Esnobes
Quatro
FIQUEI ENCANTADO AO CONSTATAR que todos se interessaram logo pelo fato de Edith e Charles estarem saindo juntos. Um dia, as colunas de fofocas que estavam sem assunto deram a notícia; aquelas enfadonhas reportagens na Tatler e na Harpers sobre o que os antenados comem nos finais de semana, ou usam em Paris, ou fazem no Natal, passaram a mencionar Edith como namorada de Charles. Na época, o fascínio por celebridades estava no auge e como a quantidade de famosos de verdade nunca supre a demanda (mesmo numa década bem menos ávida por eles que a de 1990), os repórteres são obrigados a insistir nas cansativas garotas-charme e nas ex-apresentadoras de tevê para tapar o buraco. Por ironia, foi exatamente a simplicidade de Edith que ajudou. Alguém considerou-a uma Cinderela moderna, a moça trabalhadora que de repente é içada ao mundo encantado, e escreveu numa das publicações dominicais uma reportagem intitulada Edith, a descoberta, com várias fotos enormes e coloridas. A partir daí, ela ficou na moda.
No começo, não gostou de ser vista como uma alpinista social mas, aos poucos, depois que diminuiu o motivo para a imprensa procurá-la, em meio à avalanche de matérias sobre moda, entrega de prêmios e convites para participar de programas vespertinos da tevê, Edith passou a gostar da atenção. O interessante em ser alvo dos caçadores de notícias é que a pessoa sempre acaba achando que, se tanta gente está interessada na vida dela, é porque deve ser uma vida interessante. Edith queria acreditar nisso como qualquer pessoa. Suponho que fosse inevitável e dali a pouco ela não notava mais que era famosa por ser famosa e só. Um dia, eu estava num almoço promovido por uma associação de caridade no qual ela entregou o prêmio concedido por um tabloide. Lembro que depois me disse que os outros escolhidos para a entrega dos prêmios (comentaristas de esporte e gurus da moda) eram um horror: por quê, céus, ela foi convidada? Observei então que até um simples comentarista de esporte conseguiu ficar famoso ou famosa por algo que ela não tinha. Ela sorriu, mas notei que se magoou. Tinha entrado na perigosa fase de acreditar na própria publicidade.
Aquelas fotos que saíam nos tabloides e os centímetros onde era citada nas colunas significaram, meio misteriosamente, que ela passou a se vestir melhor e mais caro. Não sei como conseguia, pois não creio que Charles estivesse participando a esse ponto. Provavelmente, ela fez um daqueles acertos com costureiros que emprestam roupas por uma noite, se há possibilidade de você sair nos jornais. Ou talvez a sra. Lavery estivesse pagando. Se tivesse dinheiro, não se incomodaria.
Nessa época, passei a encontrar bem menos com Edith. Não lembro mais se ela continuava trabalhando na Milner Street; acho que sim, pois não era de contar com os ovos na barriga da galinha. Mas ficou obviamente menos disponível para almoçar. Um dia, em março seguinte, meses depois que ela começou a sair com Charles, vi-a num canto do Australian comendo um sanduíche de salmão e, depois de comprar uma bebida, fui até a mesa dela.
– Olá, posso sentar ou você está fazendo meditação? – gracejei.
Ela abriu um sorriso surpreso.
– Sente. Você é exatamente a pessoa com que eu precisava encontrar.
Ela estava dispersa, séria e um pouco menos parecida com a linda loura que conhecia.
– O que houve, doutora?
– Você por acaso vai passar o próximo fim de semana com os Easton?
– Não. Deveria?
– Seria muito bom se fosse.
– Bom, não tenho nada programado. Acho que posso ligar para eles e me convidar. Por quê?
– Porque sábado a mãe de Charles vai dar um jantar em Broughton e eu quero alguém da minha turma lá. Isabel e David iriam, não?
– Você está brincando?
– Não, é isso mesmo. Quero você lá para acalmá-los. Charles gosta de você.
– Charles não me conhece.
– Bom, pelo menos vocês foram apresentados.
Eu sabia por que ela estava preocupada. Não aguentava mais ser invisível. Viver rodeada de gente que achava que, se valesse a pena conhecê-la, eles já a teriam conhecido. Queria um amigo que ela não precisasse apresentar a Charles.
– Vou, se Isabel puder me hospedar.
Ela concordou, grata.
– Se eu pudesse, convidava você para ficar em Broughton.
– Isabel jamais me perdoaria. Você esteve com eles depois daquele dia?
– Não.
Fiz um ar surpreso e ela deu de ombros.
– Fui a Broughton só para passar a noite e, em geral, com alguma finalidade determinada e você sabe como eles são ...
Eu sabia. Bastou lembrar do brilho no olhar de David em Ascot para saber bem.
– E como estão as coisas? Tenho visto você nos jornais.
Ela enrubesceu.
– Não é uma bobagem?
– E vi você no programa Encontro Matinal com Richard e Judy.
– Céus. Você deve estar com algum problema grave.
– Tive de ficar em casa por causa de uma amidalite, mas fora isso eu gosto de Judy, ela parece sempre firme e sincera. E você se saiu muito bem na entrevista – elogiei.
– É mesmo? – Ela parecia pasma. – Achei que fui completamente idiota. Não me incomodo com os fotógrafos mas sempre que abro a boca pareço uma débil mental completa. Tenho certeza de que só me convidaram porque Tara Palmer-Tomkinson indicou.
– Foi mesmo?
– Não sei. Suponho.
– Vai ver que a solução é não falar nada.
– É o que Charles diz, mas não faria a menor diferença. Eles acabam comentando o que digo.
Claro que era verdade.
– Você e Charles combinam. Sua mãe deve estar adorando.
Edith fez cara de enfado.
– Está encantada. Só tem medo de, como no seriado Dallas, encontrar Bobby no chuveiro e ter sido tudo um sonho.
– Será que isso vai acontecer?
O rosto de Edith endureceu numa máscara que parecia mais adequada numa ópera da belle époque do que no almoço do Australian.
– Não, acho que não.
Fiquei em dúvida.
– Os convites de casamento estão a caminho? – perguntei.
– Ainda não – ela respondeu, séria. – Mas prometa estar lá no sábado. Às oito, traje de gala.
– Certo. Mas você precisa falar com Isabel. Quer que eu mande um cartão para lady Uckfield?
– Não, não, eu cuido disso. Basta que esteja lá.
Quando telefonei para Isabel naquela noite, Edith já havia falado com ela e tudo logo se acertou. Assim, dias depois, lá estava eu na sala dos Easton para um drinque antes de sairmos. David mal controlava o nervosismo por, finalmente, ser recebido na fortaleza. Isabel estava menos ansiosa e, assim, com menos medo de demonstrar.
– Bom, será que o jantar é em benefício de alguma coisa? – ela perguntou, rindo, quando cheguei.
– Não sei. Alguém sabe? – respondi.
David me entregou um copo. Os uísques que ele preparava eram sempre quentes, o que era um aborrecimento. Ele tinha lido em algum lugar que cavalheiros não põem gelo no uísque.
– Isabel acha que eles vão anunciar o noivado.
Claro que eu tinha pensado nessa possibilidade, o que explicava por que Edith precisava de gente da turma dela, mas a vida me ensinou a tomar cuidado com o óbvio.
– Será que os pais dela foram convidados?
– Devem ter sido.
Era bom. Meu coração se aqueceu ao pensar em Stella Lavery chegando ao quarto reservado para ela e encontrando as roupas fora da mala e o vestido de noite pronto para vestir. Todo mundo merece desfrutar de alguns momentos na vida de perfeição absoluta.
– Bom, logo saberemos – imaginei.
Isabel olhou o relógio e perguntou:
– Não seria bom irmos já?
– Ainda não. Falta muito. – Agora que a vitória estava garantida, David podia desfrutar dela.
– Que tal tomarmos mais um drinque?
Mas Isabel venceu e saímos para a nossa primeira de muitas visitas particulares à mansão Broughton, como cada um, no fundo, pensava.
* * *
A casa parecia menos ameaçadora do que da outra vez, mas o fato da fortaleza ter sido conquistada fez com que até sua frieza parecesse acolhedora. Ficamos na frente da mesma porta e tocamos a campainha.
– Não sei se a entrada é por aqui – observou Isabel mas, antes de fazermos outras considerações, um mordomo abriu a porta e nos acompanhou até o salão vermelho, no andar de cima. Fiquei surpreso pelo fato da família usar aposentos que eram abertos ao público. Pensei que seríamos recebidos nalguma sala de visitas elegante no primeiro andar, onde retratos a óleo e móveis Luiz XV se misturassem a sofás confortáveis e cortinas adamascadas, como costuma ser. Eu ia ver que estava certo e o fato de tomarmos drinques no salão vermelho e jantarmos no salão de refeição podia ter estragado a surpresa na hora. De todo jeito, ao entrar, vi a sra. Lavery junto à lareira e ao lado do robusto lorde Uckfield; concluí então que estávamos lá para comprovar a vitória de Edith.
Lady Uckfield se aproximou. Era pequena, delicada e bonita, devia ter sido linda quando jovem; à primeira vista, parecia não se impor, era até afável. Sempre lembro que foi a primeira impressão mais equivocada da minha vida, sempre cheia de primeiras impressões erradas. Ao falar, a voz era leve e clara como o som de um sino, com aquele jeito de escandir as palavras que se costuma associar aos cinejornais da Segunda Guerra:
– Que gentileza terem vindo – ela cumprimentou, com um sorriso alegre. – Sei que vieram de Londres. – Ela estava falando comigo. A intenção era mostrar-nos que tinha feito o dever de casa e sabia exatamente quem éramos.
– Que gentileza a sua de nos convidar. – Conheço esse jogo e suas réplicas.
– Por favor. Estamos encantados em recebê-los.
Lady Uckfield falava com uma espécie de intimidade que pontuava tudo, como se estivesse sempre compartilhando uma piada que só você (ou a pessoa com quem ela estivesse conversando) pudesse entender. Lembro dela agora como a maior especialista em traquejo social que conheci. Juntava a minúcia de um relojoeiro aos saberes de uma grande dama. Tinha também muita segurança. Eu sabia que ela havia sido a mais bonita das filhas de um conde rico e achei então, jovem que eu era, que aquela segurança era de se esperar. Hoje sei que nem sempre é assim. Aprendi mais tarde que, como todos nós, ela também teve problemas na vida. Talvez tivesse se fortalecido com eles, ou vai ver que ela nasceu forte, porém, qualquer que tenha sido a razão, quando a conheci ela era uma perfeccionista absoluta e invulnerável. Todos os eventos para os quais me convidou foram preparados com o mesmo esmero do saleiro de Cellini. Não havia nada que pudesse ser criticado: das espécies de batata servidas, à arrumação das almofadas.
Naturalmente, vi que não apreciava a futura nora assim que disse: – Que ótimo receber amigos de nossa querida Edith. – “Não apreciava” talvez não seja a expressão mais adequada. Ela achava incrível que o filho fosse se casar com alguém que ela não conhecia, ou sequer tinha ouvido falar. Era fantástico que os amigos daquela moça não fossem filhos dos amigos dela. Au fond, era impressionante que Edith tivesse conseguido entrar na casa. Como foi isso? A partir de ilações desse tipo, lastimáveis no que dizem respeito a Edith, lady Uckfield concluiu que Charles tinha sido agarrado e, apesar de depois (bem depois) reconsiderar, nunca mudou de opinião. Para ser sincero, não sei se ela não estava certa.
Isabel e eu fomos até a lareira.
– Olá, sra. Lavery – cumprimentei, e a mãe de Edith virou-se para nós, mostrando na hora aquele jeito desconfiado e decidido que caracteriza o alpinista social bem-sucedido. O comportamento deles é sempre um aviso aos seus iguais que a escada foi retirada e nunca, jamais estará de novo à disposição de quem quiser subir. A ansiosa e esnobe sra. Lavery que conhecíamos tinha sido substituída pela Branca de Neve. Era como se estivéssemos no filme Vampiros de almas e falássemos com uma vagem interplanetária. Quase relutante, parecendo saber tanto sobre nós quanto lorde Uckfield, ela então nos apresentou ao dono da casa.
O lorde apertou nossas mãos, animado e vago:
– Que ótimo. Demoraram muito para chegar aqui? – perguntou.
– Não, viemos de perto, de Ringmer. Meu marido e eu moramos lá – informou Isabel.
– É mesmo? – indagou o lorde. – A estrada estava muito movimentada? Quando a previsão de tempo anuncia um raio de sol, aquela gente toda quer fugir da cidade. Foi difícil sair?
Isabel estava prestes a dar outra longa explicação de que não tinha vindo de Londres, mas poupei-a.
– Vim de trem – avisei.
– Muito arguto. – O lorde abriu seu largo e reluzente sorriso e nos dispensou.
O marquês de Uckfield era um sujeito de inteligência limitada, bobo, mas, no geral, não havia maldade nele. Tinha sido mimado a vida inteira e cercado dos bajuladores que esse tipo de gente gosta de ter, vindos dos diversos ramais da família, além dos atalhos e desvios. Assim, ele não fazia ideia das próprias limitações. As bobagens que dizia eram consideradas dignas do rei Salomão; suas piadas velhas e sem graça causavam frouxos de riso de tirar o fôlego. Se a vida ensina, por que gente como lorde Uckfield não aprende? Mesmo quando ele não estava presente, as pessoas comentavam da sabedoria e bom senso dele, que ele obviamente não tinha. Se as pessoas acreditassem mesmo nas qualidades do marquês, não precisariam admitir para si mesmas que eram bajuladoras, o que é um bom motivo entre os elegantes. E se alguém duvidasse da argúcia mental dele, sempre poderiam argumentar “ah, você acha isso porque não o conhece direito”, e assim marcavam um ponto mostrando proximidade com um membro das grandes famílias e outro sendo sinceras. Não é que ele fosse limitado, mas tinha aquela lerdeza que marca a amizade dos privilegiados como um carimbo. Há muito tempo ele tinha concluído que exigia muito esforço se relacionar com bajuladores e membros da sua própria classe necessários à sua autoimagem; então, desistiu do esforço. Mas foi uma decisão inconsciente e ele continuou se considerando um sujeito gentil, na verdade, seria sempre gentil com Edith. Não chegava a ser um homem admirável, mas também não era um esnobe e, além do mais, admirava muito a beleza dela.
O mordomo na porta do salão olhou para lady Uckfield. Ela fez sinal com a cabeça, deu uma conferida profissional na sala e veio até onde eu estava.
– O jantar será servido daqui a pouco, você poderia dar o braço a lady Tenby? – perguntou lady Uckfield, indicando uma gorda senhora de sessenta e tantos anos, enfiada numa cadeira junto à lareira. Concordei, murmurei alguma coisa e lady Uckfield continuou percorrendo o salão. Tínhamos sido praticamente os últimos a chegar e acho que todos os demais já tinham sido orientados. Fui até o meu par, pensando se seria obrigado a içá-la. Ao me ver, ela estendeu a mão gorda e cheia de joias:
– Vai me acompanhar? – perguntou. Concordei com a cabeça.
– Gugu é um gênio da organização. Devia ter administrado uma rede de hotéis. Me ajude.
Nunca me acostumei com a mania pueril e falsamente informal que os ricos têm de dar apelidos. Todo mundo é Tutu, Cacá, Vivi. Acham que os nomes guardam uma espécie de brincadeira, uma eterna infância cheia de lembranças das babás e de pijamas sendo aquecidos na lareira do dormitório das crianças. Na verdade, esses apelidos são uma simples reiteração de estreiteza mental, um lembrete de histórias que ouviram juntos um dia e que excluem os que chegaram depois, além de serem mais uma maneira de exibir a intimidade que têm entre eles. Sem dúvida, os apelidos erguem um muro. Um recém-chegado às vezes conhece uma dama tão bem que pode continuar a chamá-la de lady Bababa, mas não a ponto de chamá-la de Babinha. Ao mesmo tempo, usar o nome de batismo dessa senhora prova para os íntimos que você não a conhece bem. Assim, o recém-chegado não pode fazer o trajeto normal da aproximação entre amigos como ocorre nas outras classes sociais.
O jantar foi anunciado, meu par levantou-se com esforço e dependurou-se pesadamente no meu braço. Vi que, pelo menos para ela, aquele cortejo era mais que a repetição de um costume eduardiano, era uma ajuda bastante necessária. Lady Uckfield estava alguns casais à nossa frente, falando animada com um Kenneth Lavery pasmo. Lembrei dos bancos da frente onde os lordes sentam para ouvir o discurso da rainha, quando os membros do Partido Conservador parecem ser filmados sempre ao tagarelar freneticamente com seus sérios e mal-humorados colegas socialistas. Edith vinha atrás dos dois, de par com lorde Uckfield. Estava com um vestido de veludo preto de mangas compridas e justas, decote raso e sem nenhuma joia. O efeito era lindo e triste como Julieta de luto por seu amado Romeu. Deve ter achado que seria de mau gosto dar a impressão de excesso de júbilo.
Lady Tenby acompanhou o meu olhar.
– A moça é muita bonita, sem dúvida. Mas quem é?
Sorri para ela e participei:
– É uma grande amiga minha.
– Ah – exclamou lady Tenby e fomos andando em silêncio.
Mais tarde eu soube que a condessa Tenby era viúva e tinha quatro filhas e, como prima em segundo grau de lady Uckfield, sempre teve a esperança de conseguir Charles para uma delas. Era compreensível, pois as moças eram simpáticas e bonitas de rosto. Qualquer uma delas provavelmente o faria feliz. Mas só a mais velha, lady Daphne, casou-se “bem”, na opinião da mãe, que considerava o genro como um filho mais novo. Duas se casaram com homens comuns, a caçula e mais bonita foi para a Califórnia viver com o fundador de uma seita meio sinistra. O fato é que lady Tenby não era uma mulher entediante ou boba. Dedicou-se durante muitos anos a cuidar das filhas e recebeu poucos dividendos por sua aplicação; nessa noite, tinha sido convidada para testemunhar a vitória de uma intrusa, uma estranha que, na calada da noite, invadiu o campo deles e levou a ovelha mais gorda. Claro que ela ia sorrir, cumprimentar e beijar os demais convivas; depois, ia para casa contar como Gugu e Jojô estavam ótimos, não deram a menor impressão de que estavam decepcionados; a moça era, no final das contas, muito bonita e parecia gostar de Charles. E Edith seria vista para sempre como uma intrusa de sorte.
O jantar estava delicioso, o que me surpreendeu. Eu esperava o cardápio que é servido sempre nas casas de campo, apreciado pela geração de meus pais e que lembra mais uma escola de garotas do secundário do que as cozinhas do restaurante Ivy. Mas eu ainda não conhecia o perfeccionismo de lady Uckfield. Lady Tenby ficou à minha esquerda na mesa e durante todo o primeiro prato ouvi aquela desanimadora pergunta você-não-é-aquele-ator-que-eu-acho-que-assisti mas, quando os pratos foram retirados, pude virar para minha companhia à direita. Falei então com uma mulher meio séria e provocante, mais ou menos da minha idade, que se apresentou como Caroline, irmã de Charles.
– Você então é um velho amigo de Edith? – ela perguntou.
– Não sei se tão “velho” assim. Conheço-a há cerca de ano e meio.
– Mais tempo do que nós – ela disse, com um risinho seco.
– E acha que vai gostar dela? – perguntei.
– Não sei – respondeu Caroline, olhando Edith, que estava sentada alguns lugares abaixo na mesa e olhava com carinho para o futuro sogro. – Acho que vou. Mas será que ela vai gostar de Charles? O problema é esse.
Claro que era. Acompanhei o olhar da minha vizinha até onde estava Charles, sério e simpático, franzindo o cenho para o que devia ser um pequeno dilema intelectual colocado pela vizinha dele. Fiquei pensando se Edith tinha notado como ele era desinformado. Aliás, como o interior pode ser uma região insípida. Caroline leu meus pensamentos.
– A vida aqui no campo é horrível, sabe? Será que Edith está preparada para isso? Exposições de flores o verão inteiro, canos congelados por todo o inverno. Ela caça?
– Ela pratica equitação, então decerto caça.
– Não sei se isso tem importância. Com as campanhas em defesa dos animais, as caçadas podem ser proibidas a qualquer instante.
– Vai ver que ela é contra, condena a caça. Hoje em dia, nunca se sabe.
– Ah, não acredito que Edith seja contra esportes que matem animais. Ela me parece bem carnívora – concluiu Caroline.
– E você, caça?
– Céus, não. Detesto o campo. Se puder, não vou nem ao Hyde Park.
– Seu marido faz o quê? Ou será indelicado perguntar?
– É indelicado, mas vou responder assim mesmo. Meu marido faz publicidade e também organiza eventos de caridade.
Sempre achei como devia ser simples viver há cem anos, quando todos os homens que se conheciam eram do exército, da marinha, ou padres, ou proprietários de terras. Sinto uma certa insegurança com esses empregos incríveis dos quais se ouve falar todo dia e que antes não existiam. Hoje, há pessoas especializadas em caçar executivos para empresas, outras que investem em mercado futuro ou são gestores de finanças ou comunicadores; esses títulos dão a impressão de que a pessoa esconde o que faz na realidade. Vai ver que alguns escondem mesmo. Não consegui pensar num comentário adequado.
– Ele se dedica a algum evento em particular? – aventei.
– Como você conheceu Edith? – devolveu Caroline, já que obviamente ela devia ter tanto interesse pelas atividades do marido quanto eu. Falei então sobre David e Isabel Easton.
– Eu me perguntei por que eles estão aqui. Engraçado nunca termos encontrado com o casal, se moram tão perto.
Fiquei satisfeito por David estar bem longe na mesa e não ouvir isso. A seguir, passamos a temas mais gerais e logo vi que lady Caroline Chase era uma desses herdeiros de alto pedigree que rejeitam o que lhes foi ensinado em relação ao estilo de vida, às opiniões, ao marido que escolheram e ao lugar onde moram, mas mantém o esnobismo intacto. Gostei de Caroline, mas achei-a tão classista quanto a mãe, embora talvez não tivesse a armadura de segurança moral de lady Uckfield, que encarava sua posição social como um artigo de fé. Para Caroline, era apenas um fato trivial.
O jantar prosseguiu, sendo servida uma espécie de neve de maçã à guisa de pudim e, a seguir, os queijos. Quando eu esperava que nossa anfitriã arrebanhasse as mulheres para outra sala e nos deixasse discutindo graves temas políticos e safras de vinhos, vi satisfeito que a taça vazia à minha frente estava sendo servida com champanhe. Aquele era, portanto, o momento.
Lorde Uckfield levantou-se e declarou:
– Suponho que todos saibam o motivo de nossa reunião esta noite.
Eu supunha que sim, embora algumas pessoas parecessem meio surpresas. O próprio Kenneth Lavery, sentado ao lado de lady Uckfield, parecia imerso em pensamentos.
– É para dar as boas-vindas a uma pessoa muito bonita, que acaba de entrar na nossa família.
Olhei para a sra. Lavery, que estava encantada, à direita de lorde Uckfield. Nessa noite, a hierarquia foi deixada de lado. Acho que nunca mais a vi sentada num lugar tão importante.
– Vamos brindar? A Edith e Charles.
Ficamos todos de pé, com um arrastar de cadeiras e um certo esforço ofegante da parte de lady Tenby.
– A Edith e Charles!
Bebemos e nos sentamos, enquanto o pobre Charles, ruborizado, tentou dizer algo, com uma voz grave que não era comum nele.
– Só tenho a dizer que me considero um homem de muita sorte.
– Ouçam, ouçam!
A mesa estava animada, com muitos galanteios ditos em sussurro. Observei Edith olhar para Charles com um rosto vivaz, uma adoração que me lembrou Elizabeth Taylor em A mocidade é assim mesmo, na cena em que ela ganha o cavalo. Não sei se Edith aprendeu isso quatro anos antes, ao ver a noiva de seu ex-namorado, ou se estava apenas fazendo a cara mais adequada para amenizar as críticas ou ainda, se naquele instante, ela simplesmente o adorava. Devia ser uma mistura dos três. Olhei para o lado e vi lady Uckfield me dando um terno sorriso em seu bonito rosto felino. Olhei para ela, que franziu de leve o cenho antes de levantar-se da mesa e obrigar todos os demais a fazerem o mesmo. Não sei bem o que ela quis dizer com aquele olhar inquiridor.
É provável que Caroline tenha falado por todos (sem dúvida, falou por mim) ao dizer, baixo:
– Bom, ela conseguiu. Só espero que saiba aonde está se metendo.