Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso
Segunda Parte Consciência de Si Mesmo
SEGUNDA PARTE
CONSCIÊNCIA DE SI MESMO
CAPÍTULO 6
O leme interno
Futebol, basquetebol, debates, fosse o que fosse — o grande rival da minha escola secundária no Vale Central da Califórnia estava na cidade a seguir, seguindo a Autoestrada 99. No decurso dos anos, travei amizade com um aluno dessa outra escola.
Durante a escola secundária, ele não se interessou muito pelos estudos — de facto, quase reprovou. Tendo crescido num rancho nos subúrbios da cidade, passava muito tempo sozinho, a ler ficção científica e a transformar carros, a sua paixão. Na semana anterior à conclusão dos estudos, um carro veio a acelerar para o ultrapassar, enquanto ele curvava à esquerda para entrar no caminho de casa, desfazendo o seu pequeno carro desportivo em bocados. Quase morreu.
Depois de recuperar, o meu amigo foi para a escola pós-secundária local, onde descobriu uma vocação que lhe prendeu a atenção e mobilizou os seus talentos criativos: fazer filmes. Depois de se transferir para uma escola cinematográfica, fez um filme para o seu projeto de curso que chamou a atenção de um realizador de Hollywood, que o contratou como assistente. O realizador pediu-lhe que trabalhasse num projeto que acarinhava, um filme de pequeno orçamento.
Isso, por sua vez, levou o meu amigo a arranjar um estúdio que o apoiasse como realizador e produtor de outro pequeno filme, baseado no seu próprio guião — um filme que o estúdio esteve prestes a cancelar antes da estreia, mas que resultou, contudo, surpreendentemente melhor do que toda a gente esperava.
Mas os cortes arbitrários, as montagens e outras modificações que os chefes do estúdio fizeram antes de estrearem esse filme foram uma amarga lição para o meu amigo, que atribuía um valor supremo ao domínio criativo sobre o seu trabalho. Quando se preparava para fazer um filme baseado noutro guião seu, ofereceram-lhe um contrato com um grande estúdio de Hollywood, nos moldes habituais: o estúdio financiava o projeto e detinha o poder de modificar o filme antes da estreia. Ele recusou o contrato — a sua integridade artística era mais importante.
Em vez disso, «comprou» o domínio criativo prosseguindo sozinho e pondo todos os tostões ganhos com o primeiro filme neste segundo projeto. Quando estava quase terminado, o dinheiro acabou-se. Foi à procura de empréstimos, mas um banco após outro recusou. Apenas um empréstimo de último minuto do décimo banco a que implorou salvou o projeto.
O filme era A Guerra das Estrelas.
A insistência de George Lucas em manter o domínio criativo apesar do aperto financeiro em que isso o punha representa uma enorme integridade — e, como o mundo sabe, revelou ser também uma lucrativa decisão de negócios. Mas esta decisão não foi motivada pela procura de dinheiro; nesses dias, os direitos de autor conexos significavam vender cartazes do filme e camisolas, uma fonte vulgar de lucro. Nessa altura, todos os que conheciam a indústria cinematográfica aconselharam George a não avançar sozinho.
Uma decisão destas requer uma imensa confiança nos valores que nos guiam. O que permitirá a alguém possuir uma bússola interna tão forte, uma estrela polar que guie a pessoa pela vida de acordo com os ditames dos seus mais profundos valores e finalidades?
A consciência de si mesmo, em particular a precisão na descodificação dos indícios internos dos murmúrios do nosso corpo, detém a solução. As nossas subtis reações fisiológicas refletem a soma da nossa experiência que é relevante para a decisão em questão.
As regras de decisão extraídas das nossas experiências vitais residem nas redes neuronais subcorticais que reúnem, armazenam e aplicam algoritmos de
todos os acontecimentos da nossa vida — criando o nosso leme interno[82]. O cérebro abriga o nosso mais profundo sentido de finalidade e significado nestas regiões subcorticais — áreas fracamente ligadas às áreas verbais do neocórtex, mas profusamente ligadas ao instinto. Conhecemos os nossos valores, em primeiro lugar, por obtermos uma sensação daquilo que sentimos estar bem e não estar, articulando depois essas sensações no nosso interior.
A consciência de si mesmo, portanto, representa um foco essencial, que nos harmoniza com os subtis murmúrios interiores que podem ajudar a orientar o nosso caminho na vida. E, como veremos, este radar interno contém a chave para gerirmos aquilo que fazemos — e, igualmente importante, aquilo que não fazemos. Este mecanismo de governo interno faz toda a diferença entre uma vida bem vivida e uma vida vacilante.
Ela está feliz e sabe que está
O teste científico para a consciência de si mesmo nos animais é, em teoria, simples: pôr-lhes uma marca no focinho, mostrá-la ao espelho e observar se as suas ações mostram que compreendem que o focinho com a marca que lá aparece é o seu próprio focinho.
Contudo, aplicar um destes testes de consciência de si mesmo a elefantes não é assim tão simples. Para começar, é preciso construir um espelho adequado para elefantes. Tente-se uma superfície refletora de acrílico, com dois metros e meio por dois metros e meio, colada a um contraplacado suportado por uma moldura de aço e aparafusada à parede de cimento de um recinto para elefantes.
Foi isso que os investigadores fizeram no Jardim Zoológico do Bronx, onde Happy, um elefante-asiático fêmea, de 34 anos, vive com as suas duas amigas, Maxine e Patty. Os investigadores deixaram que os elefantes se habituassem aos espelhos durante alguns dias. Depois, puseram um grande X branco na cabeça de cada um dos elefantes, para ver se perceberiam que tinham ali uma marca — uma indicação de reconhecimento de si mesmo.
Há ainda mais uma complicação quando se trata de fazer isto com elefantes. Eles «lavam-se» tomando banhos de lama e soprando poeira com a tromba sobre si próprios, o que acrescenta mais uma considerável quantidade de detritos à sua pele, aumentando a probabilidade de que aquilo que para nós, humanos, parece ser uma marca proeminente possa ser trivial — apenas mais um entre outros detritos — para um elefante. E, de facto, Maxine e Patty não prestaram atenção ao seu X.
Mas no dia em que se pôs a Happy um grande X na cabeça, ela dirigiu-se ao espelho e passou dez segundos a olhar para si própria e depois afastou-se — de forma muito idêntica àquela que nós, humanos, costumamos evidenciar quando olhamos para o espelho antes de sairmos para começar o nosso dia. Em seguida, tateou repetidamente em redor do X com a ponta sensível da tromba, o que indicava consciência de si mesma.
Apenas muito poucos indivíduos no reino animal passaram este teste, incluindo algumas variedades de macacos e chimpanzés, e golfinhos (numa adaptação aquática do teste). Estas espécies, como os elefantes, encontram-se entre a meia dúzia de animais cujos cérebros albergam uma classe de neurônios que alguns neurocientistas acreditam ser singularmente essenciais para a consciência de si mesmo. Deu-se-lhes o nome de quem os descobriu, Constantin von Economo (abreviadamente chamam-se VEN). Estes neurônios em forma de fuso poderão atingir o dobro do tamanho da maioria das células cerebrais e ter menos ramificações — embora muito mais longas — a ligarem-nos a outras
células[83].
O seu tamanho e a sua forma de fuso dão aos VEN uma vantagem única sobre os outros neurônios: os sinais que enviam viajam mais depressa e até mais longe. E as suas principais localizações em áreas que ligam o cérebro executivo aos centros emocionais posicionam-nos como um radar pessoal. Estas áreas iluminam-se quando vemos o nosso reflexo no espelho. Os neurocientistas veem-nas como parte da rede de circuitos cerebrais do nosso sentido do eu em todos os planos: do «isto sou eu», do «como me sinto agora» e da nossa identidade pessoal.
O mapa cerebral do corpo
Depois de lhe ter sido diagnosticado o cancro hepático que lhe iria roubar a vida alguns anos depois, Steve Jobs pronunciou uma sentida conferência perante finalistas universitários em Stanford. Eis o seu conselho: «Não deixem que a voz das opiniões dos outros afogue a vossa voz interior. E, mais importante, tenham a coragem de seguir o vosso coração e a vossa intuição. Eles, de algum modo,
sabem já aquilo em que vocês verdadeiramente se querem tornar.»[84]
Mas como ouvir a «vossa voz interior», aquilo que o coração e a intuição de algum modo já sabem? É necessário depender dos sinais do corpo.
O leitor poderá já ter visto a bizarra imagem de um corpo cartografado de acordo com o córtex somatossensorial, que capta as sensações registadas por várias áreas da nossa pele: esta criatura tem uma cabeça minúscula mas enormes lábios e língua, frágeis braços mas dedos gigantes — tudo isso refletindo a sensibilidade relativa dos nervos nas várias partes do corpo.
Uma semelhante monitorização dos nossos órgãos internos é realizada pela insula, escondida por trás dos lobos frontais do cérebro. A insula cartografa o interior do nosso corpo mediante uma rede de circuitos ligada aos intestinos, ao coração, ao fígado, aos pulmões, aos órgãos genitais — cada órgão tem o seu local específico. Isto permite à insula agir como centro de comando das funções dos órgãos, enviando sinais ao coração para abrandar o ritmo, ou aos pulmões para inspirarem mais profundamente.
A atenção virada para dentro, para qualquer parte do corpo, amplia a sensibilidade da insula à área em particular que estivermos a verificar. Se o leitor se sintonizar com a sua batida cardíaca, a insula ativa mais neurônios nessa rede de circuitos. A que ponto as pessoas conseguem sentir as suas batidas cardíacas tornou-se, de facto, uma forma padronizada de medir a consciência de si mesmo.
Quanto melhor as pessoas o fizerem, maior a sua insula[85].
A insula não se limita a sintonizar-nos com os nossos órgãos; a nossa própria
sensação de como nos sentimos depende dela[86]. As pessoas que não têm consciência das suas emoções (e também — o que é revelador, como veremos — de como as outras pessoas se sentem) têm uma atividade apática da insula, em comparação com a elevada ativação verificada nas pessoas altamente sintonizadas com a sua vida emocional interior. No extremo da falta de sintonia estão as pessoas com alexitimia, que simplesmente. não sabem o que sentem e que não conseguem imaginar aquilo que outra pessoa poderá estar a sentir6.
As nossas «sensações instintivas» são mensagens da insula e de outros circuitos de baixo para cima que nos simplificam as decisões da vida guiando a nossa atenção para melhores opções. Quanto melhores formos na leitura destas mensagens, melhor a nossa intuição.
Tome-se como exemplo aquela sensação que por vezes se sente de que nos estamos a esquecer de algo importante mesmo antes de partir numa grande viagem. Uma corredora da maratona contou-me que estava uma vez a caminho de uma corrida a 650 quilômetros de distância. Sentiu isso — e ignorou-o. Enquanto viajava pela autoestrada, a sensação persistia. Então, percebeu o que era: esquecera-se dos ténis!
Uma paragem num centro comercial que estava prestes a fechar salvou a situação. Mas os novos ténis eram de uma marca diferente daqueles que normalmente calçava: «Nunca fiquei tão dorida!»
O neurocientista Antônio Damásio chama «marcadores somáticos» às
sensações no nosso corpo que nos dizem que uma escolha é errada ou certa[88]. Esta rede de circuitos de baixo para cima telegrafa as suas conclusões por meio das nossas sensações instintivas, frequentemente antes de os circuitos de cima para baixo chegarem a uma conclusão mais ponderada.
A área pré-frontal ventromedial, uma zona-chave desta rede de circuitos, orienta a nossa tomada de decisões quando enfrentamos as decisões mais complexas da vida, como com quem havemos de casar, ou se devemos comprar uma casa. Escolhas destas não podem ser feitas por via de uma fria análise racional. Em vez disso, seria melhor se simulássemos o que sentiríamos se escolhêssemos A em vez de B. Esta área cerebral opera como esse leme interno.
Existem dois principais fluxos de consciência de si mesmo: o «mim», que constrói narrativas acerca do passado e do futuro, e o «eu», que nos transporta para o presente imediato. O «mim» liga aquilo que experimentamos ao longo do tempo. O «eu», em nítido contraste, existe apenas na experiência crua do nosso imediato momento.
O «eu», o nosso sentido mais íntimo de nós próprios, reflete a soma avulsa das nossas impressões sensoriais — em particular, os nossos estados físicos. O «eu» constrói-se com base no nosso sistema cerebral de cartografia do corpo por
meio da insula[89].
Estes sinais internos são os nossos guias interiores, ajudando-nos em muitos planos, desde vivermos uma vida de acordo com os nossos valores de referência, até nos lembrarmos dos ténis.
Tal como me explicou uma artista veterana do Cirque du Soleil, para os seus exigentes treinos, os artistas do Cirque lutam por aquilo a que ela chamou «prática perfeita», em que as leis do movimento físico e as regras da biomecânica se juntam à cronometragem, aos ângulos e à velocidade, de modo a tornarem-se «mais perfeitos durante mais tempo — ninguém é perfeito durante todo o tempo».
E como sabem os artistas que se estão a aproximar da perfeição? «E a sensação. Sabemo-lo nas articulações antes de o sabermos na cabeça.»