Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso

10 — A triade da empatia

CAPÍTULO 10

 

A tríade da empatia

 

A leitura suprassensível dos sinais emocionais é um auge da empatia cognitiva, uma das três principais espécies de variedades da capacidade de nos focarmos naquilo que os outros experimentam1. Esta variedade de empatia permite-nos tomar a perspetiva de outra pessoa, compreender o seu estado mental e, ao mesmo tempo, gerir as nossas próprias emoções enquanto anotamos as dela.

Todas estas operações mentais são de cima para baixo[120].

Em contrapartida, com a empatia emocional, associamo-nos à outra pessoa no que respeita ao sentimento; os nossos corpos ressoam, qualquer que seja a nota de alegria ou tristeza pela qual a outra pessoa esteja a passar. Esta sintonização apenas pode ocorrer por via de circuitos cerebrais automáticos, espontâneos — e de baixo para cima.

Embora a empatia cognitiva ou emocional signifique que reconhecemos aquilo que a outra pessoa está a pensar e que ecoamos esses sentimentos, tal não conduz necessariamente à compreensão e ao cuidado com o seu bem-estar. A terceira variedade, o cuidado empático, vai mais longe, levando a que nos preocupemos com a pessoa e mobilizando-nos para ajudá-la, se for necessário. Esta atitude compassiva baseia-se em sistemas primitivos de baixo para cima de cuidado e apego nas profundezas do cérebro, embora estes se misturem com os circuitos de cima para baixo, mais refletidos, que avaliam a que ponto apreciamos o seu bem-estar.

A nossa rede de circuitos para a empatia foi construída para momentos cara a cara. Hoje, trabalhar em linha em conjunto apresenta desafios especiais à empatia. Reparem, por exemplo, nesse momento familiar numa reunião em que todos chegaram a um consenso tácito e uma das pessoas verbaliza em voz alta aquilo que todos sabem, mas ninguém disse: «Bem, então todos concordamos com isto.» As cabeças fazem que sim.

Mas chegar a um consenso destes num debate em linha exige voar às cegas, sem podermos contar com a contínua cascata de mensagens não verbais que, numa reunião presencial, permitem que alguém expresse em voz alta o consenso ainda não verbalizado. Nesse contexto, baseamos a nossa leitura dos outros apenas naquilo que eles têm para dizer. Para lá disso, é preciso ler nas entrelinhas. Em linha dependemos da empatia cognitiva, uma variedade da leitura da mente que nos permite inferir aquilo que se passa na mente de outra pessoa.

A empatia cognitiva dá-nos a capacidade de compreender a perspectiva de outra pessoa, as suas formas de ver e de pensar. Ver pelos olhos dos outros ajuda a articular as perguntas das pessoas, saber como «verbalizar», conseguir que alguém concorde.

Esta capacidade, como dizem os cientistas cognitivos, exige «mecanismos de cálculo adicionais»: precisamos de pensar acerca dos sentimentos. A equipa de investigação de Justine Cassell emprega habitualmente este gênero de empatia no seu trabalho.

Uma natureza inquisitiva, em que aprendemos com todos, alimenta a nossa empatia cognitiva, ampliando a nossa compreensão do mundo dos outros. Um executivo bem-sucedido, que exemplifica esta atitude, disse-o desta forma: «Eu sempre quis simplesmente aprender tudo, compreender todas as pessoas à minha volta — por que razão pensavam o que pensavam, por que razão faziam o que

faziam, o que resultava com elas e o que não resultava.»[121]

Na vida, as raízes desta tomada de perspetiva remontam às formas como as crianças aprendem as noções básicas da vida emocional, como os seus próprios estados de espírito diferem dos das outras pessoas e como as pessoas reagem aos sentimentos que elas exprimem. Esta compreensão emocional mais básica marca a primeira vez que a criança consegue tomar o ponto de vista de outra pessoa, adotar várias perspetivas num determinado momento e partilhar o sentido com outras pessoas.

Com 2 ou 3 anos de idade, as crianças pequenas conseguem atribuir palavras a sentimentos e designar um rosto como «contente» ou «triste». Cerca de um ano mais tarde, compreendem que a forma como outra criança percebe os acontecimentos determinará a forma como irá reagir. Na adolescência, um outro aspeto, ler adequadamente os sentimentos de uma pessoa, torna-se mais forte, preparando o caminho para interações sociais mais harmoniosas.

Tania Singer, diretora do Departamento de Neurociência Social do Instituto Max Planck para as Ciências Humanas Cognitivas e do Cérebro, em Leipzig, estudou a empatia e a consciência de si mesmo na alexitimia — pessoas com grande dificuldade em compreender os seus próprios sentimentos e em traduzi-los por palavras. «É preciso compreendermos os nossos próprios sentimentos para compreendermos os sentimentos dos outros», diz ela.

Os circuitos executivos que nos permitem pensar acerca dos nossos próprios pensamentos e sentimentos permitem-nos aplicar o mesmo raciocínio às mentes das outras pessoas. A «teoria da mente», a compreensão de que as outras pessoas têm os seus próprios sentimentos, desejos e motivos, permite-nos raciocinar acerca daquilo que alguém poderá estar a pensar ou a desejar.

Esta empatia cognitiva partilha a rede de circuitos com a atenção executiva; desabrocha pela primeira vez entre os 2 e os 5 anos de idade e continua a desenvolver-se durante os anos da adolescência.

 

A empatia desorientada

 

Um supermusculado prisioneiro de uma prisão do Novo México estava a ser entrevistado por uma aluna de psicologia. O detido era tão perigoso que o gabinete estava equipado com um botão que podia ser pressionado se as coisas ficassem desgovernadas. O detido contou à estudante de psicologia, com pormenores realistas, a forma macabra como matara a namorada — mas fê-lo de uma maneira tão encantadora que ela achou difícil não se rir com ele.

Cerca de um terço dos profissionais cujo trabalho exige entrevistarem sociopatas criminosos como esse homicida dizem que sentem a pele a arrepiar-se, uma sensação horripilante que alguns pensam significar o desencadear de

uma empatia defensiva primitiva[122].

Um lado mais obscuro da empatia cognitiva emerge quando alguém a usa para localizar as fraquezas de alguém, aproveitando-se delas. Esta estratégia caracteriza os sociopatas, que usam a sua empatia cognitiva para manipular. Não

sentem ansiedade, pelo que a ameaça do castigo não os dissuade[123].

A obra clássica sobre sociopatas (nessa altura, eram conhecidos como «psicopatas»), o livro de 1941 The Mask of Sanity, de Hervey M. Cleckley, descreve-os como indivíduos que albergam «uma personalidade irresponsável», por trás de «uma imitação perfeita de emoção normal, fina inteligência e

responsabilidade social»[124]. A parte irresponsável surge num historiai de mentira patológica, de viver à custa dos outros como um parasita e coisas desse gênero. Outros indicadores (o que é revelador) apontam défices de atenção, como distração entediada, fraco domínio dos impulsos e ausência de empatia emocional ou simpatia por outras pessoas em apuros.

Pensa-se que a sociopatia ocorra em cerca de 1 por cento da população; se assim for, o mundo do trabalho contém milhões do que os clínicos designam como «sociopatas de sucesso» (Bernie Madoff, depois de estar na cadeia, passou a exemplificar um caso com pouco sucesso). Os sociopatas, como os seus parentes próximos, as «personalidades maquiavélicas», são capazes de ler as emoções dos outros, mas registam as expressões faciais numa parte diferente do cérebro do que o resto de nós.

Em vez de registarem a emoção nos seus centros límbicos do cérebro, os sociopatas apresentam atividade nas áreas frontais, em particular nos centros da linguagem. Falam para si próprios sobre as emoções, mas não as sentem diretamente, como as outras pessoas; em vez de uma reação emocional normal,

de baixo para cima, os sociopatas «sentem» de cima para baixo[125].

Tal é particularmente verdadeiro para o medo — os sociopatas parece não terem qualquer apreensão em relação ao castigo que os seus crimes possam desencadeai1. Eis uma teoria: sofrem de uma ausência particular do domínio cognitivo dos impulsos, o que eqüivale a um défice de atenção que se foca na excitação do momento e que os cega para as conseqüências daquilo que

fazem[126].

 

Empatia emocional: sinto a vossa dor

 

«Esta máquina consegue salvar vidas», proclama um anúncio. Apresenta um cenário de hospital, onde uma plataforma com rodas sustém um monitor de vídeo e um teclado, com uma prateleira para os punhos e o resto do material para a medição da tensão arterial.

Deparei-me com esse mesmo dispositivo «salva-vidas» quando fui no outro dia a uma consulta médica. Enquanto me sentava numa marquesa, para medir a tensão arterial, a plataforma foi posta atrás de mim, à direita. A enfermeira ficou de pé a meu lado, de frente para o monitor — não para mim. Enquanto recolhia as minhas leituras, lia mecanicamente no ecrã uma série de perguntas e digitava as minhas respostas.

Os nossos olhares nunca se encontraram, exceto no momento em que abandonou a sala e disse (bem vistas as coisas, ironicamente): «Prazer em vê-lo.»

Teria sido um prazer vê-la, se tivéssemos tido essa oportunidade. Essa ausência de contacto visual torna anônimo um encontro, despojando-o de ligação emocional. A falta de calor significou que eu (ou ela) podia muito bem ser um ciborgue.

Não sou caso único. Há estudos nas faculdades de medicina que verificaram que, se um médico nos olhar nos olhos, fizer que sim com a cabeça enquanto nos ouve, nos tocar gentilmente quando nos queixamos de alguma dor e nos perguntar, por exemplo, se não temos frio quando estamos deitados na marquesa, obterá elevadas avaliações por parte dos pacientes. Se ficar sobretudo a olhar para o seu bloco de notas ou para o ecrã do computador, as avaliações serão

baixas[127].

Embora a enfermeira possa ter tido alguma empatia cognitiva por mim, haveria pouca probabilidade de ela se sintonizar com os meus sentimentos. A empatia emocional, perceber aquilo que a outra pessoa sente, tem raízes antigas na evolução; partilhamos esta rede de circuitos com outros mamíferos que, como nós, precisam de uma atenção aguda aos sinais de desconforto das crias. A empatia emocional opera de baixo para cima: a grande parte das ligações neuronais para perceber diretamente os sentimentos dos outros localiza-se por baixo do córtex, em partes antigas do cérebro, que «pensam depressa», mas não

profundamente[128]. Estes circuitos sintonizam-nos suscitando no nosso próprio corpo o estado emocional percebido na outra pessoa.

Por exemplo, quando ouvimos uma história fascinante. Alguns estudos cerebrais mostram que, quando as pessoas ouvem alguém a contar uma história dessas, os cérebros dos ouvintes ligam-se intimamente ao daquele que está a contá-la. Os padrões do cérebro do ouvinte ecoam com precisão os do emissor, embora com um atraso de um ou dois segundos. Quanto maior a sobreposição do acasalamento neuronal dos dois cérebros, melhor é a compreensão que o ouvinte

tem da história[129]. E os cérebros daqueles com melhor compreensão — que estão completamente focados e percebem mais — fazem algo surpreendente: certos padrões das atividades dos seus cérebros antecipam o do contador da história em um ou dois segundos.

Os circuitos da empatia emocional começam a operar na primeira infância, fornecendo um sabor primitivo de ressonância entre nós e outra pessoa. No desenvolvimento do cérebro, somos programados para sentir a alegria ou a dor do outro antes de podermos pensar sobre isso. O sistema neuronal refletor, uma parte da rede para esta ressonância (mas de modo algum a única), dispara logo aos 6 anos. Os nossos neurônios refletores — juntamente com outros circuitos sociais do cérebro social — lêem as emoções, as intenções e as ações das outras pessoas e, simultaneamente, ativam no nosso próprio cérebro essas mesmas regiões cerebrais, proporcionando-nos uma sensação interna daquilo que se

passa na outra pessoa[130].

A empatia depende de um músculo da atenção: sintonizarmo-nos com os sentimentos de outrem exige captarmos os sinais faciais, vocais e outros da sua emoção. O cingulado anterior, uma parte da rede da atenção, sintoniza-nos com o sofrimento de outrem estimulando a nossa própria amígdala, que ecoa com esse sofrimento. Neste sentido, a empatia emocional é «encarnada» — sentimos de facto na nossa fisiologia aquilo que se passa no corpo da outra pessoa.

Quando os cérebros de alguns voluntários foram sondados imagiologicamente enquanto viam outra pessoa a sofrer um doloroso choque, a sua própria rede de circuitos da dor iluminaram-se, eqüivalendo a uma simulação

neuronal do sofrimento da outra pessoa[131].

Tania Singer descobriu que sentimos empatia com a dor do outro por via da nossa insula anterior — a mesma área que usamos para sentir como é a nossa própria dor. Portanto, começamos por sentir as emoções dos outros no interior de nós mesmos, quando o nosso cérebro aplica aos sentimentos da outra pessoa um sistema idêntico ao usado para lermos os nossos próprios estados

sentimentais[132]. A empatia alimenta-se da nossa capacidade para perceber sentimentos viscerais no interior do nosso próprio corpo.

O mesmo acontece com a sincronia, esse entrelaçamento não verbal de como nos mexemos e daquilo que fazemos que assinala uma interação harmoniosa. Vemo-la nos músicos de jazz, que nunca ensaiam exatamente aquilo que fazem, mas que parecem simplesmente saber a altura de tomar a iniciativa, ou de se desvanecerem no fundo. Quando os músicos de jazzforam comparados com os músicos clássicos quanto a funções cerebrais, mostraram mais indicadores neuronais de consciência de si mesmos10. Conforme disse um músico de jazz, «no jazz, é preciso sintonizarmo-nos quanto ao que o nosso corpo está a sentir, para sabermos quando avançar para um solo».

A própria constituição do cérebro parece integrar a consciência de si mesmo com a empatia, armazenando a forma como recolhemos a informação sobre nós próprios e acerca dos outros dentro das mesmas distantes redes neuronais. Trata-se de uma operação hábil: enquanto os nossos neurônios refletores e outras redes de circuitos sociais recriam no nosso cérebro e no nosso corpo aquilo que se passa no interior da outra pessoa, a nossa insula sintetiza tudo. Sentimos, por nosso lado, aquilo que se passa no interior da outra pessoa sintonizando a nossa própria insula — lemos as outras pessoas sintonizando-nos a nós mesmos. A empatia implica um ato de consciência de si mesmo.

Tomemos, por exemplo, o caso dos neurônios de Von Economo. Estas singulares células cerebrais, recordemos, são essenciais para a consciência de si mesmo. Mas estão situadas em áreas que são ativadas em momentos de raiva, tristeza, amor e desejo sexual — bem como em momentos de ternura, como quando uma mãe ouve o seu bebé a chorar, ou ao ouvirmos o som da voz de alguém que amamos. Quando estes circuitos marcam um acontecimento como saliente, dirigem para lá o nosso foco.

Estas células em forma de fuso permitem uma ligação extremamente rápida entre o córtex pré-frontal e a insula — áreas ativas tanto durante a introspeção como durante a empatia. Estes circuitos monitorizam o nosso mundo interpessoal à procura daquilo que nos interessa, fazendo-o com extrema rapidez, ajudando-nos a reagir no instante. A rede de circuitos cerebrais da atenção entrelaça-se com a da sensibilidade social e da compreensão da experiência dos outros e da forma como eles veem as coisas — em resumo, com a da

empatia[134]. Esta superautoestrada social no cérebro permite-nos conhecer — e, assim, refletir sobre elas e geri-las — as nossas próprias emoções e as dos outros.

 

Preocupação empática: estou aqui para ti

 

Uma senhora entrou a cambalear na sala de espera da cirurgiã, a escorrer sangue por todo o lado. Instantaneamente, a médica e o seu pessoal entraram em ação para ocorrer à emergência, enfiando a senhora numa sala de tratamento para estancar as hemorragias, chamando uma ambulância e cancelando todas as consultas dos outros pacientes para o resto do dia.

Os pacientes que tinham estado à espera para consultar a médica compreenderam, evidentemente, que a extrema necessidade da senhora se sobrepunha às suas. Quer dizer, todos menos uma senhora que se mostrou indignada por a sua consulta ter sido cancelada. Ultrajada, gritou para a recepcionista: «Tive de faltar ao trabalho! E preciso descaramento para me cancelarem a consulta!»

A cirurgiã que me contou a história diz que esta indiferença ao sofrimento e às necessidades dos outros se tornou mais comum na sua prática. Foi mesmo o assunto de uma reunião com todos os outros cirurgiões da região.

A parábola bíblica do Bom Samaritano conta que um homem parou para ajudar um estranho que fora espancado e roubado e que estava deitado em sofrimento à berma da estrada. Dois outros tinham visto o homem ferido e passado por ele.

Martin Luther King Jr. observou que aqueles que não o tinham ajudado fizeram a si próprios a seguinte pergunta: «Se parar para ajudar este homem, o que me acontecerá a mim?»

Mas o Bom Samaritano inverteu a pergunta: «Se eu não parar para ajudar este homem, o que lhe acontecerá a ele?»

A compaixão alimenta-se da empatia, que, por sua vez, exige um foco nos outros. Se estivermos absorvidos em nós, não reparamos nas outras pessoas; podemos passar completamente indiferentes às suas aflições. Mas, assim que reparamos nelas, podemos sintonizar-nos, perceber os seus sentimentos e necessidades e expressar a nossa preocupação empática.

A preocupação empática, que é aquilo que esperamos do nosso médico, chefe, ou cônjuge (já para não falar de nós próprios) tem fundamento na arquitetura neuronal dos cuidados parentais. Nos mamíferos, esta rede de circuitos compele a atenção e o cuidado para os bebés e os jovens, que não

conseguem sobreviver sem os progenitores[135]. Observe-se para onde se dirigem os olhares das pessoas quando alguém entra numa sala com um adorável bebé e ver-se-á o centro cerebral mamífero dos cuidados a entrar em ação.

A preocupação empática surge cedo na infância: quando um bebé ouve outro a chorar, começa também a chorar. Esta reação é desencadeada pela amígdala, o radar do cérebro para o perigo (bem como o local de emoções primárias, tanto negativas como positivas). Há uma teoria neuronal que defende que a amígdala conduz os circuitos de baixo para cima do cérebro do bebé que ouve o choro à mesma tristeza e aflição. Ao mesmo tempo, os circuitos de cima para baixo libertam oxitocina, o elemento químico do cuidado, que desperta uma sensação

rudimentar de preocupação e boa vontade no segundo bebé[136].

A preocupação empática, portanto, é um sentimento de dupla face. Por um lado, há um desconforto implícito na experiência direta de uma pessoa com a aflição da outra — uma empatia emocional primária, combinada com a mesma preocupação que um progenitor sente pelo filho. Mas acrescentamos ao nosso instinto de cuidado uma equação social que mede a importância que damos ao bem-estar da outra pessoa.

Conseguir acertar nesta mistura de baixo para cima/de cima para baixo tem grandes implicações. Aqueles em quem o despertar de sentimentos de piedade se torna demasiado forte poderão vir eles próprios a sofrer — nas profissões em que se presta apoio isso poderá conduzir à fadiga da compaixão. E aqueles que se protegem contra a angústia compreensiva embotando os sentimentos poderão perder o contacto com a empatia. O caminho neuronal para a preocupação empática implica a gestão de ambos os circuitos de cima para baixo, sem nos insensibilizar à dor dos outros.

Quando um grupo de voluntários ouviu relatos de pessoas submetidas a dor física, as imagens dos seus cérebros revelaram que os seus próprios centros cerebrais que experimentam essa dor se acenderam instantaneamente. Mas, quando a história era sobre o sofrimento psicológico, levou consideravelmente mais tempo a ativar os centros cerebrais mais elevados envolvidos na preocupação e na compaixão empática. Tal como explicou a equipa de investigação, leva tempo a deslindar «as dimensões psicológicas e morais de uma situação».

Os sentimentos morais derivam da empatia e as reflexões morais implicam tempo e foco. Um dos custos do frenético fluxo das distrações que enfrentamos

hoje em dia, receiam alguns, é uma erosão da empatia e da compaixão[137]. Quanto mais distraídos andamos, menos conseguimos cultivar formas mais subtis de empatia e compaixão.

Perceber a dor nos outros reflexivamente atrai a nossa atenção — a expressão da dor é um sinal biológico crucial para evocar o auxílio. Mesmo os macacos-resos não puxam uma corrente para obterem uma banana, se isso provocar também um choque a outro macaco-reso, sugerindo talvez uma base da civilidade.

Mas existem exceções. Uma delas é que a empatia termina se não gostarmos da pessoa em sofrimento — por exemplo, se acharmos que ela foi injusta — ou

se a virmos como fazendo parte de um grupo de que não gostamos[138]. Então, a empatia pode facilmente transformar-se no seu oposto, em sentimentos do tipo

«é bem feito»[139].

Quando os recursos são escassos, a necessidade de competir por eles poderá, por vezes, suprimir a preocupação empática, e a competição faz parte da vida em quase todos os grupos sociais, seja por comida, por parceiros, ou por poder — ou por uma consulta com um médico.

Há outra exceção compreensível: os nossos cérebros ecoam menos com a dor de outra pessoa quando ela é justificada — por exemplo, beneficiar de um tratamento médico. Finalmente, importa onde nos focamos: a nossa empatia emocional torna-se mais forte se nos concentrarmos na intensidade da dor e diminui quando afastamos o olhar.

Descontadas estas variantes, uma das formas subtis do cuidado ocorre quando usamos simplesmente a nossa presença tranquilizadora e afetuosa para ajudar a acalmar alguém. A mera presença de alguém de quem se gosta, mostram os estudos, tem uma propriedade analgésica, sossegando os centros que registam a dor. Nomeadamente, quanto mais empática for a pessoa na presença

de alguém com dor, maior o efeito calmante[140].

O equilíbrio da empatia

 

«Sabe, quando se descobre um caroço no peito, a pessoa sente — bem, uma espécie de...», diz a paciente, com a voz a fugir-lhe. Olha para baixo, com os olhos marejados de lágrimas.

«Quando descobriu o caroço?», pergunta-lhe o médico com suavidade.

A paciente responde, absorta: «Não sei. Já há algum tempo.»

O médico reage: «Parece assustador.»

A paciente responde: «Pois é, um bocado.»

«Mete um pouco de medo?», pergunta o médico.

«Sim», diz a paciente, «parece que sinto que a minha vida acabou.»

«Compreendo. Está preocupada e também triste.»

«É isso, doutor.»

Comparem esta conversa com uma em que, logo depois de a paciente, lavada em lágrimas, falar do caroço no peito, o médico começa a percorrer apressadamente uma lista de perguntas de cariz clínico impessoais e detalhadas — sem sequer um sinal de compreensão perante os sentimentos expressos.

A paciente, neste segundo encontro, achará possivelmente que não foi ouvida. Mas, após a primeira interação, mais empática, a paciente — apesar de viver o mesmo grau de aflição — sentir-se-ia melhor. Sentiria que a compreendiam e que se preocupavam com ela.

Estes dois cenários foram usados para ilustrar esta diferença crucial, num

artigo para médicos sobre como construir empatia com os pacientes[141]. O título do artigo exibe uma frase para construir empatia: «Deixe-me ver se compreendi...» Nele, defende-se que gastar apenas alguns minutos a dar atenção ao modo como o paciente se sente em relação à sua doença alimenta a ligação emocional.

Não ser ouvido está no topo da lista de queixas que os pacientes apresentam dos seus médicos. Pelo seu lado, os médicos queixam-se de que não lhes é dado o tempo de que precisam com os seus pacientes e que, assim, o lado humano da sua interação recebe pouca consideração. A barreira ao contacto humano aumenta quando os médicos — obrigados a conservar registos digitais — digitam notas num teclado de computador durante as consultas com os pacientes, acabando assim por partilhar mais com o seu computador portátil do que com o paciente.

Contudo, os momentos pessoais com os pacientes, dizem muitos médicos, são a parte mais satisfatória do dia. Essa relação entre o médico e o paciente aumenta significativamente a precisão do diagnóstico e a forma como o paciente segue as instruções do médico, e fomenta a satisfação e a lealdade do paciente. Diminui também muito a probabilidade de um processo judicial em caso de um erro do médico.

«A empatia, a capacidade de se relacionar com os pacientes — num sentido profundo, ouvir, dar atenção — reside no âmago da prática clínica», diz o artigo à sua audiência médica. A orientação para as emoções do paciente promove o relacionamento. Desligar os sentimentos e focar-se apenas em detalhes clínicos ergue uma barreira.

Os médicos que nos Estados Unidos são processados por negligência não cometem em geral mais erros clínicos do que os que não são processados. A principal diferença, mostra a investigação, resume-se frequentemente ao teor da relação médico-paciente. Os que são processados, conforme se revela, exibem menos sinais de relacionamento emocional: têm consultas mais breves com os pacientes, não perguntam quais são as suas preocupações, nem se certificam de que as suas perguntas são respondidas e exibem maior distância emocional — há

pouco ou nenhum riso, por exemplo[142].

Mas a atenção à perturbação do paciente poderá apresentar um desafio particular ao excelente cuidado técnico que o médico quer fornecer — por exemplo, quando isso exige uma aguda concentração na realização de um procedimento clínico, apesar do sofrimento.

A mesma rede que é ativada ao vermos alguém a sofrer é também desencadeada quando vemos algo funesto: Aquilo é assustador — tenho de sair daqui, é o primeiro pensamento. Em geral, quando as pessoas veem alguém a ser picado com um alfinete, o seu cérebro emite um sinal que indica que os seus próprios centros da dor estão a ecoar esse sofrimento.

Os médicos não. Os seus cérebros estão singularmente bloqueados, mesmo a estas respostas automáticas à dor e ao sofrimento de alguém, de acordo com as descobertas de um estudo conduzido por Jean Decety, professor de psicologia e

psiquiatria na Universidade de Chicago[143]. Este anestésico da atenção parece envolver a junção temporal-parietal e as regiões do córtex pré-frontal, um circuito que aumenta a concentração ao desligar as emoções. A junção temporal-parietal protege o foco ao emparedar as emoções juntamente com outras distrações e ajuda a manter uma distância entre nós e os outros.

Esta mesma rede neuronal entra em ação em cada um de nós quando vemos um problema e procuramos uma solução. Assim, se estivermos a falar com alguém que esteja perturbado, este sistema ajuda-nos a compreender intelectualmente a perspetiva dessa pessoa, transformando o relacionamento emocional de coração para coração numa ligação de cabeça para coração, própria da empatia cognitiva.

A manobra da junção temporal-parietal isola o cérebro da experiência da onda de emoção — é a base cerebral do estereótipo de alguém com uma fria racionalidade no meio de um turbilhão emocional. Uma mudança para o modo de funcionamento da junção temporal-parietal cria uma fronteira de maneira que nos torne imunes ao contágio emocional, livrando o nosso cérebro de ser atingido pelas emoções de outra pessoa, enquanto nos focamos na procura de uma solução.

Por vezes, tal constitui uma vantagem crucial: podemos manter-nos calmos e focados enquanto os que estão à nossa volta ficam desorientados. Outras vezes, não: significa também que poderemos eliminar pistas emocionais e perder assim o fio da empatia.

Esta minimização da identificação emocional tem benefícios óbvios para alguém que tem de se manter focado durante procedimentos que nos fazem vacilar: injeções em globos oculares, suturas de ferimentos sangrentos, bisturis a abrirem a carne.

«Estava na equipa dos primeiros médicos a acorrerem ao terramoto no Haiti — chegámos lá logo nos primeiros dias», conta-me o Dr. Mark Hyman. «Quando chegámos ao único hospital de Porto Príncipe, que miraculosamente estava em grande parte intacto, não havia comida, nem água, nem eletricidade, quase nenhum material e apenas um ou dois profissionais de saúde. Havia centenas de cadáveres a apodrecer ao sol, empilhados na morgue hospitalar e a serem transportados em camiões para uma vala comum. Havia cerca de 1500 pessoas no pátio que precisavam desesperadamente de ajuda — pernas penduradas por um fio, corpos quase cortados ao meio. Foi traumático. Porém, deitámos de imediato mãos ao trabalho e focámo-nos no que podíamos fazer.»

Quando falei com o Dr. Hyman, ele acabara de regressar de várias semanas na Índia e no Butão, onde de novo oferecera ajuda médica a pacientes necessitados. «O gesto de servir dá-nos a capacidade de transcender a dor que há à vossa volta», explicou. «No Haiti, foi hiper-real, totalmente no momento. É estranho dizê-lo, mas havia um grau de equanimidade e calma — mesmo paz e clareza — no meio de todo aquele caos. Tudo o resto, a não ser o que estávamos a fazer, se desvanecia.»

A resposta da junção temporal-parietal parece ser mais adquirida do que inata. Os estudantes de medicina aprendem esta reação à medida que são socializados na profissão, à medida que vão encontrando pacientes em sofrimento. O preço de se ser demasiado empático é ter pensamentos perturbadores, intrusivos, que competem pela atenção com os imperativos clínicos.

«Se não se conseguir fazer nada numa situação como essa», disse o Dr. Hyman acerca do Haiti, «fica-se paralisado. Por vezes, o sofrimento e a dor à nossa volta penetram em momentos de fadiga, exaustão por causa do calor e da fome. Mas, durante a maior parte do tempo, a minha mente punha-me num estado em que eu conseguia funcionar, apesar do horror da situação.»

Tal como William Osler, o pai do treino do estágio clínico, escreveu em 1904, um médico deverá ser tão desprendido que «as suas veias não se constrangem e o seu ritmo cardíaco se mantém regular quando vê coisas

terríveis»[144]. Osler recomendou aos médicos o que chamou «cuidado desprendido».

Isso poderia significar embotar a empatia emocional — mas, na prática, poderá por vezes levar ao bloqueamento total da empatia. O desafio, para um médico na sua prática diária, é manter um foco calmo, ao mesmo tempo que se mantém aberto aos sentimentos e às experiências do paciente — e permitir que este perceba que ele compreende e se preocupa.

Os cuidados médicos falham quando os pacientes não seguem aquilo que o médico lhes diz; cerca de metade de todos os medicamentos que os médicos prescrevem aos pacientes nunca é tomada. O elemento que mais fortemente pode prever se um paciente seguirá essas instruções é sentir que o médico está

genuinamente preocupado consigo[145]. Recentemente, na mesma semana, dois reitores de importantes faculdades de medicina disseram-me que enfrentam um dilema na admissão de alunos: como localizar os que terão uma preocupação empática pelos seus pacientes?

O próprio Jean Decety, o neurobiólogo da Universidade de Chicago que conduziu o estudo da junção temporal-parietal e da dor dos pacientes, disse-me: «Eu quero que o meu médico olhe para mim se eu estiver com dores — que esteja ali, presente para mim, o paciente. Empático — mas não demasiado sensível para não tratar bem da minha dor.»

 

A construção da empatia

 

Num inquérito, cerca de metade dos jovens médicos viam a sua empatia pelos pacientes a declinar ao longo da sua aprendizagem (apenas cerca de um terço

dizia que aumentava)[146]. E essa arte perdida da ligação persiste durante a carreira de muitos deles. O que nos leva de novo à junção temporal-parietal, a rede de circuitos que amortece a reação fisiológica do médico à visão de alguém em sofrimento e que o ajuda a manter a calma e a clareza enquanto trata o problema.

O amortecer do desconforto ajudará possivelmente os médicos estagiários enquanto aprendem a realizar procedimentos dolorosos num paciente. Mas, depois de aprendido, esse amortecimento da empatia parece tornar-se automático, talvez ao preço de uma empatia mais geral.

Contudo, o cuidado compassivo encarna um valor crucial na medicina; aumentar a empatia está entre os objetivos de aprendizagem obrigatórios nas faculdades de medicina. Embora poucas escolas de medicina ensinem especificamente a arte da empatia, agora que a neurociência revela a sua rede de circuitos subjacente, talvez uma formação bem projetada pudesse fomentar esta arte humana.

E essa a esperança da Dra. Helen Riess, do Hospital Geral de Massachusetts, sede da Faculdade de Medicina de Harvard. A Dra. Riess, diretora do Programa da Ciência Empática e Relacionai que aí existe, projetou um programa educativo para fomentar a empatia nos estagiários e médicos internos, que melhorou significativamente a percepção que os pacientes têm da empatia dos seus

médicos[147].

No modelo convencional da escola de medicina, alguma formação era puramente acadêmica, percorrendo a neurociência da empatia numa linguagem

que os médicos conhecem e respeitam[148]. Uma série de vídeos mostrou as mudanças fisiológicas (reveladas pela reação sudorífera) nos médicos e nos seus doentes durante consultas difíceis — como quando um médico era arrogante ou depreciativo —, revelando como ficavam perturbados. E, conforme os vídeos tornavam bem claro, quando os médicos se harmonizavam com os seus pacientes de uma forma empática, tanto o médico como o paciente ficavam mais descontraídos e biologicamente sincronizados.

Para os ajudar a monitorizarem-se a si próprios, os médicos aprenderam a focar-se usando uma respiração profunda e diafragmática e a «observar a interação de forma distanciada», em vez de se perderem nos seus próprios pensamentos e sentimentos. «Suspender o envolvimento próprio a fim de observar o que se passa proporciona uma consciência atenta da interação, sem nos tornar completamente reativos», explica a Dra. Riess. «Consegue-se perceber se a nossa própria fisiologia está agitada ou equilibrada. Consegue-se perceber o que resulta da situação.»

Se o médico nota que está a sentir-se irritado, isso é sinal de que o paciente poderá estar também incomodado. «Ao sermos mais conscientes de nós próprios», salienta Riess, «conseguimos perceber o que está a ser projetado para nós e aquilo que estamos a projetar para os nossos pacientes.»

O treino para captar indícios não verbais inclui a leitura das emoções do paciente com base no seu tom de voz, postura e, em grande parte, da sua expressão facial. Usando o trabalho do especialista das emoções Paul Ekman, que identificou com precisão o modo como os músculos faciais se movem durante cada uma das principais emoções, o programa ensina os médicos a reconhecerem os sucessivos sentimentos de um paciente pela leitura do seu rosto.

«Se se agir de uma forma compassiva e cuidadosa — quando se olha deliberadamente o paciente nos olhos e se repara nas suas expressões emocionais, mesmo que a princípio não nos sintamos com vontade de o fazer — começamos a sentir-nos mais empenhados», contou-me a Dra. Riess. Esta «empatia comportamental» poderá começar como uma obrigação, mas acabará por tornar a interação mais próxima. Isso, acrescenta ela, poderá ajudar a compensar a exaustão emocional de um médico nas urgências às duas horas da madrugada, quando tem de ver ainda mais um paciente e pensa: Mas porque é que ele não pôde esperar e vir de manhã?

Uma lição direta sobre uma aptidão específica para se ser empático (ler emoções num rosto) mostrou ser dos componentes mais fortes de toda a formação. Quanto mais os médicos em formação aprendiam a ler subtis expressões emocionais, mais os seus pacientes reais relatavam sentir uma preocupação empática.

A descoberta não surpreendeu a Dra. Riess. «Quanto melhor conseguirem captar os subtis indícios da emoção», disse-me ela, «maior a sua compreensão empática.»

Sem dúvida que há formas de um médico empático conseguir lidar com o computador portátil e com os pacientes — por exemplo, se escrever no computador e mesmo assim erguer o olhar de vez em quando e mantiver contacto visual significativo. Ou poderá partilhar o ecrã com o paciente em momentos adequados: «Estou a ver as suas análises — olhe, aqui estão elas», analisando-as em conjunto.

Mesmo assim, muitos médicos têm medo de não conseguir cumprir os horários e que esses pormenores lhes roubem muito tempo. «Estamos a tentar destruir esse mito», diz a Dra. Riess. «Na verdade, a empatia acaba por, a longo prazo, poupar tempo.»