Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso
3 — A atenção de cima e de baixo
CAPÍTULO 3
A atenção de cima e de baixo
Voltei a minha atenção para o estudo de algumas questões aritméticas, aparentemente sem grande sucesso», escreveu o matemático francês do século XIX Henri Poincaré. «Aborrecido com o meu fracasso, fui passar alguns dias
junto ao mar.»[31]
Aí, enquanto caminhava uma manhã no alto de uma falésia junto ao mar, surgiu-lhe subitamente a compreensão de que «as transformações aritméticas das formas quadráticas ternárias indeterminadas eram idênticas às da geometria não euclidiana».
Os aspectos específicos dessa comprovação não importam aqui (felizmente, já que eu próprio não consegui ainda compreender essa matemática). O que é intrigante acerca deste momento é como surgiu ele a Poincaré: com «brevidade, repentinamente e certeza imediata». Ele foi apanhado de surpresa.
A história da criatividade está cheia de relatos destes. Carl Gauss, um matemático do século XVIII, trabalhou na prova de um teorema durante quatro anos, sem solução. Então, um dia, a resposta surgiu-lhe «como um súbito relâmpago de luz». Contudo, não conseguia definir a linha de pensamento que ligava os seus árduos anos de trabalho a esse lampejo de compreensão.
Qual é o enigma? O nosso cérebro tem dois sistemas mentais semi-independentes, em grande parte separados. Um deles tem um maciço poder computacional e opera constantemente, ronronando em sossego para resolver os nossos problemas, surpreendendo-nos com uma súbita solução para uma complexa ponderação. Uma vez que opera para lá do horizonte da consciência desperta, estamos cegos em relação ao seu funcionamento. Este sistema apresenta o fruto das suas vastas tarefas como se surgisse vindo do nada e numa grande profusão de formas, desde a construção da sintaxe de uma frase até à construção de complexas provas matemáticas completamente acabadas.
Esta atenção vinda dos bastidores da mente surge em geral no centro do foco quando acontece o inesperado. Você está a falar ao telemóvel enquanto conduz (a parte da condução é feita pelas traseiras da mente) e subitamente uma buzinadela fá-lo perceber que o semáforo mudou para verde.
Muitas destas conexões neuronais residem na parte inferior do nosso cérebro, no sistema de circuitos subcortical, embora os seus esforços atinjam a consciência mediante a notificação do nosso neocórtex, as camadas mais exteriores do cérebro, vindos de baixo. Por via da sua reflexão, Poincaré e Gauss recolheram as descobertas vindas das camadas inferiores do cérebro.
«De baixo para cima» tornou-se a expressão usual em ciência cognitiva para designar esse funcionamento da maquinaria neuronal da área inferior do
cérebro[32]. Da mesma forma, «de cima para baixo» refere-se à atividade mental, sobretudo no interior do neocórtex, que consegue monitorizar e impor os seus objetivos à maquinaria subcortical. É como se houvesse duas mentes a trabalhar.
A mente de baixo para cima é:
mais rápida em tempo cerebral, que opera em milissegundos; involuntária e automática: está sempre ligada;
intuitiva, operando por redes de associação;
impulsiva, desencadeada pelas emoções;
executora das nossas rotinas habituais e orientadora das nossas ações; gestora dos nossos modelos mentais do mundo.
Em contrapartida, a mente de cima para baixo é:
mais lenta;
voluntária;
movida pelo esforço;
a sede do domínio de si, que pode (por vezes) sobrepor-se às rotinas automáticas e emudecer os impulsos emocionalmente desencadeados; capaz de aprender novos modelos, de fazer novos planos e de comandar o nosso reportório automático — até certo ponto.
A atenção voluntária, a força de vontade e a escolha intencional são de cima para baixo; a atenção reflexa, o impulso e o hábito rotineiro são de baixo para cima (bem como a atenção capturada por uma peça de roupa ou um anúncio atraente). Quando escolhemos harmonizar-nos com um belo pôr do Sol, concentrarmo-nos no que estamos a ler ou com a conversa que temos com alguém, estamos num modo de funcionamento de cima para baixo. A nossa imaginação executa uma dança contínua entre a atenção fomentada pelos estímulos exteriores e o foco voluntariamente dirigido.
O sistema de baixo para cima desempenha múltiplas tarefas, examinando em paralelo uma profusão de dados recebidos, incluindo características do nosso meio ambiente que ainda não foram completamente focadas; analisa aquilo que há no nosso campo perceptivo, antes de nos permitir saber aquilo que selecionou como relevante para nós. A nossa mente de cima para baixo leva mais tempo a deliberar sobre o que lhe é apresentado, pegando numa coisa de cada vez e aplicando uma análise mais ponderada.
Por via daquilo que eqüivale a uma ilusão ótica mental, pensamos que o que está na nossa consciência eqüivale à totalidade das operações mentais. Mas, de facto, a grande maioria das operações mentais ocorre nos bastidores da mente, por entre o ronronar dos sistemas de baixo para cima.
Muito daquilo (alguns diriam a totalidade) em que a mente de cima para baixo acredita ter escolhido focar-se, pensar e fazer são na realidade planos ditados de baixo para cima. Se isto fosse um filme, observa ironicamente o psicólogo Daniel Kahneman, a mente de cima para baixo seria «um ator
secundário que acredita ser o herói»[33].
Datando de há milhões de anos de evolução, a rede de circuitos de baixo para cima, reflexa e de ação rápida, favorece o pensamento a curto prazo, o impulso e as decisões rápidas. Os circuitos de cima para baixo, na frente e no alto do cérebro, são uma adição posterior, datando a sua completa maturação de há umas meras centenas de milhares de anos.
A rede de cima para baixo acrescenta ao nosso reportório mental talentos como a consciência de si mesmo, a reflexão, a deliberação e o planeamento. O foco intencional, de cima para baixo, oferece à mente uma alavanca para gerir o nosso cérebro. Quando voltamos a nossa atenção de uma tarefa, plano, sensação, etc., para outra, a rede de circuitos associada acende-se. Se evocarmos uma recordação feliz de estarmos a dançar, os neurônios da alegria e do movimento ativam-se de imediato. Se recordarmos o funeral de alguém que nos era próximo, é a rede de circuitos da tristeza que se ativa. Se ensaiarmos mentalmente uma pancada de golfe, os axónios e as dendrites que orquestram esses movimentos ligam-se entre si com um pouco mais de energia.
O cérebro humano é uma das realizações bastante boas da evolução, mas não
é perfeito[34]. Os sistemas cerebrais de baixo para cima, mais antigos, funcionaram claramente bem durante a maior parte da pré-história humana — mas esse modelo traz, hoje em dia, alguns problemas. Em grande parte da nossa vida, o sistema mais antigo mantém a influência, em geral para nosso benefício, mas por vezes não é assim: gastos excessivos, dependências e condutores a acelerar temerariamente são tudo sinais do mau funcionamento deste sistema.
As exigências da sobrevivência na evolução mais antiga equiparam os nossos cérebros com programas pré-definidos de baixo para cima, para a procriação e a criação dos filhos, para o que é agradável e desagradável, para fugir das ameaças ou ir atrás de alimento e coisas desse gênero. Se avançarmos rapidamente para o mundo muito diferente de hoje em dia, verificamos que precisamos com frequência de navegar a vida de cima para baixo, apesar da constante contracorrente de caprichos e ânsias de baixo para cima.
Um fator surpreendente desequilibra constantemente a balança a favor do sistema de baixo para cima: o cérebro economiza energia. Os esforços cognitivos como aprender a usar a mais recente atualização tecnológica exigem atenção ativa, com custos energéticos. Mas, quanto mais repetimos uma rotina outrora nova, mais ela se metamorfoseia num hábito rotineiro e é conquistada pela rede de circuitos de baixo para cima, em particular pelas redes neuronais dos gânglios basais, uma massa do tamanho de uma bola de golfe aninhada na parte inferior do cérebro, mesmo acima da medula espinal. Quanto mais praticamos uma rotina, mais os gânglios basais ocupam o lugar de outras partes do cérebro.
Os sistemas de baixo para cima distribuem as tarefas mentais entre si, para obtermos esforços mínimos com resultados ótimos. A medida que a familiaridade torna uma rotina mais fácil, esta passa de cima para baixo. Conforme experimentamos esta transferência neuronal, cada vez menos atenção precisamos de prestar — e, por fim, nenhuma — até tudo se tornar automático.
O cúmulo da automaticidade pode ser observado no estado de fluxo, em que a mestria desemboca numa atenção sem esforço a uma elevada exigência, quer seja uma partida de xadrez entre mestres, uma corrida NASCAR ou pintar um quadro. Se não tivermos praticado o suficiente, tudo isso exigirá um foco deliberado. Mas, se tivermos dominado as aptidões exigidas a um nível que satisfaça a exigência, essas aptidões não exigirão um esforço cognitivo suplementar — libertando a nossa atenção para os aspetos complementares, apenas observados por aqueles que se encontram nos níveis superiores.
Tal como os campeões de classe mundial podem testemunhar, aos níveis mais elevados, em que os adversários treinaram tantos milhares de horas como nós, qualquer competição se transforma num jogo mental: o estado mental determina a que ,ponto nos conseguimos focar e, assim, a que ponto conseguimos sair-nos bem. Quanto mais conseguirmos descontrair e confiar nos movimentos de baixo para cima, mais libertamos a mente para que esta se torne arguta.
Consideremos, por exemplo, os quarterbacks do futebol americano que possuem aquilo a que os comentadores desportivos chamam «grande capacidade para ver o campo»: conseguem ler as formações defensivas do adversário para perceber as suas intenções de movimento e, assim que o jogo começa, ajustam-se instantaneamente a esses movimentos, ganhando um ou dois preciosos segundos para isolar um recetor desmarcado para o passe. Esta «visão» requer enorme treino, de modo que aquilo que inicialmente exigia grande atenção — ver quem se desmarca — acontece em piloto automático.
Do ponto de vista da computação mental, localizar um recetor enquanto se está sob a pressão de vários corpos de cento e tal quilos apontados para nós, vindos de vários ângulos, não é coisa de somenos: o quarterback tem de considerar as linhas de passe de vários receptores potenciais ao mesmo tempo, enquanto processa e reage às movimentações de todos os onze jogadores adversários — um desafio mais bem gerido pelos bem treinados circuitos de baixo para cima (seria bem mais difícil caso tivesse de examinar conscientemente cada movimentação).
Receita para o fracasso
Lolo Jones estava a ganhar a corrida feminina de 100 metros barreiras, a caminho de uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008. Ia à frente e estava a passar as barreiras a um ritmo sem esforço — até que algo de errado aconteceu.
A princípio, foi muito subtil: teve a sensação de que as barreiras estavam a vir na sua direção muito rapidamente. Com isso, Jones pensou: «Certifica-te de que não descuras a técnica... certifica-te de que as pernas estão a esticar.»
Com esses pensamentos, esforçou-se em demasia, contraindo-se um pouco demais — e derrubou a nona das dez barreiras. Jones terminou em sétimo lugar,
não em primeiro, e desfez-se em lágrimas na pista[35].
Olhando para trás quando estava a tentar de novo nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012 (onde acabou por ficar em quarto lugar na corrida dos 100 metros), Jones conseguia recordar com grande clareza o anterior momento de derrota. E, se se perguntasse a um neurocientista, ele poderia diagnosticar o erro: quando começou a pensar acerca dos pormenores da técnica, em vez de se limitar a deixar essa tarefa para os circuitos motores que tinham praticado tais movimentos até à mestria, Jones deixara de confiar no seu sistema de baixo para cima a favor da interferência desde cima.
Os estudos sobre o cérebro verificam que um atleta campeão começar a ponderar sobre a sua técnica durante um desempenho é receita certa para o fracasso. Quando jogadores de futebol faziam uma bola contornar cones de trânsito — e tinham de reparar com que lado do pé dominavam a bola —
cometiam mais erros[32]. O mesmo acontecia quando os jogadores de beisebol tentavam determinar se o taco se movia para baixo ou para cima a fim de atingir a bola.
O córtex motor, que num atleta experimentado tem estes movimentos profundamente gravados nos seus circuitos por via de milhares de horas de treino, opera melhor quando é deixado por sua conta. Quando o córtex pré-frontal é ativado e começamos a pensar no que iremos fazer — ou pior, como vamos fazer o que estamos a fazer — o cérebro entrega algum do domínio a circuitos que sabem como pensar e preocupar-se, mas não como desencadear o próprio movimento. Quer seja nos cem metros, no futebol, ou no beisebol, é uma receita universal para tropeçar.
E por isso que, como me disse Rick Aberman, que dirige o desempenho de excelência da equipa de beisebol Minnesota Twins, «quando o treinador revê as jogadas de um jogo e apenas se foca naquilo que não se deve fazer da próxima vez, é uma receita certa para que os jogadores se engasguem».
E não apenas no desporto. Fazer amor é outra das atividades em que ser demasiado analítico só atrapalha. Um artigo de uma revista sobre «Os irônicos efeitos de tentarmos descontrair-nos quando estamos tensos» sugere uma outra:
o esforço intencional para nos descontrairmos[37].
Relaxar e fazer amor correm melhor quando nos limitamos a deixar que as coisas aconteçam — sem tentar forçar. O sistema nervoso parassimpático, que é ligado durante estas atividades, age geralmente de forma independente do sistema executivo do nosso cérebro, que pensa sobre isso.
Edgar Allan Poe chamou à infeliz tendência mental para ir buscar um assunto sensível que resolvemos não mencionar «o demônio da perversidade». Um artigo apropriadamente intitulado «Como pensar, dizer, ou fazer precisamente a pior coisa em determinada situação», de Daniel Wegner, psicólogo de Harvard, explica o mecanismo cognitivo que anima esse tal
demônio[38].
As gafes, descobriu Wegner, aumentam proporcionalmente em função da nossa distração, da nossa tensão, ou de qualquer outra sobrecarga mental. Nessas circunstâncias, um sistema de domínio cognitivo que geralmente monitoriza os erros que poderemos cometer (como não abordar aquele assunto) poderá inadvertidamente agir como um catalisador mental, aumentando a probabilidade de esse mesmo erro ocorrer (como abordar aquele assunto),
Quando Wegner pôs voluntários para uma experiência a tentar não pensar numa palavra em particular, assim que estes eram pressionados para responder rapidamente a uma tarefa de associação de palavras, recorriam com frequência a essa palavra proibida.
Sobrecarregar a atenção diminui o domínio mental. E no momento em que estamos mais tensos que esquecemos os nomes das pessoas que conhecemos bem, já para não falar nas datas dos seus aniversários, dos nossos aniversários de
casamento e de outros dados socialmente cruciais[39]
Outro exemplo: a obesidade. Os investigadores descobriram que a prevalência da obesidade nos Estados Unidos durante os últimos trinta anos acompanha a explosão de computadores e aparelhos tecnológicos presentes na vida das pessoas — e suspeitam de que esta correlação não seja acidental. Uma vida imersa nas distrações digitais cria uma sobrecarga cognitiva praticamente constante. E essa sobrecarga fatiga o domínio de si mesmo.
Digam adeus à decisão de fazer dieta. Perdidos no mundo digital, esticamos distraidamente a mão para as batatas fritas.
A distorção de baixo para cima
Um inquérito a psicólogos perguntava-lhes se haveria alguma «coisa irritante»
que não compreendessem acerca de si próprios[40].
Um deles disse que durante duas décadas estudara como o mau tempo faz com que a vida pareça sombria às pessoas, a menos que tomem consciência de como esse mau tempo faz piorar a disposição — mas que, mesmo apesar de compreender tudo isso um céu sombrio o fazia sentir-se mal.
Outro mostrava-se perplexo com a sua própria compulsão para escrever artigos que mostravam como algumas investigações mal conduzidas e como continua a fazê-lo, apesar de nenhun dos investigadores relevantes lhe dar grande atenção.
E um terceiro disse que, embora tivesse estudado o «preconceito masculino de uma exagerada percepção de carácter sexual» — a interpretação errada de que a amizade de uma mulher significa interesse romântico continuava a sucumbir ao preconceito.
A rede de circuitos de baixo para cima aprende vorazmente — e silenciosamente e aprende ao longo do dia. Esta aprendizagem implícita não precisa de alguma vez entrar na nossa cons ciência, apesar de, contudo, agir como um leme, para o melhor e para o pior.
O sistema automático funciona bem durante a maior parte do tempo: sabemos o que se passa e o que havemos de fazer t conseguimos serpentear bastante bem por entre as exigências dc dia, enquanto pensamos noutras coisas. Mas este sistema também tem pontos fracos: as nossas emoções e as nossas intenções crian distorções e enviesamentos na nossa atenção que, em geral, nãc notamos, e não notamos que não notamos.
Por exemplo, a ansiedade social. Em geral, as pessoas ansiosas fixam-se em qualquer coisa mesmo vagamente ameaçadora: os indivíduos socialmente ansiosos identificam compulsivamente o mínimo sinal de rejeição, como a expressão fugidia de repulsa no rosto de alguém — um reflexo do seu habitual pressuposto de que são falhados sociais. A maior parte desta transação emocional passa-se fora da consciência, levando as pessoas a evitar situações em que poderiam ficar ansiosas.
Um método engenhoso de remediar esta distorção de baixo para cima é tão subtil que as pessoas não fazem ideia de que os seus padrões de atenção estão a ser religados (tal como não fizeram ideia de que a ligação se estava a processar quando a adquiriram pela primeira vez). Chama-se «modificação do enviesamento cognitivo», e é uma terapia invisível que consiste em pôr os indivíduos que sofrem de ansiedade social extrema a olhar para fotografias de uma audiência, por exemplo — enquanto se lhes pede que assinalem quando surgem padrões de luzes a brilhar, carregando num botão o mais depressa que
conseguirem[41].
Os lampejos nunca surgem na área das fotografias que são ameaçadoras, como rostos franzidos. A intervenção mantém-se oculta, não entrando na sua consciência. Porém, ao fim de várias sessões, a rede de circuitos de baixo para cima aprende, com base nos padrões, a dirigir a atenção para indícios não ameaçadores. Apesar de as pessoas submetidas à terapia não fazerem ideia da
subtil padronização da atenção, a sua ansiedade em situações sociais diminui[42].
Trata-se de um uso benigno dessa rede de circuitos. Depois, há a publicidade. As táticas já velhas de conseguir captar a atenção num mercado saturado — com o que é novo, melhorado, surpreendente — continuam a funcionar. Mas uma mini-indústria de estudos sobre o cérebro ao serviço do marketing conduziu a táticas baseadas na manipulação da nossa mente inconsciente. Um desses estudos descobriu, por exemplo, que se mostrarmos às pessoas produtos de luxo, ou se as levarmos a pensar nesses produtos, elas
tornam-se mais centradas em si mesmas nas decisões que tomam[43].
Uma das áreas mais ativas da pesquisa sobre a escolha inconsciente centra-se naquilo que nos leva a agarrar em determinado produto quando andamos às compras. Os especialistas em marketing querem conhecer a forma de mobilizar o nosso cérebro de baixo para cima.
A pesquisa em marketing descobriu, por exemplo, que quando se mostra uma bebida às pessoas juntamente com rostos felizes que passam pelo ecrã demasiado depressa para serem registados conscientemente — mas, apesar disso, notados pelos sistemas de baixo para cima —, elas bebem mais do que quando essas imagens rápidas são de rostos zangados.
Um exame de investigações deste tipo conclui que as pessoas estão «maciçamente inconscientes» destas subtis forças de marketing, apesar de estas
moldarem a forma como compramos[44]. A consciência de baixo para cima torna-nos permeáveis às influências externas mediante determinações subconscientes.
A vida, hoje em dia, parece governada, num grau preocupante, pelo impulso; um dilúvio de anúncios incita-nos, de baixo para cima, a desejar uma infinitude de coisas e a gastar hoje sem pensarmos em como iremos pagar amanhã. O reinado do impulso, para muitas pessoas, vai para lá dos gastos e do endividamento excessivos, até ao comer excessivo e outros hábitos aditivos, desde empanturrar-se com doces até passar horas infindáveis a olhar para esta ou aquela variedade de ecrã digital.
Seqüestro dos neurônios
Quando o leitor entra no gabinete de alguém, em que repara primeiro? Isso é um indício daquilo que comanda o seu foco de baixo para cima nesse momento. Se for movido por um objetivo de carácter financeiro, poderá captar de imediato um gráfico de lucros no ecrã do computador. Se sofrer de aracnofobia, fixar-se-á na teia poeirenta ao canto da janela.
Trata-se de escolhas subconscientes no que diz respeito à atenção. Esta captura da atenção ocorre quando a rede de circuitos da amígdala, a sentinela do cérebro para o significado emocional, localiza algo que considera significativo; aranhas, rostos zangados e bebés dão-nos uma ideia dos cenários do cérebro para
esse interesse instintivo[45]. O dispositivo do cérebro médio do sistema de baixo para cima reage muito mais depressa em tempo neuronal do que a área pré-frontal de cima para baixo, enviando sinais para cima a fim de ativar as vias corticais superiores que alertam os centros executivos (relativamente) preguiçosos para acordarem e prestarem atenção.
Os mecanismos de atenção do nosso cérebro evoluíram durante centenas de milhares de anos para sobreviverem numa selva de dentes e garras, onde as ameaças se aproximavam dos nossos antepassados dentro de um domínio visual específico e de uma série de velocidades — algures entre a estocada de uma cobra e a rapidez de um tigre a saltar. Aqueles de entre os nossos antepassados cuja amígdala era suficientemente rápida para os ajudar a desviar-se dessa cobra e a fugir desse tigre passaram-nos esse modelo neuronal.
As cobras e as aranhas, dois animais a que o cérebro humano parece determinado a reagir com alarme, capturam a atenção mesmo quando as suas imagens passam tão depressa que não temos percepção consciente de as ter visto. Os circuitos de baixo para cima localizam-nas mais rapidamente do que os objetos neutros e enviam um alarme (passar muito rapidamente estas imagens em frente de um especialista em cobras ou aranhas capturar-lhe-á a atenção —
mas não haverá sinal de alarme)[46].
É impossível para o cérebro ignorar rostos que revelam emoções, em
particular rostos zangados[47]. Os rostos zangados destacam-se: observe-se uma multidão, e alguém com um rosto zangado sobressairá de imediato. O cérebro inferior será mesmo capaz de localizar uma figura animada com sobrancelhas em V (como os miúdos do South Park) mais rapidamente do que capta um rosto feliz.
Estamos programados para prestar atenção reflexiva a «estímulos supernormais», quer digam respeito a segurança, nutrição ou sexo — tal como um gato que não consegue evitar perseguir um rato de fingir atado a um cordel. No mundo de hoje, os anúncios que jogam com essas mesmas inclinações pré-programadas puxam-nos também de baixo para cima, captando a nossa atenção reflexiva. Basta associar sexo ou prestígio a um produto para ativar estes mesmos circuitos, incitando-nos a comprar por razões em que nem sequer reparamos.
As nossas tendências particulares tornam-nos ainda mais vulneráveis. Os alcoólicos são acicatados pelos anúncios de vodca, os libidinosos pelas pessoas sexys que surgem na publicidade a umas férias de fim de semana.
Trata-se de atenção pré-selecionada de baixo para cima; esta captura vinda de baixo dos nossos circuitos neuronais para o foco é uma escolha automática e involuntária. Somos mais propensos a emoções que conduzem o foco desta maneira quando as nossas mentes divagam, quando estamos distraídos, ou quando somos inundados por informação — ou as três coisas ao mesmo tempo.
Além disso, há as emoções desgovernadas. Ontem mesmo, estava eu a escrever esta secção, sentado ao computador, quando, vindo do nada, tive um ataque imobilizador de dores na região inferior das costas. Talvez não tivesse vindo do nada: viera a crescer continuamente desde manhã. Mas naquele momento percorreu-me de súbito o corpo, desde a área inferior da espinha até aos centros da dor no cérebro.
Quando tentei pôr-me de pé, a pontada de dor foi tão grande que caí de novo na cadeira, desamparado. Pior ainda, a minha mente começou a pensar no pior que poderia acontecer: vou ficar inválido para o resto da vida, vou ter constantemente de tomar injeções de esteroides... e essa linha de pensamento levou a minha aterrorizada mente a recordar que um fungo numa unidade de armazenamento mal gerida levara à morte com meningite de 27 pacientes que tinham tomado exatamente essas injeções.
Acontece que eu acabara de apagar um bloco de texto sobre um assunto relacionado com este, que tencionava abordar aqui neste livro. Mas, com a minha atenção prisioneira da dor e da preocupação, esqueci-me completamente dele — e, assim, desapareceu num buraco negro. Quando as emoções fortes nos invadem, conduzem o nosso foco, fixando-nos naquilo que tanto nos preocupa e esquecendo o resto.
Tais sequestros emocionais são desencadeados pela amígdala, o radar do cérebro para as ameaças, o qual perscruta constantemente o nosso meio ambiente à procura de perigos. Quando estes circuitos localizam uma ameaça (ou aquilo que tomam por uma ameaça — há com frequência erros), uma superautoestrada de redes de circuitos neuronais correndo para cima em direção às áreas pré-frontais envia um fogo de barragem de sinais que deixam que o cérebro inferior conduza o superior: a nossa atenção estreita-se, colada àquilo que nos transtorna; a nossa memória recombina-se, tornando mais fácil recordar tudo o que seja relevante para a ameaça em questão; o nosso corpo prepara-se para arrancar, enquanto um dilúvio de hormonas da tensão prepara os nossos membros para lutar ou fugir.
Quanto mais forte for a emoção, maior a nossa fixação. Os sequestros são a supercola da atenção. Mas a questão é a seguinte: quanto tempo se mantém o nosso foco prisioneiro? Isso depende, afinal, do poder da área pré-frontal esquerda para acalmar a amígdala estimulada.
Essa superautoestrada desde a amígdala até à área pré-frontal tem ramificações; uma delas corre até ao lado pré-frontal esquerdo; outra, para a direita. Quando somos seqüestrados, a rede de circuitos da amígdala captura o lado direito e assume o comando. Mas o lado esquerdo pode enviar sinais para baixo que acalmem o seqüestro.
A capacidade de recuperação emocional resume-se à rapidez com que recuperamos dos transtornos. As pessoas com elevada capacidade de recuperação podem chegar a ter trinta vezes mais ativação na área pré-frontal
esquerda do que as outras pessoas[48]. As boas notícias é que, como veremos na quinta parte, podemos aumentar o poder tranquilizador da amígdala por via da rede de circuitos pré-frontal esquerda.
A vida em modo automático
Eu e um amigo meu estamos embrenhados na conversa num movimentado restaurante, na fase final do almoço. Ele está absorvido no que está a dizer, relatando-me um momento particularmente intenso por que passou há pouco tempo.
Tão embrenhado está que ainda não acabou a comida. O meu prato já foi levantado há algum tempo.
Nessa altura, o empregado dirige-se à nossa mesa e pergunta-lhe: «Está a gostar do almoço?»
Ele mal o nota e resmunga, despachando-o, «Não, ainda não», prosseguindo com a sua história sem perder o ritmo.
A resposta do meu amigo, claro, não foi àquilo que o empregado de facto lhe perguntou, mas antes àquilo que os empregados habitualmente perguntam nesse ponto da refeição: «Já terminou?»
Esse pequeno erro tipifica a parte negativa da vida vivida de baixo para cima, em modo automático: falhamos o momento quando ele chega de facto até nós, reagindo em vez disso a um padrão fixo de assunções acerca daquilo que se passa. E perdemos o carácter engraçado do momento:
Empregado: «Está a gostar do almoço?»
Cliente: «Não, ainda não.»
Dantes, quando havia com frequência longas filas, em muitos escritórios, para as pessoas usarem a fotocopiadora, a psicóloga Ellen Langer pedia a alguém que fosse até ao princípio da fila e dissesse simplesmente: «Tenho de tirar algumas fotocópias.»
Claro que todas as outras pessoas na fila também lá estavam para tirar fotocópias. Contudo, mais de metade das vezes, a pessoa que estava à frente da fila deixava-as passar à frente. Isso, diz Langer, exemplifica a mente ausente, em modo automático. Uma atenção ativa, em contrapartida, poderia levar a pessoa à frente da fila a questionar se haveria de facto alguma necessidade urgente que privilegiasse aquelas fotocópias.
O empenho ativo da atenção significa atividade de cima para baixo, antídoto para o atravessar os dias no modo automático de um morto-vivo. Podemos retorquir aos vendedores, mantermo-nos alerta àquilo que se passa à nossa volta, questionar as rotinas automáticas ou melhorá-las. Esta atenção focada, frequentemente orientada segundo objetivos, inibe os hábitos mentais
descuidados. E um foco ativo[49].
Portanto, embora as emoções possam conduzir a nossa atenção, com esforço ativo podemos também gerir as emoções de cima para baixo. Nessa altura, as áreas pré-frontais ganham o domínio da amígdala, baixando-lhe a potência. Um rosto zangado, ou mesmo aquele bebé tão engraçado, poderão não ser capazes de captar a nossa atenção quando os circuitos para o domínio de cima para baixo da atenção dominam as escolhas do cérebro acerca daquilo em que deveremos ocupar-nos, ou que devemos ignorar.