Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 13 de 23

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Esnobes

Treze

 

QUANDO SIMON OFERECEU-SE para levar Edith em casa, achei que o plano dele ia dar errado, já que outras pessoas iriam junto, mas, quando saí da casa com Adela, vi que me enganei, pois o carro dele tinha duas cadeiras no banco traseiro, além de um monte de apetrechos de jardinagem. Ao meu lado, lady Uckfield também reparou isso. Acho que ela pretendia voltar para casa no surrado Cortina duas portas da nora, mas não conseguiu. Ofereci carona para lady e lorde Uckfield no Mini de Adela e, após darem uma olhada em Eric numa espécie de jipe, eles aceitaram. Lady Uckfield e eu nos apertamos no banco de trás; lorde Uckfield e Adela ficaram na frente. Eric fez sinais agitados para eles, porém, à sua maneira sublime, lady Uckfield fingiu não perceber. Partimos, deixando Bob e Annette sob os atenciosos cuidados de Eric, vermelho de tanto beber.

– Espero que não seja parado pela polícia na estrada – disse lorde Uckfield.

Lady Uckfield deu um leve muxoxo.

– Ah.

Viajamos em silêncio por algum tempo, suponho que todos pensando em Simon e Edith, cujo carro não estava à vista.

Lady Uckfield falou de novo.

– Esses lugares são incríveis, não? Quem será que os frequenta?

– Não são aquelas pessoas chamadas de yuppies? – perguntou lorde Uckfield, irônico, satisfeito por estar tão ao par das novidades.

– Bom, não devem ser só yuppies. Eles são tantos assim? Não deve haver muitos por aqui. Imagino que também não haja americanos. Uma pena.

– Ah, não sei, prefiro ver esses lugares funcionando como hotéis ou escritórios do conselho do que demolidos.

– É – lady Uckfield concordou, indecisa. Na verdade, ela preferia ver tais lugares cheios da mesma gente rica e bem-educada que morava lá há um século. Mesmo que fosse gente de que ela não gostasse, como os de Marney. Para ela, as mudanças trazidas pelo século XX não foram boas. O tempo tinha anuviado sua memória e, ao lembrar só dos dias alegres da infância, não conseguia pensar em nada desagradável ou ruim na Inglaterra de sua tenra idade. Eu gostava das opiniões dela. Mesmo se sua visão do passado não fosse tão imprecisa e estranha como a de Jeremy Paxman, a ideia que lady Uckfield tinha era rara de encontrar nos últimos anos do século XX. Ela possuía aquela fé inabalável nos critérios de seus pares, raramente vistos a partir de 1914. Para eles, tudo tinha ficado muito vulgar, por isso a sociedade eduardiana ficava como uma época filosoficamente relaxante para se viver. Desde que se fosse nobre.

* * *

Simon fez tanta confusão para achar as chaves que, quando ligou o carro, os outros Broughton já tinham ido embora. Virou-se para Edith, que apertava o casaco no corpo, encostada na janela. Eram dois jogadores com cartas iguais e, naquele momento, estavam finalmente a sós como queriam. “Como queriam”, pois alguma coisa na agressividade de Edith com Charles, alguma coisa no ousado oferecimento de Simon mostrou aos dois que o show ia começar. Ao olhar o sorriso travesso de Simon, o vinco levemente torto nos cantos da boca, onde a barba começava a aparecer, Edith estremeceu de excitação. Assustou-se com aquele desejo súbito. Já tinha se sentido atraída por outros homens, lembrava que gostava de ir para a cama com George e houve tempo, bem antes de se casarem, em que queria ficar a sós com Charles, mas sabia que naquele momento era outra coisa. Ao ver os olhos azuis escuros de Simon, ela teve a simples e absoluta certeza de que queria ficar nua com ele. Queria sentir o corpo nu e rígido dele junto e dentro dela. Sentiu-se meio desconfortável e acalorada. O estômago mexeu ante à ideia aterrorizante e esfuziante de que seus princípios estavam sumindo.

– Não é melhor irmos? – ela perguntou.

Simon olhou-a com atenção. Os cabelos louros dela caíam sobre os olhos azul-acinzentados e ela tirou do rosto uma mecha com um gesto levemente petulante. Os lábios ainda estavam abertos após fazer a pergunta, mas continuavam úmidos, os dentes brancos se destacavam no escuro. Ele também estava excitado, mas não da mesma maneira que ela. Tinha ido para a cama com um bocado de mulheres bonitas e não era a ideia de prazer sexual que o excitava. Era a certeza e garantia de que ela estava atraída por ele.

Simon tinha absoluta noção de sua beleza. Acima de tudo, respeitava e gostava disso por sentir, com toda a razão, que a beleza era a razão do seu poder. Esse simples fato era o epicentro de seu charme sedutor. Ele precisava de que todos (amigo ou inimigo, mulher ou homem) tivessem alguma reação pela atração física que ele provocava. Só então, sob o calor e o brilho da admiração dessas pessoas, ele conseguia relaxar e se sentir bem. Quanto mais ameaçadora a situação, mais ele precisava ser desejado fisicamente. Passou a vida lançando olhares destruidores, dando sorrisos misteriosos, fazendo caras e bocas para estranhos só para ter certeza de que estava no comando. Não é preciso dizer que ele tinha uma fila de mulheres magoadas, que corresponderam por semanas ou até meses aos sinais de interesse sexual e até romântico para depois descobrirem, quando conquistadas, que ele precisava tanto do amor delas quanto das árvores no campo.

Ele não ligava muito para aquela preocupação de estar sempre se afirmando. Tinha certeza de que sua aparência venceria todos os obstáculos, mesmo desconfiando de que esse não era o comportamento de uma pessoa segura. De certa forma, a insegurança a respeito de suas outras qualidades mostrava que a vaidade estava meio ligada a uma certa modéstia. Ele admirava muito o próprio intelecto e, apesar de toda as bravatas, sabia que tinha pouco traquejo social. Talvez por isso fosse inevitável que seus anseios burgueses somados à sua compulsão por ser desejado o tivessem levado a Edith. A ironia era que ela via nele uma saída para a vida em Broughton; ele, por sua vez, via-a como uma porta para essa vida. Porém, a essa altura dos fatos, eles não tinham consciência de nada. Estavam, em resumo, apaixonados.

O desejo, aquele estado comumente chamado de “amor”, é uma espécie de loucura. Distorce de tal maneira a realidade que deveria fazer com que víssemos as outras formas de maluquice com a compaixão de quem sofre do mesmo mal. Porém todos nós sabemos que se trata de uma loucura que, por maior que seja, dura pouco, quando dura. Ao contrário do que a sabedoria popular diz sobre o tema, o desejo não costuma passar a um “amor mais profundo e mais verdadeiro”. Claro que há exceções; alguns casais se “amam” pelo resto da vida mas, no geral, quando realmente combinam, passam a uma cálida e recíproca amizade enriquecida pela atração sexual. Se não, a relação cai apenas no tédio ou, se têm a infelicidade de se casarem nesse meio-tempo, no ódio amargo. Paradoxicalmente, por mais que a pessoa sofra e enlouqueça quando a chama está no auge, poucas se alegram ao constatar que a paixão diminuiu. Quantos de nós tentam em vão sentir qualquer atração por aquele rosto na nossa frente, ao reencontrarmos um objeto de desejo causador de uma ferida que durou meses e até anos? Cuja voz ao telefone dava-nos a impressão de termos nós no estômago? Cujos menores gestos causavam um repicar de sinos em nossos órgãos vitais? Quantos de nós, após vertermos lágrimas amargas por um amor fracassado, não nos desapontamos ao ver o adorado de novo e constatar que ele não nos causa mais nada? Quantas vezes não queremos admitir que eles, na verdade, começam a nos irritar, já que essa constatação parece trair nossos próprios sonhos. Embora quase todo mundo tenha sofrido muito por amor, esse é o sentimento que o ser humano mais almeja.

Mesmo enlevada como estava, Edith não via em Simon algo de concreto em sua vida futura. Mas esqueceu logo que, no começo, ficou irritada com a sedutora verbosidade dele. Passou a gostar muito de ouvir os sofrimentos que ele passou, os planos que tinha, os sonhos – de ouvir qualquer coisa, pois adorava o jeito com que ele mexia a boca. E então, lindo como era, fez com que ela se sentisse muito amada e desejada. Gostava de ficar perto, deixar o braço dele roçar na manga da blusa, as mãos dos dois se tocarem de leve, e só. Ou tinha sido assim até aquele momento. Infelizmente, ele tinha aparecido na vida dela numa hora de imenso tédio. Antes do casamento, bocejava ao atender o telefone da imobiliária, sonhando com tudo o que a nova vida lhe traria e não imaginou que, meses depois, essa nova vida também se transformaria em mesmice. E assim ela estava entediada e, como suas pretensões sociais só previram animação, achou o tédio mais terrível do que já era.

Aos poucos, mas inexoravelmente, foi deixando que o resto de afeto que tinha por Charles se acabasse, devido à incapacidade dele de lhe despertar interesse. Mas, em algum canto da cabeça, Edith sabia que isso podia ter sido evitado. Se, como a sogra, tivesse desde o começo do casamento admitido e encarado as limitações do marido, poderia haver uma estima entre os dois. Se tivesse parado de querer se divertir com Charles, teria recebido apenas o que ele podia dar: fidelidade, segurança e até amor, da maneira pouco criativa dele. Mas ela quase nunca admitiu para si mesma que não tinha se casado por amor e sim por status, e também não admitia agora que estava vivendo com um homem mais burro e estúpido do que ela. Edith achava que Charles era o culpado da vida dela ser tão horrorosa; o culpado por não terem um grupo animado em Londres; o culpado por ela preferir as horas em que ficava sozinha às que passava com ele. Além do mais, já tinha aceitado o perigoso papel de fingir ser a esposa feliz e contente que só os famosos, com vida “pública”, podem ter, e que servia para esconder a pasmaceira de sua vida. Como ela era muito popular entre os habitantes da aldeia, como ficava muito ocupada com suas obras de caridade e com os criados da mansão, começou até a achar que aquela mulher feliz e elegante refletida nos olhos das pessoas (e na imprensa local) era real e verdadeira e que devia ser culpa de Charles ele não a adorar como os admiradores da aldeia.

Não que ela tivesse alguma atração pelo perigo. Aceitou a carona de Simon mais para irritar a sogra. Na verdade, estava surpresa com a enorme atração física que sentiu por ele quando os dois ficaram sozinhos no escuro pela primeira vez. Mais surpresa ainda com a sensação desconcertante de estar ficando mais animada e, ao mesmo tempo, sentindo aquele sabor inebriante de algo ainda inexplorado. Chegou à incrível conclusão de que era exatamente o que ela não sentia desde que se casou. Havia meses que a vida dela parecia restrita. As decisões tinham sido tomadas e agora deviam ser encaradas. Mesmo assim, lá estava ela, olhando as calças de veludo de Simon esticadas nos músculos da coxa, com a deliciosa impressão de que muita coisa ainda podia acontecer daquele momento até o dia em que ela morresse.

* * *

Quando chegamos a Broughton, os Uckfield nos convidaram para um drinque. Creio que eles teriam preferido que fôssemos embora, porém aceitamos, em parte por delicadeza, mas também por aquela suspeita mórbida de que a noite ainda não tinha terminado. Nós (ou melhor, eu) ainda queríamos saber se Charles tinha mesmo ido se deitar; quanto tempo Simon e Edith demorariam para chegar; como lady Uckfield iria reagir – ou seja, as várias facetas da história que faltavam ser respondidas.

Charles estava na sala. Mal tinha tocado no uísque na mesa ao lado da poltrona e, desconfio, ficou olhando para o nada até ouvir nossos passos chegando. De qualquer maneira, pareceu bastante interessado na revista feminina que pegou assim que entramos. Preparou então uísques para o pai e para mim, uma água para Adela (a bebida habitual dela, meio sem graça) e nos sentamos. Pouco depois, os inconfundíveis barulhos de Eric na escada avisaram que pelo menos o jipe tinha chegado. Os quatro entraram na sala.

– Onde está Edith? – perguntou Eric, animado e, claro, contente por ela ainda não ter chegado e, portanto, poder descontar alguns pontos dela.

– Espero que o carro deles não tenha quebrado – disse Adela, séria.

– Céus! Será? – perguntou lady Uckfield.

Concordei, tendo recebido antes a autorização tácita de Adela:

– O carro de Simon é uma porcaria. Espero que não tenha quebrado.

Lady Uckfield admitiu na hora que aquele era um salva-vidas que ela podia amarrar ao seu cais, caso precisasse dele um dia. Não ficou exatamente satisfeita com a desculpa, pois para isso tinha primeiro de admitir que alguma coisa estava errada. Mas gostou de sentar-se ao lado de Adela no sofá e perguntar sobre a tia.

Eric tentou de novo.

– Eles demoraram muito para ligar o carro – disse. – Só ouvi o motor depois que nosso carro passou pelos portões.

Mas isso não adiantou. Quanto mais o casal demorasse, mais a família ia ficar achando que houve um problema no carro, ou um acidente. Todas as demais possibilidades estariam assim totalmente anuladas.

Quando a conversa passou para temas mais gerais e as pessoas se espalharam pelas diversas poltronas e sofás da sala, Charles se aproximou de mim e perguntou se eu podia ir com ele até o escritório. Não sei que desculpa deu (queria me mostrar um livro ou uma foto, essas coisas), mas nós dois sabíamos que queria simplesmente falar a sós. Concordei e fui atrás, meio desconfortável com o sorriso esquisito dele, e entramos num corredor à esquerda. Não fiquei ansioso pela conversa, começava a me sentir responsável pelo que até eu percebia que estava para acontecer. Afinal, eu tinha apresentado Simon a todos. Se eu não estivesse participando do filme, garanto que ele jamais entraria no sofisticado círculo da família.

O escritório de Charles tinha uma daquelas placas de “privativo” que dão tanto prazer em desrespeitar; era uma salinha de canto mínima perto das salas de visita e de jantar usadas pela família. Era uma extensão da biblioteca principal, que também ficava no andar principal e por isso tinha bonitas cornijas e alizares de portas e, de dia, suas duas janelas compridas ofereciam uma linda vista do parque. Portas duplas se ligavam ao aposento maior e quase nunca eram abertas, já que a biblioteca era um dos aposentos no percurso dos visitantes. A lareira era delicada, de mármore rosa, e as paredes foram revestidas de damasco carmesim, do rodapé ao teto. Tinham altas e lustrosas estantes de livros que pareciam ter sido feitas sob medida. Na cornija da lareira havia o retrato em moldura dourada de alguma antepassada, em traje de baile à fantasia; a bancada de mármore sob o retrato estava cheia de convites, fotos, bilhetes e cartões-postais misturados, o habitual caos de papéis que serve para a classe alta mostrar o desembaraço com que lida com seus elegantes compromissos.

– Que lugar ótimo. O escritório de Edith fica ao lado? – perguntei.

Charles negou com a cabeça.

– Fica no andar de cima, ao lado do nosso quarto – respondeu, baixo.

Olhou para mim sem dizer nada e, em vez de retribuir o olhar angustiado que me lançou, fiquei examinando a lombada dos livros nas estantes. Você pode perdoá-la?, de Trollope, chamou minha atenção e senti uma ironia desleal. Ele sabia que estava certo, do mesmo autor, me conteve. Na época, eu não sabia se Charles era ciumento, já que ignorava se ele tinha alguma capacidade emocional. O fato de alguém não ser muito inteligente não influencia. As pessoas podem ser idiotas e muito complicadas, da mesma forma que podem ser inteligentes e incapazes de algum sentimento mais profundo.

– O que você acha? – Ouvi a pergunta e, por um instante, pensei se Charles pedia a minha opinião sobre algum livro mas, ao ver a cara dele, percebi que não. Por mera precaução, respondi com outra pergunta:

– Como assim?

– O que eles estão aprontando?

Ele estava com um jeito agressivo e áspero e concluí que era o começo do que se chama de uma “conversa de homem para homem”. Estremeci só de pensar. Além do mais, acredito que “em boca fechada não entra mosca” como ensina a escola da harmonia conjugal, crença que o casamento em si não abala.

– Ah, Charles, por favor – pedi, afetuoso, dando a entender que Edith e Simon não podiam “aprontar” nada. Não sei se fui desonesto. Acho que não. Parecia ingênuo, mas, pensando agora, era evidente que Edith e Simon se sentiram atraídos desde o segundo dia. Não sei se percebi alguma atração mútua antes daquela noite.

– Você é que me faça o favor – disse Charles, mais ríspido do que costumava ser.

– Escute, se está perguntando se tenho conhecimento de alguma coisa – eu estava bem conciliatório –, não tenho. Se está perguntando se eu acho alguma coisa, também não acho. Eles se gostam, só. Será que isso é tão terrível assim? Depois que você se casou, nunca teve vontade de seduzir alguém?

– Não – respondeu Charles, sentando numa poltrona Chippendale e apoiando os cotovelos numa bonita e desarrumada mesa lateral. Ao falar, enfiou a cabeça nas mãos e ficou passando os dedos pelos cabelos. Era uma pose para estátua do desespero. Fiquei sem jeito por ter me enganado, achando que aquele meu caloroso apoio resolveria; ao mesmo tempo, eu não queria passar para outro nível de intimidade com Charles que, afinal de contas, eu mal conhecia na época, e ele podia considerar uma impertinência. Tive pena dele e queria achar uma maneira de reduzir, e não de aumentar, aquele peso. Minhas reflexões foram interrompidas por um suspiro vindo da mesa.

– Ela não me ama, é isso – falou para a pilha de papéis que estava sob o rosto dele mas, como a observação devia ter sido dirigida a mim, tentei uma resposta à altura.

Claro que a situação ficava duplamente difícil porque a declaração de Charles, por mais sincera que fosse, era verdadeira. Eu não tinha a menor dúvida de que Edith não o amava. Ela não sentia atração sexual por ele (o que, na época, eu apenas desconfiava); não gostava da companhia dele; não tinha os mesmos interesses que ele; e não gostava de quase todos os amigos dele. Não creio, tanto na época como agora, que ela não gostasse dele, mas eu não ia reagir assim àquele lamento de dor. Fiquei calado e, imagino, isso foi uma concordância tácita; Charles olhou para mim. Não consigo expressar como fiquei emocionado com o terrível sofrimento de seu rosto simples e amargurado. Os olhos apertados estavam vermelhos e as lágrimas já escorriam pelo nariz grande e ossudo. Os cabelos, que costumavam ser tão lustrosos quanto um anúncio de óleo capilar na década de 1930, estava desarrumado, sujo e espetado para todo lado. Quem é bonito pode usar o sofrimento com charme e já vi muita graciosa com dignidade em velórios, mas, quando a dor cai bem, também causa suspeita. A verdadeira infelicidade é feia e fere, marca e machuca a alma. Fico envergonhado de lembrar que me surpreendi por Charles (o simpático e convencido Charles, com suas caçadas, suas cercas vivas e seus cachorros) ter um coração que podia se despedaçar. Tinha mesmo, e eu estava assistindo ao despedaçamento.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, veio um barulho do corredor.

– Charles?

Era lady Uckfield. Mesmo num momento tenso como aquele, em vez de cometer o solecismo social de bater na porta de uma sala (o que, como mordomos de luvas brancas, são sempre destaque nas cenas incorretas de dramas de época na tevê), ela apenas segurou na maçaneta da porta como se isso facilitasse a entrada na Arca da Aliança. De todo jeito, deu tempo para nós nos vestirmos, se fosse o caso, ou pelo menos enxugarmos as lágrimas. Ela abriu a porta e entrou.

– Ah, Charles, Edith chegou – disse, sorrindo para o filho, sem se importar com a queda de Roma que estava evidente. – Eles ficaram presos no trânsito ao sair da cidade. Foi um enorme aborrecimento. – Ela olhou para mim: – Seu amigo passou por aqui e foi direto para a fazenda.

Charles agradeceu numa espécie de torpor e foi para a sala de visitas. Eu ia atrás, mas lady Uckfield deu um toque quase imperceptível no meu braço e me impediu.

– Melhor Adela e eu irmos embora também. Onde está Bob? Preciso agradecer-lhe o jantar – eu disse.

– Ele foi dormir – ela respondeu. – Sua maravilhosa Adela agradeceu em nome dos dois.

Ficamos calados. Ela postou-se ao lado da lareira, passando os dedos pelos quadrados de cartolina que intimavam seu filho a comparecer a diversos compromissos. O aposento tinha só uma luz no canto mais distante, uma luminária de vidro e ouropel que fazia longas sombras em volta dela e, na meia-luz, marcava seu rosto sem dó. Por uma vez, lady Uckfield pareceu a idade que tinha. O véu glamoroso de suas boas maneiras foi retirado por um instante e mostrou uma mulher cansada e preocupada, no começo da velhice.

– Bom, a situação está complicada – ela disse, sem tirar os olhos de um convite de casamento onde estava rabiscado “aceito” com os garranchos de Edith.

– Ah, não sei – eu disse. Afinal, minha situação era difícil, já que eu estava na casa como amigo de Edith. Tinha a obrigação de ser leal a ela, mesmo achando bobo o seu comportamento. Eu não estava, digamos, “do lado dela”, embora achasse que seria conveniente.

– Bom, pois eu sei. – Ela fez uma pausa e olhei, em resposta ao tom ácido dela. – É pior do que você pensa. Eric estava no carro quando eles chegaram. Viu os dois se beijando.

Por um momento, fiquei como diz um amigo meu cosmopolita, “abestalhado”. Pensei que estivéssemos tratando de pequenas inadequações de comportamento causadas pelo tédio de Edith. Pensei que fôssemos ter uma conversinha sobre a “animação” de Edith. Claro que desconfiei na hora de que Eric não estava no carro dele quando os dois chegaram e sim que ficou escondido na entrada da casa para não perder aquela divina oportunidade de pegar em flagrante Edith que, a essa altura, ele odiava. Muito mais do que eu imaginava. Fosse qual fosse o motivo, ele não mentiu. Em nome da nossa velha amizade, tentei tirar Edith do buraco que ela própria tinha cavado:

– Ah, sim, ela certamente deu apenas um beijo de boa-noite.

– Não, ela estava beijando apaixonadamente. Ele estava com a mão dentro da blusa dela e não dava para ver a mão dela sob o painel do carro.

Lady Uckfield falava com a cara inexpressiva de um policial prestando depoimento no tribunal do condado. Olhei-a em silêncio. Meu primeiro impulso foi pedir desculpas por estar lá e sair correndo. Foi só o que pensei. Lady Uckfield prosseguiu:

– É lastimável que eles tenham sido vistos por Eric, que não consegue guardar segredo de nada e desconfio de que não gosta muito de Edith. Já contou para Caroline, que veio me contar. Ela vai pedir para ele não espalhar, mas acho que não adianta.

Para mim, o mais interessante foi o jeito de lady Uckfield. Tinha me acostumado com sua discrição sussurrada e apaixonada ao comentar as notícias do dia, ou o lugar que você ficaria na mesa de jantar. Naquele momento, tinha realmente um segredo para dividir e seu jeito jovial havia sumido. Naquele momento, ela podia ser uma oficial na Rede de Voluntariado Feminino dirigindo-se a um grupo de recrutas.

– Esperemos que as coisas não tenham ido mais longe, mas acho que não faz muita diferença.

– Vai contar ao Charles?

Ela olhou, assustada.

– Claro que não. Pensa que sou louca? Ele com certeza vai descobrir. – Ela relaxou de novo; tinha passado o choque de ser considerada uma ingênua. Foi até a janela.

– Como ele vai descobrir? – perguntei, dando a entender que eu também não contaria nada.

Ela deu um sorriso triste.

– Edith decerto vai contar para ele. De qualquer modo, alguém vai.

Não havia nada a acrescentar que valesse a pena, ela estava com toda a razão. Em seu tédio, Edith teve aquele desejo fatal de “tomar uma atitude” que tantos casais parecem ter hoje em dia. Bem ao contrário dos bisavós, que faziam tudo para não tomar atitude alguma. Meu silêncio ficou canhestro mas, na verdade, eu não sabia exatamente por que lady Uckfield me contava tudo aquilo. Apesar de toda a sua pseudodiscrição, ela jamais contava nada que fosse nem remotamente indiscreto, quanto mais potencialmente escandaloso. O meu jeito deve ter mostrado o que se passava na minha cabeça, pois ela respondeu sem ser perguntada.

– Contei para você porque quero que faça uma coisa para mim.

– Pois não.

– Quero que mande esse Simon largar dela.

– Bem...

Ai do homem que aceita imediatamente esse tipo de missão. Qualquer que fosse a minha opinião sobre a personalidade ou a ética de Simon, eu não podia fazer o papel de tio sensato dele.

Lady Uckfield ficou irritada com a minha indecisão. A voz dela mostrava mais que a loquacidade normal e as palavras jorraram, baixo:

– Ela está entediada, só isso. Devia ir mais a Londres. Devia ver mais os amigos. Ou ter um filho. Ou arrumar um trabalho. É o que ela precisa. Quanto ao rapaz...

Ela deu de ombros.

– Ele é bonito, é sedutor e, acima de tudo, está aqui. A pessoa faz isso no começo de uma vida nova. Não significa nada. O problema é Eric ter visto. Certamente vai contar e temos de impedir que alguém acredite.

Comecei a ver as coisas por essa ótica. Claro, era tudo uma bobagem que só ficava horrível porque podia magoar Charles, caso ele soubesse. Sim, era uma pena Eric ter visto os dois. Pena. A voz sedutora e calma de lady Uckfield afastou a ameaça de caos e tempestade que pareceu nos envolver um instante e nos trouxe de volta à terra firme.

– Farei todo o possível – garanti.

– Certamente. De todo modo, o filme ainda não acabou. Pena você estar nos deixando para se casar – ela acrescentou rápido, depois lembrou-se: – mesmo assim...

Concordei e ela foi para a porta. Tinha cumprido a missão. Tentou reduzir o prejuízo e, para isso, teve de confiar em mim. Mas eu já era aliado dela. As coisas podiam ser piores.

– Lady Uckefield – chamei. Ela parou e virou-se, ainda com a mão na reluzente maçaneta da porta. – Não seja muito dura com Edith.

– Claro que não. Talvez você não acredite, mas eu também já fui jovem – ela disse, rindo.

Ela então sumiu e tive a absoluta certeza de que detestava a nora tanto quanto odiaria qualquer mulher que fizesse o único filho dela chorar.