Esnobes
Dezesseis
NUM FINAL DE TARDE, eu estava por acaso em Fulham Road resolvendo várias coisas e Adela tinha pedido para eu passar na Colefax and Fowler para pegar um rolo de fita de cetim encomendado semanas antes. Normalmente, eu não aceitaria a incumbência pois, na época (ao contrário de hoje), todos os funcionários de lá pareciam formados em alta descortesia, mas ela insistiu e o fato é que fui atendido por uma moça muito simpática. Como Adela esperava, a encomenda ainda não tinha chegado e a moça pareceu muito aborrecida com isso.
Eu estava ouvindo as merecidas desculpas e as habituais garantias de que a encomenda chegaria na semana seguinte, quando olhei para a rua e vi, percorrendo distraída as prateleiras de amostras, a mãe de Edith. Fazia exatamente dois anos que a tinha visto pela última vez, nas comemorações do casamento. Ao ver aquela alma perdida e sofrida, fiquei emocionado lembrando da figura triunfante, trêmula de satisfação, no salão vermelho de Broughton. Agora, tinha um olhar vidrado para as enormes pilhas de tecidos pelas quais passava sem ver nada. Nada, ou melhor, só o desmoronar de todos os seus sonhos que não paravam de surgir em sua cabeça como uma imagem maldita.
– Olá, sra. Lavery – cumprimentei.
Ela virou-se, conseguiu me localizar em alguma prateleira distante da memória e acenou um cumprimento.
– Olá – disse, num tom gélido e oco.
Depois soube que ela me condenava por ter apresentado Simon à família Broughton. Acho que com certa razão. Hoje, é comum as pessoas se eximirem de culpa, dizendo que “tal coisa teria acontecido de qualquer jeito”, mas não tenho muita certeza. Nossas vidas, em sua maioria, não são a realização de um destino inexorável recebido ao nascer, mas o resultado de inúmeros fatos fortuitos. Se Edith jamais tivesse conhecido Simon (ou só tivesse conhecido depois de ter um filho), é pouco provável que tudo aquilo tivesse acontecido. Mas ela o conheceu. E aconteceu. E eu os apresentei.
– Tem visto Edith? – perguntei. Estávamos ficando com a desagradável impressão de que a filha ficava ali como se fosse o Banquo, de Macbeth, nos deixando desconfortáveis. Achei mais simples normalizar a situação tocando no assunto.
– Não muito. Mas ela... eles vêm jantar hoje. Então terei notícias – ela disse, hesitante.
Concordei com a cabeça e acrescentei:
– Mande lembranças.
Mas a sra. Lavery não queria me deixar ir embora.
– Creio que você conhece ele. Aquele sujeito.
– Simon? Sim, conheço. Não muito, mas fizemos um filme juntos. Em Broughton. Foi assim que eles se conheceram.
– É. Ele é simpático? – perguntou, olhando para o chão um instante.
Aquilo me emocionou. A sra. Lavery estava se esforçando para ser uma boa mãe e não se prender aos valores eternos ao falar no novo namorado da filha, embora nós dois soubéssemos que, mesmo se Simon fosse o homem mais maravilhoso da Europa, jamais compensaria a perda de Charles.
– Muito simpático. Do jeito dele – respondi.
– Você não viu mais Charles depois de... do que aconteceu?
– Vi, sim. Almocei com ele outro dia.
A sra. Lavery ficou surpresa. Imagino que, na fantasia romântica que fazia a respeito do mundo do genro, tinha criado divisões bem mais rígidas do que existiam. E minha resposta deu a entender que não incentivei a loucura de Edith. A sra. Lavery ficou bem mais amável. Claro que, àquela altura, tinha se convencido de que seu afeto por Charles era sincero, baseado apenas nas qualidades dele. Não era, mas nem por isso deixava de existir.
– Como está ele? Gostaria muito de vê-lo, mas... – Ela não terminou a frase, tão mal estava.
– Oh, tenho certeza de que ele adoraria ver você – menti. – Ainda está muito abatido.
– Ah, era de se esperar. – Suspirou, triste e desesperançada. – Preciso ir, eles chegam às oito e ainda não fiz nada para o jantar.
Saiu da loja, os ombros caídos ao abrir a porta pesada da loja. A última vez que eu a havia visto, ela parecia um personagem de uma comédia frívola de Coward. Agora, parecia a Mãe Coragem.
* * *
Simon estava estranhamente nervoso quando os dois passaram pela King’s Road e o Vale em direção a Elm Park Gardens. Ficava mexendo na gravata toda vez que o carro parava num sinal e, quando chegaram mais perto do apartamento, começou a roer as unhas. Edith estava ficando irritada e tensa. Não sabia se ele estava preocupado por achar que os sogros eram muito mais importantes do que na verdade eram, ou por ele estar fazendo o papel de destruidor de lares felizes. De qualquer modo, esperava que ele relaxasse, pois a noite já não ia ser fácil.
– O que você tem? – ela perguntou.
Simon apenas sorriu e balançou a cabeça. Ele mesmo não sabia direito o motivo daquela inquietação, embora realmente considerasse os Lavery mais sofisticados do que eram. Tinha uma ideia meio indefinida das nuances da sociedade londrina e, como não conhecia a alta roda, não sabia que Edith era uma intrusa no meio, quando se casou. Como ele ainda considerava sua nova amante muito chique, achava que seu passado também fosse marcante. Mas não era essa a causa do nervosismo dele naquela determinada noite. Provavelmente, era um mero protesto por aquela formalização do relacionamento, aquela apresentação aos pais parecia colocar uma espécie de carimbo de permanência em algo que a princípio era pouco mais que um caso. Mesmo naquele momento, ele não achava que estivesse caminhando para o “divórcio”, a “divisão de bens”, a “pensão”, a “custódia dos filhos” e todos os demais termos e frases deprimentes. Mas era isso que ele parecia ter de enfrentar, de repente. Imaginava que o sr. Lavery faria alguns rodeios até perguntar quais as “intenções” dele e, sinceramente, ele não tinha intenção alguma, pelo menos nenhuma definida. Olhou então para Edith e a achou tão adorável; sabia que o perfil dela era muito melhor que o de Deirdre, que parecia sempre meio insignificante quando visto de lado, e achou que, afinal, podia ser pior. Assim, tranquilizado e animado, saiu do carro.
A sra. Lavery tinha contado ao marido do encontro na Colefax. A conversa ficou dando voltas na cabeça dela até que resolveu fazer um quadro positivo. Enquanto cozinhava para o amante da filha, perguntou alto em direção à sala:
– O que será que ele quis dizer com “abatido”?
Kenneth Lavery estava quase tão infeliz quanto a esposa em relação à reviravolta dos fatos, porém por motivos mais honrosos. Detestava que sua querida “princesa” estivesse envolvida num escândalo público. Detestava ver o desespero da esposa. E tinha de admitir que a filha tinha jogado fora um poder com o qual poderia conseguir muitas coisas boas, em vez de preferir um lugar que mal fazia parte da sociedade decente. Tinha se orgulhado da filha como grande dama e ficou triste com o final da história. Dito isso, encarava a maluquice de Edith com um olhar bem mais filosófico do que a esposa. Ao contrário dela, nunca se iludiu de que o casamento de Edith fosse fazer muita diferença em sua vida.
– Acho que ele quis dizer isso mesmo. Charles está abatido. Claro que está, a esposa acaba de largá-lo por outro homem. Você queria que estivesse como?
Stella Lavery enfiou a cabeça na porta da cozinha.
– Tive a impressão de que Charles ainda não se acostumou com a ideia. Não seria bom, talvez, falar com ele...? – A voz dela sumiu, enquanto o marido balançava a cabeça devagar, de um lado para outro, firme.
– Minha cara, não foi Charles quem quis terminar o casamento. Não interessa o que ele pensa. Não é o culpado. Também não acho bom mexer com ele. Talvez esteja esquecendo dela, talvez não. De todo jeito, não vai ajudar nada você dar esperanças. Ele é uma pessoa ótima e nossa filha se comportou muito mal. Acho melhor sairmos da vida dele.
Dito isso, voltou a assistir à televisão.
A esposa não se magoou pois, no fundo, concordava com o marido. Por mais que quisesse mostrar uma tolerância moderna, o fato era que estava muito, muito envergonhada com a atitude de Edith. Sempre achou que a filha tinha todas as condições de ter um grande papel na vida pública da Inglaterra. A sra. Lavery ficava devaneando quando via aquelas damas de companhia em volta da rainha no Parlamento, em seus vestidos estilo Hartnell da década de 1950; e que ela própria, Stella Lavery, teria aceito o título de duquesa de Grafton ou condessa de Airlie, caso o destino houvesse por bem lhe conceder. Sabia que cumpriria bem suas obrigações mesmo se, como na história da Pequena Sereia, os degraus fossem de lâminas de facas. E passou todas essas fantasias para a filha que, milagrosamente, realizou-as. Mas agora, em vez de ser participada de que Edith tinha assumido a presidência da Cruz Vermelha, ou tinha ido ao palácio de uma das princesas, o telefone tocou para informar que estava tudo terminado. O sonho dela tinha acabado. Para completar esse mar de lama no qual tinha sido jogada, tinha a amargura de saber que Londres inteira condenava e as pessoas diziam que, no final das contas, Charles tinha se casado com uma mulher inferior a ele, Edith não era ninguém e não conseguiu “lidar com a situação”, ele não devia ter se casado fora do seu meio.
A campainha tocou, mas, antes que eles abrissem a porta, Edith entrou e ficou procurando-os pelo apartamento. Os amantes entraram na sala e Edith correu para beijar o pai, que deu um abraço afetuoso. Ela viu que pelo menos com ele não haveria problema e apresentou-o a Simon. Deu uma olhada na estátua gélida da mãe emoldurada na porta da cozinha e viu tudo o que ia enfrentar na noite que se iniciava.
A sra. Lavery se adiantou, dura, e estendeu a mão. Não conseguia sorrir e, de certo modo, foi quase um alívio, assim que Kenneth foi buscar as bebidas, ela cortar a tentativa canhestra de Simon para conversar e foi direto ao assunto:
– Sr. Russell, o senhor deve saber como tudo isso é difícil para nós.
A sra. Lavery ignorou de propósito a sugestão para que o tratasse por Simon e com isso conduziu o encontro de maneira meio parecida com sua ídola, lady Uckfield. Claro que a lady teria sido mais afável.
– Nós gostamos muito do nosso genro. Portanto, perdoe se não nos atiramos aos seus braços.
Simon sorriu e apertou os olhos do jeito que costumava fazer muito efeito.
– Ninguém é obrigado a se atirar nos meu braços – ele disse, alegre.
A sra. Lavery não retribuiu o sorriso. Não que fosse imune à atração física. Notou logo que Simon era um dos homens mais bonitos que ela já tinha visto e achou que foi esse o motivo da desgraça da filha. Simplesmente. Naquele momento, ela pegaria de bom grado uma faca e cortaria a cara dele, se isso fizesse Edith mudar de ideia.
– Minha filha tinha, ou melhor, tem um marido ótimo. Evidente que o senhor sabe o que está fazendo, mas é um sofrimento para nós ela terminar o casamento.
– Não estariam sofrendo tanto se eu tivesse largado Simon para ficar com Charles – disse Edith.
Era totalmente verdade. Tanto que o sr. Lavery parou de sorrir quando voltou com a bandeja e os copos, mas Edith tinha esquecido que a mãe assumiu o papel de Hécuba, a nobre viúva. Na mente arrasada de Stella, ela e Guga Uckfield eram duas damas de berço ilustre vítimas de um grande desastre (ela se referia a lady Uckfield como Gugu, mas ainda não a tratava assim. E agora, lastimou, não teria mais a oportunidade.) O sofrimento dela não tinha lugar para a ironia. Olhou a filha com os olhos rasos de lágrimas.
– Você não me conhece direito – disse, e retirou-se majestosamente para a cozinha. Edith, o pai e Simon se entreolharam.
– Bom, todos nós sabíamos que não seria uma noite fácil – concluiu o sr. Lavery, bebendo seu uísque.
Mais tarde, sentados à imitação de mesa oval na modesta sala de jantar do apartamento, os quatro conseguiram ter uma conversa quase normal. O sr. Lavery fez perguntas a Simon sobre o mundo artístico; Simon fez perguntas ao sr. Lavery sobre o mundo dos negócios; a sra. Lavery serviu o jantar, tirou a mesa e passou a noite fazendo comentários cuidadosamente corteses. Ela possuía aquele típico talento inglês para mostrar com modos cuidadosamente educados como detestava determinada pessoa. Era capaz de sair de uma sala arrasada e rejeitada e, mesmo assim, se parabenizar por ter se comportado muito bem. Claro que é a maneira mais agressiva de demonstrar isso, pois não permite reação. Mesmo no auge da agressividade, mantém-se o alto nível moral.
Edith olhou os três rostos familiares e se perguntou o que estava realmente ocorrendo. Seria aquele o início de uma nova aliança que moldaria seu futuro? Aquelas três pessoas iriam acompanhá-la pelos próximos vinte Natais? Simon e a mãe dela ficariam amigos, falariam nos filhos e ririam de uma piada que só eles sabiam? Lindo como Simon era e desejando-o tanto como continuava a desejá-lo, Edith ficou impressionada com a ar lúgubre de todos naquela noite.
Ela havia passado os dois últimos anos na linha de frente da vida inglesa e, ao pensar, se surpreendeu ao ver como tudo aquilo tinha se tornado normal para ela, até, claro, sair de cena. Enquanto viveu em Broughton, ficava arrasada com a falta de acontecimentos, com o vazio de sua vida cotidiana. Mas agora que estava fora, era raro o dia em que um de seus conhecidos com Charles não fosse notícia nos jornais. Lembrando que na época reclamava que os dois não faziam nada, pensou nos jantares onde tinha ficado de frente para algum rosto meio famoso do ministério, ou da ópera, ou apenas das colunas de fofoca. Por mais que se entediasse com a presença de Gugu e Jojô, acostumou-se a ouvir boatos da política ou da realeza dias antes, ou até semanas, de serem manchete nos jornais. E a saber detalhes da vida dos famosos antes de chegarem ao conhecimento de todos, quando chegavam. Ela e Charles não saíam muito de casa, mas ela agora lembrava de três ou quatro festas pós-caçadas no inverno e algumas recepções no verão. Nessa época, conheceu os palácios Blenheim e Scone, a mansão Houghton e o castelo Arundel, que para ela não eram lugares históricos, mas a residência de pessoas do seu círculo de amizades. Quanto a isso, estava sendo quase tão sincera quanto aqueles nascidos na classe da qual ela fez parte por tão pouco tempo. Tinha aprendido bem todos os artifícios da irreverência aristocrática. Como eles, Edith entrava numa incrível mansão projetada por Vanbrugh, coberta de imensos quadros de Van Dyck e, jogando a bolsa numa poltrona Hepplewhite, xingava o trânsito na rodovia M-25. Nessa altura, sabia como fazer aquela afirmação solidária e sabia o que o comportamento deles significava: “Esse maravilhoso aposento para mim não tem nada de excepcional, pois moro aqui. Sou daqui, embora você não seja.”
Naquele instante, olhando para os pais, com suas gravuras de flores de Peter Jones na parede, seus móveis Regência falsos, suas cortinas de estampas bregas, Edith teve a impressão de que tinha sido expulsa daquele clube onde podia se enroscar numa poltrona na enorme biblioteca em Wilton e folhear a Vogue, tomando uma vodca com tônica. Expulsa sem ser comunicada. Num raro instante de lucidez, percebeu que, ao ficar com aquele ator, ela não tinha dado um atestado de boêmia desvairada, mas voltado para o mundo dela. Pois Simon combinava muito mais com a mãe Stella e seu distante primo baronete, ou com o pai Kenneth e seus colegas de trabalho, do que Charles. Aquele mundo em que, no geral, ria-se e chorava-se de tudo, era o verdadeiro mundo dela, onde foi criada e onde agora voltaria a viver. Charles, a mansão Broughton e o intercâmbio de nomes passavam pela tangente. Por mais que a mãe dela quisesse, eles eram de uma tribo completamente diferente.
– Ufa! – exclamou Simon, quando entraram no carro e voltaram pela King’s Road. Edith concordou com a cabeça. Tinham sobrevivido. Isso era o principal. Tinha dado o primeiro passo para explicar à mãe que sua vida de sonho tinha acabado. Simon piscou para ela.
– Estamos vivos – ele disse. Passaram algum tempo em silêncio.
– Você quer ir direto para casa?
– Você quer ir aonde?
Simon franziu os lábios, cogitando.
– Que tal o Annabel’s?
Edith ficou surpresa. – Você é sócio?
Simon negou com certa petulância, na opinião dela.
– Não, claro que não. Mas você consegue que entremos.
Edith não estava muito segura disso. Afinal, o sócio era Charles, foram lá muitas vezes e certamente os funcionários lembravam dela, mas podia não adiantar nada. E ela não tinha certeza de que fosse uma boa ideia. Encontrariam pessoas do grupo de Charles.
– Não sei – ela avaliou.
– Ora, Charles está em Sussex e você não pode passar a vida inteira evitando ser vista. Também temos a nossa vida, acho.
Dessa vez, ao contrário de quando foi com Charles, eles estacionaram o carro na praça e foram a pé até o clube. Simom só tinha ido lá uma vez e sorriu sem parar quando desceram a escada. Edith se sentia menos segura e, assim que entraram no corredor, ela viu que tinha razão. Aquilo havia sido um erro. O porteiro do clube cumprimentou-a, simpático.
– Lady Broughton – fez uma pausa e olhou Simon. – Vão encontrar alguém? Posso avisar que chegaram?
Edith percebeu que corou.
– Bom, não. Queria só saber se podíamos entrar um instante.
O porteiro reagiu de maneira muito educada.
– Não sabia que era sócia, madame.
– Não sou. Charles, lorde Broughton, é, e pensei... – Desanimou com o sorriso pesaroso do porteiro.
– Sinto muito, madame...
Se o destino não fosse cruel, a cena teria acabado aí, mas naquele exato momento a porta se abriu e, com total desânimo, Edith ouviu a voz estridente de Jane Cumnor. Virou-se e sorriu direto para a cara enorme e suarenta de Henry, ofegante com o esforço de descer a escada para o porão. Por uma fração de segundo, Jane calou-se, notou a presença de Edith e, claro, de Simon. O sorriso voltou.
– Edith! Que ótimo! Não vai nos apresentar? – Deu dois beijos nela, sem qualquer animação.
– Simon Russell. Lorde e lady Cumnor.
Edith ficou sem saber direito por que usou o nome de batismo deles. Será que queria impressionar Simon? Mesmo depois da reunião de onde tinham acabado de sair?
Jane deu uma olhada meio fora de moda. – Vão entrar?
Edith ia dizer que, na verdade, estavam saindo, quando Simon se manifestou.
– Não nos deixam entrar. Pelo jeito, precisa ser sócio.
Não percebeu que estava cometendo uma enorme traição com Edith. Ele simplesmente queria entrar e, pelo jeito, aquelas duas pessoas podiam resolver.
Mas Henry não caiu nessa. Viu o que ia acontecer e cumprimentou, ríspido.
– Edith – disse, e passou por ela em direção ao bar.
Jane deu um sorriso vago.
– Que lástima, eu também não sou sócia – disse. – Acho que, hum, posso pedir a Henry, se você quiser... – Foi saindo para mostrar que não queria transmitir a sugestão e Edith recusou.
– Não, não. Não tem importância. Estamos atrasados. Não sei por que viemos aqui – disse.
Jogou um beijo para Jane, com Simon animado ao lado, ainda esperando entrar e ainda sem entender o que se passava. Os dois ficaram sozinhos. O porteiro, sempre muito gentil, quis dar um final satisfatório.
– Lastimo, lady Broughton.
Edith concordou com a cabeça. – Estamos indo – disse.
Saíram e, no começo da escada, ouviram uma voz lá no alto.
– Edith? – olharam para cima e lá vinha a figura magra de Tommy Wainwright descendo.
– Que bom encontrar você. – Ele sorriu, afável, e cumprimentou Simon. A esposa, Arabella, uma sócia do clube bem mais discreta que o marido, calou-se.
– Já estão saindo?
– Sim – respondeu Edith. Mas, antes que ela pudesse impedir, Simon deu mais um passo para terminar a noite como tinha programado.
– Edith achou que conseguia entrada para nós, mas não deu – disse ele, fornecendo assim na mesma frase uma história engraçada para Arabella Wainwright contar, além de uma parábola da decadência de Edith.
Tommy sorriu. – Então permita que eu os convide.
– Mas não tem importância – reclamou Edith.
– Ora – insistiu Simon.
Arabella murmurou, gentil:
– Se ela não quer...
Evidente que Arabella estava tão ansiosa quanto Jane Cumnor para ser vista ao lado de Edith Broughton e seu novo amante no Annabel’s, mas Tommy era de outro estofo. Minutos após, trouxe bebidas para todos e sentaram-se aos pés de um Buda gigante, no pequeno fumódromo ao lado do bar. Simon considerou Arabella um desafio e, mal tinham sentado, convidou-a para dançar. Ela aceitou, talvez porque ser vista dançando com um desconhecido era melhor do que ser vista com Edith. Tommy e Edith ficaram na mesa.
– Como vai? – perguntou ele.
Edith deu de ombros.
– Você sabe o que houve.
– Sei. – Ele sorriu, bem simpático. – Não deixe que as bobagens da imprensa incomodem você. Conheço isso, na minha área. O escândalo de hoje é o jornal que os periquitos de estimação vão bicar amanhã. As pessoas esquecem quase tudo.
Edith concordou com a cabeça. Sabia muito bem que era verdade, mas não quando o escândalo era com ela. Tinha sido atingida e não ia mais aparecer nos jornais quando o escândalo acabasse, mas até o fim de vida teria sempre um pequeno parágrafo falando na separação.
– Tem visto Charles? – perguntou.
Tommy concordou com a cabeça.
– Estive com ele na semana passada, no White’s. Tomamos um drinque.
– Como está?
– Não muito alegre, mas acho que vai superar.
Edith sentiu uma leve nostalgia ao lembrar de Tommy, do White’s e até de Jane Cumnor, a quem cumprimentou do outro lado do bar, mas não foi falar com ela. Seis meses antes, teria sentado com Tommy e ficado ao par das últimas histórias dos conhecidos deles e todos os comentários que fizesse seriam adequados. Mas naquela noite não fazia sentido. Não era mais o mundo dela e os dois sabiam disso. Quanto a Charles, coitado. O que fez para merecer aquilo? Foi apenas um marido sem graça. Nada mais. E nada pior. Simon então voltou para a mesa e, para alívio de Arabella, foi dançar com Edith.
No carro, Edith ficou calada, mas sorria às vezes para Simon, não queria dar a impressão de estar zangada com alguma coisa, pois não estava. Quando ela enfiou a chave na porta do prédio na Ebury Street, Simon escorregou a mão que estava na cintura dela para a bunda e ficou fazendo carinho enquanto seguiam pelo pequeno corredor até pararem na porta do apartamento. Edith sentiu um comichão na parte inferior da barriga. Simon se inclinou e beijou-a na nuca, passando a língua de leve com os lábios entreabertos. Mal entraram no apartamento, ela beijou-o com sofreguidão e desceu a mão pelo corpo dele até embaixo. Sentiu o pênis duro e grande encostando nela.
– Querida – ele sussurrou, dando o sorriso auspicioso dos homens que sabem e gostam do que fazem.
Naquela noite, transaram três vezes, por insistência de Edith. Foi a primeira vez que Simon a viu entregar-se daquele jeito. Ela montou e se enfiou nele, bem dentro. Porque de repente ficou claro para ela que tinha escolhido. Antes, quando saía com Charles e voltavam para casa, a noite terminava quando fechavam a porta. Mas, quando saía com Simon, tinham de aguentar o programa até ficarem de novo a sós. O destino tinha dado a ela a chance de escolher entre vida pessoal e vida social. Ela concluiu que nenhum homem podia lhe dar as duas. “Bom”, ela pensou quando ficou deitada olhando o amanhecer, ouvindo o ronco leve de Simon ao lado. Tinha preferido a satisfação pessoal em vez do brilho social e estava contente com a escolha. Contente, quer dizer, à noite, quando ficava nua, saciada e longe do mundo.
De manhã, ela precisava decidir tudo outra vez.