Esnobes

Julian Fellowes · Capítulo 7 de 23

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Esnobes

Sete

 

PARA EDITH E PARA TODOS os que tinham conhecimento disso, um dos detalhes mais estranhos do casamento (pelo menos, no contexto da década de 1990) foi a noite de núpcias ser a primeira dos noivos. Soa muito estranho, mas foi mesmo. No começo do namoro, ela resistiu aos avanços dele, sabendo que era um homem do tipo que não respeita de manhã a conquista fácil da noite anterior. Foi preciso sair com ele várias vezes até ficar bem claro que ela era uma “garota direita”. E assim foi por dois ou três meses, até ela achar que estava na hora de aceitar e então percebeu, pasma, que Charles gostava da relação do jeito que estava, não pretendia ir além. Claro que a beijava e abraçava, mas sem aquela urgência que ela estava acostumada a ver. Uma vez, estavam no sofá da casa dela (os pais tinham ido passar o fim de semana em Brighton) e ela passou a mão na braguilha dele e sentiu uma ereção bastante satisfatória, porém ele deu um pulo tão grande que a façanha não se repetiu. Como o casamento estava marcado, aquilo pareceu sem sentido pois, afinal, gostava dele, quer tivessem “química” ou não embaixo dos lençóis. Se não combinassem, será que ele desistiria? Semanas antes do casamento, quando ele sugeriu que “ficassem” no fim de semana, ela disse que era melhor esperar, já que estava tão perto, não precisavam “estragar”. Charles aceitou, era um homem de seu tempo e tinha certa experiência sexual mas, no fundo, ainda achava que a noiva devia chegar casta ao leito nupcial. Claro que Edith não era virgem e decidiu que, se ele perguntasse alguma coisa, diria que “errou” quando bem jovem e preferia não comentar o fato. Nem precisou, para Charles bastava que fosse a primeira vez dos dois e, sensatamente, não quis competir com o passado.

Ele reservou uma suíte no Hyde Park Hotel, em Knightsbridge. Todo mundo sabe que hoje esse hotel faz parte da rede Mandarin e mudou de nome, mas a classe alta reluta em aceitar novos nomes. Para eles, será Hyde Park Hotel pelo menos até os filhos estarem quase idosos. O casal ia passar a noite de núpcias lá e, no dia seguinte, voar para Roma ao meio-dia. Assim o landau pegou-os no palácio Saint James, passou pelo hotel Ritz na praça Piccadilly, pelo Hyde Park Corner, virou à entrada do parque na Bowater House e deixou-os à porta do hotel. No caminho, as pessoas (tanto turistas quanto ingleses) viraram a cabeça sorrindo e chegaram a acenar. É provável que o povo tenha uma reação pavloviana ao ver carruagens e eventos da realeza. Edith correspondia à imagem que eles tinham, a nova situação conjugal pôs uma nuvem de luzes faiscantes na cabeça dela, e respondeu aos acenos. Charles, por outro lado, olhava bem para a frente, como se estivesse disputando um posto de oficial do exército inglês. Ela sabia o motivo: Charles tinha a mais boba das presunções de aristocratas ingleses, ou seja, de que desconhecia os próprios privilégios. Aquela indiferença cool, tão chique em tese e tão enfadonha na prática, iria atrapalhar muito a vida do casal. Foi o que Edith imaginou, ao examinar o perfil gelado do consorte. Dessa vez o trajeto foi rápido, pelo menos para ela. Meros quinze minutos após saírem da festa, estavam no saguão do hotel. Eram só cinco horas e cinco minutos da tarde e ela não tinha ideia do que iria ocorrer a seguir.

Pensou em sugerir que tomassem chá no térreo do hotel, mas desistiu, temendo mostrar que não tinha pressa de ficar a sós com ele. Foram levados à suíte nupcial, embora não a tivessem reservado, a diferença de preços era cortesia da casa, seguindo o velho conselho bíblico “Dai aos que têm”. Lá encontraram as bagagens, assim como flores, frutas e mais champanhe, que parecia infindável. A porta da suíte então se fechou e ficaram os dois. Casados. Olharam-se em silêncio. Edith sentiu um leve pânico ao pensar em ver aquele homem todos os dias pelo resto da vida. Céus, sobre o que iam falar?

Charles mostrou a garrafa de champanhe:

– Devo abrir? – perguntou.

– Sinceramente, não consigo beber mais. Estou encharcada de champanhe. – Fez uma pausa e avisou: – Vou tomar um banho.

Começou a tirar a roupa da forma mais casual possível, enquanto Charles olhava, deitado na cama; no último instante, de sutiã e calcinha, perdeu a coragem, arrancou o roupão da mala e correu para o banheiro.

Meia hora depois, ao sair do banho, constatou que Charles continuava deitado, lendo jornal. Tinha tirado o paletó, o colete e a gravata, além do sapato e meias. Alguma coisa na pose relaxadamente estudada dele informava que era chegada a hora. Edith deitou-se ao lado, só de roupão, e fingiu ler o jornal por cima do ombro dele.

– Está feliz? – ele perguntou, sem tirar os olhos do jornal.

– Hum – ela concordou, imaginando quando tempo ele levaria para entender. Estava ansiosa, já que era a hora. Precisava garantir que havia uma atração física recíproca. Afinal, essa parte da relação não tinha nada a ver com ambição ou interesses mútuos. Era o parceiro sexual que, pelo menos naquele momento, ela queria que fosse o único pelo resto da vida.

Após o que pareceu uma eternidade, Charles dobrou o jornal e virou-se para ela. Com muito ardor e em silêncio absoluto (que durou o tempo todo), começou a beijá-la enquanto tentava tirar o roupão dela, desajeitado. Ela reagiu da melhor maneira, tentando não comandar. Dessa vez, quando tocou no pênis dele, embora Charles ainda parecesse um novato assustado, não foi rechaçada. E assim, os dois ficaram se abraçando de roupa até Charles achar que estava demorando muito. Então, sentou-se, ainda em total silêncio, tirou a camisa, as calças e a cueca. Edith tirou o roupão e aguardou. Ele tinha um corpo muito bonito, musculoso e forte sem ser gordo mas, como todo inglês, era branquelo, meio sardento, com pelos púbicos ruivos e o peito sem um fio. O nariz adunco e os cabelos cacheados, repartidos de lado, pareciam estranhos num corpo nu, como se ele tivesse nascido de jaquetão e ficasse muito esquisito sem roupa. Na verdade, ele parecia mais sem pele do que nu.

Ainda sem uma palavra, virou-se para ela com o mesmo ardor e, sem olhá-la, começou a beijá-la ao mesmo tempo que tocava na vagina. Passou a massageá-la como quem bombeia a seco, o que a fez lembrar de alguém soprando um colchão de plástico. Ela gemeu um pouco para incentivar. Ele pareceu satisfeito e, de repente, ficou no meio das pernas dela, errou o alvo algumas vezes (seis vezes) e, dando um uivo terrível, disse que era agora (ela reagiu com gritinhos, ofegante) e desabou em cima dela. No total, foram oito minutos, do momento em que ele dobrou o jornal até aí. “Ah”, pensou Edith.

– Obrigado, querida.

Uma das manias mais irritantes de Charles era agradecer após o sexo como se ela tivesse trazido uma xícara de chá. Claro que, naquela hora, ela não sabia que o marido sempre faria isso.

Pensou em retribuir dizendo “ah, eu que agradeço” mas pareciam duas pessoas se despedindo na porta de um hotel e resolveu manifestar-se apenas:

– Querido... – de um jeito indefinido e dando um beijo no pescoço dele. Charles tinha saído de cima, ela sentiu um pouco de frio, mas qualquer gesto parecia errado, já que se tratava de um “momento muito especial” para Charles, que ela não pretendia estragar. Não queria relembrar o ato de amor, caso fosse isso que tivessem acabado de fazer. Afinal, estavam no começo do casamento e ela desconfiava de que Charles, com todo o seu savoir faire ao lidar com garçons, era meio inseguro em assuntos mais íntimos. Ele parecia ter passado por algo importante, mesmo se o corpo dela não demonstrasse, portanto o momento podia ser considerado mais um sucesso do que um fracasso. Ela então se conformou esperando que as coisas melhorassem com o uso.

Jantaram no hotel, principalmente para não serem vistos e cumprimentados por algum conhecido (que só jantam em hotel quando têm algum amigo americano hospedado lá) e não por algum interesse pela cuisine de la maison. Foram se deitar lá pelas onze, repetiram a performance vespertina e aguardaram o sono. Edith olhou para o teto, pensando na estranheza da vida. Ali estava ela, com aquele homem (a quem, no fundo, mal conhecia), dormindo nu ao lado dela. Considerou a grande verdade que deve ter assustado muitas noivas, de Maria Antonieta a Wallis Simpson: sejam quais forem as vantagens políticas, sociais ou financeiras de um bom casamento, chega a hora em que todo mundo vai embora e fica-se sozinha com um estranho que, por lei, tem o direito de fazer sexo com você. Só então ela teve certeza de que não tinha avaliado bem esse detalhe.

Ao acordar, Edith continuou pensando no assunto e que era a primeira vez em muito tempo que acordava ao lado de alguém. Sentiu certo alívio quando Charles deixou claro, meio tímido, que não era um “homem matinal”. Tudo ficou mais fácil quando passaram a comentar do casamento; as diversas situações quase dramáticas; os convidados dos quais não gostaram; os casais mal casados, quem ia se separar. Edith achava, claro, que teriam como assunto as coisas que fizessem juntos e quanto mais tempo fossem casados, mais teriam o que comentar. Ela estava se consolando com essas ruminações quando Charles se calou. Não seria a primeira vez em que ficaria sem assunto. Ouviram uma batida na porta. Um garçom entrou com o carrinho com o café da manhã.

– Bom-dia, senhor – disse para Charles e, ao levar uma bandeja na cama:

– Bom-dia, madame.

“Ah, as coisas podiam ser piores”, pensou Edith.

As primeiras horas que passaram juntos não foram muito emocionantes, daí Edith ter ficado meio surpresa ao constatar que a viagem a Roma foi ótima. Ficaram no Hotel de la Ville, próximo ao alto da escadaria da Piazza di Spagna e da Villa Medici. Roma é uma cidade linda e pela primeira vez Edith foi tratada de madame e de condessa em todos os lugares, o que era agradável (embora soubesse que não deveria demonstrar que gostara), além de ser um lembrete do motivo para tal. A comida era deliciosa, havia muito o que ver e, assim, muito assunto para conversa. Quando jantaram sob um céu estrelado na Piazza Navona, percorreram as fontes nos muros da Villa d’Este e os jardins de Tívoli, Edith concluiu que, afinal de contas, tinha feito uma boa escolha e que a vida rica e interessante que imaginou iria se concretizar.

Durante a viagem, Charles começou a falar em Broughton e Feltham com carinho e detalhe, o que era novidade para ela. Talvez julgasse que o assunto a interessaria, agora que tinha passado a ser uma Broughton. Ele adorava as casas e os cuidados que dedicava a elas; Edith gostou, tudo aquilo correspondia às suas fantasias pré-nupciais. Compartilhou com sinceridade o entusiasmo dele. Gostou também de descobrir que ele era meio relapso quanto à história da família. Eis uma função para ela assumir! Viu-se fazendo um inventário completo do mobiliário e dos quadros da casa; entretendo tias velhas e escrevendo as memórias de longos e calorentos verões em Broughton na época eduardiana; tirando do sótão e limpando quadros de antepassados interessantes. Ela gostava tanto de história quanto de fofocas: podia estar melhor qualificada? É verdade que a vida sexual não melhorou muito e a posição nunca variou mas, depois que Charles ficou menos nervoso, o ato durou um pouco mais. Assim, quando entraram no avião para Madri com conexão para Mallorca, Edith e Charles conseguiram se olhar bem nos olhos, com a firme intenção de imitar um casal, “feliz como dois recém-casados”.