Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 11 de 23

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Esnobes

Onze

 

 

ESTIRADA EM SUA BANHEIRA, a condessa Broughton refletia; de vez em quando, mexia-se para misturar a água quente da torneira, que ela comandava com os dedos do pé. Dali a pouco Mary viria trazer o café da manhã e ficaria surpresa de encontrá-la no banho, não era essa a rotina de sua vida pessoal. Até Charles se assustou quando ela saiu da cama e abriu a água da banheira.

– Vai tomar banho agora? – perguntou, olhando-a como um cachorrinho intrigado. Não costumava questionar o que ela fazia; mesmo assim, estranhou a mudança.

– Sim, por que não?

– Por nada. Nada. Você costuma tomar o banho depois do café, só isso. – Charles não era de briga.

– Eu sei. Pois hoje vou tomar antes, certo?

– Sim, claro, claro. – Ele falou mais alto quando ela entrou no banheiro e começou a escovar os dentes.

– Vou à fazenda Brook com Roberts. Você quer ir? – perguntou.

– Não.

– Podemos ver o que precisa ser feito. Deve ser pouca coisa, se eles querem se hospedar só por algumas semanas. É estranho, não era melhor ficarem num hotel?

– Bom, pelo jeito eles não acham.

– É mesmo. Certo. Você gostou dos outros dois atores?

– Mal falei com eles e seus pais mal olharam para mim.

Charles riu.

– Devo dizer que Bella proporcionou uma bela noite para o dono da casa. Já sou capaz de vê-lo indo à fazenda Brook perguntar se ela precisa de uma xícara de açúcar. Simon me pareceu meio bajulador.

– Gugu parecia encantada com ele.

Mas era só o que Charles tinha a dizer. Deixou a esposa em suas ocupações e foi para seu quarto de vestir.

Seja qual for a impressão que deu, ele não era contra alugar a fazenda. Longe disso. Era uma desculpa para apressar a reforma e agora que Edith tinha desistido de morar lá, ele tinha pressa para alugar a casa e resolver isso. Logo depois do casamento, os dois discutiram os detalhes dos aposentos que agora estavam bonitos e vazios como se fossem uma crítica a ele, um desconcertante lembrete de seu fracasso em... quê? Compreender? Mas o que ele devia compreender? Uma hora, Edith e ele pareciam estar gostando muito de “arrumar o lar”. Ele ficava avaliando, obediente, amostras de papel de parede e de tecido (embora não tivesse o menor interesse por qual ela iria escolher). E comentavam por alto que um dos quartos poderia ser “útil” mais tarde, já que planejavam um banheiro melhor lá, o quarto merecia. Outra hora tudo parecia, de certa maneira... Charles sabia que a esposa estava insatisfeita. Ele se preocupava muito com o bem-estar dela, por isso percebia os sinais de infelicidade, mas não conseguia detectar a causa. O que tinha mudado? Ele ficou todo confuso quando tentou acompanhar a evolução do caso. Sugeriu que os dois passassem mais tempo em Londres mas, não, isso não foi a solução. Convidou-a a participar mais da administração da fazenda, tomando conta da loja de suvenires e do centro de visitantes mas, não, ela achou que ia invadir o terreno da sogra. Ele acabou achando que a solução seria arrumar a fazenda Brook e assim criar uma vida social em Sussex independente da dos pais. Mas, um dia, Edith resolveu de repente que não queria sair da mansão e ele desistiu.

– Não consigo imaginar nós dois lá, olhando um para a cara do outro, você consegue? – ela perguntou, alegre.

Tais palavras foram um toque baixo e sombrio no coração de Charles pois, claro, aquilo era exatamente o que ele tinha imaginado. Os dois, talvez, fazendo as refeições na mesa da cozinha, ou em bandejas no colo na pequena biblioteca; assistindo à tevê; conversando sobre os problemas do dia...

Ele admitia sinceramente (para si mesmo, pelo menos) que não conseguia ver o que estava errado na vida deles. Não entendia se era errado ver as mesmas pessoas, ter as mesmas conversas e fazer as mesmas coisas todos os dias, meses e anos, um atrás do outro. A programação anual dele sempre teve as mesmas atividades: tiro ao alvo até o final de janeiro; daí até março, caçadas; depois, uma temporada em Londres e, a seguir, talvez, uma pequena viagem ao exterior para pescar em algum lugar; a seguir, Escócia para praticar caça de tocaia. Qual o problema? Bom, claro que havia algum, mas ele não conseguia ver. E não sabia o que fazer para agradar a esposa, a quem amava, mas que ficava furiosa com ele por qualquer coisa. Era um mistério que ele não ia resolver naquela manhã, pensou, ao vestir o paletó de tweed e descer para tomar o café da manhã com o pai na sala de jantar.

Enquanto isso, Edith estava imersa na água morna, ouvindo os passos dele estalarem no piso polido da escadaria. Sabia que Charles estava preocupado com ela mas, de uma maneira estranha e indefinida, achava que ele devia mesmo se preocupar um pouco. Naquela manhã, mais que nunca, ela estava inquieta e mal sabia por quê. Era como se algo podre tivesse se infiltrado sorrateiramente nos grandes alicerces de sua vida e aquele cheiro acre só pudesse ser detectado por narinas mais sensíveis. Bateram à porta do quarto e Mary entrou com uma bandeja.

– Madame?

– Estou aqui, Mary. Deixe a bandeja.

– A madame está bem?

A voz de Mary chegou discretamente perto da porta aberta do banheiro, com um toque de preocupação, causada provavelmente por aquela pequena mudança de rotina.

– Estou ótima, Mary. Obrigada. Deixe a bandeja. Já vou sair.

– Ótimo, madame.

Edith ouviu a criada andando pelo quarto, depois a porta se fechou e os passos foram sumindo no corredor.

Edith achava sua vida tão medíocre. Nessa manhã, parecia envolta numa espécie de mediocridade cinza que impregnava o ar daqueles aposentos abafados, cheios de estofados de chintz, e pairava como uma neblina sobre a água da banheira. Mesmo assim, até pouco tempo atrás, aqueles detalhes – aqueles “madames”; aqueles passos ecoando no chão lustroso; aqueles cafés da manhã dos homens lá embaixo, com as baixelas de prata brilhando; aquela porcelana fina nas reluzentes bandejas cobertas com panos de renda – tudo aquilo era tão agradável aos sentidos. Naqueles primeiros tempos em Broughton, ela sentia prazer nos meros monogramas bordados em suas roupas brancas; nas bergères forradas de damasco no quarto dela; nas gravuras do Derby dependuradas sobre a escrivaninha dela; nos números do telefone interno com os botões indicando “estrebarias”, “cozinha”; no mordomo Robert corando de nervoso quando veio pegar as malas vazias dela; nos cisnes no lago; até nas árvores no jardim.

Ela era uma princesa na Terra de Sonhos. E como aprendeu rápido os truques da cortesia; a não dar importância ao lugar onde morava; a deixar as pessoas sem jeito com sua estudada descontração. Quando Isabel e David foram (finalmente!) convidados para jantar na mansão Broughton, ela adorou o mal-estar deles com seu triunfo; ficaram rodeados de pessoas que se conheciam, mas nenhuma os conhecia. Edith sabia que imitava alguns truques da finada Princesa de Gales na maneira como aperfeiçoou seu calor e simpatia com os moradores da aldeia, aquela soma do que se espera de uma celebridade e, ao mesmo tempo, aquela informalidade estudada que garantia conquistar todos os corações. Ficava esfuziante quando mostravam para ela as novas instalações do pátio das crianças, ou quando entregava prêmios no festival de flores e assim conquistava novos amigos, desarmava os ex-críticos. Como era divertido segurar no colo as crianças, que olhavam para ela tímidas, e desarmá-las com um sorriso inesperado, acompanhado de um olhar luminoso dirigido às mães. Era tão fácil...

Deu um longo suspiro e saiu da água; fechou a torneira e tirou a tampa da banheira. Entrou no quarto para tomar o café; Mary tinha arrumado a cama e acendido a lareira, o que era o dernier cri do luxo, sobretudo em setembro, no outono. A bandeja, bem-posta como sempre, foi colocada na mesa no meio do quarto. Entre as lindas porcelanas estampadas de flores estavam as cartas, pedidos, agradecimentos, convites para festas tediosas no campo às quais eles compareceriam e festas divertidas em Londres às quais eles não compareceriam. Deu uma mexida nelas enquanto mordia uma torrada escura, de casca cuidadosamente raspada. Mary tinha preparado as roupas: uma saia de tweed, uma blusa de algodão, um colete com estampa de coelhos. Ia usar tudo isso com algumas pérolas e sapatos não muito delicados, traje para o papel infindável que ela estava interpretando. Pensou em como seria o seu dia: algumas obrigações, refeição com o bibliotecário sr. Cook (“refeição”, ela até usava a língua do seu papel); reunião do comitê na aldeia para discutir a exposição de verão; chá com uma prima de Gugu. Era uma perspectiva terrível.

Edith já tinha decidido que não seria delicado de sua parte retomar a vida em Londres, mas não tinha pensado direito nos motivos para isso. Ia dizer que “não era uma boa ideia”, sem entrar em detalhes. Explicou essa impressão para si mesma, observando que Charles se sentiria “abandonado” com os amigos dela. Afinal, os amigos londrinos dele eram muito parecidos com as pessoas que encontravam em Sussex. E era verdade (ou um pouco verdade), quando ela dizia às pessoas que ele detestava Londres e que (a essa altura, pelo menos) ela também tinha “colocado um ponto final” na cidade. Mas sabia que estava se referindo a ficar em Londres com Charles. Já imaginava que ficar sozinha na capital podia ser mais divertido e, portanto, mais perigoso. Mas só de vez em quando (e com pouca ênfase) ela admitia para si mesma que estava pronta para ter um amante.

Edith se orgulhava por ter virado uma grande dama quase instantaneamente, respeitando todas as regras de sua nova vida como se tivessem nascido com elas. Claro que, àquela altura, ela havia esquecido completamente que não tinha. Mirando-se na mãe, ela agora achava que, de alguma forma misteriosa, tinha nascido na nobreza rural e simplesmente casado com um nobre. Não havia um pingo de verdade nisso mas, como argumento, tinha o grande mérito de deixá-la menos grata a Charles do que como se sentia obrigada antes.

Claro também que, junto com seu recém-adquirido status, vinham os códigos de comportamento. Ela havia rejeitado orgulhosamente os últimos resquícios do enfado da classe média e assumido sem dificuldade os valores frios e decididos que eram a outra faceta do grand monde, cuja causa havia abraçado. Tinha se transformado logo numa daquelas mulheres de roupas impecáveis que almoçam juntas e dizem coisas como “Por que ele fez tanta confusão? Os dois filhos são dele”, ou “Sua boba, isso teria acabado em dois anos”, ou “Ah, ela não quer nem saber. O amante mudou-se de Paris para cá” e falam mais baixo, conspiradoras, mas querendo que alguém ouça, enquanto mordem uma folha de radicchio. Edith havia assumido o falso horror de virar notícia e o autêntico horror ao escândalo que são as marcas registradas da classe social de Charles. Mesmo assim, esse comportamento padrão tinha certa autenticidade, pois ela não gostava de escândalo. Acima de tudo, não gostava de gente que “tinha chegado lá” e depois “criou uma confusão”. Ela tinha chegado lá e não tinha a menor intenção de largar o posto.

Mesmo assim... mesmo assim... com tudo isso passando pela cabeça, ela deu mais uma mordida na torrada e resolveu, finalmente, ir com Charles à fazenda Brook.

* * *

Edith não precisou me contar depois que foi ver como estava a obra na fazenda pois, quando eles chegaram, eu estava numa das janelas do jardim da frente. Era o nosso segundo dia de filmagem e estávamos numa daquelas manhãs difíceis, incômodas, de cenas em que os atores abrem portas e entram em corredores onde ficam andando para cima e para baixo. Tudo muito bom para testar o figurino, concordo, ou para fazer amizade com o câmera, mas não exatamente para mostrar desempenho. Bella estava sentada ao meu lado na janela, apertada num traje marrom de viagem e ocupada em enrolar um cigarrinho, hábito este que era o último traço da vida boêmia que teve nos anos 60. Simon estava conosco, mas à paisana, já que nesse dia não filmava. Ele era desses atores que não consegue ficar longe do set e prefere passar o dia inteiro maquilado para fazer uma tomada de um minuto, em vez ter uma folga.

– Onde eles vão? – perguntou Bella, quando vimos Charles e Edith passarem pelo jardim.

– Charles disse que ia dar uma olhada na fazenda onde vamos ficar e ver se precisa fazer alguma coisa.

– Quando você acha que podemos nos mudar?

Dei de ombros.

– Já, acho. Se não nos incomodarmos com alguns empecilhos.

– Deus sabe que eu seria capaz de dormir na encosta de uma montanha para não passar mais uma noite naquele hotel – disse Bella, com um riso maldoso, encostando a chama do isqueiro na ponta do cigarrinho, que não parecia ser inflamável.

Simon deu mais uma olhada no casal que ia se afastando.

– Acho que vou até lá. Vou dizer para ele não se preocupar. Afinal, queremos dormir lá esta noite, se possível. – Ele fez sinal com a cabeça e foi indo pelo corredor. Bella e eu ficamos olhando em silêncio. Ela falou primeiro.

– Lá vai ele. Despedaçar mais corações.

– Não gosta dele?

Ela se inclinou para se concentrar melhor no seu mínimo cigarrinho.

– O que você quer dizer com não gostar? Aquela sedução toda me cansa um pouco.

– Acho que Charles não vai reparar – observei.

– Talvez, não. Mas ela vai. E a julgar pela noite passada, não sei se ela vai gostar muito. Espero que Simon não vá atrapalhar tudo antes de nós mudarmos.

Ele não atrapalhou. Ou, pelo menos, não tanto que impedisse a nossa mudança naquela noite. Tínhamos parado para almoçar e estávamos na mesa bamba do fornecedor de refeições prontas, armada no cascalho em frente à casa, tentando apreciar nosso almoço em caixinha de papelão, quando Simon voltou glorioso, dançando e dando socos no ar.

– Vamos para lá!

– Quando?

– Hoje.

– E o que fazemos com o hotel?

– Tudo resolvido. Avisei que nós três vamos sair e voltamos logo para pegar as malas e pagar. Eles estão ganhando tanto dinheiro com as filmagens que nem reclamaram muito.

Sorriu e acrescentou:

– Edith e Charles nos convidaram para jantar hoje, assim não nos preocupamos em comprar comida.

– Como Edith e Charles são simpáticos. – Bella pronunciou os nomes devagar, com um meio sorriso conspirador para mim. Percebi que ela ia se divertir muito com Simon.

* * *

Claro que foi um certo tédio ir a Broughton pela segunda vez seguida e conversar mais amenidades com “Gugu” e “Jojô”. Depois, Bella e eu nos confessamos que chegamos a pensar em ir embora. Imagino que Simon não chegou a tanto. Mas cada um de nós concluiu que seria indelicado recusar o convite que era, ao mesmo tempo, um favor e uma grande melhoria nas nossas vidas. Assim, mais uma vez, pouco depois das oito da noite, estacionamos nosso carro e fomos para a porta da frente.

Simon era outro homem. Na noite anterior, até o menos observador dos mortais notaria que suas bravatas (que ele não percebia, claro) provavam sua insegurança social. Ele comentou de pessoas desconhecidas, citou eventos sociais sem qualquer importância, ou com os quais ele não tinha a menor ligação. Acabou sendo impossível não ter pena do gauchismo dele, apesar do sucesso que estava obtendo com a anfitriã. Como tantos atores (e não atores também), ele queria mostrar seu direito de participar de um mundo onde raramente ia, se é que algum dia chegou a ir, mas que sempre soube que pertencia a ele também. Naquela noite, estava solto. Tinha aquele fulgor que o egomaníaco inseguro exibe ao ver que suas dúvidas eram infundadas e que as pessoas gostavam dele. Difícil não notar os olhos jocosos de Bella quando subimos para a sala de visitas da família, com Simon apoiando a mão no corrimão luzidio da escadaria e dizendo amabilidades para o mordomo, como se ele fosse um amigo da família. Ao entrarmos na sala, ele cumprimentou o lorde e, especialmente, a lady como se os dois fossem velhos companheiros.

Claro que uma das verdades fundamentais da vida é que, em geral, o mundo vê as pessoas como elas se veem. Da mesma maneira que a anfitriã inexperiente vai tremer de dúvida ao fazer a lista de convidados, pensando se deve ou não convidar um figurão ou celebridade que ela mal conhece e, anos depois, descobre que ninguém se preocupa com o “direito” de convidar. Quem quer ir, vai; quem não quer, não vai. Naquele momento, lorde Uckfield não estava preocupado se Simon Russell tinha ou não o mesmo status dele. Simon parecia achar que sim e, somado ao fato de seu papel na vida do lorde consistir em participar de jantares e contar histórias engraçadas, era mais que justo ser visto com simpatia e relaxamento. Muitas carreiras se fazem assim, sobretudo em Londres. Simon era igual aos marchandsde arte e amantes de ópera que são apadrinhados pelas duquesas de hoje e se espremem entre celebridades e esposas de grandes herdeiros nas fotos sorridentes que saem nas revistas. Claro que essas pessoas, como Simon, ignoram que por baixo da aceitação superficial que sua sedução e simpatia conseguem, seus grados anfitriões não acreditam que pertençam ao mesmo mundo. É triste ver “a companhia preferida” de uma família importante chegar a um evento público (um casamento ou, pior, um velório), após anos prestando serviços na sala de visitas: ele é levado ao banco de trás e fica entre um político local e o aparelho de calefação, enquanto gente meio desconhecida e figurões pouco simpáticos são conduzidos aos bancos da frente. A vida é assim. Ou, pelo menos, são os valores dessa vida. Coisa de que Simon Russell não fazia ideia e de que lady Uckfield fazia muita.

O que me interessou naquela noite não foi a reação de lady Uckfield a Simon (que foi, naturalmente, de cauteloso deleite), mas a de Edith. O mau humor e a pretensa agressividade dela na noite anterior sumiram, substituídos por um silêncio amável. Estava mais linda do que na noite anterior, de saia preta e blusa de seda creme, com um colar no pescoço e uma torsade no pulso, ambos de pérolas. Para usar uma palavra melhor, ela ficou mais sensual depois do casamento. Mantinha a friaaltivez que, acho, ela já nem notava, e, quando entramos na sala, ela estava no sofá e fez um olhar avaliativo que a experiência me ensinou que, em geral, mulher é problema.

Pensando nisso agora, tenho de concluir que foi bobagem Edith continuar morando no campo para evitar dores de cabeça. Como na vida de uma entediada esposa inglesa num posto avançado na Índia, a falta de companhias agradáveis só servia para destacar qualquer um que aparecesse por lá. Não sei se a virtude dela correria mais risco se o casal tivesse entrado na roda-viva de festas, eventos de caridade e todas as demais bobagens que aguardavam ansiosamente por eles em Londres. Muito pelo contrário. O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do consorte e o casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas de classe média, ou seja, causa divórcio. Só garanto uma coisa: em Londres, Edith jamais acharia Simon Russell interessante. Ele era incrivelmente bonito, como eu disse, mas na verdade o trailer era melhor que o filme. Sabia conversar e era um grande sedutor, chegava a ser uma alegria vê-lo em ação mas, quando todas as cartas estavam na mesa e as portas se fechavam, Simon não tinha muito o que oferecer. Não quero dizer com isso que eu não gostasse dele. Pelo contrário, gostava muito. Ele conseguia, como qualquer pessoa, discorrer sobre hipotecas, Europa e Madonna, mas Charles também não conseguia? (Pelo menos sobre os dois primeiros temas.) Simon não tinha o feu sacré, aquela sagrada e carismática chama que faz trocar tudo pelo amor. Ou, pelo menos, nenhuma chama que eu conseguisse identificar.

– Sr. Russel, que tipo de papel o senhor prefere? – a pergunta era de lady Uckfield. Ela sempre tinha o cuidado de tratar estranhos por “senhor” e “senhora”, ou pelo título condizente, sobretudo quando o estranho era mais jovem que ela. O motivo principal disso (na verdade, o motivo de todo o seu vocabulário) era fazer com que parecesse uma milagrosa sobrevivente da era eduardiana na Inglaterra moderna. Gostava de achar que seu comportamento e suas maneiras eram uma oportunidade para as pessoas verem como se passavam as coisas no tempo em que eram adequadas. Como teriam feito lady Desborough, a condessa de Dudley, ou a marquesa de Salisbury, ou qualquer uma daquelas esquecidas belas fin de siècle que fizeram da vida uma arte que, naturalmente, morreu junto com elas. Como parte dessa performance cuidadosamente estudada, tudo o que lady Uckfield fazia era especial. Falava em “receitas” e “almoço” para destacar o presunto irlandês que preparava (“seco, delicioso, não se acha igual em parte alguma da Inglaterra”), ou em suas cerejas francesas (“estou me empanturrando com elas”), ou no papel de carta amarelo, americano (“sem ele, não consigo escrever uma palavra”). O engraçado nisso era que todos os convidados dela eram enganados como na história da Roupa nova do rei e concordavam que havia uma enorme diferença em tudo o que viam e assim reforçavam o preconceito que os fez mentir. Na verdade, os pratos servidos na mansão eram sempre ótimos e de qualidade, então eu, como os demais convidados, não conseguíamos notar grande diferença de sabor entre aspargos de várias espécies, ou seja lá qual fosse o desafio do dia. E quanto mais eu conhecia lady Uckefield, mais admirava seu perfeccionismo. Ela queria sempre ser a marquesa ultrassedutora e ultrablasé do longo verão eduardiano. Sempre. Tenho certeza de que, se ela fosse fazer uma cirurgia de alto risco, ia antes verificar quais seriam as pinças usadas pelo cirurgião.

Edith jamais entendeu a força da sogra. Achava-a exagerada e complicada. Mas lady Uckfield tinha uma disciplina que seria útil a Edith. A lady não sabia o que era se entediar, ou melhor, não admitia para si mesma que estivesse entediada. Jamais se preocupou, nem por um segundo, com o fato de ter um marido com menos da metade da inteligência dela. Ela escolheu ser de um jeito e ia fazer desse jeito um sucesso, sem pena ou arrependimento. No século relaxado em que vivemos, é preciso ao menos respeitar, quando não reverenciar, essa força moral. E, afinal de contas, pegando emprestada uma frase de Trollope, se está tudo dito e feito, “as coisas estão nos lugares certos”.

O outro motivo para lady Uckfield chamar Simon de “sr. Russell” era, claro, para ele parar de chamá-la de “Gugu”.

– Bom, gosto de ter trabalho, só isso – respondeu ele à pergunta.

– Não quer ser um grande ator de cinema? – Essa é uma questão incômoda. Todo ator quer ser um grande ator de cinema mas, por um acordo universal tácito, não deve admitir. Simon então deu a resposta padrão.

– Quero apenas fazer um bom trabalho.

Isso pareceu estranho embora, na verdade, fosse mais verdadeiro do que se imagina. Ou melhor, era verdade que ele queria ser admirado por fazer um bom trabalho, o que não é bem a mesma coisa. Mas que outra resposta poderia dar? Óbvio que ele queria ser um grande ator de cinema, como lady Uckfield imaginava. Ele sabia disso e sabia também que não devia dizer.

– E pretende ser sempre ator? - Nesse ponto, lady Uckfield sem querer mostrou seus preconceitos e colocou Simon mais ainda no lugar. É uma pergunta que sempre se faz, mas não consigo imaginar alguém perguntando: “Você pretende ser sempre médico?” ou “Vai ser sempre contador?” O motivo é simples: por mais que se esforcem, as pessoas não conseguem ver o trabalho de ator como “sério”. Nesse ponto, há uma diferença de classes. A classe média, de alguma forma misteriosa, acha uma afronta considerar o palco uma profissão, como se o ator quisesse se sustentar com ganhos ilícitos. Já a classe alta acha muito interessante a pessoa estar se divertindo. Mas nenhuma das duas imagina que alguém vá ser ator para sempre. Talvez porque, apesar da quantidade de bons atores que têm aparecido nos últimos anos, poucos conseguem chegar ao topo da profissão. Pode ser por causa do preconceito, ou por falta de disposição, temperamento ou simplesmente porque o caminho é difícil para quem quer ganhar dinheiro. Mas o fato é que quase todo aristocrata conhece alguém cujo filho ou filha caçula tem “uma queda pelo palco”, embora quase nenhum conheça um que tenha tido sucesso. É pouco animador.

– Você vai ser sempre marquesa? – perguntou Edith, sem levantar os olhos, sentada no sofá.

Lady Uckfield olhou a nora um instante. Entendeu por que saiu em defesa de Simon, mas respondeu com uma risada:

– Minha cara, hoje em dia, como posso saber?

Todos sorriram, não resisti a trocar um olhar rápido com Bella, mas tratamos de nos comportar como convidados.

Simon, satisfeito por conquistar uma defensora tão atraente, sentou-se ao lado de Edith no sofá e dali a pouco brindava-a com histórias dos bastidores de filmagem da maneira mais sedutora possível.

Minutos após, ele reluzia como a iluminação de Regent Street no Natal. Observei-a: Edith ria, falava, sacudia os cabelos e ria de novo e, nisso, reparei que Charles também observava, enquanto falava com a mãe. Ele e eu sabíamos que estávamos vendo uma Edith mais animada do que em muitas luas e eu sabia que não podia de maneira alguma olhar para ele, pois ficaria cúmplice de algo que, no final das contas, o faria muito infeliz. Quando olhou para mim, desviei para Bella que estava, nem preciso dizer, contando alguma história ousada a respeito de ficar perdida à noite numa garagem, o que Jojô ouvia fascinado.

Depois que fomos para a sala de jantar, a noite ficou simpática e agradável. A comida estava excelente como sempre e reparei que os criados começaram a me tratar daquele jeito levemente simpático que costumam dispensar aos convidados “assíduos”. Tendo certeza de que você vai voltar, todos os empregados que veem sua função como uma carreira não terão mais o prazer (sem dúvida grande, mas sempre passageiro)de fazer um ar condescendente e desdenhoso pelos patrões. Adotam então uma espécie de respeitosa intimidade que garante boas gorjetas e boas recomendações, caso sejam citados na conversa. Esse toma lá dá cá é comum. Conheci muita gente que ficaria lisonjeada por ser bem recebida pela criadagem dos poderosos. Acham que, com isso, terão muitas chances de mostrar intimidade com uma grande casa, que outros convidados podem não ter. Apreciam muito isso. Sabendo lidar, a relação logo se torna uma admiração recíproca, embora meio pegajosa. Mas, quando fomos para o carro nessa noite, fiquei desapontado comigo mesmo por estar muito satisfeito com a deferência com que fui tratado. Bella e eu conversamos no caminho, ambos aliviados pelo fato da noite ter terminado e, ao mesmo tempo, satisfeitos por ter sido mais fácil do que imaginávamos. Ao chegarmos à fazenda Brook, ficamos um pouco lá fora enquanto Simon entrava e ia acendendo as luzes.

– Eis que ele fez mais uma conquista – disse Bella.

Concordei com a cabeça.

– Felizmente, pois na noite passada, achei que eu teria de lançar um manifesto pela paz – confessei.

– Ah, não acho que você tenha essa obrigação – disse Bella, com um meio sorriso.

Levantei o indicador como quem vai dar um conselho.

– Não crie confusão. Estamos todos indo muito bem e é um trabalho agradável. Vamos deixar como está - recomendei.

Bella riu.

– Talvez. Mas você não reparou numa coisa. – Franzi o cenho, intrigado. – Desde que saímos de lá, ele não disse uma palavra.

Bella tinha razão. Acho que eu tinha notado, mas tirei da cabeça. Pois, quando alguém como Simon Russell, tão ansioso por aprovação, tão sedento por status, tão disposto a contar ao mundo suas aventuras, passa a noite desfrutando da proximidade com uma jovem e linda condessa e não precisa contar vantagem disso, costuma ser porque a história está apenas começando.

E assim foi.