Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso

14 — Ameaças distantes

CAPÍTULO 14

 

Ameaças distantes

 

O yogi indiano Neem Karoli Baba disse-me um dia: «Podes planear para os próximos cem anos, mas não sabes o que vai acontecer no momento seguinte.»

Por outro lado, «O futuro já cá está», como escreveu o escritor ciberpunk, William Gibson. «Só não está distribuído de forma igual.»

O que podemos saber sobre o futuro reside algures entre as duas perspetivas: temos vislumbres e, contudo, há sempre a possibilidade de aparecer um cisne

negro[*NT] [169] que pode invalidar tudo".

Nos anos 80, no seu profético livro In the Age of the Smart Machine, Shoshona Zuboff percebeu que o advento dos computadores estava a aplanar a hierarquia das organizações. Onde outrora o conhecimento fora poder e, por isso, os mais poderosos acumulavam a informação, os novos sistemas tecnológicos abriam os portões da informação a toda a gente.

Quando Zuboff escreveu, esse futuro não estava de forma alguma distribuído de modo igual — a internete ainda não existia, quanto mais a nuvem, o YouTube ou o Anonymous. Mas hoje (e certamente amanhã) o fluxo de informação estende-se cada vez mais livremente, não apenas no interior de uma organização, mas no plano global. Um vendedor de fruta frustrado pega fogo a si próprio num mercado da Tunísia e desencadeia a Primavera Árabe.

Eis dois exemplos clássicos em que não sabemos o que acontecerá no momento seguinte: a previsão de Robert Malthus, em 1798, de que o crescimento populacional reduziria a existência humana a uma «perpétua luta por comida e abrigo», presa numa espiral descendente de escassez e fome; e o aviso de Paul Ehrlich, em 1968, acerca da «bomba populacional» que produziria ondas de fome em 1985.

Malthus não conseguiu prever a Revolução Industrial e as formas como a produção em massa iria permitir que mais gente vivesse mais tempo. Os cálculos de Ehrlich não previram o advento da «revolução verde», que acelerou a produção alimentar e ultrapassou a curva da população.

A Era Antropocénica, que começou com a Revolução Industrial, marca a primeira época geológica em que as atividades de uma só espécie — a espécie humana — degradam inexoravelmente a mão-cheia de sistemas globais que sustentam a vida na Terra.

A Era Antropocénica é um caso de sistemas em colisão. Os sistemas humanos para a construção, energia, transporte, indústria e comércio atacam diariamente o funcionamento dos sistemas naturais como os ciclos do nitrogênio e do carbono, a rica dinâmica dos ecossistemas, a disponibilidade de água

potável, etc.[170]. Além disso, nos últimos cinqüenta anos, esta destruição sofreu aquilo a que os cientistas chamam «a grande aceleração», com as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, entre outros indicadores de iminentes crises

sistêmicas, a aumentarem a um ritmo maior que nunca[171].

A pegada humana planetária, percebeu Ehrlich, resulta de três forças: o que consumimos, o nosso número e os métodos que empregamos para obter o que consumimos. Usando estas três medidas, a Royal Society do Reino Unido tentou calcular a capacidade da Terra para albergar a humanidade — o número máximo de pessoas que a Terra poderá suportar sem uma quebra nos sistemas que sustentam a vida. Conclusão: depende.

A maior incógnita nas previsões foram as melhorias nas tecnologias. A China, por exemplo, expandiu de modo preocupante a sua capacidade para gerar eletricidade do carvão — e, mais recentemente, aumentou a sua utilização de energia solar e eólica até se tornar a maior do mundo. Resultado líquido: o rácio de C02 emitido relativo ao rendimento econômico na China decaiu cerca de 70 por cento durante os últimos trinta anos (embora estes números escondam o constante crescimento acentuado nas centrais elétricas a carvão na «fábrica do

mundo»)[172]. Em resumo, as revoluções tecnológicas poderão salvar-nos de nós próprios, permitindo-nos usar os recui~sos de formas que protejam os sistemas vitais de sustentação da vida do planeta — se conseguirmos encontrar métodos que não se limitem a criar novos problemas ou a ocultar os antigos.

Ou, pelo menos, é essa a esperança. Mas não há nenhuma potência econômica relevante que favoreça a longo prazo tais revoluções tecnológicas. Os lucros obtidos a curto prazo devem-se em grande parte a que as empresas conseguem poupar dinheiro, e não por causa de preocupações com a sustentabilidade.

Por exemplo, durante a crise econômica que começou em 2008, os níveis de C09 começaram a cair nos Estados Unidos não devido a medidas governamentais, mas por causa das forças de mercado — menos procura e gás natural mais barato para as centrais elétricas substituíram o carvão (embora a poluição local e os problemas de saúde causados pela fraturação hidráulica desse gás crie outras dores de cabeça).

Como vimos, um ponto cego no cérebro humano poderá contribuir para este problema. A estrutura percetiva do nosso cérebro está sintonizada para um nível de atenção que tem sido adequado para a sobrevivência humana. Enquanto estamos equipados com um foco agudíssimo para sorrisos e caretas, rosnados e bebés, como já vimos, não temos qualquer radar neuronal para as ameaças dos sistemas globais que sustentam a vida humana. São demasiado grandes ou demasiado pequenos para que os notemos diretamente. Portanto, quando somos confrontados com notícias acerca destas ameaças globais, os nossos circuitos da atenção tendem a encolher os ombros.

Pior, as nossas principais tecnologias foram inventadas muito antes de termos qualquer ideia de que seriam uma ameaça para o planeta. Metade das emissões industriais de C02 é devida à forma como produzimos o aço, o cimento, o plástico, o papel e a energia. Embora possamos reduzir substancialmente essas emissões melhorando esses métodos, seria muito melhor reinventá-los de modo que não tivessem qualquer impacte negativo ou mesmo de modo que pudessem repor o estado anterior do planeta.

O que poderia tornar vantajosa essa reinvenção? Um fator que passou despercebido a Ehrlich e a outros que tentaram diagnosticar este dilema: a transparência ecológica.

Saber onde nos havemos de focar num sistema faz toda a diferença. Pensemos no maior problema que a espécie humana enfrenta: o nosso suicídio em massa em câmara lenta, à medida que os sistemas humanos degradam os sistemas globais que sustentam a vida no planeta. Podemos começar por abordar esta degradação aplicando a análise do ciclo de vida (ACV) aos produtos e processos que a causam.

No decurso do seu ciclo de vida, um simples jarro de água, por exemplo, tem uma cadeia de fornecimento com cerca de 2000 ligações; em cada ligação, a ACV pode calcular inúmeros impactes, desde emissões para a atmosfera, para a água e para o solo, até aos impactes na saúde humana, ou degradação de um ecossistema. A adição de soda cáustica à massa do vidro — uma dessas ligações — constitui 6 por cento do perigo que o jarro representa para os ecossistemas e 3 por cento do perigo para a saúde; 20 por cento da contribuição do jarro para o aquecimento do planeta vem das centrais elétricas que alimentam a fábrica de vidro. Os 659 ingredientes usados na fabricação do vidro têm, cada um deles, o seu próprio perfil do ponto de vista da ACV. E assim por diante, ad infinitum.

Mas as análises do ciclo de vida api^esentam um verdadeiro tsunâmi de informação, esmagador mesmo para os mais fervorosos ecologistas do mundo empresarial. Um sistema de informação concebido para albergar toda essa informação do ciclo de vida expeliria uma desorientadora nuvem de milhões ou milhares de milhões de dados. Contudo, pesquisar esses dados poderá indicar, por exemplo, exatamente onde, em toda a vida desse objeto, podem algumas

alterações vir a reduzir mais prontamente a sua pegada ecológica[173].

A necessidade de nos focarmos numa ordem menos complicada (quer seja a organizar o nosso guarda-roupa, numa estratégia negociai, ou nos dados da ACV) reflete uma verdade fundamental: vivemos no interior de sistemas extremamente complexos, mas adotamo-los sem a capacidade cognitiva para os compreendermos ou dominarmos por completo. O nosso cérebro resolveu este problema encontrando meios para lidar com aquilo que é complicado por meio de regras de decisão simples. Por exemplo, orientarmos as nossas vidas no interior de um intrincado mundo social de todas as pessoas que conhecemos

torna-se mais simples se usarmos a confiança como regra empírica[174].

Para simplificar esse tsunâmi de informação proveniente da ACV, um promissor software fixa-se nos quatro maiores impactes nos quatro níveis

inferiores numa cadeia de fornecimento de um produto[175]. Isto representa cerca de 20 por cento das causas responsáveis por cerca de 80 por cento dos efeitos — o rácio conhecido como «princípio de Pareto», em que uma pequena quantidade de variáveis provoca o maior número de efeitos. Consegue assim perceber-se se um dilúvio de dados oferece alguma conclusão aproveitável ou se estamos perante uma sobrecarga de informação. Essa compreensão («Já percebi!» ou «Isto é informação a mais») emana de uma fina faixa na área pré-frontal do cérebro, os circuitos dorsolaterais. O árbitro deste ponto indicador cognitivo reside nos mesmos neurônios que mantêm os turbulentos impulsos da amígdala contidos. Quando atingimos uma sobrecarga cognitiva, a zona dorsolateral desiste e as nossas decisões e escolhas tornam-se cada vez piores, à medida que

a ansiedade sobe[176]. Chegámos ao ponto em que ter mais informação conduz a piores escolhas.

E muito melhor concentrarmo-nos no pequeno número de padrões significativos no interior de uma torrente de dados e ignorar o resto. O nosso neocórtex contém um dispositivo que de- teta padrões, concebido para simplificar a complexidade em regras decisórias manejáveis. Uma das capacidades cognitivas que continua a aumentar à medida que os anos avançam é a «inteligência cristalizada»: reconhecer aquilo que importa, o sinal por entre o ruído. Alguns chamam-lhe sabedoria.

 

Qual é a nossa dedada ecológica?

 

Eu estou tão prisioneiro destes sistemas como outra pessoa qualquer. Porém, acho difícil escrever sobre isto sem me tornar incomodo; a nossa ação sobre o planeta é propensa a instigar sentimentos de culpa e é deprimente. E é aí que quero chegar. Focarmo-nos no que há de errado naquilo que fazemos ativa redes de circuitos de emoções perturbadoras. As emoções, lembrem-se, guiam a nossa atenção. E a atenção foge do que é desagradável.

Eu costumava pensar que a total transparência sobre o impacte negativo daquilo que fazemos e compramos — estar a par da nossa pegada ecológica — criaria só por si uma força de mercado que nos encorajaria a todos a optar por

melhores alternativas[177]. Parecia ser uma boa ideia — mas negligenciei um facto psicológico: o foco no que é negativo leva ao desencorajamento e à falta de empenho. Quando os nossos centros neuronais da apreensão prevalecem, o nosso foco vira-se para a própria apreensão e para a forma de a aliviar. Sentimos vontade de nos desligarmos.

Portanto, em vez disso, precisamos de um ponto de vista positivo. Vá o leitor a Handprinter.org, um sítio eletrônico que encoraja toda a gente a tomar a dianteira no que diz respeito a melhorar o ambiente. A Handprinter baseia-se nos dados da ACV para nos guiar na avaliação dos nossos hábitos (como cozinhar, viajar, aquecer e arrefecer), obtendo um padrão para a nossa pegada de carbono. Mas isso é apenas o início.

Em seguida, a Handprinter pega em todas as coisas boas que fazemos — utilizar energias renováveis, ir de bicicleta para o trabalho, baixar o termostato — e dá-nos uma medição precisa do bem que fazemos ao reduzir a nossa pegada. A soma de todos os nosso bons hábitos dá o valor da nossa dedada. A ideia principal é continuar a efetuar melhoramentos, para que a dedada fique maior do que a pegada. Nesse momento, o nosso desempenho será positivo para o planeta.

Depois, se se arranjar mais pessoas que adotem as modificações de comportamento, a dedada cresce de acordo com isso. A Handpnnter foi feita à medida das redes sociais, sendo já uma aplicação no Facebook. Famílias, lojas, equipas desportivas e clubes, mesmo cidades e empresas, podem aumentar em conjunto as suas dedadas.

E as escolas também. Essa é uma possibilidade na qual Gregory Norris, que desenvolveu a Handprinter, vê grande potencial. Norris é um ecologista industrial que estudou com John Sterman no MIT, onde mais tarde lecionou a ACV Agora trabalha com uma escola primária em York, no Maine, ajudando-a a aumentar a sua dedada.

Norris conseguiu que o diretor da sustentabilidade na Owens-Corning, a gigantesca empresa de produtos de vidro, doasse 300 coberturas de fibra de vidro para as caldeiras da escola. No Maine, essas coberturas podem reduzir significativamente as emissões de carbono — e reduzir cerca de 70 dólares as

contas da eletricidade das famílias[178]. As casas que instalarem as coberturas repartirão parte das suas poupanças em combustível com a escola, que poderá fazer algumas melhorias e ficar ainda com muito dinheiro disponível para

comprar coberturas para dar a mais duas escolas[179].

Essas duas escolas repetirão o processo, cada uma dando coberturas a outras duas escolas, e assim sucessivamente. Prevê-se um efeito de onda por toda a região e, potencialmente, muito para lá dela.

Na primeira ronda, todas as escolas participantes receberão um crédito na dedada com uma redução de cerca de 130 toneladas de emissões de C09 por ano (durante a vida expectável da cobertura, que é de pelo menos dez anos). Mas a Handprinter atribui-lhes também créditos sucessivos por cada uma das outras escolas na cadeia; ao fim de apenas seis rondas, estamos a falar de 128 escolas, uma redução de carbono de cerca de 16 000 toneladas de C09. Assumindo novas rondas de três em três meses, tal representará 60 000 toneladas no início do terceiro ano, e um milhão no quarto ano.

«O cálculo da ACV para a cobertura de uma caldeira de uma casa começa negativo, quando se avalia a cadeia de fornecimento e o ciclo de vida da cobertura», explica Norris. «Mas, depois de começar a ser utilizada, em determinado ponto torna-se progressivamente positivo em relação aos gases de efeito de estufa», à medida que uma casa vai buscar menos energia às centrais

que queimam carvão, ou utiliza menos gasóleo[180].

Este método da dedada relega os aspetos negativos (a pegada ecológica) para segundo plano e realça os aspetos positivos. Ouando somos motivados por emoções positivas, aquilo que fazemos torna-se mais significativo e o impulso para agir dura mais tempo. Tudo fica mais tempo debaixo de atenção. Pelo contrário, o medo do impacte do aquecimento global poderá atrair rapidamente a nossa atenção, mas depois de fazermos alguma coisa e nos sentirmos um pouco melhor, achamos que já estamos despachados.

«Há vinte anos, poucas pessoas davam atenção ao que as suas atividades representavam quanto às emissões de carbono», observa Elke Weber, de Columbia. «Não havia forma de o medir. Agora, a pegada de carbono fornece-nos uma escala para aquilo que fazemos, tornando estas decisões mais fáceis: podemos perceber em que ponto nos encontramos. Damos mais atenção e é mais fácil estabelecer objetivos em relação àquilo que podemos medir.»

«Mas uma pegada é uma medição negativa e as emoções negativas são fracos motivadores. Por exemplo, é possível chamar a atenção das mulheres para a necessidade de fazerem exames ao peito assustando-as com o que poderá acontecer-lhes se não o fizerem. Esta tática capta a atenção a curto prazo, mas como o medo é um sentimento negativo, as pessoas limitar-se-ão à ação apenas suficiente para melhorar o seu estado de espírito — e em seguida esquecem tudo.

«Para a mudança a longo prazo, é necessária uma ação sustentada», acrescentou Weber. «Uma mensagem positiva diz o seguinte: “Estas são as melhores ações a tomar e, com esta escala, poderão ver o bem que estão a fazer — continuando assim, sentir-se-ão melhor acerca do que estão a fazer.” E isso que o método da dedada tem de interessante.»

 

Literacia sistêmica

 

Raid on Bungeling Bay, um antigo videojogo, punha o jogador aos comandos de um helicóptero que atacava um inimigo militar. Podia-se bombardear fábricas, estradas, docas, tanques, aviões e navios.

Ou, se se percebesse que o jogo reproduzia a rede de abastecimento do inimigo, podia ganhar-se mediante uma estratégia mais inteligente: bombardear primeiro os navios de abastecimento.

«Mas a maioria das pessoas limitava-se a andar por ali a voar e a fazer ir tudo pelos ares o mais depressa possível», diz o criador do jogo, Will Wright, mais conhecido por ser o cérebro por trás do SimCity e dos seus sucessivos

universos de simulações com múltiplos jogadores[181].

. Uma das primeiras inspirações de Wright na conceção destes mundos virtuais foi o trabalho de Jay Forrester, do MIT (mentor de John Sterman e um dos fundadores da moderna teoria de sistemas), que, nos anos 50, esteve entre os primeiros a tentar simular um sistema vivo num computador.

Embora existam preocupações compreensíveis acerca do impacte social nas crianças por causa dos jogos, um dos benefícios pouco reconhecidos é a aquisição do jeito para aprender as regras básicas de uma realidade desconhecida. Os jogos ensinam as crianças a testar sistemas complexos. A vitória exige a aquisição de um sentido intuitivo dos algoritmos contidos no jogo

e a descoberta de como agir de acordo com eles, como salienta Wright[182].

«Procedimentos de tentativa e erro, de abordagem reversa — todas essas formas de as crianças interagirem com os jogos isso é que deveria ser o tipo de pensamento que as escolas deveriam ensinar. A medida que o mundo se torna mais complexo», acrescenta Wright, «os jogos preparam-nas melhor.»

«Os miúdos são pensadores sistêmicos espontâneos», considera Peter Senge, que trouxe o pensamento sistêmico para a aprendizagem organizacional e tem mais recentemente ensinado esta perspetiva nas escolas. «Pomos três miúdos de seis anos a pensar na razão pela qual lutam tantas vezes no recreio e eles percebem que há ali um ciclo vicioso, em que insultarem-se uns aos outros causa ressentimentos, o que leva a mais insultos, com mais ressentimentos — culminando tudo numa briga.»

Porque não haveremos de integrar esta forma de compreensão na educação geral que a nossa cultura transmite aos nossos filhos, como a aprendizagem de Mau quanto à navegação noturna? Chamemos-lhe literacia sistêmica.

Gregory Norris integra o Centro para a Saúde e para o Meio Ambiente Global, na Escola de Saúde Pública de Harvard, onde ensinou durante muito tempo uma cadeira de ACV. Ele e eu fizemos algumas sessões de brainstorming acerca do que poderia ser um currículo para miúdos em sistemas e ACV.

Pensemos no material particulado que as centrais de produção de energia emitirão menos se as casas tiverem instalada uma cobertura para as caldeiras. Existem duas espécies principais de material particulado, ambas prejudiciais para os pulmões: pequenas partículas que entram nos recessos mais profundos dos pulmões e outras que começam por ser gases como o óxido nitroso ou o dióxido de enxofre e que se transformam em partículas que causam os mesmos danos.

Estas partículas são um enorme problema de saúde pública, em particular em áreas urbanas como Los Angeles, Pequim, Cidade do México e Nova Deli, onde são freqüentes dias com elevados níveis de poluição. A Organização Mundial de Saúde calcula que a poluição do ar dentro de portas nos países de baixos rendimentos (por exemplo, por cozinharem em fogareiros) causa dois milhões de mortes em todo o mundo todos os anos, metade das quais devidas a pneumonia em crianças com menos de 5 anos; a poluição do ar no exterior causa cerca de

1,3 milhões de mortes em todo o mundo todos os anos[183].

 

Fornecidos estes dados, uma aula de saúde ou de matemática poderá calcular, para um dia poluído numa cidade, a resultante «esperança de vida corrigida pela incapacidade» (EVCI; a unidade eqüivale à perda de um ano de boa saúde) — calculando os dias de vida saudável perdidos por causa do impacte das emissões de material particulado. O cálculo pode fazer-se mesmo para quantidades mínimas de exposição e traduzido para o seu papel no aumento das taxas de doença.

Diferentes áreas analisariam estes sistemas à sua própria maneira. A biologia exploraria, por exemplo, os mecanismos envolvidos quando o material particulado nos pulmões conduz a asma, doenças cardiovasculares ou enfisemas. Uma turma de química centrar-se-ia na conversão dos gases como o oxido nitroso e o dióxido de enxofre nessas partículas. A política social, a formação cívica ou os estudos ambientais poderiam discutir como os sistemas atuais de energia, transporte e construção apresentam habitualmente esse tipo de ameaças à saúde pública e como estes sistemas poderiam ser alterados para diminuir tais riscos de saúde.

Incutir esta aprendizagem nos currículos das escolas lançaria as bases conceptuais para o pensamento sistêmico que poderá ser elaborado mais explicitamente à medida que as crianças, nos anos seguintes, procedessem a

análises mais pormenorizadas[184].

 

«E preciso uma atenção panorâmica para apreciar as interações no plano sistêmico», explica Richard Davidson. «Precisamos de ser flexíveis quanto à atenção, de modo que possamos contrair e distender o nosso foco, como num zoom, para vermos elementos grandes e pequenos.» Porque não ensinar às crianças estas capacidades básicas na leitura de sistemas?

A educação melhora os modelos mentais. Ajudar os estudantes a dominar os mapas cognitivos relativos, por exemplo, à ecologia industrial como parte da sua educação geral significa que, quando forem adultos, estes conhecimentos se tornarão parte das suas regras de decisão.

Enquanto consumidores, isto teria conseqüências na forma de pensar sobre as marcas a comprar e a evitar comprar; enquanto decisores no trabalho, estaria presente em tudo, desde onde investir até aos processos de fabrico e fontes de matérias- —primas, bem como estratégia comercial e o evitar de riscos. Muito especialmente, esta forma de pensar deveria levar alguns indivíduos de entre as gerações mais novas a lançarem-se com afinco à investigação e ao desenvolvimento, em particular segundo o ponto de vista da biomimética — fazer as coisas da forma que a natureza as faz.

Quase todas as atuais plataformas industriais, químicas e processos de fabrico foram desenvolvidos numa era anterior, em que ninguém conhecia ou se interessava pelo impacte ambiental. Agora, munidos do ponto de vista da ACV com pensamento sistêmico, precisamos de os reinventar a todos — uma enorme oportunidade de empreendedorismo para o futuro.

Numa reunião à porta fechada com várias dezenas de diretores de sustentabilidade, ouvi-os desfiar listas de melhorias que as suas empresas tinham feito, desde fábricas a funcionar com energia solar, poupando energia, à procura de matérias-primas obtidas de forma sustentável. Mas tive também de os ouvir lamentar-se que «mas os nossos clientes não se ralam».

Esta iniciativa educativa deverá ajudar a resolver o problema a longo prazo. Os jovens habitam um mundo de redes sociais, em que as forças emergentes das hiperconexões digitais podem varrer mercados e mentes. Se um método como o da dedada ecológica se espalhar, poderá criar a força econômica por enquanto ainda inexistente que forçará as empresas a alterar o modo de fazer negócios.

Quanto mais cabeças bem informadas houver, melhor. Quando se confronta um sistema imenso, a atenção tem de estar distribuída de forma alargada. Um par de olhos só consegue ver até certa distância; uma multidão capta muito mais. Uma entidade mais robusta absorve a informação mais relevante, compreende-a mais profundamente e responde com mais agilidade. Todos nós, coletivamente, podemos ser essa entidade.

Acrescente-se a literacia sistêmica à longa e crescente lista daquilo que as pessoas por todo o mundo estão já a fazer para evitar a dissolução planetária. Quanto mais, melhor: poderá não haver um único centro para a mudança, mas sim vários, dispersos. É esse o argumento defendido por Paul Hawken, no seu livro Blessed Unrest. Quando a cimeira de Copenhaga sobre o clima, em

2009, não conseguiu chegar a qualquer acordo (como todas as outras), Hawken disse que era «irrelevante, pois não penso que seja daí que venha a mudança».

Eis a perspetiva de Hawken: «Imaginem 50 000 pessoas em Copenhaga a trocar impressões e notas e contactos e ideias e isso tudo, e depois a espalhá-los por 192 países. A energia e o clima são um sistema; este é um problema sistêmico. O que significa que tudo o que estamos a fazer faz parte da cura do sistema e que não existe um ponto de Arquimedes no sistema em que estejamos

a falhar ou, se nos esforçarmos mais, seremos bem- —sucedidos.»[185].