Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso
8 — Uma receita para o domínio de si mesmo
CAPÍTULO 8
Uma receita para o domínio de si mesmo
Quando os meus filhos tinham apenas cerca de 2 anos e faziam uma birra, eu por vezes usava distrações para os acalmar: «Olha o passarinho», ou uma frase que dá para tudo, «O que é aquilo?», apontando entusiasticamente com o olhar ou o dedo a fim de dirigir a sua atenção para uma coisa qualquer.
A atenção regula a emoção. Esta pequena artimanha usa a atenção seletiva para sossegar a agitada amígdala. Desde que a criança permaneça sintonizada com qualquer objeto interessante para a atenção, a perturbação acalma; no momento em que essa coisa perde o seu fascínio, a perturbação, se estiver ainda
retida pelas redes na amígdala, volta mais uma vez[96]. O truque, claro, reside em manter o bebé intrigado o tempo suficiente para que a amígdala se acalme.
Quando as crianças aprendem a usar esta manobra da atenção por si próprias, adquirem uma das suas primeiras capacidades de auto regulação emocional — que tem uma vasta importância para a sua vida: como gerir a rebelde amígdala. Esta artimanha envolve a atenção executiva, uma capacidade que começa a desabrochar no terceiro ano de vida, quando a criança consegue mostrar «domínio esforçado» — focando-se segundo a sua vontade, ignorando as distrações e inibindo os impulsos.
Os pais poderão observar este marco quando a criança faz a escolha intencional de dizer que não a uma tentação, como esperar pela sobremesa até ter dado mais umas dentadas naquilo que tem no prato. Também isso depende da atenção executiva, que se transforma em força de vontade e disciplina de si mesmo — como quando gerimos as nossas sensações perturbadoras e ignoramos os impulsos, para conseguirmos ficar focados num objetivo.
Por volta dos 8 anos, a maioria das crianças domina um certo grau de atenção executiva. Esta ferramenta mental gere a operação de outras redes cerebrais de capacidades cognitivas, como aprender a ler e a fazer contas e matérias em geral (voltaremos a este assunto na quinta parte).
A nossa mente utiliza a consciência de si mesmo para manter tudo aquilo que fazemos sob controlo: a metacognição — pensar acerca do pensar — permite-nos saber como as nossas operações mentais estão a decorrer e ajustá-las às necessidades; a meta-emoção faz o mesmo com a regulação do fluxo do sentimento e do impulso. Na arquitetura da mente, a consciência de si mesmo existe para regular as nossas próprias emoções, bem como para perceber aquilo que os outros sentem. Os neurocientistas veem o domínio de si mesmo por via das lentes das zonas cerebrais subjacentes à função executiva, que gere as capacidades mentais como a consciência de si mesmo e a regulação de si
mesmo, fundamentais para orientarmos as nossas vidas[97].
A atenção executiva é a chave para a gestão de si mesmo. Este poder de dirigirmos o nosso foco para uma coisa e ignorarmos as outras faz-nos evocar a silhueta da nossa barriga, quando deparamos com aqueles gelados Cheesecake Brownie dentro do frigorífico. Este pequeno local da escolha alberga o âmago da força de vontade, a essência da regulação de si mesmo.
O cérebro é o último órgão do corpo a amadurecer anatomicamente, continuando a crescer e a moldar-se até aos 20 e tal anos — e as redes da atenção são como um órgão que se desenvolve em paralelo com o cérebro.
Como todos os pais de mais de um filho sabem, desde o primeiro dia que os bebés diferem: um deles é mais alerta, ou calmo, ou ativo do que o outro. Estas diferenças de temperamento refletem a maturação e a genética de várias redes
cerebrais[98].
Até que ponto o talento para a atenção vem dos nossos genes? Depende. Diferentes sistemas de atenção, ao que parece, têm diferentes graus de
dependência da hereditariedade[99]. A dependência mais forte da hereditariedade é em relação ao domínio executivo.
Mesmo assim, construir esta capacidade vital depende em grande parte daquilo que aprendemos durante a vida. A epigenética, a ciência de como o nosso meio ambiente influencia os nossos genes, diz-nos que herdarmos um conjunto de genes não é, só por si, suficiente para que eles façam a diferença. Os genes têm aquilo que corresponde a um interruptor bioquímico; se nunca estiverem ligados, é o mesmo que não existirem. O interruptor ligado surge sob muitas formas, incluindo aquilo que comemos, a dança das reações químicas no interior do nosso corpo e o que aprendemos.
A força de vontade é o destino
Décadas de resultados de pesquisa mostram a importância singular da força de vontade na determinação do decurso da vida. A primeira de todas foi um pequeno projeto nos anos 60, em que foi prestada especial atenção às crianças de famílias com dificuldades econômicas, num programa pré-escolar que as ajudou
a cultivarem o domínio de si mesmas, entre outras capacidades para a
vida[100]. Esse projeto pretendia aumentar o seu quociente de inteligência, mas falhou nesse propósito. Contudo, anos mais tarde, quando esses alunos da pré-primária foram comparados com miúdos semelhantes sem o programa, durante o curso da sua vida tinham níveis mais baixos de gravidez adolescente, de
abandono escolar, de delinqüência e mesmo de dias de falta ao trabalho[101]. As descobertas foram um dos principais argumentos a favor daquilo que fioje em dia são os programas pré-escolares Head Start, que se encontram agora difundidos por todos os Estados Unidos.
Além disso, houve o «teste do marshmallow», um estudo lendário, realizado pelo psicólogo Walter Mischel na Universidade de Stanford, nos anos 70. Mischel convidou miúdos de 4 anos a entrarem, um a um, numa «sala de brincar», no Jardim Infantil Bing, no campus de Stanford. Na sala, mostrava-se à criança um tabuleiro com marshmallows, ou outros doces, e dizia-se-lhe para escolher um de que gostasse.
A seguir, vinha a parte difícil. O investigador dizia à criança: «Se quiseres, podes comer agora o teu doce. Mas se não o comeres até eu voltar depois de ir ali fazer um recado, podes comer dois.»
A sala não tinha quaisquer distrações. Não havia brinquedos ou livros. Nem sequer uma imagem. Um domínio de si mesmo perante tais condições era uma verdadeira façanha para um miúdo de 4 anos. Cerca de um terço agarrou logo no marshmallow, enquanto cerca de outro terço esperou uns intermináveis quinze minutos até ser premiado com dois (o outro terço ficou mais ou menos pelo meio). O que é mais significativo: os que resistiram à tentação do doce obtiveram pontuações mais elevadas no governo executivo, em particular na relocalização da atenção.
A forma como nos focamos é a chave para a força de vontade, diz Mischel. As suas centenas de horas de observação de crianças pequenas a lutarem contra a tentação revelam que «a localização estratégica da atenção», como ele diz, é a capacidade crucial. Os miúdos que esperaram os quinze minutos inteiros conseguiram fazê-lo distraindo-se com estratagemas, como fingir brincar, trautear canções ou tapando os olhos. Se um miúdo ficava a olhar para o marshmallow, estava arrumado (melhor dizendo, o marshmallow é que estava).
Pelo menos três subespécies de atenção, todas elas aspectos da atenção executiva, estão em jogo quando o domínio de si mesmo confronta a gratificação instantânea. A primeira é a capacidade para desligar voluntariamente o foco de um objeto de desejo que capta poderosamente a atenção. A segunda, resistir à distração, permite manter o foco noutra coisa em vez de naquele apetitoso alvo. E a terceira permite manter o foco num objetivo futuro, como no caso dos dois marshmallows. E tudo isso se resume à força de vontade.
Está tudo muito bem para as crianças que mostram domínio de si mesmas numa situação artificial como o teste do marshmallow. Mas e quando se trata de resistir às tentações da vida real? Aqui, entram as crianças de Dunedin, na Nova Zelândia.
Dunedin conta com uma população de pouco mais de cem mil almas e alberga uma das maiores universidades do país. Essa combinação tornou a cidade ideal para o que poderá ter sido o maior estudo realizado até hoje nos anais da ciência acerca dos ingredientes do sucesso na vida.
Num projeto arrojadamente ambicioso, 1037 crianças — todos os bebés nascidos num período de doze meses — foram estudadas intensamente na infância e depois seguidas durante décadas por uma equipa constituída por elementos de vários países. A equipa representava muitas disciplinas, cada uma das quais com a sua perspetiva sobre esse marcador essencial da
autoconsciência, o domínio de si mesmo[102].
Estes miúdos submeteram-se a uma impressionante bateria de testes durante os seus anos de escola, testes que avaliavam, por exemplo, a tolerância à frustração e a agitação, por um lado, e os poderes de concentração e persistência,
por outro[103].
Depois de um interregno de duas décadas, todas as crianças, com exceção de apenas quatro por cento, foram localizadas (uma façanha muito mais fácil num país estável como a Nova Zelândia do que, por exemplo, nos muitíssimo móveis Estados Unidos). Na altura, os jovens adultos foram avaliadas em relação a:
Saúde. Testes físicos e laboratoriais verificaram as suas condições cardiovasculares, metabólicas, psiquiátricas, respiratórias e mesmo dentárias e inflamatórias.
Situação econômica. Se tinham poupanças, se eram solteiros e criavam um filho, se tinham casa própria, se tinham problemas de crédito, investimentos ou fundos de pensões.
Delinqüência. Foram verificados todos os registos judiciais da Austrália e da Nova Zelândia, para verificar se tinham sido condenados por crimes.
Quanto melhor fora o domínio de si mesmos na infância, melhor era a vida das crianças de Dunedin aos 30 e tal anos. Tinham melhor saúde, eram financeiramente mais bem-sucedidas e eram cidadãos respeitadores da lei. Quanto pior a sua gestão dos impulsos na infância, menos ganhavam, pior a sua saúde e maior a tendência para terem cadastro.
O grande choque foi que a análise estatística verificou que o nível de domínio infantil de si mesmo é um previsor tão poderoso do seu sucesso financeiro, da sua saúde e, já agora, do seu cadastro em adulto, como a classe social, poder econômico da família de origem, ou quociente de inteligência. A força de vontade apareceu como uma força completamente independente no sucesso na vida — aliás, para o sucesso financeiro, o domínio de si mesmo na infância mostrou ser um previsor mais forte do que tanto o quociente de inteligência como a classe social da família de origem.
O mesmo se aplica ao sucesso escolar. Numa experiência em que era oferecido a alunos americanos do oitavo ano um dólar agora ou dois dólares daí a uma semana, esta simples medição do domínio de si mesmo revelou correlacionar-se melhor com as suas classificações médias finais do que o seu quociente de inteligência. Um elevado domínio de si mesmo não só prevê melhor as classificações, como também um bom ajustamento emocional,
melhores capacidades interpessoais, sensação de segurança e adaptabilidade[104].
Conclusão: as crianças poderão ter a mais privilegiada infância do ponto de vista econômico, mas, se não dominarem a postergação da recompensa na perseguição dos seus objetivos, essas vantagens iniciais poderão desvanecer-se no decurso das suas vidas. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas duas em cada cinco crianças de pais nos 20 por cento do escalão mais elevado de rendimento chegam a adquirir esse estatuto privilegiado; cerca de 6 por cento
afundam-se até ao escalão dos 20 por cento de rendimento mais baixo[105]. A diligência parece ser um estímulo tão importante a longo prazo como escolas luxuosas, orientadores para os exames de admissão e dispendiosos acampamentos de verão pedagógicos. Não se deve subestimar o valor do treino na guitarra, ou da manutenção daquela promessa de alimentar o porquinho-da-Índia e de lhe limpar a gaiola.
Outro aspeto fundamental: tudo aquilo que pudermos fazer para aumentar a capacidade da criança para obter domínio cognitivo ajudá-la-á ao longo da vida. Até o Monstro das Bolachas pode aprender a melhorar.
O Monstro das Bolachas aprende a mordiscar
No dia em que visitei a oficina experimental da Rua Sésamo, sede do bairro televisivo do Egas e do Becas, do Poupas, do Monstro das Bolachas e dos outros, adorado nas mais de 120 nações em que a Rua Sésamo era transmitida, havia uma reunião do pessoal mais importante com cientistas cognitivos e neurologistas.
O ADN da Rua Sésamo é ciência da aprendizagem disfarçada de entretenimento. «No âmago de cada episódio da Rua Sésamo há um objetivo curricular», explicou Michael Levine, diretor executivo do Joan Ganz Cooney Center, na reunião do programa. «Tudo o que apresentamos é antes testado no que diz respeito ao seu valor educativo.»
Uma rede de especialistas acadêmicos examina o conteúdo do programa, enquanto os verdadeiros especialistas — os próprios miúdos em idade pré-escolar — asseguram que o público-alvo compreenderá a mensagem. E os programas com um tema em particular, como um conceito matemático, são testados de novo em relação ao seu impacto educativo sobre aquilo que as crianças da pré-primária aprendem de facto.
Na reunião desse dia com os cientistas, o tema eram as bases essenciais da cognição. «Precisamos que os melhores investigadores se reúnam com os melhores escritores para o desenvolvimento dos programas», explicou Levine. «Mas precisamos também de nos assegurar do seguinte: ouvir os cientistas, mas depois brincar com isso — divertirmo-nos.»
Veja-se uma lição sobre o domínio dos impulsos, o ingrediente secreto de um segmento sobre o Clube de Fãs de Bolachas. O Sr. Almiro, dono da loja da Rua Sésamo, cozeu bolachinhas para serem apresentadas pelo Clube — mas ninguém planeara que o Monstro das Bolachas se lhes juntasse. Quando o Monstro entra de surpresa em cena quer, evidentemente, comer as bolachinhas todas.
O Sr. Almiro explica ao Monstro que, se quiser ser membro do Clube, tem de dominar o seu impulso para engolir as bolachas todas e saborear a experiência. Primeiro, pega-se na bolacha e procuram-se imperfeições, depois cheira-se e, finalmente, dá-se uma mordidela. Mas o Monstro das Bolachas, personificação do impulso, só consegue devorar logo as bolachas.
Para, neste segmento, delinear corretamente as estratégias de autorregulação, explica Rosemarie Truglio, vice-presidente principal da educação e investigação, consultaram, nem mais nem menos, Walter Mischel, o cérebro por trás do teste do marshmallow.
Mischel propôs ensinar ao Monstro das Bolachas estratégias de domínio cognitivo como «Pensar na bolacha como se fosse outra coisa» e lembrando-se a si próprio dessa outra coisa. Então, o Monstro das Bolachas vê que a bolachinha é redonda e parece um ioiô e repete obedientemente, uma e outra vez, que a bolacha é um ioiô. Mas engole-a à mesma.
Para ajudar o Monstro das Bolachas a dar apenas uma dentadinha — um estrondoso triunfo da força de vontade — Mischel sugeriu uma diferente estratégia de postergação da recompensa. O Sr. Almiro diz ao Monstro das Bolachas: «Eu sei que isto para ti é difícil, mas o que é mais importante: esta bolacha agora, ou entrar para o Clube, onde poderás comer todos os tipos de bolachas?» E foi isso que resultou.
Uma mente distraída com demasiada facilidade pelo mínimo indício de bolachas não terá o poder da constância para perceber frações, quanto mais cálculo. Algumas partes do currículo da Rua Sésamo acentuam elementos desse gênero do domínio executivo, o que cria uma plataforma mental que é um pré-requisito para os assuntos das áreas da ciência, da tecnologia, da engenharia e da matemática.
«Os professores dos primeiros anos da escola dizem-nos que precisam de crianças prontas para se sentarem, focarem, gerirem as suas emoções, ouvirem as instruções, colaborarem e fazerem amigos», disse Rosemarie Truglio. «Depois, disso é que lhes consigo ensinar as letras e os números.»
«Cultivar a sensibilidade para a matemática e as primeiras capacidades de literacia», explicou-me Levine, exige domínio de si mesmo, baseado em mudanças na função executiva durante os anos da pré-primária. Os comandos inibitórios relacionados com o funcionamento executivo correlacionam-se de perto com a matemática inicial e com a capacidade de leitura. «Ensinar estas capacidades autor reguladoras», acrescentou, «poderá na realidade religar partes do cérebro no caso das crianças em que estiveram pouco desenvolvidas.»
O poder de escolher Gostam desta obra de arte? Pessoas de todo o mundo dizem que figurações de cenas como esta estão entre as suas preferidas: uma paisagem idílica de um ponto de vista elevado, de onde se aviste a água, um prado, alguns animais. Talvez esta preferência universal date da pré-história humana, quando a nossa espécie percorria as savanas, mas se refugiava em cavernas escondidas numa encosta, para se proteger e aquecer.
Se, daqui em diante, o leitor conseguir prosseguir a leitura do que eu escrevi e não olhar de novo para aquela imagem, apesar de poder sentir uma atração mental para espreitar, irá criar no seu cérebro um confronto entre o foco e a distração. Essa tensão ocorre sempre que tentamos ficar concentrados numa coisa e ignorar a atração de outra. Isso significa que está a dar-se um conflito neuronal, um nível de excitação em que as redes de circuitos de cima para baixo e de baixo para cima puxarão a corda em sentidos opostos.
E, a propósito, lembrem-se de não olhar para a imagem — mantenham-se aqui e sigam aquilo que estou a dizer acerca do que se passa no cérebro. Este conflito interno retrata a batalha que uma miúda trava quando a sua mente quer divagar do trabalho de matemática para verificar as mensagens no telemóvel da
sua melhor amiga [106].
Se se testar alunos do secundário quanto ao seu talento natural para a matemática, encontrar-se-á uma constante: alguns miúdos são pura e simplesmente terríveis, muitos deles nada de especial e cerca de 10 por cento mostrarão grande potencial. Pegue-se nesses melhores 10 por cento, sigam-se ao longo de uma difícil cadeira de matemática durante um ano e verificar-se-á que a maioria obtém avaliações de topo. Mas, contrariamente às previsões, uma parte desses estudantes de alto potencial terá notas fracas.
Agora, dê-se a cada um dos alunos de matemática um aparelho que zumbe em momentos aleatórios ao longo do dia e peça-se-lhes que classifiquem o seu estado de espírito nesse momento. Se acontecer estarem a trabalhar em matemática, os que se saíram bem dirão que estão bem-dispostos muito mais vezes do que ansiosos. Mas os que têm más notas dirão o contrário: cinco vezes
mais episódios de ansiedade do que de boa-disposição[107].
Esse rácio contém um segredo sobre a razão pela qual aqueles que têm um grande potencial para aprender acabam por claudicar. A atenção, diz-nos a ciência cognitiva, tem uma capacidade limitada: a memória de trabalho cria um gargalo que nos permite apenas ter uma certa quantidade de coisas na mente num determinado momento (como vimos no capítulo um). Quando as nossas preocupações se intrometem na capacidade limitada da nossa atenção, estes pensamentos irrelevantes fazem encolher a largura de banda livre para, por exemplo, a matemática.
A capacidade de reparar em que estamos a ficar ansiosos e para tomar medidas a fim de renovar o nosso foco reside na consciência de si mesmo. Esta metacognição permite-nos manter a nossa mente num estado mais adequado para a tarefa em mãos, quer seja equações algébricas, seguir uma receita ou alta-costura. Quaisquer que sejam os nossos melhores talentos, a consciência de nós próprios ajudar-nos-á a utilizá-los ao máximo.
Entre os muito matizes e variedades de atenção, dois deles importam muitíssimo para a consciência de si mesmo. A atenção seletiva permite que nos foquemos num alvo e ignoremos tudo o resto. A atenção aberta permite-nos receber informação alargada sobre o mundo à nossa volta e sobre o mundo dentro de nós, deixando-nos recolher subtis indícios que, de outro modo, nos escapariam.
Os extremos de qualquer destes dois tipos de atenção — estar demasiado focado para o exterior ou demasiado aberto àquilo que se passa em nosso redor como diz Richard Davidson, «podem tornar impossível a consciência de si
mesmo»[108]. A função executiva inclui a atenção à própria atenção, ou, mais em geral, a consciência dos nossos estados mentais; tal permite-nos monitorizar o nosso foco e mantê-lo fixo.
A função executiva (como por vezes se chama ao domínio cognitivo) pode ser ensinada (como acabámos de ver e exploraremos em maior detalhe na quinta parte). Ensinar as capacidades executivas às crianças da pré-primária torna-as mais prontas para os seus anos de escola do que o quociente de inteligência, ou
ter já aprendido a ler[109]. Como bem sabe a equipa da Rua Sésamo, os professores querem alunos com boa função executiva, que se traduz em disciplinamento de si mesmo, domínio da atenção e capacidade para resistir à tentação. Essas funções executivas predizem boas classificações a matemática e leitura durante a escola, independentemente do quociente de inteligência da
criança[110].
Claro que isto não se aplica só às crianças. Este poder de dirigir o nosso foco para uma coisa e ignorar as outras está no âmago da força de vontade.
Um saco de ossos
Na Índia do século V, os monges eram encorajados a contemplar as «32 partes do corpo», uma lista de desagradáveis recantos do corpo humano: os excrementos, a bílis, o muco, o pus, o sangue, a gordura, o ranho, etc. Este foco em aspetos repugnantes deveria criar o desapego pelo próprio corpo, bem como ajudar os monges a repudiar a luxúria — por outras palavras, a fomentar a força de vontade.
Avancemos dois mil anos e contrastemos esse esforço ascético com o seu oposto extremo. Tal como me disse um assistente social que resgata adolescentes trabalhadores do sexo em Los Angeles, «é incrível como alguns miúdos podem ser impulsivos. Vivem na rua, mas, se ganharem mil dólares, gastam tudo no mais caro dos iPhones, em vez de arranjarem um teto para se abrigarem, para encontrarem a segurança de que precisam».
O seu programa ajuda jovens infetados pelo VIH a obterem subsídios governamentais que os tirem da rua e que lhes proporcionem cuidados médicos gratuitos, uma quantia para o apartamento e a alimentação e mesmo para o ginásio. «Vi na realidade amigos destes mesmos miúdos», diz-me ele, «a tornarem-se propositadamente seropositivos para poderem receber esses benefícios.»
Esse mesmo contraste entre um elevado domínio cognitivo e a sua completa ausência foi descoberto num contexto mais inocente, anos atrás, nesse teste de Stanford sobre a postergação da gratificação em crianças de 4 anos tentadas por um marshmallow. Quando 57 desses miúdos da escola pré-primária foram localizados quarenta anos depois, os «altos postergadores», que tinham resistido ao marshmallow aos 4 anos, continuavam a ser capazes de postergar a gratificação, mas os «baixos postergadores» continuavam a ser fracos a reprimir os impulsos.
Em seguida, os seus cérebros foram sondados enquanto resistiam à tentação. Os altos postergadores ativavam circuitos no córtex pré-frontal, essencial no domínio dos pensamentos e das ações — incluindo o giro frontal inferior direito, que diz que não aos impulsos. Mas os baixos postergadores ativaram o seu corpo estriado ventral, um circuito no sistema de recompensa do cérebro que é ativado quando somos atraídos pelas tentações e pelos prazeres culpados da vida, como a
deliciosa guloseima[111].
No estudo de Dunedin, foi dada especial importância ao domínio cognitivo durante a adolescência. Quando adolescentes, aqueles com mais baixo nível de domínio de si mesmos eram os que tinham maior probabilidade de começar a fumar, de se tornarem progenitores na adolescência sem estarem a contar com isso e de desistirem da escola — tudo armadilhas que lhes fecham as portas a futuras oportunidades e os aprisionam em estilos de vida que aceleram o caminho para empregos mal remunerados, saúde mais debilitada e, nalguns casos, percursos criminosos.
Significa então isto que as crianças com hiperatividade ou distúrbio de défice de atenção estão condenadas a ter problemas? Nada disso — tal como para as crianças em geral, havia uma gradação na passagem de maus para bons resultados entre aqueles com distúrbio de défice de atenção e hiperatividade. Mesmo para este grupo, um domínio de si mesmo relativamente maior permitia prever melhores resultados na vida, apesar dos seus problemas de atenção enquanto andavam na escola.
Tal não se aplica apenas a miúdos de 4 anos e a adolescentes. A sobrecarga cognitiva crônica que caracteriza tantas das nossas vidas parece diminuir o nosso nível de domínio de nós mesmos. Quanto maiores as exigências sobre a nossa atenção, ao que parece, mais fracos somos a resistir às tentações. A epidemia de obesidade nos países desenvolvidos, sugere a investigação, poderá dever-se em parte à nossa maior suscetibilidade enquanto estamos distraídos a funcionar em modo automático e vamos buscar comidas açucaradas e gordas. Quem registou maior sucesso na perda de peso e na sua posterior manutenção, de acordo com os estudos imagiológicos do cérebro, apresenta o maior domínio cognitivo quando
é confrontado com um alimento repleto de calorias[112].
O famoso dito de Freud, «Onde estava o id, estará o ego», fala diretamente desta tensão interna. O id — um agregado de impulsos que nos faz agarrar na barra de chocolate, comprar aquele artigo de luxo de facto demasiado caro, ou aceder àquele sítio da internete tão atraente mas que é uma total perda de tempo — luta constantemente contra o nosso ego, o executivo da mente. O ego permite-nos perder peso, poupar dinheiro e dispor do tempo com eficácia.
Na arena da mente, a força de vontade (uma faceta do «ego») representa um combate de luta livre entre os sistemas superior e inferior. A força de vontade mantém-nos focados nos nossos objetivos, apesar da força de atração dos nossos impulsos, paixões, hábitos e ânsias. Este domínio cognitivo representa um sistema mental «frio» que faz um esforço para perseguir os nossos objetivos, face às nossas reações emocionais «quentes» — rápidas, impulsivas e automáticas.
Os dois sistemas implicam uma diferença crítica no foco. Os circuitos de recompensa ancoram-se na cognição «quente», pensamentos com uma elevada carga emocional como aquilo que é tentador no marshmallow (é gostoso, doce e esponjoso). Quanto maior a carga, mais forte o impulso — e maior a probabilidade de os sóbrios lobos pré-frontais serem seqüestrados pelos nossos desejos.
Esse sistema executivo pré-frontal, em contrapartida, «esfria o quente», suprimindo o impulso de agarrar e reavaliando a própria tentação (também faz engordar). O leitor (ou o seu filho com 4 anós) pode ativar este sistema pensando, por exemplo, na forma do marshmallow, ou na sua cor, ou como é fabricado. Esta mudança de foco diminui a carga da energia para agarrar nele.
Tal como sugeriu para o Monstro das Bolachas, na sua experiência em Stanford Mischel ajudou alguns dos miúdos com um simples truque mental: ensinou-os a imaginar que o doce era apenas uma fotografia com uma moldura em volta. Subitamente, aquele irresistível pedaço de açúcar que pairava como um gigante nas suas mentes tornou-se algo que podiam fingir não ser real, algo em que se podiam focar, ou não. Mudar a sua relação com o marshmallow foi uma espécie de judo mental que permitiu às crianças que não tinham conseguido impedir-se de agarrar no doce durante mais de um minuto a resistirem habilmente à tentação durante quinze.
Este domínio cognitivo do impulso é também útil na nossa vida. Conforme diz Mischel, «se conseguirem lidar com as vossas emoções quentes, então poderão estudar para o exame de admissão em vez de verem televisão. E poderão poupar dinheiro para a reforma. Não se trata apenas do
marshmallow [113] ».
As distrações intencionais, a reavaliação cognitiva e outras estratégias metacognitivas entraram nos manuais da psicologia durante os anos 70. Mas essas manobras mentais foram utilizadas há muito tempo pelos monges do século V, quando contemplavam as partes «repugnantes» do corpo.
Uma história desses tempos conta que um destes monges ia a caminhar
quando uma atraente mulher passou por ele a correr[114]. Nessa manhã, tivera uma discussão com o marido e ia agora a fugir para casa dos pais.
Alguns minutos mais tarde, o marido, que ia atrás dela, chega e pergunta ao monge: «Venerável senhor, não vistes por acaso uma mulher a passar?»
E o monge responde: «Se era homem ou mulher, não sei dizer. Mas passou por aqui um saco de ossos.»