Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 3 de 23

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Esnobes

Três

 

 

EDITH ESTAVA SENTADA À PENTEADEIRA, banhada e cheirosa, pronta para maquiar-se, fazer seu rosto social. Não disse à mãe exatamente com quem ia jantar e ficou pensando por quê. Stella ficaria muito satisfeita se soubesse, claro. Exatamente por isso, a filha não contava. De todo jeito, a essa altura, Edith não tinha a menor ideia se, como dizem as revistas, havia algum futuro naquilo.

Edith Lavery não era uma garota promíscua mas, àquela altura, claro que não era virgem. Tinha tido vários namorados. Nada sério até os 23 anos, quando teve um caso com um corretor cinco anos mais velho e muito atraente. Ficaram juntos por cerca de um ano, foram a muitas festas, apreciavam quase as mesmas coisas e estavam felizes ou, pelo menos, tão felizes quanto as outras pessoas. Ele se chamava Philip, tinha uma mãe muito importante, algum dinheiro (o suficiente para irem ao Clapham) e parecia tudo ótimo, por isso ninguém levou um susto maior que Edith quando, uma noite, ele anunciou que tinha outra e estava tudo acabado. Edith demorou um instante para entender. Em parte, porque ele resolveu contar no San Lorenzo, em Beauchamp Place, onde as pessoas das duas mesas próximas ouviram tudo, e, em parte, porque, com toda a modéstia, não conseguia imaginar o que essa outra podia ter que ela, Edith, não tivesse. Os dois se gostavam, faziam um bonito par, gostavam de passar os fins de semana no campo e esquiar no inverno. Qual era o problema?

De todo jeito, Philip terminou a relação e três meses depois Edith recebeu o convite de casamento. Ela compareceu, foi muito simpática e (como pretendia) estava estonteante de tão linda. Claro que a noiva era mais simples que Edith e meio vulgar, mas olhava para o noivo como se ele fosse o próprio Deus sobre a Terra, e Edith teve a incômoda impressão de que seu erro tinha sido esse.

Depois disso, teve vários pretendentes e mais nada. Um deles, um corretor imobiliário chamado George, durou uns seis meses, mas só por ter sido o primeiro amante competente; os prazeres aos quais foi apresentada fizeram com que não enxergasse os defeitos dele até o dia em que a levou às regatas de Henley achando, coitado, que era um evento elegante. Quando os dois estavam almoçando na tenda de um sócio, ela olhou-o do outro lado da mesa, dando sua risada alta e pastosa, e concluiu que era realmente grotesco. A partir daí, foi só uma questão de tempo.

Os pais lastimaram muito o fim da relação com Philip, gostavam dele; não lastimaram nem um pouco quanto a George e não disseram nada sobre os outros que tiveram uma rápida passagem por Elm Park Gardens. Porém Edith começou a notar que, depois que ela fez 27 anos, a mãe passou a dar discretas insinuações, meio de brincadeira e meio preocupadas. E, pela primeira vez, ela sentiu um leve e remoto pânico. Vamos supor, só para argumentar, que ninguém a pedisse em casamento: o que ela faria?

O que, pelo amor de Deus, ela faria?

Mas, pensou, tirando os rolos de cabelos aquecidos e pegando sua escova Mason Pearson, tudo podia mudar tão rápido. Ser mulher não era como ser homem. Os homens ou nasciam com dinheiro, ou levavam anos ralando no trabalho para enriquecer, enquanto as mulheres ... um dia podem ser pobres e no outro, ricas – ou, pelo menos, casadas com um homem rico. Podia ser deselegante admitir isso mas, mesmo hoje em dia, a vida de uma mulher pode mudar completamente graças à aliança certa.

É fácil concluir por essas reflexões que, a essa altura da vida, Edith fosse apenas e simplesmente mercenária, mas seria injusto pensar isso. E ela estranharia. Se alguém perguntasse se era interesseira, responderia que era prática; se perguntassem se era esnobe, diria que era experiente. Afinal de contas, lia romances, ia ao cinema, sabia o que era felicidade, acreditava no amor. Mas via sua futura ocupação como, em primeiro lugar, social (como não?) e, portanto, como fazer algo que merecesse esse nome sem ter dinheiro e status? Claro, na década de 1990, acreditava-se que tais ambições fossem ultrapassadas, mas Edith não ia abrir correndo uma rede de academias de ginástica, ou lançar uma nova revista nas bancas. Quanto a uma profissão, ela havia perdido a vez dez anos antes, quando parou de estudar. Mas não era mais considerado um erro ser ambiciosa. A geração do arroz com nutrientes e do vestido rodado da infância tinha chegado a um mundo mais agitado, pós-thatcheriano. E os sonhos dela não estavam, de certa maneira, de acordo com essa mudança?

Mesmo assim, mesmo se ela fosse ambiciosa e admitisse com relutância que um homem abriria o caminho dourado da realização, não seria honesto dizer que Edith era basicamente uma esnobe. Pelo menos, comparada com a mãe. Ela dizia que preferia olhar de dentro para fora, em vez do inverso; tinha mais interesse em realização (ou poder, para usar um termo menos apreciado) do que em status. Queria estar no centro dos acontecimentos. Queria o vencedor, não o troféu. Até certo ponto. Não procurava um bem-sucedido zé-ninguém, mas também não procurava um conde. Daí, talvez, ter encontrado um.

Olhou bem sua imagem no espelho. Usava um vestido preto, curto, de seda rústica. Sua mãe chamaria de um pretinho, a eterna solução-reserva da mulher londrina. Era bem cortado, bem caro, e, além de um bracelete de platina francês, Edith não usava enfeites. Estava bonita, elegante e com aquele leve toque de austeridade que alguns homens ingleses acham provocante. Estava contente. Não era convencida, mas ficava contente (para não dizer aliviada) por não ser feia. A campainha tocou.

Pensou em pedir para Charles esperar na porta do prédio, mas ele podia achar que ela estivesse escondendo algo bem mais grave do que um pai comum e uma mãe esnobe, então pediu para subir e apresentou-o no estilo americano, sem sobrenomes. Era um costume moderno, que ela não apreciava muito, já que dispensava a única parte do nome que informava alguma coisa sobre a pessoa. A mãe venceu a partida assim que Edith entrou em campo.

– Charles de quê? – perguntou, enquanto Kenneth preparava drinques para todos.

– Broughton.

Charles sorriu. Edith viu a ficha cair com um ping silencioso, mas não era por nada que a mãe era eterna admiradora de Elizabeth I: manteve a máscara sorridente, porém imóvel.

– E como conheceu Edith?

– Em Sussex, na casa dos meus pais.

– Quando fiquei hospedada com Isabel e David.

– Ah, quer dizer que você conhece os Easton?

Charles concordou e Edith ficou agradecida. Ele não estava preparado para dizer “não, eu não os conheço, nem fomos apresentados numa pequena reunião. Conheci sua filha quando ela pagou entrada para visitar o lugar onde moro”. Seria exato, mas faria com que a noite começasse mal. Após escapar dessa saia-justa, Edith colocou um ponto final na conversa para não correr outro risco. Assim, em vez de nervosa, ela estava bem aliviada quando os dois se instalaram no reluzente Porsche que os aguardava à porta do prédio.

– Pensei em irmos ao Annabel’s.

– A essa hora? – ela estranhou, sem pesar bem as palavras.

– Não gosta da ideia? Não somos obrigados a ir lá.

Charles pareceu um pouco ofendido e ela se sentiu meio mesquinha em arrasar com o que ele achava ser uma grande sugestão. Só de pensar que ele tinha programado uma noite com ela era bem gratificante.

– Ótimo.

Edith deu um sorriso caloroso para o rosto sincero e agradável dele, meio oculto no escuro. – Estranhei só porque sempre fui ao Annabel’s mais tarde. Acho que nunca jantei lá. Gosto muito.

Ele deu partida e os dois ficaram em silêncio até o carro parar à entrada do famoso porão na Berkeley Square. Charles saiu e entregou as chaves a um porteiro. Edith sempre foi ao Annabel’s com acompanhantes que estacionavam na praça e iam a pé até a boate. Era uma sensação agradável estar com alguém que não precisava economizar. Desceram a escada e passaram pela porta no final dela. Charles entrou e ouviram-se inúmeros “boa-noite, senhor”.

O bar estava vazio e o restaurante, mais ainda. A pista de dança deserta parecia escura e esquisita, com seus espelhos pretos refletindo o nada. Charles ficou confuso e depois, constrangido.

– Você tinha razão, é muito cedo. Acho que aqui só anima depois das dez. Quer ir a outro lugar?

– Não, não – respondeu Edith com um leve sorriso, enquanto os dois se instalavam nas banquetas do bar. – Agora, sugira um prato do cardápio.

Ela ainda não tinha uma conclusão a respeito de Charles, mas garantia uma coisa: aquela noite ia ser um grande sucesso se a agradasse. O cardápio propiciou alguns minutos de começo de conversa. Charles entendia de comidas e bebidas, gostou de assumir o comando, embora, na verdade, ela só tivesse pedido a ajuda dele para fazer de conta que era uma moça indefesa e ingênua. Não queria, de maneira alguma, que ele começasse a se desculpar por coisa alguma. Edith tinha aprendido isso. Ele escolheu bem os pratos e o jantar foi ótimo.

Charles Broughton não era exatamente bonito. Tinha o nariz grande demais e a boca fina demais. Mas, à luz de velas, era atraente. Muito distinto, como diria a babá que ela teve. Parecia tanto um cavalheiro inglês que podia fazer parte da Central Casting e Edith sentia uma grande atração física por ele. Bem mais do que tinha pensado. E notou, surpresa, que estava ansiosa para ser convidada para dançar.

– Fica muito tempo em Londres? – ela perguntou.

Ele negou com a cabeça e acrescentou:

– Não, pelo amor de Deus. O menos possível.

– Então está sempre em Sussex?

– Quase sempre. Temos casa em Norfolk também. Preciso ir lá de vez em quando.

– Engraçado, achei que você tivesse uma vida social agitada.

– Eu? Você está brincando. – Ele riu alto. – Por quê?

– Não sei.

Não sabia, mas preferiu não dizer que tinha lido sobre ele em várias colunas sociais. Como os dois tinham se encontrado em Ascot, tudo parecia se encaixar na imagem de muita diversão. Foi uma impressão errada, que durou só até ser esclarecida.

Na verdade, como quase todo ser humano, Charles ia a festas se fosse convidado e se não tivesse outra coisa para fazer; tinha poucos amigos (com certeza, não fez muitos nos últimos anos) e se considerava apenas um homem do campo, ajudando o pai a administrar as propriedades e as residências que Deus achou por bem lhes confiar. Não questionava nem rejeitava sua situação, mas também não tirava proveito. Porém, se tivesse algum dia pensado em herança e status, teria concluído que teve muita sorte. Mas não ia dizer isso alto.

Ao contrário do que Edith pensava, não a levou ao Annabel’s como parte de uma estratégia romântica. Na verdade, gostava de levar as garotas aos lugares onde era conhecido, embora não admitisse isso para si mesmo. Ser reconhecido trazia um tempero ao jantar, coisa que o anonimato não fazia. Chegou a vez dele falar.

– Você morou muito no interior?

– Não muito, na verdade.

Assim que falou, Edith percebeu que foi uma resposta estranha, pois não morou no interior nem por meia hora. A não ser que se considerasse o tempo que passou no colégio interno, o que evidentemente não contava. Mesmo assim, gostava do interior. Tinha ido muito. Fazia caminhadas por trás dos campos de caça. Cavalgava. Não tinha sido uma grande mentira. Ela explicou:

– Por causa do trabalho do meu pai.

Charles concordou com a cabeça.

– Imagino que ele precise viajar muito.

Edith deu de ombros.

– Bastante.

Na verdade, nos últimos vinte e dois anos, Kenneth Lavery tinha viajado pelo metrô de Londres, rumo ao mesmo escritório no centro. Teve de ir a Nova York uma vez e outra vez a Roterdã, e só. Essa pequena falta de verdade jamais foi corrigida. Charles ficou para sempre com a impressão de que o pai de Edith tinha sido uma espécie de mago internacional dos negócios, circulando a bordo de jatos entre Hong Kong e Zurique. Mas, ao dar essa falsa impressão, Edith mostrava que tinha entendido Charles bem. É menos pequeno-burguês um homem de negócios que está sempre com jet lag do que um escravo do trabalho comprando bilhete para a linha Piccadily norte. Charles apreciou isso.

O tempo tinha se passado e a boate estava enchendo.

– Charlie!

Edith viu uma bonita lourinha num elegante vestido noturno de lantejoulas se inclinar sobre eles. Estava acompanhada, ou melhor, arrastava um homem obeso, uma baleia num terno que devia ter uma tonelada de lã, com uma gravata grande, de bolinhas. Quando se aproximaram da mesa, Edith viu fios de suor escorrendo sem parar pelo pescoço gordo e vermelho dele, atrás das orelhas.

– Estes são Jane e Henry.

Charles se levantou e mostrou Edith.

– Conhecem Edith Lavery? Henry e Jane Cumnor.

Jane apertou a mão de Edith de maneira rápida e solta, depois virou-se para Charles, sentou-se e serviu uma taça do vinho deles.

– Estou com a boca seca. Como vai? O que houve com você em Ascot?

– Nada. Fiquei lá.

– Pensei que fôssemos jantar juntos na terça. Com os Weatherby, não? Procuramos você por horas até que desistimos. Camilla ficou muito desapontada. – A lourinha deu um meio sorriso para Edith, querendo que ela entendesse a piada. Na verdade, estava querendo excluí-la, claro.

– Bom, não era para ficar desapontada. Avisei a ela e a Anne que naquele dia eu tinha de almoçar com meus pais.

– Claro que esqueceram completamente. Está bem. Aliás, conte: você vai para a casa de Eric e Caroline em agosto? Eles juram que vai, mas não faz muito o seu estilo.

– Por quê?

Jane mexeu os ombros com um movimento sinuoso e lento.

– Não sei. Sempre achei que você detestasse calor.

– Não resolvi ainda. Vocês vão?

– Não sei, não é, querido?

Ela segurou a mão balofa do marido, que bufava de calor.

– Nós estamos muito por fora das coisas em Royton. Depois que Henry virou político, mal paramos em casa. Tenho a desagradável impressão de que vamos ficar enfiados lá o verão todo.

Ela abriu de novo o sorriso para incluir Edith.

Edith sorriu também. Estava acostumada com aquela curiosa necessidade que a classe alta tinha de mostrar que todos se conhecem e fazem as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Talvez fosse um exemplo incomum da mentalidade exclusivista mas, bastava olhar para lorde Cumnor (também conhecido como Henry, a locomotiva verde) para concluir que Jane tinha feito muitos sacrifícios para chegar à posição em que estava. Seria difícil ela abrir mão disso, mesmo por um instante, como se não tivesse muita importância.

– Você se dedica muito à política? – Edith perguntou a Henry, que parecia estar se recuperando do esforço de atravessar o salão.

– Sim – respondeu, e virou-se para os outros.

Edith estava prestes a ter pena dele, mas viu logo que o próprio não se compadecia de si. Estava muito feliz do jeito que era. Da mesma forma que estava feliz em mostrar que conhecia Charles e não conhecia Edith. Porém Charles não queria que o casal tratasse mal a moça que ele tinha convidado para jantar e, firme e forte, fez a conversa voltar para ela.

– Henry ficou muito sério depois que assumiu o cargo. Qual é a sua causa mais recente: lutar pelo fornecimento de comida vegetariana orgânica nos presídios?

– Ha, ha, ha – riu Henri.

Jane veio socorrer o marido.

– Não seja bobo. Ele fez muita coisa pelo regime alimentar no país, não foi, querido?

– O que não significa praticar o regime, acho – apartou Charles.

– Você agora ri, mas eles vão atrás de você quando seu pai bater as botas. Você vai ver – disse Jane.

– Não, não virão. Na próxima eleição, o Partido Trabalhista vai ganhar e vai acabar com as heranças antes que você consiga abrir a boca.

– Não seja tão pessimista.

Jane não queria tomar conhecimento de que aquele mundo onde ela havia colocado todas as esperanças estava prestes a acabar.

– Eles vão levar anos para achar uma solução melhor para os lordes, não têm pressa.

Charles levantou-se e convidou Edith para dançar.

Ela olhou meio indecisa e os dois abriram espaço na pista que, a essa altura, estava lotada de banqueiros iranianos com suas amantes.

Ele sorriu.

– Henry é legal.

– É muito seu amigo?

– É uma espécie de primo. Conheço-o desde criança. Céus, como está gordo, não? Parece um balão.

– São casados há quanto tempo?

Ele balançou a cabeça:

– Uns quatro, cinco anos.

– Têm filhos?

Ele fez cara feia. – Têm duas filhas, coitado do Henry. Setchell, o obstetra da rainha, obrigou-o a parar de tomar vinho e comer queijo e só Deus sabe o que mais.

– Por quê?

– Para conseguir um filho homem, claro. O bendito menino.

– O que acontece se eles não tiverem um?

Charles franziu o cenho.

– Ele não tem irmãos. Acho que algum sujeito na África do Sul herda o título de lorde, mas não sei se ele ou as meninas recebem a grana. Mas os dois são bem jovens. Vão insistir mais um pouco, acho.

– Pode ficar caro.

– Sem dúvida. Nunca se sabe quanto tempo vai demorar. Pensa nos Clanwilliams. Desistiram na sexta filha e hoje a situação ainda está pior.

– Por quê?

– Por que você acha? Meninas também precisam frequentar boas escolas.

Dançaram em silêncio um pouco, com Charles de vez em quando cumprimentando conhecidos na pista. Felizmente, Edith reconheceu duas garotas da temporada de debutante e abriu largos sorrisos para elas. Quando as duas reconheceram o par de Edith, retribuíram o cumprimento e assim ela se sentiu menos invisível. Os dois voltaram para a mesa e ela começou a achar que estava se divertindo muito.

Henry e Jane estavam no mesmo lugar e, quando Edith e Charles se aproximaram, Jane levantou-se rápido e pegou na mão de Charles.

– Agora vai dançar comigo. Henry detesta dançar. Vamos.

Levou Charles de volta à pista, deixando Edith sozinha com o marido suíno.

Ele deu um sorriso vago.

– Ela sempre diz isso. Não detesto dançar. Quer comprovar?

Edith negou com a cabeça.

– Desculpe, mas só se você quiser demais. Estou exausta.

Ela estremecia só de pensar em ser apertada naquele travesseiro de gordura.

Ele aceitou a recusa e fez um ar filosófico. Óbvio que estava acostumado a ser recusado.

– Conhece bem Charles?

– Não. Nós nos conhecemos há pouco tempo no interior, depois nos encontramos em Ascot e pronto.

– Em que lugar? Com quem?

Ele se empertigou, interessado por aquela oportunidade de fazer um pouco mais de intercâmbio de nomes.

– Com os Eaton, em Sussex. David e Isabel. Conhece?

Ela sabia muito bem que não os conhecia. Estava certa.

– Conheço Charles por toda a minha vida.

Edith vasculhou a cabeça à procura de um comentário.

– Acho que não conheço ninguém por toda a minha vida. A não ser meus pais – acrescentou, com um riso.

Henry não achou graça.

– Ah! – exclamou.

Ela tentou de novo.

– Quem são Eric e Caroline?

– Caroline é irmã de Charles. Conheço a vida toda também. – Inclinou de leve a cabeça, satisfeito com essas relações duradouras. – Eric é o cara com quem ela acaba de se casar.

– Suponho que você não o conheça a vida inteira.

– Vi pela primeira vez no casamento.

– Ele é simpático?

– Não sei. – Claro que ele achava que Caroline tinha cometido um grave deslize com o casamento. Aquela união de dois estranhos foi uma miscigenação horrível. Edith sentiu que estava prestes a cometer um solecismo só de falar sobre o intruso.

– Onde fica Royton?

Dessa vez, a cara de Henry demonstrou mais desagrado do que surpresa. Só uma excêntrica podia não conhecer Royton.

– Em Norfolk.

– É bonito?

Edith começou a achar que seu esforço para entreter Henry era parecido com arar montanhas de terra. Ele deu de ombros e olhou a garrafa de vinho para servir mais uma dose.

– As pessoas acham que sim.

Edith abriu a boca para mais uma tentativa, fechou. Não era a primeira vez que era tiranizada pela incompetência social de alguém. Faz-se um enorme esforço para manter uma conversa apenas para impedir que tais idiotas percebam a própria incapacidade. A ironia é que eles não têm qualquer noção da própria incompetência. Se Henry porventura notasse que a conversa estava difícil de engrenar, culparia logo Edith por não conhecer ninguém interessante. Antes que o silêncio ficasse opressivo, Charles e Jane voltaram e os três passaram o resto do tempo comentando sobre mais gente da qual Edith nunca tinha ouvido falar.

– Que noite ótima – ela disse, quando o carro parou na frente do prédio dos pais. Charles não quis estacionar, portanto sabia que a noite não teria um final com sexo.

– Fico satisfeito por você ter gostado. Pena que ficamos com gente chata.

– Não precisa lastimar. Gostei deles – ela mentiu.

– Gostou? Que bom. – Ele parecia um pouco ansioso.

– Henry me falou sobre Royton.

Ele concordou com a cabeça, estava de novo pisando em território conhecido.

–– É, eles são meus vizinhos lá. Na verdade, conheço-os por isso.

– Pensei que fossem primos.

– Bom, são. De um casamento realizado lá por 1830. Mas eu os conheço por serem nossos vizinhos.

– Que ótimo.

– É mesmo. Não sei como o velho Henry está administrando a propriedade, mas é simpática. De todo jeito, ele tem um monte de dinheiro, então acho que não tem muita importância.

Era fácil concluir que Charles se considerava um ótimo administrador de Broughton.

Os dois se olharam um instante. Edith gostaria que ele a beijasse. Em parte, para ter certeza de que tinha sido um sucesso e, em parte, porque simplesmente queria beijá-lo. Ele se inclinou, desajeitado, e apertou os lábios nos dela. Duros e bem fechados. Ele se endireitou no assento do carro. “Ah”, pensou ela. “Mais para Philip do que para George. Ah, pois”. E disse:

– Boa-noite e obrigada de novo. Gostei muito.

– Que bom – ele aprovou, saindo de carro para atravessar a rua e levá-la até a porta. Mas não tentou beijá-la de novo ao se despedir, nem falou em outro encontro. Seria simpático pois, até aquele momento, ela não esperava muito mais daquela noite além da certeza de que Charles achou-a atraente, gostou da companhia dela e queria vê-la de novo. Mas agora que o final estava chegando, tão sem graça, ela ficou desapontada, com a impressão de perder uma chance. Tinha sido uma grande oportunidade, que desperdiçou sem saber como. Foi com essa sensação de fracasso que ela entrou no quarto sem fazer barulho para não acordar a mãe que estava deitada olhando para o teto, duas portas depois.

Ela não precisava desanimar. Não conhecia Charles, por isso interpretou mal a discrição dele. Como era visto como um prêmio, ele decerto aceitava essa imagem, mas não era assim. Ele achava que o responsável pelo sucesso da noite era ele e não Edith. Era tímido (não um tímido agressivo, mas autêntico) e assim, embora não conseguisse demonstrar, ficou muito satisfeito, ela pareceu apreciar a companhia dele. De fato, quando Charles enfiou a chave na porta do apartamento dos pais em Cadogan Square, foi com a cálida sensação de ter passado uma noite agradável. Gostou muito de Edith. Mais do que lembrava ter gostado de qualquer garota. Graças à hipocrisia de uma sociedade hipócrita, admirou-a ainda mais por fingir que tinha gostado dos Cumnor, apesar de eles (ou, pelo menos, Jane) terem sido grosseiros com ela a noite toda. Empurrou a porta e entrou.

O apartamento dos Uckfield em Londres ocupava o térreo e o primeiro andar de um daqueles prédios altos, de tijolos vermelhos, em estilo holandês da época eduardiana, que ficam na praça exclusiva, embora não exatamente bonita. Era uma moradia agradável, mobiliada com uma mistura bem dosada de conforto e suntuosidade que a mãe dele tinha aprendido com John Fowler e acabou personalizando. Os quadros pertenciam ao segundo acervo da família, cuidadosamente escolhidos para dar a impressão de tradição sem abarrotar os espaços. Os enfeites, os adornos, até as mesas e cadeiras mostravam o status da família, mas com discrição. Os objetos pareciam dizer “estamos aqui, mas esse lugar não mostra quem somos”. Nenhum membro da família, nem mesmo Caroline, que morou lá por quatro longos anos antes de casar, jamais se referia ao local como sua “casa”. A casa era em Broughton. Eles podiam dizer “vou ficar no apartamento na semana que vem”, ou “vou para o apartamento”, ou “que tal nos encontrarmos no apartamento?”. Muito bem, mas, quando diziam “vou para casa”, mesmo que estivessem no final de um longo jantar londrino, significava que naquela noite o Broughton em questão ia de carro para Sussex. Essa gente pode ter uma casa na Chester Square e alugar um pequeno chalé em Derbyshire, mas “casa”, com certeza, era só aquela com gramado em volta. Caso não disponham desse esconderijo, garantem que é fundamental para o bem-estar deles fugir, sempre que podem, da fumaça e dos prédios e correr para a casa de amigos no interior. Com isso, dão a entender que podem passar a vida no asfalto, ou atrás de uma escrivaninha na cidade mas, no fundo, são gente do campo. É raro achar um aristocrata que se sinta mais feliz em Londres – ou, pelo menos, que afirme isso.

Charles tinha um apartamento num terceiro andar em Eaton Place, uma bagunça de aposentos simples aos quais não dava muita atenção. O apartamento na Cadogan Square era mais simpático e mais confortável e ele podia levar qualquer garota e depois sair de lá com ela sem problema. Porém, talvez por Broughton resultar do apuro de muitas gerações, sempre que ia à base londrina da mãe, sentia sua marca. A verdadeira casa londrina da família, a mansão Broughton, tinha sido na St. James’ Square, mas foi destruída no ataque aéreo alemão, o que poupou-os, no final da guerra, da dura decisão que quase todos os conhecidos dele enfrentaram: era sensato sair da casa da cidade no final da guerra? Os avós de Charles compraram um apartamento meio abafado nas mansões Albert Hall, que a mãe dele recusou imediatamente. Foi ela quem escolheu e arrumou aquele apartamento inteiro como lugar perfeito para ficar quando, esporadicamente, uma obra de caridade e o lazer exigissem sua presença na capital.

Charles sentou-se para tomar um último uísque e pensou na mãe. Olhou o desenho muito bem emoldurado de lady Harriet Trevane (nome de solteira de lady Uckfield) aos 7 anos de idade. Tinha sido feito por Annigoni e colocado numa mesinha estilo regência perto da lareira da sala de visitas. Mesmo quando menina, com um laço de fita em meio aos cachos pretos, era possível reconhecer o olhar felino e firme. Dava também para encarar a verdade: a mãe não ia gostar de Edith. Ele sabia. Se Edith fosse apresentada como esposa de um amigo, a mãe ia gostar dela (caso chegasse a tomar conhecimento de sua presença), mas não seria bem recebida como namorada de Charles. E, se tal viesse a ocorrer um dia, Edith também não seria considerada sucessora de lady Uckfield, aquela a quem a mãe confiaria a casa, o título e a propriedade pela qual havia lutado tanto e por tanto tempo para conseguir.

Isso não significa que Charles não visse a mãe com bons olhos. Pelo contrário, gostava muito dela e achava que tinha motivo. Ele a via como a imagem de completa perfeição e apreciava o que via. Lady Uckfield gostava de dar a impressão de que recebeu tudo na vida de mão beijada. Não era verdade, como não era em relação ao resto da humanidade, porém ela preferia causar inveja do que de pena e, por toda a vida, preferiu, como diz a canção, “enfiar os problemas num saco e sorrir”. Em geral, isso não lhe custava muito, já que considerava seus problemas tão bobos quanto os dos outros. Mas Charles respeitava essa filosofia e gostava da mãe por isso. Só não gostava, talvez, de que ela, no esforço em manter uma “cara corajosa”, estivesse apenas sendo fiel aos princípios de seus pares.

A classe alta não costuma, em geral, reclamar de nada. Prefere “não comentar”. Se sofre um golpe no coração ou na carteira, prefere se recuperar com uma leve caminhada e uma bebida forte. A frieza deles já foi bem explorada pelos tabloides, mas não é que essas pessoas não tenham sentimento, é que não os demonstram. Claro que eles não consideram isso um defeito, assim como não admiram demonstrações públicas de emoção. Ficam realmente constrangidos com o sofrimento das classes operárias, com aquelas mães desoladas que chegam à igreja soluçando, apoiadas em parentes, aquelas viúvas de soldados fotografadas aos prantos com a “última carta que ele mandou”. A própria palavra “apoio psicológico” já estende um toldo de desgosto sobre qualquer bem-nascido. O que essas pessoas simples e desconsoladas não veem, claro, é que tais tragédias, coletivas ou pessoais (os danos de guerra, as mortes, os carros engavetados na rodovia M3), são talvez a única chance que elas têm de ficarem famosas. Pela primeira vez na vida, podem realizar aquele desejo muito normal de aparecer e ter seu sofrimento reconhecido. A classe alta não precisa disso. Já nasce famosa.

A única batalha materna que Charles conhecia realmente bem era a de lady Uckfield com a avó dele, a marquesa-viúva, que não tinha sido uma sogra fácil. Era filha (alta, magra, nariguda) de um duque, por isso não se impressionou muito com a linda lourinha que seu filho um dia levou em casa. A velha lady Uckfield tinha sido como uma rainha Maria para a nora, lady Elizabeth Bowes-Lyon, e o relacionamento das duas nunca foi amistoso. Mesmo depois de enviuvar e de Charles ficar adulto, ela continuou mudando as ordens que a nora dava para a governanta, comandando os jardineiros e substituindo os produtos encomendados na mercearia por outros mais “adequados”. Fez isso até o dia de sua morte, jamais lamentada.

Essas tentativas foram em vão e a grande briga delas teve como resultado direto a perda do poder. Ao pensar nisso, Charles sempre achava graça. Logo depois que foi destronada do posto de chatelaine de Broughton, a avó aproveitou que lady Uckfield estava em Londres e mudou a disposição dos quadros no salão. Quando a nora voltou e descobriu que sua arrumação tinha sido alterada, ficou tão furiosa que, pela única vez de que se tem notícia, armou o barraco, como se diz atualmente. O resultado foi uma gritaria de ambas as partes, certamente única nos anais do citado salão (pelo menos desde os tempos mais agitados do século XVIII). Para deleite dos serviçais que ouviam a discussão, lady Uckfield acusou a sogra de mal-educada, malcriada, velha metida. “Malcriada?” guinchou a viúva, selecionando o único xingamentos que a atingiu. “Malcriada!” repetiu, e saiu da casa pisando duro, decidida a não mais voltar. A mãe disse várias vezes a Charles que lastimava o acontecido e sentiu certamente um alívio quando a velha lady Uckfield cumpriu a promessa de não aparecer e passou a vir só de vez em quando a Broughton para participar dos festivais de sempre. A briga deu resultado: ninguém na aldeia teve dúvida de que a jovem marquesa assumiu o comando da casa e da propriedade.

Por essas e muitas outras razões, simples e complexas, Charles admirava a mãe e as regras que seguia. Chegava a admirar também o jeito como lidava com a pasmaceira do marido, sem jamais comentar ou demonstrar irritação. Charles sabia que, embora não fosse tão lerdo quanto o pai, não era rápido. A mãe tinha-o educado bem, sem deixá-lo muito consciente de suas deficiências, apesar de ele mesmo ter. Por tudo isso, gostaria muito de conseguir agradar à mãe, quando fosse para escolher a esposa. Adoraria chegar a uma festa típica escocesa, ou a um baile em Londres e encontrar exatamente a nora que sua mãe queria. Seria fácil. Certamente existia alguma herdeira (pertencente ao velho mundo o qual lady Uckfield conhecia e no qual confiava), que fosse bonita e atilada, pois a mãe não gostava das moças sem sal do condado, de cabelos escorridos e saias compradas em bazar de caridade. Tal garota precisava ter humor, ele se orgulharia dela, ficaria confiante e a chegada dela mudaria as coisas.

Porém, por mais que ele procurasse, essa moça nunca apareceu. Lindas jovens fizeram de tudo para agradá-lo mas... não eram exatamente aquela que ele queria. Devia ser porque Charles tinha uma única e absoluta certeza de que, como ele próprio, era simples, porém segura: se casasse apenas por amor, se encontrasse a companheira que estimulasse o corpo e a cabeça dele (as atividades de sua mente eram poucas, mas ele as valorizava), a vida que tinha sido planejada para ele seria boa e gratificante. Porém, se fizesse um casamento conveniente, mas desastroso, estaria perdido. Ele não aceitava o divórcio (pelo menos para o herdeiro dos Broughton) e, portanto, se fizesse um casamento infeliz, continuaria infeliz até morrer. Em resumo, era um sujeito de princípios e determinado – bem mais do que pensava, aliás. E isso complicava ainda mais o fato de se sentir atraído por uma mulher que, embora não fosse totalmente inadequada, nem uma rainha do pop, ou uma trapezista viciada em drogas, também não era a moça que a mãe dele esperava.

Foi então, com um toque de melancolia no coração que, dias após, Charles ligou para Edith e convidou-a para sair de novo.