Esnobes
Dezoito
A MANSÃO ESTAVA COM UNS SETE HÓSPEDES passando o fim de semana, o que era habitual com os Broughton. Reconheci lady Tenby, que me acenou com muita simpatia, e uma prima da família que eu tinha encontrado algumas vezes com Charles e Edith, em Londres. Na hora, eu não sabia que a presença de Clarissa Marlowe tinha um significado especial, mas nós dois notamos que ela estava se comportando como dona da casa, perguntando se estávamos bem, se aceitávamos um sanduíche ou o que fosse e, pensando agora, isso a diferençava de uma convidada comum. Quando chegamos, os demais convidados mal olharam para nós: os homens em calças de veludo grosso e suéteres, as moças em saias e tênis continuaram dedicados a seus afazeres: ler, conversar, passear com os cachorros, aquecer torradas no fogo da lareira.
Já os Uckfield não puderam ser mais solícitos. Perguntaram as novidades, comentaram do desfile de moda, falaram num filme em que me viram, ofereceram bolinhos, serviram mais chá em nossas xícaras até que os outros presentes na sala chegaram à mesma conclusão que nós: estávamos prestes a entrar num grande plano. Normalmente, espera-se um amável desinteresse por parte dos anfitriões e outros convidados numa casa de campo inglesa. Os convidados ficam por lá lendo revistas, fazendo caminhadas, tomando banho, escrevendo cartas, sem querer muita interação social com os outros. Só às refeições (e mesmo assim, no jantar) espera-se que eles “se manifestem”. Essa leniência, o fato das pessoas mal levantarem a cabeça do livro que estão lendo para admitir que alguém chegou, pode parecer grosseira para o estranho (e é mesmo), mas confesso que traz também um certo relaxamento. Eles não fazem qualquer esforço para serem gentis com você que, por sua vez, também não precisa fazer qualquer esforço para ser gentil com eles. Na verdade, quando se festeja muito alguém numa reunião, é quase sempre porque a pessoa foi identificada como “de fora” ou, até, com uma doença terminal que exige atenção extra. Portanto, qualquer um fica meio ofendido se todos correm para recebê-lo e são muito efusivos.
Porém Adela e eu não vimos nenhum tipo de “regra” social nos agrados que estávamos recebendo. Entendemos apenas que iam nos pedir um favor. Portanto, quando lady Uckfield perguntou se eu gostaria de ver a sala dela que tinha acabado de ser decorada e sobre a qual, parece, tínhamos comentado algum dia no passado, levantei-me na hora. Minha esposa também foi convidada, mas algo em lady Uckfield informou que o convidado era só eu e, como nós dois estávamos loucos para saber os fatos, Adela preferiu ficar com lorde Uckfield e beber mais chá para conseguir a almejada proximidade.
A tal sala era bem distante das que eu conhecia, ficava numa das alas, separada do bloco principal por um corredor curvo cujas janelas abriam para o parque. Ao chegar lá, via-se que era um canto charmoso e elegante, mostrando o toque certeiro de gemüchtlich de lady Uckfield. Era bem grande, com paredes forradas de damasco rosa e lindas cadeiras revestidas de lindos chintzes. Pequenas escrivaninhas laqueadas, estantes pintadas e delicadas mesas marchetadas se espalhavam, tudo com o requinte dos aristocratas ricos: flores, porcelanas Meissen, lindos abajures, miniaturas, tigelas com folhas de lavanda, velas esmaltadas, quadrinhos em suportes de madeira e, claro, sobre a escrivaninha principal (um lindo bureau plat com aplicações de bronze dourado, encostado de lado na parede), inúmeros papéis, convites e pedidos oficiais. Um sofá de moiré abotoado ficava na frente da pequena lareira com a lenha num suporte de ferro polido, iluminando o ambiente e estalando. Sobre a cornija, estatuetas de porcelana e caixinhas de rapé misturadas com brinquedos de cachorro mordidos, um coelho de tricô e cartões-postais que amigos enviaram de Barbados e São Francisco. Havia também um retrato em pastel feito por Greuze mostrando uma lady Broughton mais jovem. Era, em outras palavras, o quartel-general de uma grande dama.
– Que linda arrumação você fez – elogiei.
Lady Uckfield, no entanto, tinha esquecido qual foi a desculpa para me levar lá: fez sinal para a poltrona do outro lado da lareira e sentou-se no sofá com uma expressão séria.
– Tem visto Edith?
– Não. Adela viu-a no desfile.
– Sei – ela confirmou.
Fiquei em silêncio um instante. Na verdade, nunca a vi desconfortável, mas era assim que estava naquela hora.
– Como vai Charles?
Ela respondeu com um muxoxo.
– Quero pedir uma coisa. Sei que Edith continua com aquele sujeito. Pretende se casar com ele?
Levei um susto.
– Não sei. Ele ainda não se divorciou... nem sei se deu entrada no processo.
Ela concordou.
– Charles me disse que ela quer esperar os dois anos de praxe e fazer uma separação amigável. – Fez uma pausa e eu meio que concordei. Aquilo era novidade, mas parecia uma boa ideia, no mínimo porque, depois de todo esse tempo, não daria manchete. – O problema é que Jojô e eu não concordamos...
Ela ficou indecisa, estranha como eu jamais tinha visto.
– Achamos que, quanto antes Charles acabar com isso e começar nova vida, melhor para ele. Não queremos que as coisas fiquem se arrastando e ele não possa chegar à conclusão de que tudo acabou. – Ela me olhou intrigada: – Você me entende?
– Creio que sim.
– Você talvez não saiba, mas ele ficou profundamente magoado. Charles não costuma mostrar o que sente, mas garanto que ficou num estado lamentável.
Concordei com a cabeça. Para ter certeza, bastava lembrar da cena no escritório dele, quando chorou na minha frente. Charles era um desses homens que veem o casamento como uma escolha para sempre. São homens muito menos raros do que afirmam as modernas revistas femininas. Não vão conferir o compromisso que têm com a esposa, não vão reconsiderar seus sentimentos antes que a morte os separe e, mesmo assim, costumam achar que o marido morre primeiro. Tenho a impressão de que ele era incapaz de cometer uma infidelidade. Quem sabe o que pode acontecer numa convenção agrícola nos Estados Unidos, ou numa caçada na Escócia? Mas acho que ele era incapaz de acabar com seu casamento. Ao escolher Edith, deu-lhe todo o amor e, como consequência natural, toda a confiança. Nenhum dos dois sentimentos tinha muita qualidade, mas era em quantidade. Isso eu garanto. Não, não me surpreendi ao ouvir que ficou “num estado lamentável”.
Lady Uckfield ainda não tinha terminado.
– Queremos muito que ele refaça a vida e sabemos que agora há uma chance para isso.
– Ele encontrou alguém?
Ela inclinou a cabeça para o lado, sem responder, e eu concluí que tinha. Ou, pelo menos, era o que eles esperavam. Logo após, achei que devia ser Clarissa.
– O problema é que, se estivesse livre, poderia fazer planos, mas não pode. O passado fica puxando para trás e ele não consegue pensar direito.
Era uma frase estranha. Em que sentido Charles “não conseguia pensar direito”? Ela ficou esperando que eu concordasse.
– O que posso fazer? – perguntei. Queria saber o que lady Uckfield esperava de mim. Sabia que devia ser algo de porte, pois era uma tortura para uma mulher como ela discutir qualquer coisa da vida íntima da família com alguém que não fosse amigo da vida toda, da mesma idade e do mesmo nível (mesmo assim, raramente). Não importava se ela gostava de mim ou não. Aquela conversa foi uma agonia para ela.
– Você pode falar com Edith? Pode perguntar se concorda com o divórcio já? Claro que antigamente isso seria muito complicado, mas será que hoje as pessoas pensam assim? Não creio que pensem, e era preciso garantir a ela que o acordo não alteraria nada. Nada.
Ela estava procurando disfarçar o próprio constrangimento. Era compreensível. Aquele era o pedido mais vulgar que eu já tinha recebido, se é que recebi algum. Talvez a única coisa vulgar que a vi dizer. Minha cara deve ter demonstrado a surpresa.
– Você decerto considera uma missão muito cansativa.
– Não sei se usaria a palavra cansativa – falei num tom meio severo, mas lady Uckfield era suficientemente lady para saber que tinha desrespeitado os próprios princípios. Aceitou a crítica com graça, como quem merecesse.
– Claro que é horrível pedir isso.
– Você é injusta com Edith – observei. – Ela não ia pensar em dinheiro. – Era verdade. Creio que Edith nunca quis levar nada de Charles, a não ser algumas mil libras para sobreviver. Já bastava ele pagar o aluguel em Ebury Street e deixá-la fazer cheques. Lady Uckfield não entendia que Edith sabia muito bem que agiu mal. Gente como os Uckfield pode demorar a entender, ou até não enxergar que não são donos da “honestidade”. Ouvem tanto falar no materialismo da classe média e na dignidade e autossacrifício deles que devem achar que as duas balelas se correspondem.
Ela franziu de leve o cenho.
– Talvez seja verdade.
– É. Você não gosta de Edith, por isso faz mal juízo dela – eu disse.
Ela endireitou a cabeça. Não me contestou, respondeu com um leve sorriso.
– Você tem razão em defendê-la. Entrou nessa casa pela primeira vez como amigo dela, portanto está certo.
– Darei seu recado a Edith, mas não posso fazer mais nada.
– Veja: Charles não pode pedir o divórcio e ela recusar, ou contestar alguma coisa. Temos de garantir que isso não vai acontecer. Entende?
– Claro que sim. – Entendia mesmo. – Mas não posso aconselhar, ela não me ouviria.
– Depois você me conta o que ela disse?
Concordei com a cabeça. Nossa conversa estava terminada. Levantamos e estávamos quase saindo, quando lady Uckefield insistiu mais na urgência do pedido.
– Sabe, Charles está tão infeliz. Não pode continuar assim, não? É horrível vermos ele nesse estado.
Como resposta, dei um leve aperto no ombro dela. Era o gesto mais próximo que eu já havia feito. Talvez fosse um sinal de que estávamos de certa maneira ligados por aquela terrível confusão de lágrimas e ruína. Ela não se opôs. Também não ficou com aquela sutil afetação que esse tipo de inglesa assume nessas horas para mostrar que o gesto foi uma liberdade não autorizada.
Voltamos para a sala de visitas onde Adela, num esforço para escapar dos planos meticulosamente traçados por Jojô para South Wood, tentava ensinar um dos cachorros a equilibrar um biscoito no nariz. Olhou quando entramos e, como estava louca para saber o que tinha acontecido (eu ia contar), nos despedimos logo em seguida. Ainda tínhamos de comunicar o horrível convite de David, mas, como era o preço do nosso chá, teríamos de dar o recado. Lady Uckfield nos acompanhou até o salão de baixo, portanto foi mais fácil.
– David e Isabel – comecei a dizer. Ela olhou intrigada, então acrescentei: – Os Easton, donos da casa onde estamos hospedados. – Ela concordou com a cabeça. Só isso já deixaria David deprimido durante meses. – Eles gostariam de saber se vocês poderiam tomar um drinque amanhã de manhã – falei.
Lady Uckfield sorriu animada. – Mas quanta gentileza. Acho que estamos com muitos hóspedes, mas agradeça o convite. – Sua habitual intimidade apressada tinha voltado ao recusar um convite que eu tinha certeza de que jamais seria aceito. Porém fiquei surpreso quando sugeriu:
– Por que vocês não voltam aqui... e trazem o casal?
Era uma gentileza acima e além do esperado. Fiquei me sentindo culpado ao pensar no deslumbramento de David quando soubesse, e balancei a cabeça em uma negativa.
– Acho que é meio entediante para você, não? Vamos deixar para outra ocasião.
Para grande surpresa minha, lady Uckfield insistiu.
– Não, por favor, venham. Charles estará de volta e vai adorar ver você. – Ela sorriu.
Na hora, não entendi o que pretendia ao juntar Charles e nós. Parecia, no mínimo, um plano arriscado pois, se eu contasse ao filho o que ela me pediu, tenho certeza de que ele ficaria furioso. Depois percebi que ela queria que eu visse o sofrimento de Charles para justificar o pedido dela e eu ter mais motivos para dar o recado. Pode ser também que, deixando que levássemos nossos amigos a Broughton, ficaríamos mais atrelados ainda à carruagem da família.
– Não se sinta na obrigação – disse Adela, mas não dava mais para recusar e assim nos despedimos até o dia seguinte e levamos o alvissareiro recado para o encantado David e a menos entusiasmada, mas alegremente surpresa, Isabel.
No dia seguinte, quando voltamos, Charles estava na sala nos aguardando ou, pelo menos, foi o que pareceu. Levantou-se da poltrona, deu dois beijos em Adela e apertou minha mão com tanta força que quase a esmigalhou. Só conseguiu dizer que estava muito contente de nos ver, enquanto a mãe se aproximava para normalizar a situação e nos levar até o armário de bebidas. O armário ficava atrás de uma porta falsa que antes ligava a antessala à sala de jantar. Jojô estava lá, cumprindo seu papel de dono do bar, preparando bloody marys. Ofereceu um para a esposa, ela provou e franziu de leve o nariz.
– Tem pouco Tabasco, a vodca errada... e você esqueceu do suco de limão. – Eu esperava que pedissem uma tigela com limões, mas, surpreso, vi lorde Uckfield pegar uma garrafa plástica com suco de limão e despejar numa jarra. Eu já ia recomendar que o meu não tivesse aquele ingrediente, mas achei melhor aceitar o que recebi. Claro que estava uma delícia.
– Você acha que ele está bem? – perguntou minha anfitriã.
Ela sabia muito bem que a aparência de Charles era péssima. O rosto cansado e inchado. A pele, que antes brilhava com aquela boa saúde que vem de frequentar lugares com galos do pântano e campos de caça, estava pálida e quase suja. Os cabelos escorriam despenteados pelo pescoço.
– Mal – respondi.
Ela concordou com a cabeça. – Viu por que pedi a sua ajuda?
Ela se afastou e não se referiu mais à nossa curiosa conversa do dia anterior. Para ser sincero e em defesa dela, entendi por que, como mãe, tomou medidas tão desesperadas. O filho parecia estar morrendo aos poucos na frente dela. O que me intrigava era aquele indício de romance oculto, com promessa de uma nova vida feliz. Charles não parecia alguém que tinha encontrado o amor verdadeiro, apesar de Clarissa estar por ali. Havia outros convidados nos drinques pré-jantar e ela fazia de novo o papel de dona da casa, levando as pessoas para cá e para lá e as apresentando, mas, pelo que constatei, sem causar nenhum interesse especial no coração do primo.
Os convidados estavam tão sérios quanto no dia anterior e vi alguns serem apresentados de má vontade a David e Isabel. Um deles, o visconde Bohun, que no dia anterior estava dando uma caminhada, eu encontrava de vez em quando em Londres. Fui amigo da irmã caçula dele numa época e sempre tive a impressão de que ele era deficiente mental ou algo assim, sem ser diagnosticado. Assim, fiquei surpreso ao ler em algum lugar que ele se casou com uma bonita moça que tinha um alto posto na área editorial. Ao lembrar disso, fiquei curioso por conhecer a jovem lady Bohun, que tinha feito esse ousado casamento. Não foi difícil descobrir. Seus cabelos soltos e brilhantes, impecáveis, estavam presos para trás com uma faixa de veludo; o nariz era empinado, ela estava sendo antipática e distante de um desesperado David que reagia da melhor maneira sem recorrer ao uso de insultos. O coitado lutava, citava pessoas e lugares que eram cortesmente ignorados, até o suor quase pingar da testa. Espero que essas pequenas vitórias compensassem o enorme sacrifício que ela fez. Já lorde Bohun não largava a pobre Adela, que ouvia algo interminável, pontuado por risadas agudas e gratuitas. Ela checava as portas por onde poderia escapar.
Charles se aproximou e tocou no meu cotovelo.
– E como vai você? Como foi a filmagem?
– Bem. E você?
Ele indicou uma poltrona perto da janela, onde poderíamos ficar a sós sem ninguém nos incomodar. Olhou o jardim um instante, em silêncio.
– Ah, estou ótimo. Bem, quase ótimo. – Deu um sorriso meio torto.
Não parecia ótimo, mas concordei com a cabeça.
– Que bom.
– Mamãe disse que você esteve ontem aqui com Adela.
– Viemos tomar chá.
– Imagino que meus pais queriam falar sobre a, digamos, confusão.
– Um pouco.
– O que disseram? – Eu não estava disposto a trair lady Uckfield com o filho. Achei o pedido dela invasivo e impróprio, mas não duvidei da sinceridade dos motivos. O filho parecia péssimo. Claro que ela queria acabar com aquilo, que mãe não ia querer? Não podia culpá-la, por isso dei de ombros. Charles continuou.
– Eles estão muito dispostos a apressar as coisas. Querem que eu “deixe tudo aquilo para trás”.
– Não seria melhor?
Ele olhou de novo para a janela. Era começo de maio e as flores que brotavam nos lindos canteiros bem cuidados deviam estar frescas e lindas, porém, como caiu uma chuvarada naquela manhã, estavam encharcadas e caídas. Para além do jardim, as árvores do parque tinham folhas, mas poucas, eram da primeira folhagem, de cores bem discretas, sem a fartura densa do auge do verão.
– Eles me obrigaram a ir para a Jamaica em novembro, com Clarissa e alguns amigos dela.
– Foi divertido? – Olhei Clarissa, ocupada em servir mais bebidas nas taças e copos. Charles acompanhou o meu olhar.
– Pobre Clarissa. Sim, foi muito divertido. Gosto da Jamaica. Bom, pelo menos de Ocho Rios. Já esteve lá? – Balancei a cabeça. – Minha querida mãe está tentando arrumar uma pretendente para mim. Não quer se arriscar de novo no mercado aberto. – Ele riu.
– Ela só quer que você seja feliz – eu disse.
Ele olhou para mim.
– Não é bem isso. Ela quer que eu seja feliz, mas, dessa vez, com alguém que ela saiba quem é. Tem medo do desconhecido. Edith era o desconhecido. Mamãe acha que está lutando pela minha felicidade e, acima de tudo, para evitar uma repetição. Não quer mais estranhos em Broughton. Edith e Eric foram suficientes.
– Bom, quanto a Eric, entendo bem a sua mãe – argumentei, e nós dois rimos.
Olhei de novo para Clarissa, que começava a lançar olhares meio nervosos na nossa direção como se percebesse que a nossa conversa não a favorecia. Lastimei. Era uma boa moça e saberia lidar bem com tudo aquilo, bem melhor que a pobre Edith. Por que não conseguia fazer Charles feliz? Mas, ao mesmo tempo que pensava tudo isso, sabia que era e continuaria sendo uma fantasia de lady Uckfield.
– Tem visto Edith? – ele perguntou.
Cometi de novo o mesmo erro de inúmeras outras vezes, sobretudo com Charles, de achar que bobos não têm grandes sentimentos. Não que Charles fosse exatamente bobo. Era apenas incapaz de uma ideia original. Mas eu agora sabia que tinha grande capacidade de amar. Especular sobre o motivo das escolhas amorosas é algo fascinante e sem fim e eu gostava de Edith desde que a conheci. Gostava da beleza dela, da sua leve ironia e do seu jeito naturalmente elegante, mas não entendia como tinha se tornado o grande objeto de amor daquele jovem que tinha tudo. Afinal, a maior qualidade dela como companhia era a ironia, que Charles não conseguia admirar, ou sequer entender. De certo modo, eu ficava tão intrigado quanto lady Uckfield por ele não escolher uma pessoa do mesmo nível, que conhecesse os hábitos e os outros integrantes do mundo dele, que presidiria associações de caridade, andaria a cavalo, administraria a aldeia com firmeza e, certamente, sem aquele senso de ridículo que Edith tinha por seus encargos. Mas tinha sido assim. Charles se apaixonou por Edith Lavery, com um amor desinteressado. Claro que ela deu um impulso na autoestima e até na vida dele, e o olhar que ele fez naquele instante mostrou bem que ainda gostava dela.
– Adela a viu outro dia num evento.
– Como estava ela?
– Bem, acho.
Era uma situação espinhosa, digamos assim. Eu não quis dizer que ela parecia desanimada para não dar esperanças que não iam se concretizar; também não queria dizer que ela estava muito feliz, pois isso seria doloroso para ele, o que também não precisava (além de falso, pelo que Adela me contou).
– Você vai encontrá-la de novo?
– Pensei em convidá-la para almoçar.
– Diga a ela... diga que faço o que ela quiser. Eu aceito. E mande a ela a minha afeição – pediu, e concordei.
* * *
Como era de se imaginar, David não gostou de sua ida ao Valhala. Realizar um sonho às vezes também desaponta. Talvez porque, em sua imaginação, David e seus similares se considerem como membros do círculo do charme, íntimos da metade dos nobres, trocando histórias sobre amigos de infância e fazendo planos de alugar uma villa na Toscana. É inevitável que essas tentativas de misturar-se acabem causando amargura e irritação, ao verem que são tratados friamente, como alienígenas por aquelas mesmas pessoas que eles passaram toda a idade adulta admirando e elogiando.
– Devo dizer que foi difícil aguentar aqueles Bohuns – David resmungou, ao entrar no banco de trás do meu carro. – Você os conhece?
– Só o conheci, e pouco.
– É mesmo? Não sei o que achei dele.
Sorri.
– É um débil mental. E ela?
– Bem complicada, eu diria.
Isabel concordou com a cabeça.
– Diana Bohun tomou uma decisão difícil, com a única vantagem de ser invejada por estranhos. Não sei até quando ela vai aguentar. Tenho certeza de que daqui a cinco anos vamos ler nas colunas que ela fugiu com o médico local.
Adela balançou a cabeça.
– Não, não leremos. Conheço-a desde o começo. Ela seria capaz de ficar com Hitler, se ele trouxesse junto um título e uma casa.
Isabel franziu o cenho.
– Eu preferia ficar com Hitler.
Fiquei interessado na conversa por que, mesmo ridicularizando a lastimável hipocrisia de Diana Bohun, tinha certeza de que Adela, David e até Isabel aprovavam o pacto que ela fez com o diabo, por mais que falassem. Talvez nenhum dos três estivesse disposto a casar com alguém que lhes desse repulsa, mas as moças que eles conheciam que fizeram isso (minha agenda de telefone tinha pelo menos sete) não eram pessoas que eles desprezassem, a menos que desistissem do casamento. Para os habitantes daquele mundo, esse tinha sido o verdadeiro pecado de Edith. Não o pecado de casar-se com Charles sem gostar dele, mas de largá-lo por gostar de outro. Para eles, a loucura foi largar os falsos valores que aceitou ao casar-se e tentar voltar aos valores eternos. A decisão não foi mondaine. Os americanos parecem apreciar isso nas obras de ficção que fazem (e até na vida real), mas os ingleses (pelo menos de classe média alta e alta), não. Para os americanos, a abdicação do príncipe Eduardo VIII, por exemplo, é vista como “meu reino por um amor”, enquanto os ingleses (pelo menos um certo tipo de inglês) consideram o fato apenas pueril, irresponsável e absurdo.
E foi por esse padrão que Edith foi julgada e reprovada.