Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 12 de 23

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Esnobes

Doze

 

EU NÃO DEVIA ESTAR TÃO ATENTO aos fatos nessa época, pois pouco antes de iniciar as filmagens em Broughton, encontrei a garota com quem me casaria. Ela tem pouca participação na história de Edith, por isso tentarei ser o mais conciso possível. Nosso encontro não teve nada de muito especial. Foi num coquetel em Eaton Terrace, oferecido por um amigo de meu tio e, por acaso, pela mãe dela, e ao qual nenhum de nós dois estava muito disposto a ir. Fomos apresentados pouco após ela chegar (com a dita mãe) e resolvi quase na hora que aquela seria a minha futura esposa. Chamava-se Adela FitzGerald, filha de um baronete irlandês, uma das primeiras indicações ao título, como ela costumava destacar, firme, de vez em quando. Era alta, bonita, séria e concluí logo que me faria feliz pelo resto da vida. Passei, portanto, os meses seguintes muito ocupado, tentando convencê-la desse fato, que para mim era bastante evidente, mas confesso que, para ela, não tanto. Continuo muito bem casado hoje, mas ainda acho um mistério como alguém decide que encontrou a pessoa certa, se procurava alguém que não sabia quem era. Passei muitos anos buscando a parceira ideal e é meio ilógico que tivesse certeza na hora, mas foi o que aconteceu. E nunca me arrependi.

Escondi Adela dos meus amigos durante algum tempo. Quando se tem quase 40 anos, os amigos ficam muito alvoroçados se você sai com uma garota mais de uma vez (amigos bem-intencionados acabam com muitos romances no nascedouro). Por isso, eu não disse nada a ninguém até saber se “valia a pena”. Como vi que valia, apresentei-a a todos. Meus amigos e, mais ainda minha família, ficaram aliviados por eu escolher uma moça do meu antigo mundo e não do novo. Meus amigos do teatro (que, no geral, são mais generosos, embora mais displicentes) ficaram aliviados pelo simples fato de eu encontrar alguém.

Estávamos quase no final das filmagens, quando dei a entender que Adela gostaria de ir a Sussex numa sexta-feira para acompanhar algumas cenas e passar duas noites na fazenda. Isso precisou ser acertado com os outros dois hóspedes e Bella achou muita graça de eu ceder o meu quarto e ir dormir no sofá da sala. Assim, Adela chegou de carro na noite combinada, dirigindo seu surrado Mini verde, e foi apresentada aos outros inquilinos num alegre e, graças a Bella, delicioso jantar. Adela prometeu nos encontrar no local da filmagem no dia seguinte, depois de fazer algumas compras.

Na manhã seguinte, antes que ela chegasse, Edith apareceu de surpresa. Estávamos filmando num roseiral que ficava no fim de uma pequena alameda na lateral da mansão. A cena tinha sido marcada para a primeira semana de filmagem e adiada inúmeras vezes, não me lembro do motivo, e assim lá estávamos nós, em meados de outubro. Mas nossos (temerosos) produtores tiveram sorte e o dia estava claro e quente como se fosse final de junho. Quase me irritei pelo fato da desorganização deles ter dado tão certo. Era uma sequência longa, que incluía Elizabeth Gunning (interpretada pela americana mais decidida, Louanne) e Campbell (por Simon) numa cena de amor que é interrompida por Creevey (eu). Estava eu então lendo, esperando minha vez de entrar e, devo dizer, desfrutando o ambiente, quando vi Edith.

– Pode me contar o que houve? Você é um boca de siri. – Concordei. – O caso é sério? – Observei que, se me consideravam boca de siri, o caso só podia ser sério. – Ela é atriz?

– Claro que não.

– Não precisa ficar tão zangado. Não podia ser?

– Pois não é. Ela trabalha na casa de leilões Christie’s.

Edith fez uma careta. – Não é uma daquelas sobrinhas de conde que ficam na mesa parecendo tão superiores, mas jamais sabem responder a nada do que se pergunta a elas?

– Exatamente. Só que não é sobrinha de um conde, é filha de um baronete.

– Como se chama?

– Adela FitzGerald.

– Ah, você me desaponta. – Ela se jogou num banco perto da minha cadeira dobrável. Havia outras cadeiras vazias por ali, portanto não me senti culpado por não oferecer lugar.

– Não sei por que desaponto.

– Você, meu amigo artista, faz um casamento de conveniência.

– Acho que não estou disposto a ouvir isso de você. Mas o problema é se a conveniência é um detalhe secundário ou o motivo principal.

Edith ruborizou de leve e calou-se. O primeiro assistente fez sinal para ficarmos em silêncio e as câmeras passaram a filmar Simon e a implacável Louanne. Ela fez pose e se colocou no melhor ângulo em relação às lentes. Nós estávamos todos mais ou menos reconciliados com Jane Darnell, que interpretava lady Coventry. Era incompetente, mas boa pessoa e devia concordar conosco que não tinha condição de fazer uma linda irlandesa do século XVIII. Só queria mesmo era juntar florões e enfeites de arreios de cavalo para levar para sua casa em Laurel Canyon. Já Louanne Peters era outra coisa. Não só achava que tinha muito talento, mas seu narcisismo chegava às raias da insanidade mental. Falava nas suas glórias e na sua beleza, em seus amantes e na sua capacidade de ganhar dinheiro, sem jamais perguntar nada a respeito de seus relutantes ouvintes. No começo, a pessoa achava que devia ser alguma piada sutil e ela aguardava que nós gostássemos, caíssemos na risada e pedíssemos, levantando as mãos para cima, “chega! Não aguento mais de tanto rir”. Só que não era assim. Simon detestava-a, o que não ajudava nas cenas de amor que tinham de fazer.

Terminada a cena, Simon e Louanne foram dispensados no momento em que Adela vinha pela alameda, em nossa direção. Ela usava culote de veludo, suéter de pescador e estava com os longos cabelos negros meio presos num lenço de seda, sendo assim o inverso dos charmes sintéticos de Louanne. Por um instante, Adela fez o rosto cuidadosamente maquiado de Edith ficar numa luz imprópria. Adela era tão... saudável. Mas, claro, repito que eu estava apaixonado por ela.

Edith levantou-se para cumprimentar.

– Adela, que bom conhecer você, finalmente. Sou Edith Broughton.

– Também estou encantada de conhecer você!

As moças trocaram seus cautelosos cumprimentos. Cautelosos por dois motivos principais, nenhum dos quais significa que houvesse a menor competição romântica entre elas. Edith não tinha, nem jamais teve, o menor interesse por mim nesse sentido. Não, ela estava aborrecida por perder um bom confidente que não seria tão útil casado quanto foi solteiro. Se você casa tarde, muita gente que gosta de você sente isso, mesmo que tente disfarçar. Além do mais, os amigos bem-casados nos enlouquecem insistindo que o casamento é a única solução, da mesma forma que os mal-casados consideram uma missão manter todos os solteiros longe da porta da igreja. A frase é usada com frequência, meio de brincadeira, para incomodar o cônjuge em público. “Casar! Por que diabos você quer fazer isso?” É o que se ouve num jantar, jocosamente, enquanto mais abaixo na mesa vê-se o olhar ácido da esposa, mordendo o lábio. Infelizmente, era o que Edith estava dando a entender, inconscientemente.

Por parte de Adela, a cautela foi mais sutil. Claro que ela sabia muito bem quem era Edith e, antes de me conhecer, costumava ter outra opinião sobre a nova lady Broughton: tinha “agarrado” Charles (que Adela conhecia por alto). Consegui que ela pelo menos mudasse de opinião, mas Adela tinha percebido uma certa benevolência na maneira com que Edith a cumprimentou. Edith, a nobre, saudando aquela linda namoradinha de ator. É difícil avaliar direito essas coisas, mas é verdade que, àquela altura, Edith tinha assumido um jeito imponente, portanto pode ter entrado nessa perigosa área. Eu havia prevenido Adela para não tratar Edith com frieza, mas ela não ia querer ser vista com superioridade.

Para piorar a situação, nesse exato momento Charles chegou para ver como estavam as coisas. Reconheceu Adela e acho que, por vingança (o que, se fosse dito, ele negaria), foi logo conversando sobre várias pessoas que os dois conheciam e Edith não sabia quem eram. Em resumo, usou o terrível intercâmbio de nomes contra ela. Eu devia me indignar com um deles ou com ambos, mas essas coisas se resolvem por si e, de todo jeito, eu via que Adela tinha razão. Nem naquela época eu esperava que as duas ficassem muito amigas. Adela estava quase onde Edith queria estar (certamente até onde ia o seu passado) e, embora não fosse uma esnobe, Adela gostava de colocar no seu lugar gente como Edith. Eu costumava chamar isso de “estilo vice-rainha”. Acabei concluindo que o melhor era manter uma tolerância mútua. Nessa determinada manhã, antes que as coisas se complicassem, Charles ofereceu mostrar as estrebarias para Adela e, após me cumprimentar com a cabeça, saiu com ela. Edith olhou-os se afastarem.

– Ela é que devia ter se casado com Charles.

– Bom, vai se casar comigo.

– Não, quero dizer que uma garota assim o faria feliz. Deus sabe que ele teve muitas para escolher.

– Isso não parece muito elogioso para o seu amado.

– Você está falando das qualidades óbvias dela, que são, como você bem disse, as de sua época e sua classe. Suas qualidades não óbvias, as quais você ignora, são o motivo para ela preferir se casar com um ator pobre, que mora num apartamento no sótão, e não com um conde rico.

– Bom, vamos ter que pegar leve com ela.

Não entendi. – Não nos coloque em dois times opostos, minha cara. Pois aviso logo que sou do time dela e não do seu.

– Opa.

– Mas quem disse que Charles não deveria ter se casado com você?

Edith não respondeu, recostou-se no banco e olhou para cima.

– Vocês dois parecem muito animados.

Simon apareceu, sem o casaco bordado, mais romântico que nunca em sua linda camisa de mangas bufantes. Sentou-se no gramado ao lado de Edith sem se preocupar com a roupa que usava. Vi, ao fundo, que o roupeiro ficou furioso, mas no momento Simon interpretava Byron para Edith/Caroline Lamb e não ia permitir que um detalhe bobo como grama na roupa fosse atrapalhá-lo.

– Adela não estava aqui?

– Charles foi mostrar as estrebarias para ela – respondi.

– Lembrar os bons tempos – acrescentou Edith, seca.

Simon riu e disse: – Céus, melhor ficarmos bem-comportados quando esses dois se juntam.

– Não venha com isso, já me criticaram.

Simon fez um engraçado olhar culpado para mim, porém o que mais me surpreendeu foi ver que ele estava seguro a ponto de fazer uma piada assim. Fiquei meio aborrecido porque os dois estavam igualando Adela a Charles na categoria “grã-fino chato”. Mas, quando vi Edith sorrir e cochichar com Simon, notei como ele era um sedutor inteligente. Pois, ao me incluir na frase ele tinha conseguido acabar com uma cumplicidade, uma piada com Edith que excluía Charles. Notei então que ele não ligava muito para Adela e para mim.

Fiquei sabendo que naquele fim de semana Edith, por vingança e também por cordialidade, tinha convidado o casal Bob e Annette, o mesmo que estava na casa dos Chase na lua de mel em Mallorcin. O convite foi contra a vontade de Charles, mas ela fez isso em parte porque queria rever Annette (que manteve, claro, uma animada correspondência com sua nova e importante amiga) e, em parte, para incomodar Charles e Gugu e, principalmente, incomodar Eric Chase, que estava em Broughton com Caroline. Ela achou que ele ficaria furioso pelo fato do casal ser apresentado aos sogros como “amigos de Eric”, como se fossem do estilo dos amigos dele. Ela estava certa. Eric ficou furioso.

Simon, Adela e eu fomos convidados para jantar; Bella estava passando uns dias em Londres e, portanto, às oito da noite encontramos com aquele grupo estranho na sala de visitas da família. O grupo ímpar prometia uma noite bem incompatível e, realmente, Adela entendeu mal e passou a primeira hora achando que Eric era do elenco do filme e não da família. Quanto mais nomes ele desfiava, mais ela confirmava isso até que, exasperado, rubicundo, ele finalmente falou em “meu sogro, Jojô”. Mesmo assim, ela olhou para mim para confirmar se era sogro mesmo.

Por outro lado, Edith se desapontou com a reação calculada e deliberada de lady Uckfield. Fez muita confusão com Bob e Annette o fim de semana inteiro e, ao mesmo tempo, conseguiu dar a entender, discretamente, que ficava muito aliviada por Adela ser uma alma gêmea dela. Considerei como um elogio para mim.

Ela confirmou que, ao aceitar um ator em sua roda, ele acabou ficando igual a ela. Edith achava conveniente que seus amigos se casassem com pessoas das quais ela soubesse alguma coisa. Por acaso, conhecia bem uma tia de Adela, que debutou no mesmo ano que a mãe dela, assim ficou tudo bem em seu mundo tão organizado. Óbvio, era exatamente esse lençol de segurança que Charles tinha rejeitado ao escolher Edith e era difícil não desconfiar de uma certa raiva da nora com o entusiasmo de lady Uckfield por minha futura esposa. Naturalmente, Adela gostou da atenção recebida, ainda sem entender direito as jogadas que eram feitas. Descobri Edith numa das janelas da sala, olhando amuada aquela festa de convidados estranhos. Fez sinal com a cabeça, mostrando a minha querida.

– Eu não disse? Ela é perfeita.

– Eu sei. – Acompanhei o olhar dela e vi que tinha passado da cena encantadora no sofá para um lugar mais distante, onde Caroline Chase ouvia com atenção Simon, que estava a toda como sempre. Charles ia de um grupo a outro, meio desconsolado, oferecendo mais bebidas.

– Pobre Charles. Quem ficou com ele no jantar?

Minha pergunta foi mais impertinente do que eu pretendia, acho que falei sem pensar. Mas, em vez de se zangar comigo como devido, Edith deu de ombros.

– Sei lá. Temos uma noite horrenda pela frente.

Olhei-a sem entender, ela então acrescentou:

– Bob e Annette Watson convidaram todos para sair.

– Simpático da parte deles. Mas por que convidaram?

Edith não achava simpático como eu.

– E tem mais. Reservaram mesa na mansão Fairburn. Gugu ri sem parar, está encantada, claro que não disse, mas está louca para ver como ficou a mansão depois que os de Marney saíram de lá.

Não estranhei o desinteresse de Edith pelo convite dos Watson. A ideia era, naturalmente, uma terrível perspectiva para os Broughton e os demais. Um dos piores erros que um alpinista social pode cometer na Inglaterra é ser generoso demais. É estranho, realmente, pois o que podia ser mais simpático? Trazer presentes e agrados, dar festas e levá-los a algum lugar na cidade: existe algo mais simpático? Mesmo assim, essas cortesias são um sinal claro para os “de dentro” de que o provável benfeitor é um novato no mundo deles, o que fica tão evidente como prender balançar uma bandeira. De todos esses solecismos, o pior talvez seja convidar para “sair” no campo. A classe alta inglesa não sai de suas casas de campo à noite, a não ser para ir à casa de outros. Pode aceitar assistir a uma ópera numa casa de campo, ou até participar de um jogo seguido de piquenique mas, se querem ir a um restaurante, vão durante a semana, em Londres. E também não se hospeda em “pousadas em casas de campo,” a menos que seja por uma curiosidade pessoal. Podem até visitar uma porque “costumava passar o verão aqui, quando tudo isso pertencia à minha tia Ursula”, mas jamais, nem mortos, iriam jantar ou passar um fim de semana lá. Um dos aspectos mais lastimáveis desses lugares é que o requinte que os folhetos turísticos prometem não pode, por sua própria natureza, se estender aos hóspedes.

Os Watson estavam ansiosos por caírem nas graças de lady Uckfield e virarem “assíduos” frequentadores de Broughton, mas só conseguiram ficar ridículos para sempre aos olhos dela, além de fornecerem uma nova fonte de casos engraçados. Eles iriam pagar caro tal privilégio.

A mansão Fairburn era uma casa grande e feia, que ficava do outro lado de Uckfield. Durante séculos, pertenceu à família de Marney, que era muito antiga, embora pouco abonada, e obteve finalmente um baronato graças a, logo quem, Lloyd George. A casa dos de Marney era de uma fase arquitetônica particularmente infeliz da década de 1850, um perfeito solar ao estilo rainha Anna, num horrendo estilo neogótico, cheia de baixos-relevos mostrando os momentos históricos e triunfais da família. Tais momentos, pelo jeito, foram poucos, por isso as paredes tinham cenas meio nebulosas e sem confirmação histórica de “Gerald de Marney dando as boas-vindas à rainha Eleanor em Fairburn”, ou “Felipe de Marney carregando o brasão de armas em Edgehill”. Os Broughton riram muito. Quase não preciso dizer que as duas famílias jamais se gostaram. Tecnicamente, os de Marney eram uma família mais antiga e por isso sempre olharam seus vizinhos com certa arrogância. Isso não fazia sentido já que, quer quisessem ou não, nos últimos três séculos os Broughton foram muito mais ricos e mais importantes. Alguns anos antes, o atual dono do título, Sir Robert de Marney, desistiu daquela luta desigual e alugou Fairburn por um longo período para uma grande rede de “hotéis de lazer” e mudou-se com a família para a segunda sede, a 12 quilômetros.

– Você acha que devíamos viver escondidos? – sussurrou lady Uckfield, quando saltamos dos carros. Ela virou-se para mim.

– Essa sempre foi a casa mais horrorosa do mundo. Minha sogra costumava dizer que eles construíram errado, confundiram o projeto da casa com o da prisão de Lewes.

A entrada era por uma espécie de estufa espaçosa, com alguns estandartes de pedra e estranhas grelhas quase armoriais nas janelas, como se a casa fosse um imenso banco. A seguir, vinha uma estranha entrada. Por toda parte havia colunas vitorianas, grossas e quadradas, mas a reforma da mansão resolveu alterar o pé-direito original e o teto ficou parecendo uma abóboda da Alemanha central e o visitante se sentia uma cariátide. O gosto dos de Marney por cores fortes estava em todas as paredes e uma enfeitada árvore genealógica com moldura dourada estava sobre a lareira de toras de madeira a gás. Lady Uckfield olhou com atenção.

– Eles ficaram com os galhos errados da árvore – concluiu, satisfeita.

O chefe dos garçons veio, muito arrogante, falar conosco e confundiu as nervosas perguntas de Bob Watson sobre reserva de mesa com o tom geral da festa, fez ares superiores e nos levou à sala que chamou de “recolhimento”. Foi logo corrigido.

– Que cor horrenda! – disse lady Uckfield, sentando-se no sofá, sem dar atenção à cadeira que o garçom indicou. – Pena, já que essa era a única sala agradável. Nos velhos tempos, era a sala de música, embora eles fossem bem desafinados! – Ela sorriu, divertida, enquanto o garçom, arrasado, tentava recuperar a pose perguntando, solícito, o que ela queria de apéritif.

– Creio que lady Uckfield gostaria de um champanhe – respondeu Bob alto, e uma ou duas cabeças cheias de laquê nos cantos da sala viraram-se. Bob queria obter alguma vantagem por levar um grupo tão distinto para, achava ele, uma ocasião elegante; não posso culpá-lo. Deus sabe que ia pagar caro por isso. Ele amenizou o tom de voz com o garçom, que conhecia suficientemente bem a área para saber que tinha dado um faux pas. O grupo estava ficando desconfortável, Charles e Caroline trocaram um olhar rápido e irritado. Tive vontade de defender Bob e sua delicadeza de espírito, mas sabia que ia enfrentar dificuldades imensas e, covarde, me escondi atrás de um dos enormes cardápios com capa de couro até trazerem o vinho em meio a uma grande exibição de pratas, cristais e linhos. Nesse momento, para surpresa de todos exceto talvez Caroline, Eric inclinou-se para a frente, pegou uma garrafa no balde de prata para gelo e perguntou ao garçom, não a Bob:

– Não tem nada da safra 92?

O garçom negou com a cabeça e resmungou desculpas. Da mesma maneira que a timidez de Bob no começo nos deixou sem ação, a presença de lady Uckfield agora fez com que todos se transformassem em gente fina.

Eric adorou o constrangimento do garçom.

– Então a carta de vinhos não devia dizer que é de 92, não? – Ele devolveu a garrafa ao balde e sentou-se enquanto o garçom servia.

Olhei para Edith e ela revirou os olhos.

Bob não sabia o que fazer. Só sabia que a conta seria de umas setecentas ou oitocentas libras e, pelos risos contidos e os sorrisos trocados, sabia também que seu convite não o estava valorizando, mas ridicularizando. Sem dúvida, foi irritante para ele, já que a esposa tinha sugerido que convidassem os Broughton e os Uckfield para jantar no Ivy, em Londres (o que, claro, seria bem conveniente para os convidados.)

Charles veio em socorro de Bob.

– Delicioso – disse, sério, tomando o vinho e olhando para todos nós.

– Maravilhoso – elogiou Adela, e concordei.

Na verdade, o vinho era muito bom, mas estava gelado demais. Simon tinha resolvido arriscar tudo nessa noite perigosa. Queria desfazer de uma vez por todas a ideia de que aquelas companhias o intimidavam.

– Há algum problema, se eu pedir um uísque? – perguntou.

– Boa ideia, também quero – disse Eric.

A grande maldade disso era que Bob já tinha pedido três garrafas de vinho que foram abertas e que nós, o resto do grupo, não conseguiríamos beber. Ele estava arrasado. O vinho que pediu foi reprovado, ele foi ofendido e tinha de fingir que ia tudo muito bem.

– Claro, uísque! E você, Edith? – ele perguntou, com um largo sorriso.

Edith se enfiou na cadeira superestofada de chintz e fez o seu olhar diáfano. O olhar passou por Charles, que estava com jeito de censura, implorando para ela se comportar. Pobre sujeito. Aqueles eram os amigos da esposa e, mesmo assim, ele é que tinha de salvar a noite. Atrás dele, Simon sorria para ela.

– Gostaria de um pouco de vodca – ela respondeu. Simon deu uma piscadela, os dois sorriram e disseram alguma bobagem.

– Ótimo – aprovou Bob, com voz opaca. Olhou em volta procurando mais problemas, porém Caroline pegou com gesto decidido a grande taça de champanhe ao lado de Eric. As linhas de combate estavam se formando.

Como era de se esperar, a comida era pretensiosa, com réchauds em quase todas as mesas. Canapés mal apresentados, que pareciam chapéus de coquetel, foram surgindo numa sucessão insossa e enfadonha, servidos por garçons supostamente franceses. A essa altura, o maître não nos largava e ficou indo e vindo para conferir os pratos até Simon finalmente sugerir que ele sentasse e assim não se preocupar. Claro que todos nós rimos e claro que ele não foi mais visto. Graças a Simon, o jantar foi a parte menos lastimável. Ele sem dúvida estava bem engraçado naquela noite. Podia competir com as histórias de Annette sem querer e os dois fizeram as coisas seguirem. Até lady Uckfield se rendeu ao bom humor dominante e riu enquanto lidava com seus pratos sem graça e caros.

Já Charles ficou péssimo quase o tempo todo. Não tinha agilidade mental para entender as piadas na hora, muito menos para contar alguma. Aquelas pessoas não eram do tipo que ele apreciava e ficou em desvantagem (embora raramente corresse esse risco). Ao contrário do pai, ele não era um sedutor e, ao contrário da mãe, tinha pouco senso de humor. Caroline tentou salvá-lo uma ou duas vezes, mas estava irritada e Adela conseguiu que ele falasse na recuperação das caçadas em Feltham. Ele tinha recomeçado esse esporte havia apenas três anos, após um longo intervalo e o tema soltou algo que estava reprimido dentro dele. O que também durou pouco, pois Simon estava contando de uma filmagem em que a produção, em vez de encher a banheira com água fria, despejou água fervendo e, quando Simon deu uma parada para contar o final da história, ouviu-se a voz de Charles:

– O melhor é colocar um pouco de repolho na água, que alguns camponeses naturalmente não gostam...

Simon riu.

– Bom, naturalmente, Charles está adorando – ele disse. Acho que Simon quis ser agradável e tudo ficaria por isso mesmo, se Edith não tivesse dito então:

– Ah, Charles, pelo amor de Deus, para de falar nas suas malditas caçadas.

Imagino que ela tenha achado que também seria engraçado e todos iam rir, mas não foi o que aconteceu. A voz dela era ríspida e acho que agressiva, a mesa passou por um momento constrangedor e estranho, sobretudo pela presença dos pais de Charles. Houve um certo estremecimento. Annette olhou para Bob e Adela me cutucou por baixo da mesa.

Charles ficou quieto, mais magoado do que irritado, como quando alguém zanga com um cachorrinho pelo xixi que outro fez.

– Estou sendo muito entediante? – ele perguntou.

Fez-se uma leve pausa e Eric, também achando que seria engraçado ou, mais provavelmente, só para ser antipático, disse:

– Está, sim. É melhor você beber mais um pouco.

Começou a servir vinho na taça de Charles, que recusou.

– Não sei, mas estou terrivelmente cansado – virou os olhos lassos para Bob e perguntou:

– Você me perdoa se eu não tomar o café e for para casa?

A essa altura, antes de pegar seu cartão de crédito, Bob já sabia que a noite tinha sido um fracasso total. Por isso, balançou a cabeça e garantiu animado:

– Claro que sim! Pode ir. Nós ficamos.

Charles sorriu sem graça e levantou-se.

– Bom, então peço licença para sair. Temos vários carros, não é? Sem problema, querida?

Era evidente para todos que Edith devia ter se levantado na hora, dito que também estava cansada e saído junto com o marido. Era exatamente o que devia fazer, mas naquela noite ela estava possuída por algo diabólico. Ou talvez fosse apenas lascívia. De todo modo, ela nada fez e a voz de Simon rompeu o silêncio:

– Não se preocupe com Edith. Levo-a para casa.

Charles olhou para ele e, por um segundo, os dois ficaram, como dizem os americanos, “com os olhos soltando faíscas”. Podia ser que Charles, rico e cheio de títulos como era, e com sua boa aparência estilo anos 1930, tivesse todos os ases na mão e, na verdade, tinha mesmo. Mas Simon Russell estava animado e se saindo bem; além de se achar o homem mais bonito do mundo tinha, ou melhor, exibia uma segurança carismática naquele noite. Para todos os presentes à mesa, Charles virou uma sombra na frente dele, cheguei a sentir uma sincera piedade daquele homem que tinha tudo. Obviamente, pensando nisso agora, sei que Simon tinha a segurança do homem que estava apaixonado e era retribuído, enquanto Charles tinha o medo do homem derrotado, mesmo sem ter consciência disso. A figura de Simon, elegante em seu paletó cinturado de veludo azul, olhos e cabelos brilhantes, era a encarnação de uma força invencível numa cena mitológica. Digo isso para que as pessoas sejam menos duras e mais compreensivas com Edith. O grupo ficou parado e mudo um instante e foi lady Uckfield quem falou.

– Gentileza sua, sr. Russell. Vai levar mesmo? – Ela conseguiu alterar ainda mais a situação ao se levantar e, com isso, obrigar todos a fazerem o mesmo. – Será que estou tirando as senhoras do jantar? Ou será que vamos todos juntos?

Mesmo nessa hora de salvar as aparências, ela não resistiu em mostrar que achava aquele lugar muito especial e, portanto, não obedecia às regras normais da vida dela. Eu já disse que passei a admirar muito lady Uckfield e esse foi um dos momentos em que ela se destacou para mim. Viu o filho ser tratado como idiota, viu-o ser dispensado pela esposa, sabia do perigo que havia no oferecimento de Simon e, mesmo assim, ela não demonstrou nada. Preferia cortar a língua do que dar a impressão de que era contra Edith voltar para casa sozinha com Simon à noite. Mas daria milhares de libras na hora para fazer Simon sumir da frente dela para sempre. Se ao menos Edith soubesse se controlar como a sogra, não haveria nenhum escândalo, nem naquela hora, nem depois.

De volta à horrenda “sala de recolhimento”, lady Uckfield fez sinal para eu me sentar ao lado dela. Não sei se estava pouco à vontade, mas não demonstrou absolutamente nada.

– Quero cumprimentar você pela escolha da noiva.

– Quer dizer que você aprovou, então.

– Bom, como sou sua amiga, estou contente por você mas, como anfitriã, estou furiosa.

Sorri, pois ela disse a verdade. Ela me perdoava a inconveniência de não ser mais solteiro, mas só por ser a coisa “correta” a fazer.

– Quando vai ser o casamento?

Expliquei que, embora eu tivesse tudo para achar que o casamento daria certo, ainda não tinha marcado a data. Imaginava que seria dali a cinco ou seis meses.

– E filhos? Pensaram nisso? Sou velha, então posso perguntar.

Dei de ombros.

– Não sei. Nós queremos filhos, mas tenho de admitir que a esposa é quem sabe a hora, não? Afinal, a minha parte é muito fácil.

Lady Uckfield riu.

– Sem dúvida, é mesmo. Mas não esperem tempo demais. Tomara que Charles e Edith não façam isso.

Olhou bem para mim, pois claro que nós dois sabíamos que eles já tinham esperado demais. Se Edith estivesse agora preocupada com alguma cabecinha loura no quarto das crianças, ou se estivesse apenas bem grávida, nada daquele terrível pesadelo estaria acontecendo.

– Tem toda a razão – concordei.