Esnobes
Quinze
POIS EDITH PARECIA BASTANTE ANSIOSA de me encontrar, “desde que você não venha me dar conselhos”. Eu não devia ter me surpreendido. Freud usa um termo especial para essa “compulsão de revelar”, que todos nós temos. Ela estava louca para comentar detalhes com alguém que conhecesse todos os personagens e, como esperava um pouco de compaixão do ouvinte, eu devia ser um deles. Resolvemos nos encontrar num pequeno restaurante barato e animado na Milner Street que, ora, não era mais assim há muito tempo, vítima dos empreendedores; costumávamos ir lá de vez em quando, na época em que ela trabalhava na imobiliária. Quando cheguei, ela já estava numa mesa de canto. Usava um lenço amarrado na cabeça que cobria um pouco a testa. Foi tudo muito animado.
– Charles pediu para você fazer isso? – ela quis saber. Concordei, pois achei que sim. – Como vai ele?
– O que você acha?
– Coitadinho.
– É mesmo.
Ela franziu o nariz várias vezes.
– Não faça eu parecer uma fera.
– Mas você é uma fera. – Fomos interrompidos, talvez na hora certa, pela garçonete. Era evidente que Edith estava adorando aquela aventura toda.
– Como vai Simon? – perguntei.
– Ah, muito bem. Está almoçando com a nova agente. Ela acha que ele é o sucessor natural de Simon McCorkindale.
– Que bom, não?
– Muito bom – disse ela, agitada, com um olhar sério. – De todo jeito, é bem melhor que o agente anterior, que achava que ele tinha sorte de conseguir um papel.
– Ele está com trabalho?
– Vai fazer uma peça em Bromley. Uma nova montagem de Rebeca, a mulher inesquecível. Pretendem montar num teatro do West End.
– Edith, mais fácil fazer frio no inferno do que Rebeca vir para Londres depois de ficar no Bromley.
– Bom, foi o que disseram a ele.
– Os produtores dizem essas coisas por dois motivos. Primeiro, para você querer participar da peça e, segundo, para você dizer algo menos patético aos amigos quando perguntarem o que está fazendo. Não se esqueça de que sou do mundo artístico.
Ela concordou de leve com a cabeça.
– Deve ter sido por isso que Charles pediu para você falar comigo. Você vai tirar o glacê do bolo e mostrar a massa sem graça que tem por baixo. Ele desistiu de me lembrar das glórias de Broughton embora eu posso esperar isso quando Gugu entrar em cena. – Ela fingiu um arrepio de pavor.
Eu me senti desprezado. – Não sei por que não devo lembrar você das glórias de Broughton – comentei. Ela deu de ombros. De repente, irritei-me com o descaso dela. Mais do que ninguém, eu sabia os esforços que fez para agarrar Charles e não estava disposto a vê-la no papel de uma aristocrata blasé que chega ao fim de um casamento arranjado.
– Pare com isso – falei e isso afastou a garçonete que trazia nossos primeiros pratos. – Você adorou o casamento. Adorou cada minuto. Todas aquelas vendedoras de loja servis e aqueles cabeleireiros bajuladores. Todos aqueles, “sim, madame” e “não, madame”. Saiba que vai sentir falta.
Ela balançou a cabeça.
– Não vou. Mais que qualquer pessoa, você sabe que não fui criada assim.
– Exatamente por isso vai sentir muita falta. – Suspirei. – Temo que esteja prestes a chegar a essa terrível conclusão.
– Você não teme nada, parece estar adorando. – Ela tomou um gole de sua Perrier enquanto os pratos eram colocados na nossa frente. – E se Simon virar um ator famoso? Como vai ser? As pessoas não têm mais interesse em conhecer um ator famoso do que um velho lorde chato?
Notei então que Edith, totalmente envolvida em algo parecido com amor, tinha cometido dois grandes erros de cálculo. Primeiro, ao comparar os méritos da aristocracia com os da fama, achou que as vantagens que teria como amante de um ator eram similares às que tinha como condessa. Nada estava mais longe da verdade. Pois a esposa de um conde é, afinal de contas, uma condessa. Quando alguém a procura, não é só por considerá-la um atalho para chegar ao marido. E mais: se a família do marido ainda mantém suas propriedades, como ocorria com os Broughton, o nobre latifundiário concede à esposa um minirreino onde ela pode ser a rainha. Já a mulher de um ator famoso é... a mulher dele. Nada mais. Se as pessoas a tratam bem, costuma ser apenas para ficarem nas boas graças do marido. O ator não tem terras onde ela possa reinar; o reino dele é o estúdio ou o palco, onde não há espaço para ela e onde, nas raras vezes em que aparece lá, atrapalha, pois é uma não profissional no meio de pessoas trabalhando. Ela não entende as piadas que o marido faz com os colegas e só se interessa pelo agente dele porque é uma forma de controlar o marido. Em jantares, a opinião dela apenas irrita os demais profissionais. Por fim, e o pior de tudo, enquanto uma divorciada de nobre enfrenta o mundo e a procura por um novo marido com um título embaçado, mas autêntico, a ex-mulher de um ator famoso volta ao começo do jogo. Como tantas ex-mulheres tiveram de aprender em Hollywood.
O segundo erro de cálculo de Edith foi mais simples. A comparação era falsa. Charles era um lorde, mas Simon não era um ator famoso. Nem tinha a possibilidade de se tornar, na minha opinião. Achei que eu estava ficando cáustico.
– Por que tanto otimismo com as chances de Simon?
– Você hoje está muito ácido. – Ela me olhou com uma expressão de súplica e suavizei um pouco. – Estou otimista pelo simples fato de gostar dele. Talvez ele não mereça, mas gosto dele. É isso. Você não quer que eu renegue meu primeiro sentimento sincero, não é?
Uma parte de mim teve vontade de gritar “quero” no ouvido idiota dela, mas vi que o momento não pedia isso. Pobre Edith. Devia ter razão em dizer que a paixão por Simon era seu primeiro sentimento sincero. Exatamente por isso, ela não sabia o que ia passar. Não sabia que, um ano depois, por melhor que fosse, o sexo não conseguiria amenizar a vida que os dois estariam levando. E eu sabia a ambição que havia por baixo do rosto plácido de Edith. A moderna psicologia fala sempre no perigo de reprimir o instinto sexual. Tenho a impressão de que também é perigoso soltar as rédeas do sexo e reprimir os desejos concretos. Au fond, Edith era a filha ambiciosa de uma mãe ambiciosa. Sem ter consciência disso, começou a defender sua escolha achando que Simon um dia seria famoso e rico. Ela já se imaginava numa estreia de gala, usando estola de pele de raposa (ou do correspondente glamoroso que esteja na moda nesses tempos ecológicos), jogando um beijo para a multidão que fica na porta e entrando numa enorme limusine escoltada por motocicletas.
– Cara Edith – tentei um tom mais suave. – Não estou aqui para fazer palestra sobre moral. Só quero que saiba que a possibilidade de Simon lhe dar algo parecido com a vida que você tinha no casamento é mais ou menos nenhuma.
– Ah, muito bem – disse Edith.
Esgotamos o assunto. Passamos o resto do almoço comentando vários temas. Ao entrar no mundo artístico, Edith tinha encontrado várias pessoas que eu conhecia, portanto tínhamos uma nova área para usar nossa maldade. À saída, ela perguntou como estava Adela. Respondi que estava bem.
– Ela é totalmente contra a minha separação, não?
– Bom, seria difícil ela ser totalmente a favor. Alguém é?
– Ela devia ter se casado com Charles. Teria ficado com ele para o melhor e para o pior.
– Devo condená-la por isso?
Ela sorriu e mexeu nos meus cabelos.
– Você ganha o seu pão no caos e fez um casamento convencional. Já eu, me prendi às convenções. Vai me culpar por querer um pouco de caos?
Nós nos despedimos amigavelmente. Liguei para Charles, que ficou agradecido e tive a impressão de que mais resignado também. De todo jeito, cerca de uma semana depois a notícia da separação chegou aos jornais e assim acabou a possibilidade de não haver alarde. No café da manhã, Adela colocou a coluna de Nigel Dempster na minha frente e fiquei olhando a foto de Edith, sorridente e peituda. Havia também uma foto de Charles mais sério e outra completamente “produzida” de Simon, que devia ter sido feita em algum seriado de tevê. Pelas fotos e pelo título (“A condessa e o artista”) ficava claro que o colunista já tinha escolhido o lado em que estava. Em favor dele, devo dizer que tanto o pragmatismo quanto a decência pareciam (por uma vez) estar do mesmo lado e eu achava que pouca gente defenderia Edith.
A notícia fazia um relato mais ou menos preciso do encontro dos dois em Broughton e tinha uma frase muito digna da esposa de Simon, que mostrava ser uma boa pessoa.
– Que coisa! Que idiotas! – disse Adela que, curiosamente, era bem impiedosa com essas coisas.
Não sei por que ela ficava tão irritada quando as pessoas colocavam o coração acima da cabeça. Afinal de contas, quis se casar comigo, o que a mãe achou uma maluquice absoluta.
– Por que se irrita assim? Eu acho tudo isso lastimável – comentei.
– Lastimável em relação a Charles e a essa pobre mulher com os filhos. Quanto a eles, nada a lastimar, não passam de destruidores de lares.
Depois que o colunista abriu as comportas dando a notícia, Edith foi, como era de esperar, arrasada por aqueles mesmos jornalistas que se esforçaram tanto para cair nas graças dela quando ia se casar, poucos meses antes. O momento em que isso ocorreu também não ajudou. Era a época de desencanto com o governo de John Major, quando o Novo Partido Trabalhador fazia a dança dos sete véus para um eleitorado cada vez mais fascinado e assim essa história de grande devassidão correspondeu perfeitamente ao sentimento do público. Houve críticas por parte de Lynda Lee-Potter pela direita e total menosprezo da Private Eye pela esquerda. A história do sucesso de Edith como mulher que se fez sozinha foi substituída pela de Edith, a alpinista social e sua ambição e avidez que seriam reflexo da sociedade cruel que a sra. Tatcher tinha criado. Como o escândalo dos Hamilton ou o divórcio dos Spencer, ficou logo evidente que os fatos e as pessoas tinham deixado de ter muito importância, só interessava de que lado os jornais ficavam. Como era de se esperar, tudo isso foi um pesadelo para os Uckfield, que eram do tempo em que o nome de uma mulher de respeito só aparecia nos jornais em três ocasiões: ao nascer, ao se casar e ao morrer. Ver a nora ser criticada em manchetes de colunas era como ser despido e chicoteado em praça pública e, se isso foi ruim para eles, foi terrível para Charles. Parecia meio sem lógica, já que a imprensa se preparava para a Blairocracia que estava a caminho, mas ela achou que Charles (apesar de ser um nobre sem importância) era inocente, talvez por não haver outro jeito de contar a história. Apesar disso, foi um martírio para Charles ver a esposa adúltera ser tripudiada em jornais e revistas. Quanto mais os repórteres ligavam para Broughton, insistindo para ele contar “o seu lado” da história, mais ele se sentia invadido e desrespeitado. Na verdade, seu horror por escândalos não era fingido, era profundamente verdadeiro, e eis que se encontrava no meio de um. Estava sendo castigado sem ter feito nada de errado. Era essa, pelo menos, a visão que ele tinha de todo aquele horrível episódio, acho que com razão.
Depois que o circo ficou armado por algumas semanas, eis que circulou a notícia de que fomos convidados para jantar na casa de uma atriz que tinha feito há pouco tempo a mãe de Simon num thriller na tevê. Achei que certamente os dois amantes estariam lá.
Adela ficou bem calma quando falei no convite.
– Bom, não vou sair da sala onde ela estiver, nem cortá-la em pedacinhos, se é com isso que você está preocupado.
– Não estou preocupado. Estou apenas avisando que eles podem estar lá. Acho que é melhor não assumir um lado publicamente.
– Pode ficar tranquilo – ela disse, desanimada. – Mas não vou dar beijinhos e desejar muitas felicidades – completou, dando uma olhada no espelho e procurando o batom, muito apressada.
Pois acertei, Edith e Simon foram convidados para o jantar. Edith me disse depois que não ficou com muita vontade de ir, tinham saído todas as noites desde que o escândalo estourou, mas Simon insistiu. Ele tinha aquela ilusão muito comum em atores frustrados de que é bom “ser visto” em lugares. Na verdade, bom é ter trabalho. Aparecer em festas é secundário. Mas a amante dele era notícia e certamente ele queria tirar algum proveito. Para ser sincero e depois de tanto tempo, desconfio de que Simon gostaria que as coisas tivessem acontecido sem ela largar Charles. Mas, sendo assim, ele gostaria de lucrar com a publicidade.
Simon Russell era desses atores cujo começo parecia apontar firme para um estrelato que, infelizmente, não veio com o passar dos anos. No começo da carreira, ele esteve num seriado em que contracenou com uma artista muito popular, mas o programa não teve sucesso. Depois, recebeu um bom papel numa série de Hollywood, mas que não teve bilheteria. Aos poucos, os holofotes foram passando para aqueles homens mais novos, mais jovens e mais louros que pareciam surgir em quantidades inesgotáveis. Ele era bom (ou bom o suficiente)e, como eu já disse, lindo (principalmente numa boa foto), e tudo poderia continuar acontecendo, mas, a essa altura da nossa história, não havia tempo a perder. E, de repente, sua vida pessoal virou notícia. Por causa de Edith.
Quanto à esposa e aos filhos, não seria correto dizer que Simon não se preocupava com eles. Preocupava-se. Como dava. Deirdre tinha feito tudo por ele e ele gostava muito dos filhos, mas as coisas tinham piorado muito nos últimos anos e ficado terrivelmente monótonas. Além disso, quando os dois eram vistos juntos (ocorreu algumas vezes no início das filmagens em Broughton), ficava óbvio que Deirdre não o via mais como uma figura romântica; tinha começado a tratá-lo como uma espécie de menino grande e teimoso. Simon queria ser adorado, mas só conseguiu uma mulher que o mandava não deixar comida no prato. Claro que eu não sabia o quanto Edith iria adorá-lo. Ou por quanto tempo.
* * *
– Querida, por favor... temos de ir... – Simon não notava, mas tinha passado a tratar Edith num tom adulador, misto de conquistador barato com caixeiro-viajante. – Não quero ser chato, mas você precisa lembrar que eu trabalho para me sustentar. Não sou Charles, que fica dando ordens aqui e acolá na fazenda. Tenho de aparecer. Tenho de lembrar às pessoas que existo.
Ela estava na pequena penteadeira no horroroso quarto deles, olhando bem para seu reflexo no espelho, de cenho franzido. Era chato mesmo. Edith estava odiando a sua má fama. Cada vez que uma “amiga” ligava para dizer que mais um jornalista tinha arrasado com ela (“Achei que devia avisar, querida, antes que você leia” diria a voz maligna), era mais um golpe. Queria ser famosa, mas aquela fama que dava status e charme, não essa horrorosa lavação de roupa suja. Chegou a ter pena dos sogros e achar que Charles e os criados deviam esconder os jornais para os dois não lerem. Pobre Charles... como estaria lidando com tudo aquilo, coitadinho? E aquelas festas horrorosas que Simon insistia em levá-la. Será que era tão importante assim ficar conversando com aqueles estranhos emissários de outro planeta? Tinha sido uma Broughton por tempo suficiente para chegar à conclusão (o que foi fácil, aliás) de que a turma de Simon era parecida com uma piada: era boa para animar uma festa, mas não para todo santo dia.
– Por quê? – ela perguntou.
Simon olhou-a pintar o rosto com esmero e arte. Sabia o que ela estava pensando, mas não ligava muito. Se ela queria voltar para seu mundo anterior, em vez de passar o tempo todo no dele, bom, por ele não tinha problema. Na verdade, estava ficando um pouquinho ansioso para conhecer alguns integrantes da turma dela. Tinha sido apresentado a alguns ricaços chiques, mas não era o que esperava dela. Enquanto ela sonhava em acompanhar a entrevista coletiva dele e ir até o trailer dele nos estúdios da Universal, ele se via de terno de tweed, empunhando uma arma de caça, convidado bem-vindo nas demais mansões na região de Broughton, onde seduziria outras grandes damas e seria recebido por outras grandes famílias. Achava que a ligação com Edith propiciaria tudo isso. Ele não sabia, talvez porque ela também não, que o grand monde estava prestes a fechar as portas para a pobre Edith. A partir de então, ela estaria condenada a ter como amigas algumas divorciadas de herdeiros que completavam a pensão alimentícia vendendo joias horrorosas, ou escrevendo colunas de fofocas para revistas de circulação gratuita que ninguém lê.
Ela passou o rímel nos olhos.
– Aliás, quem é essa mulher de hoje?
– Fiona Grey.
– Nunca ouvi falar. Eu conheço?
– Acho que não, mas você sabe quem é. Era a moça no filme sobre o vigarista. Que aparece quando ele cai do trem. Passou na tevê na semana passada. Michael Redgrave era o policial.
– Também nunca ouvi falar nele.
Simon estranhou.
– Ela deve ter cem anos – acrescentou Edith.
– Tem uns setenta.
Na verdade, Simon estava muito lisonjeado com o convite da srta. Grey. Pois esse era o outro lado de sua ambição esquizofrênica. Uma parte dele queria que Edith o colocasse no mundo da “alta”; a outra parte, em quase total contradição, queria ser levado a sério como ator, pelo tipo de ator que os demais também levam a sério, como era o caso de Fiona Grey. Quando jovem, ela havia interpretado Julieta ao lado de Gielgud e lady Teazle ao lado de Olivier. Atualmente, quando aparecia na tevê, era uma espécie de acontecimento (numa série dirigida por Peter Hall ou com roteiro de Melvyn Bragg) e era sempre elogiada com carinho nas autobiografias de grandes artistas ingleses.
O folclore das artes dramáticas costuma dizer que todos são iguais, não há classes, quando na verdade existe um rígido sistema. Só não há classes porque o sistema tem valores diferentes do mundo exterior. Não dão a menor importância ao fato de alguém ser bem-nascido, o que vale é o sucesso. Não o simples sucesso, mas o tipo certo. Simon Russell era bem consciente de que, mesmo quando teve um gostinho da fama, nunca fez um trabalho que fosse “valorizado” por seus colegas do Sindicato de Atores e, no fundo, sofria com isso.
Quando um ator diz numa entrevista na tevê que não se incomoda com a crítica e só quer a aprovação do público, está mentindo. Poucos atores dão alguma importância à opinião do público, comparada à dos críticos e à de seus pares. Os atores querem ser valorizados e ter status fora dos palcos. Se isso for acompanhado pela veneração do público, pela fama e pelo dinheiro, melhor ainda. No centro de tudo há um grupinho fechado que tem o domínio incontestável do trabalho “correto”, grupo esse do qual Simon sempre quis participar. Os atores e diretores, os roteiristas e cenógrafos do grupinho fazem muito sucesso. Podem vincular seus nomes a inúmeras causas, embora o comportamento deles em entrevistas e as roupas que usam possam (certamente) parecer um veto à distinção. Mas o fato é que formam uma elite cujos privilégios podem ser comparados aos da noblesse d’épée na corte de Versalhes. Simon ansiava entrar para esse time de ouro que recebe sempre boas resenhas na Time Out e estar sempre entre os premiados do BAFTA.
Suas pretensões eram irreais. Nessa determinada noite, por exemplo, só foi convidado porque seu nome estava nos jornais. Apesar de seus altissonantes princípios, esses atores são como seus confrades de Hollywood: adoram aparecer ao lado de gente famosa. Se almoçam com políticos do Partido Trabalhista, querem que sejam políticos importantes; se participam de uma passeata, gostam de ficar ao lado de Ian McKellen ou Anita Roddick, não de algum obscuro manifestante vindo de Harlow. A srta. Grey convidou Simon porque ele estava nos jornais, mas não tinha a menor ideia de que ele tinha talento ou não.
* * *
A festa era numa casa em Hampstead, onde Edith teve a impressão de levar um ano para chegar e que, vista da rua, não parecia merecer tanto esforço. Tinha sido projetada como moradia operária na década de 1890, mas a arrumação interna havia sido trocada por um mar de pisos de madeira lustrosos e luzes indiretas. Grupos animados discutiam na grande sala de visitas que ficava depois da saleta de entrada, mas o barulho vinha mesmo era da cozinha no andar inferior. Quando eles chegaram, Adela e eu estávamos ao lado do fogão, cercados de tigelas de grãos e pastas preparadas com estranhos seres das profundezas marinhas. Adela me deu uma leve cotovelada enquanto continuava a conversar animada com o cenógrafo desempregado que encontramos lá.
Nossa anfitriã correu em direção a Simon e cumprimentou-o com um beijo, olhando bem para Edith.
– Bom, primeiro você recebe uma bebida, depois deixa eu lhe apresentar. Conhece David Samson? – perguntou, mostrando um famoso comediante que se postou ao lado dela assim que o casal surgiu. Edith sorriu, estendeu a mão e viu então que tinha sido levada aos respeitáveis lábios dele.
– Lady Brougthon. – Ele rolou o nome saboroso e familiar na língua, degustando-o. Falou alto o suficiente para as pessoas próximas virarem-se, curiosas, e ligarem Simon e Edith às notícias que tinham lido ou de que ouviram falar vagamente. Houve um leve sussurro de alerta. Achei que Edith reagiu com frieza ao cumprimento de Samson, ao mesmo tempo que acrescentava, baixo:
– Pode me chamar de Edith, por favor. – Samson não pretendia desistir. Deu o braço e preparou-se para circular com ela pela sala. Dirigiu-se a um grupo que estava curioso e ribombou:
– Conhecem a condessa de Broughton?
Não é preciso dizer que Edith se sentiu no inferno.
Eu a teria socorrido, porém Adela não deixou. Deve ter tido um prazer maldoso ao ver Edith ser exibida como um escravo numa conquista romana. Adela jamais arriscou perder seu posto no antigo campo ao se aventurar nesse novo e acho que foi difícil não sentir um frêmito de vitória. Simon veio falar conosco, sorrindo. Muitos tremem de medo de serem “notícia” nos jornais. Outros, pelo contrário, não podem viver sem isso. Simon pertencia a esse time. Quando os olhares meio curiosos o seguiram pela sala, ele ficou em seu elemento natural. Afastei-me de Adela e pedi para ela se ocupar de um diretor de elenco de cara séria.
– Como vão? – perguntei.
– Ótimos, muito bem – respondeu Simon.
– Como vai ser agora?
– Como assim?
– Bom, vão se divorciar, casar, distribuir comunicados à imprensa?
Simon franziu o cenho e levantou as mãos para o alto.
– Uau! Você parece a minha mãe – exclamou, com um sorriso brilhante.
É fácil esquecer que até sujeitos como Simon têm mãe. Deve ser uma decente viúva de um funcionário público sentada num apartamento em Leatherhead pensando o que diabos está acontecendo. Não gostei.
– Sabia que você tocou num assunto sério? Sabia que muita gente está preocupada com isso?
Ele tocou na minha bochecha. – Ah, sim – ele disse.
Claro que Adela apreciou muito a festa. Tanto quanto Edith detestou, sendo exibida pelas salas como uma vaca sagrada. Adela viu-a se esforçando para conversar com aquela gente que parecia tão baixo nível, as mesmas pessoas, aliás, das quais tentou fugir a juventude toda. A ironia de tudo isso era que, apesar da irritação pelo mundo do intercâmbio de nomes, Edith tinha se acostumado com a confortadora comodidade por aquele mundo ser tão restrito. De repente, tinha voltado ao lugar onde ninguém conhecia as mesmas pessoas que ela. Sentiu algo parecido com pânico. O que conversar com gente pela qual não se tem qualquer interesse nem nenhum conhecido em comum? Tinha esquecido, depois que saiu da Broughtonlândia.
– Bom, espero que ela esteja se divertindo – disse Adela, se aconchegando no casaco, quando iniciamos a longa viagem rumo sul.
– É mesmo?
– Sim, claro! O que ela fez? E terminar o casamento sem ter um filho! Portanto, quando a porta se fecha, é para sempre. Que boba!
Eu ainda ficava chocado com o mundanismo de minha esposa que convivia alegremente com sua grande delicadeza, que eu tinha certeza de que era autêntica.
– Não é melhor que eles não tenham tido filhos?
– Melhor para quem? Para Charles e Gugu. Para ela, não. Arrumar um filho é a segunda providência prática de uma primeira esposa. Lembre da vitória de Consuelo Vanderbilt ao voltar para a detestável Blenheim com um filho duque. A pobre Edith não vai ter nada disso. Quanto a ele... – Ela suspirou fundo.
– Pensei que você gostasse dele.
– Ele é simpático com aquele seu jeito bobo e louro, mas não para merecer o encargo da felicidade eterna. No que ela estava pensando?
* * *
Naquele mesmo instante, coisas parecidas passavam pela cabeça de Edith enquanto o casal também voltava rápido de carro para o que ela considerava a civilização. No fundo, estava profundamente desapontada. Tinha acabado de sair de mais uma “festa de artista” e, com a frase ecoando na cabeça, lembrou da imagem que vinha junto: atrizes animadas, belas supermaquiadas usando roupas de alta-costura cheias de lantejoulas, escritores judeus discutindo calorosamente com grupos nos cantos da salas, cantores dando uma ajuda ao pianista bêbado e, sempre, risadas vítreas cortando o ar... Na verdade, ao pensar, concluiu que a cena era quase igual à do filme A malvada. Parecia não ter muito a ver com aquele monte de suburbanos comendo alimentos saudáveis e falando sobre as férias na Grécia.
Ela também não deu importância ao fascínio que causou neles como se fosse enviada de um outro mundo que, obviamente, desaprovavam. Edith gostava do glamour da ribalta, mas tinha começado a ver que o glamour em si não era mais valorizado por atores e atrizes. Para piorar, percebeu que tinha entrado naquele estranho picadeiro não como estrela (que, no fundo, achava que era), mas como tiete.
– Que gente horrível! Quem eram aquelas pessoas?
Simon jamais respondia a essas perguntas, que eram mais ou menos retóricas. Os dois sabiam que ela estava dizendo que achava o pessoal de teatro “comum”, embora jamais fosse confessar isso. Simon nunca tocou no assunto, não se incomodava se eram comuns ou não, em parte porque não tinha importância e em parte por desconfiar de que (no fundo), pelos padrões dela, ele também era comum.
– Gostei da festa – ele afirmou.
– Você não ficou com um homem horrível babando na sua mão a noite inteira, com uma voz que parecia uma tigela de salada de frutas. As suas festas são todas assim?
– E as suas festas vão ser sempre meia dúzia de grã-finos e mais um sujeito que perdeu tudo no Lloyd’s? Se forem, prefiro a salada de frutas. Em qualquer dia da semana.
Eles voltaram para casa em silêncio.