um suspiro e prossegui, firme como um soldado.
– Lady Uckfield estava lá.
– Foi o que imaginei. Como vai a velha “Gugu” querida? – Claro que ela estava sendo irônica, embora não muito amarga. Tinha mais uma vez pronunciado o cansativo apelido entre aspas, como fazia logo que se casou. E agora havia o reconhecimento de uma barreira, de uma grande separação entre a vida dela e a da ex-sogra.
– Acho que vai muito bem. Claro que ela quis falar de você.
– Não vejo por que o “claro”. Aliás, estou bem surpresa. Gugu não é de comentar problemas da família com ninguém. Você devia ficar muito orgulhoso.
– Ela decerto achou que eu podia ser útil.
Edith concordou com a cabeça. A ficha estava caindo e ela começou a entender que aquela conversa podia entrar em águas mais profundas do que ela estava preparada.
– Ah – exclamou.
– Ela me disse que você pretende esperar os dois anos. – Edith me olhou sem interesse. – Eles não querem. Querem que Charles se divorcie agora, já. Ela quer saber o que você acha.
Falei, e senti um certo alívio. As palavras saíram. Edith parou de comer e colocou o garfo delicadamente no prato. Tomou o vinho como se quisesse degustar cada gota. Deve ter sido porque tinha chegado a hora. O fim do casamento. Não sei até onde ela realmente aceitava que era o resultado do romance com Simon. Mas devo dizer que, quando falou, estava bem calma.
– Ou seja, querem que Charles peça divórcio por adultério. Citando Simon.
Concordei com a cabeça.
– Creio que sim. Não sei se hoje é assim, mas creio que a ideia é essa. Não entramos em detalhes. Para ele pedir o divórcio, precisa de um motivo, ou não é mais assim? Não sei direito.
– Não acho muito cavalheiresco da parte dele.
– Também não foi muito senhorial você largar dele para ficar com um ator casado.
Ela concordou com a cabeça e parou de comer.
– Então, o que você quer? O que devo dizer?
– Acho que eles querem saber se você não vai se opor, se o divórcio for pedido agora. Não é do seu interesse, mas a data não altera a parte financeira.
Ela me olhou com tristeza.
– Não quero dinheiro. Pelo menos, não muito. Menos do que Charles me daria amanhã, se eu pedisse.
– Eu sei, eu disse isso a lady Uckfield.
– De todo modo, não é uma proposta generosa – ela disse, após uma pausa. – Hoje, não há mais “culpado” num divórcio. Financeiramente, não faz diferença. Não sabia? – Balancei a cabeça. – Bom, pois aposto que “Gugu” sabe.
Comemos em silêncio por algum tempo. O garçom voltou, levou nossos pratos e trouxe bolinhos de salmão e uma tigela de pommes allumettes. O tema continuou como um centro de mesa atrapalhando. Edith falou no personagem sobre o qual nós dois estávamos pensando.
– O que Charles acha de tudo isso? Imagino que estivesse lá. Você falou com ele?
– Sim, falei. – Minha resposta foi correta em tese, mas falsa na prática, pois Charles não estava lá quando lady Uckfield contou seus planos, que foi a pergunta de Edith. Eu duvidava um pouco de que ele deixasse a mãe falar tudo aquilo. Corrigi-me, oprimido por meu engano não intencional:
– Na verdade, Charles não estava presente durante a conversa com a mãe, mas voltamos a Broughton no dia seguinte.
– E aí?
– Ele disse que aceita o que você quiser. Seja o que for.
– Isso é mais parecido com ele. Coitadinho de Charles – disse Edith. – Como ele estava?
Eu temia essa pergunta. Se pudesse, eu diria que ele estava ótimo e lindo. Começava a concordar com lady Uckfield que era hora de acabar com aquela malsucedida tentativa de miscigenação de classes. O problema era que ele não estava ótimo e lindo.
– É, acho que tudo isso não fez muito bem a ele – confessei.
– Não. Clarissa estava lá? – ela perguntou, servindo-se de mais batatas.
Concordei com a cabeça e Edith calou-se. Eu ia dizer para ela não acreditar nos boatos, incrementados apenas pelas ambições de lady Uckfield e nada mais. Mas eu fiquei quieto. O que adiantaria? Edith precisava liberar Charles e por que adiar a decisão? Passamos o resto do almoço falando em Simon, na vida de artista, em Isabel e na compra de um apartamento, mas, quando estávamos nos despedindo, Edith voltou ao assunto.
– Vou pensar. Claro que nós dois sabemos que farei o que eles pediram, mas preciso pensar. Ligo para você – disse, sorrindo de leve.
* * *
Edith Broughton não foi para casa na hora, ou melhor, para Ebury Street. Era um dia seco e ensolarado de primavera, quando tudo parece claro como um recorte em papel, frio e brilhante como uma joia. Ela estava bem agasalhada e assim, depois de passar pela frente do Ritz, virou à esquerda no Green Park. Caminhou pela alameda, passou pela mansão Wimborne, pelo esplendor da mansão Spencer adornada de estátuas, pela magnífico estilo italianato da mansão Bridgewater até parar e olhar a mansão Lancaster, com suas pilastras douradas, construída e habitada por muitos anos pelos poderosos duques de Sutherland. As duquesas, uma após a outra, dominaram a sociedade londrina, convidando os grandes e os notáveis das várias épocas a subirem a enorme escada dourada que levava ao maior de todos os imensos salões londrinos onde eles se cortejariam no poder e na opulência.
Edith concluiu com certa surpresa que gostaria de viver naquele mundo mais antigo e mais simples, de quando aquelas mansões dominavam a capital. Quando os Guest, os Spencer, os Egerton e os Leveson-Gower viviam suas ordenadas vidas naquelas mansões exageradas, em vez de elas serem, como agora, sede de organizações de caridade, departamentos governamentais, ou residência de magnatas gregos da navegação. Não pensou nem por um instante que ela, Edith Lavery, teria muita dificuldade para chegar nem que fosse na beira mais distante dessa elite dourada em qualquer época que não a nossa. Mesmo assim, viu-se de saia de crinolina, segura da própria felicidade e, portanto, feliz. E ficou surpresa de ver que suas fantasias sobre o velho mundo anterior à Primeira Guerra eram parecidas com as de sua futura vida como lady Broughton, quando estava imersa na banheira, pouco antes do casamento. As coisas iam ser tão fáceis, os moradores da aldeia e os arrendatários da propriedade iam adorá-la, a família ia bendizer o dia que ela apareceu na vida deles! Ficou sorrindo, pensativa, enquanto sua imagem onírica de grande força da sociedade do século XXI se desfazia na imaginação, envolta em neblina, dando adeus, chorosa.
Ao pensar nisso, sua tumultuada mente achou, primeiro, que a mãe estava enganada e a mídia estava certa; que todos aqueles sonhos e ambições eram démodés, ninguém hoje quer títulos, status e herança; hoje as pessoas se fazem por si mesmas, pelo talento, pela criatividade. Mas, ao ver passarem ali pelo parque os funcionários de escritórios, os varredores de rua, os candidatos a empregos, ficou horrorizada com a desonestidade dos atuais gurus da mídia. Se alguma daquelas pessoas ali pudesse, não trocaria de lugar com Charles? Será que os gurus da telinha não elogiavam a meritocracia apenas por ser o único sistema de classes em que aquelas pessoas poderiam subir na vida? Mesmo se a riqueza e o status herdados não tivessem qualquer valor moral, mesmo se eles encarnassem o sonho que não ousa dizer seu nome, ainda eram o sonho de muita gente. E ela, sem pensar, tinha jogado fora.
Refletiu de novo, meio intrigada, sobre sua suposta infelicidade com Charles. Por que, exatamente, era tão infeliz? Ao pensar no tempo que viveram juntos, lembrou daqueles lindos aposentos em Broughton, dos criados, dos jardins e do trabalho que ela fazia na aldeia. Os únicos contratempos que conseguiu lembrar foram, por exemplo, colocar os apetrechos de caça no carro e ficar atrás de Charles numa caçada com chuva. Será que isso era tão ruim? E ao pensar em Charles, o próprio, foi com grande afeto. Lembrou dele xingando outros motoristas na estrada, ou peidando no sono, e tudo isso trouxe uma espécie de calorosa nostalgia. A lembrança não causou qualquer alívio. Ao menos se causasse. Ficou preocupada com a solidão dele. Penou ao pensar que ele estava sofrendo. Continuou se perguntando qual seria aquela satisfação pessoal que causou tanta ruptura. Seria de origem sexual? Estaria ela admitindo que fez tudo aquilo por causa do pau de Simon? Ou foi só por tédio? Se fosse, ela agora estava menos entediada na Ebury Street, conversando com amigas pelo telefone, ou encontrando-as para almoçar, do que quando fazia seus comitês na biblioteca de Broughton?
Afastou-se da mansão Lancaster e seguiu devagar em direção ao Victory Arch, com o palácio Buckingham à esquerda. Tremulando em seu mastro, o Pavilhão Real anunciava que a rainha estava em Londres. Os turistas grudavam nas grades do palácio, atentos como se esperassem vislumbrar alguma alteza real passar por um corredor, ou sair para dar uma descansada. Ao caminhar, Edith pensou novamente no mistério do poder herdado. Jojô, Gugu e Charles seriam convidados para o próximo baile na corte, evento de inimaginável glamour para aqueles turistas japoneses com suas máquinas fotográficas; para os que vieram do norte do país com seus horrendos anoraques, gotas de fortes cores sintéticas na fachada neogeorgiana cinzenta e fria. Qualquer um deles transformaria um convite para ir ao palácio numa longa história, que repetiriam sem parar, e ela não quis participar desse conto de fadas porque... por quê, mesmo? Para ser feliz?
O fato era que ultimamente Edith vinha avaliando se “felicidade pessoal” bastava, caso fosse isso que Simon estivesse lhe oferecendo. Como jamais conseguiu separar os seus valores dos da mãe, começava a sentir falta daquela satisfação proporcionada pela vida em Broughton. Percebeu que essas considerações não eram recomendáveis e defendeu-se, pragmática: como poderia desfrutar das boas coisas da vida se não as tivesse? E vinha perdendo a esperança de Simon obter algum eventual sucesso. Edith agora entendia mais do mundo artístico do que quando conheceu Simon, por isso sabia que os seriados que fazia agora e os que faria depois eram o máximo que podia esperar. Por mais que os dois desejassem, não iam ficar de mãos dadas, muito ansiosos, aguardando o nome dos premiados na cerimônia do Oscar. Então, como seria a vida dela? Uma casa nos arredores de Londres e, de vez em quando, uma entrevista num jornal vespertino? Esperava-se mesmo que ela desse vinte anos de apoio emocional a um semifracasso para com isso provar que era gente? Muitos acham que só a conquista pessoal traz a glória, mas o que dizer dos sem talento, ou sem qualquer dom especial? Estarão tão errados assim por quererem ficar entre os abençoados? Pobre Edith, não sabia tecer nem fiar, mas estava, por isso, proibida de desejar uma vida boa? Era tão vergonhoso assim? Ela balançou a cabeça, irritada. No fundo, tais pensamentos começavam a lhe dizer que, apesar de sua escolha temerária, sua ideia de mundo e do lugar que tinha nele não mudou nada. Ouviu de novo, com amargura, as acusações de pais e amigos quando largou o casamento, acusações de que ela não conseguia se adaptar à nova vida porque no corpo da rebelde batia o coração da filhinha da sra. Lavery. E ficou amargurada, pois começava a desconfiar de que as acusações eram certas.
Ao seguir em direção ao Victory Arch, viu a luz vespertina se refletir nas janelas da mansão Apsley, onde ela e Charles foram convidados para uma festa no verão anterior, e esse foi um dos primeiros compromissos que teve de cancelar por causa da separação. Lembrou, impressionada (aquilo estava começando a ficar muito estranho), que tinha trocado um lugar de destaque no mundo dos mundanos para virar companheira de um desconhecido, de profissão geralmente menosprezada. E não foi a primeira vez que parou para pensar em tudo de extraordinário que ocorreu em sua vida nesse último ano.
* * *
Quando chegou ao apartamento, Simon estava lá. Tomava chá e assistia a um filme antigo. Quando estava trabalhando, ele ficava tranquilo, disposto a relaxar, calmo. Só quando estava desempregado é que andava para todo lado em Londres, marcando almoços com pessoas das quais não gostava e ligando para o agente três vezes ao dia.
Edith dependurou o casaco na entrada.
– Tem uma xícara de chá para mim?
Ele balançou o caneco no ar. – Esse chá é de saquinho mas, se você quiser, a água ainda está quente.
Ele tinha tirado os tênis, que foram jogados no tapete em frente à lareira. O casaco tinha sido atirado numa poltrona e a sala tinha livros e roteiros por toda parte. Edith ficou à porta, olhando a cena como se fosse um espectador estrangeiro. Nossa vida hoje. Era assim que ela vivia hoje, com sofás manchados, de lã rústica dos anos 1960; gravuras de flores imensas, sem assinatura, com molduras coloridas, pelas paredes; com uma mesa de centro de acrílico e uma lareira a gás. Era assim que estava vivendo agora. Teve certeza absoluta de que não queria entrar na sala.
Simon, sentindo certa estranheza entre os dois, levantou-se e se aproximou dela na porta. Segurou-a pela cintura e apertou-a, encostou a boca na dela. Na noite anterior, eles tinham ido a um restaurante indiano e ela ainda sentia o cheiro das especiarias no hálito dele. Apertou-a e ela notou que já estava excitado.
– Foi bom o almoço? – ele perguntou.
Ela concordou com a cabeça.
– Gugu mandou-o falar comigo. Ele e Adela passaram o final de semana em Sussex. Foram a Broughton e claro que Gugu o puxou de lado para conversar. O almoço foi ideia dela.
– E então?
– Querem apressar o divórcio. Gugu quer usar você como causa. – Ela fez uma pausa e sentiu que ele recuou.
– Meu Deus! – exclamou Simon, sem saber o que pensar. Em parte, gostou. Passaram por sua cabeça mais fotos na página três inteira do Daily Mail, porém junto com elas veio um certo pânico. Era como se ele estivesse num metrô que corria, leve e descontrolado, rumo ao desconhecido.
– Ela fala sério?
– Creio que sim, mas fique calmo. Estão enganados, acho que não é mais obrigatório divórcio ter uma causa. O problema é que eles insistem.
– O que você disse a ele?
Edith olhou bem o lindo homem que estava na sua frente. Ele tinha parado com a mania de seduzir toda e qualquer pessoa, de dar piscadelas, e, embora não tivesse consciência disso, ficou melhor. Um pouco de seriedade dava charme aos seus luminosos olhos azuis, meio escondidos atrás dos cachos soltos e louros.
– Eu disse que vou pensar.
– Você pode impedir que eles façam isso?
– Se eu quiser, posso.
– Como?
– Digo para Charles cancelar o pedido.
Simon riu.
– Só isso basta?
Edith olhou-o com frieza. Como ele era provinciano! Não entendia nada de homens como Charles! Ela foi quase arrogante ao defender o marido rejeitado para o amante escolhido.
– Basta.
Simon tinha parado de rir mas, de repente, ele pareceu irremediavelmente irritante. Ela não ia entrar nas conversas de sempre a respeito de todos os artistas estarem mal em qualquer filme a que os dois estivessem assistindo; como os colegas de trabalho dele, os atores, eram invejosos; como o câmera era burro.
– Vou tomar banho – ela disse, soltando-se dele.
Simon se jogou de novo no sofá e voltou a olhar para a tela.
– Você está muito mal-humorada, vou ser compreensivo e culpar a fase do mês – ele disse.
Ela não respondeu e foi para o banheiro no subsolo, que ficava depois do escuro quartinho deles. Tentaram melhorar o ambiente colocando um espelho e papel de parede estampado de enormes papoulas para clarear os dois aposentos, mas serviu apenas para aumentar a escuridão soturna. Abriu a torneira, tirou a roupa e entrou no chuveiro. Tinha notado que, desde que entrou no parque, estava em um estado mental estranho, irreal. Com controle absoluto do movimento dos braços e pernas, da água batendo na pele. Se sentia grande, quase bêbada, embora tivesse bebido muito pouco no almoço. Uma vaga apreensão parecia intumescer seu estômago e cada terminal nervoso espetava no corpo inteiro. Finalmente, descobriu o que a estava intrigando. Simon tinha razão. Era o período do mês. Ela era pontual como um relógio.
Estava atrasada cinco dias.