Esnobes
Vinte e um
ELA NÃO SABIA. Parecia loucura, mas realmente não sabia como entrar em contato com o próprio marido. Alguns podem estranhar, mas Edith passou um tempo achando que a Sotheby’s ou a Christie’s pudessem ajudá-la. As pessoas ignoram, mas na última década as festas de verão dessas duas grandes casas de leilão se tornaram o ponto alto do calendário social londrino, uma chance para o autêntico gratin (o oposto do onipresente café society) se encontrar e se misturar antes de se dispersar pelo verão. Edith sabia que Charles e Gugu frequentavam esses leilões. Até Jojô se dispunha a sair da casa no campo para renovar o contato com quase todos os integrantes de sua classe. Era um compromisso anual agradável, de que grande parte da alta aristocracia tinha prazer em participar, como antes era a abertura da Exposição de Verão da Real Academia de Artes. Charles estaria lá e Edith falaria com ele. O único problema era que os dias se passavam, o carteiro colocava a correspondência no capacho da porta, mas os indispensáveis cartões brancos escritos em relevo itálico não chegavam. Sem eles, ninguém entrava. Por algum motivo, o nome da condessa Broughton foi logo retirado da lista de convidados, fosse para não causar constrangimento a Charles, fosse para evitar o desconforto de lady Uckfield (ninguém achava que lorde Uckfield fosse perceber a presença de Edith em algum evento). Ela não foi convidada para nenhum dos leilões.
Até que teve de admitir que tinha sido excluída. Estava na hora de colocar em ação um plano B. Debruçou-se sobre a agenda de telefones, percorrendo os nomes cuidadosamente escritos a lápis. Era um hábito que, sem perceber, copiou da odiada sogra. A lápis, os nomes podiam ser apagados quando a pessoa mudasse de endereço, ou não fosse mais útil. Naquela manhã, procurou página por página, tentando achar alguém que pudesse ajudar. Finalmente, faute de mieux, ligou para Tommy Wainwright. Arabella atendeu, Edith pediu para falar com ele, o que causou um silêncio gelado no outro lado da linha até Arabella voltar a falar.
– Ele está no Parlamento.
– A que horas volta?
– No momento, anda muito ocupado. Posso ajudar?
“Não”, pensou Edith. “Não pode e não vai.”
– Não, não quero incomodar. Diga só que liguei – pediu, leve.
– Claro que sim. – Era evidente, pelo tom de voz, que Arabella não ia dizer nada mas, temendo ser descoberta, deu o recado e recomendou para o marido não dar importância. Edith já imaginava que fosse acontecer isso, ou algo parecido, então ficou muito surpresa naquela noite, ao atender o telefone. Era Tommy.
– Quero encontrar com Charles e ninguém deixa – disse, após as saudações corriqueiras.
– Por quê?
– Porque têm medo de Gugu, porque querem ficar nas boas graças da família. Não sei o motivo certo.
Houve um rápido silêncio. O pedido não foi feito; mesmo assim, foi atendido.
– Não quero que ele se envolva nisso.
– Nem eu. Só quero encontrar com ele – disse Edith, firme.
Outro silêncio. E, junto com uma espécie de suspiro, Tommy contou.
– Ele vem tomar um drinque aqui na quinta-feira, lá pelas sete. Você podia aparecer.
– Jamais esquecerei esse favor. – Edith foi enfática e assim Tommy entendeu logo como vinha sendo tratada por seu ex-mundo.
– Não fique muito esperançosa – ele disse. Sabia bem as forças que ela estava enfrentando.
* * *
Eu já estava na sala de visitas dos Wainwright quando Edith chegou. Não era uma reunião grande, no máximo vinte ou trinta pessoas sem nada melhor para fazer. Elas se reuniram na apertada casa antiga que ficava perto da Queen Anne Street para começar a noite com alguns rolinhos de salmão defumado comprados na Marks & Spencer e algumas garrafas de champanhe Majestic. O auge da festa já tinha passado e os convidados começavam a se despedir por causa da mesa reservada para jantar, do horário do teatro ou das babás, quando Edith entrou. Sorria, ansiosa, mas seu rosto encolheu de desaponto ao conferir a sala. Fui até ela.
– Não me diga que Charles foi embora. Saí tarde de casa e fiquei presa no trânsito.
Era fácil saber por quê. Tinha dado muita atenção à aparência, não me lembrava de tê-la visto mais caprichada, o lindo rosto impecável, os cabelos luminosos e um belo traje de noite sobre suas formas ainda desejáveis.
– Não se preocupe, ele ainda não chegou – avisei baixo, para tranquilizar.
– Mas vem?
– Creio que sim. Tommy confirmou.
– Ele me disse, mas onde Charles está?
Mordeu o lábio, contrariada; alguns ex-amigos resolveram notar a presença dela e incluí-la na conversa. Adela veio falar comigo.
– O que ela faz aqui? Pensei que esse fosse o campo adversário – ela disse.
– Não. Acho que Tommy está querendo reconciliar os dois.
– Você me deixa confusa. Há dois dias, encontrei Arabella na Harvey Nicks e ela disse que a separação era a melhor coisa que podia ter acontecido.
– Com certeza. Até os casados de vez em quando discutem. Ou você acha impossível?
– Está certo – disse Adela, séria – , mas, continuo sem entender como Arabella deixou convidá-la.
Claro que eu não podia contar ali, mas contei depois que Arabella não deixou.
A festa dava seus últimos suspiros. Alguns foram convidados também para jantar e estávamos naquela conhecida e desconfortável fase em que os não convidados foram embora, mas há sempre um casal que não percebe que está atrasando o começo da segunda parte da noite. Em geral, a dona da casa entrega os pontos e diz aos teimosos:
– Se vocês quiserem, fiquem para comer alguma coisa.
Para ouvidos experientes, isso se traduz como:
– Por favor, vão embora. Estamos com fome e vocês não foram convidados para jantar.
O velho frequentador de coquetéis dá então uma olhada, enrubesce e some rápido, resmungando que tem outro compromisso qualquer. Mas há sempre o risco do teimoso desconhecer esses rituais, ou ser teimoso, ou apenas idiota e aceitar o não convite. Como Arabella Wainwright não estava disposta a ficar com Edith pelo resto da noite, não disse nada. E Edith não foi embora. Procurei-a.
– Você vai jantar aqui? – ela perguntou.
– Vamos. E acho que quase todos os que ficaram também vão.
Ela deu uma olhada. E sua voz foi tão fraca que quase fiquei com lágrimas nos olhos.
– Eu me arrumei toda. Achei que ele vinha. A mãe deve ter sabido e deu um jeito de afastá-lo.
– Não sei. Tommy não me disse que você vinha e acho que não contou para ninguém.
Ela não demorou mais. Arabella trouxe uma pilha de pratos da pequena cozinha e colocou na mesa com estrondo, junto aos jogos americanos. A essa altura, até Edith teve de admitir a derrota.
– Tenho de ir. Obrigada, foi ótimo ver vocês de novo – disse para a anfitriã desinteressada e inflexível.
Arabella fez sinal com a cabeça, sem dizer nada, contente por se livrar dela, mas Tommy levou-a até a porta.
– Não sei o que houve. Desculpe – ele disse.
Edith deu um sorrisinho triste.
– Ah, decerto não era para ser.
Deu um beijo nele e foi embora. Mas, apesar da pretensa aceitação do destino, ela continuava achando que alguém tinha atrapalhado. Com razão.
Naquela noite, bem mais tarde, desrespeitei os meus hábitos pessoais (o que é raro) ajudando a lavar os pratos e ouvi um trecho de conversa por trás da porta da cozinha.
– O que você quer dizer com isso? – perguntava um exasperado Tommy.
– Exatamente isso: eu me recusei a trair Charles, somos amigos dele.
– Então por que não avisou Charles e deixou que ele decidisse?
– Posso perguntar a mesma coisa para você.
Tommy ficou realmente desconcertado e confessou:
– Porque acho que ele não sabe decidir.
Quando Arabella voltou a falar, não demonstrava qualquer arrependimento.
– Exatamente. Por isso, eu falei com a mãe dele.
– Você é uma idiota.
– Talvez. Daqui a seis meses, diga se eu estava errada. Por enquanto, leve o creme para a mesa com cuidado para não derramar.
Não pude fingir que ia continuar arrumando os pratos, por isso empurrei a porta da cozinha e não vi sinal de briga.
– Como você é gentil – disse Arabella, recebendo os pratos.
Quando voltamos para casa de carro, minha esposa não quis assumir uma postura moral.
– Não me venha com nada parecido – ela disse, e aceitei. Não que eu fosse criticar Tommy; achei que ele tinha sido um amigo fiel, um pouco fraco, talvez. Mas não queria estar no lugar dele. Não repeti para Adela o que Arabella tinha dito sobre esperar seis meses porque, mesmo àquela altura, eu não queria tocar no assunto.
* * *
Alguns dias depois, Edith acordou e foi vomitar na privada. Deve ter chegado lá aos tropeços, meio dormindo, só acordou mesmo na hora. Até que finalmente, depois de achar que tinha posto para fora até o estômago, parou, respirou e sentou-se. Simon apareceu na porta do banheiro, segurando o telefone portátil. Costumava dormir nu e, normalmente, ver seu corpo divino dava a ela uma agradável sensação de real, mas naquela manhã sua musculosa sedução foi um desperdício.
– Você está bem? – ele perguntou, vagamente.
– Deve ter sido aquele camarão – ela disse, sabendo muito bem que ele tinha escolhido a sopa.
– Coitadinha. Melhor você pôr para fora. – Ele sorriu, segurando o fone e gesticulou, com uma careta engraçada: – É a sua mãe. – Edith concordou e pegou o fone.
– Vou fazer café – Simon avisou, indo para a cozinha.
Edith limpou a boca e acalmou-se.
– Mamãe? Não, eu estava no banheiro.
– Estava passando mal? – perguntou a sra. Lavery do outro lado da linha.
– Bom, só podia ser eu.
– Você está bem?
– Claro que sim. Na noite passada, fomos a um lugar horrível em Earl’s Court que um amigo de Simon abriu, um ator fracassado. Comi mariscos. Eu devia estar louca.
– Estou ligando porque outro dia não achei você bem. – Na semana anterior, Edith tinha acompanhado a mãe na busca infrutífera por um chapéu, o que já basta para qualquer um ficar mal.
– Então você não está doente?
– Claro que não.
– Você me contaria se houvesse... alguma coisa, não?
Edith não contaria para a mãe nem que horas eram, mas não valia a pena entrar nesse assunto agora.
– Claro que sim – ela respondeu. Fez-se uma pausa.
– E acho que não há novidade a respeito... de tudo...
– Não.
– Ah, querida.
Embora irritada, Edith ficou com pena da mãe. Tinha de admitir que a sra. Lavery, por mais rasos que fossem seus valores, estava passando por fortes emoções. Principalmente, arrependimento.
– Você não vai... fazer nada que possa se arrepender depois, não? – perguntou a mãe.
– Nada o quê?
– Quero dizer... não vai incendiar as pontes antes de ter certeza de que chegou do outro lado...
Edith estava acostumada com o suprimento infindável de clichês similares usados pela mãe, por isso não precisou de tradução para saber do que se tratava. Era estranho, mas, apesar do parco vocabulário da mãe, a pergunta fez com que ela pensasse no assunto. Ao terminar a conversa e desligar o telefone, teve certeza de que era hora de agir.
Era sábado, um dia que costumava ser leve e agradável para eles e que incluía ler os jornais, almoçar em algum lugar, depois talvez ir a um cinema ou jantar com amigos numa cozinha planejada marca Wandsworth. Mas, enquanto se arrumava, Edith viu que aquele sábado não seria assim. Escolheu as roupas com muito cuidado, roupas simples de usar no campo, de qualidade, discretas, exatamente o tipo de saia e suéter aos quais tinha renunciado com fervor religioso há tão pouco tempo. Exatamente como quando escolheu o que usar para assistir ao desfile, ela ficou de novo consciente de que suas duas vidas exigiam trajes diferentes. Uma filha de duque podia usar uma roupa esporte da Voyage num jantar em Shropshire e ser elogiada pela excentricidade aristocrata. Mas ela, Edith, jamais teria essa liberdade. Se ousasse usar roupas da cidade no campo, os amigos de Charles achariam que isso apenas confirmava sua falta de berço. Quando entrou na cozinha, Simon olhou-a, surpreso.
– Puxa, parece que você vai fazer audição para Hay Fever.
– Sou uma boba, esqueci completamente que promete ir com mamãe a um almoço hoje. Por isso ela ligou. Você me perdoa?
– Almoço de quem?
– De umas primas que moram no campo.
– Você não tem primas no campo. Não é? – Ao dizer isso, Simon deu um dos seus raros sinais de compreensão. Ela realmente não tinha primas no campo.
– Tenho, mas nunca falo nelas. São muito chatas.
– Significa que você não quer que eu vá.
Simon detestava ser excluído de qualquer coisa. Se fosse, tinha que ser porque ele quis. Não se importava de estar muito ocupado para ir, até gostava, mas pensar que as pessoas não queriam a presença dele (mesmo se fosse para ir até a agência dos correios), era um horror.
Edith deu um sorriso triste, do tipo seria-ótimo-se-você-fosse.
– Gostaria que você fosse, mas mamãe insistiu para ser só nós duas. Acho que quer falar de tudo. – A frase foi acompanhada de um dar de ombros que não dava chance de argumentar.
– Fale bem de mim – ele recomendou.
Ela deu um caloroso sorriso de apoio, sabendo que, no fundo, tramava o fim dele, e desceu a escada para pegar o casaco no quarto. Não ia dizer a Simon aonde ia, isso causaria uma cena e ela não sabia como o dia ia terminar. Só não queria que ele voltasse correndo para a esposa por pirraça e Edith depois encontrasse o apartamento vazio.
Na verdade, de manhã, quando ela viu o vômito flutuando na privada, resolveu que não ia ser afastada de Charles por mais um dia. Naquela mesma manhã, ia de carro a Broughton enfrentar o leão na toca, ou melhor, o filhote da leoa. Enquanto dirigiu rápido pela rodovia A-22, não entendia por que demorou tanto a decidir. Era o marido dela e ela ia para o que era seu lar conjugal, afinal de contas. Ninguém podia negar.
Uma desagradável surpresa a aguardava: tinha esquecido que a mansão ficava aberta ao público num sábado de verão. Não tinha pensado nisso e estava agora na situação levemente ridícula de escolher entre estacionar o carro no pátio e entrar pela porta usada pela família, ou entrar pela porta de visitantes e ir até o meio da casa rodeada de turistas e donas de casa de Brighton. Tomou a ousada decisão dessa segunda possibilidade. Teria de esperar muito, se tocasse a campainha na porta da família e imaginava que Charles estivesse no escritório dele, junto à biblioteca. Num minuto ela passaria pelo cordão de isolamento, abriria a porta e, certamente, nenhum guia de visitantes ia impedi-la. Edith fez questão de parar e cumprimentar a simpática e robusta senhora de roupa camponesa que recebia as entradas.
– Olá, sra. Curley, como vai? Posso entrar por aqui?
Edith dominava aquele jeito dos parentes do marido, de pedir por favor algo que não podia ser recusado. “Ah, a sra. Tal-Tal, pode esperar nós chegarmos em casa? Tem algum problema?” Claro que a coitada da sra. Tal-Tal (e o chefe dela) ouviram essa recomendação sabendo que, na verdade, significava “Você está proibida de ir dormir antes de nós chegarmos” que, naturalmente, é um jeito mais simpático de dar uma ordem. Tudo isso faz parte da imagem que a aristocracia criou. Eles se orgulham de serem “generosos com os criados”, o que costuma significar exigências horríveis com a voz mais agressiva possível.
A sra. Curley ficou meio sem jeito com o pedido mas, como Edith previu, não podia fazer nada.
– Claro, madame – respondeu, com um aceno caloroso e discou o telefone particular da família assim que Edith entrou.
* * *
Como Edith imaginou, Charles Broughton estava mesmo no escritório ou, como lady Uckfield gostava de chamar, na pequena biblioteca. Respondia cartas, meio distraído, fingindo estar ocupado. A mãe tinha resolvido dar uma festa e, como sempre, os amigos que ela convidou não combinavam com sua alma sofrida. Diana Bohun não o interessou, era fria e convencida e o marido era quase doido. Clarissa não estava entre os convidados. Pelo menos, Charles conseguiu convencer à mãe que ela estava latindo para a árvore errada, lá em cima não tinha raposa, mas... se não fosse Clarissa, quem seria?
Ele soube que Edith esteve na casa de Tommy Wainwright. Tommy contou no dia seguinte, talvez para evitar que outra pessoa contasse. Primeiro, Charles ficou muito zangado, não com Tommy, mas com a mãe que, na noite em questão, obrigou-o, de repente, a ir com ela visitar um velho amigo no hospital, missão que foi apresentada como da maior importância. Ele via agora que tinha sido, claro, uma simples desculpa para não ir ao jantar dos Wainwright. Depois de se acalmar um pouco, pensou pela milésima vez em qual teria sido o resultado do encontro. Por mais que os amigos estranhassem o comportamento de Edith, ele entendia por que ela o largara. Ele era chato. Sabia que foi por isso, pois, Charles, palmas para ele, era inteligente o bastante para perceber. Sabia que não era companhia para ela, depois que a satisfação da conquista se acabou. Para ser sincero, ele em geral não entendia nada do que a esposa dizia quando criticava os políticos da oposição, ou comentava as vantagens e desvantagens de intervenção no Oriente Médio... Sabia que os pontos de vista sobre esses temas divergiam, mas não era obrigado a ter uma opinião. Não bastava continuar votando nos Conservadores e dizer que o Novo Partido Trabalhista era horroroso?
Era só o que os amigos no White’s esperavam dele. Bom, claro que, para Edith, isso era pouco. Até ele começava a desconfiar de que ela queria voltar (ou, pelo menos, conversar com ele), mas tinha mudado alguma coisa? Dali a poucos meses, senão semanas, ela não se cansaria dele outra vez? Não era melhor para os dois admitirem a derrota? Em resumo, era o que ele começava a concluir do casamento. Uma derrota, mas uma derrota que agora devia ser encarada e afastada. Exatamente como lady Uckfield pretendia. Hoje, costuma-se dizer que é inútil fazer qualquer interferência na vida dos filhos, mas não é verdade. Os pais inteligentes, que não se metem demais, podem conseguir o que querem. E a marquesa de Uckfield era mais inteligente do que muitos pais.
A porta do escritório se abriu e a figura amorfa da viscondessa de Bohun entrou no aposento.
– Charles? Graças a Deus, você está aqui – disse, com um desesperador revirar de olhos.
– Por quê? O que foi?
– Estou na maior complicação. Peter foi dar uma caminhada e não viemos de carro. E... – Charles aguardou, paciente. – O fato é que... – Diana umedeceu os lábios, nervosa. Era realmente uma atriz de talento. – Fiz uma certa confusão de datas e não trouxe nada...
Charles olhou-a, intrigado. A frase não fazia sentido, como um trecho mal traduzido de outra língua.
– Lastimo – disse ele, em reação ao pseudocorar de Diana. – Não sei se eu...
Diana não queria usar esse tipo de tática. Mas tempos duros exigem medidas duras e, como a dona da casa tinha dito, aqueles eram tempos duros.
– Não esperava... mas está no período do mês e preciso ir à farmácia...
– Oh, céus. Claro, o que posso fazer? – Charles levantou-se, muito constrangido.
Diana respirou melhor. Tinha conseguido, e com incrível rapidez.
– Você poderia me levar a Lewes, o comércio no campo fecha à uma da tarde e...?
– Claro, imediatamente.
– Vou só avisar a sua mãe.
– Certo. Vou pegar o carro. Esteja na entrada da casa daqui a cinco minutos. E não se preocupe.
Ela ficou encantada por ele dizer para não se preocupar com algo que vinha todo mês desde os doze anos, mas preferiu não tranquilizá-lo. Sorriu de leve, ao vê-lo sair do escritório. Com essa mentira, viu que estava certa, se queria uma pronta ação. Ela sabia que Charles e todos os homens iguais a ele tinham enorme aversão pelos mecanismos de funcionamento das mulheres. Bastava dar a entender e eles não queriam, nem precisavam de mais explicação para agir rápido. Ela ouviu-o descer a escada da casa com o orgulho merecido de uma operária eficiente.
* * *
Edith mal tinha chegado ao patamar onde estava a estátua do escravo de bronze, quando lady Uckfield apareceu numa arcada sem cordão de isolamento, de livre acesso.
– Edith? É você? Por que não nos avisou que vinha?
A sogra deu o braço para ela e quis levá-la para a sala de visitas da família. Edith sabia que estava tudo perdido e se xingou mentalmente por não usar um lenço na cabeça e entrar despercebida. Mas não ia desistir; soltou-se do braço de Gugu e foi para o escritório de Charles, atrás da biblioteca.
– Não queria incomodar, só dar uma palavrinha com Charles. Um instante.
Ela andava tão rápido que, para deleite do público presente, lady Uckfield foi obrigada a dar uma espécie de trote para acompanhá-la. Passaram pela esplêndida biblioteca de altas estantes de mogno com suportes de bronze. Em cima da lareira, um antepassado Broughton, de chinó, admirava assustado a cena que se passava sob seus olhos. Alguns turistas reconheceram uma das duas mulheres e, como a separação estava em quase todos os jornais do país, pararam de examinar as entediantes lombadas de couro com títulos dourados e prestaram toda a atenção nelas, empolgados com aquela diversão inesperada.
– Vai ficar para o almoço? – perguntou lady Uckfield, sabendo que todos a olhavam, e querendo normalizar aquela situação esdrúxula.
– Por quê? Gostaria de que eu ficasse? – perguntou Edith. Ela, ao contrário, estava adorando o show da sogra para aquela multidão de olhares vulgares.
– Claro – respondeu lady Uckfield, segurando e puxando a manga de Edith, na vã tentativa de impedir que seguisse pelo piso lustroso.
– Acho que não vou ficar – disse Edith. A essa altura, estava com a mão quase na maçaneta da biblioteca; a porta se abriu e surgiu a figura imponente de lady Bohun. Com um movimento imperceptível, que mal se podia notar, cumprimentou a dona da casa e Edith concluiu imediatamente que era tarde demais. O pássaro tinha voado.
– Olá, Edith – disse Diana, do seu jeito mais lento e mais estudado. – Pode me dar licença? Vou correndo a Lewes, preciso chegar antes do comércio fechar. Você estará aqui quando voltarmos?
– O que acha? – perguntou Edith, e Diana sumiu sem dizer mais nada. Sozinha com a nora, lady Uckfield levou-a para a biblioteca e fechou a porta.
– Sente-se um instante – pediu, sentando-se na cadeira da mesa de Charles, distraída, empilhando os papéis que estavam espalhados.
– Não precisa. Se Charles não está, vou embora – disse Edith.
– Por favor, sente-se – repetiu lady Uckfield. – Lastimo que você nos considere inimigos, minha cara. – Edith sentou-se.
– Pode lastimar, mas não se surpreender.
Lady Uckefield olhou magoada para ela.
– Queria que seu casamento desse certo. Você me julgou mal, se pensou outra coisa. Sempre quis que fossem felizes.
– Queria que nós fizéssemos o melhor de uma coisa ruim.
– Mas você não fez, não é? – perguntou lady Uckfield ríspida, sem o habitual arroubo e o tom vibrato.
Lady Uckfield tinha certa razão, Edith foi obrigada a concordar, e, com isso, suas velas murcharam um pouco. Seria razoável achar que lady Uckfield devia comemorar o dia em que ela, Edith, entrou na vida deles? Por que a sogra ia querê-la de volta agora que aquele desagradável episódio estava quase ultrapassado? Lady Uckfield tinha mais a dizer.
– Há um ano, você estava cansada de Charles. Ele falava e você rangia os dentes; ele tocava em você, você se arrepiava. Sou mãe dele e morava na mesma casa, pensou que eu não fosse notar tudo isso?
– Não foi assim.
– Foi exatamente assim. Ele a entediava. Tédio mortal. Pior, irritava a ponto de você não demonstrar. Por mais que ele tentasse, não conseguia agradar você. Nada do que fizesse ou dissesse estava certo. Você se irritava com a mera presença dele... por que agora essa súbita necessidade de ver Charles? O que mudou?
Edith empertigou-se e encarou sua inimiga. Estava decidida a tomar a dianteira.
– Não passou pela sua cabeça que tive tempo para refletir? Ou será que me acha tão idiota que só penso em dinheiro e ascensão social?
– Minha cara, nunca achei que você fosse idiota – lady Uckfield levantou a mão, em protesto. – Pelo menos, tem de reconhecer isso.
Alguém pisou no cascalho lá fora e lady Uckfield se aproximou da janela: não era, como ela temia, Charles voltando para pegar algo que tinha esquecido. E ela prosseguiu:
– Me pergunto por quê, de repente, você precisa tanto se encontrar com ele, se não teve essa vontade nos primeiros meses. Sou mãe e me pergunto também o que poderia ter mudado a ponto de um encontro com meu filho ficar tão importante, se antes era tão desimportante.
– Talvez eu ache que tomei a decisão errada. Consegue entender?
– Pelo contrário, entendo muito bem. Principalmente porque acho que você tomou mesmo uma péssima decisão. Mas... – ela encostou a ponta dos dois indicadores como um velho padre querendo provar algo do púlpito. – Por que agora? Por que essa mudança súbita?
Edith olhou bem para ela.
– Não pode me impedir de vê-lo para sempre – disse.
Lady Uckfield concordou com a cabeça.
– Não posso mesmo.
– Pois então.
– Acho que posso por uns meses. Seis, ou até três. Então chegaremos a uma conclusão sobre essa sua maldita decisão errada.
Nesse momento, Edith percebeu que, naturalmente, a sogra, a querida Gugu, de cabeça pura como neve, sabia. As duas nunca tocaram no assunto, nem naquela hora, nem nos anos seguintes, mas uma sempre soube, sem dúvida, que a outra sabia. Edith levantou-se.
– Vou embora.
– Tem certeza? Não posso ao menos servir alguma coisa? Um chá? Você veio de tão longe. – O tom voltou a ser íntimo como sempre, com o toque de segredos compartilhados à meia-noite no dormitório do colégio.
Naquele momento, com certa estranheza, Edith teve de admirar aquela mulher, sua inimiga jurada, que mantinha em alto nível qualquer discussão com qualquer participante. Era difícil, mas não era impossível.
– Você é uma vaca. Uma vaca de muito couro e nenhum coração – ela disse.
Lady Uckfield pareceu refletir um instante sobre o que ouviu, antes de concordar com a cabeça.
– Talvez sua descrição desabonadora seja um pouco verdadeira – admitiu. – E talvez por isso, ou por algo parecido dito em linguagem mais leve, eu soube aproveitar tão bem as oportunidades que tive e você tenha fracassado com as suas. Adeus, minha cara.