Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 9 de 23

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Esnobes

Segunda parte: Forte-Piano

SEGUNDA PARTE

Forte-Piano

NOVE

 

PASSEI MESES SEM VER EDITH depois que ela voltou da lua de mel, embora o casal viesse de vez em quando a Londres. Parecia não gostar do apartamento da sogra em Cadogan Square, pois ficavam no pequeno flat de Charles em Eaton Place, quando vinham para uma festa, ou um teatro. Encontrei-os em jantares e, um dia, em outubro, fui convidado para tomar um drinque com alguns amigos deles na saleta do segundo andar. Mas não houve muita chance de conversar. Edith parecia bem feliz e tinha começado a adquirir aquela pátina dos privilegiados, a leve aura do luxo, que parece pedir “mantenha-distância” e separá-los de nós, os simples mortais. Achei divertido notar uma hauteur começando a esconder a garota sortuda de Fulham.

Não os vi no período pré-Natal e já estava me sentindo excluído da roda quando recebi um bilhete dentro de um cartão de Charles (não de Edith), convidando-me para um dia de caça em janeiro. A data era uma sexta-feira, portanto era para jantar na quinta e passar a noite e, como nada mais foi dito, eu supostamente devia sumir após a caçada, dando lugar aos convidados que chegariam no sábado. O convite tardio mostrava que um outro convidado tinha recusado, mesmo assim era um programa interessante e eu (por acaso) não tinha filmagem nessa data. Estava escalado para fazer, cinco dias após a caçada, o vilão-da-semana num daqueles infindáveis seriados de detetive com mocinha e bandido, então escrevi aceitando o convite. Logo depois, recebi informações de como chegar à mansão de carro ou de trem e, nesse caso, em que horário embarcar para estar lá às seis da tarde, mais ou menos.

Gosto de caçadas. Os amigos artistas de Londres têm muita dificuldade em aceitar isso, mas os que foram criados no campo aceitam facilmente. Não vou agora empreender a defesa dos esportes sangrentos, já que jamais consegui convencer alguém que não tivesse a mesma opinião que eu. Devo dizer que não vejo muita lógica nas pessoas que adoram comer alimentos processados e são contra os caçadores conservacionistas, que abatem animais criados especialmente para serem caçados. Mas reconheço que nenhum sentimento tem muita lógica. Nessa época da minha vida, entretanto, quase todos os esportes que eu praticava eram do tipo tiro campestre, por isso foi com prazerosa ansiedade que me preparei para o que prometia ser um verdadeiro grand battu eduardiano.

Eu conhecia bem o caminho para Broughton, já que tinha passado muitos fins de semana com os Easton, mas sair de Londres de carro na direção sul pode ser um pesadelo, e fui com tempo de sobra, prevendo as retenções na estrada. Nessa vez, não reparei que fui numa quinta-feira e não sexta e, com a estrada relativamente livre, cheguei à mansão pouco depois das cinco e meia. O mordomo, que tinha o improvável nome de Jago, avisou-me que lady Uckfield e lady Broughton estavam no salão amarelo terminando uma reunião de comitê.

Eu não pretendia participar da reunião (já basta as que somos obrigados a ir) e me instalei numa poltrona de veludo e dourado estilo William Kent, no salão mármore. Para surpresa minha, a poltrona era confortável; não tive de esperar muito, logo a porta se abriu e saíram alguns integrantes da reunião, se despedindo de Edith com palavras amáveis e ela mostrou o caminho para eles. Interrompeu-se para falar comigo.

– Olá, não sabia que você já tinha chegado – ela disse.

– Cheguei um pouco cedo, então preferi esperar em vez de atrapalhar o seu lazer.

Ela fez um gesto de desânimo e deu um suspiro engraçado.

– Lazer! Vamos tomar uma xícara de chá – convidou.

Sem dar atenção aos cumprimentos e sorrisos das pessoas que estavam indo embora, ela entrou de novo na sala. Eles não estranharam nada, longe disso. Como ela interrompeu as despedidas para falar comigo, as pessoas me deram sorrisos cheios de deferência, enquanto se encaminhavam para a escada. Devem ter pensado que eu também tinha sido tocado pela varinha de condão dourada.

Os remanescentes do comitê, o habitual grupo de intelectuais de província, conselheiras e camponesas de cabelos com permanente, todos mortos de tédio, estavam prestes a se retirar. Alguns juntavam suas coisas devagar, o que mostrava a intenção de “segurar” alguém. A presa que quase todos os retardatários queriam pegar era, claro, lady Uckfield, que estava escondida numa bonita cadeira capitonê junto à lareira, cercada de admiradores. Alguns candidatos, desconcertados com a competição, contentaram-se em falar cinco minutos com Edith e saíram. Ao me aproximar da dona da casa, ela se levantou para me cumprimentar com um beijo, o que foi uma espécie de sinal de que a audiência com os demais estava terminada.

– Adeus, lady Uckfield e obrigada – disse uma conselheira negra que usava um folgado avental de artista.

– Obrigada a você. – Lady Uckfield falava rápido e com a sua habitual intimidade.

– Tenho certeza de que você vai fazer coisas lindas lá em Cramney. Soube que a cidade está fervendo, estou louca para ir lá ver.

A colega dela sorriu, irradiando socialismo.

– A sua presença será muito apreciada por todos. – E retirou-se, cheia de sorrisos.

– Onde fica Cramney? – perguntei.

Lady Uckfield deu de ombros.

– É um lugarzinho de nada lá para os lados de Kent. Aceita chá?

Quando entrei no quarto que me foi reservado, minhas roupas tinham sido retiradas da mala e a camisa para a noite, gravata, meias e faixa de cintura estavam à minha espera. Mas não havia sinal da minha cueca limpa. Procurei em várias gavetas e já ia olhar embaixo da cama, quando ouvi uma voz atrás de mim:

– O que procura?

Virei-me: Tommy Wainwright estava na porta que ligava o meu quarto (chamado quarto do jardim) ao vizinho e maior, o quarto rosa veludo, reservado para ele. Apesar desses nomes pomposos, os quartos eram pequenos, apertados numa espécie de mezanino na lateral da casa. Foi a solução encontrada pelo arquiteto para criar quartos menores mexendo apenas numa parte da fachada da casa. Assim, apesar dos nomes perfumados, os quartos abriam para a estrebaria, tinham pé-direito baixo e eram face norte.

Procuramos minha cueca um pouco e acabamos desistindo, que fosse para o diabo. Provavelmente, há até hoje uma velha cueca enfiada no fundo de uma gaveta no quarto do jardim da mansão Broughton. Tommy foi ao quarto dele e voltou com uma garrafinha de uísque e dois copos de enxaguar boca no banheiro.

– Equipamento básico para hotéis e festas – informou, servindo uma boa dose para cada um.

– Eles são sovinas com as bebidas? – perguntei. Já tive muitas surpresas, sobretudo na juventude, com o grande desconforto e penúria que ingleses distintos oferecem a seus amigos (e estranhos). Fiquei em banheiros cujas torneiras esguichavam água gelada e escura; em quartos com portas que não fechavam; tive lençóis que pareciam trapos e travesseiros duros como pedras. Uma vez, dirigi uma hora pelo campo para almoçar com uns parentes importantes de meu pai e eles me serviram uma salsicha, duas batatinhas e vinte e oito ervilhas. De outra vez, hospedado numa casa onde participei de um baile em Hampshire, senti tanto frio na hora de dormir que acabei empilhando na cama todas as minhas roupas e duas toalhas de banho puídas, que segurei com um gasto pedaço de tapete turco por cima, a única coisa que havia sobre o piso. No dia seguinte, minha anfitriã veio me acordar e não estranhou eu estar deitado numa espécie de sarcófago de pano, nem teve o menor interesse em saber se eu tinha conseguido dormir. Quando se pensa nos ingleses da época eduardiana, que esbanjavam luxo, é estranho que seus netos sejam tão refratários ao conforto. Há pouco, notei que o bem-estar trazido pelo novo dinheiro vem fazendo uma pequena melhoria na casa dos anciens riches mas, céus, como demorou.

Tommy respondeu à minha pergunta balançando a cabeça.

– Não, eles não são sovinas. Nem um pouco, lorde U. despeja bebida goela abaixo de todo mundo. Mas é bem complicado conseguir um drinque antes da festa.

Sentamos e conversamos um pouco, perguntei se Tommy via muito os Broughton. Ele negou de novo com a cabeça.

– Não. Eles não saem daqui. Fico surpreso por Edith gostar da aldeia e participar de entregas de prêmios sem parar. Eles quase não vão a Londres.

Eu também achava um pouco estranho. Principalmente porque o jovem casal continuava morando na mansão com os pais de Charles. Logo após o casamento, planejaram reformar uma das fazendas, por isso perguntei a Tommy como estava a obra.

– Acho que mudaram de ideia – respondeu.

– É mesmo?

– Engraçado, não? Ela quer ficar aqui e os sogros gostam muito, então decerto a obra na fazenda Brook vai terminar logo e a casa será alugada.

– Eles moram numa parte da mansão?

– Não exatamente. Edith tem uma espécie de sala no andar de cima e Charles tem um escritório, claro. E só. Como naquelas novelas da tevê americana onde todos os personagens têm milhões de dólares, mas vivem socados numa casa com escadaria.

Balancei a cabeça, incrédulo.

– Imagino que Charles goste de viver aqui, mas acho entediante para uma recém-casada.

Charles, como todos os da sua classe, se achava no direito de receber tratamento “especial” onde quer que fosse; Edith já havia notado que ele ficava ofendido quando não recebia. Por isso, compreendi que, depois de passar a vida toda fingindo ignorar os barroquismos de sua vida, tivesse dificuldade em abrir mão deles.

A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes. Mas, acima de tudo, o verdadeiro marcador para eles, a verdadeira prova de fogo é a família ter conservado sua residência e propriedades. Ou, pelo menos, quase todas. Pode-se ouvir um nobre explicando para um americano em visita que, na Inglaterra, dinheiro hoje deixou de ser importante, as pessoas podem continuar na sociedade sem ter um tostão, pois “hoje, a terra é um investimento mais seguro”. No fundo, ele não acredita em nada disso. Sabe que estão todos déclassés: a família que perdeu tudo menos a tiara; as duquesas que moram em casinhas perto de Cheyne Walk; os viscondes em apartamentinhos na Ebury Street, por mais que tenham retratos e quadros da antiga residência (“Hoje, o local é usado como uma espécie de escola de treinamento rural”). Escusado dizer que a necessidade de materializar o status é tão secreta quanto o ritual maçônico.

Claro que os Broughton tinham uma situação sólida, incomum. Na década de 1990, poucas famílias mantinham o status e um dia Charles ia entrar na mansão Broughton como seu legítimo dono. Mesmo assim, ao conversar com Tommy, desconfiei de que ele podia temer que alguém, impressionado ao cumprimentá-lo no Salão Mármore e depois encontrá-lo numa sala de fazenda decorada com chintz, cometesse o erro de pensar que ele era uma pessoa comum. Mas eu estava enganado.

Tommy negou com a cabeça.

– Não, Charles não se importaria. Já se acostumou com a ideia. – Pensou um instante e mudou de assunto.

– Ah, sim, preciso trocar de roupa.

Nos reunimos para jantar na sala usada pela família, um lindo aposento de frente para o jardim, muito mais simpático que o vizinho salão vermelho, onde tinha sido o jantar de noivado. Além de Tommy, havia mais alguns rostos familiares. Peter Broughton estava presente, aparentemente sem sua loura horrorosa. Num canto, Caroline Chase conversava com Daphne, a filha mais velha de lady Tenby, casada com o apagado segundo filho de um conde das Midlands. As duas olharam e sorriram do outro lado do salão. Com medo, procurei Eric Chase e achei-o bebendo uísque e palestrando com um pobre jovem sobre a atual situação da cidade. O ouvinte olhava para a cara vermelha de Eric com a alegria de um coelho iluminado pelos faróis de um carro vindo em sentido contrário.

– O que você deseja beber? – Lady Uckfield estava ao meu lado e mandou Jago trazer um copo de uísque e água. Ela acompanhou o meu olhar.

– Céus! Eric mantém uma longa conversinha.

Sorri:

– Quem é o feliz receptáculo dos ensinamentos?

– É o coitado do Henri de Montalambert.

Por algum motivo, eu sabia que o duque de Montalambert era parente dos Broughton por matrimônio. Não era um duque nos padrões franceses (que se dão ao luxo de classificá-los, pois têm muitos mais do que os ingleses), já que a honraria só foi concedida em 1820, por Luís XVIII. Graças ao casamento na década de 1890 com a herdeira de um rei do aço de Cincinnati, a família se instalou entre Trémouillles e Uzès. Lady Uckfield se referiu ao duque como se fosse um velho amigo da família mas, como fingia as coisas até para ela mesma, fiquei como sempre sem saber o verdadeiro grau de intimidade.

– Ele parece meio impressionado – avaliei.

Ela concordou, contendo o riso.

– Não sei o que ele está achando, pois mal entende inglês. Não se preocupe, Eric não vai notar. – Ela interpretou o meu riso como concordância, depois zangou-se: – Não me faça ser cruel.

– Até quando Monsieur de Montalambert fica aqui?

Lady Uckfield fez uma careta:

– Fica os três dias. O que vamos fazer? Eu ainda sou daquelas pessoas que em francês só falam où est la plume de ma tante e Jojô mal consegue dizer encore. Henri casou-se com uma prima nossa há trinta anos e acho que não falamos mais que isso nesses anos todos.

– Então a duquesa fala inglês?

– Falava. Era surda e já morreu, portanto não pode nos ajudar. Por acaso você fala francês?

– Um pouco – respondi, desanimado. Pensei na mudança de cartões indicando os lugares na mesa do jantar e na interminável e mal traduzida conversa que teria pela frente.

Ela percebeu.

– Anime-se, Edith vai ficar entre vocês dois no jantar. – Deu um daqueles olhares rápidos e sedutores para mim. – O que acha da nossa recém-casada?

– Está ótima. Aliás, nunca a vi tão bonita – respondi.

– É, ela está bem. – Lady Uckfield ficou indecisa por uma fração de segundo.

– Só espero que ela goste daqui. Tem feito muito sucesso, você sabe. O problema é que todos gostam tanto dela que é difícil não obrigá-la a cumprir todas as benditas obrigações. Acho que fui muito egoísta por transferir meus deveres de estado para ela.

– Conheço Edith e aposto que ela está gostando. É bem melhor do que atender telefone num escritório na Milner Street.

Lady Uckfield sorriu.

– Bom, é mesmo.

– Ela parece ter desistido de Londres, portanto foi bom você fazer isso.

– É – ela concordou, rápido. – O importante é estarem felizes, não?

Retirou-se para cumprimentar recém-chegados. Notei pequenas nuances nos recessos da mente perfeitamente organizada de lady Uckfield.

Como previsto, o jantar foi complicado. A agradável filha de lady Tenby, Daphne Bolingbroke, ficou à minha direita, portanto correu tudo bem durante o primeiro prato, mas percebi que Edith, à minha esquerda, lutava corajosamente com seu vizinho Monsieur de Montalambert. Na verdade, foi difícil prestar atenção na minha conversa, pois o francês que Edith falava e o inglês que o vizinho dela usava eram do mesmo nível. Ou seja, horrorosos, mas não a ponto de impedir esforços de ambas as partes. Seria mais simples se um não entendesse a língua do outro, mas o vocabulário deles era suficiente para causar uma confusão total. Edith ficou resmungando que havia lugares em Paris que eram bon e Londres era épouvantable; o interlocutor não entendia nada ou, pior, achava que entendia e revidava com uma torrente de palavras em francês das quais Edith mal captava duas.

O jantar continuou sendo servido, tentei impedir o sofrimento de Edith, mas Monsieur de Montalambert não respeitou as leis inglesas e insistiu na conversa. Em vez de agarrar a pequena melhora de comunicação proporcionada por meu francês mediano, ele passou a acusar veementemente o governo francês que, segundo ele, parecia, de alguma forma misteriosa que me escapou, com o duque Decazes, ministro de Luiz XVIII.

– Do que estamos falando? – perguntou Edith baixo, sob a torrente incontida de palavras gaulesas.

– Não faço ideia. A Restauração Francesa, acho.

– Céus.

Na verdade, a essa altura, nós dois estávamos totalmente exaustos, ansiosos por uma pausa, mas o duque ignorou a presença de lady Uckfield à esquerda e ela, escusado dizer, ficou encantada por deixar de lado as regras de comportamento à mesa.

O duque parou um instante e sorriu. Achei que ia mudar de assunto. Porém ele, malvado, ao ver que meu francês era melhor que o de Edith, resolveu que estava na hora de mostrar seus conhecimentos de inglês.

– Gosta de sexo? Com que frequência? – perguntou, divertido.

Nesse exato momento, Edith estava bebendo água e, claro, engasgou. Pegou o guardanapo e tentou fingir que era um acesso de tosse. À minha direita, Daphne tremia de rir em silêncio. A mesa estava sendo tomada por uma histeria digna de sala de aula.

– Tenho a impressão – apartou lady Uckfield, que percebeu o mal-estar – de que Henri perguntou se você conhece Sussex. – Ela foi firme como uma professora com um bando de crianças indisciplinadas, mas isso só causou risadinhas em série de todos nós. O rosto de Edith estava literalmente vermelho e ela quase soluçava, tentando controlar o ataque.

A essa altura, Charles olhou para o nosso lado. Naturalmente, não tinha percebido nada.

– Querida, você sabe onde eu coloquei o outro coldre de braço? Richard quer emprestado para amanhã e não lembro onde deixei – perguntou.

Ele teve sucesso no que a mãe fracassou. As palavras tiveram o efeito de um extintor de incêndio nas risadas. Deu-se uma pausa até Edith responder:

– Você emprestou para Billy Westbrook.

Quando Edith voltou-se para o cansativo vizinho, olhou para mim. Nesse momento, ouvindo a paciente resposta dada ao marido e vendo seu cansaço, concluí que a troca que ela fez não tinha sido fácil.

No dia seguinte, acordei cedo e, ao chegar à sala de jantar, quase todos os convidados já estavam lá, degustando o maravilhoso café da manhã fin de siècle servido na bancada, com réchauds sob as baixelas de prata. Escolhi diversas comidas ricas em colesterol e sentei ao lado de Tommy.

– Eles sorteiam números na caçada, ou dizem onde cada um deve ficar? – perguntei.

– Sorteiam. Charles tem um aparelho prateado e aparatoso com números marcados.

O sorteio será quando nos reunirmos na entrada da casa. A melhor coisa é não receber um número perto de Eric.

Pensei em vários motivos para seguir o conselho mas, pela cara de Tommy, concluí que o principal motivo era a mera autopreservação. Acabei ficando a um número de Eric, com o aborrecido Monsieur de Montalambert entre nós. Vi a cara que Eric fez quando foi sorteado, mas devia ser só de medo de enfrentar mais uma palestra sobre a cotação da libra em relação ao euro. Peter Broughton ficou à minha direita. Havia oito espingardas, sendo quatro com carregadores e, somando com as esposas, os cachorros etc. etc., éramos um grupo grande quando saímos para os jipes que aguardavam no cascalho da entrada. Notei que Edith não estava conosco. Vi o motivo quando, na terceira sessão da caçada, ela apareceu com garrafas térmicas de delicioso bouillon temperado com vodca (ou sem álcool para os austeros).

– Posso ficar ao seu lado, ou atrapalho a sua concentração? – ela perguntou.

– Fique... de jeito nenhum, nada tira a minha concentração, eu erro o tiro, sozinho ou acompanhado. Mas Charles não vai reclamar?

– Não, ele prefere ficar com George. Diz que eu falo muito.

Os jipes seguiam por um mato alto que ficava bem distante da mansão e as armas foram colocadas em semicírculo no chão. Fui sorteado com o número dois e fiquei na quarta sessão da manhã e agora estava na posição oito, no final da fila. Edith e eu seguimos pelo campo até o bastão com meu número e lá aguardamos.

– Você gosta mesmo disso? – perguntou, se encostando na cerca de madeira.

– Claro, ou não estaria aqui.

– Pensei que tivesse aceitado o convite para me ver em toda a minha glória.

– Tem razão. Podia ser, mas acontece que realmente aprecio caçada. Foi simpático você pedir para Charles me convidar.

– Ah, a ideia não foi minha. – Ela fez uma pausa. – Claro que adorei você ter aceitado, mas a sugestão foi de Gugu. – Ela não percebia mais que se referia aos sogros por aqueles apelidos bobos.

– Então foi simpático da parte dela.

– Gugu tem sempre alguma razão para ser simpática.

– Bom, não sei qual seria.

Soou o apito, carreguei minha espingarda e apontei para o alto das árvores. Quando fiquei de costas para Edith, ela pareceu aliviada.

– Gugu está preocupada comigo. Acha que estou entediada e você vai me animar.

E que você é uma boa influência.

– Não sei por quê.

– Ela acha que você me mostra como sou sortuda.

– E você não é? – Edith ficou desapontada e abriu os braços sobre a cerca. – Ah, não me diga que já está entediada – observei.

– Estou.

Dei um leve suspiro. Não vou dizer que me surpreendi por Edith descobrir que, como diz o poema, “corações ternos são mais do que tiaras e a sinceridade é mais do que sangue normando”. Aquilo ia acontecer mais cedo ou mais tarde mas, mesmo lembrando da noite anterior, me pareceu muito prematuro. Como quase todos os amigos dela, eu esperava que, quando ela chegasse finalmente à antiga conclusão de que só se pode dormir numa cama de cada vez e comer um prato de cada vez, já teria filhos para acrescentar um puro e sincero interesse pela nova vida. E, por mais que se falasse de Charles, ele tinha um bom coração e, achava eu, uma sinceridade bonita e simples. Senti um espírito conselheiro surgindo dentro de mim e perguntei:

– Você está entediada com o quê, exatamente? Com Charles? Com a vida? A vida rural? O quê?

Ela não respondeu e passei minha atenção para um pássaro voando muito alto, vindo na minha direção. Empunhei a espingarda e atirei. O faisão continuou seu voo, tranquilo.

– Devo dizer – continuei, um pouco mais conciliador – que deve ser difícil iniciar a vida conjugal sob o mesmo teto dos sogros, por mais amplo que seja o teto.

– Não é isso. Eles nos ofereceram morar na fazenda Brook.

– Por que vocês não aceitaram?

Edith deu de ombros.

– Não sei. Parecia meio... chato.

Ficou evidente que o verdadeiro problema era estar mortalmente cansada do marido. Dava para ir levando a vida nos magníficos aposentos da mansão Broughton, onde havia gente para conversar e o vinho fortificante da inveja dos outros para beber, mas ficar sozinha com Charles numa fazenda... sem dúvida.

– Se está tão aborrecida, por que não passa mais tempo em Londres? Não temos mais visto você lá.

Edith ficou olhando suas botas verdes Wellington próprias para caça.

– Não sei. O apartamento é muito pequeno e Charles não gosta dele. Ir lá exige uma enorme produção.

– Você não pode dar uma fugida sozinha?

Edith olhou bem para mim.

– Não, acho que não devo. Você acha que poderia?

Olhei bem para ela um instante.

– Não – respondi.

Era isso. Ela estava casada há apenas oito meses e já não aguentava o marido. E tinha medo de ficar em Londres pois tinha certeza de que mergulharia na cidade imediatamente. Pelo menos, ela pretendia manter o pacto que fez com o diabo.

Sorri. – Bom, soando como uma ordem, você deveria – eu disse. Ela concordou, séria. – Quem você encontra por aqui? Acho que não tem visto muito Isabel.

Ela fez uma careta.

– Não, não tenho. Sinto que desapontei David, ele fica dando indiretas sobre caçadas e não tive coragem de dizer que você vinha hoje.

– Charles não quer que ele venha?

– Ah, não é isso. Ele aceitaria se eu convidasse mas, queira ou não, essas pessoas são gente diferente. E David às vezes é meio... – ela fez uma pausa – chato.

Pobre David! Acabar assim! Passar tantos anos indo às corridas em Ascot, frequentando o Brook’s e tomando drinques no Turf! Para depois causar constrangimento a Edith. Mundo cruel. Não disse que concordava, mas entendi o que ela quis dizer.

– Você tem de contar para ele que estive aqui. Não quero que Isabel descubra e depois pense que estamos contra ela.

Edith concordou.

– Quem é essa “gente diferente”? São divertidos? – perguntei.

Ela deu um suspiro e tirou um pedacinho de lama grudado na sua capa Barbour.

– São horríveis. Sei quase tudo sobre planejamento imobiliário. Consigo descrever até dormindo cada parte do corpo de um cavalo. E se há alguma coisa que eu não saiba sobre organização de eventos de caridade, garanto que é porque não vale a pena.

– Mas você deve viajar bastante, não é bom?

– Ah, sim! Você sabia que, na Itália, a lavanda que fica na sua frente à mesa é para molhar a fruta e não a ponta dos dedos? E que nos Estados Unidos não se deve falar sobre terras? E que na Espanha é uma grande gafe usar a faca para cortar um ovo cozido?

Ela parou para respirar.

– Não sabia do ovo – observei. Ficou calada um instante e tentei de novo acertar um tiro num pássaro que voava sobre nós. – Deve haver algumas pessoas de que você goste.

– Creio que sim.

– E a família? Sabem que você está tão aborrecida?

– Gugu sabe. Mas o querido Jojô, não, claro. Ele só percebe as coisas quando caem na cabeça dele. Acho que Caroline sabe.

– E Charles?

Edith olhou um instante a copa das árvores sobre nossas cabeças.

– O problema é que ele é tão empolgado com tudo, acha que eu vou acabar me empolgando também. Acha que estou em “fase de adaptação”.

– Acho muito sensato da parte dele. – Claro que, quando disse isso, percebi que estava desapontando Edith por ficar do lado de Charles. Mas, honestamente, não conseguia fazer outra coisa. O fato era que ela estava casada com um homem que, embora não fosse culpa dele, era menos sutil do que ela em relação à ascensão social dela. Mas o trato era esse. Nada nesse mundo faria Charles ser mais espirituoso, nem mais dinâmico e eu não acreditava que Edith quisesse voltar para o lugar de onde ela tão tardiamente saíra. Ela possuía aquele sentimento muito comum no século XXI, de querer levar vantagem em tudo.

– Você deve ter muito a fazer, não? Não planejava dar uma arrumada no sótão da mansão e reescrever a história da família?

– O sótão tem só móveis vitorianos. Há muito tempo Gugu tirou tudo o que prestava. E o bibliotecário ficou meio irritado quando sugeri fazer acréscimos ao livro sobre a família. – Ela bocejou. – De todo jeito, Jojô e Charles não tiveram o menor interesse. Eles acham muito vulgar saber demais sobre a família. Foi meio desanimador.

– Então você precisa encontrar outra coisa para fazer. Tenho certeza de que recebe muitos convites para eventos de caridade na região.

Ao falar, percebi que eu estava cada vez mais parecido com uma governanta e era realmente assim que me sentia ao ver aquela linda mulher amuada, encostada na cerca.

Ela deu um suspiro horrível.

– Você está querendo dizer que eu só tenho de aguentar a situação?

– Bom, não tem?

Ela me olhou e, nesse instante, o apito tocou indicando que a caçada tinha terminado e voltamos para os jipes. Lá, chamou nossa atenção um certo rebuliço e indignação que teriam sido causados por Eric Chase, que quase deu um tiro no nariz de Monsieur de Montalambert. Claro que Eric negava furiosamente, enquanto o outro desfiava uma série extraordinária de frases em francês, algumas das quais eu nunca tinha ouvido. Fui convocado como testemunha imparcial mas, claro, como fiquei conversando com Edith, não sabia de nada.

Caroline ouviu meus protestos e concordou:

– Você tem toda a razão. No seu lugar, eu não me envolveria – disse, calma.

Eu não tinha a menor ideia a que ela estava se referindo.

Após o chá, entrei no meu carro naquele momento meio esquisito em que um bando de convidados vai embora e o seguinte chega. Charles foi andando comigo pela trilha de cascalho e parou ao lado da porta do carro. Abri a janela, pensando no que eu poderia ter esquecido de fazer, pois tinha me despedido de todos, dado gorjeta aos criados e assinado o livro de visitas.

– Eu queria contar que recebemos uma proposta de uma empresa de cinema – ele disse. – O que você acha?

– Querem filmar em Broughton?

– Não sei se é um filme, ou um daqueles seriados de tevê. Como eles são? Isso é seguro?

Em princípio, falando como ator, eu não deixaria uma equipe de filmagem ficar a menos de dois quilômetros da minha casa, sob hipótese alguma. Mas é verdade que eles são cuidadosos com qualquer coisa que possa ser considerada “histórica”. E, como tudo na vida, a proposta dependia do que era oferecido. O melhor que eu podia fazer era dar a Charles o nome de uma agência que negociava com empresas de cinema e sugerir que seguisse o conselho dela.

Ele agradeceu e me cumprimentou com a cabeça:

– Vamos exigir no contrato que você faça parte do elenco – ele disse, sorrindo, enquanto dei partida no carro.